Das drags aos noivos reais

Mesmo ao ironizar a palhaçada real damos ibope aos palhaços. Eu sei! Mas penso assim: não controlamos a psicologia de massas mesmo. Ninguém compete com a família real, célebre amiga de Goebbels, nesse campo político…

E se não sabemos competir, então vamos tirar, porque a zoação talvez empoe esses diamantes de zircônia que tantas vezes atiram em nossa cara.

Particularmente, adorei que uma brasileira tenha reproduzido em poucas horas o vestido de 500 mil dólares da noiva e ainda postado no face o modelo chinfrim! Só se não for brasileira nessa hora.

(Quando lembro que a Oprah Winfrey obrigou as costureiras da Stella McCartney a passar a noite anterior ao casamento fazendo um vestido novo, já que a cor anterior do seu não ficaria bem na tevê, entendi melhor minha aversão ao espetáculo de mídia-me-too).

O único reality show a que assisto, porque há décadas gosto do acting do Rupaul (não dele, necessariamente), é o Drag Race. Então pesquei na página do programa dois sensacionais conselhos ao casal feitos por queens desta última temporada.

Miss Vanjie: “Eu diria à noiva para cancelar o Grindr do telefone dele. Não tem bobo no reino.”

Yuhua Hamasaki: “Do anal.”

Olhos mortos de sono

Entendo a Dilma vezes tantas.

Ter feito seu trabalho sob péssimas condições financeiras mundiais e haver sofrido uma discriminação tremenda por ser mulher, enquanto conduzia o país abatido pela tempestade.

Em meu universo mais que paralelo não tive qualquer Katia Abreu por escolha, mas precisei suportar muitas katias obscuras que me foram impostas em empresa particular na base da humilhação.

Dilma foi derrubada por um conluio de golpistas de direita. E eu também, no meu quintal, por homens ditos de esquerda.

No entanto, não odeio a esquerda por isso. Sou ainda mais à esquerda do que quem me golpeou.

Não roubei, não traí. Vivo pela igualdade.

Fico pensando neste assunto em horas insones apenas para me livrar dele. Me sinto tão melhor sem esse círculo danoso (grotesco ou caricatural) por perto. Não é felicidade ser chicoteada todos os dias por mentirosos a exercer seu pequeníssimo poder.

Olhos que desejariam estar mortos de sono agora. Mas que terão calma.

queer querer bem

meu professor, minha última razão pra escrever, me disse isto há uns meses, partido do nada:

– você é queer, rosane. doida. alicerçada em mistério. você não é deste mundo. ninguém sabe disso porque, pra esse mundo, você não é útil.

fiquei confusa. era uma sentença. talvez um elogio. ou uma constatação. ou nada.

e os olhos cheios d’água.

ter me chamado de queer foi um grande amor demais.

sem fim

ódio à marielle assassinada

ódio aos ocupantes do prédio feridos ou mortos

aos acampados por lula

aos drogados

sem-teto

índios

ateus

ódio aos pobres

às mulheres

aos nordestinos

ao haiti e a cuba

ódio aos negros

aos chacinados nas ruas

aos gays

sapatas

travas

trans

artistas

ódio aos estudantes de escolas públicas

aos camponeses que plantam sem veneno

aos intelectuais

às putas…

ódio, tens espelho?

A ferrugem das ruínas

Exposição no CCBB-SP mostra um estado crítico para a produção artística africana contemporânea

Imagem-1
Juiz de futebol, rei dos reis, por Omar Victor Diop

Nunca fui à África, mas sei que lá estão minhas origens, como a de todos os brasileiros. Meu avô materno falava aramaico, a dita língua de Cristo, por sua vez um histórico personagem negro. Minha pele é clara, contudo. Isto resulta em que eu não sofra a tortura cotidiana de restrições sociais e policiais vivida pelos negros em meu país. Permitam-me que mergulhe no espelho do continente e considere a exposição que descrevo a seguir um momento fundamental para nossa cultura de existência e resistência.

