“Sem chão”, a luta palestina pelo pertencer

“Sem chão” (No other land) é um filme-diário sobre a luta pela terra palestina. Um filme jovem, urgente, feito de esperança sem razão, boicotado pelos distribuidores nos Estados Unidos e vítima de apagamento. Um candidato ao Oscar de documentário em 2025 como se isto constituísse uma ousadia impensável…

Neste documentário, Basel Adra, jovem de origem camponesa formado em Direito, desacredita dos tribunais e vive para informar ao mundo que os israelenses roubam a terra dos seus ancestrais sem cerimônia ou dignidade. O jornalista israelense Yuval Abraham, que aprendeu árabe com um colega e a partir dele compreendeu a causa palestina, segue os passos de Basel munido de comprometimento, a ponto de juntos, na companhia de Hamdan Ballal e Rachel Szor, editarem “Sem chão” sob a perspectiva do palestino, ou seja, do perdedor.

A família Adra pertence a Masafer Yatta, um povoado fundado pelos palestinos em 1830 no sul da Cisjordânia, mas reivindicado em 2019 pelos israelenses por meio de uma determinação de sua Suprema Corte. Os sionistas decretam que a região montanhosa deve servir para o treinamento de tanques do exército de seu país – e não, nunca, para abrigar um bando de despossuídos árabes que, a partir daquele ponto, poderia sonhar com mais.

Assim é que escavadeiras, tanques e soldados israelenses destroem tudo o que Yatta constrói: suas humildes habitações, escolas, até um curral de ovelhas e um playground. Eles não podem esperar. Precisam desfazer tubulações, fiações, cozinhas, brinquedos, o que vier, diante dos olhos revoltados dos reais proprietários, para que o teatro de destruição cotidiana se efetive. Contudo, as pequenas câmeras e os celulares da família Adra, assim como o equipamento do jornalista israelense, jamais param de funcionar, registrando com agilidade, sob pena de agressão, morte ou invalidez, todos os movimentos do Estado de terror. 

O plano sionista não declarado, mas já em parte realizado, é encher a região de ocupantes israelenses cujas casas são eficientes e cheias de luz. Enquanto isso, os resistentes fogem para as cavernas sujas da região à espera de reconstruir suas casas, todas as manhãs, naquele exato local onde foram derrotados no dia anterior.

Quem ganha a luta, podemos adivinhar. Quem fará os camponeses se mudarem para as cidades entulhadas, onde míseros apartamentos abrigarão famílias inteiras, serão os israelenses. 

Aquilo que não sabemos, contudo, constitui o cerne deste belo filme. Ele está localizado na luta que se faz todos os dias, não importa quantos palestinos resultem feridos ou inutilizados pelos explosivos do exército ou pelos tiros dos colonos armados. O cerne é o senso de pertencimento. O calor familiar. O amor às crianças. O humor de quem nunca desiste de estar ali.

Muito a esquecer

Sorrio,estou na Bahia!

Na balsa, vou de carro.

Ocupo o banco de trás do veículo, já que meu tornozelo maltratou-se outra vez. Robocop é pros fortes. Minha vontade de ser e retribuir não vê caminho a percorrer.

Levo um tempo pra perceber o zunido de conversa atrás de mim, entre o motoqueiro branco e o barqueiro negro sobre cujo boné lê-se “marinheiro”.

Não têm cabelos. 

Mentem?

– O Lula falou que ia revogar tudo. Cadê? Óleo a 9? 

– Quando Bolsonaro ia pro estrangeiro, ficava no quartel. Agora, quando o Lula sai, é pra hotel de bilhões.

– É só ver o estado dos Correios. Tinha valor bilionário. Depois que Bolsonaro saiu, olha a merda que ficou.

Estou a certa distância de atirar a bota com meu pé junto. Aos poucos, com uma ponta de crueldade sanguínea, e um mínimo de visão de pontaria, iniciaria a primeira gaza da minha vida.

0 vento me salvou.

    esqueço quem sou.

    me esqueçam!

