Odisseia paulistana

O imenso escultor grego Nicolas Vlavianos, radicado em São Paulo há seis décadas, morreu hoje nesta cidade que considerava sua, aos 93 anos, de insuficiência respiratória. Quando chegou aos 80, ele me concedeu esta entrevista, em maio de 2009, na qual descreveu sua revolução pelo aço, mas não só. Conversar com este artista foi um grande privilégio meu. Aprendi como poucas vezes no jornalismo, antes ou depois, o sentido da arte em um tempo que inviabiliza o esforço físico e no qual a escultura não cabe mais.

Em foto de Patrícia Stavis, o escultor Vlavianos segura uma miniatura, ele que foi o artista da grande escala

POR ROSANE PAVAM

Sob seus olhos há pequenas bolsas e os cabelos brancos estão gentilmente rebeldes, mas o escultor grego Nicolas Vlavianos ainda pensa como sorri, de um jeito jovial, aberto às utopias. Ele habita São Paulo há quase cinco décadas, os pais e a esposa morreram aqui e os filhos Myrine e Gabriel prosseguem o caminho que ele abriu na arte. A cidade é seu lugar e sua revolução.

Homenageado pela Associação Brasileira dos Críticos de Arte em abril, Vlavianos tem 80 anos, 40 deles como professor e coordenador cultural da Faculdade Armando Álvares Penteado, a Faap. Mas nada disso talvez conte tanto para ele quanto esta metrópole, toda por sua desde que o artista foi selecionado à VI Bienal Internacional de Arte. “São Paulo me deu a oportunidade de não sentir falta de alguma coisa”, raciocina Vlavianos, inclinado a terminar sua narrativa com frases excelentes, um homem educado que se senta em seu escritório na Faap em meio a pequenas esculturas nas prateleiras, uma mesa com papéis, folhetos e livros de arte e um computador.

Menino em Atenas

Vlavianos contava 32 anos naquele 1961, não era casado, não tinha filhos, não terminara o curso de Direito e seus pais, Charilaos e Evangelia, continuavam tabeliães em Atenas, de onde ele saíra cinco anos antes para habitar Paris. Por sua natureza de escultor, jamais pulou de lugar em lugar, sempre fixado à forja dos ateliês. Não era surpreendente, portanto, que de toda a Grécia só conhecesse a capital, até deixá-la, em 1956, aos 28 anos. Na cidade francesa, suas exposições adquiriram fama para além do estúdio que alugara em Montparnasse. Ele era uma nova realidade nas mostras do Museu Rodin, um artista finalmente moderno, contra tudo o que seu país lhe proporcionara.

É preciso não exercer a tentação de associar a imagem de Vlavianos à de todos os grandes escultores gregos dos quais aprendemos histórias. Vlavianos não é Fídias, não constrói imagens de adoração que parecem uma coisa quando vistas de perto e outras diferentes se observadas do sopé da montanha. Vlavianos não é um clássico, assim entendido o artista como um homem da Antiguidade. Ele nunca persegue a velha escola. Ontem como hoje, olha para o depois.

Paris aconteceu em sua vida porque os gregos deixaram de ser como seu conterrâneo Fídias, do qual não restaram obras, apenas relatos. Desde meados do século XIX, os gregos eram alemães da Bavária no campo da arte, e Atenas não pertencia politicamente a si mesma. A escultura neo-helênica, surgida nos últimos dois séculos, fora influenciada pelo neoclassicismo alemão. Os gregos, então, obedeciam curiosamente a quem reinterpretava sua luz antiga. “Não existia arte moderna em meu país”, diz.

O artista e sua lida, na cidade que lhe possibilitou a revolução pelo aço inoxidável e lhe deu um ambiente artístico atento, ameno, solícito

O Brasil do artista grego não tinha passado e seu futuro parecia certo aos estrangeiros. Como todos os que correram para cá naqueles anos, Vlavianos não enxergava limites nas terras brasileiras. A língua portuguesa não lhe parecia difícil, ele que falava francês, e além disso o jovem a sofisticava de tempos em tempos com a leitura da coluna do Vão Gogo, na verdade Millôr Fernandes, na revista O Cruzeiro. O clima era quente e os homens e mulheres, amenos. Todos, neste particular, eram um pouco gregos também.

Bastava conversar com uma profissional especializada como Felícia Leirner, a ele apresentada por um amigo grego comum, para que todo o mundo da arte se abrisse a Vlavianos. Havia críticos na São Paulo de então para notar sua existência e convocá-lo à contribuição no panorama das artes. Walter Zanini o percebera como escultor e se tornara seu amigo pessoal. Mário Pedrosa e Geraldo Ferraz acompanhavam entusiasmados a solidez do artista. A partir de pessoas como essas, a amizade com Cacilda Becker lhe surgiria como um novo degrau. A atriz de Pirassununga aproximara-se do escultor com uma proposta teatral.

Em 1963, Vlavianos já alugara um ateliê, em razão da encomenda feita por um funcionário da Bolsa, Fernando Leite de Barros, que desejava ter um cavalo de bronze em tamanho natural, parecido com aquele fincado no Edifício Itália. Para fazer a escultura por boa quantia, Vlavianos não viu outra opção a não ser alugar um estúdio, encontrado à rua Espártaco, para diversão do escultor. O gladiador de origem trácia liderara a maior revolta de escravos da Roma Antiga e entrara no imaginário popular alguns anos antes por meio da interpretação de Kirk Douglas no filme Spartacus, de Stanley Kubrick. Enquanto Vlavianos fazia o cavalo no estúdio da Lapa, Cacilda lhe pedia armas para a montagem de César e Cleópatra, uma peça de Bernard Shaw que se revelaria um fracasso de público em 1964. Vlavianos compôs escudos, capacetes e espadas para os personagens ensurdecerem em cena os poucos espectadores.