Processed with Rookie Cam
O curador Alfons Hug (centro) detalha suas escolhas para Ex Africa na sessão Explosões Musicais (Foto de Rosane Pavam)

Ex Africa (Da África) é o nome que o alemão Alfons Hug, curador de duas edições da Bienal de São Paulo (2002-04), duas vezes representante do pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza, antigo diretor do Instituto Goethe no Rio de Janeiro e em Lagos, na Nigéria, e há quatro décadas pesquisador na arte daquele continente, deu à exposição que organiza. A mostra, com cerca de noventa obras, fica em cartaz no CCBB-SP até 16 de julho e segue para Rio de Janeiro e Brasília.

arjan martins Brasil 2016-1
Brasil, 2016, por Arjan Martins: afrodescendência
ExAfrica09
Ex Votos, do brasileiro Dalton Paula

O objetivo da exposição é promover um panorama abrangente (artes plásticas, música, performance, instalações, fotografia) da produção contemporânea africana. Dois brasileiros afrodescentes, Arjan Martins e Dalton Paula, mostram ali também suas obras dedicadas à herança africana.

Ndidi dike Portrait
A nigeriana Ndidi Dike, única mulher presente na mostra

Apenas uma mulher tem seu trabalho integrado à mostra: a nigeriana Ndidi Dike, com Exchange for Life, uma coleta de materiais ligados ao sofrimento do escravizado. Correntes, algemas, balas e cartazes de oferta e procura por negros compõem sua breve e aterrorizante instalação sobre a crueldade europeia, erigida no continente a partir da partilha africana, no século 19. A ausência feminina é explicada por Hug como uma decorrência de sua marginalização social e comercial em dois séculos. Aos poucos, ele crê, o mercado e as feiras começam a reconhecer as obras das mulheres. Por aqui, talvez tivesse faltado evidenciar a obra de uma artista crítica como Rosana Paulino, a evocar a ancestralidade do sofrimento negro. 

Imagem-5
Exchange for Life, de Ndidi Dike: objetos para escravizar

Para Hug, o contemporâneo é como que o esvaziado. Ou o que cresce. O que se ergue depois de uma criminosa intervenção. Ou o que ainda se pode dizer artístico, não importa a partir de que materiais ou orientações de pensamento. Como curador, ele parece buscar as inquietações, não as respostas. As formulações para uma arte crítica.

ExAfrica06
Geometry of the passing, de Youssef Limoud, a desintegração marrom

Parece encontrá-las em trabalhos como Geometry of the passing, de Youssef Limoud, uma investigação sobre a ruína a se abater sobre o continente. Sua obra, que ele considera a mais valiosa de Ex Africa, é como uma maquete da destruição, composta a partir do marrom da ferrugem. O mesmo marrom, ele explica, dificilmente obtido hoje, quando a produção artística é demasiada e impede a fixação do tom. Os pintores do Barroco, sim, usaram-na bem. Mas eles podiam deixar a tinta descansar por períodos de um ano até que a deitassem em suas telas.

Snapseed (6).jpg
Fragments White Cube Bermondsey, pelo ganês Ibrahim Mahama: meus caixotes, minha vida (Foto de Rosane Pavam)

Uma imensa instalação de abertura, Fragments White Cube Bermondsey, pelo muçulmano ganês Ibrahim Mahama, dimensiona a arquitetura da pobreza com caixotes.

