Judy Holliday, viva!

Descubro que a amada Judy Holliday faria 100 anos. Que revista cultural comemoraria seu centenário, exceto a minha? 😉

Acima, Holliday com Broderick Crawford na melhor sequência de “Nascida Ontem”, de George Cukor, 1950.

O papel lhe deu o Oscar, aliás, por cima de Bette Davis, Anne Baxter, Gloria Swanson e Eleanor Parker…

Mas ela não pôde estar presente à cerimônia, conduzida por ninguém menos que Fred Astaire.

E ficou um bom tempo sem filmar, por conta da caça às bruxas nos EUA.

Seu QI era 172.

Ela se casou com Gerry Mulligan. Gravou um disco cantando com ele.

E morreu aos 43, vítima de um câncer no seio.

Viva, viva você!

Vivinha, a dama, o riso

Estive com Eva Wilma em 2008. Vivinha tinha então 75 anos, era sorridente, engordara uns quilos e usava vestido verde. O verde me perturbou. Eu só pensava em meu pai, que disse ter chamado a atenção dela na juventude ao usar um terno de mesma cor. A atriz achou a história estranha e justamente dela não riu, se bem me lembro. Me atrapalhei. Eva, que morreu agora como consequência de um câncer, emanava poder. Declamava Millôr de cor e naquela ocasião me contou que escrevia um diário sem pensar em publicá-lo. Ser atriz, disse-me ela, que sonhou em se tornar bailarina, não representava um chamado quando optou pela carreira: “O chamado era a época”

Eva Wilma, culta, brilhante,
transformou em bordão a fala
de uma amiga pernambucana:
“Thank you very much, viu, bichinho?”

A DAMA QUE RI

 

A atriz Eva Wilma revê uma carreira vitoriosa, marcada pelo humor

 

Por Rosane Pavam

 

Diante desta Eva que é o princípio, um interlocutor pode se sentir perto do fim. A história de Eva Wilma, que fez grande carreira no teatro, na televisão e no cinema, intimida quem a analisa. Acontece, contudo, de a personalidade de Eva distanciar-se da altivez. Ela ainda assanha os olhos, delineados a lápis, na direção de quem a observa. Sobretudo, depois de 55 anos como atriz, usa uma arma incomum para quem é dama. O humor.

 

Fazer rir não parece permitido às mulheres bonitas. Eva Wilma contrariou a interdição. Foi uma das mais belas desde a fundação da televisão no Brasil, em 1950, mas manteve o pé no riso, a seu ver um instrumento reflexivo. Integrante do Balé do IV Centenário, ela não começou como atriz. Em sua primeira aparição na tevê, em 1953, compartilhou com o primeiro marido, John Herbert, historinhas diferentes sobre o encontro de um homem e uma mulher na sitcom Alô Doçura. O humor apareceu nos dez anos em que a série durou.

 

Não que Eva Wilma tenha se sentido predestinada a ser atriz. Teria sido bailarina se houvesse aparecido a chance real. Seu pai, o alemão Otto Riefle Jr., perdera o emprego em 1929, sem jamais se recuperar financeiramente depois, e Eva não tinha irmãos com quem contar.

 

“O chamado era a época”, ela avalia hoje. Quem a convidava simultaneamente a interpretar eram Luciano Salce, da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, José Renato, do Teatro de Arena, e, na tevê, o apelo era de Cassiano Gabus Mendes. Resistir aos três seria para rir. Como bailarina, ela aprendera que ou se debruçava sobre a barra ou não dançava direito. Para uma atriz, a barra equivalia ao estudo do personagem.

 

Ficou clássica a sua interpretação para Raquel, a gêmea má de Ruth na novela Mulheres de Areia, de Ivani Ribeiro, em 1973. Eva se transformava então na vil-má, qualificativos que ela lamentava haver em seu prenome, conforme contou à escritora Edla Van Steen na biografia ilustrada Arte e Vida (Imprensa Oficial). A maldade de Raquel, contudo, apegava-se ao cômico. Era bom ser gozadora e atraente. Raquel jogava a cabeça para trás, mostrava os dentes e brandia o revólver como se fosse um brinquedo. A boazinha Ruth usava lenço na cabeça, prendia o cabelo de lado com a presilha, rejeitava os óculos escuros e, principalmente, não gargalhava.

