Onde vai se esconder da enorme euforia?

Eu não ia à aula de hidroginástica do Sesc havia algum tempo, quase três meses desde que me estabafei na calçada de casa, rompi totalmente um ligamento e só não precisei operar por um triz.

Voltei ao movimento sexta passada e constatei que nosso piscinão continua cheio. Uns trinta alunos pelo menos. Vi que tiraram o professor brincalhão de quem eu gostava. E puseram no lugar uma professora séria, disposta a que os velhinhos de todas as idades fortaleçam braços, abdômen e pernas com trilha sonora do passado, sem conversinha nos intervalos.

É chato, mas, quer saber? É bom também. Decidi ficar cantando baixinho, sozinha, enquanto sigo cuidadosa com os pés. Sei a maioria das letras. Hoje teve Wando, RPM, Sidney Magal, Rita Lee, Caetano, QI de Abelha, etc. No passado eu talvez reclamasse. Mas hoje isso é coisa demais. Amei de paixão ouvir o cringe todo que recheia nossa saudosa música popular.

No fundo da piscina ficam os mais altos e os que sabem nadar. Em uma classe com 30 pessoas, somos quase meia dúzia naquela região: eu, o senhor preto de mais de 80, a preta linda de uns 48 e duas senhoras de 80 muito altas, loiras e que me dão calafrios, pois imagino suas altamente hipotéticas simpatias nazistas. (Eu não consigo calar minhas fantasias, elas andam sozinhas.)

Bem, mas hoje, no alongamento, durante os cinco minutos finais de aula, a professora pôs “Apesar de você” pra rodar. Foi tão libertador. Uma das alemãs saiu. Eu chamei a professora no canto pra aplaudir a escolha. E ela: “Fiz de propósito! Vamos nos livrar domingo, com a bênção de deus!”

Ninguém mais comentou. Nem cantou, feito a boboca eu. Até que, no caminho pro chuveiro, me procurou a segunda alemã pra dizer: “Gosto tanto desta professora!” E eu, cautelosa: “Sim, ela é séria!” Para seu protesto: “Mais que isso, ela anima a gente!” Ecoei alívio: “Ô se anima!”

Que bom que enfrentei a manhã fria e escorregadia para curtir este momento delicioso de nossas vidas.

O único senão foi que, parafraseando Borges, não tiro mais da cabeça este mapa da Hungria:

“Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia.
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar.”

E o querido de Hitler era Mickey Mouse

Em entrevista realizada na década de 1970, a cineasta Leni Riefenstahl conta que o ditador nazista usava dublês, amava Hollywood e ganhou de Goebbels, no Natal, animações com o personagem da Disney

“Mickey e Hitler”, litografia
em papel do austro-irlandês
Gottfried Helnwein



O jornalista Maximillien Lafayette entrevistou a cineasta e fotógrafa alemã Helene Berta Amalie, conhecida artisticamente por Leni Riefenstahl (1902-2003), em 1972, em Munique. E publicou sua entrevista, sete anos depois, no livro “Últimas palavras de Leni Riefenstahl sobre Hitler, Goebbels, Nazistas e os Judeus”, reeditado em 2014 pela Times Square Press. Durante a entrevista para Lafayette, a diretora que colaborou com Hitler por meio da direção de filmes, entre eles “Olympia” (sobre a Olimpíada de 1936) e “O Triunfo da Vontade” (sobre o congresso do partido nazista,
em 1935), declarou desconhecer os campos de concentração enquanto atuou para o ditador. E ainda sustentou nada ter contra os judeus, que teriam sido trabalhadores, ao lado dela, na realização de seus filmes.

Hitler com Leni Riefenstahl durante as filmagens de “O Triunfo da Vontade”


Nesta entrevista, cujos trechos republico aqui, a cineasta elege “A Luz Azul” (“Das Blaue Licht”, 1932) e “O inferno branco de Piz Palu” (Die weiße Hölle vom Piz Palü”, 1929), que dirigiu com G. W. Pabst, seus melhores filmes. E embora o autor do livro em questão garanta ter obtido dela a palavra final sobre sua colaboração com os nazistas, a diretora voltaria ao assunto outras vezes, especialmente em entrevistas para a televisão, jamais renegando a própria obra cinematográfica, mas dizendo ter ignorado as atrocidades contra os judeus. Ela alegava filmar para os nazistas como um meio de posteriormente fazer os próprios filmes. E lembrava que se negou a filmar os combates, ao contrário de outros diretores, por horror à violência nos campos de batalha.

