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CAN I GET AN AMEN UP IN HERE?!?

Na minha extensa vida pública praticamente extinta, fui sempre a louca pra melindrar alguém cujo apoio é importante.

Mas eu não tinha modos nem sabedoria de dublê de Beyoncé.

Por isso, claro, deu tudo errado na minha trajetória queer de subúrbio.

Hoje percorrendo o brechó do intercept me dei conta de que fracassei logo na categoria extravaganza do meu runway!

Ru Moro, desapontei você…

Que inveja dessas procuradoras da season 10 que ficam se exibindo no work room antes de desfilar o look pra Mama na apoteose da Globo!

Elas sim estão sempre garantidas nas gigs!

“Gostou do brinco do FHC que eu decidi combinar com esse vestido vermelho do LULA?”, pergunta a queen pra Mãe de Todas as Procuradoras, e ainda implora:

“Tô equilibrada na parcialidade???”

Mas a Ru Moro responde na lata, quase irritada porém sincera…

“VOCÊ DIZ ESSE PARZINHO DE 1996?!?”

Ela está certa! Mais que prescrito! Tão season 2 da Lava Race!! Esperavam mais de você!

Gente sortuda essa que tem Ru Moro pra julgar de verdade os acessórios de nossa vulnerabilidade! Ela é dura mas sabe faturar!

E como vai ser agora?

A Gabriela Hardt Visage que puseram no lugar dela vai lá dar conta de todo esse Snatch Game?!?

A House da Moro periga cair!!!

EVERYBOFE say love, pelo amor de deus!

Natureza sem precedentes

Nunca vi coisa parecida com o documentário Our Planet. O mais próximo em impacto que uma filmagem da natureza exerceu sobre mim foi A Crônica de Hellstrom, sobre insetos, que passou em cópia ruim no Cine Bijou dos anos 1970. Meus olhos de criança mal fecharam por dias.

Agora, em Our Planet, com David Attenborough na narração, não só as imagens são espetaculares e tornam todas as outras menores, tímidas, esmaecidas e insuficientes, como sua narrativa poderosa, construída com vagar e detalhe a cada segmento, abre a perspectiva de conhecimentos que imaginávamos impossíveis.

Descobrimos águias investindo contra suas irmãs, rituais em que os pássaros integram corpos de balé para atrair fêmeas, tragédias e perseveranças dos animais sobre a terra, no céu e sob a água. Sem a presença humana, exceto a de seus sinais de devastação, o documentário parte de um ponto de vista claro sobre a urgência de mudanças e nos convence de que há esperança de rápida reconstrução de habitats, caso sejamos firmes. Se você lutar pela Terra, espectador, ainda haverá chance!

Seis diretores com equipes em cada parte do globo trabalharam por quatro anos para obter imagens incríveis, até da vida animal e da floresta aos poucos reconstruída em Chernobil. Usaram câmeras em armadilhas, casebres, tendas, fizeram os drones nos mostrar animais espremidos nas praias depois de criminoso degelo.

As equipes passaram invernos rigorosos em tendas, vinte dias atrás de uma avalanche de gelo, entre outras tantas e tantas proezas, às vezes em busca de dois minutos imprescindíveis.

Em inesperadas situações-limite, acompanhamos emotivos o surpreendente suicídio de morsas, o seguro caminhar do tigre siberiano, a baleia azul com seu filhote na água, os orangotangos que sobem nos galhos e usam ferramentas para comer formigas, peixes que constroem fortalezas com conchas para atrair fêmeas – e peixes ladrões que roubam suas conchas para vencer as disputas…

Magnífico não dá a dimensão do que se vê.