    O grande Hansen que hoje partiu

    O professor João Adolfo Hansen, um incêndio particular                                   

    (Foto Toni Pires)

    Hoje morreu aos 83 anos, após combater um câncer, o imenso professor João Adolfo Hansen. Foi ele a me ensinar sobre o barroco literário durante a graduação na Universidade de São Paulo. Em anos nos quais pretendi estudar Letras, eram muitos os mestres designados ao nosso ensino, de Alfredo Bosi a João Luiz Lafetá. E embora Lafetá me fascinasse, era Hansen quem constituía meu incêndio particular. Não só porque fumasse ao infinito, hábito que acabou por abandonar nas últimas décadas de vida. Hansen iluminava nossa cabeça atormentada como um farol no mar. 

    Suas aulas não tinham intervenção, não a minha, ao menos, que costumo cometer o erro de palpitar a partir das palavras de fascínio recebidas desses grandes. Todos esperavam por sua aula, e todos se continham diante dele. Era um gozador letrado, que fazia bailar os dedos entre as pontas de cigarro, um dos pés sobre a cadeira, um dos braços apoiado nessa perna, e a cabeça sempre a olhar para cima, para o distante, para o tempo histórico.

    Nunca me esqueço do divertimento desse bailarino ao saber que a rara gramática latina deixada por ele no xerox da universidade tinha sido roubada. “Quem poderia imaginar um ladrão para uma gramática de Latim?” E ria sem parar. Hansen era a modernidade (era e ainda é), embora estudasse um tema longínquo, que até a própria USP retirou de sua grade de graduação, a literatura brasileira dos séculos XVI e XVII, justamente quando tínhamos o relevo imbatível entre os antigos artistas colonizadores europeus.

    Quando soube, em novembro de 2014, que era ele o editor/organizador de um dos códices da obra de Gregório de Matos, recentemente lançado, pulei da cadeira entediante de editora servil a Senhor Democracia e gritei que esse lançamento precisava de mais de uma página, espaço (raramente) legado aos livros e autores tidos por difíceis. Bateram o pé contra a ideia, mas eu bati mais. No fim, o espaço ganho de três páginas ficou pouco para a diagramação que o condenava, e eu não pude escrever muito. Não pude ou não soube me estender nas entrelinhas do protesto de Hansen contra a USP que o maltratava, tendo eleito os estudos sobre a literatura modernista como os principais da academia. Contudo, eu pude escrever que Gregório de Matos era uma construção mal entendida por meus contemporâneos, conforme Hansen ensinou.

    Republico a seguir o texto que fiz a partir da entrevista.

    O poeta Gregório de Matos

    O poeta é um fingidor

    João Adolfo Hansen edita os poemas de Gregório de Matos de modo a desfazer a rebeldia e a maledicência associadas ao escritor

    POR ROSANE PAVAM

    Conhecem-se os sábios pela pinta. A do baiano Gregório de Matos e Guerra, formado em Direito Canônico, era a de dizer sem pena. Pois certa vez esse inimigo amargo da hipocrisia julgou um caso em Portugal. O pai de uma jovem morta em Alcácer do Sal exigia que o viúvo Paulo lhe devolvesse o dote concedido um ano antes, por ocasião do casamento. Isto porque o genro, depois de adornar a defunta com palma e flor, fizera publicar que ela havia falecido intacta. Matos não pensou demais para sentenciar Paulo com uma trova mínima: “Gaita de foles não quis tanger, olhe o Diabo, o que foi fazer.”

    A verve da sentença exalava vulgaridade naquele século XVII no qual os poemas eram tirados em desafio, mais cantados e ouvidos do que lidos. Quando regressou à Bahia, aos 50 anos, Gregório de Matos frequentou os certames literários nos quais os religiosos se misturavam aos poetas. Em Lisboa, havia dito ao bispo João da Madre de Deus que, apesar de versado nos direitos divinos, era homem e não conseguiria manter o voto de castidade a fim de se tornar padre. Ele usaria cabeleira vasta e roupas coloridas para, a bordo de uma viola cabaça, cantar contra os donos da vida até o dia da sua morte aos 60 anos, em 1696.