Seus dois filmes prediletos como cineasta foram “A Luz Azul” (acima, 1932) e “O inferno branco de Piz Palu”, que codirigiu com G. W. Pabst (1929)


Leni, que dizia nunca ter sido filiada ao partido nazista e que na juventude desejava ter seguido a carreira de dançarina, começou como atriz no cinema depois de sofrer uma contusão. Os filmes que protagonizou e que encantaram Hitler utilizaram-se da dança e de suas qualidades como esportista, especialmente no alpinismo. Era impetuosa, na vida e na arte.

A musa etérea e a esportista nas
montanhas geladas, entidades
vividas como atriz

Para realizar suas películas como diretora, exigia máquinas e lentes especialmente concebidas para ela, além de uma grande equipe de técnicos excepcionais.


Ela sabia que Hitler a admirava como mulher, mas com o ministro da Propaganda, Josef Goebbels, que ela intitulava “clown intelectual”, suas relações pessoais eram difíceis. Leni o acusava de assediar as mulheres, especialmente as do cinema, apesar de casado com Magda. E dizia jamais ter tido qualquer relação íntima com ele, assim como com Hitler. E talvez por isso Goebbels não a tenha deixado em paz…


Entre as coisas que Leni Riefenstahl afirmou durante a entrevista, algumas o jornalista considerou especialmente “delirantes”:

1.”Hitler tinha muito respeito pelas mulheres. Ele as achava mais criativas que os homens em um nível artístico. Admirava Zarah Leander [atriz e cantora sueca que fez sucesso na Alemanha entre 1936 e 1943], a quem chamava Divina Zarah, o que deixava Josef Goebbels com um pouco de ciúme… Tinha um carinho especial por Magda, a esposa de Goebbels, que considerava a “mais perfeita mulher alemã”; por Eva Braun, com certeza; pela aviadora alemã Hanna Reitsch; pela princesa austríaca Stephanie
Marie von Hohenlohe (ela era judia), a quem deu presentes e um castelo;
e por mim, até certo ponto.”

2. “Josef Goebbels não era um ‘ariano puro’; ele era meio judeu.”

3. “O próprio Hitler tinha algo de judeu em seu sangue. E criou uma nova árvore genealógica apenas para esconder aquele segredo que o perseguira por toda a sua vida. Seu sobrinho, William Patrick Hitler, sabia disso e o chantageava constantemente.”

4.”Hitler e Eva não morreram no bunker em Berlim; eles escaparam com Martin Bormann, dois dias antes de os russos entrarem no bunker. Eu sei disso com certeza. Não sei todos os detalhes, ninguém sabe.”

Leni Riefenstahl explicita a admiração de Hitler por Hollywood, especialmente por filmes com Mickey Mouse, feitos pela Disney. Goebbels, que tratava de incrementar a formação cultural de Hitler, deu-lhe até mesmo animações com o personagem em um Natal… E, entre outras coisas, Leni diz aqui estar certa de que Hitler, a quem de início admirava, pelo que “muito havia feito pela Alemanha”, tinha um ou mais sósias, e que não morreu no bunker, como a História registra.


A seguir, trechos da entrevista.


Maximillien Lafayette: Hitler usava o serviço de sósias?

Leni Riefenstahl: Claro que sim.


ML: Como você soube disso?


LR: Como eu soube disso? Claro que eu soube. Goebbels… Nossa, Goebbels de novo! Sendo uma cineasta conhecida na Alemanha e a diretora favorita de Hitler, e porque trabalhei com Goebbels em dois ou três documentários e alguns filmes, além de conhecer muito sobre maquiagem, o ministro da Propaganda me perguntou sobre as melhores formas ou “técnicas” para disfarçar uma pessoa ou fazê-la parecer outra. E começou a me fazer mais perguntas. Se eu gostava de filmes de Hollywood, se eu gostava de Clark Gable, por exemplo, de outras atrizes… Perguntas como estas.

Hitler era fã de cinema e amava Hollywood. Goebbels criou uma grande cinemateca para ele, porque sabia exatamente de que tipo de filmes gostava e não gostava. Hitler adorava desenhos animados, amava Mickey Mouse. Goebbels deu-lhe uma dúzia de filmes do Mickey como presente de Natal. E criou um departamento especial sobre filmes americanos considerados pró-judeus ou antijudaicos. Pediu-me para ajudá-lo a selecionar alguns desses filmes e eu recusei. Disse a ele que era cineasta, não historiadora do cinema. Então ele me perguntou se eu iria para os Estados Unidos e me encontraria com diretores de cinema em Hollywood para descobrir que tipo de filme eles estavam fazendo sobre Hitler e a Alemanha. E eu disse não. Finalmente, Georg Gyssling (cônsul da Alemanha em Los Angeles) foi escolhido para fazer isso. Gyssling escolheria filmes de Hollywood e os enviaria a Goebbels.

