Só nos cruzamos por toda parte

E se um dia você fosse o fotógrafo Alécio de Andrade e recebesse esta carta de Julio Cortázar?

“Caro Alecio, não estarei em Paris por ocasião de sua exposição no Espace, mas a imaginarei à minha maneira em algum lugar de Cuba ou da Nicarágua. Se durante o vernissage acontecer que o empurrem suavemente, pense que se trata de minha longínqua mensagem de amigo, e responda com um tapa nas costas, de modo que eu também receba o eco mental. (Aliás, é mais barato do que o telefone.)

Você não ficará muito surpreso com minha ausência, pois já faz alguns anos que só nos cruzamos por toda parte. Bem, toda cruz cria um ponto central de intersecção, e entre nós esses pontos se chamam cumplicidade e pertencimento à raça inamovível dos cronópios. Eles também se chamam Paris, cujas fotos fizeram a mais maravilhosa das acupunturas.

Aí está, você vai ver que em breve nos cruzaremos de novo. Vamos tentar fazer melhor, encontrando-nos exatamente no ponto central, onde espero que haja um bistrô.

Seu amigo Julio”

a imprensa dói

o problema do jornalismo neste triste país é que ele não mais representa o espaço público.

seus interesses são excludentes em relação às aspirações de toda a população.

estou falando de jornais, revistas e emissoras de televisão sem exceção.

a gente luta na internet, nos blogs e nas redes sociais contra essa opressão, mas tais espaços são concessões momentâneas, a todo momento capturadas por quem tem o poder sobre esses sistemas.

sempre achei ingênuo acreditar que a internet nos libertaria assim do nada.

no congresso dos Estados Unidos, ainda colocaram o zuckerberg contra a parede. vocês imaginam uma situação dessas por aqui?

refundar a legitimidade de nossas aspirações é um trabalho sufocante. quando nos pomos a fazer isso somos geralmente solitários, voluntários, contra a imprensa que deveria ser a responsável por essas ações.

se o jornalismo existisse à larga, já teria explicado, por exemplo, como operam esses hackers que derrubam páginas de informação e protesto e ameaçam de morte suas administradoras.

são fanáticos ou mercenários? quem paga para que eles existam? empresas, políticos? qual o perfil desses criminosos?

é difícil descobrir?

jornalismo é difícil. exige juntar as peças. pensar é penar.

há setoristas na justiça, no ministério público, na polícia, no congresso. por que não fazem seu serviço?

porque sem grana não conseguem.

porque os jornais não querem.

porque por trás dessas ações criminosas podem estar os próprios financiadores dessa imprensa.

(sempre me lembro que a folha considerava ato grave especular sobre a situação financeira dos bancos.)

o que as escolas têm ensinado aos jornalistas, não sei exatamente.

desconfio que de maneira geral as escolas alimentem mais o glamour da profissão, o sucesso a qualquer preço, a fama, a vaidade de aparecer, de se empregar na globo, de ser repercutido por ela do que de procurar a verdade.

ética, então, esqueça.

a imprensa é um dos mais importantes responsáveis por este fascismo anunciado a nós.

o amor de que preciso

alegre e triste,

por razões pessoais e nacionais.

não sei onde colocar o que aprendi.

não há interesse.

nem amor.

um amigo gay me diz: não quero saber de “gay pride” se não tenho “gay love”.

adorei ouvir.

eu aprendo com quem amo.

sem amor não vivo.

me superestimam.

falo daquele amor, mesmo, vestido de gestos e falas de carinho e estímulo.

amor, que sendo só carinho, já será o amor de que preciso.

F for Fake

Rachel Dolezal aos 37 anos

Alguns documentários na netflix fazem a gente pensar. Bem alguns.

(Vocês sabem, não boicotei a netflix por causa do José Padilha, não faria isso logo por esse canalha, caramba!).

E assisti hoje àquele sobre a Rachel Dolezal.

