Flanar, morrer

Todo mundo sabe.
Nascemos e morremos sós.
Eu, pelo menos, dificilmente me distraio dessa condição.
Mesmo morando com minha família, sempre persegui estar em mim.
Não me sinto mais isolada do que antes só porque a pandemia apareceu pra devastar tudo.
Não.
Prefiro ser privada do convívio do que forçosamente tê-lo, por exemplo, numa redação de veículo impresso, perseguida e enganada sem nem entender por quê.
Não me desespero na solitude, que posso escolher cultivar.
O que mudou é que, amante exasperada da flânerie, perdi a liberdade de andar enquanto ficcionalizo e fotografo as quase extensões do que sou.
As ruas do centro estão tomadas por imensas fileiras de tendas de desabrigados, isto quando eles têm a chance de possuí-las.
Na escadaria do Teatro Municipal há um condomínio de dores envolto em saco preto e cobertor puído.
Nem falo da Sé.
Dos porta-vozes bíblicos que ali ainda têm a coragem e o prazer de proferir condenações.
Então o centro, que amo sempre, torna-se cada dia mais uma parte importante do jardim do Grande Verme sobre rodas que nos atropela com seu esgar.
Não há como sair feliz de um passeio solitário pelas ruas, onde também se aglomeram sem máscara os bombados de boné e as moças de cabeleira alisada, todos fumando na mesa do litrão ao som sertanejo-evangélico no último.
Exceto quando vc distribui o que tem e sente que fez a diferença pra alguém, chega-lhe uma luz.
Mas essas relações também estão no fim.
Ninguém mais nos quer, nós, os alimentados, corados e curiosos.
Somos para eles, em verdade e com razão, fantasmagorias.
Melhor lhes dar logo doce e coca-cola por esta longa estrada da morte, ou de nada serviremos.
As palavras já não são.
Fico em casa.
Tenho banheira.
Desenvolvi gosto por gorduras de vida.
Máscaras pra super hidratar.
Refrescar o que secou.
E esquecer.

Sergio Larrain: uma carta de amor à fotografia

Aqui, o texto no qual o fotógrafo chileno Sergio Larrain dá ao sobrinho a primeira lição fotográfica. O que você lê a seguir é uma adaptação minha para o material relatado originalmente no blog Mistos Fotografia

Sergio Larraín (1931-2012) escreveu em 1982 uma carta ao sobrinho que queria ser fotógrafo. Esta carta se tornou icônica, como muitas outras histórias do fotógrafo chileno.

Larrain teve seu maior momento de fama nos anos 1960, quando ingressou na agência Magnum por intermédio de Henri Cartier-Bresson. Em seguida, estabeleceu-se em uma pequena cidade chilena e aos poucos começou a desaparecer do cenário fotográfico, o que motivou inúmeras lendas sobre sua figura.

Até Julio Cortázar se inspirou em uma história que o fotógrafo lhe contou para seu livro “Las babas del diablo”. Michelangelo Antonioni, por sua vez, usou o texto de Cortázar para compor o filme “Blow up”.

A carta

O sobrinho de Larrain pediu-lhe que desse alguns conselhos sobre a profissão de fotógrafo. E o tio respondeu com este monumento à fotografia. Se você tem dúvidas sobre seu amor por esta arte, ou precisa de motivação, leia a carta de Larrain:

A primeira coisa a fazer no caminho da fotografia é ter uma máquina de que você goste, a de que mais goste, porque se trata de estar feliz com o seu corpo, com o que você tem nas mãos, e o instrumento é fundamental. Que seja o mínimo, o indispensável e nada mais. Em segundo lugar, tenha um ampliador preferido, o mais rico e simples possível (em 35 mm. O menor que a Leitz fabrica é o melhor, dura a vida toda).

O jogo é partir para uma aventura, como um veleiro solta as velas. Vá para Valparaíso ou Chiloé, fique nas ruas o dia todo, vagueie e vagueie por lugares desconhecidos, sente-se quando estiver cansado debaixo de uma árvore, compre uma banana ou um pão e assim pegue um trem, vá para algum lugar e olhe, desenhe também e olhe. Saia do mundo conhecido, entre no que você nunca viu, deixe-se levar pelo gosto, vá de uma parte a outra, aonde quer que vá. Aos poucos, é possível descobrir que as coisas e as imagens vêm até você, como aparições.

Depois de voltar para casa, você revela, copia e começa a olhar o que pescou, todos os peixes, e os coloca junto com o uísque na parede, copia-os em folhas do tamanho de cartão postal e olha para eles. Então você começa a brincar com os Ls, procurando cortes, enquadramentos, e você aprende composição, geometria.

Enquadre com o L e largue o que você emoldurou na parede. Então comece a procurar, a ver. Quando tiver certeza de que a foto está ruim, deixe embaixo. As melhores você levanta um pouco mais alto na parede. No final, fique com as boas e nada mais (mantendo as imagens medíocres você estagna na mediocridade). No topo, nada além do que é salvo, tudo o mais é jogado fora, porque a psique carrega tudo o que se retém.

Então você faz ginástica, diverte-se com outras coisas e não se preocupa mais com isso. Você começa a olhar para o trabalho de outros fotógrafos e procura o que há de bom em tudo o que encontra: livros, revistas, etc. Você consegue o melhor e, se puder cortar, coloca o bom na parede ao lado do seu. Se não puder cortar, você abre o livro ou as revistas nas páginas de coisas boas e as deixa em exposição. Aí espera semanas, meses, enquanto der (leva muito tempo pra ver). Aos poucos o segredo se transmite e você vê o que é bom e a profundidade de cada coisa.

