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Um jantar com Robert Crumb

Em 2010, a oportunidade de estar com o desenhista e Aline Kominsky,
com Gilbert Shelton e Lora Fountain, foi-nos oferecida pelo editor de seus livros no Brasil,
Rogério de Campos, depois que entrevistei o artista por ocasião do lançamento de “Gênesis”. Nesta rara ocasião, contudo, quem ficou a conversar com Crumb, principalmente sobre música, foi o Mauricio Tagliari, também convidado, que me acompanhou. Me diverti, isto sim, em falar com as maravilhosas mulheres dos desenhistas, que
rapidamente se cercaram de mim no sofá da sala… Aqui vai um resumo do que fomos
e falamos naquela noite de agosto, na qual descobri que Crumb era canhoto,
não bebia álcool e havia trocado os Estados Unidos pela França depois
de sua filha ser discriminada na escola por ter pai “pornógrafo”

As assinaturas de Gilbert Shelton,
de sua esposa Lora, de Aline Kominski e
Robert Crumb: presente de fim de noite

Em 2010, por ocasião do lançamento de “Gênesis”, pela editora Veneta, entrevistei o estadunidense Robert Crumb, algo extraordinário para mim. Eu o admirava por eternizar seu país à moda de um fundador, muito distante do puritanismo, já em voga então. Um desenhista aberto, contra tudo e contra todos, à investigação e à arte. A esta entrevistadora, pelo telefone, Crumb se mostrara paciente e gentil, disposto a lhe explicar como vertera o Antigo Testamento aos quadrinhos segundo um princípio fielmente literário. Enumerou preferências entre os novos desenhistas, informou que seria avô pela primeira vez e pediu aos marmanjos que ficassem longe de sua filha.

Imaginei que tais modos atenciosos e bem-humorados não fossem dirigidos a mim de forma exclusiva, até que deparei com a repercussão à mesa da qual ele participara na companhia de Gilbert Shelton, durante a última Festa Literária de Parati. Segundo disse a imprensa, os dois amigos, atualmente residentes na França, foram desinteressados, monossilábicos e repetitivos diante do público festeiro, que pouco a pouco abandonou a tenda na qual supostamente debateriam. Tais jornalistas desqualificaram a mulher de Crumb, Aline Kominsky, pela qualidade de suas piadas. A grosseria midiática prosseguia por caminhos que eu decidira não percorrer. Perguntei-me apenas de que Crumb falavam os colegas. De que Shelton, de que Kominsky. Até que fui convidada a jantar com eles.

Em uma segunda-feira, dia 9 de agosto de 2010, Crumb, Kominsky, Shelton e sua delicada esposa, Lora, também empresária de Crumb, aportaram na casa de seu editor brasileiro em São Paulo, Rogério de Campos, e de sua mulher, Letícia. Chegamos, eu e o produtor e músico Maurício Tagliari, um pouco antes de o jantar ser servido, mesmo concluído. Os artistas estavam no trânsito, atrasados porque o motorista que os trouxera de Parati se perdera em São Paulo. A cidade foi vista pela primeira vez por eles, portanto, sob a perspectiva da exaustão. Que humor teriam para nós esses seres postos diante da realidade sul-americana pela primeira vez?

Os quatro chegam para o jantar com muita simpatia e, solicitados ou não, espalham suas impressões. Tudo desenham e tudo observam. Suas imagens nunca param de aparecer durante as conversas, puxadas de um grande arquivo, com infinitos comentários oportunos, de quem, na vida, muito leu e aprendeu ao folhear papeis. Estavam impressionados com São Paulo. Como notou Aline, perto de seu hotel, em Pinheiros, havia casas decoradas com estranhos balões à espera de convidados para festas infantis. Muitas lojas ofereciam, de forma exuberante, roupas para casamento. Estranho, para caracterizar isso, seria um adjetivo simples. Contei a elas como o escritor V. S. Naipaul, aqui presente há 17 anos, qualificara a capital, em uma entrevista concedida a mim: dreadful, terrível cidade, apesar de ocasionais habitantes cultos, como não havia na sua Trinidad.

Aline, que sorri constantemente e fala com desenvoltura, achou o qualificativo de Naipaul exagerado. Éramos, no seu entender, apenas confusos. Sem qualquer plano, como se tudo tivesse sido plantado sobre o asfalto de uma só vez. Era difícil explicar que São Paulo tivera planejadores na medida exata de seus destruidores. Não desejei alongar-me sobre a Light, sobre como fecháramos nossos olhos para o inconsciente da cidade, representado por seu mais importante rio, e sobre como o elitismo de uma classe matara nossas esperanças de uma convivência harmoniosa.

