Robert Frank especular

Por ele mesmo.

O artista (1924-2019) que perdeu os dois filhos disse não suportar que o fizessem posar para fotos.

Contudo, de uma estranha maneira, esteve sempre lá, diante das lentes dos grandes.

E seus autorretratos não tiveram fim.

Viveu a contradição permanente, mandou os acomodados a passeio, exerceu a inteligência, o desafio era um motor.

E o humor sempre aquele, tão seu.

Por Walker Evans.

Por Louis Faurer, 1947.

Com Edward Steichen, 1952.

Por Jakob Tuggener.

Por ele mesmo.

Com Mary, 1950.

Por Louis Faurer.

Com Jack Kerouac.

Por Jack Cohen.

Por Wayne Miller

Por Thomas Hoepker.

Por Andre D. Wagner

Por Walker Evans, 1955.

Vida longa às palavras mudas

É estranho comemorar os 70 anos da edição um ensaio? Talvez neste caso não. Em 3 de setembro de 1949, a revista Life publicou “A grande era da comédia”, um texto de James Agee (acima) no qual o escritor dedicava estas palavras a Buster Keaton (no alto):

“O rosto de Keaton quase equivalia ao de Lincoln como o de um arquétipo americano. Ele era assustador, bonito, quase inacreditavelmente belo, ainda que engraçado de maneira irredutível. E tornava tudo melhor porque, ainda por cima, usava um chapéu horizontal, tão achatado e fino que lembrava um disco na vitrola.”

Meninos mimados não governam o Brasil!

Esta é Alessandra Leão durante o lindo show de lançamento do seu disco “Macumbas e Catimbós”, sábado, 24 de agosto, no Auditório Ibirapuera.

ATENÇÃO para o que ela diz, maravilhosamente:

https://www.facebook.com/rosane.pavam/videos/2439333719516979/

“Salve a força, a fé, e o vigor e a coragem!

E a resistência!

E a resistência do povo indígena nesse Brasil.

Salve a força da floresta que está há tanto tempo de pé, e que vai continuar de pé, se a gente assim deixar, se a gente assim brigar pra que ela continue de pé, e não queimando desse jeito.

Que cada árvore que caia doa em cada um de nós.

Que cada índio que morra doa em cada um de nós.

Que cada negro que morra doa em cada um de nós.

Que cada gay, cada lésbica, cada trans que morra doa em cada um de nós.

Que a gente tenha o direito de existir e ser o que deseja ser.

Ninguém está aqui para abaixar a cabeça, ninguém está aqui para dar o lombo pra apanhar mais.

E a gente vai ficar de pé.

Porque meninos mimados não governam a nação.

Meninos mimados não governam nada!

Viva o Brasil!

Viva esse Brasil aqui.

É esse!

Viva os índios, viva os negros, viva os gays, viva as lésbicas, viva as trans, os trans!

Viva o povo brasileiro, viva o respeito, viva o povo de santo, que a gente vai ficar de pé até o fim.

E a gente briga cantando, dançando.

O corpo espanta a miséria, meu povo, é festa!

É disso que eles têm medo, e que a gente faz.

A gente briga e a gente celebra.

A gente dança.

A gente canta.

A gente goza a vida.

E é isso que dói, a gente estar de pé.”

Memories can’t wait

Digressão.

Do caos às lembranças.

Memories can’t wait, cantavam os Talking Heads…

Pois bem.

Muito saudável, Barbara Eden faz 88 anos hoje.

A atriz protagonizou a série Jeannie é um Gênio, que eu amava absolutamente.

Era propaganda americana, mas também humor físico encenado por ótimos comediantes.

E tinha motivação sensual liberadora para uma menina católica sob o furacão ditatorial.

Parabéns, Barbara!

Eu nunca soube de uma Barbie inspirada no seu personagem.

E, se soubesse, meus pais jamais teriam tido dinheiro para comprar o brinquedo.

(Nem pra Susie tinham!)

Mas semanas atrás deparei com este exemplar no centro e me perguntei:

Se 500 reais me sobrassem, transformaria esta boneca no meu rosebud?

Me respondi que não, sem saber por quê.

ilusão vitoriana

o fenacistocópio (“espectador ilusório”, em grego) foi inventado em 1829 por joseph plateau de modo a confirmar sua teoria sobre a persistência na retina.

o dispositivo consistia em uma sequência de imagens com posições ligeiramente diferentes entre si (inicialmente 16 delas, número adotado depois, no início do cinema) sobre uma placa circular lisa.

quando a placa girava diante de um espelho, criava a ilusão da imagem em movimento.

tornou-se um brinquedo amado e disputado pelas crianças da era vitoriana.

variações para um sonho-máscara

as amigas me diziam reservadamente muito tempo atrás que chegando aos 50 eu iria entender a necessidade de me maquiar, eu que só usei batom, e às vezes, na vida.

