Eu entendo a juventude transviada

Só faltou Luiz Melodia para tornar “Sem Arrependimentos”, na competição de novos da Mostra Internacional, mais ainda do que ele já é, o filme mais bonito de gênero desprezado a que pude assistir neste festival

Parvis (Benjamin Radijaipour): Sailor Moon, por justiça e por amor

“Sonhei que morríamos juntos”, diz o jovem Parvis a seu amor, Amon.

Você já ouviu alguém falar isto num filme? Ou mesmo sonhou isto? Eu não. Ou não me lembro.

“Sem Ressentimentos” (“No Hard Feelings”, ou “sem duros, pesados sentimentos”, no original, para que se entenda que o sexo é uma alusão direta presente na narrativa) diz esta e tantas outras coisas.

Transforma-se o filme num poema de despedida a cada frame inusual, raciocinado, mágico como o pensamento do iniciante diretor alemão Faraz Shariat, que sente ao imaginar o cinema, coisa em desuso franco.

Parvis, Banafshe (Banafshe Hourmazdi) e Amon (Eidin Jalali), em paraíso alemão

Um dos mais belos, senão o mais belo filme a que pude assistir entre as cabines virtuais concedidas gratuitamente a jornalistas cadastrados nesta 44 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

A história do filme é em parte a dele, diretor alemão de origem iraniana, incerto sobre se sua origem determina o que é. Parvis (Benjamin Radijaipour), protagonista com tanto de seu, exerce a liberdade como adolescente o quanto possível. Seus pais, migrantes iranianos de três décadas, construíram uma vida sólida em pais alheio, ali gerindo um supermercado, mas agora querem voltar ao Irã teocrático, onde aguardam Parvis a humilhação e a perseguição. Ele tem uma irmã mais velha, de quase trinta anos, alemã também.

Quando companhia é solidão

Todos na família sabem que Parvis é gay, queer, com os gestos sinuosos, a excitação nos braços e no mover da cabeça pintada de loiro no alto. Todos o amam sabidos disso, reverentes a isso, enfim.

Sua espécie de orixá é a deusa Sailor Moon, que na animação japonesa, ele diz, representa a justiça e o amor. Numa festa sem ânimo, ele veste este cosplay para que ao fim, em plena pista de automóveis no alvorecer, bêbado, desfaça sua fantasia, em quase alusão ao personagem de Alberto Sordi em “I Vitelloni”, filme em que Fellini analisa as dores de uma adolescência prolongada.

O fato é que Parvis fala um persa estranho, que ninguém no Irã ou do Irã entende, algo (mais um) que o desobriga a se sentir ligado ao país. Um dia, contudo, após cometer uma contravenção, ele passa a cumprir serviços comunitários num abrigo da Cruz Vermelha para migrantes de sua origem. Precisa dar assistência aos temporários em busca de residência fixa na Alemanha, precisa brincar com as crianças, recolocar uma rede de futebol sem entender o que é futebol, até mesmo traduzir o apelo de uma iraniana por permanecer no país, mas incapaz de compreender o que ela diz.

Não compreende e não é compreendido igualmente por todos no abrigo, exceto por Banafshe (Banafshe Hourmazdi), irmã de Amon (Eidin Jalali), que pouco a pouco o levará a seu amor. Os iranianos temporários são em vasta maioria homofóbicos por formação e pela violência.

Tudo isto vai se passando com a bela leitura visual dos corpos, gestos e rostos movidos num espaço particularizado mas alongado, enquanto as coisas do mundo, e o mundo, se tornam paisagem secundária.

É um filme sobre adolescência. Que coisa tão comum, não?

Pois… não.

O diretor alemão Faraz Shariat:
“Sem Ressentimentos” é seu primeiro longa

A fotografia de Simon Vu é extremada, cores e luminosidade se alteram para dar nitidez, passo a passo, à caracterização dos belos personagens. Novamente, quase: é quase como assistir ao caminho de Fritz Lang por Hollywood, quando a inventividade na composição se renovava quadro a quadro com o objetivo de contar uma história policial.

É o que Shariat, de 29 anos, consegue aqui, narrar uma trama de gênero adolescente desprezado. Mas uma história que de banal, nada tem. 

