Quem desliga a chave?

02.11.18

talvez vocês não tenham idade pra saber, mas no seriado camp do batman as paredes frequentemente ameaçavam espremer nossos gay-heróis capturados por gay-vilões.

pois me sinto batman & robin há muitos e muitos anos, tentando segurar as paredes, sem que nunca me deixem conseguir…

tendo de aguentar tropa de elite & sertanejo & big brother & outras porcarias de nossa indústria cultural apenas porque são populares e porque a esquerda, sem querer ser chamada de elitista, não as poderia refutar…

santa burrice!

era por onde a ditadura começava a entrar!

nossa esquerda, dita esquerda, não foi a heroína cultural que deveria ter sido, lamento dizer. nunca pensou em desligar essa chave. adorou a chave. e agora as paredes estão próximas.

mas ao mesmo tempo, né?

estamos só no começo.

quero mandar o cara do uber desligar o som!

aqueles cantores que parecem o porco sob a faca…

e suas letras de corno transcorridas em dubais sentimentais, onde a métrica é insolúvel, “segredos” rima com “erros” e a incapacidade de articulação transborda para nossas vidas…

batman, robin, quem vai desligar a chave?

Mother and child

And I say to myself

Between the years,

Between learning to walk and growing up,

There is a promise in these brown eyes,

There is a promise so old that it is always new.

And I say to the world, proudly:

This is my present to you,

These brown eyes with their promise.

And in the still night I say to you, fondly;

Now I begin to understand.

This promise is so old that is forever new.

These brown eyes were a present to me,

Now I give them to you.

Nell Dorr em “Mother and Child”, 1954.

a imobilidade construída

pergunte o que são os três poderes ao brasileiro pobre, mesmo se formado no ensino médio.

ele saberá lhe dizer?

pergunte-lhe o nome dos três últimos presidentes do brasil.

inquira a ele o que é justiça, para além do justiçamento.

o que é um prefeito, um governador, um vereador.

é o déficit programado de conhecimento o que nos deixa imobilizados no estado atual.

e também a polícia, sim.

o estado policial.

o discurso que culpabiliza manifestações, inclusive aquelas que explodem vidraças de banco.

a imobilidade não é um acomodamento brasileiro, como nos querem fazer crer até mesmo aquelas irresponsáveis publicações tidas por esquerdistas.

a imobilidade foi cuidadosamente trabalhada, anos a fio.

sobramos alguns de nós mesmos.

e jovens valentes, buchas do canhão de sempre.

Nenhuma a menos

De 19 de outubro de 2016

Adoro Buenos Aires. Mas preciso dizer. Que decepção quando viajei para lá a primeira vez, há um quarto de século. Sozinha. Somente Salvador se equiparava então, por minha experiência, em machismo praticado contra uma turista solitária.

Estranhei o quarto de hotel onde me colocaram. Fiquei no segundo subsolo, a janela diante da parede. Reclamei, nada foi feito. Prossegui. No meu andar se hospedavam duas brasileiras em um quarto. Demorou três dias até eu perceber que se esquivavam de meus cumprimentos. Recebiam uns tipos à noite.

Fui almoçar em um restaurante na avenida Nove de Julho. Na hora de pagar a conta, me disse o garçom, loiro de olhos azuis: “Saio às quatro, me espere na rua X”. Fiquei assombrada. Achava que só no Brasil, como acontecera na Bahia antes, eu seria chamada às vias de fato por estar sozinha em uma mesa: “Por que tá dando uma de difícil comigo, porra?” – perguntou o sujeito que se sentou na cadeira em frente à minha, no Zanzibar, sem permissão.

Não estranho, infelizmente, o feminicídio na Argentina.

E aproveito para dizer: nenhuma a menos.

Fio de ferro

De 12 de outubro de 2015:

Estrada do Cascalho, Boiçucanga. Saio sob a chuva, noite de domingo, atrás de alface e tomate na venda. A caiçara me vê andando, se aproxima, puxa conversa. Diz que não vou encontrar verdura nesse horário, deveria ter ido procurar antes (no que concordo), mas sigo pela estrada a seu lado, quem sabe consiga aquilo de que preciso mais na frente, a conversa é boa. Calculo que ela tenha minha idade, mas descubro que são cinco anos menos.