Mudei de assunto. Muito bonita aos 63 anos, olhos claros, os cabelos ruivos ondulados nem tão fartos como aqueles que Crumb tantas vezes retratara, Aline falava rápido, mas, atenciosa e educada, não só de si. Muito atenta a todas as intervenções alheias, interessava-se, como Lora, pelo que era evocado ou dito. Ela não bebe álcool, Crumb também não (ele adorou o guaraná). Lora e Gilbert alternam-se moderadamente em vinho e cerveja. Aline dá aulas de ioga na França. Mostrou-me a foto do neto de dez meses no celular. Ela e Lora dizem que Eli Robert é “um Buda”. Calmo, o rosto redondo, naquela foto o bebê sorria para a avó em sua piscina. Falsas pedras decoravam as bordas.

A filha, Sophie, é a cara de Crumb. Ouvi o que não sabia: eles decidiram deixar os Estados Unidos há vinte anos depois que Aline indagou à diretora da escola a razão de não haver crianças quando Sophie chegava para as aulas. A diretora respondeu-lhe que era um pedido dos pais, preocupados que seus filhos convivessem com a família do “pornógrafo infantil”. Depois disso, como Lora já morava em Paris, Aline, que tem prenome francês e parentes na Venezuela, decidiu criar a filha em outro lugar. No interior da França, a reação da diretora ao saber que Sophie era filha de Crumb foi bem diferente. Ela o lera e queria dar acesso a seus livros. Aline, precavida, perguntou-lhe se conhecia o conteúdo de muitas das histórias. Sim, claro, disse-lhe a diretora, segurando o sorriso com as mãos.

Eu conversava com elas enquanto Crumb, Shelton e Tagliari olhavam as belas estantes forradas de livros de arte, literatura e história da casa do editor. Aline lhe confiou trezentas páginas de uma produção autobiográfica. Os olhos de Crumb orientaram o interesse geral para os discos nas estantes. Ele maneja o banjo, diz, mas sempre informalmente, nas coisas básicas e simples. Tocou durante o casamento recente da filha. Mas não tem banda. Seus clássicos são os do blues e do country da época dos discos de 78 rotações.

Crumb à mesa, ao lado de Lora,
registrados pelo celular muito ruim que eu tinha à época:
ele só queria falar sobre música brasileira

Durante as cinco horas em que a recepção se deu, sua conversa quase única com os convidados foi música brasileira. Conhecia Pixinguinha, mas não os Oito Batutas. Jamais ouvira falar de Noel Rosa e surpreendeu-se com o retrato falado do Rio da época, a polêmica com Wilson Batista, a morte de Geraldo Pereira por Madame Satã. Tagliari, com quem trocou ideias sobre música a maior parte do tempo, contou-lhe as tantas histórias da Lapa, e ele as anotava de maneira meticulosa, agradecido, disposto a construir os nomes dentro de uma genealogia, sempre transcrevendo datas de ocorrência, como um historiador. Crumb, um homem alto, escreve com a mão esquerda.

Ao final do jantar, ele e os três desenharam-se como agradecimento a quem os recebia, sobre uma folha de caderno universitário. Para mim e Maurício Tagliari, Aline legendou-se como “serial killer”, cabelos fartos e grandes brincos. Crumb fez-se por trás de seus cabelos, dizendo-se um serial killer como ela. A expressão do clássico desenho autobiográfico do artista era de perplexidade. Shelton fez-se como um de seus personagens freak brothers, cabelos amarrados e chapéu, e o lindo desenho de Lora evocava os anos 1950, algo assemelhando-se a um personagem famoso da época, Clementine.

No dia seguinte, os quatro visitariam a loja Eric Discos, na rua Artur Azevedo, porque só ali talvez encontrassem o puro som das antigas bolachas de vitrola. Crumb não parecia preocupado com toda a futrica originada de Parati. Lá, ressaltaram, foram muito bem tratados, com a curiosa e obrigatória oferta de guarda-costas para onde se deslocassem. Aline Kominsky queria saber quem era Fernanda Young, uma vez que fora comparada à escritora e apresentadora brasileira após o evento. Seu editor disse tratar-se de mulher bonita e divertida, responsável pelo humor de uma série de tevê. Aline talvez quisesse saber se a comparação era boa ou má.

Shelton divertia-se de observar. Falava às vezes, ria sempre. Em uma das ocasiões, solicitou nossa tradução para uma nota de jornal em que, supostamente, a atriz Regina Casé lamentava a performance de Kominsky durante a Flip. Aline parecia não se chatear com nada. E destacou que as perguntas organizadas pela mediação durante a mesa foram pobres, denotando desinformação. O público que ama Crumb e Shelton merecia mais. Pelo menos, acreditava ela, mais humor.