 

Tudo muito simples, mostrado desde o início como truque. Por desempenhar tão bem duas personalidades diferentes em Mulheres de Areia, seria natural que ganhasse o Troféu Imprensa, prêmio concedido aos melhores da tevê. Quem levou a láurea de melhor atriz naquele ano, contudo, foi Regina Duarte, que representara duas mulheres em uma (a menina pobre e tímida que passava a intrépida e rica) na novela Carinhoso.

 

Regina Duarte era já amiga de Eva Wilma à época. Conhecera a atriz garota, ao atuar com ela em Blackout, com direção teatral de Antunes Filho, em 1967. Regina declinou do prêmio em favor de Vivinha, como ela e os amigos ainda a chamam. O gesto se tornou comoção nacional naquele 1974. Eva Wilma assistia à cerimônia sentada no sofá de casa. “Surpresa como estava, só pude ligar para a Regina e lhe mandar flores.”

 

Na televisão, acredita a atriz, é raro haver este espaço para exercer a ironia, à moda do que ela fez em Mulheres de Areia. “Como não temos tempo para nada, estudo ou concentração, e nos aquecemos na tapadeira, atrás do cenário, ainda por cima falando sozinhos, não deixamos passar a oportunidade da ironia quando ela surge. Ser irônico, neste caso, equivale a comentar toda a situação.” A história se repetiu de certa forma anos depois, em 1996, quando ela se deliciou ao interpretar Maria Altiva Pedreira de Mendonça e Albuquerque em A Indomada, de Aguinaldo Silva, e improvisar o bordão da vilã, aprendido com uma amiga pernambucana: “Thank you very much, viu, bichinho?”

 

Agora que Eva Wilma, aos 75 anos, surge para uma leitura de textos representativos de sua carreira, costurados por ela e pelo autor Antonio Gilberto, em Um Brinde ao Teatro, dia 27, no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, e que reestréia em São Luís a peça O Manifesto, de Brian Clark, agora na companhia do ator Pedro de Camargo, esta passagem que ela faz como poucos, do drama ao humor, e do humor ao drama, vai estar mais clara para o espectador.

 

Eva estudou para ser ambígua, para colocar algo de seu na personalidade dramática de seus personagens. Quem primeiro a obrigou a isso foi Antunes Filho, diretor do policial Blackout, sucesso de público e crítica ao lado de Geraldo Del Rey e Stênio Garcia. Para compor a personagem frágil pela cegueira, e que de repente investia contra os bandidos com uma faca de cozinha, ela leu o capítulo sobre dialética do livro Princípios Fundamentais da Filosofia, de Georges Politzer. Eva apelidou o livro de “meu pequeno operário”.

 

Dois anos antes, o diretor Sergio Luis Person a convidara a São Paulo S.A., filme no qual a personalidade da protagonista era desenhada com idêntica surpresa. A Luíza simples parecia acreditar no futuro industrial de São Paulo, mas seus olhos indicavam que ela esperava o pior. Eva Wilma apenas diz que se divertiu muito com Person, e que o filme a levou a Acapulco, onde ocorria o Festival dos Festivais. Lá, ela encontrou o diretor espanhol Luis Buñuel, admirador da obra. O filme, que rendeu prêmios a Eva, já valera por este encontro.

 

“Começamos a crer, emocionados, que o mal nem sempre vence”, diz o prólogo que Millôr Fernandes escreveu para Antígone, de Sófocles, e que Eva declama no saguão de um prédio paulistano. No edifício ela comprou um apartamento há quase três décadas, por iniciativa de seu segundo marido, o ator e diretor Carlos Zara, morto em 2002 de um câncer no esôfago. Eva ainda se emociona quando fala deste homem que ela amava e que sabia sempre por onde andar e o que fazer.

“O mais difícil da luta é escolher o lado em que lutar”, termina o prólogo de Millôr.

Eva, a segunda à esquerda, entre
Tônia Carreiro e Odete Lara, em passeata contra a censura, 1968:
“O mais difícil da luta é escolher o lado em que lutar”

Eva também gosta de escrever, à mão, em um diário que não imagina publicar. “Não acredito que já tenha realizado tudo o que gostaria de realizar. De alguma maneira a juventude me parece mais próxima do que quando eu era jovem”, ela escreve. De tudo lê um pouco, como os textos do mambembe Airton Salvanini. Agora, dedica-se a um novo esporte: “Arrumação, você conhece?” O site de buscas google a libertou do desperdício de materiais representado pelos volumes da Enciclopédia Britânica.

