“Sem chão” (No other land) é um filme-diário sobre a luta pela terra palestina. Um filme jovem, urgente, feito de esperança sem razão, boicotado pelos distribuidores nos Estados Unidos e vítima de apagamento. Um candidato ao Oscar de documentário em 2025 como se isto constituísse uma ousadia impensável…
Neste documentário, Basel Adra, jovem de origem camponesa formado em Direito, desacredita dos tribunais e vive para informar ao mundo que os israelenses roubam a terra dos seus ancestrais sem cerimônia ou dignidade. O jornalista israelense Yuval Abraham, que aprendeu árabe com um colega e a partir dele compreendeu a causa palestina, segue os passos de Basel munido de comprometimento, a ponto de juntos, na companhia de Hamdan Ballal e Rachel Szor, editarem “Sem chão” sob a perspectiva do palestino, ou seja, do perdedor.
A família Adra pertence a Masafer Yatta, um povoado fundado pelos palestinos em 1830 no sul da Cisjordânia, mas reivindicado em 2019 pelos israelenses por meio de uma determinação de sua Suprema Corte. Os sionistas decretam que a região montanhosa deve servir para o treinamento de tanques do exército de seu país – e não, nunca, para abrigar um bando de despossuídos árabes que, a partir daquele ponto, poderia sonhar com mais.
Assim é que escavadeiras, tanques e soldados israelenses destroem tudo o que Yatta constrói: suas humildes habitações, escolas, até um curral de ovelhas e um playground. Eles não podem esperar. Precisam desfazer tubulações, fiações, cozinhas, brinquedos, o que vier, diante dos olhos revoltados dos reais proprietários, para que o teatro de destruição cotidiana se efetive. Contudo, as pequenas câmeras e os celulares da família Adra, assim como o equipamento do jornalista israelense, jamais param de funcionar, registrando com agilidade, sob pena de agressão, morte ou invalidez, todos os movimentos do Estado de terror.
O plano sionista não declarado, mas já em parte realizado, é encher a região de ocupantes israelenses cujas casas são eficientes e cheias de luz. Enquanto isso, os resistentes fogem para as cavernas sujas da região à espera de reconstruir suas casas, todas as manhãs, naquele exato local onde foram derrotados no dia anterior.
Quem ganha a luta, podemos adivinhar. Quem fará os camponeses se mudarem para as cidades entulhadas, onde míseros apartamentos abrigarão famílias inteiras, serão os israelenses.
Aquilo que não sabemos, contudo, constitui o cerne deste belo filme. Ele está localizado na luta que se faz todos os dias, não importa quantos palestinos resultem feridos ou inutilizados pelos explosivos do exército ou pelos tiros dos colonos armados. O cerne é o senso de pertencimento. O calor familiar. O amor às crianças. O humor de quem nunca desiste de estar ali.
Neste 30 de setembro de 2026 em que o grande fotógrafo brasileiro completaria 90 anos de idade, reapresento a reportagem que fiz por ocasião do lançamento de seu livro “São Paulo”.
Após ler este texto, publicado em 2014 numa revista semanal brasileira, Carlos decidiu que eu seria a pessoa a quem ele contaria sua vida, a ser transformada, imaginávamos, em uma biografia literária. Marcamos seguidas conversas no ateliê do artista, situado no prédio de sua propriedade no bairro paulistano da Barra Funda, onde ele também morava. Guardo as fitas contendo muitas horas de suas palavras. O livro nunca saiu.
Neste post, incluo algumas imagens de sua autoria que ele me mandou por email.
E aqui publico igualmente alguns dos tantos retratos fotográficos que ousei fazer dele no decorrer dos anos. Uma dessas imagens, o fotógrafo sugeriu que fosse a capa de sua biografia. Mas, como o livro não existe, ainda a guardo em minhas gavetas.
Carlos Moreira era um dos meus melhores amigos.
Um mestre.
Inspiração sem fim.
