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Minha Geraldine

Rafaela travesti

Linda e fashion, a Rafa me contou que não trabalha há dois anos por ser portadora do HIV. Não perguntei o que fazia antes para que o vírus a impedisse agora. Acreditei nela quando disse que não morava sob o Minhocão, conforme sugere a foto, mas em um albergue próximo. Rafaela saltou sobre mim enquanto eu percorria o caminho até o metrô. Nunca achei que fosse me roubar. Me pediu a grana pra marmita, e ao meio-dia cheirava a álcool. Rapidamente despejei em suas mãos as moedas que eu tinha, talvez cinco reais. Ela fez uma festa, me abraçou e eu a beijei. “Você quer me fotografar?” Posou pra mim com a segurança que um dia vi em Geraldine Chaplin.

Mil e uma noites

Não gosto de caridade. Não tenho esperança ou fé. Sou um espírito disperso, sem o alento das crenças. Em São Paulo, contudo, respondo ao que a miséria me pergunta.

Diante do pequeno Pão de Açúcar da rua Pamplona, são dezenas de mães, pais e filhos a despertar cotidianamente dos passantes a compaixão, diria mesmo a pena que, jovem e altiva, um dia eu rejeitei exercer diante de um outro ser humano como eu.

Ontem, uma mulher de 40 anos, os dentes escangalhados, sentada sem reação no meio-fio da calçada do supermercado, deu um giro sobre o corpo quando me viu entrar. “Preciso de arroz ou feijão, é sério, pra comer.”

Não sei se se tratava de uma profissional de quem pede. Há tantas pessoas assim pela cidade. Sempre penso que são miseráveis de qualquer forma. O ofício de implorar, eu não queria ter.

Aparentemente sou o rosto a quem recorrem quando ninguém mais responde. Disse-lhe que me esperasse e ela ficou exultante. Fui fazer minhas compras e quase me esqueci do que lhe prometera. “Arroz e feijão, Rosane, arroz e feijão”, e dei meia volta. Comprei das marcas mais baratas. Me sinto dura, sem vaidade. Mas ainda tenho o que possa dar.

Ela me esperava na saída, diante do caixa. Olhei-a mais de perto. Luminosa. Negra. Os dentes já não me pareciam tão ruins. “Hoje vai ter janta?”, perguntei-lhe sorrindo. Ela sorriu de volta. “Sabe, ninguém acredita em mim. O que eu mais queria nessa vida era trabalhar. Mas não sei ler nem escrever, o que posso fazer?”

Como sempre acontece nesses momentos, quem pede algo urgentemente não me dá muito tempo pra conversa. Ela pegou seus pacotes e saiu pela rua acima, rumo a algo ou alguém.

Teria se tornado não uma Beyoncé da vida, talvez uma Cardi B, pensei sem raciocínio, se o ambiente lhe fosse favorável, como parecia começar a ser no Brasil. Mas essa Bey não sabe ler nem escrever. Ou talvez diga não saber, pela sobrevivência.

Pequena estrela da empatia, eu lhe desejo uma ceia de mil e uma noites.

calafrios e castigos

é difícil ganhar a vida, eu sei.

ninguém quer nos pagar por nada.

já fiz tanto trabalho meia-boca, ou não correspondente a meus sonhos, pra sobreviver.

mas algumas coisas você pode escolher não praticar e a alguns empregadores, não se submeter.

ademais, se seu rosto é identificável dentro do trabalho, ou sua assinatura, nos textos, convém pensar duas vezes antes de aceitar o trampo.

por exemplo, não fui trabalhar na veja quando convidada.

não tive estômago, embora houvesse sido funcionária da terrível folha antes.

mas na folha eu praticamente não assinava nada, era uma reles redatora no primeiro emprego em grande imprensa.

enquanto a veja me tornaria visível e representaria um passo pessoal em direção ao extremo ridículo dentro do jornalismo brasileiro, já àquela altura.

eu teria de ser reescrita mil vezes pela gryzinski, por exemplo, que achava meu texto “barroco”.

por que faria isso comigo?

sofria calafrios só de pensar.