Continue vivendo com calma, desenhe um pouco, saia para passear e nunca force a saída para tirar fotos, porque a poesia se perde, a vida que ela tem adoece, é como forçar o amor ou a amizade, não pode. Quando você nascer de novo, você poderá fazer outra viagem, outra peregrinação: a Puerto Aguirre, você pode descer a cavalo até os montes de neve de Aysén; Valparaíso é sempre uma maravilha, é perder-se na magia, gastar uns dias a vaguear pelas colinas e ruas e pernoitar algures no saco de dormir, muito imerso na realidade, como quando nada, aprofundando-se debaixo d’água, tudo longe do convencional. Deixe suas sandálias lhe levarem aos poucos, como se você se curasse com o prazer de olhar, cantarolar, e o que aparecer será fotografado com mais cuidado.

Algo que você anteriormente aprendeu a compor e cortar, comece a fazer com a máquina. E assim continue, o carrinho se enche de peixes, você volta para casa. Você aprende foco, abertura, close-up, saturação, velocidade, etc. Aprende a brincar com a máquina e suas possibilidades, junta poesia (sua e dos outros), tira todo o bem que encontra, o bem dos outros. Faça para si uma coleção de grandes coisas, um museu em uma pasta.

Siga o que for do seu gosto e nada mais. Não acredite mais do que naquilo que aprecia. Você é a vida e a vida é o que você escolhe. O que você não gosta, não vê, não funciona. Você é o único critério, mas absorva todos os outros. Você está aprendendo. Quando consegue uma foto muito boa, as grandes, você faz uma pequena exposição ou um livrinho. Manda colar e com isso estabelece um piso. Quando você mostra ao público, posiciona-se sobre o que fez. Quando coloca seu olhar na frente de outras pessoas, você o sente. Fazer uma exposição é dar algo, como dar comida, é bom para os outros ver algo realizado com seu trabalho e gosto. Não é se exibir. Faz bem. É saudável para todos e faz bem porque lhe fiscaliza.

Bem, isso feito, você tem como começar. É preciso vagar, sentar-se sob uma árvore em algum canto. É uma caminhada solitária pelo universo. Você começa a olhar de novo, o mundo convencional lhe coloca uma tela na frente, mas você tem de sair dela na hora de fotografar.

Retrato 17

eu sinto muita tristeza ao ver que uma médica bolsonarista, quando traída por bolsonaro, pode agora dizer as verdades antes escondidas.

(que palco!)

e por que me sinto triste?

triste porque aparentemente seu discurso é necessário para validar o nosso – pela saúde pública – neste país miserável.

triste porque sua fala sobre corrupção e polarização (como se a ciência estivesse acima da política e não pudesse ser instrumentalizada) não me engana um segundo só.

happy apocalipse

toda sexta entre o fim de tarde e o início da noite, os jovens ou nem tão jovens vindos da boemia alcoólico-cigarrenta da dom josé de barros, diante da bolsotóxica academia de ginástica smartfit (too smart), enlouquecem aglomerados pelas ruas em torno da praça da república, da ipiranga e da avenida são luís, eventualmente finalizando a noite com o grito de assombro pela rapinagem de seus celulares.

meu brasil, por quê?

Uma eternidade sem perdão

Sim, eu sei que parte dos meus amigos a conhecer os corredores da política e a atuar na justiça considera inexequível a prisão imediata desses depoentes que mentiram na CPI da Covid. Meus amigos creem que é preciso deixar o tempo correr e com isso facilitar o acesso dessa gente à tribuna da comissão, para que ela se enrole depois, quando o Ministério Público reunir as provas colhidas.

Ok, mas que “depois” será esse? Um desses depois vi hoje. Pesadelo, que há muito deveria se arrastar nas correntes, acaba de cair para o alto. O Exército o condena à reserva, esta a que teve direito após participar hoje do comício do Mussolini de subúrbio com mil motoqueiros da PM miliciana do Rio. Pesadelo foi, em suma, promovido.

Quanto mais tempo criminosos como ele ficarem soltos, mais a imagem da impunidade vai se cristalizar nesse nosso povo ignorante, desvalido de saberes, que habita tanto a camada dos acumuladores quanto a dos pobres.

Como se tivéssemos tempo de sobra pra perder nessa eternidade…

O pior lugar

Os pesadelos não param. Talvez porque os últimos dias tenham sido assim, em torno da tristeza e da morte. Mas sou infeliz, eu, durante o dia, para sonhar tão ruim? Não creio. Não normalmente.

O fato é que nos sonhos estou pela rua procurando alguma coisa, visitando alguém ou até mesmo festejando meu aniversário, quando de repente me vejo sem máscara. E me sinto nua, aterrorizada.

Ninguém protegido ao meu lado, igualmente. Todos inconscientes. Só eu me dou conta de que há uma pandemia em curso e não me protegi. Perco a voz.

Procuro algo para tapar o rosto. Um papel. A malha que estava na cintura. E subo nos ônibus apressada rumo a minha casa, aonde não sei ir. Eu perambulava por um lugar distante, perdido no mundo, e não faço a mais remota ideia de qual é o caminho de volta.