 

Riam, mas não brinquem, com a Eva Wilma ética que, algo defendida pela notoriedade, caminhou contra a censura em 1968, para não mais se intrometer na política de candidatos. E jamais façam como o diretor inglês Alfred Hitchcock, que a convidou a um teste, naquele ano fatídico, para participar do filme Topázio. Durante a análise, ele a provocou em inglês. Irritada, Eva Wilma argumentou que jamais conseguiria responder à provocação em língua que não fosse a portuguesa. “Pois responda na sua língua”, ele a desafiou. Eva então lhe falou tudo o que ele não poderia compreender. Não ganhou o pequeno papel, que passou a uma alemã, Karin Dor. Topázio não fez o sucesso esperado, mas, ainda assim, ela teria adorado estar nele. Neste caso, Eva riu por último, mas não riu melhor.

O pobre, aliado a seu algoz

Orson Welles em “A Ricota”, de Pasolini

– Pobre Stracci! Morrer foi a única maneira de se lembrar de que viveu.

Orson Welles em “A Ricota”, episódio de Pasolini em “Rogopag” (1963) no qual o estadunidense encena o diretor da “Paixão de Cristo” no set.

Welles diz a frase ao constatar que seu ator, representando o Bom Ladrão, morreu humilhado depois de comer exageradamente tudo o que não lhe havia sido permitido comer antes.

No filme, Pasolini faz o Bom Ladrão representar o pobre que vota em seus algozes e que enxerga na capacidade de passar fome sua verdadeira vocação.

Pasolini, sempre urgente para nós.

O Ladrão Bom, para quem a morte ressalta que viveu

Carnaval é preciso

Doris Day, cabelos hipnóticos, e Thelma Ritter, a incrível, em “Pillow Talk”, de 1959: embriagai-vos de comédia

Hoje só consegui suportar o dia com muita comédia nas veias.

Até revi “Pillow Talk” (1959), que continua gracioso por conta do Rock Hudson, da Doris Day, do Tony Randall e, principalmente, da sábia popular Thelma Ritter de sempre, desta vez embriagadíssima, que atriz incrível!

Amei o filme como o amava desde as Sessões da Tarde, apesar de hoje constatar ali mais uma repetição do destino urdido à mulher desde os anos 1930 e do furibundo código Hays. O casamento como único caminho para a felicidade feminina! O casamento como fim, o fim!

Apesar disso tudo, aprecio no filme outras coisas, os efeitos cômicos de surpresa, a intensa preparação corporal dos atores, seus olhos que crescem, os cabelos hipnóticos, suas máscaras que nos movimentam até um éden momentâneo.

Doris e Rock Hudson: o casamento como fim, o fim!

Meu caçula, um feminista, riu comigo de muitas passagens picantes-inocentes que furavam a censura pelos diálogos dúbios.

A comédia é uma pulsão de cura. Comediantes, a quem sempre se atribui menos, são natos, e eu os louvo em sua eternidade.

E preciso de mais!

John Cleese, participação especialíssima em “Will and Grace”

Na linha de “Pillow Talk”, vou esgotando os episódios da já tão anacrônica série de tevê “Will and Grace” (1998-2006), com sua mistura de Doris e Rock, Lucille Ball e Desi Arnaz, de Thelma Ritter e Mary Tyler Moore, de Jerry Seinfeld e o escambau.

Preciso de humor, de festa da carne, de carnaval. E “Will and Grace” já me tirou de poços profundos…

Carnaval ou Morte! – digo então ao apontar para esta senhora que atualmente é a mais deselegante representação do Brasil.

Cinema puro

Rouben Mamoulian, diretor dos contrastes, entre o ligeiro e o sombrio, reflete em “O Cântico dos Cânticos”, com Marlene Dietrich, sobre o espaço designado à mulher

Morre-se de amor pelo cinema ao ver um filme de Rouben Mamoulian. Cinema em sua complexidade dramática, visual e sombria.

O diretor de origem armênia nascido no império russo, belo fisicamente, forte artisticamente, irônico e bem-humorado, dá a seus atores o tempero das falas e os gestos realistas num cenário de pompa. Os contrastes constantes e vívidos embelezam o simples e trazem a dificuldade (o não-dito, o que é só sentimento) ao nível do palpável, do chão.