Shelton, Lora, Crumb, Aline, Mauricio e Letícia:
era agosto, fazia frio e nós partíamos

O pobre, aliado a seu algoz

Orson Welles em “A Ricota”, de Pasolini

– Pobre Stracci! Morrer foi a única maneira de se lembrar de que viveu.

Orson Welles em “A Ricota”, episódio de Pasolini em “Rogopag” (1963) no qual o estadunidense encena o diretor da “Paixão de Cristo” no set.

Welles diz a frase ao constatar que seu ator, representando o Bom Ladrão, morreu humilhado depois de comer exageradamente tudo o que não lhe havia sido permitido comer antes.

No filme, Pasolini faz o Bom Ladrão representar o pobre que vota em seus algozes e que enxerga na capacidade de passar fome sua verdadeira vocação.

Pasolini, sempre urgente para nós.

O Ladrão Bom, para quem a morte ressalta que viveu

Carnaval é preciso

Doris Day, cabelos hipnóticos, e Thelma Ritter, a incrível, em “Pillow Talk”, de 1959: embriagai-vos de comédia

Hoje só consegui suportar o dia com muita comédia nas veias.

Até revi “Pillow Talk” (1959), que continua gracioso por conta do Rock Hudson, da Doris Day, do Tony Randall e, principalmente, da sábia popular Thelma Ritter de sempre, desta vez embriagadíssima, que atriz incrível!

Amei o filme como o amava desde as Sessões da Tarde, apesar de hoje constatar ali mais uma repetição do destino urdido à mulher desde os anos 1930 e do furibundo código Hays. O casamento como único caminho para a felicidade feminina! O casamento como fim, o fim!

Apesar disso tudo, aprecio no filme outras coisas, os efeitos cômicos de surpresa, a intensa preparação corporal dos atores, seus olhos que crescem, os cabelos hipnóticos, suas máscaras que nos movimentam até um éden momentâneo.

Doris e Rock Hudson: o casamento como fim, o fim!

Meu caçula, um feminista, riu comigo de muitas passagens picantes-inocentes que furavam a censura pelos diálogos dúbios.

A comédia é uma pulsão de cura. Comediantes, a quem sempre se atribui menos, são natos, e eu os louvo em sua eternidade.

E preciso de mais!

John Cleese, participação especialíssima em “Will and Grace”

Na linha de “Pillow Talk”, vou esgotando os episódios da já tão anacrônica série de tevê “Will and Grace” (1998-2006), com sua mistura de Doris e Rock, Lucille Ball e Desi Arnaz, de Thelma Ritter e Mary Tyler Moore, de Jerry Seinfeld e o escambau.

Preciso de humor, de festa da carne, de carnaval. E “Will and Grace” já me tirou de poços profundos…

Carnaval ou Morte! – digo então ao apontar para esta senhora que atualmente é a mais deselegante representação do Brasil.

meu vazio instante

feita nos anos 1980, esta imagem me abriu uma possibilidade para a fotografia e para a vida.

eu era jovem e impetuosa. (talvez me reste algum ímpeto, às vezes.)

nos meus 20 anos, emocionei-me ao conseguir esta imagem para um trabalho de faculdade.

minha intenção era somente clicar a bela janela do bixiga, bairro onde eu morava, com a olympus portátil que uma colega me emprestara. mas eis que esta senhora apareceu. pedi-lhe que se virasse pra mim e ela não se virou. ficou assim, olhando o infinito, por um bom tempo. minha timidez me perguntava se eu deveria clicá-la sem que me autorizasse. minha ousadia decidiu por mim. a senhora não se importou com a foto que eu fiz.

somente depois descobri que fotografia de rua é feita principalmente assim. com o senso claro de que algo está sendo tirado de quem não nos vê. ou, como dizia meu querido e divertido flavio damm: “aproximar-se como um gato, fugir como um rato”, eis o que um fotógrafo de rua deve fazer.

só assim, meio caçadores, meio ladrões, obtemos a imagem límpida, não preparada, desnuda, a verdade por um segundo, principalmente a nossa, e então para sempre.

e será nosso dever devolvê-la ao universo como uma leitura digna, divertida ou dramática, da situação vivida. uma oferta à humanidade.

quem acolheu com assombro esta foto (e as outras do trabalho) foi meu então professor, tornado amigo para sempre, carlos moreira, para mim um dos mais extraordinários fotógrafos do mundo. me deu nota dez.

