Nenhuma a menos

De 19 de outubro de 2016

Adoro Buenos Aires. Mas preciso dizer. Que decepção quando viajei para lá a primeira vez, há um quarto de século. Sozinha. Somente Salvador se equiparava então, por minha experiência, em machismo praticado contra uma turista solitária.

Estranhei o quarto de hotel onde me colocaram. Fiquei no segundo subsolo, a janela diante da parede. Reclamei, nada foi feito. Prossegui. No meu andar se hospedavam duas brasileiras em um quarto. Demorou três dias até eu perceber que se esquivavam de meus cumprimentos. Recebiam uns tipos à noite.

Fui almoçar em um restaurante na avenida Nove de Julho. Na hora de pagar a conta, me disse o garçom, loiro de olhos azuis: “Saio às quatro, me espere na rua X”. Fiquei assombrada. Achava que só no Brasil, como acontecera na Bahia antes, eu seria chamada às vias de fato por estar sozinha em uma mesa: “Por que tá dando uma de difícil comigo, porra?” – perguntou o sujeito que se sentou na cadeira em frente à minha, no Zanzibar, sem permissão.

Não estranho, infelizmente, o feminicídio na Argentina.

E aproveito para dizer: nenhuma a menos.

Fio de ferro

De 12 de outubro de 2015:

Estrada do Cascalho, Boiçucanga. Saio sob a chuva, noite de domingo, atrás de alface e tomate na venda. A caiçara me vê andando, se aproxima, puxa conversa. Diz que não vou encontrar verdura nesse horário, deveria ter ido procurar antes (no que concordo), mas sigo pela estrada a seu lado, quem sabe consiga aquilo de que preciso mais na frente, a conversa é boa. Calculo que ela tenha minha idade, mas descubro que são cinco anos menos.

– Vai chover muito hoje à noite e amanhã também – me informa, sorridente, decidida, camiseta regata, chinelo.

– Ouvi dizer que não… – retruco, chinelo também.

– Vai sim, forte! (Nem choveu, fez sol, tudo bem.) Mas volte, porque o verão vai ser bom – me aconselha, enquanto segura com a mão direita o cabelo solto, que balança.

– Sim, eu sei, venho sempre. Você mora no Cascalho? – pergunto.

– Desde que nasci, é ótimo.

– Eu adoro. Mas tem trabalho por aqui?

– Pra mulher tem.

– Pra mulher?

– Nas pousadas, nas lojas, muita coisa. Mas tem de querer trabalhar. Eu vou de sol a sol.

– Que bacana.

– Tem de aguentar.

– Sim.

– Mas as meninas não estão nem aí. Têm 15 anos, ganham filho, não querem mais saber de fazer as coisas.

– É… Essa geração tem filho cedo…

– Revolta a gente, porque elas pegam vaga na creche, que nunca tem, e ficam pelo dia falando mal das outras, à toa. E tirando a vaga de tanta gente boa que precisa trabalhar.

– Ah… – penso um pouco. – As meninas hoje são diferentes.

– Minha mãe era dura.

– A minha também – me aproximo. – A gente tinha de estudar, não podia pensar em casamento.

– A minha mãe batia com o fio do ferro.

– Mesmo?

– E não deixava estudar. Mulher, não. Só os homens. Tinha de pegar no pesado.

– Ah… – penso em algo, não vem. (Estamos em São Paulo. 2015. Ela é mais nova que eu.) Olha o minimercado aberto, vou entrar, tá? Boa sorte, querida.

– Até!

(Que horas ela volta o quê.)

Muro de escola

Em 11 de outubro de 2016, escrevi no facebook isto que talvez ainda esteja valendo.

Um deputado imbecil (eu sei, é quase um pleonasmo) diz que pobre não tem de cursar faculdade. Voltamos mesmo às vias de fato ditatoriais. E eu me lembro de um episódio de minha vida em família pobre, nos anos 1970.

Crianças, não pudemos frequentar o colégio público Caetano de Campos, o melhor na minha região, porque não havia vagas pra nós. Até hoje me pergunto como isso pôde ser, mas ok.

Minha mãe, atarantada, soube então que o Porto Seguro oferecia vagas gratuitas para necessitados, à tarde, longe dos frequentadores que pagavam caras mensalidades e faziam o curso pela manhã. E fui estudar na unidade da praça Roosevelt onde hj, aliás, está o Caetano de Campos.