Pois então. Ontem sonhei assim e hoje vejo todas as fotos do Mussolini de subúrbio na multidão. Ele não sonha com o pior, certo? Ele já vive o pior. Tão experiente nele. Ele é o pior lugar em si. Por isso agora se sente melhor do que nunca, em êxtase contínuo, passeando sobre os cacos da nossa agonia sem furar os pneus.

E eu?

Eu só não queria acordar sempre aflita depois desses sonhos, os dentes trincando, à procura imediata das pessoas que amo. Os olhos só abrem a muito custo.

Não é possível que algo no meu dia me leve durante a noite à responsabilidade por esse caos. Repudiei esse escárnio humano com todas as minhas forças e aceitei de muito bom grado votar em Haddad, que nem era meu candidato ideal, depois de aceitar não ser mais possível recolocar a presidenta em seu lugar de direito.

Por que me culpo, então? Será que porque não sei gritar, nem mesmo conscientizar quem está perto, como o porteiro bolsonarista do meu prédio?

O que está acontecendo conosco? Quando empurraremos o espectro pelo precipício? Quando faremos alguma coisa?

O ato desmedido de Boris Schnaiderman

Na guerra, na escrita ficcional, no ensaio literário ou na tradução, este grande pensador, morto há cinco anos, negou a covardia

Boris Schnaiderman durante
entrevista que realizei com ele
em 2011, registrada pela fotógrafa
Olga Vlahou: um sorriso sempre

Neste 18 de maio de 2021, completam-se cinco anos desde a morte do crítico, escritor e tradutor Boris Schnaiderman, que hoje teria 104 anos. A seguir, reúno o obituário que escrevi em 2016 à entrevista realizada no ano anterior em torno de seu último livro, “Caderno Italiano”.

Em foto de Olga Vlahou,
o professor Schnaiderman,
sua esposa Jerusa e esta

jornalista, há dez anos

 

POR ROSANE PAVAM

O sorriso brasileiro, a alma russa, uma doçura no trato, a rara retidão. Morto em decorrência de pneumonia um dia após completar 99 anos, numa quarta-feira, dia 18 de maio de 2016, em São Paulo, Boris Schnaiderman viveu de traduzir. No título de um livro lançado em 2011, equiparou seu ofício a um “ato desmedido”, este para o qual, com modéstia peculiar, nunca se via pronto, embora o entendesse necessário, exigente de sua ousadia. Não somente verteu ao português os clássicos da literatura russa, libertando-a das más versões anteriores, como, por seu gosto e humor, preferiu exercitar a “tradução vivida”. Um ser humano, dizia, existe para traduzir aquilo que caminha em seu íntimo. E o tradutor deve ser um ético, um fiel, a quem não competirá desfazer do texto alheio, ainda que confuso. “Antes o obscuro que o óbvio, o frouxo”, proclamava, numa citação a Guimarães Rosa.

Tinha princípios e lutava por eles. Nos anos 1940, após a entrada do Brasil no grande conflito mundial, deu-se conta, sem o apoio dos pais ou dos amigos, que era preferível lançar-se à óbvia guerra, temeroso dela, do que acovardar-se na frouxidão. Não somente a terra a acolher sua família fugida dos pogroms, nos anos 1930, merecia sua batalha, como toda a humanidade. Na Itália, Schnaiderman lutou pela democracia, enquanto no Brasil havia a ditadura. E ele, que condenava todos os autoritarismos, até mesmo os atuais, vivia de inconformismo por saber que as duras batalhas da FEB eram ridicularizadas. “As pessoas não se lembram de que o Brasil participou da Segunda Guerra.” No ano passado, lançou Caderno Italiano, no qual deu sua visão dos combates, desta vez intitulando os combatentes, sem mesclá-los ficcionalmente como fizera em um dos mais belos textos da literatura brasileira, Guerra em Surdina

Nos últimos tempos, revia suas traduções e esboçava as memórias da infância ucraniana, aquelas que lhe permitiriam contar a vida a partir de suas andanças em Odessa e seu testemunho, aos 8 anos, das filmagens de O Encouraçado Potemkin. Alguns meses antes de morrer, ainda tomava sua cachaça, recolhia a correspondência por baixo da porta, andava acompanhado pela Higienópolis onde morava e silenciava, os olhos sorridentes, diante de tudo o que lhe dissesse, com inteligente formosura, a esposa Jerusa Pires Ferreira. 

A seguir, a íntegra da entrevista realizada com o escritor e professor em sua residência paulistana na tarde do dia 4 de setembro 2015, por ocasião do lançamento de Caderno Italiano.

Por cerca de uma hora e meia, Schnaiderman falou com calma e pausadamente, empenhado em ressaltar a participação brasileira na guerra. Sentado em uma cadeira na sala repleta de livros de seu apartamento, não se recusou a responder uma pergunta sequer.

 

Meu filho Bernardo Tagliari,
Boris Schnaiderman e eu em foto que Carol Carquejeiro realizou durante a última entrevista que o professor
me deu, em setembro de 2015

“Caderno Italiano”, seu novo relato sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra, tem o formato documental, ao contrário de “Guerra em Surdina”, de 1964. Quanto tempo de escrita o novo livro lhe tomou?