carlos me ensinou toda a base do que sei, em tantas conversas que acabávamos por fazer, durante curiosos e intensos encontros que aconteciam entre nós de dez em dez anos, a maioria deles gravados.

ultimamente, a seu pedido, eu vinha escrevendo um livro sobre sua vida. nos dávamos bem, ele me contava quase todas as coisas. mas acho difícil, por uma série de razões, que esse livro saia um dia.

choro em pensar que não tenho mais o carlos a meu lado. suas conversas sobre fotografia eram aulas para a vida. pura filosofia, em estado de beleza.

sempre soube que sofreria com sua partida, que fará dois anos logo mais, embora tudo dele ainda viva em mim.

eu apenas não previ que a dor seria tão grande.

e o vazio.

A cerâmica de Kaji Waurá

Minha cumbuca com a capivara
na ponta, arte do povo Waurá,
do Alto Xingu

A gente vive de tentar colocar alegria sobre o caldo de tristezas sem fim. E o facebook me dá muitas alegrias ainda. Como esta de ser amiga de Roberto Romano Da Silva e acompanhar seus maravilhosos posts.

Ontem por exemplo ele compartilhou conosco o trabalho de Kaji Waurá, mestrando de Educação da Unicamp que se sustenta com a venda das cerâmicas de seu povo do Alto Xingu. E assim fui correndo atrás de saber o que este imenso indígena (grande no tamanho também) tinha pra me vender que eu pudesse comprar. Ele me disse que aproveitasse, porque hoje viria a São Paulo entregar algumas coisas e poderia levar algo até minha porta… E agarrei a chance do modo que pude.

Kaji, ao lado do filho Januário,
mostra a cumbuca feita por sua mãe,
Makalu, e pintada por ele

Chegou agora minha cumbuca com uma capivarinha na tampa, feita pela mãe de Kaji, Makalu Waurá, e pintada por ele! Estou tão alegre que me destrambelhei pra receber a preciosidade, e Kaji percebeu. Segurou a peça junto, sob o olhar divertido do filho Januário, que faz ensino Médio em Campinas e veio entregar com ele.

Comprem dele, se puderem. É mais um desses seres a brilhar diante de nós. Você o procura pelo WhatsApp 19-98814 5594 e ele lhe dá a lista do material disponível.

Para provocar felicidade

Cinema puro

Rouben Mamoulian, diretor dos contrastes, entre o ligeiro e o sombrio, reflete em “O Cântico dos Cânticos”, com Marlene Dietrich, sobre o espaço designado à mulher

Morre-se de amor pelo cinema ao ver um filme de Rouben Mamoulian. Cinema em sua complexidade dramática, visual e sombria.

O diretor de origem armênia nascido no império russo, belo fisicamente, forte artisticamente, irônico e bem-humorado, dá a seus atores o tempero das falas e os gestos realistas num cenário de pompa. Os contrastes constantes e vívidos embelezam o simples e trazem a dificuldade (o não-dito, o que é só sentimento) ao nível do palpável, do chão.

O diretor Mamoulian e
Marlene Dietrich no set de
“O Cântico dos Cânticos”

Qualquer beleza fílmica acaso haveria sido maior do que esta, ainda mais se a tivéssemos presenciado numa sala de cinema daquele tempo, onde os veludos do aconchego se cruzavam com os ratos nos banheiros?

Em “O Cântico dos Cânticos”, de 1933, que a Colecione Clássicos disponibiliza através da caixa “Cinema Pré-Code”, vemos uma amostra desse cinema comercial hollywoodiano ainda livre, pleno de graça e ardor. O cinema como ele foi antes que o Código Hays, em 1934, passasse a controlar (e isto até as quatro décadas seguintes) as produções cinematográficas dos Estados Unidos, dificultando que a vida real – libidinosa, homossexual, política – se visse representada pelo drama.

A menina do interior
terá de se despir para Berlim

Nesse filme de 1933, por exemplo, um condutor de charrete adentra o quadro num pulo e pulamos nós espectadores com ele também, surpresos porque até então somente os cavalos assomavam junto ao portão. Cinema!

A escultura é mostrada desde sua giacomettiana fundação, e nos refestelamos de suspense pela figura que vai surgir. Cinema também!

O campo florido está repleto de grama e Lily Czepanek (Marlene Dietrich) enfia sua cabeça nela, explicando ao amante que dali sai o cheiro da vida. Cinema, sim!

O chão que nos protege

E os diálogos simples e diretos, humorados, dos atores? E os olhos grandes de Dietrich, sua fala doce e suas muitas faces, da menina ingênua no cemitério até chegar à baronesa e à mulher dissoluta? Que percurso para uma atriz, que cinema puro!