Vida dura. Me sentia um marginal. Menos aulas de matemática e português, e não nos ensinaram alemão no fundamental, como faziam com as turmas pagas – apenas inglês, mas a partir da 7 série. Párias, não podíamos frequentar a ala do prédio em que os estudantes do curso integral tinham aulas à tarde. Comprar lanche, nem pensar, diziam os professores que formavam cordão humano para não nos deixar atravessar o corredor até a cantina. E não podíamos usar a piscina quando o colégio se transferiu ao Morumbi, embora apenas nós, da parte gratuita, tivéssemos de fazer exames médicos os mais variados, desde os de fezes, periodicamente.

Há mais episódios, contudo poupo vocês…

Um dia, um de nossos professores batalhou para que entrássemos na disputa de oitavas séries pela olimpíada interna de matemática. Éramos a turma com menos aula de matemática de toda a escola – mas, como vencemos todas as outras turmas (havia um gênio em nossa classe), passamos a ter direito de frequentar a piscina em alguns horários.

Daí que nossas famílias se julgaram no direito de solicitar bolsas integrais para seus filhos brilhantes no ensino médio, mas isso era ousadia demais, não podia ser. O diretor-geral, com aquele seu look que lembrava o de um João Figueiredo esguio da alta roda, foi bem claro para uma das mães de nossos colegas: “Pobre não faz colegial. Faz curso técnico.”

Não quis mais frequentar essa escola, mas minha mãe me obrigou a ficar, pagando uma pequena mensalidade para meus estudos. Foi um colegial triste, porque além disso dei de cursar humanas – e tínhamos, de novo, uma aula de física, química e biologia por semana. Contudo, fiz duas ou três colegas. Me lembro de um professor de inglês que me incentivava e, além disso, de um bom professor de português, que gostava, para minha sorte, de minhas redações e das minhas interpretações para Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Acho que não teremos jamais o direito, no Brasil, a um ensino estimulante, respeitoso e gratuito. Diante de nós, sempre, esse muro do terror.

Pobre com foto

Meu pai fotografava.

Revelava e ampliava os filmes em casa, no único banheiro de nosso apartamento alugado nos anos sessenta.

Isto quer dizer que, dependendo de como fosse, tínhamos de esperar pela revelação terminar ou pedir pra usar o banheiro do zelador.

Meu pai fazia as cópias em papel com um ampliador que ele mesmo construiu, no qual encaixava uma lâmpada philips. Se nela houvesse um logo desenhado, ele passava para o papel fotográfico. Não raro nós, os personagens, aparecíamos sorridentes sob o desenho da lampadinha nos álbuns da família.

As fotos, ele ampliava pequenas, do tamanho do negativo de sua flex tcheca, a Flexaret.

O papel fotográfico precisava ser controlado devido ao alto preço. Cortado em miúdos pedaços.

Nem por isso, contudo, meu pai deixaria de presentear com uma pequena cópia todo amigo ou parente que aparecesse numa fotografia que ele tivesse tirado.

Nos cliques de aniversário, seu flash era uma lâmpada que mantinha acesa sobre algum banco ou mesa.

E não só.

Meu pai pintava com um pincel algumas fotos pb, já que o filme colorido, mais caro então, raramente podíamos comprar.

Ele era também e principalmente um grande desenhista e pintava quadros, embora eu hoje raramente encontre as telas nas quais apareci bebê.

Tudo isto pra dizer que tive uma sorte danada.

Embora minha cama fosse o sofá da sala e minha mãe precisasse pedir açúcar na vizinha quando meu pai se via desempregado, sempre tivemos fotos pra curtir e livros de arte pra ler.

Então, não necessariamente o fato de uma família dispor de vários registros fotográficos significa que tivesse dinheiro de sobra pra gastar.

Só isso mesmo, obrigada.

democracia pelos cacos paulistas

o local da votação é tão longe que vou de carro.

chego com minha bengala de quatro pés.

subo os três andares bem devagar, pois no colégio não há elevador.

voto de pé.

diante da urna, fico primeiramente atrapalhada, depois risonha.

ouço a campainha de programa de calouro ao final de cada decisão que eu tomo.

os candidatos, uns números.

desço três andares de volta com vontade de correr.

a escola pública é tão linda, anos 70, quem sabe.

quase fico por lá mesmo até o horário de votação se encerrar.

essa quadra toda enredada que existe nela, isso não faziam na minha infância.

quando a gente chutava a pobrezinha pro outro lado, tinha de ir lá buscar.

