Uma mulher contra o novo Mefisto

O filme “O outro lado das redes”, presente na 50ª mostra, narra a luta de uma ex-funcionária do Facebook para expor a atuação criminosa de Mark Zuckerberg 

Jeremy Strong como Mark Zuckerberg em
“O outro lado das redes”: robô impiedoso

Ao final da sessão deste filme que se seguiu à coletiva de imprensa da 50ª Mostra Internacional de Cinema, o auditório lotado de jornalistas aplaudiu. Pensei se seria para tanto, mas não luto contra a preferência popular. Cinema tem muitas faces, até mesmo a noveleira destes tempos. E é isto. Entendi “O outro lado das redes” como um bom episódio de série de tevê. Apenas concluí, considerada a ovação, que as séries (raramente vistas hoje em dia por mim) não têm sido tão boas assim…

Aaron Sorkin, roteirista vencedor do Oscar por “A rede social” (2010), precisou de 16 anos para se aprofundar na questão Zuckerberg. Ele agora escreve e dirige “O outro lado das redes”, em ritmo de entretenimento, para caricaturizar o criador do Facebook (interpretado pelo ótimo Jeremy Strong) como um robô impiedoso, programado para empilhar dinheiro e nada mais.

A narrativa, sustentada por diálogos arredondados, eletrizantes, algo inverossímeis de tão bem-humorados, caminha para o desfecho redentor da atuação da ex-funcionária e delatora das ações do Facebook Frances Haugen, interpretada por Mikey Madison (Oscar de melhor atriz por “Anora”). 

A heróina Frances Haugen, interpretada por Mikey Madison, antes de depor no Senado dos EUA

Frances Haugen é a engenheira que, em outubro de 2021, levou ao Subcomitê de Proteção ao Consumidor, Segurança de Produtos e Segurança de Dados do Senado dos Estados Unidos (e, em sequência, ao parlamento britânico, em Londres, e ao parlamento europeu, em Bruxelas) milhares de documentos internos para comprovar que o Facebook priorizava o lucro em detrimento da segurança dos usuários, da democracia e da saúde mental de adolescentes.

No início de sua atuação corporativa, Haugen se considerava apaixonada pelo que entendia ser a missão facebookiana, a de unir e visibilizar os introvertidos como ela. Aos poucos, contudo, a jovem percebe que o Facebook nada tem de comprometido com a civilidade e a paz relacional. Tenta alertar seus superiores para o fato, mas eles a rechaçam e isolam. 

Haugen vê uma possibilidade de mudar esse culto ao mal quando o jornalista do Wall Street Journal Jeff Horwitz (interpretado por Jeremy Allen White) a procura em off para suas reportagens em série, futuramente responsáveis por desmascarar Zuckerberg. Enquanto isso, nos porões da empresa, nosso Mefisto-robô hilariamente se submete a um media training para responder às perguntas da imprensa, dos congressistas e da lei…

Jeremy Allen White vive Jeff Horwitz,
o jornalista que recebe a documentação
fornecida pela informante maquiada

Para caracterizar Haugen, Sorkin permitiu-se liberdades. Não buscou semelhança física entre a engenheira e sua intérprete (por exemplo, Madison manteve o cabelo castanho, quando o de Haugen é loiro). Igualmente, o filme exagerou na maquiagem e colocou roupas sensuais na atriz em situações nas quais ela se encontrava com o repórter do Wall Street Journal Jeff Horwitz (vivido por Jeremy Allen White). Os ares de date enganariam eventuais conhecidos sobre suas saídas, durante as quais, em verdade, ela fazia o trabalho de informante. Imperdoável essa decisão cinematográfica sexista, mas efetiva comercialmente, certo? Forçou a protagonista, que em verdade nunca se apresentou assim diante do repórter, a surgir gostosa no imaginário do espectador.

O filme impacta ao exibir os meandros da atuação corporativa criminosa de Zuckerberg, que no final das contas nunca foi punido por seus malfeitos. Contudo, a meu ver, sua abordagem sofre de um senão. O diretor nos faz crer que o dono da Meta (o nome da empresa foi mudado no decurso da publicação das reportagens) tenha apenas um perverso intuito financeiro ao gerir seu empreendimento. Mas é  possível supor que ele também atue intensamente para fortalecer a misoginia, a exclusão social, a concentração de recursos naturais e o racismo, entre outros horrores defendidos pela extrema-direita mundial. Quem sabe vejamos tudo isto explicitado em um terceiro filme?