Com o cônsul Georg Gyssling,
que selecionou filmes de

Hollywood para Goebbels assistir

Você sabe, Goebbels era o responsável pelo cinema alemão durante o Terceiro Reich e ele conhecia muitas atrizes. Não se interessava por atores homens… e uma pergunta levará a outra.


Ele também me questionou sobre o que havia de especial no rosto de Hitler. Eu gostava de seus bigodes? De suas expressões faciais? Adolf Hitler exagerava dramaticamente ao fazer seus discursos? Finalmente me perguntou se com minhas técnicas cinematográficas eu poderia duplicar seu rosto. Se usasse maquiagem de cinema ou de teatro em alguém eu poderia fazê-lo se parecer com Hitler? Fiquei muito surpresa ao ouvir esse tipo de pergunta. Como assim, se eu poderia fazer uma pessoa se parecer com Adolf Hitler? Candidamente, perguntei-lhe se planejava produzir um documentário especial sobre Adolf Hitler ou uma peça de teatro em que uma pessoa devesse se parecer com Adolf Hitler. E ele disse que sim. E eu acreditei nele.


Então Goebbles me perguntou se entre os extras que usei em meus filmes haveria uma pessoa que pudesse atuar muito bem como Hitler e se parecer com ele… até certo ponto. Eu disse que não. Então me perguntou se eu conhecia alguma atriz que se parecesse com Eva Braun. E eu disse que não. Mas sem pensar ou ter qualquer suspeita sobre o que ele me dizia, pensei que o rosto de Eva Braun não seria difícil de duplicar. “Com um maquiador de cinema ou teatro profissional poderia fazer uma atriz se parecer com Eva Braun.” Ele sorriu e disse: “Excelente”. Perguntei quem estava escrevendo o roteiro do filme ou da peça, e Goebbles respondeu: “Eu! Eu quero surpreender o Führer. Vai ser uma boa surpresa. Não diga a ninguém. Isso é um segredo. Você promete?” E eu respondi: “É claro.” Antes de sair, perguntei se poderia ler o roteiro, caso ele estivesse considerando que eu fosse a diretora do filme. E ele respondeu: “Você terá notícias. Mas, lembre-se, é um segredo. Não estrague a surpresa.”

Ele nunca mais me ligou. E eu me esqueci totalmente de tudo isso, até que fui presa e interrogada pelos americanos por horas horríveis e intermináveis sobre se Hitler usava um sósia ou não. E de repente algo passou pela minha cabeça. Algo me atingiu. E eu sabia o que era. Em segundos, lembrei-me de todas aquelas perguntas de Goebbels. O interrogador militar me perguntou: “Adolf Hitler usou um sósia?” Eles repetiram a mesma pergunta duas ou três vezes. Mas eu estava em outro lugar. Foi um pesadelo. Perguntas após perguntas após perguntas, sem parar! Acho que desmaiei.


ML: E agora, depois de todos esses anos, e o que você ouviu e leu sobre o duplo ou os duplos de Hitler, você mudou de ideia?


LR: Sim. Agora tenho certeza. Adolf Hitler usou um sósia.


ML: Leni, por favor, olhe essas duas fotos. Diga-me, esse homem é
Adolf Hitler ou seu sósia?


LR: Este NÃO é Adolf Hitler!! (Leni depois de olhar as fotografias por menos de cinco segundos).


Um sósia de Hitler, segundo
Leni, morto em 1945

ML: Um dublê então?


LR: Sim! Definitivamente um dublê. Oh meu deus, ele se parece exatamente com ele. Mas posso dizer. Não é Adolf Hitler.

ML: Como você sabe?


LR: Primeiro, as orelhas. Essas não são as orelhas de Adolf Hitler. Em segundo lugar, o sorriso, este não é o sorriso de Hitler. O lábio superior… Não, não. Este não é Adolf Hitler. Uma réplica muito boa, um dublê muito convincente! Tirei mais de 3 mil fotos de Adolf Hitler de todos os ângulos. Conheço muito bem a cara dele. Espere um minuto, eu vi essa foto em um noticiário, me lembro agora… É realmente incrível.


ML: E esta fotografia, Leni? Esse homem é Adolf Hitler?


LR: Não! Um duplo! Eu conheço cada centímetro dessa face. Eu o treinei para meu filme “O Triunfo da Vontade”. Eu o dirigi, criei e filmei cenas especiais para se encaixar nas expressões dramáticas de seu rosto. E posso lhe dizer que o homem nesta fotografia não é Adolf Hitler. Este homem é um dublê de Hitler.


ML: Você está me dizendo que na época em que trabalhou ao lado dele nunca soube que tinha um sósia ou suspeitou de alguma coisa sobre isso?