    Nunca se contestou sua verve, mas sua história. Nenhum verso de Gregório de Matos se pode dizer certamente seu, porque ele jamais assinou um poema. E sua obra ganhou inúmeras cópias manuscritas, feitas às vezes por baianos de origem negra cultos a serviço de escritórios literários, com alterações incontroláveis de termos. Nem mesmo o retrato requintado que o século XIX lhe deu pertence a ele. Embora esse grande poeta tenha existido, sua obra não foi o que se disse ser.

    Nos cinco volumes agora lançados em capa dura pela editora Autêntica, são apresentados os poemas atribuídos a ele no século XVIII por Asensio-Cunha. Embora impressionantes, os livros não representam a inteira verdade sobre o poeta. Ilustrados na versão brasileira com as imagens do italiano quinhentista Ulisse Aldrovandi, eles apenas constituem um dos caminhos para compreender um outro pensamento, distante da ideia de autoria, de público leitor e mesmo de obra literária como a conhecemos. Um mundo anterior à Revolução Francesa, que estabeleceria o “eu” burguês contra o “deus” aristocrático. Gregório de Matos nasceu e cresceu segundo o estabelecido pelo divino. Além de heterossexual, dizia-se um católico branco, proprietário de terras. Não queria, nem poderia, ser visto como um judeu pervertido, errante e plebeu em plena vigência da Inquisição.

    “Em verdade, o que esse poeta tem é o eu inflado da verdade da instituição e das instituições”, acredita João Adolfo Hansen, 72 anos, professor-titular aposentado da Universidade de São Paulo, o maior especialista brasileiro em Gregório de Matos e organizador, junto ao filólogo Marcello Moreira, do códice Asensio-Cunha. “Sua obra é totalmente regrada por preceitos retóricos e não tem o sentido de superação da ordem vigente”, diz Hansen, ainda a investir contra os moinhos da academia.

    Morador de um amplo apartamento projetado por Villanova-Artigas no bairro paulistano de Pinheiros, repleto de estantes estreladas por dois tomos de Dom Quixote presenteadas pelo pai na infância e objetos da cultura popular brasileira ou africana, ele desconfiou de alguma coisa errada desde a graduação. À época um professor mostrou-lhe um modelo poético que parecia remeter diretamente ao baiano, mas não era Matos o autor. Em 1988, depois de observar o que estudavam seus contemporâneos e entender que o poeta trabalhava dentro de um modelo literário seguido entre outros por Quevedo, Shakespeare, Giambattista Marino e John Donne, Hansen publicou o doutorado com essas conclusões, intitulado A sátira e o engenho, vencedor do Prêmio Jabuti.

    Ao ler as preceptivas artísticas do século XVII e cruzar os poemas com os tratados de teologia, as cartas do império e os documentos da Companhia de Jesus, o professor de frases longas e grande fôlego, recuperado nos últimos cinco meses após abandonar o cigarro de cinco décadas, concluiria que aquela imagem do poeta até hoje presente não corresponderia à real.

    Gregório de Matos foi transformado em mito no século XIX. Em 1850, o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen intitulou-o “rebelde” e vinte anos depois o crítico Silvio Romero entendeu-o como nascido da fusão de negro, índio e branco, a criticar a separação das três raças enquanto contestava a opressão da Metrópole. Os muitos códices caminhavam nesta direção, a de desenhar seu perfil de poeta segundo uma ordem narrativa que intrincasse poesia e vida a partir das didascálias, que eram os títulos dos poemas acrescido de explicações. No século XX, o crítico Antonio Candido viu Gregório de Matos como uma “manifestação literária” e Alfredo Bosi, como um artista ressentido e pessimista, até que os anos 1960 o tivessem proclamado “anarco-tropicalista”. Nenhum deles talvez tivesse entendido Gregório de Matos como um fingidor.

    Consta que durante uma aula de graduação na USP, naqueles anos 1980 e 1990 em que ainda eram obrigatórias aos estudantes de Português as disciplinas sobre a produção colonial (enquanto hoje, lamenta Hansen, a literatura brasileira ali tenha se tornado “um Hegel cubista, ensinada a partir do modernismo, para depois recuar ao romantismo de José de Alencar e avançar até Machado de Assis, que nega Alencar”), o autor de A sátira e o engenho ironizou a ideia da “manifestação literária” de Candido ao indagar a seus alunos: “Manifestação espírita?” O grande crítico brasileiro objeto dessa restrição, contudo, havia designado “clássico” seu livro. Até oferecera um jantar ao jovem pesquisador, que, incapaz de resistir à ironia, comentaria com a mulher, uma educadora, a bênção recebida: “Olha, Marta, é o alpendre e o canavial, o ‘coroné’ está me chamando debaixo do guarda-chuva.”

