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Covideiros paneleiros

É verdade que só comecei a assistir a esta série zúmbica do Cláudio Torres, cineasta da Conspiração e filho da Fernanda Montenegro, porque o Mauricio Tagliari fez a trilha original. Mas vai daí que estou me divertindo à beça e gostaria de recomendá-la aos da quarentena eterna.

Os zumbis podem ser qualquer coisa em Reality Z – paneleiros, covideiros -, porque toda a ameaça que o Torres encena no Rio ou na Globo se encaixa em nossa desgraça brasileira.

Divirtam-se, vocês que tanto gostaram de Bacurau!

Ugo Giorgetti e meu texto sobre “Dora e Gabriel”

Daquelas coisas que nos deixam felizes por dias.

Publico a seguir o e-mail que me mandou hoje o diretor Ugo Giorgetti. E, abaixo dele, a pequena resenha que escrevi de “Dora e Gabriel”, seu filme mais recente, a pedido de Cássio Starling Carlos, que administra a página Cinemas Luz no Facebook.

“Rosane, de início preciso dizer que você está em grande forma como escritora, intelectual e jornalista. Mesmo se o que escreveu não fosse sobre mim e meus filmes, acho que conseguiria perceber a finura, a sofisticação e agudeza de seu raciocínio. O que você escreveu é curto, direto e muito original. Não porque é sobre o que faço, repito, mas como raciocínio em sim mesmo. É muito importante e talvez seja a função mais relevante do crítico apontar na obra questões e propósitos de que nem o artista se dava conta. De fato nunca tinha pensado no que você escreveu, mas vejo claramente que tem razão. O Caminho da porta e a trajetória dos personagens, tomando a porta não como metáfora apenas mas como algo real – uma espécie de leit motiv – sua conclusão sobre o que dizem meus filmes é de uma precisão única. Acho que certamente é o melhor resumo sobre todo o meu trabalho. Só não sei se é justo. Agradeço essa oportunidade rara, esse diálogo que se dá muito dificilmente entre crítico e artista, e que você estabeleceu de maneira perfeita. Vou colocar essa peça entre as minhas preferidas para falar de Dora e Gabriel, quando o lançamento nos cinemas se der.

Um beijo e, de novo, muito obrigado.”

O CAMINHO DA PORTA

Por Rosane Pavam


Não há coisa no mundo mais viva que uma porta. Vinicius de Moraes tinha razão. Desde sua descoberta pelos filmes silenciosos, a porta ampliou os dramas e os ambientes de ação. Sem ela, o cinema não teria história.


Ugo Giorgetti parece saber disso melhor do que nós. E por isso tranca seus personagens. Para que a história continue. Seu modo de prosseguir o diferencia, porque nos seus filmes não há alento em liberdade. Ninguém é livre, aliás, nem se transforma depois da porta arrombada.


É portanto um diretor que contraria nossa expectativa de que uma nova humanidade surja da catástrofe. Seus personagens trancados no elevador, em bares, no porão, no navio, no subsolo, no andar debaixo da festa, em plena rua, saem pela porta vazios como entraram.


“Dora e Gabriel” chega quando nosso isolamento social é excruciante, porque os filmes de Giorgetti são o que são, premonitórios. Um casal, ela jovem brasileira, exasperada e de bons dentes, ele velho libanês, conformado e lúcido, veem-se fechados por sequestradores no porta-malas de um carro em movimento.


O casal que jamais teria se relacionado lá fora discute o tempo todo a experiência por que passa, sonorizada pelos ruídos enigmáticos da rua. O que o espera? Mais do que nunca, neste filme do diretor, não é o quê, mas como, o que importa.

Arma dos impotentes

Sou estranha mesmo.
Difícil.
Lenta.
Sorrio.
Acho que a comédia liberta.
Que o riso é a arma dos impotentes.
Busco o cinema silencioso mais do que o falado.
E procuro o silêncio nos filmes que falam.
Seria mais feliz se tivesse amigos que me compreendessem, amassem os filmes que amo e juntos conversássemos sobre eles a noite inteira?
Mas eu sou feliz.
Eu os tenho.

Sobre “Dora e Gabriel”

amei o convite pra escrever 💜

Via Cinemas Luz

DORA E GABRIEL
por Rosane Pavam

Não há coisa no mundo mais viva que uma porta. Vinicius de Moraes tinha razão. Desde sua descoberta pelos filmes silenciosos, a porta ampliou os dramas e os ambientes de ação. Sem ela, o cinema não teria história. Ugo Giorgetti parece saber disso melhor do que nós. E por isso tranca seus personagens. Para que a história continue.

