Um longo penar

Admirado por Machado de Assis e um dos mais prestigiados autores de seu tempo, José de Alencar foi um expoente do nacionalismo romântico, aquele que buscava no indígena uma “identidade brasileira” original.

Ao argumentar longamente a partir de um trecho do texto de posse do novo chanceler, a colunista Eliane Brum nos lembra hoje desse nacionalismo praticado pelo escritor, como por Gonçalves Dias, mas deixa de lado outras facetas de Alencar.

No teatro, Alencar promoveu uma comédia que intitulou “realista”, didática, de bons costumes e polida, que Machado buscou sem muito sucesso seguir.

Na política, Alencar defendeu que a escravização dos negros, então agonizante e sob descrédito generalizado, se extinguiria naturalmente, sem a necessidade de um decreto de abolição. E que nosso sistema econômico colonial, baseado no trabalho forçado, entraria em colapso se a libertação ocorresse de forma indiscriminada.

Machado não confrontou diretamente este ponto. Alencar era uma figura inalcançável, quase paterna, que muito contribuíra para o reconhecimento literário de seu discípulo.

Em seu artigo hoje para o El País, Brum não ressalta esta passagem ao evocar o Alencar citado pelo chanceler aloprado na posse. E anuncia (acho um verbo adequado) que nos explicará o porquê de Araújo ter mencionado o autor de “Iracema”. Brum tem todas as certezas e pacientemente as mostrará a seu leitor.

Ela argumenta que Araújo descontextualizou Alencar pra tentar provar a grandeza de um ensino isento de “ideologias de marxismo cultural”. Mas que passou longe de seu objetivo, já que o discurso de Alencar fez sentido naquele tempo de formação e que não faria hoje, adaptado canhestramente por Araújo para uso nostálgico e manipulador.

Tudo bem, o chanceler é um banana que talvez nunca tenha ouvido falar de contexto histórico. Contudo, se Brum tivesse notado o importante detalhe da defesa de um sistema colonial moribundo escravagista pelo Alencar, certamente teria melhorado sua argumentação.

Porque é o tolerante à escravização que Araújo defende em Alencar, não o nacionalista de puro ideal. É outro o modelo que o chanceler nos deseja impor por meio da evocação de um trabalho literário.

Me deu a impressão de que a jornalista sabe sobre Alencar tanto quanto o

colegial que um dia fomos nós; que pegou uns livros dele da estante e adaptou trechos a sua convicção no momento de escrever.

Tem sido assim com a Brum de que tantos amigos parecem precisar. Desinteressada da pesquisa, ela fala o que sua formação mediana e sua intuição lhe ditam. Quando isto já bastou a um pensador, a um jornalista, por mais que ele conheça a língua portuguesa e não dê vexame ao escrever?

Intuição não resolve tudo.

Pensar é penar.

silêncio nesse imenso salão!

já se apressam em reabilitar o strume, sim!

links e materinhas simpáticas e higiênicas, com aspas e tudo, avaliando a experiência governamental do jestor kultural do município…

e agora ele vai jogar tênis porque ninguém é de ferro, né?

pobre moço!

reabilitar é a palavra!

aquela mesma usada para fazer retornar a credibilidade (como se tivesse existido) do professor de literatura de uma universidade americana de quintal, representante da “esquerda esperta contra o pt”, que mandava o dick pras alunas…

ou para restituir o “pensamento” daquele destruidor de festivais de música que não lavava a própria louça, arrancava o pedreiro dos artistas e roubava o cartão de crédito das moças vestidas pra cooptar!

grandes pensadores!

é claro que strume vai virar gênio outra vez!

mas, rosane, como vc sabe disso?

pô, quanto azedume!

pessimismo!

torcida contra!

sim, mas olha, sem me gabar…

eu sei mesmo tudo!

eu sou mulher!

e qualquer denúncia contra homens truculentos e machistas, ou que pratiquem o silenciamento alheio, neste mundo liberalzão em que vivo, vira simplesmente um “não vi nada demais no que ele fez”…

SHHHHHH!

Silêncio nesse imenso salão!

nem preciso torcer!

(e tchau, pq tudo o que a vida me pede é a coragem marie kondo para arrumar as estantes, estas que ela nem precisa arrumar, porque tem só 30 livros e tá é bom!)

Os goebbels imprescindíveis

Os fascistas não se lixam pra economia.

Pra governar.

Ganham a eleição apenas para motivar à destruição as multidões temporariamente iludidas por segurança e estabilidade.