O diretor Mamoulian e
Marlene Dietrich no set de
“O Cântico dos Cânticos”

Qualquer beleza fílmica acaso haveria sido maior do que esta, ainda mais se a tivéssemos presenciado numa sala de cinema daquele tempo, onde os veludos do aconchego se cruzavam com os ratos nos banheiros?

Em “O Cântico dos Cânticos”, de 1933, que a Colecione Clássicos disponibiliza através da caixa “Cinema Pré-Code”, vemos uma amostra desse cinema comercial hollywoodiano ainda livre, pleno de graça e ardor. O cinema como ele foi antes que o Código Hays, em 1934, passasse a controlar (e isto até as quatro décadas seguintes) as produções cinematográficas dos Estados Unidos, dificultando que a vida real – libidinosa, homossexual, política – se visse representada pelo drama.

A menina do interior
terá de se despir para Berlim

Nesse filme de 1933, por exemplo, um condutor de charrete adentra o quadro num pulo e pulamos nós espectadores com ele também, surpresos porque até então somente os cavalos assomavam junto ao portão. Cinema!

A escultura é mostrada desde sua giacomettiana fundação, e nos refestelamos de suspense pela figura que vai surgir. Cinema também!

O campo florido está repleto de grama e Lily Czepanek (Marlene Dietrich) enfia sua cabeça nela, explicando ao amante que dali sai o cheiro da vida. Cinema, sim!

O chão que nos protege

E os diálogos simples e diretos, humorados, dos atores? E os olhos grandes de Dietrich, sua fala doce e suas muitas faces, da menina ingênua no cemitério até chegar à baronesa e à mulher dissoluta? Que percurso para uma atriz, que cinema puro!

O escultor Richard Waldow
(Brian Aherne) e sua modelo
Lily Czepanek (Marlene Dietrich)

A trama é dos Novecentos. Um escultor pobre, Richard Waldow
(Brian Aherne), busca a obra de arte perfeita, até porque um barão já pagou por ela. A jovem órfã Lily carrega sua Bíblia para Berlim porque está atrás do amor. Os dois se encontrarão, e rapidamente, porque Mamoulian sabe com quem fala, leitores de folhetim arrastados ao cinema no domingo. É de romance que todos precisam.

Diante do espelho, ou será da cruz?

Então que não se perca tempo demais com isso: está claro que Dietrich se transformará na principal obra do escultor. Mas não só dele, visto que todos quererão moldá-la à sua semelhança no filme. Claro que o amor virá em um ponto luminoso e será chamuscado, talvez perdido pela jovem, que logo envelhecerá suas expectativas.

De início ela vai trabalhar na livraria da tia (e até o folhear dos volumes, nesse ambiente, insinua uma outra intenção) porque seu pai, com quem morava no campo, morreu. De cara, a velha a faz ver que tudo na bela sobrinha está inapropriado à cidade. Ela chega encapada por camadas de saias e anáguas na inversa proporção do que Berlim exige – a “nudez” de seus habitantes, ou seu pragmatismo, submissão, entrega absoluta. (Não será por acaso que no ano em que se faz o filme Hitler sobe ao poder na Alemanha.)

Numa sequência herdeira da época silenciosa, Dietrich tira a primeira saia, depois mais outra e outras, até deitar na cama para dormir. É um trabalho preciso na sua feitura cômica e igualmente sinalizador de uma proposição: o novo cinema deve se desfazer de suas camadas de apetrechos inúteis, de empolação. (Do que mais se fala nas entrelinhas de “O Cântico dos Cânticos”, aliás, é do cinema em si.)

Como posse do barão
Von Merzbach (Lionel Atwill)

Dietrich vai assim tirando as anáguas até o osso do seu corpo – ao contrário do que fará o escultor depois, ao “vesti-la” com a carne de sua argila, por vezes moldando-a como quem a aperta para o amor. Muito erotismo silencioso e insinuado será feito essencialmente a partir daí, da troca de olhares que resultará em sorrisos entremeados pelo desafio.

O caminho da dissolução,
o mesmo onde a mulher poderá encontrar a liberdade

Principalmente, a essência deste filme que tão bem repercute sua era cinematográfica está na localização do espaço delimitado onde será possível obter a liberdade feminina. E que espaço sombrio, esse! Impor-se a ele, em resumo, é fazer um caminho indignado porém sorridente, “queer”, em que a mulher incorporará a dissolução para dela se servir, como quem veste um colar.