O diretor Aaron Sorkin

O OUTRO LADO DAS REDES

Dir. Aaron Sorkin

Estados Unidos, 2026

112 min

SESSÕES NA 50ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA EM SÃO PAULO:

Belas Artes 1, 19 de outubro, 18h15

Solar Sala Petrobras, 21 de outubro, 19h30

O chá, o detetive e o samurai

Um filme do gênero chanbara, dirigido por Kiyoshi Kurosawa e presente na 50ª mostra, adentra o romance policial 

Em “O samurai e o prisioneiro”, o senhor feudal
Araki Murashige tenta manter o ânimo da tropa

Para quem porventura o desconheça, Kiyoshi Kurosawa não tem parentesco com Akira Kurosawa. É um diretor japonês de 71 anos que, vindo do pornô (pinku eiga), ao qual dedicou nove anos de atividade até 1989, passou a encenar o suspense e o horror com sucesso crítico e de público. “A Cura”, de 1997, consolidou internacionalmente seu trabalho no gênero. Em 2020, ele empreendeu o drama histórico “A mulher de um espião”.

O diretor, para quem música e silêncio são de grande valor quando aplicados sabiamente à narrativa, aventura-se agora por outro gênero, o chanbara, em torno dos samurais e suas lutas de espadachim. “O samurai e o prisioneiro”, presente na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, fez muito barulho no mundo. Mas o filme de mais de duas horas, exigente da atenção do público para os meandros da história, não é o que se espera.

Certamente, aqui não se verá a coreografia encantadora das lutas, presente em filmes do outro Kurosawa como “Yojimbo” e “Sanjuro”. Muitos atores importantes, como o próprio Toshiro Mifune, protagonista dos dois filmes, alertaram para o declínio do gênero a partir da década de 1960. Os produtores passaram a relegá-lo em favor de ficções mais baratas sobre a vida contemporânea, exibidas na tevê. Mifune chegou a fundar uma produtora independente de modo a manter o gênero com honradez. A Mifune Productions foi bem-sucedida de 1962 a 1984, mas novas iniciativas não apareceram para continuá-la.

Então, uma das razões para que o chanbara “O samurai e o prisioneiro” exiba escassez de lutas com armas brancas em favor de bastões, pedaços de pau e arco e flecha (o primeiro enfrentamento com lâminas surge aos 45 minutos do filme) talvez resida na inexistência, por assim dizer, de know how para tal.

Kiyoshi Kurosawa e seus atores não parecem saber empreender essas coreografias complicadas. Mas a razão principal do cineasta para deixar de exibi-las em favor, às vezes, de simples marretadas, deve residir igualmente na natureza deste filme, o primeiro do diretor a arrancar 1 bilhão de ienes (cerca de 32 milhões de reais) em bilheteria no Japão.

Baseado no romance policial e drama histórico “Kokurōjō”, de Honobu Yonezawa, lançado em 2021 e vencedor do prestigiado prêmio literário Naoki, o filme “O samurai e o prisioneiro” se passa durante o período Sengoku (1578-1579), no Castelo de Arioka. O senhor feudal (daimyo) Araki Murashige, que realmente existiu, rebela-se contra o tirano Oda Nobunaga. Sabedor de que o cerco de Nobunaga ao castelo durará meses, ele precisará segurar o moral e a lealdade de seus generais e súditos. Principalmente, necessitará mantê-los vivos, dispensando a usual cartilha de sentenças de morte a quem porventura tenha cometido deslealdades.

O prisioneiro interpretado por Masaki Suda
fornece ao lorde de Masahiro Motoki os caminhos para deduzir a autoria dos crimes

Eis que Murashige se vê como inesperado pacifista, ou, na linguagem dos inimigos e de alguns de seus vassalos, um simples covarde. O problema aumenta quando mortes inexplicáveis começam a acontecer dentro da fortaleza. Decidido a não perder o controle da corte, o samurai desce às masmorras para consultar um prisioneiro de guerra, o estrategista enviado por Nobunaga que ele mantém cativo.

Adentramos então o terreno dos whodunnit, ficções detetivescas que partem de indícios para a resolução da autoria dos crimes. Mas não será uma tarefa individual. Murashige precisará do cérebro, dos olhos e ouvidos do preso Kanbei, interpretado por Masaki Suda, para descobrir a surpreendente autoria dos assassinatos e sua motivação. 