– Vai chover muito hoje à noite e amanhã também – me informa, sorridente, decidida, camiseta regata, chinelo.

– Ouvi dizer que não… – retruco, chinelo também.

– Vai sim, forte! (Nem choveu, fez sol, tudo bem.) Mas volte, porque o verão vai ser bom – me aconselha, enquanto segura com a mão direita o cabelo solto, que balança.

– Sim, eu sei, venho sempre. Você mora no Cascalho? – pergunto.

– Desde que nasci, é ótimo.

– Eu adoro. Mas tem trabalho por aqui?

– Pra mulher tem.

– Pra mulher?

– Nas pousadas, nas lojas, muita coisa. Mas tem de querer trabalhar. Eu vou de sol a sol.

– Que bacana.

– Tem de aguentar.

– Sim.

– Mas as meninas não estão nem aí. Têm 15 anos, ganham filho, não querem mais saber de fazer as coisas.

– É… Essa geração tem filho cedo…

– Revolta a gente, porque elas pegam vaga na creche, que nunca tem, e ficam pelo dia falando mal das outras, à toa. E tirando a vaga de tanta gente boa que precisa trabalhar.

– Ah… – penso um pouco. – As meninas hoje são diferentes.

– Minha mãe era dura.

– A minha também – me aproximo. – A gente tinha de estudar, não podia pensar em casamento.

– A minha mãe batia com o fio do ferro.

– Mesmo?

– E não deixava estudar. Mulher, não. Só os homens. Tinha de pegar no pesado.

– Ah… – penso em algo, não vem. (Estamos em São Paulo. 2015. Ela é mais nova que eu.) Olha o minimercado aberto, vou entrar, tá? Boa sorte, querida.

– Até!

(Que horas ela volta o quê.)

Muro de escola

Em 11 de outubro de 2016, escrevi no facebook isto que talvez ainda esteja valendo.

Um deputado imbecil (eu sei, é quase um pleonasmo) diz que pobre não tem de cursar faculdade. Voltamos mesmo às vias de fato ditatoriais. E eu me lembro de um episódio de minha vida em família pobre, nos anos 1970.

Crianças, não pudemos frequentar o colégio público Caetano de Campos, o melhor na minha região, porque não havia vagas pra nós. Até hoje me pergunto como isso pôde ser, mas ok.

Minha mãe, atarantada, soube então que o Porto Seguro oferecia vagas gratuitas para necessitados, à tarde, longe dos frequentadores que pagavam caras mensalidades e faziam o curso pela manhã. E fui estudar na unidade da praça Roosevelt onde hj, aliás, está o Caetano de Campos.

Vida dura. Me sentia um marginal. Menos aulas de matemática e português, e não nos ensinaram alemão no fundamental, como faziam com as turmas pagas – apenas inglês, mas a partir da 7 série. Párias, não podíamos frequentar a ala do prédio em que os estudantes do curso integral tinham aulas à tarde. Comprar lanche, nem pensar, diziam os professores que formavam cordão humano para não nos deixar atravessar o corredor até a cantina. E não podíamos usar a piscina quando o colégio se transferiu ao Morumbi, embora apenas nós, da parte gratuita, tivéssemos de fazer exames médicos os mais variados, desde os de fezes, periodicamente.

Há mais episódios, contudo poupo vocês…

Um dia, um de nossos professores batalhou para que entrássemos na disputa de oitavas séries pela olimpíada interna de matemática. Éramos a turma com menos aula de matemática de toda a escola – mas, como vencemos todas as outras turmas (havia um gênio em nossa classe), passamos a ter direito de frequentar a piscina em alguns horários.

Daí que nossas famílias se julgaram no direito de solicitar bolsas integrais para seus filhos brilhantes no ensino médio, mas isso era ousadia demais, não podia ser. O diretor-geral, com aquele seu look que lembrava o de um João Figueiredo esguio da alta roda, foi bem claro para uma das mães de nossos colegas: “Pobre não faz colegial. Faz curso técnico.”

Não quis mais frequentar essa escola, mas minha mãe me obrigou a ficar, pagando uma pequena mensalidade para meus estudos. Foi um colegial triste, porque além disso dei de cursar humanas – e tínhamos, de novo, uma aula de física, química e biologia por semana. Contudo, fiz duas ou três colegas. Me lembro de um professor de inglês que me incentivava e, além disso, de um bom professor de português, que gostava, para minha sorte, de minhas redações e das minhas interpretações para Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Acho que não teremos jamais o direito, no Brasil, a um ensino estimulante, respeitoso e gratuito. Diante de nós, sempre, esse muro do terror.