E lá vou eu desistir da Netflix por causa de mecanismo? Ele que se mude. #netflixcancelmecanismo

vi gente mandando danares praquele lugar porque “analisou” desenho animado.

e pensei: olha nosso anti-intelectualismo outra vez.

não há problema em analisar desenho animado. os roteiros nascem de cabeças inseridas em seu tempo. analisar os produtos industriais é dever do intelectual. mas não gostamos de intelectuais.

o problema de danares é anterior a esse. ela só gira o pino em cima dessa sua bíblia de araque. não acumula repertório, não estuda.

aposto que se houvesse lido suficientemente, sem se submeter à corrupção evangélica braba, saberia fazer uma crítica.

ousadia ela tem.

mas falta cultura, filha.

e isenção, e amor ao próximo…

doris maior

me lembro de a crítica na minha adolescência ser tão pesada contra a doris day.

branca, virgem, cristã…

como se ela tivesse sido a única a representar certos valores nos filmes de uma hollywood sob censura até o início dos anos 1970…

comediante das melhores, cantora que podia dançar…

eu amava que hitchcock a tivesse entendido bem, estendendo sua atuação para o drama. e que ela tivesse feito “pillow talk”, entre outras comédias com rock hudson, para alegrar as minhas tardes.

e além de tudo doris foi amiga de hudson até o fim, sem ligar pra qualquer histeria do público e da imprensa de seu tempo em relação à aids que ele contraíra.

me lembro da perseguição que ele sofreu para declarar-se gay, e me lembro de um artigo de ruy castro defendendo a divulgação da informação como “relevante”.

doris day era maior.

MAô pro mundo

Eu não escrevo pra ser bonito, escrevo pra entender. Armo um esquema no arame para atravessar uma ponte e alcançar aquele lugar onde antes não estive.

E o que procuro entender (ou descrever) agora é a felicidade deste dia em que sai MAô.

Nem posso assegurar que o Mau, autor da proeza, se lembre disso, mas pedi tanto, pela vida, que fizesse um disco seu!

(Vida que caminha nos trinta, e trinta anos em comum, embora o ministro talvez desconheça, não são três… Há intimidade e unicidade. Somos dois ou um?)

Talvez esse meu pedido pelo disco tenha caminhado em silêncio por seu grande coração. Sabemos quão imenso ele é! E a arquitetura final, então, nascido da necessidade, da convivência, de um apelo.

Anteontem, durante a audição no estúdio, muitos amigos seus se disseram surpresos com a expressão autoral deste produtor. E ainda menos agora, num certo Brasil…

Um deles, escritor, tinha lágrimas nos olhos porque o disco, além de tudo, trazia uma inesperada alegria; uma outra, música, agradecia que Mau não tivesse se fechado em egotismos na hora de fazer um trabalho que se comunica com o mundo, com todo mundo.

Principalmente, muita gente não sabia que o antigo integrante do Nouvelle compunha, além de tudo, tantos sambas…

Mudei de casa recentemente, tudo é um caos, mas aqui estão as fotos que encontrei hoje. É quase certo que a música popular lhe tenha sido apresentada pelo pai, Orlando, descendente de italianos com a alma em Nelson Cavaquinho, as palavras em Cartola e o rosto, sem que desejasse, no imaginário do cinema.

Nos fins de semana naquela chácara que alguns amigos conheceram, a música era o sol para seu Orlando e para nossa família estendida. Os instrumentos se trocavam, os músicos entravam e saíam, como numa roda. Samba se faz em comunidade, me ensinaram. Tínhamos uma…

O Mau escreve música todo dia, não necessariamente no papel. São tantas que você talvez ainda ouça muitas delas. As rosas não falam enquanto ele pisa macio nesta terra de todos e de ninguém.

Bem-vindo, MAô, nossa luz!

Você veja como vivemos na escuridão.

Nos Estados Unidos, o Metgala, evento da moda no Met, reúne o escambau de personalidades sob o tema camp.

Cada célebre veste sua interpretação para o exagero maneirista que começou a surgir com os tenebristas, passou pela art nouveau e é abraçado pelo mundo drag. A roteirista e atriz Lena Waithe aparece no tapete vermelho com a provocativa declaração bordada: “As drags negras inventaram o camp”.