Por essa época, as esculturas do artista começaram a mudar. Em sua sólida base terrena, sem jamais aspirar à leveza de quem voa pelo céu ou o procura, as obras ganharam flexibilidade, pregos, furos, humor. E aço. São Paulo deu-lhe o que, para Carlos Drummond de Andrade, havia de sobra nas calçadas da mineira Itabira, e também nas almas. “Em Paris, eu usava bronze e alumínio”, conta. “Mas São Paulo me deu o aço inoxidável.” E não somente ele. “Aqui achei eletrodos para soldar, lixas para lixar, todo o maquinário destinado a esculpir.”

Esta foi uma revolução para Vlavianos e para a arte do Ocidente, embora poucos se dessem conta do enorme fato. Até os anos 1960, não havia quem se atrevesse a esculpir integralmente em aço em todo o mundo. O material e o equipamento para manejá-lo, fartos na capital paulista, impulsionaram essa revolução.

“Sempre falamos mal de São Paulo, e eu também. Mas considere isso. A cidade tem de tudo.”

Aqui também houve centros para estudar a arte. O grego foi convidado a dar aulas na Faap em 1969, depois de recusar o convite do amigo Zanini para ensinar na Escola de Comunicações e Artes da USP, pobre em ateliês e recursos. Na Faap também dava aulas sua mulher, a artista Teresa Nazar. Ele via com bons olhos o trabalho estável, que ainda lhe rendia mais espaço para planejar as esculturas. Contudo, não tinha qualquer didática a oferecer à garotada. “Ainda não tenho. O que eu sei fazer, até hoje, é trazer os alunos para produzir as coisas. Nunca falo ‘o seu projeto é uma merda’. Eu digo: ‘Dá para melhorar’.” Ele não se recorda de um nome extraordinário saído de suas aulas de escultura, mas reconhece ter tido bons alunos pintores.

Isso porque a pintura, no seu particular modo de ver, é um estágio para um crescimento tridimensional. A arte começaria pela poesia. Dela seria possível chegar ao desenho e, posteriormente, à tela com cores. E, desse estágio, existiria a chance de alcançar a escultura, primeiramente feita com materiais maleáveis, como a madeira e a pedra-sabão de Minas Gerais, depois com os blocos rígidos.

A questão importante, para ele, é que hoje em dia não há nem mesmo uma possibilidade real para quem deseja alcançar o estágio de um escultor. “A escultura não é para nossa época”, sentencia. “Ela requer um grande esforço físico, mas nós perdemos essa capacidade de nos esforçar fisicamente.” O computador daria soluções mais rápidas e desacostumaria o artista com a lida. “É um instrumento que estreita o pensamento. Não é o computador que entra na sua maneira de pensar, é você que entra na maneira de pensar do computador.”

Para Vlavianos, que experimenta, contudo, parcerias para esboçar projetos nesse formato, tal meio técnico inibe até mesmo a avaliação de um problema, quando ele surge. E é só compreendendo o problema corretamente que se pode solucioná-lo. A solução, na escultura, acontece quando usamos a cabeça e as mãos, não quando clicamos o mouse, defende.

O computador também responderia a uma necessidade que a época tem por reagir de forma menos agressiva às coi- sas. “Quando o sapo é jogado na água quente, pula de imediato. Mas não percebe a ameaça se é cozido em fogo brando. Quem percebe o aquecimento global, a menos que tudo aqueça demais?”

Vlavianos compara esse estado de coisas na arte ao jornalismo, que incluiu gastronomia no cardápio, quando antes só admitia, e em casos específicos, a publicação de receitas de pratos. “O que vou fazer? Brigar por isso? Para brigar, seria necessário uma razão que o tempo não me dá.”

O espírito do tempo pede a acomodação, não a polêmica, o debate de ideias, afirma Vlavianos, como quem se resigna. Uma vez que a crítica acabou, o que é artístico se torna também negociável. A arte encarece com a necessidade atual de patrocínios, transporte, seguro, fotografia. Há a figura especialmente intrigante do curador. Ele é o homem do conceito, mas e se o conceito estiver errado? “Um conceito errado, por exemplo, é o de arte brasileira. Se colocamos estrangeiros para fazer arte brasileira, o que isso significa? Não existe arte brasileira. Existem os artistas do Brasil. Existem o carnaval e as mulatas.”

Vlavianos não tem conselhos a dar ao artista novo. Exceto, talvez, aquele de trabalhar de forma incessante, sem esperar enriquecer. “Se você quer dinheiro, abra um bar. Os bancos são os caminhos mais fáceis para isso. Para fazer arte, ou seja, expressar uma pequena parte do que pensa, você não pode exigir descanso. Se eu fico parado, tenho ideias muito boas de vez em quando. E daí? Daí, nada.”