LR: Eu não sabia. Mas suspeitei de algo. Não acho que alguém soubesse naquela época, exceto, é claro, Goebbels, Muller (General Muller), Bormann e o artista da maquiagem.
Este homem (apontando para a foto) ainda está vivo?


ML: Ele foi baleado na cabeça. Assassinado.


LR: Quem atirou na cabeça dele?


ML: Não sabemos. Sem testemunhas. Mas muitos estão apontando o dedo para Martin Bormann.

LR: Eu conheço cada centímetro do rosto de Hitler. E posso dizer que o homem nesta fotografia não é ele. Este homem é um sósia. Você está escrevendo um livro sobre o Terceiro Reich?


ML: Não, não estou trabalhando em um livro. Mas talvez eu possa fazê-lo um dia desses, daqui a alguns anos.


LR: Tenha cuidado. Nunca se atreva a dizer nada de positivo sobre Adolf Hitler. Sem mais comentários.


ML: Por que deveria dizer algo bom sobre Adolf Hitler? Alguns dos meus parentes foram mortos pela SS!!


LR: E se você decidir escrever um livro e publicá-lo em breve, quero ler tudo o que você escreveu sobre mim antes de imprimir o livro. Entendeu? Quero ler e aprovar cada palavra que você escreveu, por favor. Diga a verdade. Não exagere. Não dramatize as coisas. E não me cite mal e não diga mentiras. Não sou Max Schmelling [boxeador alemão que ganhou o campeonato mundial de pesos-pesados em 1930 e 1932], mas vou dar um soco na sua cara o mais forte que puder (sorrindo).


ML: Hitler cometeu muitos erros. Na sua opinião, quais foram os maiores?


LR: Hitler cometeu quatro erros grandes, muito grandes.
O primeiro e maior, como todos sabem, foi o Holocausto Judeu. Poucos tinham conhecimento sobre o assassinato em massa de judeus. Certamente eu não sabia nada sobre essas atrocidades. Hitler nunca me falou sobre os judeus. O segundo grande erro foi sua teimosia. Ele nunca deu ouvidos a seus generais, era um líder civil imponente, mas um péssimo estrategista militar. O terceiro grande erro, claro, foi quando ele declarou guerra à América. E o quarto grande, quando atacou a Rússia. “O duplo de Adolf Hitler decora os membros da organização juvenil nazista de Hitler” Hitler Jugend “do lado de fora do Bunker da Chancelaria em Berlim, em 25 de abril de 1945.”

Ciro, o cavaleiro negro e o rei

A insistência do Ciro em bater no Lula não deixou apenas grande parte de seus eleitores em 2018 indignados. Ela também rachou a coligação PT-PDT no Ceará, e os Gomes podem perder o governo do estado.

Em lugar de abrandar seu rancor por Lula, Ciro continua arriscando (ou será riscando) seu futuro político, dando murro em ponta de faca e sangrando mais.

Quer saber?

É da vida, da bílis, não me meto.

Mas penso: de onde virá o dinheiro para o futuro deles?

Um primo que mora no Ceará me diz que, além de ter ganhado bastante na última década, a família vai continuar retirando de outras fontes, cargos, projetos para as prefeituras, facilidade de empréstimos…

E será só isso?

Não sei. O Brasil da politicagem não é pra amadoras feito eu.

De todo modo, o Ciro me faz lembrar o Cavaleiro Negro do Monty Python. Vocês lembram do personagem, não? Um abusado. Ele guarda a merreca de uma ponte sobre um riacho e não quer deixar o Rei Artur passar. Vai esgrimando por sua missão até perder todos os membros e esguichar por todos os buracos, sempre reiterando que as feridas não passam de arranhões. O cavaleiro luta até se transformar num toco pregado no chão, mas ainda assim segue ameaçando o rei, que continua a viagem.

Então.

Só peço ao meu inconsciente que não me deixe sonhar com uma armadura preta numa poça de sangue, vade retro.

O que não é unânime

Eu também não gosto de algumas unanimidades. Mas não falo muito sobre isso, especialmente em cima da morte da unanimidade de que não gosto. Se não se trata de alguém do mal, dou um tempo.

Mas é curioso como o ódio manifesto a quem morreu invariavelmente prossiga com a enumeração das preferências do odiador, em falsa oposição ao que o odiado representou.

Por exemplo, um dos meus chefes na Folha reagia sempre do mesmo jeito a cada vez que eu dizia gostar de um novo Godard:

  • Prefiro E o Vento Levou!

Ah.

E eu com isso, meu amor? O que uma coisa tem a ver com outra?

Me dava vontade de dizer:

Você acha que Godard, o cinema, a história do cinema, se importam com sua opinião?

Tenho certeza de que ele achava que sim.