O lorde vivido por Masahiro Motoki, vestido acuradamente com o denim tradicional, tampouco se parece com personagens interpretados por Mifune ou outro grande ator japonês, como Tatsuya Nakadai. Ele fala baixo. Move-se desesperadamente à melancolia. Sabe que é um líder incapaz. Principalmente, ele se tornará um mestre da cerimônia do chá (chanoyu). Um discípulo e seguidor de Sen no Rikyū, o personagem histórico mais importante, revolucionário e reverenciado dessa arte, interpretado por Toshiro Mifune no filme “Morte de um mestre da cerimônia do chá”, de Kei Kumai, em 1989.

O diretor Kiyoshi Kurosawa

O SAMURAI E O PRISIONEIRO

Dir. Kiyoshi Kurosawa

Japão, 2026

147 min

SESSÕES NA 50ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA EM SÃO PAULO:

Sato Cinema, 25 de outubro, 19h25

Cultura Artística, 26 de outubro, 16h15

Reserva Cultural 1, 28 de outubro, 17h30

A difícil paternidade literária

Em exibição na 50ª Mostra Internacional de Cinema, “A terra do meu pai” explora a viagem feita por Thomas Mann à Alemanha em 1949, certo de que contribuiria para apagar as cinzas da guerra 

Sandra Hüller é Érika e Hanns Zischler, Thomas:
o duro empreendimento da família Mann

O ritmo teatral ditado por três atuações secas: a de Hanns Zischler como o escritor alemão Thomas Mann; a de Sandra Hüller (“Anatomia de uma Queda”) como sua filha, a atriz Érika; e a de August Diehl como o filho e escritor Klaus. A reconstituição parcial do cenário ainda em ruínas das duas Alemanhas, quatro anos depois da derrota nazista. O bom humor inserido em assunto difícil (isto é, quando menos se espera por ele). A densa fotografia em preto e branco a respeitar a aspereza social e política do pós-guerra.

Estas são algumas razões para recomendar ao público da mostra a coprodução polonesa, alemã, francesa e italiana intitulada “A terra do meu pai”. Dirigido pelo polonês Pawel Pawlikovski (“Ida”, 2013), o filme narra de forma dialogada e breve a viagem de carro empreendida em 1949 por Thomas Mann (1875-1955) entre duas cidades alemãs: Frankfurt, então controlada pela CIA estadunidense, e Weimar, sob direção soviética.

Em “A terra do meu pai”, um road
movie pela história e pela literatura

Dono de um Nobel, exilado nos Estados Unidos, distante do país natal desde a ascensão de Adolf Hitler, em 1933, e desejoso de estabelecer sua palavra em territórios antagônicos, Mann surge aqui seguro da serventia à Alemanha da própria fama literária, que contudo se vê criticada, até ironizada, tanto por Érika, sua acompanhante na viagem, quanto por Klaus Mann. O autor de “Mefisto”, aliás, em eterno conflito com o pai famoso, não poderia estar mais descontente com os alemães e sua língua, esta nascida, segundo ele diz, para tecer “mentiras”.

Muitas baforadas pela reconstrução

Eis um filme quase didático sobre duas grandes distopias do século 20, o fascismo e o stalinismo, aos quais o auto-intitulado burguês Thomas Mann devotou o olhar maduro. Igualmente, uma obra a gravitar sobre a responsabilidade social e a paternidade da literatura, tanto de Mann quanto de seu ídolo J. W. Goethe, cujo leito de morte o autor de “A Montanha Mágica” conhece em uma visita guiada pela burocracia comunista a Weimar.

O diretor Pawel Pawlikovski

A TERRA DO MEU PAI

Dir. Pawel Pawlikovski

Polônia, 2026

82 min

SESSÕES NA 50ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA EM SÃO PAULO:

Reserva Cultural 1, 18 de outubro, 15h10

Cinesesc, 19 de outubro, 21h30

Solar Sala Petrobras, 20 de outubro, 17h15

Para mergulhar em Kim Novak

Lágrimas, excertos de filmes, recordações: a estrela de “Vertigo” derrama memórias ao refletir sobre sua carreira no cinema, em documentário presente na 49ª Mostra

A atriz em casa, aos 92 anos, reflexiva ao percorrer álbuns e caixas com memórias

Os olhos claros, grandes e vivos. A boca pequena. Lábios pintados ostensivamente, assim como os cabelos. Rosto de enigma. A face célebre que não existe mais, perdida no espelho de Hollywood. 

Kim Novak tem 92 anos e teme morrer. Ela mesma, a protagonista de “Vertigo (Um corpo que cai)”, clássico dirigido por Alfred Hitchcock em 1958, confessa esse medo ao cineasta Alexandre O. Philippe. O diretor do documentário poético “Kim Novak’s Vertigo” (Um corpo que cai, por Kim Novak), presente na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, filma suas conversas com a atriz, os depoimentos não raro emotivos que ela lhe dá, como quem deseja erguê-la a um panteão de eternidade, a partir da casa da atriz no Oregon.