 

Pouco tempo. Cerca de um ano e meio. Quando escrevi Guerra em Surdina, havia limitações. Certas pessoas ficariam muito ofendidas, outras viriam a público desmentir o que escrevi. E coisas assim bem desagradáveis. Mas agora, passados esses anos todos, quase todo mundo já morreu, não há mais impedimento. E eu resolvi vir a público principalmente porque está tudo muito esquecido. Demais. Demais. As pessoas não se lembram de que o Brasil participou da Segunda Guerra Mundial. Os jornais noticiam quando há as datas e tal, mas o povo de modo geral esqueceu. Era uma contradição lutar pela democracia lá fora enquanto havia ditadura aqui. Fiquei perplexo porque esperava um desastre completo desta participação brasileira. Os soldados não tinham motivação para lutar. No entanto, lutaram. Uma coisa estranhíssima. Desempenharam muito bem, quando parecia que tudo iria resultar num desastre. E não.

 

Foi difícil tomar a decisão de participar dessa guerra?

 

Eu quis lutar. Foi antes ainda da minha convocação, não é, a minha vontade de ir para a guerra. Eu estava completamente arrasado com as notícias que chegavam da Europa. Já se sabia daquilo que depois chamariam de holocausto, aliás um nome muito inadequado para o que houve. A palavra holocausto significa o sacrifício a uma divindade. E esse sacrifício era em prol do quê? Não tinha um objetivo. Então, o nome me parecia completamente inadequado. Aliás, na França houve todo um movimento de intelectuais contra a designação desse massacre como holocausto.

 

Como o sr. avalia a participação brasileira na Segunda Guerra?

Fiquei perplexo porque esperava um desastre completo. No entanto, os brasileiros se saíram bem, realmente bem. Agora vêm essas conversas de que afinal de contas era uma linha de frente secundária, nem Stalingrado, nem o desembarque na Normandia… Tudo bem, mas não tinha nada de secundário naquele combate! Afinal de contas, um exército alemão foi imobilizado na Itália, uma coisa importante. Aliás, o fato de existir uma frente na Itália facilitou o desembarque aliado na Normandia.

 

A FEB teve algumas derrotas. O primeiro ataque ao Monte Castello resultou num fracasso completo, mas houve poucos insucessos. Incrível o que se conseguiu. A tomada de Montese, em abril de 1945, foi uma coisa extraordinária. Quer dizer, eu só participei calculando tiro. Mas os homens da infantaria lutaram de rua em rua e de casa em casa. Não se pode diminuir isso de modo nenhum. Eu continuo perplexo, sem compreender bem como foi possível que o combate se desse. Aqueles homens falavam mal da guerra, diziam que Getúlio Vargas tinha sido enganado pelo ministro Oswaldo Aranha, que nós havíamos sido vendidos por dólares (e era verdade). Eles tinham consciência disso, no entanto lutaram. Uma surpresa para mim.

 

A grande maioria dos soldados era da camada mais pobre da população. Os estudantes foram à rua pedir guerra na avenida, tal, mas na hora do vamos ver, eram bem poucos lutando. Havia alguns estudantes, claro. Eu fiz parte da Central de Tiro. No meu grupo de artilharia, havia vários estudantes convocados. Tínhamos uma situação concreta. Eu era um pacifista convicto, mas me convenci de que era necessário lutar.

 

Os soldados de divisões diferentes eram tratados de maneira semelhante por seus superiores durante a guerra?

 

Na artilharia, a diferença entre o soldado e o oficial era muito mais sentida. Na infantaria, a relação entre soldados e oficiais era muito melhor. Na artilharia, havia assim como que uma barreira entre os oficiais e os praças. Uma coisa que vem de longe, não é? De uns se acharem superiores aos outros. Não vinha de alguma especialidade exigida de quem calculava. O cálculo de tiro era uma função como outra qualquer.

 

Em “Caderno Italiano”, o sr. menciona uma discriminação importante no exército americano. Como a percebia?

 

No exército americano, havia um racismo entranhado. E no nosso, não. Os americanos nos diziam: “Vocês é que estão certos. Brancos, amarelos, negros, mulatos, todos misturados. Vocês é que têm razão! Mas nós não podemos. Nós não conseguimos. Para nós, negro não é gente.” Uma coisa terrível. Estivemos muito em contato com a oitava divisão negra americana, mas nessa divisão negra americana os oficiais eram brancos. Isto por si acarretava uma situação deprimente para nós. Admiro muito o escritor Rubem Braga. Gosto muito das crônicas de guerra dele, porque conseguiu captar com muita sensibilidade as situações humanas. Mas ele não menciona a questão racial no exército durante a Segunda Guerra. Nunca conversei com o Rubem Braga sobre isto. Só o vi uma vez, de longe, durante os combates. Eu fui o primeiro a calcular um tiro de artilharia na minha divisão. E o Rubem Braga estava lá para ver.

 

Tem certeza de que o cálculo de artilharia era uma coisa simples de fazer?

 

Muito simples, bastante simples. Era um cálculo feito na base das curvas de nível. Eu ficava diante de uma prancheta. Nela, estava o mapa da região, com as curvas de nível. E o cálculo era feito na base dessas curvas. Não usava réguas de cálculo, calculava no papel mesmo. O exército brasileiro teve toda uma formação pela missão francesa que veio ao Brasil. Nossa organização era baseada no exército francês. Mas depois fomos incorporados ao exército americano e tudo mudou. Em tempos de paz, no Rio de Janeiro, fomos treinados para usar o canhão de 75mm, adotado pelos franceses. E nesse sistema era o capitão comandante da bateria quem fazia os cálculos. Quando fomos incorporados ao exército americano, eles passaram a ser feitos por uma central de tiro. Um grupo de sargentos e cabos, comandado por um capitão, calculava. Mas no nosso sistema, o francês, éramos nós mesmos a fazer esses cálculos. Os americanos trabalhavam sob uma organização quase empresarial. A gente foi preparado de um modo no Brasil e deparou com tudo diferente na guerra. Fomos aprender lá mesmo. Improvisando.