    Para o especialista que tantas vezes parece repetir a verve do pesquisado, se o poeta seguiu leis escritas rígidas, não teria havido então rebeldia pessoal, pessimismo, ressentimento, nem maledicência ou tara sexual a anteceder seus versos. Sua sátira seguiu um cânone clássico, nascido de Horácio. Foi  praticada em dois níveis, o primeiro levemente irônico, destinado a combater o vício fraco, dos tagarelas ou beberrões. Gregório de Matos ficaria famoso ao aplicar o segundo nível, contra os praticantes de vícios nocivos, por exemplo, os ladrões de dinheiro público. A eles destinava o sarcasmo de arrancar a pele, no mínimo o insulto, como nestes versos que talvez devessem credenciá-lo a Boca da Verdade, não a Boca do Inferno, como ficou conhecido: “Neste mundo é mais rico quem mais rapa./ Quem dinheiro tiver pode ser papa.”

    Poemas atribuídos, o primeiro volume

    Em 2011, quando a Literatura Brasileira da USP ofereceu a Hansen a verba para estabelecer o códice Asensio-Cunha, ele acreditou ser imprescindível à tarefa o professor-titular Marcello Moreira, seu ex-orientando de 47 anos, professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e responsável por detalhar os critérios de manuscritura dos poemas. Tudo começa por uma desconfiança, e a de Moreira um dia girou em torno da crença do filólogo Antonio Houaiss, para quem seria preciso retirar da poesia do baiano os pastiches e as paródias, de modo a obter seu “resíduo irredutível”. Contudo, descobriu Moreira, o que Houaiss enxergava como dispensável à obra lhe era essencial. Os trópicos podem ser tristes, prenunciou Gregório de Matos, o autor deste poema: “Quando da Barra vi coqueiros e bananeiras, disse comigo: Brasil.”

    ah, o gatilho

    Quando acho que nada mais irá me chocar na vida, aí mesmo a boiada bate na minha cara com força.

    Ponho a bagagem no carrinho adquirido pelo prédio onde moro. Vou levá-la até o porta-malas do nosso automóvel, de modo a fugir do carnaval do Nunes. E de repente, no corredor, ouço um trecho da discussão entre o zelador e o porteiro.

    O porteiro, por ser branco, gordo e eleitor de Bolsonaro, um dia eu apelidei de miliciano. O zelador é outra história. Negro, tem o porte elegante e parece ser amigo dos policiais da rua.

    Como jamais veste camisa de manga curta, nem no calor infernal, o zeloso zelador me faz fantasiar sobre a existência de eventuais tatuagens pelo corpo, que ele talvez precise esconder.

    O zeloso tem voz e expressão de boleiro. O porteiro é assíduo espectador do telejornalismo policial.

    – Mas ele não fez isso do nada. O gatilho foi a traição da mulher – diz o zelador.

    – Como assim, gatilho? – pergunta o miliciano.

    – Ela traía ele. Portanto, ela deu o gatilho. E ele matou.

    – Mas matou quem? Ela? Não, matou os filhos. O que tem a ver? 

    – O gatilho! – diz o zelador.

    – Até quando as pessoas vão justificar os crimes baseadas nisso? Nem a mulher ele poderia matar.

    – Mas o gatilho é importante – sentencia o zelador ao se dar conta da minha presença.

      Então até um bolsonarista tem momentos de lucidez? Mas o miliciano é só o porteiro. É o zelador quem dita os paranauês cotidianos do edifício, de cujos moradores posso imaginar a opinião sobre este caso.

      O que fazer? Haja camiseta crítica, haja boné dos sem-terra para esclarecer quem somos no entra e sai de todos os dias. Lula, viva cem anos. É muito duro ser só.

