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Ubertales – Invocando Charlton Heston contra Fiúza

A cena. Eu na porta do consultório, de pé, com bota e uma bengala, à espera do uber que me trará de volta pra casa. O uber chega pela outra mão da rua, eu grito pra ele retornar até o endereço pedido, onde me encontro. Não só não retorna como estaciona do lado de lá, na esquina da rua, e me espera. Tenho de atravessar e andar de bengala até a esquina (ou vou chamar outro carro e me cobrarão taxa de cancelamento). Entro no automóvel do senhor idoso, que diz: “Desculpe, não vi a senhora lá.” Ah tá. No carro, rola rádio Jovem Pan. Seis horas, momento de “debate”, e alguém grita que Lula Comunista quer a Ditadura do Proletariado. Qual a opinião do candidato sobre o “absurdo” Moraes no TSE? Fala, Fiúza! E Fiúza, em resposta, começa por adular, rolando lero, um jornalista da bancada que acaba de perder o filho. Depois, o de sempre. A caterva dos petistas! Meu celular velho fica sem serviço o tempo inteiro, quarenta minutos. Nada que eu possa ouvir pelo spotify como alternativa caridosa. E a loção do motorista vai me impregnando. Abro a janela inutilmente, em busca de respiro. Fantasio descer ali mesmo, na avenida 23 de Maio do rush, e com minha bengala abrir caminho, feito o Charlton Heston nos Dez Mandamentos. Por que os bolsonaristas não limpam os focinhos?

cafonice leibowitz

Não, não é inacreditável Anne Leibowitz ter encenado os Zelensky compungidos diante de sacos de areia fake e de soldados que são modelos da “beleza azov”.

Ela é isso. O kitsch, as sobras representativas dos valores do dinheiro. Ex-mulher de Susan Sontag, ensaísta que esteve em Sarajevo para experimentar o sabor da guerra.

Claro, Sontag representou mais porque se arriscou mais. Era uma boa influencer no seu tempo.

E o que significa Leibowitz, exatamente? Nem chega a ser fotografia. Uma abominação ética de classe média, como ensinou a Chauí? Arrisco dizer que nem isso. Uma cafona, talvez.

no meio da escada, a gente ruim

Vi no Facebook uma foto, que não reproduzo, de apoiadoras ricas do verme. Extasiadas, sorridentes, nem todas botocadas, algumas bem jovens, elas se perfilavam em torno de uma escada. Ao aproximar seus rostos com o zoom, senti uma espécie de desmaio emocional. Como se tivesse batido a cabeça na parede e ela balançasse. Como se, diante de tais mulheres, me tirassem um pedaço de pele. Eu sei que hoje, no Brasil, essa gente é comparativamente pouca. E piso nela com o meu coração. Mas a foto me diz que ela existe, barulhenta como lhe convém, por aí. Talvez eu até tenha tratado bem alguém próxima delas. Talvez os graus de separação entre nós sejam menos que seis. Talvez eu tenha escrito algo que leram ou lerão. Talvez eu tenha cruzado com uma delas no laboratório de análises clínicas e nossos vestígios se entreolharam! Talvez a mãe de uma delas tenha estudado comigo naquele tempo de bolsista de colégio pago, talvez essa mãe me reconhecesse e abraçasse ao me ver! O trigal dourado não tem fim. É como se eu voltasse ao pior dos pesadelos dos contos de fada. Como se fosse Bambi de novo, sem minha mãe. Como se ouvisse outra vez a história de João e Maria abandonados ao caldeirão da bruxa pelos pais. Desde a visão das imagens dos convalescentes da covid nos hospitais eu não me sentia tão ruim. Não pode ser que essa gente vença, não vai vencer, não vai.

A Casa Abandonada no mundo bizarro de Seinfeld, Billy Wilder, Gil Gomes e Grey Gardens

Ao espetacularizar um caso não resolvido, caímos num buraco sem fundo

Edith Bouvier e a filha Little Edie em “Grey Gardens”, de Albert Maysles

Mundo Bizarro. Assim, em um episódio do programa Seinfeld, intitula-se um universo ao contrário. Nesse universo especular, o Super-Homem faz tudo inversamente, fala tchau quando deveria dizer oi. Esse princípio dá origem, no episódio, a situações semelhantes no mundo dos personagens. Ali aparecem os duplos dos amigos tão especiais da personagem Elaine – porém, ao contrário deles, nerds, que leem livros e têm compaixão.