Haja espetáculos, xingamentos e palavras de ordem para que o oprimido tudo aceite e impulsione.

Enquanto isto é feito eles concentram dinheiro e poder para a burguesia, os donos de terra, os bancos, a indústria de armas.

Num modelo fascista de origem, uma elite nacional era a receptora dos recursos.

Agora não somente.

No Brasil, caso inexista resistência, praticaremos a conhecida expansão territorial. E, detalhe, não para nosso usufruto, mas principalmente para que EUA e seu estado-terrorista satélite, Israel, possam acumular e controlar nossas riquezas naturais.

É preciso incutir na multidão ignorante a extrema necessidade de combate.

O fascista transforma a guerra, o litígio, em coisas imprescindíveis.

Por isso a publicidade constante não é uma opção, mas uma necessidade.

Antes, Hitler e Mussolini precisavam de grandes eventos militarizados ao ar livre pra exercer esse fascínio. E fortaleciam o rádio, seus jornais e o cinema pra transmitir tais ideias.

Durante o fascismo italiano, funcionava até mesmo uma revista de crítica de cinema pelo bem da indústria.

A revista, dirigida pelo filho do Duce, acolhia entre seus escritores um jovem Antonioni, por exemplo.

Só pra vocês terem uma ideia da importância do cinema então…

Mas no Brasil de hoje nada disso parece ser tão necessário.

Basta a tevê do bispo.

O Carlos Bolsonaro.

E os propagandistas-pastores-postosipiranga para as ideias do desmonte, ministros e primeira-dama eficazes na comunicação com velhos e potenciais fiéis.

A bobajada que sai de suas bocas sujas, sempre prontas ao ataque, existirá portanto cotidianamente e em grande quantidade.

Aposto que danares e bozóica ganham um dinheirinho específico pra aparições cor-de-rosa…

“Toma aí um trocado pra comprar na Animale do shopping” é a frase que me vem.

até porque

Nunca trabalhei numa redação livre.

Nossas opiniões como jornalistas e mesmo nossas apurações, se em direção contrária aos interesses do dono, nunca existiram no meu Brasil.

Só para dar um exemplinho tosco, não pude publicar grande matéria sobre uma exposição do David Bowie na última dessas redações em que trabalhei.

(O dono não gostava do Bowie e isto bastava, entendeu?)

Nós apenas tentávamos passar a notícia, ou nossa consciência sobre a verdade dos fatos, por debaixo do pano, meio que distraindo as feras.

E sempre pareceu insulto aos patrões que um jornalista tivesse preferências políticas diferentes daquelas da direção.

Na Folha, durante a entrevista de seleção, tinham esse interesse salivante em saber se a gente era filiada ao PT.

(Outra tosqueira pra vocês entenderem o joio nesse trigo todo).

Nunca trabalhei numa repartição pública.

Mas fico pensando que numa redação de estatal escrevemos para todos os brasileiros, pagos por todos eles.

E que não caberia então vigiar preferências políticas pessoais de profissionais habilitados a informar, muito menos demiti-los apenas por preferirem aquele partido a este.

Mas é só uma impressão minha mesmo enquanto espero o exame de sangue sair.

Até porque o jornalismo, né.

O cinema, no fundo

Perecer em público. “Roma”, Alfonso Cuarón, 2018

Me tornei espectadora do netflix por razões de rendição.

Não posso (embora deseje cada dia mais) estar apenas diante dos filmes do passado com os quais me divirto sozinha e aprendo pra multidão.

Os filmes novos podem não ser lá grande coisa, mas significam combustíveis para a conversa com as amizades.

E você não começa o fogo sem a faísca, como dizia o velho Springsteen (sobre quem vou comentar o especial da netflix, só de raiva, né?)

Minhas idas ao cinema têm sido raras situações de lazer também porque o dinheiro pra entrada, que já é muito, não basta pra custear a coisa toda.

Tem espera, chuva, café, estacionamento, tosse, dor nas costas e celular do vizinho antes de a gente concluir que viu na tela uma novela brasileira ampliada pro mau humor francês.

Quando eu escrevia sobre filmes para a grande imprensa (a luta toda que vocês conhecem), ganhava credenciais, streamings e dvds de lançamentos e me convidavam a ver tudo antes, nas sessões de imprensa intituladas cabines; na verdade, um salão de exibição onde encontrávamos aquelas más pessoas do passado sem a possibilidade de fugir, nem se as luzes se apagassem; um expressionismo danado, senhor Caligari.