      Ubertale

      das ubertales

      e/ou 

      das coisas que só eu ouço por aí

      Pego o Uber Comfort, o mais barato no momento. O motorista não sabe o caminho. Tento explicar. Não me ouve. E do nada:

      – Minas Gerais não é como aqui.

      – Você é de Minas?

      – Belo Horizonte. Faço Uber pra pagar as despesas quando venho de viagem.

      – Ah, claro – digo. E penso: deu pra ver.

      – São Paulo é uma bagunça.

      – Hum. Onde não é?

      – Em Minas, as coisas são certas.

      – Certas?

      – Em Minas, quem manda é a polícia.

      Quero dizer tanta coisa. Que democracia isso, que três poderes aquilo, que polícia não manda, cumpre, e que, se manda, é bandida. Mas quando olho pela janela vejo o Basquiat. A cara dele. Fico quieta. Deixa o louco se complicar sozinho, mulher. 

      Ah, esses céus

      Das coisas que só eu escuto por aí.

      Chovia e nos protegíamos sob a marquise.

      – Que tempo é esse? – me perguntou a senhora agasalhada, de coque grisalho. Mas era como se falasse consigo mesma.

      – Desequilíbrio climático, difícil – respondi o que me veio, sabendo que ela não parecia ter me perguntado nada.

      – Choveu tanto, tanto, ontem, no Jardim Paulista – prosseguiu.

      – Alguém morreu? – me interessei.

      – Não.

      – Primeiro foi o fogo – ela voltou.

      – Onde? – perguntei.

      – O Edir Macedo já disse. Primeiro foi o fogo. Agora é a vez da água do Apocalimpse.

      A chuva diminuiu. Saí de fininho. Ah, esses céus.

      Carnaval que é bom…

      Sou da geração do Prince. Ouço algo dele quase todos os dias. Por isso estou aqui na minha rede, encolhida, com suas músicas no último volume do fone de ouvido, enquanto um bloco de pré-carnaval passa lá embaixo na São Luís, a tal avenida-folia paulistana. Não que toquem só o que é do carnaval por aqui, claro. Ô mania de alardear tudo, menos o samba, que este povo tem. E no volume mais ensurdecedor, of course. Mas amanhã vai chegar. Amanhã, o dia de eu fazer ioga para velhos no SUS. (Isto se não chover o mundo outra vez, que o salão do Anhangabaú não suporta a choradeira e se entope da sujeira das lágrimas.) Amanhã vou de bermuda ciclista seguir as manobras ditadas por minha jovem professora de óculos, magra e austera. De bermuda, sim, para enfrentar o mundo que me estranha. Que se danem, ok? Foi o que respondi delicadamente para aquela colega ao final de uma dessas aulas. Virou-se para mim, a espoleta, nos seus 70+: “Hum, tá bonita ainda, hein, olha essas pernas, aproveita!” Concluo que aquela idade com que eu sonhava secretamente chegou. “Que se danem”, respondi. Quase não ligo para mais nada nem ninguém. Se é elogio, como no caso da colega, não é: antes uma ameaça, um desdém. E de homem então é que não espero nada – assalto, talvez? Meu carnaval é o teatro das ruas do centro de todos os dias. You Sexy Mother Fucker, Prince. Bad girls, Donna. Michael, don’t stop ‘til you get enough. (E obrigada pela escuta atenta: a raiva de hoje vai passar, amém.)

      A fábrica involuntária dos monstros do jornalismo

      Um dos meus trabalhos ignóbeis na Folha do pleistoceno era reescrever os textos dos repórteres para que fizessem sentido e/ou coubessem no tamanho. Às vezes, eu precisava entrevistar os profissionais para entender como o fato se deu e colocá-lo bem descrito na reportagem a ser publicada.

      Alguns desses repórteres cresceram em popularidade e importância graças justamente à reescritura de seus textos, feita por redatores modestos como eu. Resumindo, a gente contribuía, em troca de salário, para fazer crescer muita gente desprovida de talento, transformando-a, sem imaginar, nos monstrinhos do presente.