O artista nunca soube o exato significado de seu nome de família. Talvez, em grego, algo “vlaviano” equivalha a algo “fiel”. O qualificativo faria sentido para ele, já que, neste mundo, a coisa que suporte mais dificilmente seja a perda de “quase todos os amigos”. Restaram-lhe as utopias. Ele ainda espera, como um sonho, correr um rio e conhecer a França inteira.

Um neoliberal fascista

Assim o historiador italiano Enzo Traverso entende Jair Bolsonaro, um presidente contra os pobres e a favor da mentira como base da política

Traverso: “No Brasil de hoje, o intelectual só pode ser antifascista, antirracista e anticapitalista”

POR ROSANE PAVAM

Aos 64 anos, o italiano Enzo Traverso é uma estrela em ascensão. Ele mora nos Estados Unidos, onde ensina história política e intelectual na Universidade de Cornell, e embora não se entenda midiático, é um autor cujos livros escritos de maneira direta instigam o pensamento na direção da compreensão geopolítica e da ação crítica.

Historiador, Traverso não teme tocar nas feridas do presente. Ele constata um momento “pós-fascista” internacional, que seria caracterizado não exatamente pelo nacionalismo, marca de um fascismo antigo, mas pela submissão às leis financeiras internacionais. Mais que isso, o descompromisso com os fatos seria o fundamento de ação dos pós-fascistas, quando, para o fascismo clássico, imaginar um futuro grandioso embasava a ação política. 

Suas palavras para o Brasil atual são aterradoras. Um presidente como Jair Bolsonaro, abertamente submisso ao capital financeiro e espelhado na ditadura militar, seria, segundo Traverso, mais do que um pós-fascista, antes um neofascista liberal que exerceria um populismo personalista, trabalharia para a extinção do pobre e exerceria o racismo sem pudor, enquanto a extrema direita europeia, por comparação, ainda precisaria instigar o pavor ao Islã para implantar sua xenofobia.

A seguir, os principais trechos da entrevista com o intelectual.

Em seu livro “As novas faces do fascismo – Populismo e a extrema direita”, o sr. propõe intitular o momento presente de pós-fascista, já que a extrema direita assume o poder em alguns países sob novo formato, ainda em desenvolvimento. Mas chamá-lo de pós-fascista não diminuiria sua força?

A extrema direita é uma constelação muito variada e tem características distintas em diferentes países. Na Europa, distanciou-se do fascismo e sua ascensão depende em grande parte de sua capacidade de aparecer como uma alternativa – nacionalista, conservadora e xenófoba, mas ainda uma alternativa – às políticas neoliberais da União Europeia e do banco central europeu. Quando entra no governo, ela busca a mediação, mas seu perfil não é neoliberal. No Brasil, a situação é diferente: Bolsonaro afirma sua filiação à ditadura militar e sua política é abertamente neoliberal. No Brasil estamos diante de uma forma específica de neofascismo neoliberal ou neoliberalismo fascista.

O Brasil de Jair Bolsonaro de algum modo evocaria a Itália de Benito Mussolini?

O populismo, o estilo demagógico, os comportamentos transgressivos são típicos de uma certa retórica fascista. Sob muitos pontos de vista, Bolsonaro lembra Mussolini, mas esses são aspectos formais, externos. Mussolini não era um agente do capital financeiro, ele havia integrado o capitalismo em seu projeto de expansionismo militar, colonial, e lançou uma campanha contra a Liga das Nações que impôs sanções econômicas à Itália fascista após a guerra na Etiópia. Bolsonaro defende uma política neoliberal e uma guerra contra os pobres, se considerarmos suas políticas públicas em termos de saúde, educação e serviços sociais. Seu autoritarismo não é apenas nacionalista, mas abertamente fascista.

Nesta sociedade pós-fascista, as redes sociais têm feito usuários acreditarem em “verdades” que não passam de falsidades, às vezes muito evidentes. Como um absurdo desses pôde se estabelecer? 

Em sua vigência, o fascismo fez “sonhar” e pintou um futuro mítico. Hoje, o pós-fascismo é incapaz de projetar a sociedade no futuro – seu imaginário não tem uma dimensão “prognóstica”. Mas ele inventa uma realidade paralela que espalha pela mídia, cria enredos e transfigura seus inimigos, pintando um retrato que absolutamente não corresponde à realidade. Existe uma continuidade entre Bolsonaro ou Trump e o fascismo? Sim, seu traço comum são as mentiras, eles não suportam a verdade.

Seria possível propor uma regulamentação das redes sociais para o bem do regime democrático? Sob quais condições?

A regulamentação das redes sociais é um assunto delicado. Por um lado, é necessário: as redes sociais devem estar sujeitas às mesmas leis que regulam a imprensa escrita e a televisão na maioria dos países democráticos; não se pode mentir impunemente, insultar os adversários, inventar tramas. A ética da discussão exige regras em um país livre. Por outro lado, se um poder autoritário regula as redes sociais, o risco é censurá-las, amordaçá-las, como ocorre na China. Acho que existem duas soluções: por um lado, deveria haver órgãos de controle independentes do governo ou da presidência, não sujeitos ao poder político; por outro lado, deveriam existir leis contra o monopólio das redes de televisão, porque elas constituem uma alternativa às informações controladas pelo poder financeiro e político.

No Charlie Hebdo, algo que o historiador não gostaria de ver

O sr. afirma que o secularismo é o caminho percorrido pela extrema direita para exercer o racismo contra os povos islâmicos na Europa. E que, portanto, o exercício da blasfêmia deveria ser evitado em países seculares. Por que a liberdade de blasfemar não pode ser preservada? 