Amor, esse algo que a fotografia de Simon Vu capta tão bem

SEM RESSENTIMENTOS

Dir.: Faraz Shariat

Alemanha

2020   

92 min.   

https://mostraplay.mostra.org/film/sem-ressentimentos/

Quixote e Sancho contra o imperador Ming

“Caminhando contra o Vento”, na competição Novos Diretores da Mostra Internacional, mostra uma China corrupta, incapaz de apontar um bom futuro para sua juventude

Trapaça que resulta em prisão, favorecida por um sistema que admite propinas

Se o impedimento a toda e qualquer liberdade de expressão estivesse em vigência na China, a produção deste filme dificilmente teria se dado. “Caminhando contra o vento”, o primeiro longa-metragem de Wei Shujun, é tudo menos o elogio a um horizonte de excelência para a juventude do país. Naturalmente, seu final se aproxima de conciliar as coisas, mas o que importa está no meio da narrativa. No desajuste constante, acelerado, implacável, que parece o único possível a dois estudantes de sonoplastia cinematográfica.

Meu reino por uma SUV

A faculdade de cinema chinesa de nada serve a nossos protagonistas quixotecos às avessas, que atuam como em uma dupla cômica, fadada a seguidos tropeços. O menino magro tem um nome, Kun Zuo, que o liga à palavra “universo”, aqui em desencontro. Kun (interpretado por You Zhou) tem uma namorada adequada ao sistema, mas o jovem se julga em condição de vencê-lo pela trapaça aberta, sem o mínimo cálculo dos riscos. Ele compra até mesmo uma SUV de filtro quebrado, e por este erro se enreda. Seu amigo gordo, A Ming (Wang Xiaomu), tem-lhe toda a fidelidade, jocosa e sem noção. E o sistema rodoviário chinês não é uma maravilha: seus fiscais são facilmente corrompidos, como aqui.

Wei Shujun, diretor de “Caminhando contra o vento”

É a faculdade deles, sendo paga, o maior roubo das expectativas dos seus pais. Os alunos não a querem, e só aprendem enquanto trabalham por si, mesmo que atabalhoadamente. Em meio ao trabalho, aprontam tolices como dirigir bêbados, quando isto na China dá suspensão imediata de carteira e detenção de dez dias, ou roubam provas para revendê-las aos alunos em exame.

Contudo, as trapalhadas expostas não transformam este filme em comédia – por vezes, infelizmente, nem mesmo em bom filme. O diretor Wei Shujun, de 29 anos, insiste nas ondas de fracasso da dupla sem um alívio dramático, sem narrativa coesa, sem um ritmo que possa satisfazer até mesmo o espectador benevolente. A fotografia funciona, os atores não são ruins e a música que eles ouvem nos fornece informação sobre a vida na China. Principalmente, é útil para um ocidental saber que driblar um sistema corrupto dá em nada em qualquer lugar.

Uma dupla que talvez apontasse para a ação cômica

CAMINHANDO CONTRA O VENTO 

Dir.: Wei Shujun 

China

2020   

130 min.   

https://mostraplay.mostra.org/film/caminhando-contra-o-vento/

Na Mongólia, o ouro que cava desertos

“As Veias do Mundo”, na seleção da Mostra Internacional, apresenta as contradições da resistência ao garimpo predador em um país que perdeu 300 lagos e 300 de seus rios

O resistente Erdene (Yalalt Namsrai) e seu filho Amra (Bat-Ireedui Batmunkh)

A mais ativa usina de ouro do mundo está situada na Mongólia, onde cerca de trezentos lagos e trezentos rios secaram por conta da mineração sem controle dos últimos anos. Neste país em que a densidade populacional é tão baixa, menos de dois habitantes por quilômetro quadrado, as esperanças são igualmente desérticas sobre o que vive, incluídos nesta última categoria, os seres humanos.

Um desejo resistente de conservar o que restou

Expulsos pela ação do garimpo, os mongóis se dirigem cada vez mais às áreas urbanas, especialmente à capital Ulan Bator, não só para sobreviver, mas também para realizar seus sonhos como artistas, às vezes expressos por ilusões globais como a franquia do programa de calouros “Mongolia’s got talent”. 