E então vem o Twitter a incendiar interpretações sobre o que cada modelo está usando (eles amam sem saber o nosso Clovis Bornay…) ou sobre a pertinência ao tema de Lady Gaga e de um sem-número de artistas…

Críticas, trocas de impressões, e de repente uma drag do Ru Paul espalha um pdf com o famoso texto de Susan Sontag sobre o assunto…

Um pdf via Twitter, pessoas! Pra orientar o pensamento! Um texto para que o mundo pop use como referência!

Quando veremos esta simples coisa (ler e sugerir leitura) ser feita de forma natural por aqui?

Quando?

Sejamos sinceros: o anti-intelectualismo é nosso companheiro bem antes do ministro kafta, do conje moro ou do fã bozó!

Estamos tão f.!

Duas crianças para dois líderes

Na primeira foto, em meio às montanhas de seu retiro na Baviera, o chanceler Adolf Hitler abraça sorridente Rosa Bernile Niernau, com 6 anos de idade naquele 1933 em que ele ascendia ao cargo de premiê da Alemanha. A avó de Rosa era judia, mas, mesmo depois de descobrir o fato, Hitler se recusou a cortar laços de amizade com a menina. As flores sobre o papel fotográfico foram pintadas por Rosa, apelidada pelos nazistas de “a criança do Führer”. Hitler guardou a imagem tirada por Heinrich Hoffmann depois de inscrever, em seu verso: “A querida e considerada Rosa Bernile Niernau, Munique, 16 de junho de 1933.” A peça foi leiloada em Maryland no ano passado por 11,5 mil dólares e o colecionador, não revelado.

Na foto abaixo, de Sérgio Lima, Jair Bolsonaro sorri extasiado ao erguer nos braços Yasmin Alves, 8 anos, durante a visita que fez a sua casa na região de Estrutural, uma das mais pobres do Distrito Federal. A justificativa oficial para a visita, realizada neste abril de 2019 em que Bolsonaro completa três meses à frente da presidência do Brasil, é desfazer o mal-entendido de que anteriormente a criança tivesse se negado a cumprimentá-lo. Yasmin é negra, ele sabe disso e nós também.

Todo político faz fotos com crianças.

O político populista as utiliza para propaganda.

E só o tempo, ou a história, ensina o que eles decidiram propagar.

O álbum de fotos de Brecht contra o fascismo

 

Oito meses antes de morrer, o dramaturgo editou na Alemanha Oriental imagens da guerra anteriormente publicadas por revistas como a “Life”, acrescidas por seus poemas-legendas

 

Brecht Hitler
“Esta coisa dominou o mundo uma vez.
Seus conquistados o superaram.
Contudo, desejo que vocês não gritem de alegria por tal razão;
o útero do qual isto rastejou permanece fértil.”

A faixa estendida neste 24 de abril de 2019 na praça Loreto, exato local de Milão onde o corpo de Benito Mussolini se viu exposto de cabeça para baixo, há 74 anos, renova os alertas à ameaça fascista. Na faixa, leem-se a frase “Honra a Benito Mussolini” e a assinatura “Irr”, abreviação de “Irriducibili”, nome da principal torcida organizada do time de futebol Lazio.

 

O último 20 de abril marcou também o aniversário de Adolf Hitler, nascido há 130 anos. E talvez, com seus atos, os torcedores fascistas do time mantivessem implícita uma vibrante comemoração às ideias do ditador, duvidoso “irmão” do Duce.

 

De qualquer maneira, na praça Loreto, neste 24 de abril que antecede em um dia a comemoração da libertação da Itália na Segunda Guerra, os fascistas usaram a saudação romana, simbólica do regime de Mussolini, para manifestar sua torcida pelo time, que hoje joga contra o Milão pelas semifinais da Copa da Itália.

 

O dramaturgo Bertolt Brecht (1898-1956) cansou-se de alertar sobre o perigo fascista, que atos como esse apenas demonstram ser permanente. Ele deixou sua Alemanha em 1933, ano em que o chanceler Hitler foi eleito, rumo à Dinamarca, à Suécia e depois à Califórnia, por conta da perseguição a suas ideias marxistas e a seu teatro libertador (e nos Estados Unidos se viu caçado pelos macartistas; mais tarde narro a vocês aqui no blog um episódio que ilustra a perseguição).

