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Um facebook a céu aberto!

Já estou naquele ponto em que não consigo compartilhar com vocês certas declarações e notícias do país a pular pela minha sempre agitada timeline.

Penso três vezes antes de clicar. Vou ou não vou propagar esses rejeitos? Mas e se a lama chegar perto e meus amigos não estiverem sabendo?

É muita escória, uma danação contínua, sóis da meia-noite, gente sinistra…

Tão sinistra que se extravasa pelas ruas…

As coisas que a gente ouve no ponto de ônibus, não é?

Um facebook a céu aberto!

Socorro, Tim!

E Noel, Dolores, Assis Valente, Ivone, Tom, Cartola, Zé Kéti, Lupicínio, Geraldo, Ismael!

Meus heróis, amém!

Meu humorismo

Creio que haja tantas ideias sobre como o humor deva funcionar quanto piadas de loira burra.

Nunca conheci uma loira burra, mas fico com uma ideia.

Minha ideia é de que o humor funciona apenas quando momentaneamente (o momento sublime da tirada, da piada, do dito) liberta o oprimido de sua condição, aliviando-o do fardo de viver. Não acredito no humor do coronel, do opressor se rindo de quem é oprimido ou de quem luta por ele. Isto pra mim não é humorismo. Talvez assassinato, extermínio.

“O humor deve visar à crítica, não à graça”, me ensinou o Chico Anysio.

E meio que dessa ideia não abro mão.

O livre pensar de Gentili não é pensar, nem livre

Meu respeito pela artista Laerte não poderia ser maior. Nos quadrinhos, que ela diz não mais fazer, e na charge, que ainda pratica, eis alguém que ampliou os sentidos e as ambiguidades, o pensamento e a intuição. Uma artista grande a ponto de ter mudado o panorama mental que rege o fazer no Brasil. Hoje são mais e mais os sofisticados desenhistas como ela, a alargar o que vemos. Graças à Laerte, talvez, hoje tenhamos Quintanilha, entre outros emocionantes narradores de síntese poética.

A Laerte célebre e opinativa, contudo, me atrai certamente menos. Eu que talvez tenha me tornado mulher há mais tempo que ela não me interesso por sua apreciação em torno de atos de agressores verbais e intelectuais de outras mulheres como nós. Sua terna defesa daquele Iavelar que usou a influência como professor para assediar e ameaçar alunas, e a maneira como ela transforma a injúria de Gentili em um ato de livre expressão, a seu ver perigosamente cerceado com a decretação da prisão, me fazem sentir uma tristeza teimosa.

Porque Gentili, no vídeo contra a Maria do Rosário, apenas replica em outro registro canalha o que anteriormente dissera Bolsonaro contra a parlamentar na Câmara, um ato infelizmente e absurdamente sem punição, pelo qual até hoje, como sociedade, pagamos. Gentili, segundo a Laerte afirmara antes, apenas morde e assopra, e é inofensivo como comediante.

Sim, como comediante é inofensivo, mas apenas porque não faz comédia. Aquilo que praticou contra a Rosário e outras (a mulher que amamenta, a parlamentar gorda) não é humor. As penas por agressões dessa natureza devem ser decididas pela justiça em instância democrática, e é uma pena que Gentili não tenha sido severamente inibido antes, ou jamais agiria como age hoje.

Não me coloco contra ou a favor da prisão, mas certamente a favor de uma responsabilização. Me sinto distante dessa atitude da Laerte contrária à decisão, e sua apreciação do caso apenas me pareceu perigosamente aparentada a um corporativismo.

Mas Laerte é mais que uma celebridade opinativa, felizmente. E lerei sempre seus livros, charges, histórias, tudo isto que a liberdade de pensar ainda me permite fazer.

Oh Shelley

Adoro Shelley Winters, amo Marilyn Monroe. Tão brilhantes, sábias atrizes.