ExAfrica14.jpg
Desenhos de Lagos, do nigeriano Karo Akpokiere

As telas ainda são a principal orientação clássica entre as obras brasileiras e africanas. Contudo, como de uso, estão na fotografia e no desenho (como o do nigeriano Karo Akpokiere) os experimentos mais críticos e realistas deste período. O fotógrafo senegalês Omar Victor Diop faz o retrato dos futebolistas como novos imperadores. Reveste de nobreza seu perfil ao parafrasear as séries de Jean Michel Basquiat sobre os heróicos esportistas negros.

guy tillim África do Sul Nairóbi 2014 2-1
Nairóbi, 2014, pelo sul-africano Guy Tillim

Escolhidas por Hug, as fotografias de Guy Tillim, que descortina as ruas, do retratista nigeriano J. D. ‘Okhai Ojekere (um antecessor de Diop) ou do fotógrafo sul-africano de ambientação interna Andrew Tshabangu, a evocar o americano Walker Evans, nos fazem caminhar por dentro de cada país segundo um entendimento ocidental anterior. Sob a mesma abordagem, mas rica em transparências, a instalação Ponte City, de Mikhael Subotzky e Patrick Waterhouse, sobrepõe a exibição contínua, por meio de um projetor, da ocupação de um edifício outrora de alto padrão em Joanesburgo.

ExAfrica12.jpg
Beri Beri, do nigeriano J. D. ‘Okhai Ojeikere 
ExAfrica07-2.jpg
Interior de um quarto, pelo sul-africano Andrew Tshabangu
ExAfrica04.jpg
A instalação Ponte City, em Joanesburgo, por Mikhael Subotzky e Patrick Waterhouse 

A exposição se divide entre os eixos Ecos da História, Corpos e Retratos, O Drama Urbano e Explosões Musicais. Nesta última sessão exibe-se o convencionalismo do funk ostentação em línguas diferentes. E lá estará a enorme qualidade do angolano Nástio Mosquito, a ecoar David Bowie em Hilário.

A sessão musical, que insere a produção da indústria cultural africana como provocativa oposição à musicalidade de raiz, ainda presente no continente, talvez deixe o visitante com um sabor amargo, de ferrugem das ruínas.

Jornalismo quando sonho

era um sonho quase realista.

eu tinha de trabalhar na tevê, quando, na vida, nunca trabalhei em tevê.

mas não podia escolher.

chegava simpática e sorridente.

na redação, em lugar de mesas de trabalho, havia atrações.

algumas mulheres faziam brotar flores desde a semente em poucos minutos.

os homens atiravam espadas.

assim que cheguei lavaram meu cabelo e fizeram escova.

me dei conta de que se tratava, em verdade, de uma peruca loira.

eu tinha de usar salto, quando raramente uso salto.

e ficava sentada pra não doer o pé.

no decorrer das atrações, eu me entediava e as costas começavam a doer.

me levantava, um pouco insegura sobre os saltos, e me via muito maior em altura que os outros.

eu tinha virado uma das atrações.

perguntei o que queriam que eu fizesse então.

“leia as notícias”, disseram.

o vídeo começava a rodar, os fatos aconteciam e não havia teleprompter onde eu pudesse ler a reportagem.

diante de mim, contudo, o câmera mandava seguir.

eu argumentava: “não recebi o texto. não sei como, por que, onde ou quando se deram estes fatos.”

e o câmera se aborrecia.

“este é seu trabalho, improvisar as notícias!”

Minha Geraldine

Rafaela travesti

Linda e fashion, a Rafa me contou que não trabalha há dois anos por ser portadora do HIV. Não perguntei o que fazia antes para que o vírus a impedisse agora. Acreditei nela quando disse que não morava sob o Minhocão, conforme sugere a foto, mas em um albergue próximo. Rafaela saltou sobre mim enquanto eu percorria o caminho até o metrô. Nunca achei que fosse me roubar. Me pediu a grana pra marmita, e ao meio-dia cheirava a álcool. Rapidamente despejei em suas mãos as moedas que eu tinha, talvez cinco reais. Ela fez uma festa, me abraçou e eu a beijei. “Você quer me fotografar?” Posou pra mim com a segurança que um dia vi em Geraldine Chaplin.