Sirk sem palavras

Extraí esta foto de “Hino de uma Consciência”, de Douglas Sirk, na desesperada tentativa de reter um pouco da sequência deste filme de 1957 em que órfãos coreanos (os atores eram realmente órfãos coreanos) escapam para a “liberdade”.

Amo tudo o que fez este cineasta alemão amigo de Brecht, que começou no teatro e fugiu de seu país para os EUA porque a esposa era uma judia sob Hitler.

E quando digo amo é porque amo mesmo tudo, desde o mais insignificante, tolo, americanista e carola de seus filmes, até os clássicos que mais me interessam, os que movimentam os sentimentos para bem localizá-los em nós.

Não é tanto um cinema de palavras o deste diretor formado com o mudo.

Ele mais sugere que entrega.

E é cinema, só.

Navegar é preciso

Takashi Shimura em “Viver”,
de Akira Kurosawa, 1952

A gente precisa ter muito carinho pelas pessoas num momento como este. Num post anterior disse que pouco me ficou da Folha além da amizade prolongada e cúmplice com o Renato Pompeu. Mas fui injusta. Tenho amigos vindos de lá ainda, que reencontrei no face. E que são pessoas incríveis.

Eu falava de uma cumplicidade que só tinha mesmo com o Renato. Uma visão ampliada do caos, da indignidade que era a vida naquele jornal.

De resto, queria dizer que o facebook traz mesmo pessoas mais perto de nós. É muito bom conhecer gente cheia de experiências tão novas, e com alguma proximidade. Mas, é claro, temos de ter cuidado com isso também. Ou eu preciso. Às vezes me empolgo demais e me decepciono. Como na vida, certo?

Viver! “Viver” que é um filme de Kurosawa, finalmente conhecido por mim ontem, a nos trazer com tanta intensidade o sentido do tempo. A um minuto antes do fim, ainda podemos fazer algo que mude nossa direção nessa barca da vida que vai dar em nada.

Vejam! Por mim!

Minha entrevista com Jean-Claude Carrière

Em novembro de 2009 tive o prazer de entrevistar o grande escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, numa reportagem publicada em revista brasileira da qual não digo o nome.

Eu havia tentado encontrá-lo no telefone de sua residência, a mim fornecido pela editora que publicava um de seus livros, mas me foi impossível encontrá-lo. Ele nunca se lembrava que precisava ser entrevistado por uma pobre jornalista brasileira, e portanto jamais estava em casa na hora combinada.

Joguei então a toalha, como se diz, mas lancei uma última mensagem pela garrafa, enviando-lhe as perguntas por e-mail.

E não é que ele as respondeu?

Às dúvidas que eventualmente tive, ele acrescentou mais respostas.

Tratou-se então de uma conversa, no fim das contas…

Aqui vai o texto que escrevi e que publico nesta tristíssima ocasião da morte deste grande artista enquanto dormia, aos 89 anos.

Grande Carrière, pelo muito que nos deu, obrigada!

Jean-Claude Carrière em 2016,
na estreia da sua peça ‘As Palavras e a Coisa’ em Madri.
Foto de CLAUDIO ÁLVAREZ,
para o El País

FÉ NA PALAVRA

Jean-Claude Carrière fala de sua colaboração com Luis Buñuel, de seus romances e das lições aprendidas com o Oriente

POR ROSANE PAVAM

Aos 78 anos, o roteirista francês Jean-Claude Carrière não perdeu a fé na palavra, nem nas imagens que façam ampliar seu sentido. Mais exatamente, ele não declina de escrever, nem que para isso sirva ao cinema, a si mesmo ou à literatura no senso estrito. E Carrière é um grande escritor, paulatinamente transferido ao terreno de um novo romance visual, como este que a Cosacnaify lança em janeiro do ano que vem, depois de agora ter colocado nas livrarias uma reedição de sua co-autoria para a espetacular autobiografia do diretor Luis Buñuel, Meu Último Suspiro, de 1982. O prodígio recente de Carrière foi ter novelizado o filme-ícone de humor poético Meu Tio, que o diretor Jacques Tati concebeu há cinco décadas, curiosamente vazio de palavras.