(até hoje, nos meus pesadelos, o mario sabino me aguarda calvo e de sobrancelha arqueada em volta de uma mesa na editoria de cultura; eu me atraso muito para a reunião de pauta; sou submetida à inquisição no cadafalso entre as baias de fórmica).

não me venham dizer, então, que o ator contratado como protagonista pelo padilha é um desavisado.

ou que desconhece por inteiro o que o padilha vai aprontar com o material filmado a partir de sua atuação.

sabe sim, ou tem uma ideia robusta do que vai acontecer no fim, e precisa aguentar.

porque o dinheiro pode não ser compensação à altura para o crime que vai cometer…

A farra do Padilha

Tanta gente desiludida com Padilha e eu só penso: como se iludiram? Gostaram de Tropa de Elite? Sim, gostaram. Percebi naquela redação erroneamente classificada como de esquerda que gostaram. Uma tristeza ter de aceitar essa preferência, então, como “progressista”. (Vivi o trauma de driblar o gosto alheio pra ser jornalista. Assim são as revistas, a informação que veiculam e até mesmo a língua portuguesa que proclamam: hierárquicas. E enquanto isso, comicamente, torcemos para saber furar o bloqueio.)

Não consegui ver nem dez minutos dessa porcaria de desce-pro-play. E Narcos não se vê, consome-se.

O sujeito tem suas ideias, especialmente ideologias, e as produz, mas não é um diretor. Tropa de Elite só funcionou porque foi remontado pelo Daniel Rezende, que percebeu ser o personagem de Wagner Moura o principal. E o Moura adorou o sucesso que teve porque almeja o sistema hollywoodiano. É um ator talentoso, mas não me interessa, não me diz.

Ele já se pronunciou sobre O Manifesto? Desculpe, Mecanismo? Vai ser interessante.

Me divirto em pensar que Selton Mello imaginou uma carreira no exterior semelhante à dele a partir da parceria com o Padilha. Pra ser colombiano bandido em Hollywood, o cabra tem de ser bom.

Juro que fecho meus olhos quando penso que Wagner Moura vai dirigir uma cinebiografia de Marighella com Seu Jorge como protagonista. De todo modo, algum técnico bom deve trabalhar por ele, como aconteceu na estreia de Murilo Benício. Uma suposição, me entendam… Começo a admirar Benício, uma vez que, durante a mostra internacional em São Paulo, assumiu não ter feito realmente o primeiro filme que lançou como seu.

Padilha é um profissional do sistema: remunera o pessoal com o dinheiro alheio de seu marketing-embromation e põe o nome no fim. Chefinho desde Carvoeiros, sua obra número um, que ele conduziu com um americano, o autor… Digo isso há quase vinte anos, mas não sou lida. E nem de longe estou sozinha nisso. Basta não proferir o que o sistema pensa pra sua carreira beirar o precipício. O fracasso ético é o sal envenenado de nossa imprensa.

Desejo boa sorte a todos. Os que ficam no Netflix, os que saem. Não vai adiantar sair ou ficar. O economista Padilha é que não vai sofrer, dinheiro não lhe faltará. E ele sempre dependerá da propaganda que gentilmente lhe faremos quando protestarmos.

Adeus

Às vezes, em noites caseiras e insones como esta, eu sabia que ele, entre outros amigos queridos igualmente idos, estaria por aqui, quase ao lado, observando com sentimento (com seu jeito bonito ou mesmo contrariado de olhar as coisas) uma foto que eu tivesse colocado, uns versos que houvesse exposto, uma alegria ou talvez uma angústia que me apertasse e que desapareceria pela manhã. (E ele nunca brigou com minha tristeza, nem me julgou esquisita ou estranha por isso, como seria de esperar, e talvez experimentasse, como escreveu, uma admiração de igual.)

Fazia sentido postar nessa abscência se eu intuísse que ele se situava perto para me ouvir. Às vezes estava acordado como eu naquela madrugada de morcegos e me dava sugestões, como a última, para que eu expusesse minhas fotos, especialmente as dos reflexos, e que meu marido desse um jeito com os vinhos para quem aceitasse vê-las numa noite de museu na minha casa.

Ele vivia acordado com seus sonhos, eu fugia dos meus.

Não tenho muitos amigos presentes, eles são circunstâncias, vivem em mim, eu converso com eles em imaginação todo o tempo, talvez a experimentar tardiamente as amizades invisíveis que nunca tive na infância.