A venda de queijo no caminho para a escola

Assim é que Amra (interpretado por Bat-Ireedui Batmunkh), menino de 11 anos filho de um camponês resistente à cessão da terra aos especuladores, e cuja família vive do pastoreio na estepe, vendendo queijo nos arredores, é levado pelo próprio pai a se candidatar ao sucesso como cantor neste “As veias do mundo”. Um fato grave se interpõe a seu objetivo e ele de repente o menino estará mudado, experimentando precocemente o lado que o oprime. 

A mãe de Amra, Zaya (Enerel Tumen), e a filha Altaa (Algirchamin Baatarsuren) no pastoreio

O filme da diretora Byambasuren Davaa, nascida em Ulan Bator em 1971, esquematiza a desesperança. Seus planos de paisagem natural e humana são exuberantes, e os atores, especialmente os infantis, veem-se conduzidos de modo a intensificar o encanto da história. Tudo neles é expresso pelo rosto ardente e gentil, a dor, o riso, a determinação, a inocência e sua perda. Talvez as sequências fossem mais fortes se se demorassem um pouco em suas qualidades, mas esta cineasta é ágil para o corte, porque se move pelo princípio da ação.

A diretora de “As Veias do Mundo”, Byambasuren Davaa

“As Veias do Mundo” é a obra essencial desta artista que atuou como assistente de direção na televisão pública mongol e estudou na Escola de Cinema de Munique (HFF). Seu primeiro longa-metragem, “Camelos Também Choram” (2003), foi exibido na 28ª Mostra Internacional, indicado ao Oscar de melhor documentário daquele ano. A cineasta também dirigiu “The Cave of the Yellow Dog” (2005) e o documentário “The Two Horses of Genghis Khan” (2009).

Na revolta de Amra, a expressão da resistência

AS VEIAS DO MUNDO

Dir.: Byambasuren Davaa

Alemanha, Mongólia

2020   

96 min

https://mostraplay.mostra.org/film/as-veias-do-mundo/

Ser escritor na China, ou como transpor o mar

Em documentário na Mostra Internacional, Jia Zhangke ouve três escritores chineses sobre a arte no país a partir dos anos 1950

Jia Pingwa: “Escrever poesia não significa viver uma vida poética”

Nadando até o mar se tornar azul é mais que um título de filme, antes um verso concreto, dito com alguma naturalidade pelo escritor Yu Hua ao final deste belo documentário de Jia Zhangke. O autor conta ao cineasta que realmente, em sua vida, nadou em um mar amarelo até que o enxergasse azul… 

Adepto de uma fotografia que traduz a reflexão do artista entrevistado, focalizando seu rosto enquanto todo o entorno parece borrar-se, o cineasta caminha com calma para desvendar esse tão bem falado horizonte chinês. Os depoimentos parecem ter sido muito desejados pelos depoentes. Há intensidade, risos e lágrimas em tudo o que dizem ao diretor.

A escritora Liang Hong: as emoções pesam

Existiria um modo melhor que usar a literatura das últimas décadas, desde aquela imediatamente posterior à revolução, nos anos 1950, para esclarecer esse horizonte? Talvez sim, mas talvez, igualmente, ninguém tenha pensado nisso antes de Jia Zhangke.

O cineasta vale-se tanto do depoimento intenso e bem-humorado de Hua como da memória do célebre autor morto Ma Feng e dos depoimentos de Jia Pingwa e da escritora Liang Hong, tão emotiva, para recompor a história do fazer literário no país. É como se, durante as conversas com o cineasta, os escritores nos ensinassem coisa demais sobre ser chinês. O valor da solidariedade. A intensidade de desejar a literatura, mesmo que ela lhe tenha sido vetada pelas circunstâncias do trabalho braçal. Tentar reescrever o final e o início de um belo livro cujas páginas foram arrancadas pela revolução cultural. Tornar-se escritor na China! O equivalente a transpor o mar.