O escultor Richard Waldow
(Brian Aherne) e sua modelo
Lily Czepanek (Marlene Dietrich)

A trama é dos Novecentos. Um escultor pobre, Richard Waldow
(Brian Aherne), busca a obra de arte perfeita, até porque um barão já pagou por ela. A jovem órfã Lily carrega sua Bíblia para Berlim porque está atrás do amor. Os dois se encontrarão, e rapidamente, porque Mamoulian sabe com quem fala, leitores de folhetim arrastados ao cinema no domingo. É de romance que todos precisam.

Diante do espelho, ou será da cruz?

Então que não se perca tempo demais com isso: está claro que Dietrich se transformará na principal obra do escultor. Mas não só dele, visto que todos quererão moldá-la à sua semelhança no filme. Claro que o amor virá em um ponto luminoso e será chamuscado, talvez perdido pela jovem, que logo envelhecerá suas expectativas.

De início ela vai trabalhar na livraria da tia (e até o folhear dos volumes, nesse ambiente, insinua uma outra intenção) porque seu pai, com quem morava no campo, morreu. De cara, a velha a faz ver que tudo na bela sobrinha está inapropriado à cidade. Ela chega encapada por camadas de saias e anáguas na inversa proporção do que Berlim exige – a “nudez” de seus habitantes, ou seu pragmatismo, submissão, entrega absoluta. (Não será por acaso que no ano em que se faz o filme Hitler sobe ao poder na Alemanha.)

Numa sequência herdeira da época silenciosa, Dietrich tira a primeira saia, depois mais outra e outras, até deitar na cama para dormir. É um trabalho preciso na sua feitura cômica e igualmente sinalizador de uma proposição: o novo cinema deve se desfazer de suas camadas de apetrechos inúteis, de empolação. (Do que mais se fala nas entrelinhas de “O Cântico dos Cânticos”, aliás, é do cinema em si.)

Como posse do barão
Von Merzbach (Lionel Atwill)

Dietrich vai assim tirando as anáguas até o osso do seu corpo – ao contrário do que fará o escultor depois, ao “vesti-la” com a carne de sua argila, por vezes moldando-a como quem a aperta para o amor. Muito erotismo silencioso e insinuado será feito essencialmente a partir daí, da troca de olhares que resultará em sorrisos entremeados pelo desafio.

O caminho da dissolução,
o mesmo onde a mulher poderá encontrar a liberdade

Principalmente, a essência deste filme que tão bem repercute sua era cinematográfica está na localização do espaço delimitado onde será possível obter a liberdade feminina. E que espaço sombrio, esse! Impor-se a ele, em resumo, é fazer um caminho indignado porém sorridente, “queer”, em que a mulher incorporará a dissolução para dela se servir, como quem veste um colar.

Josias, o sr. Frialdades

Não vou postar aqui a fala plena de raivinha e de mãozinhas explicativas de Josias de Souza ao espumar contra a liberação de Lula. Ele já tem audiência demais, justamente por ser triste.

Fico aqui pensando na suja diversidade desses estilos jornalísticos. Cadê o verniz, turma?

Tão difícil saber quem é pior, se Vera Magalhães (que voz!) ou Merval (que dono de puteiro!). Me confundo tanto, não sei a quem premiar.

Josias, querendo mostrar serviço às Frialdades, sofre de emplumação, ademais com um anel bojudo no indicador, que volteia para pontuar suas frases num crescendo de estupidez até a conclusão.

O que me divertiu mesmo foi um comentário no Twitter sobre a tal fala: “O Josias é o Olavo de Carvalho da Folha.”

Hahaha.

Se bem que não seja, não.

Se há algo que Olavo não faz é girar em círculos pra pronunciar a palavra anal que mais ama. Josias está a dizê-la sem a dizer, cera, enceradeira, muito fazer nada em campo pra um Zinho só.

Almofadinha! Isto sim é o que ele é!

O chato é que nem assim consigo decidir a quem dar o troféu.

Istas

Acho muito curioso perceber uma coisa sobre o nosso ativismo digital fuleiro de todos os dias.

O que as pessoas chamam de ativismo em nós é apenas a tentativa que empreendemos de restabelecer as palavras corretas para as situações vividas.

Vocês se lembram quando cinco anos atrás a gente chamava o golpe de golpe e eles (seus amigos, colegas de trabalho, chefes, família) se riam de nós?

Ativismo é apenas saber ler e escrever munidos do impulso, ou a mania, de tentar fazer o próximo acordar para a necessidade de leitura e de escrita.