Em 1988, depois de o cineasta sueco considerar que talvez jamais voltasse a filmar, o diretor japonês lhe fez um apelo


Em julho de 1988, o cineasta sueco Ingmar Bergman completou 70 anos. E em um gesto que parecia conclusivo, publicou suas memórias no livro “A Lanterna Mágica”, onde afirmou: “Lamento o fato de provavelmente não fazer mais filmes”.
Em resposta a esta última afirmação, outro cineasta, o japonês Akira Kurosawa, enviou-lhe uma carta onde questionava este possível abandono e partilhava com Bergman algumas razões pelas quais acreditava ser preciso pensar duas vezes antes de deixar a sua carreira cinematográfica para trás.
A carta de Kurosawa:

“Prezado Sr. Bergman,
Por favor, deixe-me parabenizá-lo por seu septuagésimo aniversário.
Seu trabalho toca profundamente meu coração cada vez que o vejo. Aprendi muito com suas obras. Elas me incentivaram. E eu gostaria que permanecesse com boa saúde para criar mais filmes maravilhosos para nós.
No Japão, houve um grande artista chamado Tessai Tomioka, que viveu na Era Meiji (final do século XIX). Ele pintou muitos quadros excelentes ainda jovem e, aos 80 anos, de repente começou a realizar obras muito superiores às antigas, como se estivesse em magnífica floração. Cada vez que vejo suas pinturas, percebo com clareza que um ser humano não é capaz de criar obras realmente boas até chegar aos 80 anos.
Um homem nasce bebê, vira menino, passa pela juventude, o auge da vida e finalmente volta a ser bebê antes de encerrar sua existência. Este é, na minha opinião, o modo de vida ideal.
Possivelmente o senhor concordaria que um ser humano se torna capaz de produzir obras puras, sem quaisquer restrições, nos dias de sua segunda infância.
Tenho agora 77 anos e estou convencido de que meu verdadeiro trabalho está apenas começando.
Vamos resistir juntos pelo bem do cinema.
Com os mais calorosos cumprimentos,
AKIRA KUROSAWA”
(Kurosawa lançou seu último longa, “Madadayo”, em 1993, aos 83 anos. Bergman lançou seu último longa, “Sarabanda”, em 2003, aos 85 anos.)

O pintor Tessai Tomioka (1837-1924)


“Duas divindades” e “Montanhas dos imortais”, obras que Tomioka realizou em 1924, ano de sua morte, aos 87 anos
Obrigado, Tomioka, Kurosawa, Bergman e Pavam. Suas obras sempre me inspiraram, e esta carta, em particular, me serve de alento e me enche de esperança.
CurtirCurtido por 1 pessoa