Na banheira do Gugu Ciro

Enfurecido com o apoio de Marina a Lula, Ciro dá pito em Marina, como se desejasse lhe ensinar a fazer política.

E o pior nem é isso. O pior é que no meio do pito coloca outra mulher na discussão, a Heloísa Helena, essa que tradicionalmente se sente traída por Lula e vai apoiar Ciro.

Ou seja, Ciro dá pito em uma mulher citando o exemplo de outra, como se rebaixasse a discussão para o entendimento desses seres inferiores.

Parece o Gugu jogando mulheres na banheira para ensaboamento.

Até onde vai essa macheza odienta, Gugu Ciro, meu bem?

Marina não vai se ensaboar por você…

Independência ou morte: o estranho caso do verme que queria ser rei

O filme de Carlos Coimbra, obrigatório aos jovens em 1972, talvez ajude a explicar a atmosfera mental absolutista em que Verme mergulhou cinco décadas depois

Tarcísio Moreira vive Dom Pedro I
em “Independência ou Morte”:
em algum lugar do futuro, quem
sabe alguém tente absorver
o estilo em suas lives de quinta

Minha determinação cumprida foi a de não assistir ao Verme avacalhar os nossos 200 anos. Neste Sete de Setembro, preferi ver cinema brasileiro, uma ideia de meu filho para pular este capítulo ruim.

Ele queria “Carlota Joaquina, princesa do Brazil”, que eu vira apenas à época do lançamento em 1995, antes de seu nascimento. Mas não encontramos um streaming que transmitisse o filme de Carla Camurati. Paramos então em “Independência ou Morte”, de 1972, que ele desconhecia, no Canal Brasil. Meu filho é fã de Mazzaropi e conhece muitas comédias italianas que estudei. Não iria estranhar o tom.

Eu enfrentei com vontade nossa sessão porque sinto certo carinho pela patacoada do diretor Carlos Coimbra. Não pela obra em si, mas porque ela me remete à infância, quando assistíamos ao filme sempre pela tevê, às vezes por obrigação escolar. Estávamos na ditadura e o passado mostrado daquele modo interessava ao controle ditatorial.

Os atores de “Independência ou Morte” haviam nascido em sua maioria no teatro e faziam época na tevê com boa postura e voz projetada. As cores eram as da botânica do Rio, a paixão de Leopoldina. Tinha tudo pra dar certo, mas não deu. Porque a gente vai sentindo o sufoco no ar. Aquele Rio parece Marte. Onde foi parar a gente preta? O filme passa e você não vê.

Os pretos presentes funcionam como árvores sem galhos naquelas espécies de subgravuras de Debret que o filme vai compondo. Eles carregam sinhás na rede, metem-se nas atividades de ganho e limpam a mesa do Patriarca da Independência sem que conheçamos seus rostos. Nem “E o Vento Levou”, 33 anos antes, cometeu tal ousadia. Haja vatapá, servidos nos tabuleiros, com as baianas de costas!

O Pedro I de Tarcísio se casa
com a Leopoldina de Kate Hansen:
ah, saber portar um vestido!

Os vestidos caem deselegantemente nas atrizes que representam a Corte. Quantas fitas pregadas, meu deus. A imperatriz Leopoldina de Kate Hansen é uma exceção. Ela porta aquilo tudo com insuspeito deslumbre – ou seus vestidos são os melhores ou ela sabe transformá-los assim.

Escravizados no tronco? Pode esquecer. Queriam repetir Debret no filme, mas sem incluir os flagelos, a violência dos capatazes e os carregadores de fezes. A ditadura vivia o auge. Bastava que Médici não quisesse para que jamais víssemos a beleza ou a ousadia daqueles pretos que, no filme, eram figurantes amedrontados.

Na batalha pela Marquesa
de Santos, a infantil fútil e
útil, segundo o filme

Tarcísio Meira, para sempre nosso Pedro I, era Gulliver entre os de Liliput. Glória Menezes, como Marquesa de Santos, operou na camada da infantilidade fútil, como se sua personagem nada tivesse aprendido após a violência do marido, que tentou esfaqueá-la duas vezes. Dionísio Azevedo, que escreveu o roteiro, foi também o patriarca rotundo, um Bonifácio tão sério quanto um poste branco. Emiliano de Queiroz estava à vontade no papel insidioso de Chalaça, compondo uma espécie de duo cômico lateral com Glória.

Dom João VI (Manoel da Nóbrega) com Carlota Joaquina (Heloísa Helena): a fama de glutão favoreceu sua imagem

Quantos profissionais de primeira ordem pra emoldurar o vazio! Tinha me esquecido de Manoel da Nóbrega no papel de dom João VI… Me conformei ao perceber que o imperador ficou na nossa história ao menos por seu pacto com a glutonaria, já que não conseguimos emplacar nele a imagem da covardia.