 

O exército brasileiro oferecia a possibilidade de leituras aos soldados nos intervalos dos combates? O sr. escreveu cadernos naquele período?

 

Nós recebíamos alguns livros, sim. A Legião Brasileira de Assistência, organização presidida pela mulher do Getúlio, oferecia livros. Poucos, geralmente. E era muito individual, isso: ela ajudava uns, não ajudava outros. Por meio desses livros pude me interessar por Alphonse Daudet, para depois me decepcionar com suas posições, que conheci mais tarde. De Knut Hamsun, eu também gostava muito, e novamente só depois soube que aderira ao nazismo. Fiquei perplexo com as posições do Daudet, com o que aconteceu com o Hamsun.

 

E eu não conseguia escrever durante a guerra. Comprei um caderno e fiquei anotando umas coisas, mas por muito pouco tempo. Não valeu de nada.

Nem desenhei. Sou muito ruim de desenhar. 

Pode não ter valido nada naquele momento, mas valeu depois, por certo.

 

Acho importante contar o que aconteceu. Acho importante lembrar. As pessoas saberem o que foi. Um livro sobre os acontecimentos não é uma coisa fácil de ser feita. Guerra em Surdina, eu levei muito tempo para colocar no papel, saiu 19 anos depois de eu ter voltado da guerra. Eu tentava e não vinha nada. A ideia era escrever assim que o conflito acabasse, mas eu não conseguia. Eu tinha lido muita literatura de guerra, mas minha experiência era completamente diferente de tudo o que eu havia lido.

 

O sr. sente falta de escrever ficção? “Guerra em Surdina” é um dos mais belos romances da literatura brasileira.

 

Uma tentativa de romance… Eu sempre quis fazer ficção. Mas não sou ficcionista. Minha autobiografia me arrasta mais.

 

Sua infância não valeria um livro?

Tenho vontade, sim, de escrever sobre a infância. Estou escrevendo agora. Eu tive esta sorte. Estou com 98 anos e continuo capaz de fazer as coisas. Então houve essa vantagem. Estou tentando contar minha vida desde a infância. Estou tentando, mas é muito difícil, porque aparece o problema, não é? Mostrar o podre das pessoas ou não mostrar?

 

O sr. deve ter muitas histórias a oferecer, como aquela em torno de seu testemunho sobre um clássico do cinema, aos 8 anos.

Acho que sou o único sobrevivente das filmagens de O Encouraçado Potemkin. Todo mundo morre. As pessoas foram morrendo e eu sobrevivendo. Talvez seja o único sobrevivente daquela cena. Isto foi em 1925. Em Odessa, onde eu vivia. Acontece que as crianças em Odessa tinham muito mais liberdade e circulavam muito mais pela cidade do que as nossas. Não havia quase trânsito. As potências ocidentais estavam bloqueando a Rússia, quase não circulavam carros na cidade. Só os veículos coletivos. Agora, automóveis particulares, não havia. Simplesmente não havia.

 

Então existia muito movimento pelas ruas. Eu andava pela cidade toda. Gostava muito daquele espaço da escadaria de Odessa, entre a parte alta e o porto. E uma vez eu estava sozinho na escadaria quando vi um movimento estranho. Era a filmagem do Encouraçado Potemkin. De repente, aqueles homens atiravam os chapéus para o alto… E apareciam aquelas mulheres com umas toaletes que não se usavam mais, muito estranhas para mim. Não me lembro bem, mas devo ter visto o próprio Eisenstein. E o cinegrafista dele, que filmava, o Tisse. Mas me recordo mesmo é das cenas. Vi os chapéus atirados para o alto, aquelas damas todas lá, saudando os marinheiros revoltados. Aquelas damas em toaletes muito estranhas, não é? 

 

 

Odessa era uma cidade diferente das outras?

 

A disposição topográfica de Odessa é semelhante à de Salvador. Fica num platô. E na parte baixa há o porto e as praias. Suas ruas são bem paralelas, planejadas pelo primeiro governador. É um pouco diferente de outras cidades russas. Digo russa porque era ucraniana, mas, para mim, era tudo Rússia… Eu só falava russo, em volta todo mundo falava russo. Quando ia à feira, ouvia a conversa dos vendedores numa língua que eu não compreendia. Era o único contato que eu tinha quando criança com a língua ucraniana. Toda a vida restante se passava em russo. Odessa é uma cidade praticamente russa. Mas quando eu chego à Rússia (até recentemente, porque agora não estou mais viajando), todo mundo me conhece como odessita, por causa do sotaque. Nasci em Úman, uma cidade relativamente perto de Kiev, capital da Ucrânia. Mas para mim era tudo Rússia.

 

Seus pais não ensinaram aos filhos a língua de família?

 

Em casa, meus pais não falavam a língua dos judeus da Europa Oriental, o iídiche. Exceto quando queriam que nós, eu e minha irmã Berta (que foi engenheira civil), deixássemos de compreender alguma coisa. Então eu fazia um esforço e acabava compreendendo, porque em casa só se falava russo. Eu me interessei pela literatura iídiche, mas sempre em tradução. Não tinha livro em iídiche em casa. Meus pais abandonaram a língua, sei lá, por inércia. Precisavam viver em um meio no qual todo mundo falava russo… Mas eu tinha uma avó, mãe de meu pai, que veio morar conosco e só falava iídiche com ele. Quase não se comunicava com a gente, só falava com meu pai.