Para conseguir o efeito do que é eterno, Philippe insiste na fotografia embaçante e na trilha sonora a partir de um piano de prelúdio, o que por vezes está a ponto de desacreditar seu filme. O espectador pode se perguntar por que o diretor terá pesado a mão assim. Talvez Phillipe se visse obrigado a isso para não magoar sua biografada. Por todo o filme, a atriz agradece a maneira positiva com que o diretor a vê artisticamente, quando nem mesmo ela se enxergava assim, isto até encontrá-lo…

É que Kim Novak não quis desde sempre ser atriz. Seu pendor possivelmente fosse pelas artes plásticas e pela fotografia. Fez belas imagens do pai, que, ao contrário de sua mãe, jamais expressava os sentimentos. Até hoje Kim Novak pinta telas, muitas delas perdidas em três incêndios nos penhascos californianos diante do mar, onde a atriz viveu a partir de 1961, e de onde podia avistar o cenário de “Vertigo”. É uma pintora por vocação, a lutar com a fixação em óleo de autorretratos, pássaros, os rostos de seus pais, as ondas do mar, os rasgos do céu. Pinceladas com a mão esquerda que, mostradas no filme, são como voos – ou, por que não dizer, “vertigens” – de representação.

Kim Novak começou a vida profissional como modelo fotográfico, durante os meses de férias escolares. E, mesmo depois de atraída ao cinema, não se via como intérprete. Como diz, não “atuava”, à moda do que se espera de um ator, apenas reagia _ era uma espécie de reactor, o que não deixa de ser uma classificação estranha. As grandes interpretações cinematográficas nascem justamente da capacidade de reação de um rosto. Desde a época silenciosa, o rosto e o corpo disseram tanto ou mais que as palavras.

O célebre tailleur cinza, desenhado por Edith Head, em cena de “Vertigo”: para enxugar as lágrimas

Quando Hitchcock a escalou para “Vertigo”, ela desconhecia o trabalho do diretor. Mas gostou do roteiro, a ressaltar a dualidade em sua personagem, condição que a atriz estendeu psicologicamente a si mesma, principalmente após viver o estrelato em Hollywood. No filme, ela conta que o produtor Harry Cohn controlava sua vida profissional e a obrigava a tantos papeis diferentes que, depois de um tempo, ela parecia não saber quem de fato era. Contudo, ao lado do amigo (algo professor) James Stewart no filme de Hitchcock, a atriz encontrou um caminho para o autoentendimento. E guardou o roteiro de “Vertigo”, que, por milagre, foi salvo do fogo californiano em três ocasiões. Não só o roteiro – um figurino de Edith Head também. No documentário, ela seca as lágrimas no célebre tailleur cinza usado no filme.

Homenageada no festival de cinema de Veneza deste ano, Kim Novak parece fazer tudo apenas quando ditada por um impulso interior. E por isso há excesso de interiores, por assim dizer, no cinedocumentário de Philippe. A ultrarromantização está a um degrau ou dois do kitsch. E Kim interpreta o tempo todo, a voz não raro trêmula, mesmo quando diz apenas reagir às caixas de memórias que incumbiu o diretor de reabrir, de modo a novamente “surpreender-se”. Contudo, se você construiu seu conhecimento a partir do cinema clássico de Hollywood, não deve perder este filme por motivo algum. Grandes emoções, grandes histórias.

O diretor Alexandre O. Philippe

Um corpo que cai, por Kim Novak
Alexandre O. Philippe
EUA
76 min

Falado em inglês.
Legendas eletrônicas em português

12 anos

MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ – SALA 4: 21/10/25, 19h40
RESERVA CULTURAL – SALA 1: 22/10/25, 13h

CINEMATECA SALA PETROBRAS: 23/10/25, 16h30

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1: 24/10/25, 13h30 

Os jorros de Wesley, um homem-cinema

Wesley Pereira de Castro,
co-diretor de “Um minuto é uma eternidade
para quem está sofrendo”

Sinto-me amiga de Wesley Pereira de Castro desde que há mundo, embora o tenha conhecido apenas no desabrochar da pandemia. Um conhecimento parcial, é claro, entranhado no jogo de palavras à distância e pelos áudios do WhatsApp, que Wesley entende um tanto metálicos.