Ouvir todos esses atores cujas vozes eu havia conhecido nos comerciais e desenhos animados da minha infância acionou novas camadas à experiência do filme, estas que meu filho não pôde experimentar. O longa terminou e ele riu. Bem Brasil, achou. Uma bagunça inacreditável, um absolutismo assumido. A putaria em grande estilo, não só por parte das mulheres, mas dos militares também.

Depois de assistir ao filme percebi algo que não havia notado nele antes. Aquela atmosfera detestável é a mesma que nosso Verme na presidência vive. Ele certamente viu esse filme várias vezes na juventude. Deve ter-se encantado com a possibilidade de viver no topo de um mundo igual.

Grito, espada, cavalo:
um Pedro-Tarcisio no

topo é para sempre

Verme quer ser aquele Pedro. Um novo Pedro para o Brasil. Mais exatamente, um Pedro-Tarcísio para si. Um comandante que grita o que quer, na hora em que tem vontade, sentado à mesa cheia de papeis, esta que se parece com aquela de suas lives de quinta. Um Pedro-Tarcísio que tira férias em Santos e não acha necessário dar satisfação por isso ao país. Que impõe a namorada como marquesa como poderia ter feito do cavalo, um cônsul. Que trata como quiser os seus no trabalho, na hora em que desejar, mas que não resolve os problemas familiares. Que tem um filhinho loiro. Que acumula ex-mulheres. Que come e bebe às custas do povo, mas ignora que este não tenha o que comer e beber. E que espera vê-lo a seus pés indefinidamente, como viram os reis.

Me pego pensando que esse Verme de hospício se acha ele próprio a reencarnação desse Pedro-Tarcísio, bastante cuidadoso para que a transmissão de seu poder se dê, sem intercorrência e com muita proteção, aos filhos delinquentes. Como se seu destino fosse “imbrochável” para sempre.

Não à toa a cardiologista Nise Yamaguchi lhe sugeriu o coração de Pedro I e ele mandou trazer de Portugal. Ô mulher madrasta! Ô Planalto da Branca de Neve, Liliput!

Não sei se leram em algum lugar, porque eu não encontrei a informação. Mas aposto que quando esse coração chegou ao Brasil nosso Pedro-Tarcísio se sentiu o próprio dono. Deve ter pedido para vê-lo sozinho numa sala grande. Dirigiu-lhe um pacto com palavras de conciliação. Meu reino por você.

“Independência ou morte”,
de Carlos Coimbra, em versão
integral no YouTube

Emanoel Araújo e sua reflexão de 2014 sobre um projeto cultural para o Brasil

O curador, historiador e artista plástico Emanoel Araújo, nascido em Santo Amaro da Purificação há 81 anos e morto agora, significava o mundo inteiro para jornalistas culturais como eu. Uma elegância fosse no vestir, no sorrir, no duro dizer ou no brincar. E aquela imensa sabedoria vinha traduzida da forma mais simples para quem de nada sabia, feito nós. Reproduzo aqui a entrevista que fiz com ele antes da primeira posse de Dilma Rousseff na presidência, em dezembro de 2010. A fala baiana de Emanoel, mansa mas livre, fez mal, contudo, a alguns leitores da revista dita de esquerda onde eu infelizmente trabalhava. Não compreenderam este a quem hoje quiçá intitulem um dos maiores. Combateram em especial o fato de ele ter dado a letra: antes do modelo estatizante europeu, deveríamos seguir a política estadunidense que pressupõe a responsabilização social e a cobrança financeira dos ricos na construção de sua cultura. Reproduzi o que ouvi e isto não importou a ninguém. Fui trollada pelas milícias capilerianas do mesmo jeito, como se o pensamento brilhante de Emanoel fosse o meu. Naquele dia, o homem deixou de brincar: “Não se pode fazer da cultura um fato isolado de prestígio, centrado na figura do ministro. Gilberto Gil tem seu prestígio e por seis anos aconteceu do ponto de vista internacional. Mas é como se você desse o Ministério da Cultura para o Pelé, sendo que Pelé tem mais prestígio do que ele.” Eu tremi ao ouvir e Emanoel, nem um pouco ao falar. Tempos depois, voltamos a conversar sobre divertimentos. Adeus, meu querido! E por tudo e tanto, obrigada.