Agora que somos sozinhos, eu e meu bolsinho, sozinhos e felizes, preciso de universitários pra baixar filmes novos no torrent. Ou de DVDs piratas.

Muito esforço pra nada.

Vamos de netflix mesmo.

Ou MUBI.

(Mas MUBI é pra filme de arte, e as amizades preferem assuntos mais variados que este, tramas que, digamos, lhes respeite o combalido coração).

Dores de parto, parto de dores

“Roma”, de Alfonso Cuarón.

Resisti a ver.

(o trailer aqui https://www.imdb.com/title/tt6155172/videoplayer/vi3452418585)

Não só porque ri muito com aquele seu anterior “Gravidade”, que era pra ser um filme sério.

Ou porque me aborreci um tanto com seu Harry Potter, quando levava meus filhos pra ver a saga (eles preferiam os livros).

Temi pelo filme autoral de um diretor de estúdio sem ideias próprias.

Aquelas longas sequências de melancolia em p&b, no trailer…

Encarei-o porque era Natal e esnobávamos o tempo.

E descobri que Cuarón tem muitas ideias.

Não exatamente próprias.

Basta! Tem ideias.

E o que ele faz de novo é condensá-las com um propósito muito bom, que é o de narrar a própria história.

Dizem que “Roma” é o “Que horas ela volta” mexicano.

Pra mim, uma grande injustiça com o Cuarón.

Porque, ao contrário da Muylaert, este é um diretor com conhecimento de cinema e técnica pra se permitir um sonho de invenção (algo obrigatório nos grandes diretores antes; Chaplin ou Welles se sentiriam menos que seres humanos se não inventassem alguma coisa jamais provada a cada filme, porque, senão, de que serviria filmar?).

“Que horas” é novela, a começar pelo título ruim. Novela brasileira, interpretada pela Casé perdida no tiroteio, estranhamente convencida de que escapará de todas as balas.

(Olha eu, aqui, falando mal de novela para os brasileiros.)

Contudo, reconheço que a diretora acertou em cheio ao mostrar como a educação do pobre é um incômodo central da classe média, essa aberração marilena do golpe.

Roma, amor, milícia

Imagino Cuarón afetado pelo mesmo constrangimento. O de ter crescido graças ao amor de uma babá apartada da própria família, impossibilitada de ter a sua, em um México convulsionado pelas milícias.

A jovem menina que cuida de uma família inteira, mas usa outra língua com os seus. O “mexicano” é o espanhol do poder local. A família que representa a de Cuarón fala mexicano com ela e lhe dá o lar apartado, ou o que conhece por amor.

Amor, Roma.

O nome do bairro onde Cuarón cresceu.

Muito inteligente que o filme se torne “Roma”, uma vez que o background cinematográfico e histórico é mesmo o do cinema italiano. Mulheres e crianças como micro heróis de uma revolução, à moda do que ensinou De Sica nos roteiros de Zavattini.

Neo-realismo às vezes, mas só às vezes…

O fundo é o plano primeiro

Porque se trata de um filme relacionado a um momento imediatamente posterior, nada heróico, do italiano.

O momento de Valério Zurlini, por exemplo, diretor que nunca esteve entre os “primeiros” da Itália.

Ou de Fellini, que estendeu as ideias do mentor Rossellini para as suas próprias – e assim se separou do amigo.

“Oito e Meio”, Federico Fellini, 1963

Diretores a conduzir muito bem seus personagens ao drama, mas que não os encerram no drama gritado de “novela”; ao fundo deles, corre a realidade, aliás como fez Buster Keaton em “A General”. O fundo é a nossa história, sua ultrapassagem, o contexto.

As coisas não deixam de acontecer ao fundo mesmo que em primeiro plano transcorra o drama particular, ensinam esses diretores, esse momento.

Valério Zurlini, ele próprio, contratava até mesmo um “diretor de fundo” para conduzir as sequências impressionantes, como em “Verão Violento”, de 1959.

“Verão Violento”, de Valério Zurlini, 1959

Sessenta anos atrás!

Um tipo de diretor, o tal do fundo, que desapareceu da historiografia.

Cuarón encena perturbadoras batalhas em localidades públicas, como faz outro sucedâneo do neo-realismo, a “commedia all’italiana”.

O sufocamento de viver, consumir e perecer no parque de diversões, na praia, aos olhos comuns.

Cuarón conduz, como se disse, ele próprio tudo, o primeiro plano e o além dele.