Enquanto leio a insolência de Gógol e choro com as tragédias de sentimento sem final de Tchecov, enquanto converso em ondas com esses mares de Bergman, Buñuel e Murnau e busco meu retrato em Walker Evans ou Saul Leiter, prescindo de tudo e todos, de quem tenha sangue pra me ouvir.

Meu amigo à distância que não existe mais viverá.

Naquele dia de sua morte uma mariposa negra me atormentou no quarto, avantajada, inquilina, e eu me assustei a ponto de andar pelo cômodo de guarda-chuva aberto. Quando meu marido chegou em casa e abriu a persiana, ela saiu, mas o coração saltava.

Soube depois.

No momento em que a mariposa deixou nosso quarto, ele partiu também.

Desconfio contudo que ainda permaneça aqui em algum canto, desejando ficar e me ouvir seriamente, expondo um triste e familiar enredo de filme japonês, talvez inventado, no qual os filhos morrem por seus pais, numa transformação poética do esperado e conquistado.

Abro a janela.

Parta com paz, meu querido, para a terra das nuvens e do riso, mas ainda me traga desde o infinito seus brinquedos e perfumes.

Impiedosos instantâneos

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Ninetto Davoli, Silvana Mangano e Totò em La Terra Vista Dalla Luna, de Pasolini, em As Bruxas

“As Bruxas”, no ciclo Visconti do Cinesesc, em São Paulo, é a arte mais maravilhosa. Pena que a próxima e única exibição desse filme de episódios realizado em 1966 se dê no dia 13 de março, no horário ingrato e vagabundo das 14 horas.

Visconti não faz a melhor entre as cinco narrativas (os outros realizadores são Pier Paolo Pasolini, Mauro Bolognini, Franco Rossi e Vittorio de Sica), talvez porque caminhe como um estranho pelo conto, ademais humorístico, marca deste filme.

Quem admira os representantes do gênero, Tchecov em especial, sua brevidade sem necessário desfecho ao destacar as misérias sociais, os golpes de sua trágica comicidade, vai entender a pertinência do filme de episódios, este que viabilizou o cinema na Itália no início ameaçador (por fim destruidor) da tevê. Os contos compreendem a vida urbana e fixam seus impiedosos instantâneos.

Visconti, na direção contrária, precisa do tempo do romance. Ele é mais (no sentido normalmente evitado) que um diretor de cinema. Eis um encenador teatral a observar, à distância de sua audiência, o erro burguês…

Que aulas as suas sequências de batalha! “O Leopardo”, esse western, encena a guerra real, seca. “Senso” a movimenta com realismo, sem temer o grotesco. Goya entra delicadamente por seus poros! Visconti sabe o que é lutar. 

Em “As Bruxas”, roteirizado por magos  da comédia sequencial como Age e Scarpelli, por fabulistas como Cesare Zavattini e pelo próprio Pasolini, a magia do cinema mudo, das máscaras faciais, daquele Totò inspirado em Chaplin, tomam a tela como um pequeno milagre. Todos os episódios são protagonizados por uma grande Silvana Mangano, a mulher de Dino De Laurentiis, produtor que além de levar Totò e Alberto Sordi ao filme convenceu Clint Eastwood (20 mil dólares e uma Ferrari) a destruir o impotente americano médio com um sarcasmo de aplaudir.

Esses filmes de episódios que os italianos faziam para salvar o cinema dos medíocres sempre me emocionaram. Às vezes não eram muitos os diretores reunidos. Dino Risi, por exemplo, apreciava tanto o modelo que fazia longas inteiros a partir de seus próprios pequenos contos violentos. Em “Os Monstros” e “Le Donne sono Fatte Così” (com Monica Vitti à frente de múltiplas interpretações das mulheres italianas), nunca foi tão certeiro. Um ferido a nos ferir…

Escrevo quando deveria dormir. Por empolgação amorosa, sem dinheiro. Quem dera voltar a este filme. Talvez um dia volte a todos os filmes. 

Meu conselho é que aproveitem o ciclo Visconti para também estar com Fellini, Pasolini, Rossellini, Monicelli…

Não percam “Bocaccio 70” e “Nós, as mulheres”.

Por seu deus.

primeiro a gente tira a dilma

creio que alguns paulistanos tiraram a dilma por razões bem específicas.

número 1: passear no shopping de paredes brancas cujos faxineiros são pretos.

número 2: entrar na doceria tradicional e sob ar condicionado conversar com a mulata atendente que lhe sorri. em plena quinta-feira ensolarada, o paulistano vem dizer:

– voltei da praia hoje, não aguentei o calor.