os 50 chegaram e passaram e eu nada de nada de mover um pincel… não que jamais tenha sentido a necessidade, claro. necessidade senti. mas tenho mais o que fazer. ou não fazer!

agora, se o desenho for assim, quem sabe?

a maquiagem é inspirada nos bordados da elsa schiaparelli, uma rival da chanel a meu ver muito mais interessante que a chanel, louca-extravagante-decadentista-romântica-art-déco que fez o casaquinho nos anos 30 com a parceria de jean cocteau, o vestido-lagosta com salvador dalì e a máscara de seda furada no olho com van cleef & arpels, que confeccionou um broche imitando sobrancelha.

já que é pra pintar, né?

que seja bordar um sonho-máscara sobre a triste realidade!

(prontofalei)

when you’re smiling

“the many faces of billie holiday” (https://youtu.be/wiEcL372LD0, filme para a tevê de matthew seig) talvez seja o melhor documento que conheci sobre billie holiday.

nada de sensacional se apresenta nele exceto a voz da cantora, analisada e respeitada, neste filme de 1990, por alguns dos músicos e produtores que com ela conviveram e que permaneciam vivos à época.

(mal waldron, por exemplo, muito jovem quando chamado a acompanhá-la, tinha exatamente esse rosto sereno quando o vi tocar…)

billie sofre nas biografias.

apanha, literalmente, jogada ao chão.

há essa tendência de a retratar em meio à ruína, como acontece com a carolina de jesus.

mas eu gosto de billie como está aqui, linda e luminosa na maior parte das vezes… da mesma maneira que amo carolina sem o lenço na cabeça, elegante e digna no seu encontro com clarice.

billie sabia rir e chorar, evitava a impessoalidade, falava consigo enquanto cantava para os outros. e, ainda mais raro, comunicava o seu ser e sua história, a tristeza e a alegria de viver no mundo, em cada canção.

conheçam sua maneira moderna e a voz como um trompete do íntimo, à moda do ídolo louis armstrong…

descubram como sua arte sempre foi, à parte todos os ruídos e feridas da vida pública, esse saber interpretar.

what’s done is done…

conje ensaiou o monólogo com conja? quem escreveu?

o cara se entrega, é comovente a estupidez!

ele não só justifica a agressão à mulher de uma maneira geral.

o cara se entrega mesmo, pessoalmente, como se conja fosse sua lady macbeth, a tal intimidante, impositiva, superior…

e ele, macbeth, o próprio, em névoa, parece prestes a assassinar o rei duncan porque a mulher o convenceu assim…

essa escócia ainda acaba em facada verdadeira, céus!

captei

demorei pra entender a estratégia de expulsão incessante nas fraldas adotada por bozó nos últimos tempos.

mas agora captei, rolando!

ele acha que os seus trinta por cento de eleitores, de tão estúpidos e portanto motivados sem descanso pela estupidez do líder, tendo até mesmo mantido a aprovação a ele nas últimas pesquisas, o levarão novamente à presidência nas próximas eleições.

é só agradar às bestas e fechar o apoio irrestrito delas, sempre bem alimentadas, que tá limpo!

a aposta faz um sentido terrível.

mas ainda acho que bozó confia demais.

por exemplo, pode aparecer um motivador mais estúpido do que ele, já pensou?

(toc toc toc)

Cercados das joias populares

Por algum tempo meus filhos nos perguntaram como era viver nos anos 1980.

E eu nunca soube responder.

Nem saberei.

Talvez porque, sendo muito jovem então, eu não pudesse compreender a juventude, por mim apenas sentida nas suas porções de velocidade, impedimento e paixão.

Ontem revi “Blade Runner” com um de meus filhos e pensei sobre a década perdida, as “lágrimas na chuva” de que fala Rutger Hauer no improviso final.

E pensei que talvez o ator estivesse anunciando ele mesmo o fim de uma arte, daí a permanência de suas palavras…

Temo que os anos 1980 tenham acolhido o último grande cinema.

Aquele do movimento incessante, da poesia, do drama realista, o horizonte ampliado, a essência muda, as palavras exatas.

Isto é o “Blade Runner” de Ridley Scott pra mim, um verdadeiro filme.

Assim como “À Sombra do Vulcão”, de John Huston, lançado dois anos depois.

Eles contêm a beleza de Murnau e de Douglas Sirk, a fotografia dos reflexos da alma.

Os filmes nas salas de cinema eram um importante pedaço da vida nos anos 1980.

Cercados das joias populares, nós as sorvíamos em sessões seguidas, pois ninguém nos tirava das poltronas se desejássemos prosseguir vendo o mesmo filme.

E a intensidade desse maravilhamento talvez seja o mais difícil de traduzir para quem não a viveu, ou não era jovem então.