 

E seu pai reagiu mal à sua opção por uma carreira literária.

 

Aconteceu o seguinte. Quando tinha uns 12, 13 anos, disse aos meus pais que iria estudar agronomia. Tinha uma fantasia com uma vida no campo, essas coisas. Vim para o Brasil quando tinha 8 anos, em 1926, e sentia muita saudade de Odessa. Mas depois, aos 15, passei por uma crise. Eu me abrasileirei completamente. Fiquei lendo literatura portuguesa e brasileira, romances, poesias, Machado de Assis, José de Alencar. E resolvi que não iria fazer mais agronomia, que me ocuparia de literatura. Escrevi uma carta para os meus pais, caprichei na redação o mais que pude. Disse que não queria mais ser agrônomo. E minha mãe me chamou para conversar. Disse que literatura era muito bom, mas que precisava ser feita nas horas vagas, aos sábados e domingos, de noite. E me contou que a pessoa necessitava ter uma ocupação rentável enquanto fazia literatura… Eis por que, para satisfazer a família, fui para essa coisa de agronomia.

 

O sr. só conversou sobre isso com sua mãe?

 

Não falei com meu pai, era tudo com minha mãe. Escrevi uma carta para eles, que não era a terrível carta de Kafka ao pai, pelo contrário, tinha o tom amistoso. E eu era bem mais criança… Muito recalcada, retraída… Criança imigrada era assim. Não falava com as outras. Cheguei aqui, as frutas eram diferentes, eu não conhecia banana, mamão, coco. E meus pais tinham saudade da Rússia.

 

Como a família veio parar no Brasil?

 

Acontece que meu pai era comerciante. No regime comunista, não havia muito espaço para ele, um homem hábil, com as costas quentes. Ele se dava muito bem com as autoridades. Mas se ele tivesse ficado, teria sido fuzilado. Porque aquelas pessoas que o protegiam, o favoreciam, foram todas fuziladas como trotskistas. Sua fuga não foi questão de habilidade. Aconteceu que ele tinha um primo, Pedro, que estudava na Escola Politécnica de Odessa. Estudava e trabalhava ao mesmo tempo, para ajudar a família. O pai dele faleceu e ele se tornou arrimo de família. Um dia, foi expulso da universidade por ser de família burguesa. Revoltou-se e resolveu emigrar. Emigrou sozinho até a fronteira com a Romênia, onde contrabandistas, mediante certa quantia, ajudavam a pessoa a ultrapassar a fronteira. Atravessou a fronteira com a Romênia, ficou quase sem dinheiro e conseguiu chegar a Viena. Lá, dormiu em banco de praça para não pagar hotel e foi correndo de embaixada em embaixada para obter um visto de entrada em algum país. Conseguiu um para o Brasil.

 

As pessoas saíam da Rússia com um destino em mente. E, para atingi-lo, conseguiam o que se chamava Passaporte Nansen. Diplomata norueguês, Nansen trabalhava para a Liga das Nações e providenciava passaportes para os que saíam da Rússia. Com seu Passaporte Nansen, Pedro veio para o Brasil, onde passou muitas dificuldades. Trabalhou na construção civil como pedreiro, mas conseguiu se firmar. E escreveu umas cartas entusiasmadas para nós. 

 

Meus pais então resolveram emigrar para o Rio de Janeiro. Mas de modo diferente das outras pessoas, que em geral saíram fugidas. Nós saímos com passaporte soviético, de capa vermelha, com letras douradas, a foice e o martelo dourados. Depois, no Brasil, tive problemas com isso. Imagine usar esse passaporte durante o Estado Novo! Eu consegui a naturalização brasileira após muito esforço. Não tinha recursos, portanto não podia contratar advogado nem despachante. Ia pessoalmente de repartição em repartição, mas consegui. Todos na família conseguiram. 

 

Minha naturalização saiu em 1941. Mas me formei engenheiro agrônomo em 1940. Para registrar meu diploma, precisava estar naturalizado e ter prestado serviço militar. Então tratei de me alistar. Eu podia fazer linha de tiro, que era um tipo de instrução mais suave, ou o quartel. Quis o quartel, me chamariam para lutar. Foi uma complicação. Eu morava em Copacabana e tentei me inserir nas fortalezas do litoral. Não me aceitaram. Só consegui ser aceito num quartel em Campinho, depois de Cascadura. Eu acordava às 4 horas da manhã, tomava ônibus, bonde e trem e chegava em Campinho. Fiz lá o curso de sargento e fui convocado à guerra como terceiro-sargento. Dei baixa como segundo-tenente. Fomos todos promovidos depois da guerra.

 

O sr. se considera próximo do marxismo?

 

Passei por um período marxista. O que me distanciou muito do movimento comunista foi o pacto germano-soviético, em 1939. Fiquei com muita raiva, aquilo me afastou por muitos anos, mas depois voltei.

 

O cinema em algum momento foi fidedigno em relação aos acontecimentos que o sr. presenciou na Itália durante a Segunda Guerra?