No ateliê na Barra Funda, o menino
Chamem-no Carlos Moreira. Cinquenta anos atrás, em 1964, ele decidiu desfazer de um golpe o inverno da alma e a inadequação ao mundo. Abandonou a economia, apenas cursada para acalmar os pais sobre seus destinos, e partiu para a aventura nas ruas. Flanou por São Paulo atrás de vestígios dos homens nas calçadas e nos cemitérios. E fez as fotos de tudo o que lhe saltou aos olhos, sem nunca, a partir daí, pausar. Eis que representaria o existente enquanto revelasse as sombras do outrora grande centro da cidade, navegando em oscilante baleeiro rumo à caça de personagens. No decisivo ano de 1964, daquele seu convés de metáforas, combateu o Leviatã sem bala ou alçapão.
A rua, para Carlos Moreira, significou esse oceano de inconsciência e espiritualidade retratado à perfeição no Moby Dick de Herman Melville. Tão logo uma Leica lhe caiu nas mãos, viu-se entranhado em um novo e duro ofício, mas, na contramão dos tempos vigentes, não guerrilhou por ele. Foi, em lugar disso, o fotógrafo para quem caçar, de modo a revelar-se, representou o principal sentido de viver. Nada do condicionamento dos estúdios, nada de fotojornalismo. Distante da quentura dos fatos, ele roubou da vida uns instantes eternos, elegante como o gato, atento como o pássaro ao fugir. Essencialmente, olhou para os lados, como ensinou o francês Henri-Cartier Bresson, jamais esquecido da linha de ouro que guiava a um só tempo sua cabeça, o olho e o coração.
Em Santos, capricho, mistério e liberdade
Agora que a editora Tempo d’Imagem, associada às Edições Sesc, lança São Paulo (204 págs.), sob a curadoria de Rosely Nakagawa, o fotógrafo aparece ao grande público com a inteireza de sua poesia geométrica, iniciada após a desilusão com a frieza normativa do Foto Cine Clube Bandeirante, mas muito próxima da proposição livre do grupo Novo Ângulo, que o iniciou caçador. O volume organiza 50 imagens de 700 mil por ele colhidas desde os tempos em que somente seria possível ao escritor Júlio Verne compreender a máquina fotográfica sem filme. O livro representa um grande momento para este artista de imagens definitivas que ainda fotografa todos os dias, em São Paulo, Santos ou Buenos Aires, muito alegre, sem jamais lamentar a possível inexistência de homenagens, exposições ou edições de Prêmio Jabuti para suas descobertas. É a fotografia, especialmente o que o artista entende por ela, o que faz Carlos Moreira, como diz sua conselheira e assistente de três décadas, Regina Martins, “acordar embriagado”, sem se dar conta do que pensam de sua embriaguez.
Eterna luz na praia santista revisitada
“Quando cheguei aos meus 50 anos de trabalho, temi estar morto”, diz em seu barracão na Barra Funda, no mesmo prédio onde ele e Regina ocupam dois apartamentos residenciais. Desde quando, consagrado, significaria que não vive? Moreira pensa muito, começa e termina um raciocínio com a perfeição do círculo, sempre sem se iludir. Principalmente, agita-se na poltrona vermelha de seu misterioso e pouco iluminado andar térreo. Ele não tem as respostas, porque está no mundo para perguntar. Ainda hoje, mal começa um caminho, percebe outro a percorrer. As tantas ideias contrastam com seu ambiente de trabalho e reflexão, nunca iluminado ao excesso, os móveis onde quase sempre estiveram. É ali que, semanalmente, manta ao colo, ele traça aos fotógrafos e candidatos à fotografia sua particular história do ofício, a única muitas vezes feita por qualquer um em qualquer tempo.