 

Brecht era também um apaixonado pela fotografia. Desde os anos 1920 compilava em grandes cadernos de esboço as imagens publicadas por revistas como a Life sobre a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Após o conflito, e vencendo a censura, o dramaturgo fez publicar em 1955, por meio de uma editora satírica da Alemanha Oriental, a Eulenspiegel, uma coletânea de 85 dessas imagens, intitulada “Krigsfiebel” (bíblia ou guia da guerra). As fotos exibidas pelo volume, editado em dezembro de 1955, oito meses antes de sua morte por ataque cardíaco, mostravam líderes nazistas e aliados, a destruição urbana causada pela guerra, os civis desolados e os inimigos mortos.

 

Contudo, ele acreditava que as imagens, embora potentes, não exprimiam sozinhas realidades complexas. Eis por que decidira acompanhá-las de “fotogramas”, como as intitulava, com uma densa, às vezes irônica, legenda em quatro versos. Como fazia em suas peças, coordenava então imagens e palavras de modo a provocar o leitor a pensar criticamente e a questionar seu conhecimento limitado sobre o fascismo e o capitalismo.

 

Quando as vendas do livro decaíram, Brecht o ofereceu a bibliotecas e outras instituições, sob a alegação de que a “louca supressão de todos os fatos e julgamentos sobre os anos de Hitler e a guerra” deveria ter um fim. Ele planejava acompanhar o livro de um outro volume, “Friedensfibel” (guia ou bíblia da paz), mas tal obra ficou inacabada.

 

A foto que publicamos aqui, retirada de seu livro-álbum e de autor ignorado, mostra Hitler em um pronunciamento de 1934. Na edição estadunidense, cujo título é “War Primer”, e que ganhou republicação em 2017, lê-se a legenda com o nome do ditador alemão e sua data de nascimento: “Hitler: 20 de abril de 1889”. Embaixo da foto, segue um fotograma em quatro versos, cuja tradução aproximada é esta, retirada do livro “Literature and Photography”, organizado por Jane M. Rabb e publicado em 1995 pela University of New Mexico Press:

 

“Esta coisa dominou o mundo uma vez.

Seus conquistados o superaram.

Contudo, desejo que vocês não gritem de alegria por tal razão;

o útero do qual isto rastejou permanece fértil.”

Um facebook a céu aberto!

Já estou naquele ponto em que não consigo compartilhar com vocês certas declarações e notícias do país a pular pela minha sempre agitada timeline.

Penso três vezes antes de clicar. Vou ou não vou propagar esses rejeitos? Mas e se a lama chegar perto e meus amigos não estiverem sabendo?

É muita escória, uma danação contínua, sóis da meia-noite, gente sinistra…

Tão sinistra que se extravasa pelas ruas…

As coisas que a gente ouve no ponto de ônibus, não é?

Um facebook a céu aberto!

Socorro, Tim!

E Noel, Dolores, Assis Valente, Ivone, Tom, Cartola, Zé Kéti, Lupicínio, Geraldo, Ismael!

Meus heróis, amém!

Meu humorismo

Creio que haja tantas ideias sobre como o humor deva funcionar quanto piadas de loira burra.

Nunca conheci uma loira burra, mas fico com uma ideia.

Minha ideia é de que o humor funciona apenas quando momentaneamente (o momento sublime da tirada, da piada, do dito) liberta o oprimido de sua condição, aliviando-o do fardo de viver. Não acredito no humor do coronel, do opressor se rindo de quem é oprimido ou de quem luta por ele. Isto pra mim não é humorismo. Talvez assassinato, extermínio.

“O humor deve visar à crítica, não à graça”, me ensinou o Chico Anysio.

E meio que dessa ideia não abro mão.