Nunca propus leis contra a “blasfêmia” ou contra a sátira. Sempre considerei as caricaturas do jornal francês Charlie Hebdo islamofóbicas, sexistas e racistas, mas jamais propus censurá-las. A sátira política é indispensável em um país livre. O problema é fazer bom uso dela. Defender a liberdade de expressão significa defender o direito dos inimigos de se expressarem livremente. 

Caricaturas “blasfemas” são transgressivas e têm potencial crítico nos países muçulmanos, onde muitas vezes se veem censuradas e incomodam o poder. Nos países democráticos da União Europeia, as caricaturas contra a religião islâmica estigmatizam em muitos casos uma minoria, as classes populares, os imigrantes, os “diferentes”. Gostaria de estender o exemplo: a sátira contra o obscurantismo dos rabinos é divertida na imprensa israelense; na Alemanha nazista, ele apenas fez rir os antissemitas.

O sr. vê algum problema no crescimento das políticas identitárias? 

Nada tenho contra as políticas identitárias se elas não forem concebidas como a reivindicação de identidades isoladas, separadas e incapazes de dialogar com os demais componentes da sociedade e as demais forças interessadas em uma transformação social e política. A solução não está na negação das identidades, mas na sua coexistência. O conceito de interseccionalidade permite que as identidades sejam articuladas em formas não hierárquicas, mas igualitárias, evitando que entrem em conflito. Identidades de gênero, classe e raça podem coexistir. Acredito que a noção de interseccionalidade é muito importante para um país grande como o Brasil, onde coexistem minorias e comunidades muito diferentes. Essa diversidade é sua riqueza.

O sr. se considera um intelectual midiático? Que problemas existem em trabalhar com a mídia atual?

Eu sou historiador e não estou muito na mídia de nenhum país. Certamente não sou um “intelectual midiático”. Mas acho que precisamos esclarecer o uso das palavras. O conceito de intelectual nasceu há mais de um século, na França, com o caso Dreyfus, e ao mesmo tempo em outros contextos linguísticos. Na época, os intelectuais eram uma elite, porque detinham o monopólio da expressão escrita, quando a grande maioria da população era excluída e a cultura, dominada pela imprensa. Régis Debray a define como a era da “grafosfera”, que terminou na década de 1960. Hoje, graças à universidade de massa, a cultura não é mais monopolizada por uma elite. Além disso, vivemos agora na esfera do vídeo, onde a cultura é dominada pela imagem. Posso dizer que sou um intelectual, porque meu trabalho é ler, escrever livros e artigos e ensinar, mas certamente não poderia dizer que integro uma elite. Isso seria bastante ridículo. Os “intelectuais midiáticos” geralmente não são intelectuais, não exercem nenhum espírito crítico, são agentes da indústria cultural e gerenciam a comunicação do poder.

Como pode um intelectual exercer livremente a crítica para sensibilizar a população sobre seus problemas? Depois de Jean-Paul Sartre, o intelectual ainda deve alertar essas consciências?

Não quero idealizar Sartre, uma figura que deve ser historicizada e cujas contradições não podem ser ignoradas. Mas acho que o intelectual ainda tem um papel a cumprir: ele deve falar a verdade, por mais incômoda que seja, criticar o poder, defender os fracos e não se preocupar com a própria popularidade. Se esse é o papel do intelectual, no Brasil de hoje o intelectual só pode ser antifascista, antirracista e anticapitalista.

No totem das coisas sinistras

Eu não sei de nada, que sei?

Saberemos se nos deixarem saber.

O tempo.

E serão cínicos, justamente porque o tempo passou.

Quando mataram um brasileiro em terras estrangeiras, um jovem inexistente socialmente no metrô, à toa, aquele trabalhador!, ninguém teve culpa, lembra? Mais acidentado e inoportuno, nosso Jean Charles foi, que uma vírgula entre verbo e sujeito.

Então agora, me desculpem, não vejo o mundo indignado suficientemente só porque um inglês bem visto pelo lado de sua consciência ambiental, da doçura de coração e sorriso, morreu. Está bem, concedo que ele não será a mesma vírgula brasileira indevida entre duas funções gramaticais. Será talvez as cores de um sonho triste, do excesso, do luxo impensável de amar o Brasil.

Dito, sentido tudo isso, eu penso que não, que pescadores a pegar no rio moedas de pirarucu douradas para cumprir o pedágio do tráfico, não, impossível que esquartejassem os corpos só porque fotogravavam seu crime pelo celular. Não existe, entende? Essa força tem berço, sangue frio, compensação, trabalhada e construída no totem das coisas sinistras.

E nem preciso nomear o inominável para entender por que justifica o crime, e não só faz isso, culpa as vítimas, diminui seu intelecto, troça, cospe, asseia metaforicamente o sangue estancado nas suas roupas encontradas rasgadas, fotografa com hálito essas cenas cabíveis mentalmente – mentalmente? – no interminável varal lustroso do seu museu de horrores.

Eu não sei de nada, que sei?

Nem mesmo li as notícias do dia.

Saberemos se nos deixarem saber.

O tempo.

Mandioca, doce vingança

Eu queria ser melhor do que sou. Melhor no sentido de ser pior.