Em “Seinfeld”, a repetição
bizarra dos amigos de Elaine

Ontem assisti ao episódio de Seinfeld na Netflix e ele me remeteu ao caso A Casa Abandonada. Quando apareceu o podcast, não o ouvi, possivelmente não ouvirei. Gosto do que o Chico Felitti escreveu sobre Fofão, um personagem doce, gentil e muito conhecido na região em que eu morava. A apuração de Felitti sobre sua história foi extensa, compassiva, como não existe mais nos jornais. Alô, jornais! E a Folha, sabedora disso, uma das maiores responsáveis pelo estado de pobreza escrita e moral do jornalismo, encampou a ideia para dela se beneficiar.

Mas, bem, o Chico Felitti, no caso do Fofão, novelizava um caso resolvido – Fofão morreu. Enquanto agora optou por uma narrativa em andamento. Isto é, uma personagem com um passado de crime que se deteriora física, quiçá mentalmente, numa casa abandonada em um bairro central e rico de São Paulo.

O dramaturgo Sófocles dizia que a história de alguém só pode ser conhecida com sua morte. Não sabemos de verdade o que aconteceu e acontecerá com a personagem em questão, com o que se passa realmente com ela neste instante. Por que novelizar o caso sem dispor desses elementos?

Kirk Douglas em “A Montanha dos Sete Abutres”, de Billy Wilder

Ninguém aqui quer evocar, penso, A Montanha dos Sete Abutres, filme que Billy Wilder fez em 1951. Nele, Kirk Douglas interpreta um jornalista que, ao descobrir a história de um mineiro encalacrado, dá ibope ao seu trabalho de apuração mantendo a vítima presa quando poderia ter ajudado a soltá-la. O jornalismo é moralmente indesculpável. Claro que Chico nada parece ter do personagem de Kirk Douglas, mas o problema, aqui, é que não sabia da história toda para novelizá-la. Um Mundo Bizarro de Gil Gomes que resultou no desfecho de Datena.

O radialista Gil Gomes, ritmo fantástico

Gil Gomes! Cresci ouvindo os programas de rádio dele, muito bons. Diários. Os crimes eram dramatizados como os jornais não saberiam ou poderiam fazer. Com ritmo, repetições, um suspense doido, um sensacionalismo até o limite. O radialista, que também atuou na tevê, morreu em 2018.

Não ouvi o podcast do Felitti, mais uma vez. Penso que o jornalista, com seu talento de escritor, tenha feito uma novelização expandida, muito bem montada, de um caso que tornou quente. Impossível de se ver decidido pela polícia local, por não ser competência da justiça brasileira resolver a questão – nem a polícia, portanto, pode agir. Mas por que agiu? Brasil. Mundo Bizarro de polícia. Mundo Bizarro de democracia, e a polícia, ontem, foi até lá, com Datena para dar um fim ao espetáculo, vitimizando a mulher que vive em condições precárias após ter fugido décadas atrás dos EUA, onde escravizou uma empregada.

Que história! Quanta semelhança com o caso Grey Gardens, em que uma prima de Jacqueline Bouvier Kennedy, nos anos 1970, deteriorava-se nos Hamptons, na casa abandonada em que morava com sua mãe! Mundo Bizarro novamente, porque, ao contrário da moradora da Casa Abandonada, Edith Bouvier e sua filha, Edith “Little Edie” Bouvier, não cometeram crime algum, exceto talvez o de saúde pública, que já havia sido resolvido pela própria Jacqueline quando o filme de Albert Maysles sobre o caso se deu, em 1975.

Nem quero imaginar o que acontecerá em torno dessa mulher brasileira a partir de agora. As espetacularizações começam com um estrondo e terminam num sopro. Para, Mundo Bizarro, que eu quero descer.

zunir pra ser

devíamos ser como os pernilongos que voam até o andar alto onde moro, todas as noites, faça frio ou sol, e me acordam durante o sono já precário, e bagunçam meu corpo pesado até no espelho, e me fazem perder a hora para a ginástica urgente de manhã, devíamos ser como esses bichos invisíveis, barulhentos, sedentos, lazarentos, contra o putrefato no poder que decretou viver eternamente com os pés fincados sobre o que a muito custo somos, nossos corpos, nossos dias, nossos sonhos.

