F for Fake

Rachel Dolezal aos 37 anos

Alguns documentários na netflix fazem a gente pensar. Bem alguns.

(Vocês sabem, não boicotei a netflix por causa do José Padilha, não faria isso logo por esse canalha, caramba!).

E assisti hoje àquele sobre a Rachel Dolezal.

Me senti impactada, digamos…

Ela é aquela branca americana que se fez passar por negra e impressionou os negros por sua liderança pelos direitos civis, pioneira do Black Lives Matter.

Depois, a máscara de seu “enegrecimento” se desmancha e a comunidade negra cai de pau em cima dela. Fraude mais evidente que esta não há, declara Whoopi Goldberg no programa de mulheres The View.

Mas a questão é que, neste doc, Rachel evoca uma explicação direta para seu comportamento. Ela levanta uma questão identitária para si.

O filme, disponível na netflix

Ela se diz trans-racial. Uma trans não de gênero, mas de raça. Alguém que nasceu negra num corpo branco.

Tipo o Steve Martin do filme “O Panaca” (The Jerk, 1979), que, criado por negros, se acha um, mas sua cor vai por terra quando ele ouve a música dos brancos e decide… dançar.

Podemos ser trans de gênero mas não de raça? Podemos nos transmutar em mulheres sem saber o que ser mulher significa? Podemos ser negros sem que tenhamos experimentado o horror decorrente da rejeição à simples cor de nossa pele?

Jovem de ascendência checa e alemã

A jovem nasceu loira de olhos azuis, de pais abusadores, em uma cidade supremacista dos Estados Unidos. Os pais adotaram filhos negros. E os maltrataram, especialmente uma menina, abusada sexualmente pelo irmão branco.

Os pais usavam chicote pra castigar a menina negra. E não aceitaram quando ela pretendeu denunciar o irmão violador.

Rachel, alma de artista, com a interpretação (entendida como fraude) no sangue, fugiu desse lar opressor. Casou-se com um negro infelizmente opressor também; teve um filho, depois outro.

E no fim acolheu a irmã violentada. E resolveu inventar que tinha sido abusada pelo irmão pra ajudar a irmã a denunciá-lo.

Os pais se revoltaram e a revelaram como branca justamente quando mais sucesso ela fazia entre os negros sob sua liderança.

O documentário de Laura Brownson, de 2018, visita sua vida arrasada. Ela é uma mulher culta, formada em estudos transculturais, mas só lhe sobram os penteados negros pra fazer.

Ela não tem dinheiro, mas dois filhos. Torna-se mãe do irmão negro mais novo, que havia sido adotado pelos pais, e ele está com 17 anos. Outro seu filho biológico chegou aos 13. E ela, aos 37, espera um terceiro.

Rachel e o filho Franklin

Ninguém a entende. Os jornalistas a sacaneiam o tempo todo (esta parte eu entendi bem). Ela decide escrever sua biografia. Vende 500 exemplares. Ataques por todos os lados.

Ela não pode fazer nada. O filho de 13 nem a suporta mais. Rachel não abdica de ser negra. Seu filho de 17 preferiu a Espanha.

Quem é Rachel?

Às vezes durante o documentário me vinha a imagem do escritor Gustave Flaubert no tribunal, a defender o personagem de Madame Bovary. E eu dizia a mim mesma, não pela questão racial, mas pelo modo que me sinto no mundo, sem pares, sem concordância, mas inexplicavelmente insistente em viver: “Rachel sou eu.”

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