O primeiro plano e o além dele

O homem-bala à distância, no parque, enquanto a protagonista caminha lentamente à espera de encontrar quem lhe abandonou…

A protagonista grávida na loja de móveis, à procura de um berço, enquanto se dá o confronto entre milicianos e estudantes, primeiro fora, depois lá dentro…

Sem mencionar um parto dessa dor…

Aulas de cinema que o cinema desaprendeu.

Um filme que não concede à superação, ao humor, ao sublime.

Um longa para materializar a tristeza…

Mais que ela, a distopia.

Nosso tempo.

Nossos homens nascidos mortos.

Eu então lhe diria, se isto lhe fosse possível:

Vá até a sua poltrona vê-lo.

Morte e graça do cowboy

Sou uma pesquisadora de humor.

Especialmente, do humor no cinema.

Humor relegado.

Diria pisoteado…

E ontem assisti finalmente aos Cohen de “The Ballad of Buster Scruggs”, na netflix.

(o trailer aqui https://www.imdb.com/videoplayer/vi921942553)

Sim, netflix, porque ingressos de cinema têm sido caros, não é?

E desconfortáveis as salas durante a experiência, exceto por aquelas sessões em que acontecem o “Lula livre” e o “Ele não” e a gente libera a raiva, mas raiva não pode, ahn, a tristeza.

Então.

Me sinto feliz que os Cohen tenham partido pro streaming (meu teclado vermelho quis screaming, ele sempre me adivinha…)

Os Cohen, esses herdeiros a cada dia de uma comédia peculiar, à italiana!

Muito apreciados por Mario Monicelli, que via neles o esforço pelo exercício essencial do cinema mudo.

Essa comédia que estudei no doutorado lá na USP…

(Desculpem por isso, não vinha sentindo a necessidade de frisar.)

Bem, trata-se de um filme de episódios que brinca com o gênero western na sua maneira fabular.

Os episódios se abrem como um livro, com ilustrações a evocar uma época editorial.

Cada página cita uma frase-chave de um diálogo que vai correr.

E o ilustra com uma filmagem.

Eu começo pela evocação do livro porque, de tão fantástica, me transporta a uma recuperação infantil, que é um dos procedimentos do humor.

Eu era leitora de histórias ilustradas.

Exatamente como acontecia com a Alice de Lewis Carroll.

E me lembro de um livro perdido na casa de meus pais em que as ilustrações não eram as originais de John Tenniel para as histórias do Carroll, mas muito icônicas e evocativas a seu modo, apesar de subproduto da Disney…

Não li livros sobre western, mas adorava as HQs italianas do Tex.

Western sempre foi um gênero muito bem absorvido pelos italianos.

Esses míticos “nacionalistas” que se veem injustiçados…

Estão nas histórias dos Cohen uma estranha polidez e a graça do cortesão renascentista, personificadas no cavaleiro solitário sobre a poeira.

O cowboy e suas leis, diferentes da regulação social restritiva.

O cowboy e seu canto livre!

O filme é então por isso muitas vezes um musical macabro – o músico Tom Waits aparece extraordinário em um dos episódios.

E nós, como espectadores, vivenciamos cada drama interno ilustrado.

Um entrar no coração dos personagens que não é fácil.

O Fellini de La Strada, por exemplo, comparece à sombra de um contexto determinado, para facilitar esse “acesso”…

As glórias e a pequenez dos homens e mulheres, exemplificados.

E, principalmente, a morte visitadeira.

Em todos os episódios, uma morte ou mais, como a commedia all’italiana normatizou e exerceu.

A morte que realça o drama – ou simplesmente determina a qualidade do humor.

Necessária e inesquecível.

E a morte metafórica, dos sonhos, da civilização.

A carruagem de Maupassant/Ford, o sorriso de Walter Huston…

Tudo o que a cultura cinematográfica nos trouxe e é nossa por direito e transmissão imaginativa.

Isto não é crítica de um belo filme.

Corre perigosamente como uma história de amor.

As armas do crítico célebre

Não foi a primeira vez.

Nos meus 35 anos como jornalista, jamais deixei de sentir o machismo que me perseguia e silenciava.

Chefes e patrões exerceram o assédio e a humilhação em relação a mim e a meu trabalho inúmeras vezes.

Daria um livro sujo se eu contasse tudo o que aconteceu, a rigor, desde os dias de aluna de graduação em jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da USP, lá nos 1980.

O processo é contínuo.