 

Tive um tio que dizia não acreditar no Roma, Cidade Aberta, do Roberto Rossellini. Uma bobagem muito grande, porque eu testemunhei o que o filme mostrou em 1945. Vi que os italianos lutaram contra o fascismo. Os partigiani realmente se empenharam a fundo, com grandes perdas humanas e tudo. Uma injustiça muito grande dizerem que não fizeram nada. Quando nós entramos no norte da Itália, ele já havia sido tomado pelos partigiani. Tenho a maior admiração pela contribuição dos italianos na luta contra o fascismo. E Roma, Cidade Aberta me pareceu fiel. Vi Paisà na época do lançamento, 1946, mas não me lembro bem dele. A população italiana estava arrasada. Uma situação de degradação completa. Quando chegamos em Nápoles, era trágico.

 

Qual é o seu sentimento, hoje, sobre a guerra?

 

A guerra, a gente não esquece. Neurose de guerra todo mundo tem. Quem passou por aquela experiência tem neurose de guerra, é inevitável.

 

Como o sr. escreveu “Caderno Italiano”? Ainda usa a máquina de escrever?

 

Escrevo a máquina, não aprendi computação, não consigo. Por quê? Qual é a vantagem? Até hoje existem oficinas para máquinas de escrever, e eu mando a minha para eles. Sabe que há muita gente escrevendo desse modo ainda? Tanto que a gente ainda compra fita de máquina. O computador mudou o tipo de correspondência, não é? É imediata. Hoje em dia quase não escrevo cartas. A Jerusa [Pires Ferreira, sua esposa] manda as mensagens pelo computador. Ela está completamente computadorizada.

 

 

O sr. ainda escreve cartas? Pensa em publicar sua correspondência?

 

Minhas correspondências nunca foram publicadas. Nem quero que sejam. Eu guardo todas as cartas que recebo, mas hoje em dia quase não escrevo cartas. Não posso me queixar. Fico trabalhando, fico escrevendo, lendo, de vez em quando saio, acompanhado de alguém. Acordo cedo. Recebo muito livro, inclusive não há espaço para tantos deles em meu apartamento. No momento, revejo traduções antigas. Traduções novas, não mais.

 

Ao lado dele, por Olga Vlahou

 

 

Vivinha, a dama, o riso

Estive com Eva Wilma em 2008. Vivinha tinha então 75 anos, era sorridente, engordara uns quilos e usava vestido verde. O verde me perturbou. Eu só pensava em meu pai, que disse ter chamado a atenção dela na juventude ao usar um terno de mesma cor. A atriz achou a história estranha e justamente dela não riu, se bem me lembro. Me atrapalhei. Eva, que morreu agora como consequência de um câncer, emanava poder. Declamava Millôr de cor e naquela ocasião me contou que escrevia um diário sem pensar em publicá-lo. Ser atriz, disse-me ela, que sonhou em se tornar bailarina, não representava um chamado quando optou pela carreira: “O chamado era a época”

Eva Wilma, culta, brilhante,
transformou em bordão a fala
de uma amiga pernambucana:
“Thank you very much, viu, bichinho?”

A DAMA QUE RI

 

A atriz Eva Wilma revê uma carreira vitoriosa, marcada pelo humor

 

Por Rosane Pavam

 

Diante desta Eva que é o princípio, um interlocutor pode se sentir perto do fim. A história de Eva Wilma, que fez grande carreira no teatro, na televisão e no cinema, intimida quem a analisa. Acontece, contudo, de a personalidade de Eva distanciar-se da altivez. Ela ainda assanha os olhos, delineados a lápis, na direção de quem a observa. Sobretudo, depois de 55 anos como atriz, usa uma arma incomum para quem é dama. O humor.

 

Fazer rir não parece permitido às mulheres bonitas. Eva Wilma contrariou a interdição. Foi uma das mais belas desde a fundação da televisão no Brasil, em 1950, mas manteve o pé no riso, a seu ver um instrumento reflexivo. Integrante do Balé do IV Centenário, ela não começou como atriz. Em sua primeira aparição na tevê, em 1953, compartilhou com o primeiro marido, John Herbert, historinhas diferentes sobre o encontro de um homem e uma mulher na sitcom Alô Doçura. O humor apareceu nos dez anos em que a série durou.

 

Não que Eva Wilma tenha se sentido predestinada a ser atriz. Teria sido bailarina se houvesse aparecido a chance real. Seu pai, o alemão Otto Riefle Jr., perdera o emprego em 1929, sem jamais se recuperar financeiramente depois, e Eva não tinha irmãos com quem contar.

 

“O chamado era a época”, ela avalia hoje. Quem a convidava simultaneamente a interpretar eram Luciano Salce, da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, José Renato, do Teatro de Arena, e, na tevê, o apelo era de Cassiano Gabus Mendes. Resistir aos três seria para rir. Como bailarina, ela aprendera que ou se debruçava sobre a barra ou não dançava direito. Para uma atriz, a barra equivalia ao estudo do personagem.

 

Ficou clássica a sua interpretação para Raquel, a gêmea má de Ruth na novela Mulheres de Areia, de Ivani Ribeiro, em 1973. Eva se transformava então na vil-má, qualificativos que ela lamentava haver em seu prenome, conforme contou à escritora Edla Van Steen na biografia ilustrada Arte e Vida (Imprensa Oficial). A maldade de Raquel, contudo, apegava-se ao cômico. Era bom ser gozadora e atraente. Raquel jogava a cabeça para trás, mostrava os dentes e brandia o revólver como se fosse um brinquedo. A boazinha Ruth usava lenço na cabeça, prendia o cabelo de lado com a presilha, rejeitava os óculos escuros e, principalmente, não gargalhava.