Me senti impactada, digamos…

Ela é aquela branca americana que se fez passar por negra e impressionou os negros por sua liderança pelos direitos civis, pioneira do Black Lives Matter.

Depois, a máscara de seu “enegrecimento” se desmancha e a comunidade negra cai de pau em cima dela. Fraude mais evidente que esta não há, declara Whoopi Goldberg no programa de mulheres The View.

Mas a questão é que, neste doc, Rachel evoca uma explicação direta para seu comportamento. Ela levanta uma questão identitária para si.

O filme, disponível na netflix

Ela se diz trans-racial. Uma trans não de gênero, mas de raça. Alguém que nasceu negra num corpo branco.

Tipo o Steve Martin do filme “O Panaca” (The Jerk, 1979), que, criado por negros, se acha um, mas sua cor vai por terra quando ele ouve a música dos brancos e decide… dançar.

Podemos ser trans de gênero mas não de raça? Podemos nos transmutar em mulheres sem saber o que ser mulher significa? Podemos ser negros sem que tenhamos experimentado o horror decorrente da rejeição à simples cor de nossa pele?

Jovem de ascendência checa e alemã

A jovem nasceu loira de olhos azuis, de pais abusadores, em uma cidade supremacista dos Estados Unidos. Os pais adotaram filhos negros. E os maltrataram, especialmente uma menina, abusada sexualmente pelo irmão branco.

Os pais usavam chicote pra castigar a menina negra. E não aceitaram quando ela pretendeu denunciar o irmão violador.

Rachel, alma de artista, com a interpretação (entendida como fraude) no sangue, fugiu desse lar opressor. Casou-se com um negro infelizmente opressor também; teve um filho, depois outro.

E no fim acolheu a irmã violentada. E resolveu inventar que tinha sido abusada pelo irmão pra ajudar a irmã a denunciá-lo.

Os pais se revoltaram e a revelaram como branca justamente quando mais sucesso ela fazia entre os negros sob sua liderança.

O documentário de Laura Brownson, de 2018, visita sua vida arrasada. Ela é uma mulher culta, formada em estudos transculturais, mas só lhe sobram os penteados negros pra fazer.

Ela não tem dinheiro, mas dois filhos. Torna-se mãe do irmão negro mais novo, que havia sido adotado pelos pais, e ele está com 17 anos. Outro seu filho biológico chegou aos 13. E ela, aos 37, espera um terceiro.

Rachel e o filho Franklin

Ninguém a entende. Os jornalistas a sacaneiam o tempo todo (esta parte eu entendi bem). Ela decide escrever sua biografia. Vende 500 exemplares. Ataques por todos os lados.

Ela não pode fazer nada. O filho de 13 nem a suporta mais. Rachel não abdica de ser negra. Seu filho de 17 preferiu a Espanha.

Quem é Rachel?

Às vezes durante o documentário me vinha a imagem do escritor Gustave Flaubert no tribunal, a defender o personagem de Madame Bovary. E eu dizia a mim mesma, não pela questão racial, mas pelo modo que me sinto no mundo, sem pares, sem concordância, mas inexplicavelmente insistente em viver: “Rachel sou eu.”

Lorca no espelho

“Pipas 096”, 1997

Satisfatória. Assim muitas vezes German Lorca se refere a cada etapa de sua obra durante o minidocumentário dirigido pelo filho José Henrique e exibido na retrospectiva “German Lorca – Mosaico do Tempo, 70 anos de fotografia”, no Itaú Cultural, em São Paulo.

Um artista que classifica como satisfatório cada passo de seu trabalho deve falar a verdade. Não se vive no mesmo patamar, alto ou baixo, quando se produz algo de valor indefinível como a arte. Satisfaz-se com ela. Ou não se satisfaz. E segue-se adiante. Sem que quase ninguém, exceto talvez o artista, consiga entender por quê. A arte está no futuro que dificilmente nos cabe ver.