Viver é pegajoso

Walter Matthau, Jack Lemmon e Susan Sarandon em “A Primeira Página”, de 1974: Billy Wilder nos vingou

e se eu trabalhasse numa redação de grande imprensa hoje em dia, justamente na seção de polícia, por onde comecei? e se tivesse, hoje, de lidar com o caso do assassinato do aniversariante petista pelo verme bolsonarista?

seria assim: eu com o texto na mão o submeteria à chefia, que deliberaria como reescrever o caso a partir da visão da diretoria, esta que por sua vez seria instruída pelo dono do jornal sobre como dizer o que eu já havia dito – e a este dono eu teria inevitavelmente de obedecer se desejasse ganhar o salário do mês.

o texto resultante seria então um frankenstein dessas resoluções, já que a verdade, em um jornal, obedece à hierarquia. (tudo é hierarquia em um jornal, desde a gramática.)

eu poderia me recusar a assinar o texto que não fiz sozinha? poderia. mas isto seria bom pra mim no futuro, dentro do jornal? seria péssimo.

aos poucos, me desloquei da “editoria de geral” (que incluía polícia, saúde, ambiente, comportamento) para cultura, menos pior, talvez, embora massacrante e estúpida quase sempre, como tudo o que a indústria cultural ou as preferências da diretoria ditam a nós.

vi com meus olhos o assassinato do menino que fez “pixote” se tornar culpa dele, para indignação da repórter que apurou o caso.

vi com meus olhos senhor democracia relativizar a culpa do filho do eike batista na morte do ciclista, já que havia esperança de que eike carregasse um pouco de sua fortuna na publicação.

imprensa no Brasil é coisa indigna desde sempre.

fui calada tantas vezes por essa gente e continuei trabalhando para ela, por necessidade e orgulho, que sempre me doerá imaginar o castigo imposto a meu fígado desde ocasiões semelhantes.

porque eu me calava mal.

reclamava e isso era mal visto.

tentava fingir que estava tudo bem, mas minha cara era triste.

nunca vesti uma camisa, mas me sentia deselegante, um farrapo humano com as vestes daquele jornalismo que, pelo menos no Brasil, me exigia maltrapilha.

por isso voltei a estudar, fiz um mestrado e um doutorado, mas não em jornalismo, em história: pra me sentir gente de novo.

por isso, principalmente, sempre amei quem expôs essa tragédia por meio do humor ficcional.

billy wilder, que também foi jornalista.

balzac, idem, um vingador maravilhoso.

raymond chandler, a literatura e o cinema noir, no qual o investigador é uma espécie de repórter (a meu ver, uma alusão velada) fodido, expulso de algum lugar, que quer se dar bem sozinho mas no fundo tem consciência, que nega, por menos aconselhável que seja, as negociatas alheias (nem sempre bem-sucedidas, porque até pra golpear os patrões às vezes são incompetentes) e acaba sozinho e bêbado numa sarjeta, depois de ser enganado por uma mulher que ele já sabia escrota, e que representa o diabo, o fogo de desejar o que se quer, como sempre representou a mulher.

viver não é somente perigoso para um jornalista.

é pegajoso também.

porque a verdade sempre aparece e invariavelmente nos pega sem higiene, de calças curtas.

Acontece assim.
Eu aceito todo mundo no Facebook.
Ou quase todo mundo que me pede “amizade”.
E noto que, por conta da porta escancarada que deixo (desse jeitinho mesmo, pra queimar meu carma, esse que nem sei se existe), ando aceitando sem perceber uns desequilibrados bolsonaristas que querem viver de arte sem largar o Bolsonaro e ainda me procuram para abraçá-los.

Uns doidos, doídos completos, mais do que somos neste lado da margem Pinheiros, zuretas de andar nus com roupa de plástico.

Tenho de desfazer a amizade com eles, mas, como são loucos, sinceramente sinto pena e ainda oferto umas xícaras de chá de boldo, quem sabe o amargo chegue ao doce?

Mas não sinto a mesma pena por senhoras condescendentes que me advertem por eu ter ofendido a religião X ou Z ou porque coloquei um meme muito divertido supondo uma atitude horrível partida de keanu reeves, obviamente estúpida e mentirosa, e por isso mesmo coloquei, mas elas não perdoam, gritando: “estúpida”!
Antes eu fosse estúpida, minha filha, mas o Brasil, de verdade, me tornou entupida. Me entupiu.
Por não fazer qualquer sentido, tudo isso ficou divertido…
E daí vêm me cobrar por ter proferido fake news?
Quando é que ironia virou fé?
Eu não to nem aí pra fake news.
Não sou eu que faço.
Fake news é o que fazem a Globo, a Folha, desde décadas atrás, quando suas peruas levavam suas jornalistas pro calabouço do DOI-CODI.
Só dou bobeira, pegadinha, contradição, sarcasmo, incoerência pra efeito cômico.
E que as pessoas se divirtam!
Virem-se!
Cresçam!
Deve haver um coach por aí que aumente QIs penianos!
Corram!
Me deixem boiar no vácuo de inteligência de vocês, vocês que andam atrás de um candidato melhor que Lula, um revolucionário bombado, ao menos!
Good luck and don’t fuck it up!