Shelley conta nesta edição (https://youtu.be/cRvwjm3eq3g) que morou por um ano com Marilyn, aos 18, quando a diva ainda era Norma Jean. Uma jovem extremamente inteligente, ela conta, que não se sentia atraída por homens com menos de 50 anos, suas figuras paternas que substituíam a do pai.

Seu role model, por assim, tornou-se Shelley… E esta se culpa por não ter estado perto de Marilyn quando ela morreu (a atriz já havia tentado suicídio duas vezes; não tinha família; rompera com arthur miller; tinha 36 anos, mas os produtores queriam que ela tivesse para sempre 25.)

Shelley, que também foi bombshell, conta ter aceitado um conselho que salvou sua vida e sua carreira: aos 33, aceitou interpretar alguém 20 anos mais velha. E daí por diante teve trabalho sempre. Mas ninguém fez por Marilyn o que fizeram por ela. Sendo Marilyn uma intelectual, praticamente…

Shelley, que, ao contrário de Marilyn, adorava homens bonitos, casou-se com Vittorio Gassman. E trabalhou num filme importantíssimo de Monicelli, “Um burguês muito pequeno”, no qual interpretou a mulher de Alberto Sordi, afásica após a morte do filho e a crescente insanidade do marido… Claro, entre muitos outros personagens que interpretou.

Shelley é dez. Como não amar essa vida? E ela fala ofegante, como se tivesse muito a expor e expressar… E eu entendo esta parte…

pudor da história

só na biblioteca a gente pode mesmo respirar um consolo pra esse mundo ruim… borges, dos meus autores mais relidos, sempre tem algo a ensinar. deparo com este trecho de “o pudor da história” que eu não “enxergara”; é como se eu seguisse um procedimento que o escritor descreve aqui e do qual também, alguma vez, foi vítima; a gente precisa ler para entender, mas não somente, também para olhar o que antes não vimos:

“… desconfio que a história, a verdadeira história, tem mais pudor e que suas datas essenciais podem ser também, durante longo tempo, secretas. Um prosador chinês observou que o unicórnio, justamente pelo fato de ser anômalo, pode passar despercebido. Os olhos veem o que estão habituados a ver; Tácito não percebeu a Crucificação, embora seu livro a registre.”

Há algo que não terei visto hoje e que se passa secretamente diante de mim. Algo de bom. Preciso fechar os olhos pra ver?

A fenomenal e os dez mangos

Que pena.

Morreu a Mariza, que era mesmo fenomenal. Artista de primeira. Seu físico me lembrava o do Miles Davis nos anos finais, um “tô passando por aqui, nem aí pra vocês”.

Resolvia qualquer pepino que fosse preciso ilustrar no Caderno de Sábado, por exemplo, o suplemento semanal cultural que o JT extinguiu bem antes de dar um fim a si mesmo (tenho a impressão de que se foi tb por desprezar a cultura…). Ela sabia interpretar o fato e levá-lo além.

De vez em quando, vamos lá, quase sempre, pedia dez mangos pra quem estivesse perto e sumia com eles. Se eu tinha, dava, fazer o quê? Uma vez, o ilustrador principal do JT, me fugiu o nome, perguntou a ela antes de lhe emprestar, sorrindo: “Mas você devolve, né?”

contra a grosseria, o abandono e o incêndio entre nós, só tenho tido uma receita particular, que é buscar a beleza onde de início não consigo vê-la.

às vezes (a maioria delas) encontro o que é belo no homem da rua, na criança cujos olhos sempre me localizam, no anúncio luminoso do ponto de ônibus refletido na placa espelhada. e fico achando que passarei por cima de tudo o mais que é ruim, justamente porque esta tarefa de sísifo me distrairá pra sempre.

mas às vezes também só espero a hora de dormir.

da cor dos teus cabelos

sapeio as conversas, leio as redes sociais.

e todos os dias observo isto em alguém muito jovem:

em lugar de enxergar naquele que envelhece o ardor por compreender as coisas, aponta-se nele a inadequação.

a lentidão.

o ridículo.