Ontem pude finalmente abraçar este sergipano em sua fortaleza frágil – e ágil. Um homem que sorri. Um homem bonito, os lábios que são um desenho, as unhas tão bem cuidadas e pintadas que me envergonhei um pouco das minhas. Me lembrei de passagem daquele José Mojica Marins que, adolescente, eu avistei num ponto de ônibus da mesma rua Augusta ontem percorrida por nós. Sem cartola ou capa, vestido com uma camisa branca, o Mojica à paisana não tinha nada de seu personagem Zé do Caixão, exceto as unhas longas e firmes. 

Tampouco eu sabia que Wesley era esse homem-cinema total. Enquanto andávamos pela avenida Paulista, conversando, a câmera despertava de seu celular. Sabedor do que queria registrar (a primeira foto já valia), dirigia a si próprio e a mim. “Olhe para lá”, me dizia, ele que pisava naquele território pela primeira vez. Ação, corte, edição: Wesley faz tudo isso como extensão do que é. Move-se e pensa dramaticamente. No olho, o frame.

Wesley olhou tanto! A vida, claro. Mas também as palavras e os filmes. E talvez por este motivo tenha sido tão natural, para ele, que se tornasse um diretor de cinema com um sem-número de referências, além de crítico inegável, apaixonado, amantíssimo, o único aliás que consigo acompanhar sem nunca esmorecer, um pouco pelo brilho da reflexão original que espalha em tudo, outro tanto por sua generosidade, pelo privilégio de que desfruta em ser tão honesto e centrípeto (desta maneira vê a si) nas suas atribuições de avaliador.

“Um minuto é uma eternidade para quem está sofrendo”, seu primeiro longa-metragem, já vencedor do prêmio Aurora na 28ª Mostra Tiradentes, foi co-dirigido pelo amigo sergipano de duas décadas Fábio Rogério. Dele, de sua experiência como editor excelente e ritmado, veio a ideia de realizar uma obra cinematográfica a partir do que Wesley é, de seus registros no celular sobre o cotidiano na casa da família em Aracaju. (Uma curiosidade é que Rogério chegou a duvidar de ter mesmo composto um filme ao final do processo de edição…)

Os pequenos vídeos dentro do longa mostram o quintal de Wesley, seus jabutis, galinhas, patos e cachorros no cio, a casa, a tela de tevê, o banho de chuveiro como que nascido de um filme de Totò (o primeiro no qual atuou, “Fermo con le mani”, de 1937, no qual se desenrola a gag em que o ator se banha de cartola). Neles estão também a pia cheia ou vazia, a faca, a mãe Rosane – filósofa de mando e origem, a ironizar sobre o filho querer tudo, menos o que tem -, muita água de chuva inundando o quintal enquanto escasseia a água de uso (haja inconsciente para rolar), as doações que alimentaram a família durante a pandemia, a vivacidade do diretor combinada a uma melancolia agitada, seus momentos de pânico, alguns filmes que ele viu, os parágrafos de uns livros lidos, os seus pensamentos que são um sentir e um sempre inesperado humor, capaz de ora esfriar, ora animar os sentidos do espectador lanceado.

Foi só quando vi o filme ontem, numa sessão do Cinesesc dentro da 13ª Mostra Tiradentes São Paulo, que entendi melhor o Wesley com quem passeei feliz horas antes. Ele está preso ao cinema. Isto é bom, ocasionalmente ruim? No filme, a certa altura, o diretor indica a exaustão de abrigar na mente uma câmera que tudo enquadra, junto a uma moviola imaginária constante, a determinar o ritmo e o movimento desses enquadramentos. A sua parece ser aquela prisão que implica prazer e que ocasionalmente pede liberação, assim como um rio contido, de repente, vaza pela cidade. Eis talvez por que seu pênis apareça tanto no filme. Este seu amigo no mais da vida “desereto” (mas não deserto) pode desprender em jorro diante de uma atemorizante faca polanskiana colocada na pia. E isso pode ser tanto o começo quanto o fim do eterno ciclo que, um dia, ele espera encerrar por deliberação pessoal.

É um filme feito de dor, mas também de amor e humor. Por me sentir amiga de Wesley, tantas vezes temi por ele, chorei por dentro, enquanto, na mesma fileira em que eu me sentava na sessão, ele ria alto de si próprio em tantas situações nem tão divertidas assim dentro do filme. A naturalidade com que uma sequência de seu inconsciente se segue a outra, com tantos bichos na casa a revelar essa imanência-transcendência, me lembrou aquela do diretor Luis Buñuel, suas aranhas, escorpiões e insetos colocados nos filmes sem razão aparente, mas a espetar os sentidos dentro de uma narrativa que se liga à vida. Wesley me pareceu buñueliano também por não saber o que fazer sem o cinema, e por atuar junto a um condutor consciente, capaz de expressar todo o peso de sua arte. Seu Fábio Rogério é como o roteirista Jean-Claude Carrière para o diretor espanhol, um artista a organizar o fluxo.