Jia Zhangke: boa conversa e inusual fotografia para traduzir quem escreve

Ainda assim, não será tudo. Tornar-se um poeta estará longe de dar um salto verdadeiro na existência. “Escrever poesia não significa viver uma vida poética”, lembra-nos Jia Pingwa. E o que ele aconselha para que isto se dê? Ele não diz. Mas podemos ler um de seus versos. “Lance um olhar frio sobre o mundo”, escreve Jia Pingwa sobre as pedras. 

Tentar imaginar o final e o início de livros cujas páginas foram arrancadas pela revolução cultural tornou-se um exercício para Yu Hua

Nadando até o mar se tornar azul
Dir.: Jia Zhangke
China

112 minutos

2020

https://mostraplay.mostra.org/film/nadando-ate-o-mar-se-tornar-azul/

Um lago onde os sonhos param

“Walden”, da diretora tcheca Bojena Horackova, presente na Mostra Internacional, revisita a burocracia distópia da Lituânia nos anos 1980 por meio do desenvolvimento de um amor adolescente

Uma dificuldade de entender o presente

Tanto a história não se destaca excessivamente neste filme que seu final é antecipado em inserções sobre a vida de um dos personagens, vindo da França para a Lituânia trinta anos depois. Parece interessar à cineasta tcheca Bojena Horackova que recuperemos junto a esse protagonista o que ele sentiu, a simplicidade vivida na adolescência, e entendamos por que ela ainda o atrai. “Walden” vai e vem na cronologia, incerto sobre se os dois protagonistas viveram um enlaçamento por amor ou pelo desejo de fugir do stalinismo.

A diretora tcheca Bojena Horackova

Adolescentes de Ensino Médio, Jana e Paulius se encontram pela primeira vez na pista de patins de Vilnia, na Lituânia dominada por burocratas nos anos 1980. Ele joga hóquei, ela nada na piscina. Ele é um outsider destituído de utopias que faz câmbio ilegal com alemães para adquirir os objetos de consumo que julga importantes, uma bicicleta e um carro, e ela, filha de médico, uma das primeiras da classe, começa a trilhar seu caminho. Paulius já escolheu que vai transigir, Jana acompanha-o com seus olhos grandes. Um dia entram num lago dentro da floresta, que o tio de Paulius apelidou de Walden, e pensam se esconder do mundo.

É uma trama nada intrincada. E faz desse “Walden”, que jamais cita diretamente a obra homônima de 1854, escrita por Henry David Thoreau em recusa à industrialização e à urbanização, uma gargalhada triste e distópica. A fotografia, que tem a participação de Agnès Godard, a fotógrafa de Wim Wenders, propõe algum brilho em meio à aridez que a juventude desse tempo precisa enfrentar. 

Fabienne Babe (Paulius) e Jana (Ina Marija Bartaité) em “Walden”: é amor ou desejo de fugir?

Walden

Dir.: Bojena Horackova

França, Lituânia

85 min

2020

https://mostraplay.mostra.org/film/walden/

O discreto charme da aristocracia do czar

“Malmkrog”, filme de quase quatro horas do romeno Cristi Puiu, presente na Mostra Internacional de Cinema, é um falar constante sobre deus, o diabo e o cristianismo na Rússia que logo irá perdê-los. Quem está em quarentena, gosta de filosofia, aprecia o sarcasmo e a atuação de bons atores enfrentará as longas horas com algum prazer.

Uma cena inicial de “Malmkrog” a evocar a geometria clássica da pintura

Este filme existe como se o russo Andrei Tarkovsky (1932-1986) tivesse se unido ao espanhol Luis Buñuel (1900-1983) para comporem juntos uma obra de cunho filosófico com o objetivo elevado de cutucar deus, o diabo e o cristianismo. Seria um longa-metragem de fato, com quase quatro horas de duração, como este “Malmkrog”, em que os personagens discutiriam a quase seriedade de sua decadência de classe, entre a sala de estar e a de jantar, servidos por homens e mulheres a quem jamais cumprimentariam ou agradeceriam. E isto, evidentemente, não poderia dar-se em um ambiente excessivamente sério, daí a presença jocosa de um surrealista anticlerical (fantasma de Buñuel) para esquentar o argumento, às vezes com uma briga de criança e sua babá no fundo da cena, ou quem sabe tiros. 