Pouco tempo atrás, fui demitida junto à única outra jornalista de minha equipe cultural para que a revista onde eu trabalhava cedesse lugar a três homens, num golpe a meu ver sem precedentes nesse meio profissional.

O que sofri ontem, portanto, não é novo e persegue essa linha de silenciamento, usual na academia também.

Vou contar o que aconteceu, mas primeiro gostaria de dizer uma coisa que embasa todas as outras.

Dificilmente aceitarão se você, mulher, ousar escrever sobre cinema ou exercer a crítica cinematográfica no Brasil, não importa a habilitação que tenha para tal.

E só adentraremos o clube privê com muita luta, ignorando a rejeição.

Ontem ouvi o grito alto de um homem que por muito tempo foi (ou vem sendo) o crítico dos críticos na imprensa brasileira.

Inácio Araújo, ele mesmo.

Araújo escreveu em seu blog não compreender a razão de a cinematografia do diretor Ugo Giorgetti ter sido sempre ignorada pela academia no Brasil.

E louvava o fato de que a Unicamp acolhera neste ano uma residência sobre o trabalho do artista, num reconhecimento inédito.

Li isto e pensei: o quê?

Fiz um mestrado na Universidade de São Paulo, orientado pelo professor Elias Thomé Saliba, que resultou em livro sobre o artista. “O Cineasta Historiador” foi publicado pela editora Alameda em 2015.

E antes desse livro, em 2004, escrevi um depoimento sobre a carreira cinematográfica de Giorgetti intitulado “O Sonho Intacto”, publicado pela Imprensa Oficial.

Fui a primeira a estudar o assunto, com detalhamento, no Brasil.

Não por acaso, a própria Unicamp, por meio de seu Instituto de Estudos Avançados, e durante aquela mesma residência citada pelo crítico (e à qual ele também compareceu, mas na plateia, em dia distinto) acolheu-me para expor meu estudo em torno do humor, que denominei “frio”, na obra do artista.

O que Araújo ignora a respeito de tudo isto, a ponto de colocar à sombra o que escrevi?

O homem célebre pode não gostar do que escrevi. Pode estar pensando em produzir algo a seu modo, ou mais específico, sobre a obra do amigo. Pode almejar, ele próprio, a academia.

Digo eu: almeje direito!

Porque ignorar um trabalho no qual, aliás, cito um trecho por ele assinado, não é um bom começo…

Ademais, como homem da informação, ele agiu por irresponsabilidade ou intuito?

Acho que tenho a resposta.

Ele não praticou esse ocultamento à toa.

Vejo um machismo, consciente ou não, a orientar o silenciamento da produção intelectual de uma mulher.

Um colega igualmente crítico, ao saber do que houve e lamentar o ocorrido, jogou panos quentes sobre esse constrangimento.

Disse que eu deveria relevar o que o grande Araújo escreveu, a gafe que cometeu.

Ele estaria velho e alquebrado…

Me perdoe, não relevo.

A idade apenas traz o que somos, aprofundado pelo tempo.

E por que lhes digo essas coisas?

Não vou mudar o que o Araújo é. Nem o que seus partidários são. Mas quero compartilhar a história em prol de nosso fortalecimento. A gente não deseja para os outros o que sofreu.

E, felizmente, todas nós ainda temos bons olhos pra ver.

Tudo e nada

Três horas da tarde na Paulista e todos haviam desistido.

O sol não voltava atrás.

Refrescar-se, particularmente, só na longínqua e rebelde lembrança dos temporais.

O caminho para o supermercado Pão de Açúcar passava pela drogaria Onofre, para onde eu iria depois.

Mas eis que nesse rumo entre a farmácia e o mercado eu deparava com ela, solitária a três, num canto de sombra, na parte inferior de um muro.

O olfato de seu cachorro, crescido nos últimos tempos, parecia aos berros…

E Ana Isabele, fora do carrinho, junto à mãe, sentada a seu lado no chão, balançava.

Isabele que eu não conhecia, filha nova…

Quando agarrou-se à garrafa de plástico, porque parecia necessário apoiar-se nela, a criança de cinco meses sorriu pra mim.

Ana Isabele tinha nome de princesa.

Viva, esperta.

Ana e Isabel.

E sua mãe, Vitória, era a rainha.

“A Ana Isabele não puxou a minha inteligência, ainda bem, mas a do pai.”

Vitória cria a menina e seu irmão Felipe fazendo-os acreditar que nasceram da mesma desesperança, do mesmo pai.

Um trabalhador da rua, contudo, que sempre estará interessado nele.