Parque Ibirapuera, doce reflexão da vidaCores para o duro vislumbre do Minhocão O centro de São Paulo, campo de si mesmoA geometria das linhas, sua assinatura
Seus toques de mestre tiveram início nos anos 1970, quando, professor de Fotografia da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, passou a refinar com prazer o olhar dos outros e, de quebra, o seu próprio. Houve tempo em que imaginou abandonar os alunos para apenas se dedicar àquilo que é. Mas, reviravolta esperada, neste momento não pensa mais assim. Agora, além de fotografar, quer dar aulas até morrer, ali mesmo na gruta de sabedoria onde se acumulam seus livros sobre os grandes da imagem, de Cartier-Bresson a Robert Frank, de Ernst Haas a André Kertész, e também aqueles inúmeros sobre pintura, colocados em estantes de aço sob ordem rigorosa e particular. Os desenhos e as telas de autoria dele próprio se espalham entre as lembranças naquele térreo. A câmera com fole, a velhíssima tevê, a manta sobre o colo nos dias não raro frios e, claro, as fotos, como a de Cartier-Bresson com a xícara aos lábios, somam-se na decoração ao pequeno ventilador.
Havia o celular, mas, principalmente, havia os livrosUm Cartier-Bresson sempre à mão
Os olhos de um visitante, portanto, enchem-se de serviço enquanto o fotógrafo jamais descansa. Se muitas vezes chega a uma definição sobre o ofício, pode no dia seguinte rejeitá-la. Tendo aprendido a meditar na maravilhosa e sofrida Índia, usufruído as maravilhas americanas entre Miami e Nova York e pausado algum tempo em Tóquio, pratica o raciocínio como um vinho saboreado em goles de gravidade. Neto de pintora que estudou em Florença mal terminado o século XIX, filho da mulher sensível e observadora que a seu lado, dentro do carro, observava os passantes enquanto seu pai fazia visitas médicas, Carlos Moreira surge longevo e inquieto como quase todos os grandes fotógrafos do século XX. Mesmo agora, em 2014, aos 77 anos, passa por menino.
O mestre, a companheira
Anda aborrecido com a transcendência que ele mesmo, e sempre, perseguiu. É um fotógrafo apolíneo, visualiza as linhas perfeitas, mas crê que uma mudança sem volta se encarna nele em direção ao que desce. Foi-se o tempo em que se realizava ao imitar a lua clássica no céu claro. Agora, ele a quer refletida na água trêmula. Menos inspirado no suíço-americano Robert Frank, que a certa altura de seu trabalho canônico, com a morte dos filhos, pintou o sangue nas paredes, e mais como o russo Alexey Brodovitch, que rompeu a norma ao fazer o movimento fluir no balé, em lugar de congelá-lo, Carlos Moreira quer seguir uma ideia de D. H. Lawrence sobre a poesia. O romancista inglês a via em dois tipos, a tradicional e a do presente. A primeira, cristalina, completa, infundia-se no artista com um senso de eternidade. A segunda, imperfeita, nada consumava. Sua opção é clara entre as duas. “Busco a imanência não pela vontade, mas em razão de uma dinâmica psicológica”, ele explica. “Em vez de andar atrás da luz transcendente, branca, procuro a luz enterrada, colorida, porque me convenci de que há perfeição na profundeza.” Carlos Moreira vencerá o enigma estético? O certo é que tudo fará rumo a uma categoria superior de alegria.
Não estudei política partidária na academia. Jamais me aventurei por jornalismo nessa área. Meu pão, comi em outras circunstâncias.
Eis por que não entendo a campanha eleitoral do Lula. Não entendo o que ele deveria ter feito e não fez para ganhar os votos que perdeu, e que seriam justamente dirigidos a ele se vivêssemos em equilíbrio social.
Mas não vivemos, certo?
Temos um povo calado e submisso. Ou, como dizia Lima Barreto, não temos povo, temos público. Ou, como dizia Milton Santos, nosso povo não é cidadão, já que se viu silenciado em seus direitos quando a classe média buscou privilégios para si. Ou como diz Marilena Chauí sobre a classe média: uma aberração política, porque fascista; uma aberração ética, porque violenta; uma aberração cognitiva, porque ignorante.
Isso sem contar a elite econômica brasileira, ranzinza, azeda, medíocre e cobiçosa, como diz Darcy Ribeiro. Uma classe desinteressada de cultivar o amor pelo povo ou pela democracia, de fazer o país avançar.