O diretor de “Malmkrog”, o romeno Cristi Puiu

“Malmkrog” realiza-se assim, como uma atualização inventiva a ecoar a obra dos dois grandes diretores. O cineasta romeno Cristi Puiu, de 53 anos, é também, e obviamente pelo que se vê neste longa, um encenador dos palcos que estudou pintura e cinema. Seu filme, baseado em roteiro próprio para o livro “Três conversações”, do filósofo místico russo Vladimir Solovyov (1853-1900), é constituído por estranhos movimentos. Muitos dirão que não há movimento algum por três horas e vinte minutos de filme, mas isto será um exagero, é evidente.

Há movimento na geometria rígida e clássica dos enquadramentos. Os atores, muito bons, mexem-se com mínimos volteios entre as portas, colunas, mesa, cadeiras, poltronas. Em tomadas exteriores à distância, na neve, tornam-se pontos a caminhar. Suas expressões faciais se prolongam ou se congelam, ao bel-prazer do que suas palavras dizem, com sarcasmo, mormente. Sorrisos, um levantar de longas taças, um vestido que gira dali para cá, e o filme se faz.

Estamos na Rússia czarista e o que esta nobreza discute em francês (um proprietário de terras e seus amigos influentes) é se faz sentido ter paz. E o que é a paz. E a quem serve um mundo pacificado. A deus? Quem ele é? Pode ser bom por natureza ou apenas um pregador da bondade, que não convence ninguém sobre o íntimo de suas intenções. A guerra deve ser glorificada ou a não-violência é divina? Por que não somos todos europeus? A Europa, este continente também reivindicado pelos russos, seria um objetivo de todos os seres. Seria deus. Ou a cultura. E todos discutem sobre se a ressurreição será a prova dos nove para a religião cristã.

É um filme que nada nos facilita, e em que as palavras são jogadas em tal velocidade que podemos perdê-las ocasionalmente e ainda assim estaremos diante do cerne. De um mundo que vai findar-se, mas que ainda será discutido hipnoticamente, para que todos se convençam de sua seriedade e eternidade. 

Alguém por favor apresente Cristi Puiu à reunião do ministério de Bolsonaro vazada por Moro. Nós também chegamos a imaginar que seria a última.

Fantasmas da liberdade: a gente filósofa do czar e seus serviçais de pé

Malmkrog

Dir. Cristi Puiu 

Romênia, Sérvia, Suíça, Suécia, Bósnia-Herzegovina, Macedônia do Norte

200 min

2020

https://mostraplay.mostra.org/film/malmkrog/

Um mergulho nos oráculos da noite com Willem Dafoe

Na Mostra Internacional de Cinema, “Sibéria”, do cineasta Abel Ferrara, procura reproduzir as estruturas imagéticas do sonho, em uma busca do protagonista pelo autoconhecimento

Dafoe pelo deserto, conduzido pelos huskies: a Sibéria é um estado interior

Deve ser o paraíso para o estadunidense Abel Ferrara contar com a parceria fílmica de seu conterrâneo Willem Dafoe, um ator “sem idade”, robusto, profundo, e que para o cineasta, por exemplo, interpretou até mesmo Pasolini (em 2014). Dafoe tem no rosto uma máscara poderosa, flexível. Sua energia se impregna nela, assim como sua jovialidade. A ironia e o olhar investigativo tampouco escapam ao bom espectador.

É um ator ideal para situações da cinematografia independente, que abraça sempre com muito simpatia, talvez porque, ao atuar nesta espécie de filme aberto, tem o dom de reescrevê-lo. E não haveria outro exceto ele, possivelmente, a enfrentar este “Sibéria” de Ferrara sem deixá-lo resvalar no ridículo. O filme é uma viagem incandescente pela vida deste homem que ele interpreta, retirado à região gelada (numa Sibéria que não é real, mas um estado interior), depois de sofrer traumas e desejar esquecê-los.

Sem Dafoe, talvez fosse difícil entender essa procura íntima sem resvalar no ridículo

O protagonista interpretado por Dafoe recomeça do lugar mais distante possível. Clint trabalha em um bar com reluzente balcão de madeira por onde passam nativos indígenas, russos, gente falando outras línguas, enquanto ele se comunica em inglês. As russas são duas, e com uma delas, por exemplo, em condição surreal, Clint faz amor.