“Para mim, reescrever um filme é sempre uma maneira de experimentar modos diferentes de escrita. Espero acrescentar alguma coisa a ele, como se lhe oferecesse um bônus”, ele diz em entrevista no dia 6 de novembro de 2009, véspera de sua viagem à Índia, onde o mexicano Juan-Carlos Rulfo filmará uma etapa da vida do célebre roteirista. “Foi uma decisão estranha a de Rulfo, esta de fazer minha biografia. De qualquer modo, um filme com este tema não poderia prescindir daquele país, para onde vou duas vezes ao ano, desde que roteirizei em 1989 o Mahabharata e me senti fascinado com a experiência. É algo sobre que ainda me debruço, em conferências, em toda parte.”

Na sua Índia imprescindível, ele estará acompanhado por “um bando de mexicanos loucos” que jamais esteve no país. “Promissor”, diz, bem-humorado e atencioso ao extremo, animado a dizer que já tem engatilhado um novo livro visual, com lançamento francês também em janeiro, e de título Mon Chèque. Será a história de um produtor de filmes com um cheque nas mãos, e que encontra muitas maneiras para não pagá-lo. 

Promissor? É o que ele espera, depois do enigma que cerca Os Fantasmas de Goya, filme nascido de um de seus romances, sobre o drama de uma musa do pintor injustamente acusada de heresia. Dirigido pelo experiente Milos Forman (Amadeus, Estranho no Ninho) e protagonizado por Natalie Portman, o filme fracassou em 2006, fato com que Carrière não se conforma, para não dizer que se enfurece ao encarar as objeções críticas à qualidade cinematográfica da obra.

“Milos e eu nunca entendemos o que aconteceu com o filme”, ele começa. “Ambos gostamos muito dele, outras pessoas também gostaram. E vemos que aos poucos se transforma em um filme cult.” Onde residiu o problema, eles não sabem dizer, já que entendem esta como parte de um grande mistério. “Alguns críticos disseram que concebemos um melodrama, como se não estivéssemos conscientes disso, como se fôssemos estúpidos, cegos e ignorantes”, ele se exalta. “Mas justamente durante a Revolução Francesa o melodrama foi inventado!”

Ele escreveu o livro ao mesmo tempo que Milos Forman o filmava. A ideia era desenvolver o drama no cinema e no romance a partir de um mesmo argumento inicial. “Há muitas diferenças entre os dois objetos, por exemplo em relação ao que acontece com o personagem Lorenzo [o inquisidor vivido por Javier Bardem] em Paris, e que não aparece no filme. Chegamos a uma certa amargura ao fim, mas não pudemos evitá-la.”

Nem sempre a dor acompanha o que ele escreve para tantos diretores. Em 1963 iniciou, aos 42 anos, uma parceria com o espanhol Luis Buñuel (1900-1983) que se estenderia até o final de sua vida no cinema, em 1979. “Eu não sou capaz de lhe dizer quais dos roteiros que fiz a ele me deu mais prazer”, diz, antecipando-se à questão universal proposta por seus entrevistadores. “Mas tenho um sentimento secreto por Esse Obscuro Objeto do Desejo, provavelmente por ter sido o último filme em que trabalhamos.”

Às vezes, ele diz, parece-lhe ainda ouvir a voz do amigo espanhol, que nunca escreveu uma só linha, nem tentou, e até detestava a própria letra sobre o papel. “O que teria sido dele em um outro tempo, antes da invenção do cinema?”, pergunta-se. Foi de Carrière a ideia de que escrevessem a autobiografia, já que, desde o início de sua cooperação, ele tomara várias notas sobre a vida de um dos maiores cineastas de todos os tempos e suas opiniões. 

De início o diretor recusou a proposta. Mas enquanto estavam no México Carrière decidiu redigir à revelia um dos capítulos, sobre os prazeres terrenos do diretor. Buñuel amou o que leu e lhe disse que era como se ele próprio tivesse proferido tais coisas. Os dois iniciaram a narrativa na casa mexicana do diretor. Conversavam pela manhã e Carrière escrevia sozinho, à tarde, coisas como esta: “Sou feito de meus erros e de minhas dúvidas, assim como de minhas certezas. Não sendo historiador, não recorri a nenhuma nota, a nenhum livro, e o retrato que proponho é, em todo caso, o meu, com minhas afirmações, hesitações, repetições e brancos, com minhas verdades e minhas mentiras; para resumir: minha memória.”