O filme que custou apenas 2 mil reais (gastos, em verdade, para a confecção do cartaz e das legendas em inglês exigidas pela Mostra Tiradentes) tem tanto mais, até um divertido cu piscante! E os efeitos visuais nascidos da precariedade da câmera surgem sublimes, como aqueles que Wesley produz ao agitar o celular, indicando “loucura”. Só posso esperar que seu filme jorre em novas exibições pelo Brasil e pelo mundo e que o Carrière deste Buñuel o acompanhe, empurre e console, salvando-o para viver e acontecer.

“Conclave”, cinemão tímido

Fui com sede a este filme porque, principalmente, desejei ver Roma por meio dele, os interiores do Vaticano, a atmosfera, a arte. Em parte vi. Também procurava por Isabella Rossellini naquele ambiente que é o seu, afinal. E ela se sai bem (indicada a atriz coadjuvante neste Oscar 2025) como madre superiora a exercer uma autoridade restrita nos bastidores do poder eclesiástico masculino. Sua face fala, ainda que por pouco tempo. Outros três atores, bastante manjados e bons, quem sabe pudessem surpreender.

Eis que não. Eles representam cardeais, reunidos para escolher o novo papa, à moda de suas aparições em filmes anteriores. Stanley Tucci interpreta o mesmo articulador situado em segundo plano (como aconteceu em “O diabo veste Prada”). Ralph Fiennes, indicado ao Oscar de melhor ator, lidera uma grande empreitada, por vezes enfurecido com os outros e consigo mesmo em razão disso (como em “A lista de Schindler”). John Lithgow tem um lado obscuro que acaba por se revelar (“Um tiro na noite”). Para quem acompanha cinema italiano, Sergio Castellitto (“Romeo è Giulietta”) é barbada como picareta cômico, um cardeal que quer devolver o papado aos italianos reacionários. Em razão dessas escolhas, quase adivinhamos o desenrolar da história, que na verdade surpreende ao fim, mas não pelo bem da narrativa. Uma questão contemporânea, ligada a gênero, é colocada sem sutileza na narrativa. Pior que isso, a armação política que elegerá o papa parece inverossímil. 

Também fui ver “Conclave” porque sentia certa saudade do cinemão que já foi a cara do Oscar. E Edward Berger, o cineasta de 55 anos, havia dirigido “Nada de novo no front” (Oscar de melhor filme estrangeiro pela Alemanha, em 2023) com razoável empenho. 

Minha saudade continua. Tenho concluído que o tipo de filme pelo qual espero não pode mais ser feito. Ou não com a mesma força. Aquelas peças a respeitar certas leis clássicas de apresentação da história, com protagonistas, antagonistas, um forte ponto de vista político e bom suspense, não se repetem. “Conclave”, candidato ao Oscar 2025 pelo Reino Unido e Estados Unidos, é morno demais.

Um Iluminado em farsi, com a mão pesada de deus

A mão pesada de deus. Persépolis vai à luta, com Mickey desenhado no casaco. “A semente do fruto sagrado”, longa-metragem candidato a melhor estrangeiro no Oscar 2025, tem de tudo isto, um pouco. É um recado, mais que um filme. Seu diretor, o iraniano Mohammad Rasoulof, de 52 anos, precisou fugir em maio de 2024 para a Alemanha, por onde lançou o filme, já que o governo iraniano o condenara a oito anos de prisão e chibatadas ao saber da aceitação da obra pelo Festival de Cannes.

Em “A semente do fruto sagrado”, gritam as emparedadas pelo regime, as mulheres iranianas que não suportam mais consentir no próprio apagamento. Uma sociedade afundada em teocracia, que confunde lei com providente desígnio, cria ratos executores, e é preciso dar um fim a isso, elas vêm nos dizer.

Como no caso de “Emilia Pérez”, este é um longa de quase três horas em que a primeira parte promete um trunfo. No caso, aqui, o da atenta observação psicológica dos personagens e suas ações. Pouco se julga e mais se mostra neste início narrativo, como acontece na grande arte do suspense. Há uma sombra que só desaparece quando surge a luz sobre os olhos de cinema mudo das jovens. Há um conforto nas mãos da mãe, que envolvem os aflitos e lhes secam feridas, enquanto seus lábios finos proferem ânimo e consolo.