Um momento onírico, para representar a surrealidade das expectativas

Ele passeia pelos desertos com seu trenó movido por huskies siberianos, e os animais comentam as sequências muito bem, já que seus olhares têm expectativas. Cada segmento do roteiro mistura o tempo real da narrativa com as abstrações oníricas, nas quais Clint, por exemplo, fala consigo mesmo por meio de sua imagem projetada na água, em irônica remissão ao Duende Verde que Dafoe interpretou em Homem-Aranha.

Abel Ferrara, diretor de “Sibéria”

É como se aqueles que lhe ensinam sobre a vida, nessas conversas evocadas por sonhos, sejam miniaturas do Dersu Uzala de Kurosawa. Os diálogos que expõem religiosidades e filosofias são muito bons. 

– Eu não quero ganhar.

– Por quê?

– Eu não quero perder.

Ou:

– Respeite a presença do sono. Fuja de quem não dorme. Seja alegre durante o dia. Não entregue ao estômago o pão da aflição que lhe perturbará à noite.

As paisagens são espetaculares, brancos e vermelhos se alternam, e não há ordem definida para que o protagonista encontre, por meio da memória viva e palpável, o filho, a mãe, a ex-mulher, a grávida e principalmente o pai, morto sem que Clint o tivesse compreendido.

Um espaço “Duende Verde” para que Clint possa dialogar consigo mesmo

Talvez por sua narrativa errática, este filme se veja condenado a um público reduzido. Mas é muito interessante que por meio dele Abel Ferrara tenha tentado reproduzir as estruturas do sonho e da memória, o que significa bastante coisa. Este foi o interesse que revolucionou o pensamento ocidental no século 19, tornou-se tema de exploração pelo filósofo-escritor Henri Bergson e fez Marcel Proust promover uma revolução literária. 

Trata-se de uma intenção poderosa e de uma investigação muito interessante, portanto, sobre o formato de nosso inconsciente e sobre nossa constante remissão ao sonho, este que nos coloca no caminho do autoconhecimento. Aqui e ali “Sibéria” perde em movimento e congela o interesse de quem o observa, mas não é absolutamente um filme ruim.  

Dersu Uzala às avessas, à procura da sabedoria em lugar de ensiná-la

Sibéria (Siberia)

Dir. Abel Ferrara

Itália, Alemanha, México

2020

92 min 

https://mostraplay.mostra.org/film/siberia/

O mal, o bem e o curandeiro

A ficção de Agnieska Holland “O Charlatão”, presente na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, movimenta a linguagem do filmão hollywoodiano para mostrar uma essência humana

O curandeiro Jan Mikolásek (Ivan Trojan) e seu assistente Frantisek Palko (Juraj Loj): um desafio às imposições stalinistas contra a homossexualidade

Houve esse tempo em que um filmão de Hollywood ainda era possível, e vencia Oscar. Era uma espécie de obra que, embora expusesse fatos terríveis, abria com competência narrativa e bela fotografia uma possibilidade psicológica de futuro e esperança.

Eis que a célebre tcheca de 72 anos Agnieska Holland exerce essa linguagem tradicional em O Charlatão, indicado por seu país para concorrer ao Oscar de melhor obra estrangeira. E talvez este seu filme seja a contrafacção de muitos outros, a exemplo de “O Jogo da Imitação” (2014), do norueguês Morten Tyldum, em que se descreve como o matemático Alan Turing, apesar de ter quebrado as criptografias nazistas, acabou na sarjeta por ser homossexual, gênero interditado na Grã-Bretanha de então.

Agnieska Holland: sem se curvar à consolação psicológica

O mínimo que se pode dizer é que Agnieska não se curva à consolação psicológica ao fim, bastante precisa sobre a existência de maldade ou bondade nos homens. O charlatão aqui é um curandeiro que trata de pacientes ao observar o estado de sua urina. O herbalista, traumatizado pela participação como soldado na guerra, sobrevive, contudo, em alto estilo: com o tempo, a cura em massa lhe rende dinheiro e ele adquire uma grande casa onde vive e atende a uma fila constante de pacientes.