A simpatia, a empatia e o brilho de Emanoel, captados por Olga Vlahou

Um projeto cultural para o Brasil é o que pede com urgência, mas também descrença, o artista plástico Emanoel Araújo, criador do Museu Afro-Brasil e de outras iniciativas que tiraram o País de sua condição de envergonhado vira-latas da cultura no mundo. O Brasil não tem projeto algum neste quesito, ele crê. Como o cientista político Antonio Gramsci, otimista na ação e pessimista enquanto pensa, Emanoel afirma que o país oferece enorme complexidade a quem vá gerir sua cultura. O assunto é tão difícil que ele hesita ao transformar suas reflexões em sugestões para o futuro Ministério da Cultura de Dilma Rousseff.

 

“Para começar, em um país tão grande como este, não sei se a política cultural deveria emanar de um centro político”, ele considera. “Quando você sai de São Paulo e alcança o Rio, já enxerga um patamar abaixo. Então, como unir as políticas? Nem mesmo o Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, pode expor inteiramente o seu acervo. Os museus federais, aqueles que ainda existem, lidam com salas limitadas e a impossibilidade de fazer suas exposições circularem. Há os pontos de cultura, e mesmo nós, no Afro-Brasil, somos um pontão. Mas se não há banda larga para esses pontos, o que fazer? Piranhas, em Alagoas, como fica? Talvez nem seja preciso viajar. Na zona sul de São Paulo os pontos não funcionam”, ele situa.

 

As dúvidas de quem administra a cultura brasileira começam pela escolha de uma prioridade quando nem mesmo a saúde, a habitação e a educação estão resolvidas no país. A seu ver, é somente ao priorizar a cultura que ela florescerá, à moda do que aconteceu nos Estados Unidos, um país assemelhado ao Brasil por ser americano, colonizado, diversificado etnicamente, recente em sua formação. “Os norte-americanos não são hegemônicos por acaso. A cultura foi seu único acerto. A pop art e o expressionismo abstrato se espalharam como, na antiguidade, a civilização Greco-romana ditou seus princípios. E os norte-americanos lidaram com o assunto por meio do compromisso de toda a sua sociedade com a cultura.”

 

Para Emanoel, mais vale seguir o exemplo do lado de cá do Atlântico do que o modelo estatizante europeu. Nos Estados Unidos, os museus são em sua maioria particulares, ele argumenta, e a questão cultural não fica inteiramente no âmbito do governo. Há os endowments for arts, que estabelecem a doação de dinheiro ou propriedade, muitas vezes anônima, a uma instituição da cultura. Os museus são organizados de maneira mais livre, no sentido de que são organizações independentes do Estado, muito embora existam aqueles geridos pelo Smithsonian Institute. 

 

“Nos Estados Unidos, existe o que não há aqui, o compromisso social com a cultura. Não vigora nos espectadores norte-americanos do museu, da orquestra ou do teatro, uma situação de passividade. Eles não apenas assistem ao espetáculo. Fazem com que o evento aconteça. Não são meros captadores.” Por isso, o compromisso social deve ser fomentado como meta brasileira, ele crê. Os ricos têm de ser levados a contribuir, já que também usufruem do espetáculo. Um ato pelo “compromisso ativo” dos afortunados, encena Emanoel: “Eles não podem lavar as mãos, viajar e achar que vão se integrar na cultura europeia sem tomar conhecimento da sua.”

 

O Ministério da Cultura, colocado nos moldes atuais, deveria empenhar-se na construção de uma instituição profissional, disposta a promover estratégias e políticas públicas que pudessem estruturar culturalmente o país. “Não se pode fazer da cultura um fato isolado de prestígio, centrado na figura do ministro. Gilberto Gil tem seu prestígio e por seis anos aconteceu do ponto de vista internacional. Mas é como se você desse o Ministério da Cultura para o Pelé, sendo que Pelé tem mais prestígio do que ele.”

 

Um grande projeto cultural para o Brasil, “que a essa altura não tem um grande projeto cultural”, envolveria a iniciativa privada, os ricos e o Estado. Bolsas de estudo concedidas nos moldes dos endowments e das instituições smithsonians seriam mais do que desejáveis. “Dar incentivo fiscal aleatoriamente a projetos culturais não basta. Também não adianta só patrocinar um filme. Seria preciso definir questões. De que maneira as filarmônicas e os museus poderiam funcionar?”, ele projeta.

 

Emanoel lembra também que a legislação é antiga sob o ponto de vista da preservação do patrimônio histórico. “Não adianta insistir em restaurar pelos mesmos processos segundo os quais os monumentos foram construídos. Este é um país tropical sujeito a todas as intempéries, a todas as pragas. Se você não restaura, ou restaura errado, o patrimônio vai embora, irrecuperável, como tem ocorrido agora. Veja as igrejas de Salvador, a Igreja São Francisco de Assis, totalmente ameaçada.”