– verdade? – ela reage. – que pena.

– e também preciso ficar de olho no investimento. se não fico, perco.

enquanto tiver seis contos pra tomar expresso com biscoitinho e água gasosa, vou ocupar a mesa mais legal da doceria e não deixar você sentar, seu escroto.

O encanto clássico em Basquiat

O artista, cuja retrospectiva no CCBB percorre o Brasil, usou a harmonia geométrica para retratar sua vivência nova-iorquina em telas, gravuras e desenhos de extensas camadas

 

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Jean-Michel Basquiat em 1982, por James Van Der Zee

 

Sinto carinho pela ambiguidade enquanto fujo dela. Tudo o que escrevo tem dois, três lados, mesmo que eu os pretenda um só. Encho as frases com camadas que gosto de retirar em solidão. O que escrevo sou eu, e quem me entende sofre comigo. Espero que sorria também, às vezes.

 

Não se torna surpreendente, portanto, que eu tanto tenha gostado daquelas oitenta obras de Jean-Michel Basquiat em exposição no CCBB-SP, pertencentes à família Mugrabi e selecionadas pelo curador Pieter Tjabbes para circular pelo Brasil durante todo este ano. Principalmente dos desenhos, quase ocultos (não os perca), porque o mercado os valoriza menos e, por consequente, a exposição os exibe em curto espaço.

 

Gosto desse Basquiat como a um semelhante, diverso de mim, claro, pela liberdade propiciada por seu gênio incomum. Um artista ambíguo plenamente, enquanto simples, a conversar com nossos tempos.

 

Uma imagem que ficou comigo foi esta aqui embaixo, “Cabeça”, realizada entre 1980 e 1985, lápis e crayon sobre papel. Ela não é tão impressionante quando reproduzida. Contudo, ao vê-la tão de perto, apesar do vidro que a recobre, um encanto aparece.

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Cabeça, lápis e crayon sobre papel, 1980-85

O encanto, a meu ver, é a justaposição onipresente. A cabeça aberta explode em miudezas no topo aberto e faz saltar os olhos da caveira (o paradoxo de haver um olhar entre os ossos). As camadas se acumulam na figura e quase se desprendem dela. É um desenho que deriva da inspiração no guia anatômico “Gray’s Anatomy”, levado a seu leito de recuperação. Na infância, Basquiat sofrera um acidente que lhe retirara o baço e quebrara um de seus braços. Desde então, tivera muito tempo para ler, desenhar e pensar.

 

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Cabeça, detalhe: a inspiração renascentista para expressar o desajuste

Sua cabeça parecia ser aquela, ambígua e inclusiva dos pensamentos, perceptiva dos sons que até mesmo exercitara na banda noisy Gray, pop de adolescência. Cabeça é confusa, multifacetada enquanto rígida, obediente aos padrões renascentistas de Leonardo da Vinci, outro a quem consultava sempre. Todas as composições de Basquiat são plenas de geometria, intercaladas por frases, coroas, estrelas, ossos, dentes ou braços em aparentes desajustes.

 

Ele risca as palavras para ressaltá-las. Ou as esconde em camadas de branco, como em “Vista lateral de uma mandíbula de boi”, acrílica sobre tela de 1982.

 

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Vista lateral de uma mandíbula de boi, acrílica sobre tela de 1982: o brilho das camadas

O importante não é o visível. O importante é o que você está por ver.

 

Ele parece brincar com o pentimento, a camada de pintura ressurgida nas telas dos renascentistas. Uma brincadeira para se proteger do que seria inevitável com o decorrer do tempo, que no seu caso não foi muito: despontou no mundo da arte aos 19 anos e morreu de overdose em 1988, aos 27.

 

Ao crítico Henry Geldzahler, aquele que desdenhara de seus cartões postais vendidos de porta em porta quando tinha 16 anos, disse que temia ver uma de suas camadas explodir aos olhos do observador. “Em uma de minhas pinturas, alguém está segurando uma galinha. Mas, embaixo, a galinha é a cabeça de alguém.”