“seu vovô!”

e seu espaço de ação, quando existe, pouco a pouco se abre ao abismo…

não posso deixar de supor que atingimos o buraco fundo também por conta deste pensamento.

tudo bem que a juventude exija o espaço dos ventos!

tudo muito bem que os cabelos sejam fortes, leves, soltos e livres!

mas se um dia nem cabelos iremos ter, o que faremos com a cabeça que sobrou?

É proibido proibir

Por muitos anos, já durante a República, os governos federais brasileiros quiseram extinguir o carnaval.

Uma festa obscena, certo? E crítica! E suja!

E por este tom andavam as indignações.

Foi então que o marechal-presidente Floriano Peixoto teve uma ideia brilhante para arrefecer os ânimos.

Ele mudaria a data do carnaval. Em lugar de fevereiro, decretaria junho para as comemorações de 1892.

Era pro bem da população.

Sem sol, sem problemas, sem doenças!

Compostura!

Pobre Floriano, não se dava conta do brasileiro…

O que fizeram os cariocas ao saber da mudança? Nem perderam tempo em reclamar. Em fevereiro, celebraram o carnaval extra-oficial. E, em junho, saíram pra folia outra vez, na data que o presidente quis.

Floriano pôs a mão no chapelão. Que povo era esse, meu Deus? E no ano seguinte decretou que o carnaval seria em fevereiro outra vez.

Acima, uma capa do artista J Carlos ironizando pesadamente o intento de proibir a folia em 1927. Sim… Porque a ideia de colocar um fim àquela pouca- vergonha não cessava, certo? J Carlos, contudo, sabia que não iria funcionar! Proibir a festa era chamar a revolução!

Cinco anos depois deste desenho (e de muitos outros de sua autoria, todo santo ano), o governo do Rio, impulsionado por uma ideia de Mário Filho para vender o jornal de esportes da família durante o carnaval, quando ninguém queria saber de futebol, abraçou oficialmente a competição das escolas de samba.

Sirvam-se da história, suas excelências, pastores e generais!

Querer-te moderno

Paul Klee, mostra rara no CCBB

Um professor da Bauhaus que espraiou a fé moderna.

Um cavaleiro azul, como Kandinsky.

Irrepreensível autor de abstrações.

E mais talvez não saibamos, neste distante Brasil, sobre Paul Klee, morto aos 60 anos, em 1940, na Suíça onde nasceu.

Ele não foi um Picasso da boemia aspirante ao salão burguês. Não se exibiu com raras sedas entre mecenas marquesas para chocar os burgueses. Nem conhecia pessoalmente os grandes modernos europeus…

Teve uma mulher, pianista, a musa Lily, que por um tempo o sustentou, e com ela viveu até o fim. E junto aos dois, o filho Fritz.

“Lily”, 1905, lápis e aquarela sobre papel sobre cartão

Não há saias e seios que se insinuem como escândalo em sua obra artística. Mas suas mulheres às vezes fogem de um predador.

“Perseguição”, 1932, bico de pena sobre papel sobre cartão

Existem avós, equilibristas, circo e humor nele…

“Equilibrista”, 1923, litogravura

Sem contar os homens partidos.

“Jovem proletário”, 1911, óleo sobre cartão

Temos certeza de que Klee foi um moderno?

Melhor dizendo, o mais moderno?

No Museu de Arte Moderna de São Paulo, está a única obra em acervo do artista no país, uma água forte de 1914 cujo título é perfeito: “Mundo Pequeno”.

Mas, sejamos justos.

Todos os títulos que Klee deu a suas obras tocam a perfeição. Títulos não raro saídos de sua imaginação poética aleatória, depois de ele tomar vinho com a esposa e brincar com Fritz:

“Avô dirigível”, 1939, bico de pena sobre papel sobre cartão

“Um rosto também do corpo”, 1939, tinta de cola e óleo sobre papel sobre cartão “Um marinheiro pressente seu fim”, 1938, tinta de cola sobre papel

Talvez em razão deste tão amplo desconhecimento, nós nos esqueçamos da poesia que exista em cada Klee. Ou nos sintamos tão incorretos ao evocá-la numa arte entendida como um processo de criação…

A poesia, usualmente nós a vemos como um derramamento.