Colado a essa população desinformada pela imprensa e destruída em sua cognição pelas redes sociais, está o capitalismo financeiro internacional. É ele a fomentar a ultradireita que intervém em nossas eleições, decidido a rapinar nossos recursos.
O que o PT haveria de ter feito para interromper esse tsunami de mentalidades e abastecer o povo com informações reais sobre quem está a seu lado?
Usar uma comunicação assemelhada à fake do ZAP, a mesma que a cada dia anula a cognição desses não-cidadãos do Brasil, para, com isso, obter resultados ao revés?
Contrapor-se ao fascismo com armas fascistas já comprovadamente eficazes, como as palavras que simplificam a verdade, rebaixando-a?
Combater o fascismo com o dinheiro internacional fascista?
Dançar conforme a música dos tik toks fascistas?
Comprar o horário da imprensa fascista e falar por meio dela, já que o povo só entende as coisas nesses moldes comunicacionais?
Romper o cerco das big techs fascistas que escondem nossos posts de internet por meio de uma enxurrada de ações judiciais?
Ninguém me diz.
O que sei é que sempre sobraremos nós mesmos para desviar os tufões que bem facilmente nos transformam em poeira. A militância de rua, de vizinhança, de bar, de telefone, será sempre ela a acionada para nos livrar dos farrapos do apocalipse.
Sou pessimista no pensamento e também na ação, mas, na hora das eleições, me curvo ao santuário de Gramsci e parto para a utopia descarada, sempre um horizonte à frente de mim, como Galeano ensinou.
Bora Lula, então, que atrás vem gente. Não exatamente gente, mas a indigência toda que só com sorte e resistência deixaremos para trás.
Em março deste ano, aterrissei na Bahia. E para alcançar a praia onde me hospedaria, contratei o transporte em carro particular.
Cheguei exausta. Nem tanto em razão do caminho acidentado, mas porque, durante a hora em que durou a viagem, o motorista não parou quieto.
Falou horrores.
(Horrores literais.)
E falou para nos doutrinar.
Estranho?
Nem tanto.
Eu diria até que ele conseguiu. Me deu mesmo uma aula de Brasil. Esse homem negro de estatura miúda, relativamente jovem, mostrou um país ressentido que nem minhas trajetórias de Uber por São Paulo souberam aprofundar.
Vi que estava em maus lençóis desde o início da viagem. Ao passar por um grande carro de polícia estacionado diante de um barraco, o motorista gargalhou: “Os policiais não são bobos de usar sirene.” Imaginei que tipo de bandido a habitar aquela casa de pescador mereceria o cerco.
Fiquei quieta, mas o motorista prosseguiu.
Sua Bahia tão linda, disse-nos, está abandonada. Bolsonaro foi mal, mas teve o azar da pandemia. E Lula, como explica o desastre em seu governo?
Que desastre? pergunto. E vou ao óbvio. As pessoas comiam osso durante Bolsonaro e agora o Brasil é a nona economia que mais cresce no mundo.
E daí?, me pergunta.
Ele não quer saber de quem chegou agora. De quem arranjou trabalho com Lula. De quem pode comer e tratar da saúde com Lula. Ele trabalha há dez anos, todo dia a desgastar seu carro pela via acidentada. E por isso merece mais que os outros.
Mais o quê? Trabalho por mais de quarenta anos e só agora me aposentei, digo-lhe; é assim mesmo a vida do trabalhador. Do que ele está falando?
Simples. Ele não quer ser trabalhador. Quer as vantagens que a elite tem, mas ninguém se candidata a lhe dar. Quer ser como o endinheirado brasileiro é, belos carros importados e casarões, mas nada disso cai na sua mão.
Vote em Bolsonaro então, digo-lhe depois de ouvir um sem-fim de seus queixumes, até mesmo contra a preservação de território “para os índios, tudo vagabundo”.
Mas eis que o motorista não quer ter de escolher entre Bolsonaro e Lula. O candidato de que ele precisa nem existe. Ou, em março, ainda não havia. Vai ter de acabar votando no “menos pior”.