      Hoje levei um susto ao ver que um desses repórteres sem jeito (não me pergunte quem) virou colunista do uol. Ele tem a mesma cara enfezada – aqui obedeço à etimologia -, mas agora produz o sumo da baboseira reaça em poucas linhas (ah, a sorte do editor), no modo platitude, só para agradar ao banqueiro seu patrão.

      Até o Paulo Francis, não sendo flor de se cheirar, sabia que o jornalismo é moralmente indefensável. Então não vou eu me defender, né?

      Só me desculpar.

      🫣

      A sentença da montanha 

      Filme de 1947, em que Toshiro Mifune atua pela primeira vez, faz poderosa metáfora sobre a participação japonesa na Segunda Guerra



      “No limiar da morte”, dirigido em 1947 por Senkichi Taniguchi (1912-2017), traz a atuação inaugural de Toshiro Mifune no cinema. Assisti hoje ao filme japonês, em preto e branco, pela primeira vez (há uma cópia sem legendas no YouTube, e um streaming do filme no Criterion Channel). Mifune tinha então 27 anos neste longa, muito jovem para vencer o embate interpretativo contra Takashi Shimura, ator de então 42 anos que desenrola seu pensamento comovido até a ação.

      Shimura representa a máscara introversa, sábia, da performance humana, enquanto Mifune, o furacão que ilumina a lâmina de um lado só – uma espécie de razão ilustrada pela desrazão. Enquanto o personagem de Shimura desfruta de uma emoção familiar ao enxergar, na jovem menina que lhe dá abrigo (Setsuko Wakayama), muito da sua filha que morreu, o de Mifune quer vencer logo a guerra contra a natureza. É preciso escapar da neve com o dinheiro que roubaram junto a um terceiro companheiro, já soterrado em avalanche. Mifune não entende por que ser emotivo numa hora dessas. Quer usar a família que o acolhe em busca de seu objetivo, custe o que custar.



      E como se dá esse embate – até físico – entre os dois ladrões que divergem sobre a maneira de fugir? Com ousadia impensável. Em primeiro lugar, o roteiro é de Akira Kurosawa. Depois, Taniguchi dirige de maneira magistral as sequências dificílimas que o colega previu, ao ar livre, em montanhas nevadas e arriscadas. Eis o neorrealismo, aberto como na Roma de Rossellini, mas, aqui, filmado no gelo sem fim.

      Os japoneses não são italianos e transformam sua resistência política em metáfora, em pedido de perdão por sua ação na Segunda Guerra, neste filme realizado dois anos depois do fim do conflito.

      Na casa da família que abriga os ladrões interpretados por Mifune e Shimura, há trechos poéticos escritos em alemão nas paredes. E a “Rosen Morgen” (que em alemão quer dizer tanto “manhã rósea”  quanto “róseo amanhã”) é a canção que maravilha o alpinista interpretado por Akitake Kono, guia dos bandidos em fuga.



      Enquanto tudo se dá, Shimura sufoca as pretensões de Mifune com o sopro de sua bondade, crescente conforme outra canção folclórica, a estadunidense “My old Kentucky”, interpretada pela menina, evoca a saudade do lar. (“E o que é o Kentucky?”, pergunta-lhe Shimura.)



      O filme passa como um assombro por  penhascos reais. Os personagens têm garras fincadas nos sapatos, cordas atadas pelo código de ética dos alpinistas e o fogo está sempre perto do fim. “A montanha é poderosa e punirá os maus”, anuncia o avô de Setsuko (Yoshio Kosugi). Uma sequência no trem fará Shimura desejar ver mais uma vez a montanha que desafiou. Montanha da juventude e das crenças – tantas combatidas pelos Aliados. A parte mais bonita do filme é quando ele lhe dá adeus.

      Setsuko Wakayama e Mifune,
      juventudes tão distintas

      https://youtu.be/kJbVbxZ_FwI?si=Kvo_HOGE60CXLGCl

      Marianne Faithfull, nossa irmã

      O filme britânico “Broken English”, presente na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, faz homenagem à cantora e compositora morta em janeiro deste ano

      Aos 76 anos, Marianne Faithfull vê recortes sobre sua carreira apresentados por George MacKay, de 33

      “Broken English”, dos diretores Jane Pollard e Iain Forsyth, é uma hagiografia amorosa da cantora e compositora inglesa Marianne Faithfull (1946-2025). Um documento de amizade justificado não apenas por ter sido Marianne quem foi, autora, entre outros, dos versos da canção que intitula o filme, mas pelo sofrimento experimentado por ela ao exercer o protagonismo feminino em época tão desinteressada disso. 