 

Tudo muito simples, mostrado desde o início como truque. Por desempenhar tão bem duas personalidades diferentes em Mulheres de Areia, seria natural que ganhasse o Troféu Imprensa, prêmio concedido aos melhores da tevê. Quem levou a láurea de melhor atriz naquele ano, contudo, foi Regina Duarte, que representara duas mulheres em uma (a menina pobre e tímida que passava a intrépida e rica) na novela Carinhoso.

 

Regina Duarte era já amiga de Eva Wilma à época. Conhecera a atriz garota, ao atuar com ela em Blackout, com direção teatral de Antunes Filho, em 1967. Regina declinou do prêmio em favor de Vivinha, como ela e os amigos ainda a chamam. O gesto se tornou comoção nacional naquele 1974. Eva Wilma assistia à cerimônia sentada no sofá de casa. “Surpresa como estava, só pude ligar para a Regina e lhe mandar flores.”

 

Na televisão, acredita a atriz, é raro haver este espaço para exercer a ironia, à moda do que ela fez em Mulheres de Areia. “Como não temos tempo para nada, estudo ou concentração, e nos aquecemos na tapadeira, atrás do cenário, ainda por cima falando sozinhos, não deixamos passar a oportunidade da ironia quando ela surge. Ser irônico, neste caso, equivale a comentar toda a situação.” A história se repetiu de certa forma anos depois, em 1996, quando ela se deliciou ao interpretar Maria Altiva Pedreira de Mendonça e Albuquerque em A Indomada, de Aguinaldo Silva, e improvisar o bordão da vilã, aprendido com uma amiga pernambucana: “Thank you very much, viu, bichinho?”

 

Agora que Eva Wilma, aos 75 anos, surge para uma leitura de textos representativos de sua carreira, costurados por ela e pelo autor Antonio Gilberto, em Um Brinde ao Teatro, dia 27, no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, e que reestréia em São Luís a peça O Manifesto, de Brian Clark, agora na companhia do ator Pedro de Camargo, esta passagem que ela faz como poucos, do drama ao humor, e do humor ao drama, vai estar mais clara para o espectador.

 

Eva estudou para ser ambígua, para colocar algo de seu na personalidade dramática de seus personagens. Quem primeiro a obrigou a isso foi Antunes Filho, diretor do policial Blackout, sucesso de público e crítica ao lado de Geraldo Del Rey e Stênio Garcia. Para compor a personagem frágil pela cegueira, e que de repente investia contra os bandidos com uma faca de cozinha, ela leu o capítulo sobre dialética do livro Princípios Fundamentais da Filosofia, de Georges Politzer. Eva apelidou o livro de “meu pequeno operário”.

 

Dois anos antes, o diretor Sergio Luis Person a convidara a São Paulo S.A., filme no qual a personalidade da protagonista era desenhada com idêntica surpresa. A Luíza simples parecia acreditar no futuro industrial de São Paulo, mas seus olhos indicavam que ela esperava o pior. Eva Wilma apenas diz que se divertiu muito com Person, e que o filme a levou a Acapulco, onde ocorria o Festival dos Festivais. Lá, ela encontrou o diretor espanhol Luis Buñuel, admirador da obra. O filme, que rendeu prêmios a Eva, já valera por este encontro.

 

“Começamos a crer, emocionados, que o mal nem sempre vence”, diz o prólogo que Millôr Fernandes escreveu para Antígone, de Sófocles, e que Eva declama no saguão de um prédio paulistano. No edifício ela comprou um apartamento há quase três décadas, por iniciativa de seu segundo marido, o ator e diretor Carlos Zara, morto em 2002 de um câncer no esôfago. Eva ainda se emociona quando fala deste homem que ela amava e que sabia sempre por onde andar e o que fazer.

“O mais difícil da luta é escolher o lado em que lutar”, termina o prólogo de Millôr.

Eva, a segunda à esquerda, entre
Tônia Carreiro e Odete Lara, em passeata contra a censura, 1968:
“O mais difícil da luta é escolher o lado em que lutar”

Eva também gosta de escrever, à mão, em um diário que não imagina publicar. “Não acredito que já tenha realizado tudo o que gostaria de realizar. De alguma maneira a juventude me parece mais próxima do que quando eu era jovem”, ela escreve. De tudo lê um pouco, como os textos do mambembe Airton Salvanini. Agora, dedica-se a um novo esporte: “Arrumação, você conhece?” O site de buscas google a libertou do desperdício de materiais representado pelos volumes da Enciclopédia Britânica.

 

Riam, mas não brinquem, com a Eva Wilma ética que, algo defendida pela notoriedade, caminhou contra a censura em 1968, para não mais se intrometer na política de candidatos. E jamais façam como o diretor inglês Alfred Hitchcock, que a convidou a um teste, naquele ano fatídico, para participar do filme Topázio. Durante a análise, ele a provocou em inglês. Irritada, Eva Wilma argumentou que jamais conseguiria responder à provocação em língua que não fosse a portuguesa. “Pois responda na sua língua”, ele a desafiou. Eva então lhe falou tudo o que ele não poderia compreender. Não ganhou o pequeno papel, que passou a uma alemã, Karin Dor. Topázio não fez o sucesso esperado, mas, ainda assim, ela teria adorado estar nele. Neste caso, Eva riu por último, mas não riu melhor.