Pensei. Aqui é a Bahia e estamos assim. E me lembrei que não se cura fascismo desde seu nascimento, ocorrido no seio das utopias revolucionárias. O fascismo é um traíra de berço. Veio para enganar. Para se confundir com justiça social.
Quando Bolsonaro ganhou, em 2018, deu corda infinita para esse anti-ideal. São muitos os que “conseguiram pouco” e se projetaram nele para “crescer”. Que só veem o caminho do opressor a trilhar. Que não se interessam pela fome alheia, pela construção de uma sociedade igualitária, portanto mais rica.
Estamos cercados por essa indiferença. Pela ausência cognitiva contida na submissão egoísta, pela falta de educação geral.
Agora que o filho do monstro gasta ditos três milhões de reais para colocar seu canal no YouTube 24 horas no ar, o fascismo vai urdir todo tipo de ilusão a olhos vistos.
E serão muitos os olhos, já que o canal hoje em dia é o mais acessado no YouTube do Brasil.
Eles já são muitos, acesos pelo sinal de sempre, de que agora passarão a perna no próximo e subirão de vida.
O futebol como guerra de sobrevivência em um mundo sem trégua
Eu não brinco com os deuses do futebol.
Sei que são melindrosos.
Ruins.
Como todos os deuses são.
Santista, aprendi a dureza de torcer pro meu time mesmo ciente de que um jogador de comportamento tão duvidoso está em campo – ainda por cima, e teoricamente, por mim.
Esqueço tudo diante da batalha, a partida.
O campeonato é a guerra.
Nós a venceremos ou não, mas jamais nos esqueceremos das vitórias (os belos cortes!) em certas batalhas.
Aprendi que aquilo a movimentar um time, além de preparo físico, do talento individual, da cintura flexível e de uma boa orientação técnica, é a fúria. A necessidade (vida ou morte) de vencer a guerra, sem deixar que a virgem padroeira do time seja violada pelo inimigo entre as traves do altar.
Kento Shiogai nem chegou a dizer irrealidades sobre o time brasileiro atual, e por isso morri de pena do jogador japonês ao saber de sua declaração, ao mesmo tempo que senti um alívio tremendo ao ouvi-la.
Porque intuí que ela movimentaria a bile dos soldados em campo e dos fanáticos do templo (os fans, nós), impulsionando com isso a chance de vitória de nosso time.
Coisa mais estranha que essa, ainda, é dar de ombros aos generais.
Velhos críticos do futebol custam a aceitar que Ancelotti mexe com cautela as peças à disposição – nem tantas assim – para obter vantagens estratégicas.
O técnico italiano come pelas bordas e não espera jogar bonito, embora, em se tratando do Brasil, velhos comportamentos inconscientes possam surgir nessa direção.
Vencer não depende de boniteza, mas, ah, quando ela acontece, somos tão mais que comuns!
Vini Jr. viu Ronaldo jogar.
Craques atuais como ele estão cheios de dinheiro das bets, mas aposto que, cutucados, lembram da necessidade de sobreviver. Eles não possuem minas de diamante para explorar por toda a vida. O bolso cheio agora não quer dizer que guardarão as notas para sempre. E a fome do passado, quem diz que desejam reviver? Por isso (às vezes) lutam.
Muitos de vocês são jovens demais para saber que mesmo o time de 1970 teve críticos, que um técnico desprezou Pelé, que Amarildo caminhou como um possesso na ausência do rei, que pouca gente acreditava em Ronaldo antes de ele acontecer em 2002, entre tantas outras estranhezas a caminho da taça.
Muito soldado incompreendido, portanto, ainda pode aparecer pelo Brasil.
Martinelli, por exemplo, esse prédio sem sentido, nem deu tempo para o goleiro japonês se mexer. Foi um fuzilamento. Restou ao lindo preto no gol gritar de raiva diante de suas traves xintoístas.
Sem deixar de comentar o Casemiro dos abreus, da minha infância querida, que, com sua cara de bebê enfezado, deu um jeito de partir o brinquedo ao meio para mostrar aos pais sua superioridade diante dos irmãos.