      Sob o frio chuvoso de 29 de outubro de 2025, a caminho da sessão do documentário no Cine Satyros Bijou, na praça Roosevelt paulistana, eu me sentia um tanto como em maio de 1990, quando vi uma apresentação ao vivo da artista em Paris. Tinha medo e andava só. 

      Verdade que pouco deveria temer em São Paulo agora, pois moro na vizinhança e sei onde piso, ao contrário do que acontecia no bairro parisiense à época de minha juventude. Mas é que os dois bairros, o da República e o La Pigalle parisiense, algo se aproximam, visitados não só pela boemia artística como pela dor da pobreza e da prostituição, com as quais não sei lidar ao certo (mas à solidão, me acostumo bem).

      Era noite iluminada pelas cores carmim e esmeralda, como naquela Paris, quando cheguei à porta do Satyros, eternamente o Bijou de minha infância e adolescência. As cadeiras vermelhas da pequena sala de cinema (as poltronas do La Cigale tinham cor idêntica) estavam no mesmo lugar. No Bijou, eu pude assistir quantas vezes desejei, em uma mesma sessão, aos filmes que me impressionaram, tão diversos entre si quanto “A Crônica de Hellstrom” (1971) e “O Amigo Americano” (1977) pudessem ser. Agora somos obrigados a sair da sala tão logo acabe o filme. Agora também não há mais pulgas e outros bichos eventuais entre as cadeiras. Mas a conversa lá fora, nós a ouvimos como antes, sem que ninguém se anime a interromper.

      Não à toa, portanto, o passado voltou. Era pleno porque eu via Marianne na tela também. Filmado em algum ponto de 2024 até o início de 2025, quando a artista morreu, o longa me revelava, contudo, uma outra mulher. O rosto arredondado e liso parecia afável, apesar de o tubo para a entrada de oxigênio estar visível. E o sorriso constante dos últimos dias seria impossível de perceber em 1990, quando a soberba se destacava na sua expressão facial e na postura de palco, o cigarro eternamente entre os dedos. Uma condição que, para mim, gritava Marianne até ver este documentário, presente na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Nele a artista acresceria, ao forte orgulho, a raiva e a luxúria como seus pecados capitais prediletos, todos eles reverenciados no álbum de 1998 “The seven deadly sins”.

      Marianne ao centro, em 1967, numa visita ao guru Maharishi (sentado) na companhia de Michael Cooper, Mick Jagger, Shepard Shebell e Brian Jones

      Amei aquela mulher como amei a Rita Lee de início, os cabelos longos franjeados, a ousadia de estar entre a soberba masculina do mundo do rock com o talento, a beleza e a ousadia das roupas e sapatos. Hoje podemos calcular apenas longinquamente o quanto este ambiente custou para as duas artistas. Internações, overdose, depressão e isolamento eram constantes em Marianne. O descrédito doía. Igualmente machucava a tentativa de apagá-la ao torná-la “visível” em manchetes como aquela que relatou sua pretensa nudez numa festa em casa do guitarrista Keith Richards. “Era muito mais lógico para eles que eu tivesse morrido”, ela crê.

      Com Courtney Love em sua casa londrina no ano de 2021, quando gravou o disco “She Walks In Beauty”

      Eis um filme feito de muitas reflexões sobre o ato de fazer um filme e sobre a predominância do desejo de não-esquecimento, proferido pela atriz Tilda Swinton como quem dirige o documentário a partir de uma cabine do tempo. O restabelecimento do poder feminino é a tônica expressa por debatedoras, atrizes e até por uma performance da cantora Courtney Love.