Felipe nunca vai ser informado de que seu pai é diferente daquele de Isabele.

“Nem vai perceber.”

Vitória sabe o que faz.

Sentada, olha seus bíceps.

Eu me aproximo mais e lhe dou um litro de leite e bolachas, sempre certa de que dou pouco a quem precisa.

Nem abre o pacote.

Vitória está feliz.

O marido passa pela avenida Paulista vendendo pano de prato.

Ana Isabele sorri porque a adversidade nada lhe diz.

O sol queima o plástico da garrafa, como na vida, quando nos pressionam e machucam até que não suportemos.

Mas o brilho na superfície chama a atenção de quem se interessar.

Ficamos aqui sentados neste chão que ferve um pouco mais, na esperança de que alguém apareça.

Só um pouco mais.

se depois houver

rolo a timeline de alguns amigos e concluo uma coisa maravilhosa.

eles desconhecem a velhice.

e penso: ainda bem!

porque, em sua maioria, eles igualam o velho ao ruim.

o velho pode ser ruim, por que não?

porém, a depender.

(e se dependesse de nossa poesia brasileira, feita por jovens tão brilhantes, de casimiro de abreu a Leminski, talvez eu me conformasse com o novo, como uma garantia…).

enfim, dizendo simplesmente,

talvez urgentemente,

não foi por ter envelhecido que Silvio Santos se tornou o escroto que é.

ele o foi antes.

e ele o será depois, quando, como e se o depois houver.

O desbarato do humor

Certo.

Seu último filme nem vai ser lançado.

E o Woody Allen provavelmente vai morrer sem filmar outra vez.

Não que ele fosse o supra-sumo na direção, claro.

Mas era um humorista dos bons, sem dúvida.

Ficamos sem Woody Allen, então.

Ok!

Não se luta contra a corrente.

Ou talvez seja mais que isto.

Talvez, enfim, o humor não faça mais sentido pra ninguém.

Em lugar dele, chegamos à virulência, à gritaria, à prazerosa ofensa.

Jingle bells!

Bolas da vez!

A palavra obsessiva na direção de um único alvo.

Talvez a comédia toda tenha se tornado um desbarato.

Até uma humilhação, como quer nos provar a Hannah Gadsby naquele especial da netflix (sem conseguir, felizmente, no meu caso; a propósito, depois de destruir a comédia, que outra bandeira ela desejará erguer?; aposto que fará outro especial daqui a uns dez anos convidando a comédia a subir ao palco outra vez).

E aí eu me lembro que a Oprah Winfrey impulsionou esse movimento em que se pode mirar uma acusação contra um humorista, mesmo que ele tenha sido anteriormente absolvido pela justiça, e ainda ganhar toda a credibilidade política.

(Ah, às vezes tenho vontade de acender minha hashtag interior e apontar a vocês todos os jornalistazinhos do mal, minúsculos literais, que me acompanharam na vida profissional, tantos deles, esquerdistas; mas duvido que vocês fossem acreditar em mim, não pelo menos como acreditam na Mia Farrow; e haja dinheiro e paz de espírito pelo ralo dos tribunais, eu, hein?)

Facts are facts.

A Oprah se lançou contra Allen.

Mas o que fez com João de Deus?

Hum.

Abraçou.

“Interpretou”.

Com aquele seu sexto sentido de apresentadora de tevê para o charlatanismo.

Fato!

Senso de espetáculo, que é o que ela sabe fazer belamente…

Conversadeira muito inteligente, que imitou o sofá da Hebe por décadas!

Estranho o seu senso do que é espetacular.

Não vejo (digam que me engano) a Oprah gritar por aí a plenos pulmões o erro que cometeu neste caso.

Vai ver não viu graça, hahaha.

Depois que as acusações contra o Deus se tornaram inevitáveis, ela o tirou de sua página e acabou.

Muito correta!

E, claro, não libertou o Allen.

Não mesmo.

Ele não!

Porque isto parece impossível & inconveniente & estúpido demais neste momento.

Certo.

Mas eu sou desconfiada.

Acho que a história ainda chafurdará este detalhe insípido.

Por uma razão.

Sua lata de lixo nunca parece suficientemente cheia.

E ela vai desprezar logo quem insuflou João de Deus enquanto enterrava Woody Allen?

Duvi-de-o-dó.

A história!

A voracidade é tanta, gente.

Working in progress violento.

Queria pagar ingresso lá na frente.

Mas não sou nada, nunca serei nada…

Ou quem sabe dá tempo?