“WTC Reflexo”, 1970

Em 96 anos de vida, 70 de fotografia, German Lorca segue sempre. Não só por São Paulo, vejam. São Paulo quase não está em jogo aqui. Sua cidade não é documental. O fotógrafo olha para si.

E está armado da ideia de satisfação. Se ela não existe ainda, eu devo procurá-la. Sorrio enquanto caminho. E devo seguir longevo, lúcido, agitado e feliz, mesmo se a procura é dura. A indefinível pirâmide, somente eu posso ver. E estou chegando lá!

“Vaticano colunas”, 1970

Apenas suas fotografias não sorriem. São sóbrias declarações da difícil permanência humana entre as quatro ou mais linhas do campo da vida em que se deve jogar.

Às vezes, são fotos que aspiram ao encaixe, à iluminação, à elevação, como esta do menino que empina pipas.

“Parque Dom Pedro”, 1949

Às vezes, são espelhos de desdobramentos, de inquietudes de quem se perde na cidade  e se fere por seus ângulos, ou busca clareiras.

Às vezes, ele queima por dentro, como quando adota o processo de solarização, aquele em que faz rápida exposição da imagem à luz durante o processamento do filme…

A hora em que o diabo entra!

“Diable au corps”, 1949

Lorca descreve linhas. Vive por elas. Tenta delimitá-las. Elas estão por toda parte, especialmente quando ele faz “arte”.

Sim, porque ele tem esse modo de dizer: quando não trabalho, quando não negocio, sou artista.

E, quando trabalho, tenho felicidade do mesmo modo.

“Moda”, 1960

Mas sempre procuro a linha. Preciso dela. Meu canteiro. Pra trabalhar, pra viver. Fujo dela enquanto a persigo. Gatos e ratinhos.

“Trópicos ou Homem com Guarda-Chuva”, 1951

Esta exposição começa com seus selfies, a provar o que todo mundo a esta altura já sabe, que os selfies, ou autorretratos, existem desde muito antes da internet, desde que o homem começou a fazer parte de um concerto (ou conserto) de ideias, de um ideário do capital. Quando o sistema, antes religioso e perene, disse ao homem “vire-se, você está só”, ele não teve jeito senão parar de olhar um pouco para deus, engolfando-se em si.

Selfies!

O intenso, em Lorca, é que ele faça essa autoprocura muito além dos selfies (que, me perdoe a curadoria, não deveriam começar a exposição, visto que no fim das contas se tratam de ilustrações rasas da personalidade do artista, brincadeiras de esconder).

Sua autoprocura tem, pelo contrário, algo de fé. Ela se expressa não só quando Lorca exibe homens e mulheres religiosos vestidos à maneira medieval, misturados em tarefas tão mundanas como atravessar a rua com uma criança ou pegar a barca enquanto lê um jornal.

“Irmã de caridade”, 1970

Lorca é religioso quando busca um princípio, uma devoção, um centro, quando deixa escapulir pelo Anhangabaú a girafa de um trabalho de publicidade e a coloca em um cercado à vista de todos.

“Ford Jeep Girafa”, 1962

Não é uma imagem fácil de ver.

Todos estão à volta se situam entre o sorrio e o calafrio.

A girafa pode fugir.

A girafa é ele. É seu trabalho.

Grande por se conter.

Mas não lhe peçam contenção, ok?

Imagem interior

Cabeça de bronze de um oba de Ifé, em 1200.

O oba era um sacerdote-rei em Ifé, cidade iorubá no sudoeste da Nigéria, centro da metalurgia do país entre os séculos XI e XIV.

As cabeças de Ifé se destacam não apenas pela sofisticação técnica, mas pelo idealismo alinhado à serenidade das antigas esculturas egípcias e gregas.

Contudo, as culturas do oeste africano tendem a fazer suas imagens em pares. O par desta, representação externa do rei, não seria a rainha, mas um cilindro diminuto e ereto, uma abstração dotada de olhos – a imagem do interior, do homem espiritual.