Hoje fomos à feira. Eu parava nas bancas, escolhia e pagava. O que íamos comprar, eu e o Maurício havíamos discutido antes, em casa. Tudo certo. Maior alegria e harmonia acompanham nossa ida à feira dominical, muito boa, aliás, na região do centro onde moramos.

Chegamos à banca de mandioca e o olho cresceu. Não havíamos planejado comprar. O Mau me perguntou se eu achava que combinava com a tainha que ainda iríamos pegar. Pergunta desnecessária, ele sabe. Amo mandioca e pra mim ela combina com tudo.

Decidimos então pegar um saco plástico com pedaços dela já descascada, em água, quando o vendedor da banca, um gordinho de cabelo rente, se aproximou pra sugerir:

– Leva dois pacotes por 12 (!). Se vc não usar o segundo saquinho agora, é só tirar ela de lá e colocar no congelador. Vale a pena. Esta mandioca é uma manteiga.

Pensei: tá cara mas tudo tá caro. E alimenta. E vai durar. E é uma manteiga! Compro.

Ele fez menção de estender a máquina do cartão pro Maurício, o “doutor”, pagar. E eu brinquei, já que meu marido gentilmente segurava as sacolas, e eu, não ele, seria a pessoa em condições de manejar o cartão:

– Eu que vou pagar. Eu que sou a doutora aqui rs.

O vendedor fechou a cara rotunda e com seu jeitão miliciano mandou ver:

– Eu sou doutor, ele é doutor, todos somos doutores perante deus, o salvador, ele que está acima de todos nós, ele que nos guarda, o todo-poderoso, valei-me senhor, bom domingo.

Já tinha pagado a bonitinha, então levei. Não era manteiga, não. Mas serviu.

Jamais compro com ele de novo, porém queria ser má o suficiente, a pior do mundo, pra tretar com esse machista evangélico da próxima vez.

– Tem mandioca manteiga de verdade agora, meu velho? – eu diria. – Ou vai me devolver o que paguei a mais por aquela da semana passada, que levou horas pra cozinhar no fogão?

Quem dera esses inomináveis se fodessem muito em outubro. Mas não morro de esperança. São atrevidos, babacas e violentos até o fundo do seu ser, que é um não-ser, com toda a sua comunidade igrejeira de não-existências. Vou ter de ser muito pior do que sou pra lidar com eles.

Mas como?

Hei de descobrir.

John Waters: “Fazer o outro rir é fazê-lo ouvir”

POR TYLER MALONE, do LA Times

O diretor de cinema John Waters, 76, lança nos EUA “Liarmouth – A Feel-Bad Romance”. Embora seja seu primeiro romance, Waters escreveu quase tantos livros quanto filmes – incluindo os best-sellers nos Estados Unidos “Role Models”, “Carsick” e “Mr. Know-it-All”. Ele diz que sempre se considerou um escritor em primeiro lugar – e um ávido leitor também. Colecionador de livros desde os 14 anos, tem mais de 11 mil espalhados por suas casas em Baltimore, Nova York e São Francisco.

O romance de Waters está cheio de personagens selvagens e reviravoltas chocantes – lifting facial de animais de estimação, cultos de trampolins, um falo falante – mas a primeira ideia que lhe ocorreu foi uma mulher que roubava bagagem em aeroportos. “Alto conceito”, ele diz. “Estou acostumado com a indústria cinematográfica, então sempre preciso de um título e uma descrição em uma frase.”

As façanhas de Marsha Sprinkle – ladra de malas, vigarista, mentirosa inveterada – poderia ter sido um filme. Ela e os outros dramatis personae de “Liarmouth” parecem ter acabado de sair de um roteiro de Waters; a narrativa entrelaça as perspectivas em diferentes locais de uma maneira que se assemelha a um corte transversal cinematográfico.

Em entrevista ao “LA Times”, o cineasta explica o significado da dita “moralidade perversa” presente em toda a sua obra, nesta também:

“Existem regras no meu mundo. As pessoas certas vencem: aquelas que acreditam em si mesmas, que exageram o que os outros podem pensar que é errado, que aceitam e não se importam com o que os outros dizem, mas não são críticos ou ciumentos. As outras pessoas imitam-se, são amargas, julgam outras pessoas, tentam agir como ricas – quando os ricos de verdade escondem que são ricos.”

Um dos maiores pecados no mundo de Waters é se levar muito a sério. Com os defensores do “politicamente correto”, ele expressa principalmente solidariedade, mas a “justiça própria” é a única coisa com a qual não concorda. “Usávamos humor para lutar quando eu era jovem.”

E acrescenta: “Nós nos revoltamos pela liberdade de expressão!” Ele ainda a mantém como um princípio absoluto, mesmo quando isso o coloca na mira de seus compatriotas mais à esquerda. Ele parece legitimamente preocupado com o fato de os estadunidenses ficarem cada vez mais isolados, cada vez mais falando apenas com pessoas com quem já concordam.

É por isso que ele lê jornais conservadores: recentemente foi ao programa de Greg Gutfeld na Fox News e se tornou amigo – entre todas as pessoas no mundo – de Andrew Breitbart, o falecido provocador de direita.

Breitbart, após uma gravação de “Real Time With Bill Maher”, disse a Waters: “Sou igual a você; aprendemos tudo com Abbie Hoffman. Estamos apenas em lados diferentes. É tudo showbiz.” Waters gosta de entrar no que chama de “território inimigo” porque acha importante “fazer o outro rir, que é a maneira de fazer o outro ouvir”.