As filmagens feitas pelo celular e incluídas no decorrer da trama dão autenticidade ao que vem sendo discutido. Nos protestos filmados, os jovens exigem um basta à opressão feminina no país, reivindicando uma revolução contra a teocracia vigente. Os reels exibidos no longa referem-se aos protestos de 2022, quando uma menina curda de 22 anos foi morta pela polícia moral por usar um hijab fora do lugar. Uma espécie bonita de balé acontece nesse ponto de “A semente do fruto sagrado”, para logo então sumir. Não há espaço para o suspense crescer, visto que o tempero do clímax se entranha em tudo o que é narrado.

O chefe da família precisa descobrir quem surrupiou seu revólver de serviço, guardado na gaveta do cômodo ao lado da cama, ou perderá a chance de se tornar juiz. Pior que isso, pegará três anos de prisão. Ele vai sendo convencido, por seus superiores, de que a família o traiu. De repente, sem dominar as lições de suspense de Stanley Kubrick, o diretor Mohammad Rasoulof parece querer repetir “O iluminado” naquela paisagem desértica de ruínas onde o personagem do pai enlouquece, mas acaba em uma sequência de embates de dar dó em Chuck Norris.

O grotesco venceu. É o gosto geral. Nada contra ele, claro, especialmente quando bem feito, bem-humorado, socialmente demolidor. Roger Corman, por exemplo, sabia fazer. Descobriu Jack Nicholson! John Waters tinha Divine. Há um grande perigo em tentar reviver a Hollywood dos anos 1970 e 1980 quando se deseja aplicá-la a assunto externo tão fundo e difícil. No fim das contas, tem-se a impressão de que o Oscar enaltece o filme por razões políticas.

Capitães de abril

A Revolução dos Cravos por quem a fez e foi esquecido, segundo relata a diretora Maria de Medeiros em “Capitães de Abril”, presente na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Capitão Maia, representado por
Stefano Accorsi: mais um herói esquecido

Muitos brasileiros talvez ignorem que a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, aquela responsável por libertar os portugueses de uma ditadura de 41 anos, foi militar. Como assim, militares bons!? Mais ainda, talvez não desconfiem que integrantes subalternos do Exército português fizeram essa revolução – para no fim serem invisibilizados e esquecidos hierarquicamente por seus generais.

“Capitães de Abril” (2000), de Maria de Medeiros, explica esse processo de maneira iniludível. Ela é uma intelectual como muitos de seus posteriores não conseguiriam ser. Seu senso de popularidade hollywoodiana (trabalhou em “Pulp Fiction”, entre outros feitos) ajudou-lhe a erigir um monumento histórico português que não prescindiu do humor. Os heróis da revolução retratados em “Capitães de abril” foram substituídos, no calor dos fatos, por militares de alta patente. Morreram jovens ou muito doentes. O fato de Medeiros tê-los ressuscitado para o cinema a coloca no prumo heróico. Sim, Maria é poder.

Capitão do bem versus general do mal

Filha de um pianista, irmã de duas mulheres artistas, ela fez aqui a proeza de filmar todos os heróis em closes de ação. Não são portugueses, contudo, os atores escolhidos para encenar a proeza: Stefano Accorsi, nascido em Bolonha, faz o capitão Maia. O capitão Manuel (Frédéric Pierrot) nasceu na França e Lobão (Fele Martínez), na Espanha. Contudo, há um acento português nos seus intentos puros. Filmada de perto, a “malta” de Medeiros é um trunfo historiográfico e um acerto artístico. 

A diretora Maria de Medeiros

Sessão no Frei Caneca System 6 (às 19h15 do dia 28)

Permanência em lugar nenhum

O filme de Tsai Ming-Liang presente na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo discorre sobre um princípio do cinema, o movimento

Por Washington DC, o caminhar lento
do ator Lee-Khang Sheng,
presente em todos os filmes do
cineasta desde os anos 1980

Meu querido, admirável amigo Wesley Pereira de Castro, o único crítico de cinema que acompanho, me disse sobre “Permanência em lugar nenhum” que era desafiador, porém bom. Wesley, contudo, disse sentir falta do que o diretor Tsai Ming-Liang, da Malásia, fazia antes de iniciar, cerca de uma década atrás, a série de filmes sobre as andanças do monge Xuanzang, da dinastia Tang.