      Bob Dylan à máquina de escrever, cantando Marianne na cara dura

      Marianne conta que “Sister Morphine”, sua primeira composição de sucesso (ela diz que fez a letra para que Mick Jagger parasse de tocar a melodia na guitarra o dia todo), foi desautorizada às paradas depois do segundo dia de execução pública. Não era possível que revelasse vício a voz de uma jovem a quem o mercado atribuía tamanho encanto – este compartilhado pelo músico Bob Dylan, que lhe dedicou um poema na cara dura, mesmo estando ao lado da mulher, a cantora Joan Baez, tão admirada pela inglesa. Marianne diz que nem viciada era então. Contudo, a canção parecia liberada para que Mick Jagger, o então namorado com quem vivia, a interpretasse sob aplauso geral. “Por que você não se manifestou a respeito? Você ou Jagger?”, perguntou-lhe no filme o apresentador George MacKay, de 33 anos, ao mostrar extratos de suas entrevistas e apresentações. “Não sei”, Marianne respondeu, após hesitar. “Não éramos tão conscientes disso quanto vocês hoje são.”

      O filme brilha no fim, quando Nick Cave rege em estúdio a sessão final de gravação da vida da artista.

      Saio do meu Bijou inquieta como as luzes vermelhas e verdes projetadas sobre a rua molhada. Saio como quem reflete. Decidida a não esquecer uma das verdades de Marianne proferida no filme, prezo a incerteza, rica como a água da chuva que corre.

      Iain Forsyth e Jane Pollard, os diretores de “Broken English”

      O engenhoso humor negro de Park Chan-wook em “No other choice”

      Presente na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o filme coreano desmonta os ultracapitalistas e sua mais recente arma, a inteligência artificial 

      Lee Byung-hun vive o pai de família Man-soo: o homem do papel e de todas as plantas

      Dedicar o próprio filme ao cineasta de 92 anos Costa-Gavras (“Z”) deve dizer muito sobre o tipo de obra – veloz, irônica, política – almejada por um diretor. Aqui, é o cineasta coreano Park Chan-wook (“Oldboy”), de 62 anos, quem reverencia o diretor grego cujos filmes combateram ditaduras.

      “No other choice” (“A única saída” no Brasil) é o título deste espetacular entretenimento coreano contra o establishment, baseado no livro “O corte”, do estadunidense Donald E. Westlake (1933-2008). Com bela fotografia em cores, sem efeitos visuais excessivos, bom timing e senso de suspense – ademais apoiado pela música incidental em tom alto, comentadora do espírito narrativo de cada sequência -, Chan-wook destrói as ditas boas intenções dos empregadores ultracapitalistas.

      A filha e a mulher, interpretadas pela incrível
      Choi So-yul, de 9 anos,
      e pela rainha do k-drama Son Ye-jin

      Sua comédia social de humor negro, que ecoa a commedia all’italiana e a fisicalidade dos Irmãos Coen, mira uma das mais recentes armas tecnológicas, a inteligência artificial. É ela a responsável por reduzir de forma drástica os trabalhadores da indústria da celulose. O íntegro pai de família Man-soo (Lee Byung-hun), que imagina ter alcançado todos os seus sonhos depois de 25 anos dedicados à fabricação de papel, vê-se subitamente na rua. Ele está a um passo de perder a casa, suas plantas, os cachorros e a sanidade dos filhos (interpretados por Kim Woo-seung e por uma inacreditável Choi So-yul, de 9 anos), sem mencionar a mulher tão bonita, vivida por uma das rainhas do k-drama, a ótima Son Ye-jin (“Pousando no amor”).

      Em “No other choice”, o sonho
      familiar por um (irônico) fio

      Depois de concluir a impossibilidade de trabalhar em áreas distantes da sua, e especialmente após a constatação do sofrimento familiar, Man-soo entende que só uma solução muito engenhosa lhe devolverá o emprego, a vida e, sem exagero, a própria história.

      Man-soo em missão: o homem é
      o lobo de três homens

      Por que Man-soo não tem outra saída? Porque, no capitalismo, o homem é o lobo do homem – e, aqui, trata-se de um lobo de três deles. Difícil imaginar um filme desta natureza encenado nos Estados Unidos atuais. Dificil constatar que não foi este o filme eleito o melhor pelo público na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

      O coreano Park Chan-wook, diretor de “No other choice”: sobre a farsa ultracapitalista