Peço sua opinião sobre o julgamento de difamação envolvendo Johnny Depp e Amber Heard. Ele o compara a um filme de Douglas Sirk. Tudo o que ele dirá diretamente é: “Só conheço Johnny de quando ele estava com Winona Ryder, Kate Moss e Vanessa Paradis. Todos esses casamentos terminaram, e as três ex-mulheres dizem coisas boas sobre ele agora. Eu nunca vi ele ser horrível com uma mulher.”

Que tal trabalhar com Woody Allen? “Foi ótimo. E não devolvi o dinheiro. Eu gastei.” Ele trabalharia com o cineasta novamente? “Não sei, mas paguei para ver os dois últimos filmes dele.” Waters não acredita em “cancelar” pessoas porque “a maioria dos artistas seria cancelada”. Ele acrescenta: “Eu perdoei gente que cometeu assassinato, então não estou julgando ninguém”. Waters fala sério: ele é amigo da ex-integrante da “família” de Manson Leslie Van Houten e lamenta aquela que considera a prisão “ilegal” da protagonista de “Cry-Baby” Amy Locane por dirigir embriagada e causar uma morte.

Waters sente-se bem até o momento com o governo Biden, embora Obama seja seu favorito. “Mesmo que Michelle Obama tenha me vencido no Grammy de melhor álbum narrativo. Todo aquele lobby que ela fez!” Ele se sente um “patriótico low profile”. E confessa: “Acho que os Estados Unidos são os melhores do mundo. Só não fico dizendo isso por aí. Em que outros lugares eu poderia ter tido essa carreira? Em muitos, certamente não.”

Adeus, Perrin

Soube que Jacques Perrin morreu dia 21, aos 80 anos. Amava-o nos filmes de Valerio Zurlini. Que triste e maravilhoso é “Cronaca Familiare” (Dois Destinos), de 1962.

Mastroianni vive ali o irmão maior, inconformado, voluntarioso, que tenta ensinar algo da sua força ao caçula, frágil e contido até a morte.

Me parece haver também no filme a alusão a um amor entre homens, impossibilitado pela educação social. A direção de atores é estupenda, como em qualquer filme de Zurlini. E como estão perfeitos aqui!

Obrigada, Perrin. 💚

O brilho da noite escura

Hoje, 19 de abril, Lygia Fagundes Telles completaria 99 anos. Ou seriam 102? Ela detestava que a vissem mais velha do que dizia ser. Compreendo isto, como compreendo muitas outras coisas, embora às vezes fosse difícil entender Lygia, ela mesma. Especialmente quando, sendo mulher, olhasse as mulheres com tamanha desconfiança – menos Hilda, claro, menos Clarice, menos Cecília, menos Lúcia, sua neta, menos a bisneta Mariana. Nesta reportagem está a descrição do encontro que tive com a escritora quando ela completava seus alegados 90 anos, em 2013. Eu me atrapalhei um pouco. E senti sua tristeza, sua revolta, a ponto de perder meu celular, não imagino como. Mas aqui ela fala coisas muito interessantes sobre a vida, seu amor a Cecília, seu apreço por Lobato, a falta do filho, o bilhete que alguém lhe deixou quando ela saiu intempestiva de uma palestra na qual ninguém parecia ouvi-la, a certeza de que se esqueceriam dela. Lygia foi para mim um espelho de amor, caso o amor pudesse espelhar-se.

Sobre a foto de Marcos Mendez, tirada para esta reportagem de 2013, aplica-se o bilhete que um admirador deixou para Lygia: “Não é loucura, teus livros já me afastaram do desespero. Beijos”

Lygia Fagundes Telles é uma só, e não há como compará-la com alguma coisa na literatura do Brasil. A Helga de seu conto homônimo, por exemplo, parece-se com ela, “uma manhã de bicicleta nas estradas impecáveis”, embora não se saiba como a manhã terminará, nem se a bicicleta restará inteira. Ao contrário de Helga, contudo, cuja perna mecânica significou capital roubado pelo noivo em núpcias, a particularidade de Lygia está no que jamais se desprende dela, nem na hora do amor. Ela vive como quem pressente. Seu assunto é a crueldade, ampliada pela escrita simples. Mas pode ser cruel quem sorri?

O sorriso de Lygia se oferece ao desconhecido, ao contrário do que lhe aconselhava a amiga Clarice Lispector. A autora de “Ciranda de Pedra” desafiou-a em todos os momentos nos quais estampou essa confiança nas fotos. Que sua face jamais parecesse turva. Ela era, pelo contrário, efusiva de exercer o ofício escolhido. Os lábios vermelhos, os anéis dourados, os brincos de prata, os lenços azuis. E foi sempre a mesma, impecável para o dia, enquanto ali, naquela noite escura onde se desenhava sua literatura, fazia crescer um turbilhão de desencontros, submissões e empreendimentos falidos. Era uma mulher do Brasil e ainda é.

Enquanto menina

Antes, uma menina. Completa 90 anos neste dia 19, mas o faz sem festa e com irritação camuflada. Aceita falar com toda a imprensa porque é preciso. Ela se vê viva nos jornais. “Se você achar Machado de Assis na lista de mais vendidos, eu lhe dou um doce. O povo analfabeto não sabe ler, só pensa em futebol, e o futebol está mal das pernas, hein?”, diz. Ela me pede que faça chegar ao prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, a solicitação que anteriormente fizera à presidenta Dilma Rousseff, creches e escolas para salvar o Brasil.