As pedras não são obstáculos

Interpretado por Lee-Khang Sheng, presente desde os anos 1980 em todos os filmes de Ming-Liang, o andarilho de pés descalços e cabeça raspada usa um manto vermelho para percorrer o mundo. E o filme capta seu andar em meio à paisagem, sempre muito lento. Com os braços em suspensão, ele inclina o corpo levemente para trás e coloca primeiro o calcanhar, depois o restante de um pé no chão; o outro pé faz o mesmo movimento e o corpo se inclina para frente de maneira que a passada seja concluída. 

Um pé de cada vez

Não conhecia o diretor, portanto não sei o que fazia antes dela série “Walker”. Mas este filme não me pareceu difícil de ver, até pelo contrário. Ao fundo e ao redor, enquanto Xuanzang caminha, está Washington DC, o obelisco tanto quanto a estação de trem, entre outras paisagens amplas. Ninguém o interrompe, às vezes nem o percebe, exceto alguns turistas que param para fotografar. Os dias podem ter sol ou garoa, pode haver piscinas de água ou regatos com pedras a transpor, e o monge estará sempre a caminhar do mesmo jeito. O filme é isso, sem música exceto no final, mantendo o barulho original do lugar – às vezes pessoas falam e os passarinhos cantam, às vezes é a chuva que cai.

Olhando para as coisas

De maneira paralela, há o forasteiro interpretado por Anong Houngheuangsy a conhecer a cidade, olhando seus interiores e preparando seu miojo. Onde os dois se encontram? É um filme bem editado, em diferentes planos longos entre si, com fotografia solar. Um filme sobre o movimento, princípio do cinema. Um filme-meditação.

O diretor Tsai Ming-Liang

Sessões no Cine Sato (18h do dia 26) e no Cinesesc (16h50 do dia 28)

A cozinha

Estava na hora de a chatice dar o ar da graça na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo 

Rooney Mara, loira desejada, e Raúl Briones,
mexicano sangue quente:
os estereótipos fazem a festa

“A cozinha” não é um filme sobre cozinha. Duro dizer isso, mas não é. Em alguns momentos, enquanto assistia a minha sessão no Reserva Cultural, um cinema do Jardins paulistano, me perguntava por que o diretor mexicano Alonso Ruizpalacios, de 46 anos, não havia usado seu terceiro longa para cair matando sobre o gosto culinário decadentista do burguês. Ettore Scola já havia dado a dica em “Hostaria!”, maravilhoso episódio do filme “Os Novos Monstros” (1977) onde tudo acaba… em farinha. Mas assim não foi.

Ruizpalacios trabalhou o roteiro a partir de uma peça de Arnold Wesker que desconheço. Preferiu, em lugar de falar sobre cozinha, fazer um filme sobre cozinheiros. Partidos de todas as nacionalidades subjugadas – marroquina, mexicana, preta do Brooklyn – a restar emparedadas na Estátua da Liberdade, que os renegou às estações de comida de um restaurante fast food, eles não têm histórias no filme, mas estereótipos. Os mexicanos são esquentados, machistas como convém. O patrão sádico é o senhor Rashid. E a estadunidense do filme, a garçonete loira disputada por todos os homens, interpretada por Rooney Mara, pede a seu amante, o cozinheiro Pedro (Raúl Briones), que fale com ela eroticamente em espanhol. Foi a parte do filme que me fez rir.

Overreacting. Todo mundo se inerva demais, grita demais, fala demais, colocando as entranhas (hum) para fora quando menos se espera. Não há clímax. Não há ritmo. Tudo é pequeno e já é muito. Um gesto bruto corresponde a uma tragada intensa, que vai resultar num prato quebrado, seguido de uma cuspida no chão, uma estante de alumínio amassada com soco e o bater das mãos acoplado a uma risada mortal (um detalhe é que Rooney Mara vem a ser a esposa de Joaquín Phoenix, bastante conhecido por seu papel como Coringa).

Há também o famoso aborto traumático, não assimilado pelo latino que quer ser pai e pela grávida que sangra no pós-clínica. Mas é melhor eu não me estender nas objeções. Na sessão a que compareci, os espectadores aplaudiram ao final. Porém, me pergunto de que adianta filmar para não fluir. Um filme que não pensa nos encadeamentos nem nas falas, em que os atores trabalham cada um por si e em que a fotografia, a maioria em PB (fica azul numa sequência no frigorífico), parece filtro, não arquitetura. Fazer um filme chato pra quê?

O diretor Alonzo Ruizpalacios

Sessão no Espaço Augusta 1 (21h10 do dia 29)