Mil e uma noites

Não gosto de caridade. Não tenho esperança ou fé. Sou um espírito disperso, sem o alento das crenças. Em São Paulo, contudo, respondo ao que a miséria me pergunta.

Diante do pequeno Pão de Açúcar da rua Pamplona, são dezenas de mães, pais e filhos a despertar cotidianamente dos passantes a compaixão, diria mesmo a pena que, jovem e altiva, um dia eu rejeitei exercer diante de um outro ser humano como eu.

Ontem, uma mulher de 40 anos, os dentes escangalhados, sentada sem reação no meio-fio da calçada do supermercado, deu um giro sobre o corpo quando me viu entrar. “Preciso de arroz ou feijão, é sério, pra comer.”

Não sei se se tratava de uma profissional de quem pede. Há tantas pessoas assim pela cidade. Sempre penso que são miseráveis de qualquer forma. O ofício de implorar, eu não queria ter.

Aparentemente sou o rosto a quem recorrem quando ninguém mais responde. Disse-lhe que me esperasse e ela ficou exultante. Fui fazer minhas compras e quase me esqueci do que lhe prometera. “Arroz e feijão, Rosane, arroz e feijão”, e dei meia volta. Comprei das marcas mais baratas. Me sinto dura, sem vaidade. Mas ainda tenho o que possa dar.

Ela me esperava na saída, diante do caixa. Olhei-a mais de perto. Luminosa. Negra. Os dentes já não me pareciam tão ruins. “Hoje vai ter janta?”, perguntei-lhe sorrindo. Ela sorriu de volta. “Sabe, ninguém acredita em mim. O que eu mais queria nessa vida era trabalhar. Mas não sei ler nem escrever, o que posso fazer?”

Como sempre acontece nesses momentos, quem pede algo urgentemente não me dá muito tempo pra conversa. Ela pegou seus pacotes e saiu pela rua acima, rumo a algo ou alguém.

Teria se tornado não uma Beyoncé da vida, talvez uma Cardi B, pensei sem raciocínio, se o ambiente lhe fosse favorável, como parecia começar a ser no Brasil. Mas essa Bey não sabe ler nem escrever. Ou talvez diga não saber, pela sobrevivência.

Pequena estrela da empatia, eu lhe desejo uma ceia de mil e uma noites.

calafrios e castigos

é difícil ganhar a vida, eu sei.

ninguém quer nos pagar por nada.

já fiz tanto trabalho meia-boca, ou não correspondente a meus sonhos, pra sobreviver.

mas algumas coisas você pode escolher não praticar e a alguns empregadores, não se submeter.

ademais, se seu rosto é identificável dentro do trabalho, ou sua assinatura, nos textos, convém pensar duas vezes antes de aceitar o trampo.

por exemplo, não fui trabalhar na veja quando convidada.

não tive estômago, embora houvesse sido funcionária da terrível folha antes.

mas na folha eu praticamente não assinava nada, era uma reles redatora no primeiro emprego em grande imprensa.

enquanto a veja me tornaria visível e representaria um passo pessoal em direção ao extremo ridículo dentro do jornalismo brasileiro, já àquela altura.

eu teria de ser reescrita mil vezes pela gryzinski, por exemplo, que achava meu texto “barroco”.

por que faria isso comigo?

sofria calafrios só de pensar.

(até hoje, nos meus pesadelos, o mario sabino me aguarda calvo e de sobrancelha arqueada em volta de uma mesa na editoria de cultura; eu me atraso muito para a reunião de pauta; sou submetida à inquisição no cadafalso entre as baias de fórmica).

não me venham dizer, então, que o ator contratado como protagonista pelo padilha é um desavisado.

ou que desconhece por inteiro o que o padilha vai aprontar com o material filmado a partir de sua atuação.

sabe sim, ou tem uma ideia robusta do que vai acontecer no fim, e precisa aguentar.

porque o dinheiro pode não ser compensação à altura para o crime que vai cometer…