Não espero coisa alguma do próximo jogo. Temo por tudo. E talvez nem assista à partida. Ontem, por exemplo, vi um documentário de Éric Rohmer sobre Carl Dryer durante aquele primeiro tempo triste contra o Japão e fiquei tão feliz.
Respeita o manto!
Porque o que será será.
Tem sido muito, por exemplo, o “Brasil com S”, um batidão forjado por Inteligência Artificial e assinado pelo esperto DJ de Uberlândia M4IA, a movimentar todos os reels comemorativos do Brasil, do Líbano a Bangladesh, da Jamaica aos meninos dançantes da África.
Momento de declínio sem fim de nossa indústria cultural, certo? Porém, me divirto em pensar que a CBF pagou gente de sucesso (Ludmilla, Zeca Pagodinho, João Gomes, outros) para tornar “Bate no peito” um hino da seleção, mas que ele não aconteceu, de tão ruim.
Enquanto isso, o sucesso que estronda, aquela canção fake, diz as coisas que querem ser ouvidas, a saber: que a seleção chegou, que deve ser respeitada, que os soldados têm um nome a ser repetido e que seu rei, em home office ou não, é o Neymar.
A fé damarista das últimas décadas arruina nosso ímpeto e nosso futebol
O pequeno-grande malandro perdeu o humor: até quando, Brasil?
Sou uma força do passado. Nada me prepara para o fundamentalismo evangélico-bolsonarista entranhado no Brasil.
Vou ao supermercado popular e pego a fila para fazer o pagamento. Um consumidor na minha frente, moreno encorpado de altura média, na faixa dos 45 anos de idade, conversa com a caixa, a quem parece conhecer. Em seus 19 anos, ela está otimista. Acha que o Brasil chega às oitavas na Copa, ao que ele comenta, professoral:
– Se jogar como ontem (contra o Panamá), chega.
Próximo ao caixa, o segurança bem-humorado, preto retinto com o cabelo apontado para cima, ouve a conversa e não se aguenta:
– Grande Panamá! O Brasil só chega nas oitavas se for carregando a mala.
A moça não retruca o segurança, mas olha nos olhos do consumidor:
– A gente precisa ter fé no Brasil.
Em lugar de concordar de imediato, o cliente age como se a caixa tivesse dito algo indevido. E ela parece aceitar a repreensão:
– Fé não, que a gente não pode pôr deus nisso!
Sou a próxima da fila e, desavisada como sempre, decido brincar:
– Vai na fé sim, que deus é brasileiro, hahaha.
O cliente então se vira indignado para mim. (Será ele o pastor da igreja frequentada pela caixa?)
– Deus não é brasileiro. Deus é brasileiro, alemão, americano, de todos nós.
E é claro que eu não resisto:
– Aí a gente precisa ver.
Mas fico triste. A falta de repertório crítico, de um humor básico a acompanhá-lo, diz muito sobre este momento por que passamos.
Tentam tirar tudo do povo brasileiro. O gingado. O jogo de cintura de Carmem Miranda. Até a pequena malandragem hollywoodiana do Carioca, o Zé. Não à toa nosso futebol virou essa coisa obediente, sem ímpeto. Os evangélicos nascidos da fé damarista são uns temerosos do drible.
No ensaio aberto de “Terra sitiada”, vislumbramos a dor e a hesitação desde a eleição presidencial de 2018 e a pandemia da covid, em texto de Walmir Pavam
“Terra sitiada”, a fisicalidade que agita as palavras
O dramaturgo, ator, diretor e professor Walmir Pavam, meu irmão caçula, lidou com a palavra desde sempre. Menino, já era poeta com caderno próprio, manuscrito. A palavra que se pronunciava e aquela que se agitava quando escrita o acompanhavam pela vida. Era seu dom, sua sina, esta com a qual nós, os três irmãos, de certa forma também lidamos em nossos percursos.