ninguém no meu bixiga conhecia condomínio e vivíamos pela rua mesmo, brincando de esconde-esconde atrás ou embaixo dos carros estacionados.

bola não era preocupação porque brotava.

fecho os olhos e estou jogando queimada contra um time que se amontoa.

sou sempre a última a restar nas quadras, muito boa em desviar dos arremessos.

hoje isto mudou.

me tornei um alvo invisível.

as bolas batem direto em mim.

vejo eleitores com camisa do pt e de movimentos sociais.

novos, velhos, humildes.

saboreio a eleição do conselho tutelar porque algo nela se liga a meu passado.

e eu ainda não sei se é náusea o que sinto de imaginar o futuro.

o presente é o melhor presente.

a democracia se parece com a gente.

florzinhas vermelhas empertigadas e solitárias nos vãos dos cacos dos quintais de paulista.

Provocações ou evidências?

Quando eu digo que a direita menos burra está se espalhando por nosso encanamento para se tornar a única água que bebemos, acreditem em mim.

Um exemplo:

Provocações, título tão adequado ao Abu, virou o nome daquilo que o Marcelo Tas faz depois que assumiu o programa. Mas não só quando o apresenta. O Tas se tornou isto (provocador) e é o dono disto (provocações).

Ele ataca o Intercept no Twitter e os amigos logo entendem: são provocações, porque Tas é um provocador.

Me ajuda, Chitãozinho!

Não são provocações.

São evidências.

Com o devido copyright.

sempre o jornalismo

se eu sou a repórter, pergunto a que merda de música brasileira o Milton se refere.

e certamente tenho uma resposta melhor, menos sensacionalista, à pergunta feita.

porque a música brasileira tem sido maravilhosa, não tem?

embora não, certamente, a maioria da música que é produto da indústria cultural.

(é merda ou não, em geral, aquela que a Globo veicula?)

e que música brasileira ouve o Milton?

nem sei se a turma da Mônica (Bergamo) tinha essa resposta e não a usou. mas se tinha e não a usou, ou se não fez a pergunta, precisa refletir sobre seu jeito de entrevistar e editar as declarações.

Tua vida não é minha

Quando Moser lançou sua biografia de Clarice Lispector, eu a li e não compreendi o relevo que dava a específicas interpretações crítico-filosóficas, estas que pareciam se sobrepor sem sentido à história de vida da escritora, já tão bem contada antes pela professora Nádia Battella Gotlib.

Pareceu-me que a vida de Clarice lhe fazia sugerir uma questão sobre o desenraizamento judaico, que muito antes já o preocupava pessoalmente, por conta de uma ascendência familiar. E que ele usava a oportunidade de uma biografia de Clarice pra veicular suas próprias ideias. Porque nada do que dizia no livro parecia encaixar-se no que Clarice foi.

Marquei uma entrevista com o autor na sede da editora do livro, a Cosacnaify. Então um jovem educado e gentil, Moser me recebeu muito bem. Mas, de novo, não me convenceu da tese do livro (se havia propriamente uma) com suas respostas a minhas perguntas. Eu fazia uma reportagem, não uma crítica, porque não sou especialista acadêmica em Clarice. Ainda assim, eu intuía uma roubada.

Pareceu-me então que, fascinado (não sem razão) pela escrita de Clarice, ele teve uma iluminação pra iniciar o trabalho, que incluía Spinoza, e dela não arredou pé no transcorrer da pesquisa, mesmo que os fatos andassem em outra direção. Ou talvez quisesse discorrer sobre Spinoza e usou Clarice para isso, sem devidamente pesquisar os fatos da vida da biografada que o contradissesse.

Por fim, e mais terrível, me parecia que ele tivesse um plano. Depois de sua biografia, as obras da escritora estourariam no mercado americano, e ele seria o responsável por tal fenômeno… Triste dizer, mas me senti assim: usada como brasileira. Mais um gringo esperto achava ser o primeiro a descobrir nossa riqueza “selvagem”, com o objetivo enviezado de crescer a partir dela.

Como sempre, nessas horas, minha avaliação é raramente compartilhada por nossa crítica local, que nem existe, a rigor. Indulgente, deslumbrada… Naquele caso, também orgulhosa da amizade com um estrangeiro de projeção…

E parece finalmente que agora Moser fez um caminho parecido em relação a Susan Sontag, pior ainda, de modo a incriminá-la por alguma coisa. https://brasil.elpais.com/brasil/2019/09/10/cultura/1568114545_419957.html Não deve gostar da Sontag como talvez gostasse de Clarice… Ele culpa Susan, por exemplo, de trair a causa de sua homossexualidade… Mas ela era bissexual. Mas ela achava que discussão particular de gênero não definia sua escrita.