Sentimentos parecem não combinar com a racionalidade vanguardista. E mal identificamos os rios transbordando em uma obra dele…

Mas pensar não é um sentir?

Pois Paul Klee derramou-se, sim, em muitas águas familiares, diz-nos esta exposição de 120 obras no CCBB-SP tão belamente intitulada “Equilíbrio Instável”.

“Retrato de uma criança”, 1908, aquarela sobre papel

A mostra foi preparada especialmente para os brasileiros pelo Zentrum Paul Klee, de Berna, que possui quatro mil de seus trabalhos.

(“Equilíbrio Instável” se encaixa tão bem no Brasil, não é?)

Em estilos diversos, inspirado na natureza, na geometria, no movimento, na síntese, Klee transbordou-se em sua trajetória.

Expressionista, cubista, surrealista?

“Mulher no banho de sol”, 1939, aquarela e lápis sobre papel sobre cartão

“Eu sou meu estilo”, ele escreveu no seu diário em 1902, aos 22 anos.

Na maioria das vezes, contudo, transbordou-se em papel. Uns quinze por cento apenas de suas dez mil obras são pinturas.

E desenhos reduzem o impacto da solidez para um mercado. O que fazemos com eles? Como os colocamos nas paredes?

“Fantasma cristão”, 1939, giz sobre papel sobre cartão

Klee começou a esboçar bem cedo, por incentivo da avó, dona Anna Catharina Rosina Frick. Desenhos em que mulheres são damas entronizadas com altivez e mistério.

“Cavalo, trenó, duas senhoras”, 1884, lápis e giz sobre papel sobre cartão

Nas aulas de nu artístico italianas, poderia eventualmente colocar-lhe rabos…

“Sem título”, 1899, lápis sobre cartão

Sua Lily vem representada de todas as maneiras. Ela tem perfil pra existir em Toulouse Lautrec.

“Lily”, 1905, lápis e aquarela sobre papel sobre cartão

Mas esta mostra plena de delicadeza, cronologicamente preparada pela curadora Fabienne Eggelhöffer em três andares do CCBB, tem muitas surpresas.

Por exemplo, uma natural ascendência sobre artistas do final daquele século como Basquiat, nos estudos sobre anatomia e nas representações que quase ensinam a grafitar…

“A entrada da trompa”, 1939, carvão sobre papel sobre cartão

Especialmente falam aos tempos e ao coração suas representações sobre o nazismo, nunca diretas, antes evocadas como profundo e íntimo testemunho…

“Acusação na rua”, 1933, giz sobre papel sobre cartão

Alguém como ele, que não pôde mais ensinar na Alemanha por ter sido apontado como judeu (o “crime” judeu!), sem nem contudo o ser… Alguém que teve a casa revirada e que precisou voltar às pressas a Berna com a família, em 1933, por conta da acusação de praticar uma arte “degenerada”…

“Riscado da lista”, 1933, óleo sobre papel sobre cartão

Quero deixá-los com os anjos de Klee, situados no andar privilegiado de sua obra tardia. A doença autoimune que se manifestou nele no decorrer dos últimos anos, uma esclerodermia, endureceu sua pele e articulações…

“Anjo esquecido”, 1939, lápis sobre papel sobre cartão

Mas, mesmo assim, não parou de trabalhar…

Notem o humor! A expressão precisa! Nossos olhares que percorrem todas as dimensões do desenho!

“Anjo feio”, 1939, giz sobre papel sobre cartão

Que artista.

E ainda podemos vê-lo! Nem tudo perdemos.

EQUILÍBRIO INSTÁVEL.

Paul Klee.

CCBB-SP, de 13 de fevereiro a 29 de abril de 2019.

Entrada gratuita.

ccbbsp@bb.com.br