Parecia muito fácil trabalhar com Buñuel, que não era uma pessoa má, antes seu exato oposto, “generoso, tolerante e engraçado”. Ao mesmo tempo, tudo se revelava muito difícil de ser feito, justamente por se tratar de Buñuel. “Quando se está diante de alguém desse nível, é como se chegássemos à final dos Jogos Olímpicos. Não há nada acima, então é melhor estar na melhor forma para lidar com ele, dia e noite. Se você não estiver, ele notará imediatamente.” Carrière guarda a imagem de um homem solitário, meditativo, andando na floresta e contemplando os insetos. “E, claro, seus olhos olhando diretamente em minha direção por horas e horas todos os dias.”

As idas e vindas às terras dos budistas não alteraram um sentimento que o escritor compartilhou com o diretor espanhol. Jean-Claude Carrière se diz, como ele, um completo ateu. E acha que somente os apegados a esta básica descrença podem escrever de maneira confiável sobre os misticismos. “O que as religiões nos dizem sobre deuses, anjos ou demônios é pura fantasia. Isto tudo só interessa quando metaforicamente trata de nós mesmos, de nosso medos, esperanças, fracassos, fraquezas, daquilo que nos falta. A crença é sempre maior do que o conhecimento. É preciso saber disso ao escrever sobre religiões.” 

E o que os ensinamentos orientais lhe trouxeram, eis um outro mistério que ele não pretende definir. Sabe somente que seu poder de descrever as coisas por meio das palavras cresceu. “Encontrei um outro vocabulário, um novo modo de fazer as mesmas perguntas, às vezes encontrando, para elas, respostas diferentes.” No caso do budismo, aprendeu de que maneira se pode ser mais ecológico na relação com o mundo. Nada mais, e nada melhor.

Eu entendo a juventude transviada

Só faltou Luiz Melodia para tornar “Sem Arrependimentos”, na competição de novos da Mostra Internacional, mais ainda do que ele já é, o filme mais bonito de gênero desprezado a que pude assistir neste festival

Parvis (Benjamin Radijaipour): Sailor Moon, por justiça e por amor

“Sonhei que morríamos juntos”, diz o jovem Parvis a seu amor, Amon.

Você já ouviu alguém falar isto num filme? Ou mesmo sonhou isto? Eu não. Ou não me lembro.

“Sem Ressentimentos” (“No Hard Feelings”, ou “sem duros, pesados sentimentos”, no original, para que se entenda que o sexo é uma alusão direta presente na narrativa) diz esta e tantas outras coisas.

Transforma-se o filme num poema de despedida a cada frame inusual, raciocinado, mágico como o pensamento do iniciante diretor alemão Faraz Shariat, que sente ao imaginar o cinema, coisa em desuso franco.

Parvis, Banafshe (Banafshe Hourmazdi) e Amon (Eidin Jalali), em paraíso alemão

Um dos mais belos, senão o mais belo filme a que pude assistir entre as cabines virtuais concedidas gratuitamente a jornalistas cadastrados nesta 44 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

A história do filme é em parte a dele, diretor alemão de origem iraniana, incerto sobre se sua origem determina o que é. Parvis (Benjamin Radijaipour), protagonista com tanto de seu, exerce a liberdade como adolescente o quanto possível. Seus pais, migrantes iranianos de três décadas, construíram uma vida sólida em pais alheio, ali gerindo um supermercado, mas agora querem voltar ao Irã teocrático, onde aguardam Parvis a humilhação e a perseguição. Ele tem uma irmã mais velha, de quase trinta anos, alemã também.

Quando companhia é solidão

Todos na família sabem que Parvis é gay, queer, com os gestos sinuosos, a excitação nos braços e no mover da cabeça pintada de loiro no alto. Todos o amam sabidos disso, reverentes a isso, enfim.

Sua espécie de orixá é a deusa Sailor Moon, que na animação japonesa, ele diz, representa a justiça e o amor. Numa festa sem ânimo, ele veste este cosplay para que ao fim, em plena pista de automóveis no alvorecer, bêbado, desfaça sua fantasia, em quase alusão ao personagem de Alberto Sordi em “I Vitelloni”, filme em que Fellini analisa as dores de uma adolescência prolongada.

O fato é que Parvis fala um persa estranho, que ninguém no Irã ou do Irã entende, algo (mais um) que o desobriga a se sentir ligado ao país. Um dia, contudo, após cometer uma contravenção, ele passa a cumprir serviços comunitários num abrigo da Cruz Vermelha para migrantes de sua origem. Precisa dar assistência aos temporários em busca de residência fixa na Alemanha, precisa brincar com as crianças, recolocar uma rede de futebol sem entender o que é futebol, até mesmo traduzir o apelo de uma iraniana por permanecer no país, mas incapaz de compreender o que ela diz.