Óleo sutil e seus olhos

“Retrato de uma Senhora”, de Rogier van der Weyden, 1455.

Neste quadro, Van der Weyden, sucessor de Van Eyck como artista da corte, pinta a filha ilegítima de seu senhor, o duque de Borgonha.

A arte de Van der Weyden explora uma gama tonal profunda e o modelamento mais sutil permitido pelos óleos.

Celebridade internacional nessa década, ele expressa a um só tempo o viço pálido e sensual da jovem, seu orgulho e seu páthos.

nojo,

náusea,

azia desse brasil.

desse roubo do judiciário.

dessa justiça inexistente, que nunca nos vale nas causas cotidianas.

desse cotidiano que nos empurra contra as paredes plenas de mofo e insetos, fechadas contra nós.

azia desse país escravizado.

país abolido.

país da alcione.

país triste,

ainda trópico,

danado por deus.

Para ler Irving Penn

“Sombra de chave, arma e fotógrafo”, 1939

O que vou dizer aqui é muito peculiar.

Mas este é meu blog mesmo.

Esta sou eu.

Fui percorrer Irving Penn cheia de esperança e voltei cabisbaixa.

Admiro seus retratos, mas a experiência da exposição no IMS-SP me cansou um pouco.

O trajeto, retrospectivo de seu centenário de nascimento, parecia apresentar o autor em ângulo idêntico.

Ou seria má decisão curatorial, mesmo, repetir suas imagens…

Tudo mastigado e desvitalizado.

(Seus torsos e cigarros eram estudos, porém quase apresentados como colecionismo. E quem precisa de mais fotógrafos-colecionadores?)

Uma natureza morta bem morta.

E o tão citado retrato da Audrey Hepburn me assustou.

Um tal de torcer o retratado e submetê-lo a um esquema!

Audrey Hepburn, 1951

Mas pelo menos a Audrey riu dele, um sorriso com estranhos lábios de palhaço.

Gostei muito de algumas imagens, contudo, especialmente as placas e sombras que ele perseguia no começo.

Em 1941

Adorei ver seus personagens já esquecidos pelo contemporâneo, como T.S. Eliot, Balthus, Carson McCullers ou Spencer Tracy.

Carson McCullers, 1950
T. S. Eliot, 1950
Balthus, 1948
Spencer Tracy, 1948

 

Interessantemente obsessivas suas geometrias em V!

No mais, penso que Penn, ele mesmo, se cansava de fazer tudo tão igual e ia ao laboratório se divertir, turvando as imagens com novas camadas de química, como mostra uma sequência interessante exibida lá.

Saí do IMS querendo esfumaçar eu mesma todas as imagens do artista.

Flamejar?

O público de hoje era majoritariamente da moda.

Parecia desconhecer que tudo aquilo teve um antecedente com grande frescor, como a obra de Martin Munkacsi, suas modelos no ar, ou de August Sander e seus retratos de açougueiros, de homens em suas profissões (que Penn refaz de maneira caricatural, um procedimento constante, aliás).

Quase interrompi uma conversa de apreciadores que viam pioneirismo na exposição inteira, mas disse a mim mesma: “Menina, quieta, como assim?”

Tudo parecia carecer de movimento.

E eu me sentia meio claustrofóbica.

Mudou o Natal ou mudei eu?

Vou de German Lorca logo mais e espero viver a alegria de sempre.

Não percam o Carlos Moreira na galeria Utópica, hein?

Osmar poeta

Fazia décadas que a gente não via o Osmar no Rei das Batidas, à porta da USP. Fomos ao bar no fim de semana passado e ele não se lembrou de nós. Mas como esqueceríamos seus poemas e ele mesmo? Pois Osmar, a quem hoje as crianças chamam tio, poetizou pra nós. 💜

https://www.facebook.com/rosane.pavam/videos/1866631923453831/Maurício e Osmar, o bom de palavra, no Rei das Batidas