Com Walmir, contudo, a palavra era uma estrada artisticamente contínua. Ele escolheu cursar Geografia na universidade, talvez por ser um precoce talento também na observação da terra e dos mapas, mas as palavras ainda o balançavam. E ele decidiu caminhar a seu serviço. Ampliou-as com uma expressividade traduzida em teatro, ou seja, em emoção, fisicalidade, imagem, som. Suas palavras passaram a ser, assim, também ouvidas e sentidas em presença.
Outro dia ele ganhou importante prêmio para um roteiro cinematográfico de sua autoria, o que constituirá, espero, nova extensão para essa sina. Mas o teatro mora nele, entranhado igualmente na sua vida profissional, como professor. Uma vida árdua, de positividade e negativas. E, como eu disse antes, não importa como, ele persiste no caminho.
Ontem, fui assistir ao ensaio aberto de sua nova empreitada, a peça “Terra sitiada”, no palco da SP Escola de Teatro. Um palco imaginado como um mini Teatro Oficina, onde nos colocamos como espectadores, e os atores caminham por entre o corredor, as cadeiras, a arquibancada, surgindo de onde não se espera, vocalizando todos os contornos verbais do texto teatral.
Minha observação do espetáculo não poderia ser acolhida sem reservas, sendo eu a irmã do dramaturgo e diretor. O que posso dizer deste ensaio aberto – um momento de gentil oferta de seu grupo, dele e dos sete jovens brilhantes atores com quem conviveu na escola de teatro, para a solidificação da obra – é que sua nova peça parece engrandecer esse posicionamento diante do verbo e de sua realidade.
Pareceu-me um teatro da palavra, favorecido pela imensa agilidade dos atores, dispostos a improvisar a partir do desenho de seus personagens, engrandecendo-os. Um teatro em que a palavra é pura, dura, estocada no pretume do auditório, engrandecida pelo silêncio, em muitas passagens que nos deixam mudos de expectativa diante do acirramento de todos os fascismos encenados.
Nesse teatro, discutem-se ousadamente passagens recentes de nossa história (coisa que o cinema brasileiro de credibilidade não tem feito), a eleição presidencial de 2018 em meio à violência dos “verde-amarelos” contra os “vermelhos” na avenida Paulista. Walmir tem um posicionamento claro, pelo bom senso histórico, sem deixar de revelar as hesitações, compreensíveis ou não, de quem procura entender de que lado ficar.
E, depois, ele prossegue pelo mascaramento – sendo a máscara, ele lembra, importante fator teatral de desvelamento. Ela nos protegeu durante a pandemia da covid. O confinamento, com suas consequências comportamentais e psicológicas, é encenado durante uma aula de teatro que parece responder diretamente à experiência do autor enquanto professor. Na sua força, os rostos que representam essa escuridão têm uma arquitetura para além do olhar, aparentemente a única possibilidade visível durante a pandemia. Sentimos com os atores, tememos, temos a mesma vontade de gritar, mesmo que eles atuem com a máscara no rosto nessa parte do espetáculo.
É verdade que alguns ajustes devem ser feitos. O público de ontem parece ter sentido falta de alguns sinais de evidência (por exemplo, uma boina a identificar o ótimo personagem de um policial, sugerido e apontado somente ao fim de sua encenação). Sugeriu imagens das passeatas de 2018, refletidas. Encenações da ditadura. O som não funcionou direito e, diz o diretor, faltou incluir discursos poderosos, como o do político Ulysses Guimarães.
Não senti falta de nada disso, para ser sincera. E me cansa um pouco a intromissão de projeções de filmes e fotos no teatro de hoje. Acho que o texto de Walmir, acoplado à entrega dos atores, merece ser ouvido e sentido como um choque.
A lambança que a direita ainda pretende fazer no Brasil com o apoio de boa parte da população – a sempre ignara e sofrida, além daquela outra, a sempre desavisada de que da média não passará – me deixa no chão. Mas, como sou bicho velho, também pinçado por uns bons sofrimentos, levanto, dou a volta por cima e nunca me entrego, eu não, carcará.