Apaixonado por seu assistente, que mora com ele apesar de casado com uma mulher, compra-lhe um automóvel fabricado nos Estados Unidos, isto quando a população já sentia os efeitos da escassez sob uma controladora administração comunista. E, sim, a homossexualidade também lhe pesa como um crime.

Um banco dos réus para a liberdade

O estilo de Agnieska opera por flashbacks constantes a nos esclarecer sobre a figura rígida e enigmática do curandeiro. Ele escapa dos interrogatórios porque a todos atende, e salvou da morte até nazistas e comunistas poderosos, que por isso sempre o liberaram de constrangimentos. O filme é feito de planos médios, predominantemente escuro. Volta-se aos interiores onde a luz principal mimetiza a da janela, por onde o curandeiro analisa a urina. Nas situações românticas ou positivas dentro do filme, abre-se o sol, e o vento movimenta o trigal.

Sem a surpresa ao fim, não se entende este filme sobre um complô. Esta cineasta sorridente assimila procedimentos humorísticos que incluem surpresa e deslocamento. Seu filme não acaba com um estouro, como “Parente é Serpente”, de Mario Monicelli, mas com um pequeno gesto de carinho.

O curandeiro, seu assistente e a urina observada na fresta de luz

O Charlatão (Charlatan)

Dir. Agnieska Holland

República Tcheca, Irlanda, Eslováquia, Polônia

1h58min

2020

https://mostraplay.mostra.org/film/o-charlatao/

Silêncio, ação!

“Masters in Short”, presente na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, costura homenagens ao cinema silencioso

Em “A Visita”, de Jia Zhangke, uma dupla cômica usa máscaras para esconder palavras

Este filme de episódios, em sua maior parte, homenageia o silêncio dentro da arte. Uma homenagem para lá de justa, já que se tem privilegiado a palavra no cinema e deixado para segundo plano o movimento, seu sentido. Masters of Short seria essencialmente harmônico das origens cinematográficas não houvesse a seu término, em “Escondida”, as palavras sem fim do diretor Jafar Panahi. Mas estas operam numa constância tal que até nos fazem esquecê-las… Curioso perceber como, por meio delas, ao observar o movimento dentro de um tradicional automóvel iraniano, operamos na vibração mágica dos mudos.

Como todo filme de episódios, este é irregular e diverso. Começa Jia Zhangke com A Visita, uma graça rápida sobre a hesitação do toque na era pandêmica, relembrando a ação das duplas cômicas que aperfeiçoaram o cinema silencioso. Depois, com “O Adivinhador” e “Os Caçadores de Coelhos”, de Guy Maddin, Evan e Galen Johnson, nos vemos diante de mínimas superproduções que escancaram a paródia aos filmes monumentais do início soviético, em suas situações de comicidade e sonho.

“Uma Noite na Ópera”, de Sergei Loznitsa, parece ser o experimento mais radical e minimalista do filme. Em seu curta, o diretor edita os telejornais antigos que registraram, silenciosos, os momentos a anteceder um concerto de Maria Callas na Ópera Nacional de Paris, em 1958. Ao teatro acorrem, banhados em flash e sorrisos, as estrelas da época, Charles Chaplin, Brigitte Bardot, Grace Kelly e Rainier, Charles De Gaulle, a rainha Elizabeth e Philip… Loznitsa nos coloca dentro do teatro, mas, principalmente, de um tempo. E somos presenteados com a voz mixada de Callas ao fim.

Não bastasse esse sonho memorial, o belo encerramento de Panahi evocará a tragédia feminina e presente da mulher iraniana, escondida por trás de um pano, mas ainda viva.

Masters in Short

Vários

2020

1h11

https://mostraplay.mostra.org/film/masters-in-short/

Chineses, reclamar por quê?