O interessante (e demolidor) é que agora Moser não fala para brasileiros passivos, antes para um público de intelectuais e jornalistas do mundo com voz alta para rebatê-lo.

Não tenho mesmo como saber se o crítico do El País, tradutor da obra de Sontag para o espanhol, está sendo justo com o biógrafo. Não lerei este texto de Moser, quase certamente. (Livros são caros e tenho tanto ainda, a vida que me resta, pra experimentar…) Mas, pelas razões que exponho aqui, acredito que o crítico infelizmente não esteja muito longe de ter analisado o trabalho com acerto.

A coach coachella

Desde que soube que Biroliro se casaria com uma psicóloga, comecei a imaginar o consultório dela. A decoração mesmo. Tons pastel, paredes brancas, um quadro com foto azul do Caribe, um busto de nossa senhora tingido no artesanato, próximo do janelão que dá pro Corcovado.

Imaginei também uma sala contígua onde a profissional daria palestras, com carteiras para anotações. E uma secretária-recepcionista negra de brincos argola e cabelo curto rente, ereta e afiada no excel, a receber os candidatos com futuro (grana).

Depois imaginei o público. Pacientes, quero dizer. Arrivistas. Juventude doirada dos trigais do Rio, homens feitos com os cabelos penteados molhados pra trás, camisa social por dentro da calça jeans slim. Mulheres com estampas Animale alouradas na progressiva, brincos pequeninos de zircônia, colares fininhos de ouro com pingentinhos de lua e tao.

As consultas seriam pura praticidade. Um rosário de incentivos, melhor seria dizer comandos: você pode, você deve, você merece. Você, você. Uma citação aqui e ali de comédias românticas. Lição de casa: ver Ryan Gosling na netflix.

Há muito tempo que certa “psicologia”, chamemos assim, foi tomada pela mentalidade coach. Se bem que no caso da esposa do Biro, está mais pra coachella. Uma coachella gospel. Mas, admitam, os coaches chegaram pra amarrar os descabidos. Ou é coach ou é química, você escolhe.

Não li a matéria que o grupo Globo publicou, e agora comicamente condena, sobre a alcova de escritório. E nem sei por que não li. Talvez porque tenha pensado: “Mas já sei como essa mulher é, já sei como decorou seu consultório”. E essas matérias, por nada terem de um Joel Silveira, nenhuma elucubração imaginativa de escritor, e por serem mais como listas de inventário, falam pra leitores que não eu.

Sei, contudo, da frase genial que marcou o texto pra história. Aquela em que Coachella diz ao repórter que Biro é seu “case de sucesso”. É de dar match, como disse a jornalista tinder no roda viva. Uma das frases do ano, se ainda fazem frases do ano nas retrospectivas.

Então por que condenar o repórter? Tenho pena porque primeiro ele foi incentivado e convencido a fazer, agora se viu escorraçado, se não ameaçado de morte, justamente por ter cumprido sua tarefa. Isto não se faz, Globo. Você não anulou o perfil do Astrólogo do balacobaco, também obtido sem consentimento. Tenha a decência.

Uma vez, nos meus vinte e tantos anos, quis saber como a TFP funcionava por dentro e bati numa porta deles, simplesmente pedindo pra entrar. E o cara: você é jornalista? Fiquei brava. Como me descobriu na lata? A TFP veta mulheres, e eu não queria acreditar.

(Uma curiosidade é que muitos figurões não dão entrevista pra mulher. Delfim Netto nunca quis me dar. Em sua biblioteca só entravam homens. Seria um texto sobre seus livros, a pedido de um dos ases da direita adocicada: Daniel Piza. Nem assim.)

Nunca fiz uma matéria nesses moldes incentivados pelo grupo Globo, mas se insistissem comigo, por meu emprego, talvez fizesse. E não fiz talvez porque tenham visto de cara que não sairia boa. Sou muito transparente, longe de uma expert em teatro ou fingimento pra improvisar um personagem e ser convincente dentro dele.

Ah, Rosane, mas como fica a moral? Não acho que questão moral impeça jornalistas. O jornalismo é moralmente injustificável. A frase é do Paulo Francis, das poucas que ele disse bem.