 

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Lombo, acrílica, bastão de tinta a óleo e pastel sobre tela, 1982: a marca da coroa, sangue e ossos

Ele diz a Geldzahler: “Gosto mais das telas em que não pinto tanto, onde há apenas uma ideia direta. Muitas das minhas pinturas têm duas ou três dentro delas. Temo que no futuro partes despencarão e que algumas das cabeças recobertas vão aparecer.”

Com Andy Warhol, trabalhou entre 1984 e 1985. A parceria propiciou uma série de quadros expostos no CCBB, límpidos dessa tridimensionalidade tão notável nas telas de autoria solitária.

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Dois cães, de Basquiat e Warhol, acrílica e tinta de serigrafia sobre tela, 1984: versão límpida

As colagens em papel são quase infantis, como se Basquiat debochasse de Picasso e de seu cubismo, este que parecia apenas modernizar ao burguês a pintura clássica. A harmonia áurea, ele exercia dentro da instabilidade.

 

Basquiat era resultado de seu mundo nova-iorquino. Filho de classe média do Brooklyn, de pai haitiano e mãe porto-riquenha que o levava ao museu, e inadaptado à escola comum, estudara na alternativa City as School, conhecida por valorizar o ambiente em torno no aprendizado. Como Chagall, retratara sua tumultuada aldeia de sonhos com os olhos no passado. E queria ser entendido igualmente como artista.

 

Desejava ganhar bastante bem com o que era seu (dizia pintar vestido de terno Armani, como na célebre foto feita por Lizzie Himmel para a revista do New York Times em 1985). E lutava em tempo integral contra o racismo. Embora o mercado de arte o tenha feito rico, ele não pegava facilmente um táxi à porta da galeria onde seus trabalhos eram expostos… Nas telas, seus negros eram heróis homenageados, como o corredor Jesse Owens e a cantora Dinah Washington.

 

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Tela em homenagem à cantora Dinah Washington, heroína negra
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Jovem Moisés, acrílica e óleo sobre tela, 1983: uma coroa para Jesse Owens, corredor negro a vencer a Olimpíada de 1936 em Berlim, diante de Hitler

Graffiti foi uma parte pequena de seu mundo, pelo menos menor do que aquela revelada pelo contemporâneo Keith Harring. Pintar paredes foi seu mundo de começo, no qual experimentou brevemente a condição de sem-teto. Desenhou sobre tudo o que achasse possível, como vestidos ou portas (a exposição mostra uma delas, de uma das casas que dividiu com amigos).

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Atletas negros famosos, acrílica e tinta sobre porta, 1980/81

Usou madeiras encontradas no lixo como suporte de telas. Como Picasso, pintou pratos com figuras que lhe vinham à cabeça. Alfred Hitchcock, cineasta que amava. Ou Warhol, seu “menino-gênio”.

 

Em 1983, Henry Geldzahler lhe perguntou: “Existe raiva no seu trabalho hoje?”

Ele respondeu: “Mais ou menos oitenta por cento.”

O crítico insistiu: “E há humor também.”

Basquiat: “As pessoas riem quando você cai de bunda no chão. O que é humor?”

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Jean-Michel Basquiat em foto de Lizzie Himmel, publicada em 1985 na capa da revista do The New York Times: o que é humor?

 

Jean-Michel Basquiat no Centros Culturais Banco do Brasil

De 25 de janeiro a 07 de abril de 2018 – CCBB de São Paulo

De 21 de abril a 01 de julho de 2018 – CCBB de Brasília

De 16 de julho a 26 de setembro de 2018 – CCBB de Belo Horizonte

De 12 de outubro de 2018 a 08 de janeiro de 2019 – CCBB do Rio de Janeiro

Entrada gratuita. Para todas as idades.

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Havia miséria de arrepiar em São Paulo antes dessa tomada de poder. Os sem-teto e os viciados eram maltratados pela guarda civil. Os jovens contra a máfia do transporte, ridicularizados e bombardeados.

Mas agora, com Doria e Alckmin juntos, tornou-se outra paisagem. É um novo contingente. Mulheres e homens nas estações de metrô, viadutos, becos e escadas envolvem-se em panos leves, à espera do que beber antes da morte. Os olhos fecharam-se para as crianças. São as responsáveis pelo alimento e o futuro de seus irmãos, como no século 19 londrino ou piemontês, como no filme de Buñuel, ‘Os Esquecidos’.

São Paulo tornou-se o pitoresco acinte que ilustramos com nossos iPhones debrets.