O artista plástico Ai Weiwei precisa voltar ao Brasil urgentemente para compreender por que seu filme sobre a pandemia nos parece estranho em muitos momentos. A China errou, e muito, ao ignorar o potencial do vírus no início, mas nunca esteve nos planos do governo matar deliberadamente seus cidadãos contaminados

Nos hospitais, os incansáveis procedimentos de urgência

De 1 de dezembro do ano passado, quando o primeiro caso foi detectado, até o estabelecimento do lockdown na China, em 23 de janeiro de 2020, um grande silêncio foi imposto aos habitantes do país sobre o potencial letal da Covid-19. Este parece ser um dos lamentos centrais do artista plástico Ai Weiwei, que dirigiu remotamente o documentário “Coronation”, exibido até o dia 5 de novembro durante a 44 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ao organizar imagens aéreas e terrenas de Wuhan, a cidade por onde a contaminação primeiro e rapidamente se espraiou.

A polícia controla os papeis de quem se dirige à cidade que é foco de contaminação



Médicos, enfermeiros, trabalhadores de construção, doentes e seus familiares foram registrados por meio de câmeras e celulares particulares para que ocorrências relacionadas ao estouro da pandemia se vissem exibidas em ritmo cinematográfico, de modo a “coroar” os verdadeiros responsáveis pelos erros que resultaram na contaminação acelerada e transformaram a China, inicialmente, na nação do coronavírus, esta a que o diretor alude ironicamente no título do filme como “coronation”.

Para Weiwei, que reflete enquanto expõe, errado é um sistema político que prende seus habitantes à burocracia controladora de suas vidas, ignorando dores e necessidades particulares, como aquelas envolvidas na luta pela sobrevivência dos doentes. Parentes que não podem dispor facilmente das cinzas de seus mortos, por razões não esclarecidas, e que acabam por queimar seus restos em plena rua, nas sequências finais do filme, são expostos em sua impotência diante da morte evitável. Há humor quando uma idosa servidora do partido reflete sobre a grandeza da união em prol do bem comum no país: ela saberá que a cúpula chinesa mente aos seus cidadãos?

A idosa servidora do partido e seu filho, em uma sequência com elementos de humor:
ela sabe que a cúpula chinesa omite informações a seus cidadãos?

O brasileiro que vê este filme deve se preparar para o sofrimento dobrado. Toda a lamentação chinesa lhe parecerá estranha, desde aquela dos pacientes curados, a quem foi imposto o confinamento sem diagnóstico contundente final. Por que reclamar, se se salvaram?

A vestimenta sem erro e a rigorosa esterilização dos funcionários nos hospitais

Depois de um grande tropeço de avaliação inicial, nada parece errado no que a China faz para curar seu povo e impedir que a contaminação ande além. Todos os que partem de locais contaminados ou a ele se dirigem são rigorosamente inspecionados. Há medidores de temperatura nos locais públicos, incluindo transportes. Depois de certa altura, se sair à rua sem cuidados, e quando não recomendado, um chinês será obrigado a pagar pelo tratamento, que durante a pandemia foi gratuito. Nenhum médico está sozinho na hora de se higienizar: dentro dos hospitais, uma câmera rastreia seus procedimentos e alguém, ao observar a cena por monitores, avisa ao profissional se não limpou direito seus sapatos.

Drones medem a amplitude de um país continental

Não é um filme sobre particularidades, antes sobre contextos. Weiwei preza a observação extensa, continuada, incansável e irônica de seus personagens em linha de montagem, que podem, por exemplo, estar sujeitos a um juramento de fidelidade ao Partido Comunista quando isto nem de longe seria o esperado em pleno estouro de uma crise sanitária.

Ai Weiwei: em “Coronation”, os olhos abertos para as grandes dimensões

Vivenciamos as dimensões continentais do país no seu cotidiano. Um médico anda por vários minutos por entre labirínticos corredores até alcançar seu local de trabalho num hospital em que tudo, desde a vestimenta de proteção, funciona a contento e com cuidado. Câmeras em drones demonstram a imensa malha de trilhos e estradas que fazem daquele um vasto território acordado para o mundo em todas as horas da noite e do dia.


Por que reclamar da China, se somos brasileiros nas mãos de genocidas?

Weiwei, volte ao Brasil, e rápido.

O fechamento de uma urna funerária diante dos parentes dos mortos, que ficam de costas

Coronation (Coronation)

Dir. Ai Weiwei

China

115 min

2020

https://44.mostra.org/filmes/coronation