Hoje, quem piscou para meu espírito abatido foi Gilmar Mendes. Ave nem tão rara, ela soltou as penas contra a imprensa (Globo) e os juízes criminosos (Lava-Jato). Nosso lorde ficou puto com a tentativa de seu indiciamento pelo senador que relatorizou o crime organizado sem responsabilizar o crime organizado. E sacudiu a poeira como um queer inglês, um Dirk Bogarde embeiçado:
“Janot de triste memória!”, proclamou sobre o ex-procurador-geral lavajatista que um dia (lembram em 2017?) entrou no plenário do STF com a intenção de matá-lo e a si próprio, mas que no fim deixou “o bom senso” dirigi-lo e não apertou o gatilho. “Ou alguém aqui não sabe que às três horas da tarde Janot já estava bêbado?”
Ah, autoridade. Não me esqueço de seu passado, mas por este presente que fez meu fígado renascer, obrigada. Não dispenso, todos sabem, os beiços de um sorriso, nem aqui nem nos stories do Instagram que se tornaram meu destino escondido, as vozes que clamam, os elos que tagarelam, hasta la vista!
O mar é o meu maior medo. Maior que a morte, talvez.
Sempre fantasio que morrer é um passo em falso até o chão. Morro metaforicamente uma vez por ano ao cair nas calçadas paulistanas, lá onde aprofundo pouco a pouco minha frouxidão ligamentar. Um tropeço, o cimento, o nada: eis a morte pra mim.
Minha visão do mar parece mais aterrorizante porque, ao contrário do que ocorre no chão, dificilmente vejo o fim chegar. Se o mar me engolir, não vou parar em destino sabido. Cairei em um precipício onde me aguardarão arraias de três cabeças, peixes com presas de mamute e espumas venenosas. E o balé não acabará aí. Ainda haverá o tribunal de gorilas carnívoros a cercar o trono flutuante, uma etapa a mais do pesadelo a que serei submetida.
O presságio da morte em água salgada nasceu quando eu era criança. Tinha 4 anos quando minha mãe me levou para pular as ondas na beira da praia do Futuro. Em Fortaleza, o mar não é para amadores, e minha mãe, que não sabia nadar, caiu num buraco comigo. O vento soprava com tal fúria que a praia parecia mudar de formato constantemente. Eu submergia. A cada par de segundos, minha mãe tentava me levantar pelos braços, o que, ao contrário do esperado, me fazia afundar mais. Lembro-me do maiô preto de helanca que ela usava, com o decote em V. Sua cabeça estava onde eu não podia ver.
Em súbita arremetida, contudo, vi meu pai chegar em nosso socorro, ele que aprendera a nadar quando um dia lhe atiraram ao Tietê. Sua técnica de braçada não funcionava direito porque a cabeça estava sempre fora d’água. Era como se ele se debatesse também.
Como sobrevivemos, não sei. O vento deve ter congelado as arraias, os peixes e os gorilas para nos deixar passar. Curioso que agora eu me sinta tão feliz no mar da Bahia, contra tudo e contra todas as evidências do veneno das espumas.
Ocupo o banco de trás do veículo, já que meu tornozelo maltratou-se outra vez. Robocop é pros fortes. Minha vontade de ser e retribuir não vê caminho a percorrer.
Levo um tempo pra perceber o zunido de conversa atrás de mim, entre o motoqueiro branco e o barqueiro negro sobre cujo boné lê-se “marinheiro”.
Não têm cabelos.
Mentem?
– O Lula falou que ia revogar tudo. Cadê? Óleo a 9?
– Quando Bolsonaro ia pro estrangeiro, ficava no quartel. Agora, quando o Lula sai, é pra hotel de bilhões.
– É só ver o estado dos Correios. Tinha valor bilionário. Depois que Bolsonaro saiu, olha a merda que ficou.
Estou a certa distância de atirar a bota com meu pé junto. Aos poucos, com uma ponta de crueldade sanguínea, e um mínimo de visão de pontaria, iniciaria a primeira gaza da minha vida.