“Um país se faz com homens e livros, dizia Monteiro Lobato, mas onde estão os livros brasileiros? Só há estrangeiros entre os mais vendidos. ‘Dom Casmurro’ nunca apareceu numa lista. Nem os românticos, Álvares de Azevedo, Fagundes Varella, Castro Alves. Que esperança eu posso ter? Por que eu vou sobreviver? Não vou sobreviver nada. Enquanto estou viva, ainda lembram de mim, depois adeus.”

Por isso, talvez, não seja o caso de lhe pedir que acolha a celebração neste momento, embora ela tenha uma resposta pronta para rejeitar os parabéns. Tudo foi culpa da mãe. Desejosa de acender a vela de seus oito anos, ela encomendou bolo, biscoitos e balas para a filha caçula, mas ninguém apareceu. Lygia se esqueceu de entregar os convites. As festas de aniversário seriam terríveis dali por diante, mas ela aprenderia a pular a decepção. Como o pai lhe ensinou nas desastrosas idas ao cassino, a gente perde hoje, mas ganha amanhã.

Em seu apartamento paulistano naquele bairro dos Jardins onde mora há três décadas, depois da muito lamentada morte do crítico de cinema Paulo Emilio Salles Gomes, seu segundo marido, Lygia mostra que ainda está de pé. Quebrou o fêmur há quatro anos, anda de bengala, mas de pé permanece. Recebe a reportagem em sua mesa onde há livros, papéis e uma bandeja cortês na qual repousam uma garrafa de água e castanhas de caju sem sal. A mesa é grande, de madeira escura antiga, colocada na sala a certa distância da estante onde há livros e tantas fotografias. Nelas estão o pai, a mãe pianista, o avô que era coronel da guarda do Império, o filho, seu amor. Tudo se desfila e se embaralha nas estantes, como a memória apenas aberta com determinada chave. Lygia se senta na cadeira de encosto firme.

Com Paulo Emílio diante do túmulo de Karl Marx em Londres, 1970, em foto tirada por Vladimir Herzog

“Eu tenho uma vontade de permanência, acho que será isso. A vontade de não desaparecer”, diz ela do outro lado da mesa. Ela é quase uma diretora de ensino enquanto discorre sobre o valor que dá à eternidade. Paulo Emilio era ateu e comunista, como ela explica ao imitá-lo, o punho cerrado em braço estendido. E há outras provas de seu materialismo, como a fotografia que o amigo Vladimir Herzog fez do casal pouco antes de morrer, diante do túmulo de Karl Marx, em Londres. Contudo, ela que tanto protestou contra duas ditaduras, do Estado Novo e dos anos 1960, não responde se um dia acreditou no materialismo do alemão (Lygia passa por cima de muitas perguntas). 

Na infância gostava de padres, mas hoje prefere acreditar na transmigração da alma. Uma crença que mais parece literária, retirada daquele poeta que escreveu ter sido em vidas passadas um mancebo, uma donzela, um pássaro azul da floresta e um peixe mudo do mar. Ela jura gostar de orações, mas não se liga a igrejas. E faz o sinal da cruz como a se livrar do diabo, aquele com o qual deparou num voo para China. O demoníaco era um homem grande e descabelado que apagava o cachimbo com o polegar.

Com o primeiro marido
e o filho Goffredo

“Voilà. Prefiro que fiquem com minha obra e esqueçam meu aniversário”, ela diz, às vezes hesitante ao proferir a palavra “obra”, substituindo-a por “trabalho”, a mão percussiva sobre a mesa como a marcar uma inflexão para tantas histórias. Diante dela está o santuário. Um belo desenho de Darcy Penteado na parede, a representar seu filho Goffredo, criança de cachos, ao lado de seu ursinho de pelúcia. Abaixo da moldura, fica o urso ele mesmo, sentado de camiseta sobre uma pequena poltrona do outro lado da mesa onde se encontra Lygia.

Goffredo morreu em 2006, aos 52 anos, era o documentarista de sua vida e de outras, alguém cuja presença permanece intocada para ela nessa espécie de altar. A bisneta de Lygia, a pequena Mariana, ama o urso de Goffredo, como lembra sua neta. Lúcia é cotidiana e firme ao lado da avó. E há sua secretária de três anos, Regina, a auxiliá-la no trabalho atual de burilar histórias antigas de Lygia, como “O Tesouro”. “Meu filho era meu companheiro e eu procuro compensar essa dor com humor.”

Com Cecília Meireles,
no tempo de faculdade

Malgrado a angústia sofrida agora, Lygia nunca deixou de olhar para o passado. A experiência é um farol voltado para trás, dizia Pedro Nava, e com muito orgulho ela mostra à reportagem uma foto em que aparece, estudante de Direito no largo São Francisco, ao lado de Cecília Meireles. “Uma poeta maravilhosa, cujos versos me deram o título do livro A Noite Escura e Mais Eu.” Lygia convidou-a a fazer uma conferência no centro acadêmico nos anos 1940. “Eu era tão pobre que a gente não tinha carro, andava de bonde. Fui atrasada até Cecília, com um raminho de violetas na mão. Ela já estava na Estação da Luz, veio dormindo no trem de prata, ao lado do marido, o doutor Heitor Grilo. Pedi perdão e ela me perguntou em que hotel iriam ficar. Mas eu não tinha pensado em hotel nenhum! O doutor, que era rico, arrumou um lugar.”