Não compreende e não é compreendido igualmente por todos no abrigo, exceto por Banafshe (Banafshe Hourmazdi), irmã de Amon (Eidin Jalali), que pouco a pouco o levará a seu amor. Os iranianos temporários são em vasta maioria homofóbicos por formação e pela violência.

Tudo isto vai se passando com a bela leitura visual dos corpos, gestos e rostos movidos num espaço particularizado mas alongado, enquanto as coisas do mundo, e o mundo, se tornam paisagem secundária.

É um filme sobre adolescência. Que coisa tão comum, não?

Pois… não.

O diretor alemão Faraz Shariat:
“Sem Ressentimentos” é seu primeiro longa

A fotografia de Simon Vu é extremada, cores e luminosidade se alteram para dar nitidez, passo a passo, à caracterização dos belos personagens. Novamente, quase: é quase como assistir ao caminho de Fritz Lang por Hollywood, quando a inventividade na composição se renovava quadro a quadro com o objetivo de contar uma história policial.

É o que Shariat, de 29 anos, consegue aqui, narrar uma trama de gênero adolescente desprezado. Mas uma história que de banal, nada tem. 

Amor, esse algo que a fotografia de Simon Vu capta tão bem

SEM RESSENTIMENTOS

Dir.: Faraz Shariat

Alemanha

2020   

92 min.   

https://mostraplay.mostra.org/film/sem-ressentimentos/

Quixote e Sancho contra o imperador Ming

“Caminhando contra o Vento”, na competição Novos Diretores da Mostra Internacional, mostra uma China corrupta, incapaz de apontar um bom futuro para sua juventude

Trapaça que resulta em prisão, favorecida por um sistema que admite propinas

Se o impedimento a toda e qualquer liberdade de expressão estivesse em vigência na China, a produção deste filme dificilmente teria se dado. “Caminhando contra o vento”, o primeiro longa-metragem de Wei Shujun, é tudo menos o elogio a um horizonte de excelência para a juventude do país. Naturalmente, seu final se aproxima de conciliar as coisas, mas o que importa está no meio da narrativa. No desajuste constante, acelerado, implacável, que parece o único possível a dois estudantes de sonoplastia cinematográfica.

Meu reino por uma SUV

A faculdade de cinema chinesa de nada serve a nossos protagonistas quixotecos às avessas, que atuam como em uma dupla cômica, fadada a seguidos tropeços. O menino magro tem um nome, Kun Zuo, que o liga à palavra “universo”, aqui em desencontro. Kun (interpretado por You Zhou) tem uma namorada adequada ao sistema, mas o jovem se julga em condição de vencê-lo pela trapaça aberta, sem o mínimo cálculo dos riscos. Ele compra até mesmo uma SUV de filtro quebrado, e por este erro se enreda. Seu amigo gordo, A Ming (Wang Xiaomu), tem-lhe toda a fidelidade, jocosa e sem noção. E o sistema rodoviário chinês não é uma maravilha: seus fiscais são facilmente corrompidos, como aqui.

Wei Shujun, diretor de “Caminhando contra o vento”

É a faculdade deles, sendo paga, o maior roubo das expectativas dos seus pais. Os alunos não a querem, e só aprendem enquanto trabalham por si, mesmo que atabalhoadamente. Em meio ao trabalho, aprontam tolices como dirigir bêbados, quando isto na China dá suspensão imediata de carteira e detenção de dez dias, ou roubam provas para revendê-las aos alunos em exame.

Contudo, as trapalhadas expostas não transformam este filme em comédia – por vezes, infelizmente, nem mesmo em bom filme. O diretor Wei Shujun, de 29 anos, insiste nas ondas de fracasso da dupla sem um alívio dramático, sem narrativa coesa, sem um ritmo que possa satisfazer até mesmo o espectador benevolente. A fotografia funciona, os atores não são ruins e a música que eles ouvem nos fornece informação sobre a vida na China. Principalmente, é útil para um ocidental saber que driblar um sistema corrupto dá em nada em qualquer lugar.

Uma dupla que talvez apontasse para a ação cômica

CAMINHANDO CONTRA O VENTO 

Dir.: Wei Shujun 

China

2020   

130 min.   

https://mostraplay.mostra.org/film/caminhando-contra-o-vento/