 

O agitador teme a letargia local, por exemplo, ao taxar as obras de arte que saem do país. A arte brasileira, mesmo diante de sua importância histórica, desde o barroco, está fora do mercado, ao contrário do que acontece no Chile, Colômbia, Venezuela e Uruguai, sem contar o que ocorre no México ou Estados Unidos, ele lembra. “É preciso investir nas pessoas, na arte, na educação, para que um país se possa apresentar ao mundo.” À moda do que ocorreu com a implantação da lei do ensino da música, a ser imposta às escolas brasileira sem nenhum preparo ou formação cultural de professores, propõe-se avançar no Brasil deixando o irresolvido pelo caminho. “Nós vivemos pulando, como se não fosse necessária uma sequência natural das coisas. Pulamos dos anos 1940, quando se formou um projeto cultural com Getúlio Vargas, para a ditadura e os anos 1960, os movimentos populares de cultura, e depois a censura.”

 

E a única maneira de incentivar a cultura brasileira é gostar de ser brasileiro, ele diz. “A minha sensação é a de que persiste a vergonha de ser brasileiro. No século 21, a gente ainda tem de se envergonhar disso? Por que, ao chegar um visitante por aqui, temos de levá-lo à favela, como fizemos com o Bill Clinton ou a rainha da Suécia? Por que não os levamos aos museus? Essas pessoas não têm responsabilidade perante a situação social do Brasil. A constatação de mudança social não tem de partir da consciência estrangeira, mas nacional. E, neste sentido, a saída para a cultura no Brasil é a de fazer como no México, que promoveu uma grande campanha nacionalista, com os murais de Diego Rivera e da arte de Siqueiros. É preciso gostar do Brasil, com todos os senões.”

Engasgados na conjunção

Os textos jornalísticos de alguns portais existem por si, sem se importar com quem os lê.

A moda por lá é enfileirar a conjunção “que” em orações infinitamente subordinadas.

Imagino que emendar uma coisa na outra ajude a quem tenha pouco tempo pra escrever e publicar.

Porém, fica feio. A gente engasga de ler aos socos.

Já temos tantos problemas!

Que Bruno Morais venha com o sol

O cantor e compositor paranaense transforma seu “Poder supremo” em celebração

O figurino brilhante, o sorriso:
Bruno Morais tem muito a
celebrar em “Poder Supremo”

Bruno Morais é meu querido. E a quantos, neste mundo, realmente quero? Um querido porque, por mim, viveria de ouvir vozes como a sua. E de conversar com ele, apreciando sua estética para a música, as artes plásticas, a fotografia, as roupas. Viveria de ouvir os casos que me conta, sua arguta delicadeza ao conversar.

Uma vez quando a banda de meu marido, o Nouvelle Cuisine, completava 30 anos, em um megashow no Auditório Ibirapuera, sentei-me ao lado de Carlos Fernando, o cantor que vinha enfrentando tantos problemas com sua voz. Disse ao Carlos que me emocionava aquela homenagem, embora nenhum convidado a lhe prestar tributo tivesse a sua voz. “Mas aquele menino, o Bruno, é bom, não é?” Sim, Carlos, é sim!

Bruno Morais acaba de finalizar uma temporada com seu show “Poder Supremo” no Centro Cultural São Paulo. Por conta de minha dor no tornozelo, só pude estar presente à apresentação no último dia, hoje. Uma pena, porque gostaria de tê-lo recomendado a vocês antes. Mas já sabem, não? No spotify ou em outro desses streamings musicais, até no YouTube, a gente tem acesso a essas coisas de valor.

Não esperava que o show do Bruno, em torno de um disco que me relatou fazer tem uns seis anos, fosse ser toda essa celebração à vida. Um espetáculo de verdade, no meio de toda a tristeza de existirmos no Brasil. Uma banda maravilhosa, cinco caras, cinco minas, metais, bateria, percussão, guitarra, que é tudo de melhor com que qualquer profissional pode contar. Saí meio extasiada do show, esperando o sol nascer de novo. Let the sunshine in!

Que tranquilo e infalível
é o trompete de Larissa Oliveira

Os figurinos, as túnicas brilhantes, falam por si. É um show que celebra o poder supremo de viver. Não consigo entender direito as letras de canção nos shows brasileiros, as técnicas de som que escondem a voz me são incompreensíveis, mas este parecia melhor que os outros. O que compreendi de Bruno é que observa, contradiz, engrandece seu cotidiano com sua arte de comentar a natureza. E tem humor também. “Quero parar seu avião!” É um artista de muita força, de vento e de tempestades.

Bruno Morais, sobre raios de luz

Vocês já sabem, o disco está no ar pra gente curtir.

https://open.spotify.com/album/5gzFIDKBwUzSTSAKGrqkA6?si=o60j2Z52SF2izvEUHZw-Kg

Deitando e rolando num lambe
da rua Consolação, em São Paulo