Na faculdade de Direito, Lygia conta, era possível improvisar sobre uma canção em voga durante a Segunda Guerra: Quando se sente bater no peito heróica pancada, deixa-se a folha dobrada enquanto se vai morrer. A partir da canção, suas colegas (eram seis na heróica classe de Lygia) chegavam a paródias como esta: O menino que eu namoro e que me quer muito bem tem um sorriso que encanta, quinhentos contos também. A escritora ainda se lembra, com uma gargalhada, do versinho que Cecília lhes deu sobre a surrada melodia: Passarinho ambicioso, nas nuvens fez seu ninho, quando as nuvens forem chuva, pobre de ti, passarinho. “Aproveite esta história, é muito importante, inédita”, ela me aconselha.

Um Monteiro Lobato deslocado no
seu aniversário de 23 anos

É como se a cada grande personagem da literatura lhe correspondesse uma história peculiar. Monteiro Lobato, por exemplo, a quem visitara na prisão, esteve em sua indesejada festa de 23 anos. O olhar do escritor na foto em que está registrada a ocasião não esconde o assombro. Ele passava pela rua no momento em que a mãe de Lygia ia atrás do vermute e não viu jeito senão aparecer para agradecer-lhe a visita. Não é fácil enfrentar o desconhecido, como Lobato fez. A escritora experimentaria coisa parecida numa ocasião na faculdade de Direito. Ela se cansou da audiência que não parecia ouvi-la e se retirou dali rispidamente. Antes de chegar à porta, “um rapaz descabelado” lhe entregou um bilhete e saiu sem mais ser visto. Lygia ainda guarda o manuscrito: “Não é loucura, teus livros já me afastaram do desespero. Beijos.”

Ela tem a memória plena de versos e os recita com as mãos para o alto. E ainda se lembra da inscrição em latim naquele relógio de Paris: “Guarde somente as horas felizes.” É assim, alegre, que ela se recorda de grandes amigos como Clarice Lispector. Lygia não responde se a contraria que coloquem as duas num pódio de rivalidades literárias. “Clarice era ótima”, começa, rindo. “Não tinha amigas. Me dizia, com sua língua presa: ‘Não gosto de amiga mulher. São lésbicas. Eu não sou lésbica, eu gosto é de homem!’ E gostou de mim porque eu não era…” Lygia igualmente prefere o convívio masculino. “O homem é mais coração aberto. A mulher, mais perigosa. Serpente. Está na Bíblia. Ela vai deslizando pela grama, na sombra”, diz, representando com a mão direita um rastejar sinuoso. Quando Lygia fala, é como se escrevesse um conto. E se lhe fosse permitido reencarnar, ela fugiria como do diabo da ideia de voltar menina.

Ecos, os que não são

Um terapeuta me disse certa vez, antes que eu fizesse uma fala pública: “Cuidado com os ecos”. E eu: ecos de quê? Ele: “Ecos, como na mitologia grega.” Lembrou-me da ninfa Eco, que teve a voz retirada por Hera, mulher de Zeus, inconformada que ela acobertasse as infidelidades de seu marido. Eco não falaria mais. Ficaria então conhecida como “aquela que não sabe falar em primeiro lugar, que não pode calar-se quando se fala com ela, que repete apenas os últimos sons da voz que lhe chega”.

Para o terapeuta, há muitos ecos a se aproveitar do que você diz numa palestra, atrapalhando seu desenvolvimento. Fiquei atenta a isso e pude falar tranquilamente. Rara dica de um terapeuta que aproveitei! E ele tem razão. Isto acontece não só em palestra, mas em muitas situações em nossas vidas, no Facebook também.

Certeza que vocês sabem como funciona: a gente posta uma coisa na rede e lá vêm os comentários a se aproveitar de nossa fala para dobrá-la, desfigurando-a e desviando a atenção da postagem inicial.

Eu decidi assim. Não ligo pra eco em rede social. Não ligo pra rede social. Os anulados que me aguentem. Se estou nas redes é pra me divertir, aprender e dividir o que sei.

E boa semana pra gente!

Adeus, Catherine Spaak

Catherine Spaak, um rosto
para o cinema

Catherine Spaak morreu. Tinha 77 anos. Atriz, cantora, dançarina e apresentadora da TV italiana, nascida francesa, foi musa de muitos diretores. Dino Risi, que a dirigiu em “Il Sorpasso”, o oitavo filme de que participou, deu-lhe fama.

Aos 17 anos, em “Il Sorpasso”,
depois de sete filmes

Tinha 17 anos quando deu à luz a filha Sabrina. Por não se sentir à vontade na casa da família do pai da criança, ator que conhecera num set e com quem passaria a viver, fugiu com a menina. Foi presa e a justiça tirou-lhe o direito de ver a filha. Nunca mais a viu. Mas continuou a trabalhar e a viver no cinema dessa Itália machista, no meio musical e na tevê.

A elegância que a acompanhou

Casou-se quatro vezes e seu último marido era 18 anos mais novo. Tinha vivacidade, um rosto feito para o cinema, entrega e elegância.

Em 2020, poucos dias após o isolamento imposto pela pandemia, ela foi atingida por uma hemorragia cerebral e não se recuperou.

Viva Catherine Spaak!

Em “Il Sorpasso”, de Dino Risi,
que lhe deu fama