Pobre com foto

Meu pai fotografava.

Revelava e ampliava os filmes em casa, no único banheiro de nosso apartamento alugado nos anos sessenta.

Isto quer dizer que, dependendo de como fosse, tínhamos de esperar pela revelação terminar ou pedir pra usar o banheiro do zelador.

Meu pai fazia as cópias em papel com um ampliador que ele mesmo construiu, no qual encaixava uma lâmpada philips. Se nela houvesse um logo desenhado, ele passava para o papel fotográfico. Não raro nós, os personagens, aparecíamos sorridentes sob o desenho da lampadinha nos álbuns da família.

As fotos, ele ampliava pequenas, do tamanho do negativo de sua flex tcheca, a Flexaret.

O papel fotográfico precisava ser controlado devido ao alto preço. Cortado em miúdos pedaços.

Nem por isso, contudo, meu pai deixaria de presentear com uma pequena cópia todo amigo ou parente que aparecesse numa fotografia que ele tivesse tirado.

Nos cliques de aniversário, seu flash era uma lâmpada que mantinha acesa sobre algum banco ou mesa.

E não só.

Meu pai pintava com um pincel algumas fotos pb, já que o filme colorido, mais caro então, raramente podíamos comprar.

Ele era também e principalmente um grande desenhista e pintava quadros, embora eu hoje raramente encontre as telas nas quais apareci bebê.

Tudo isto pra dizer que tive uma sorte danada.

Embora minha cama fosse o sofá da sala e minha mãe precisasse pedir açúcar na vizinha quando meu pai se via desempregado, sempre tivemos fotos pra curtir e livros de arte pra ler.

Então, não necessariamente o fato de uma família dispor de vários registros fotográficos significa que tivesse dinheiro de sobra pra gastar.

Só isso mesmo, obrigada.

democracia pelos cacos paulistas

o local da votação é tão longe que vou de carro.

chego com minha bengala de quatro pés.

subo os três andares bem devagar, pois no colégio não há elevador.

voto de pé.

diante da urna, fico primeiramente atrapalhada, depois risonha.

ouço a campainha de programa de calouro ao final de cada decisão que eu tomo.

os candidatos, uns números.

desço três andares de volta com vontade de correr.

a escola pública é tão linda, anos 70, quem sabe.

quase fico por lá mesmo até o horário de votação se encerrar.

essa quadra toda enredada que existe nela, isso não faziam na minha infância.

quando a gente chutava a pobrezinha pro outro lado, tinha de ir lá buscar.

ninguém no meu bixiga conhecia condomínio e vivíamos pela rua mesmo, brincando de esconde-esconde atrás ou embaixo dos carros estacionados.

bola não era preocupação porque brotava.

fecho os olhos e estou jogando queimada contra um time que se amontoa.

sou sempre a última a restar nas quadras, muito boa em desviar dos arremessos.

hoje isto mudou.

me tornei um alvo invisível.

as bolas batem direto em mim.

vejo eleitores com camisa do pt e de movimentos sociais.

novos, velhos, humildes.

saboreio a eleição do conselho tutelar porque algo nela se liga a meu passado.

e eu ainda não sei se é náusea o que sinto de imaginar o futuro.

o presente é o melhor presente.

a democracia se parece com a gente.

florzinhas vermelhas empertigadas e solitárias nos vãos dos cacos dos quintais de paulista.

Provocações ou evidências?

Quando eu digo que a direita menos burra está se espalhando por nosso encanamento para se tornar a única água que bebemos, acreditem em mim.

Um exemplo:

Provocações, título tão adequado ao Abu, virou o nome daquilo que o Marcelo Tas faz depois que assumiu o programa. Mas não só quando o apresenta. O Tas se tornou isto (provocador) e é o dono disto (provocações).

Ele ataca o Intercept no Twitter e os amigos logo entendem: são provocações, porque Tas é um provocador.

Me ajuda, Chitãozinho!

Não são provocações.

São evidências.

Com o devido copyright.