Seu modo de prosseguir o diferencia, porque nos seus filmes não há alento nem liberdade. Ninguém é livre, aliás, nem se transforma depois da porta arrombada. É portanto um diretor que contraria nossa expectativa de que uma nova humanidade surja da catástrofe. Seus personagens trancados no elevador, em bares, no porão, no navio, no subsolo, no andar debaixo da festa, em plena rua, saem pela porta vazios como entraram.

“Dora e Gabriel” chega quando nosso isolamento social é excruciante, porque os filmes de Giorgetti são o que são, premonitórios. Um casal, ela jovem brasileira, exasperada e de bons dentes, ele velho libanês, conformado e lúcido, veem-se fechados por sequestradores no porta-malas de um carro em movimento.

O casal que jamais teria se relacionado lá fora discute o tempo todo a experiência por que passa, sonorizada pelos ruídos enigmáticos da rua. O que o espera? Mais do que nunca, neste filme do diretor, não é o quê, mas como, o que importa.

Rosane Pavam é jornalista, autora de “Ugo Giorgetti – O Sonho Intacto” (2004)

DORA E GABRIEL
Diretor: Ugo Giorgetti
Brasil, 2020, 90 min

Em exibição até as 23h59 de 27/6

Quanto: R$ 10 (20% do valor destinado à APRO – Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais, que vai auxiliar os profissionais de cinema afetados pela pandemia).

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O que vai ser?

Não importa qual a notícia apurada pelos grandes jornais, seja sobre o novo corpo celeste, sobre a privatização da água no Brasil ou sobre o covid no mercado central do México.

Se a notícia aparentar ser contrária ao que o gabinete do ódio terraplanista determine, estará inflada por comentários de descrédito à apuração da imprensa brasileira e em torno da necessidade de negar os fatos.

Com perdão a minha ignorância jurídica, onde está o Moraes que não determina a culpa dessa gente de uma vez?

Ela quer destruir tudo o que existe para nos humanizar. E, depois, como sabemos, destruir a todos nós.

Destruir. Matar.

Sonho lento

Uma amiga escreveu: “Incrível sua dedicação para a manutenção do amor”. Um amigo me mostrou um conto de Edgar Allan Poe em que ele argumenta sobre escritas que se trancam em mistério, e por que se trancam. Uma amiga lembrou que a pandemia não consegue me impedir de observar a cidade. Um amigo diz que minhas fotos o fazem lembrar por que gosta da cidade. Um amigo pede que eu prossiga minhas auto-imagens. Um amigo diz que a arte que posto dos outros é o que me faz sua amiga especial. Um amigo diz que o Facebook é pouco espaço para o que tenho a dizer. Uma amiga diz que se aproximou de mim por meu jeito de fotografar. Uma amiga acha que seria divertido andar comigo para ver o que vejo. Um amigo quer sempre saber e eu sempre tento explicar, sem sucesso, por que não seria Lula, enquanto presidente, a fazer sozinho a revolução. Um amigo me pede depoimento sobre uma leitura importante que tenha me provocado a escrever. Uma amiga espera que eu consiga fazer uma live. Uma amiga não sabe se gosta mais do que escrevo ou fotografo. Um amigo diz que contribuo para o linchamento do inventor do Crossfit, aquele que chamou de Floyd 19 as manifestações antirracistas. Um amigo quer saber se ganhei seguidores, mais ou menos, nestes tempos. Um amigo diz que sou sofisticada demais, que as gentes não entendem o que eu escrevo. Uma amiga sabe que sou difícil. Uma amiga pede pra eu falar mais sobre fotografia, porque vão me escutar. Uma amiga pede que eu dance. Duas amigas querem rir comigo tomando uma cerveja ou um café quando tudo passar. Uma amiga quer me chamar no WhatsApp enquanto tomamos vinho. Uma amiga me chama de Rosinha. Um amigo diz que uma vez perto de mim não se pode ficar longe de mim, coisa que eu deveria saber. Uma amiga diz que não abandonei minhas convicções desde trinta anos atrás quando me conheceu. Uma amiga diz que tenho dois filhos lindos, parecidos com meu pai. Um amigo que admiro diz que me admira. Quero continuar a ouvir os meus amigos. Entender como eles me veem para explodir em estilhaços o que implodi maciço. Ter a experiência interior enquanto o espelho caminha lá fora. O sol aqui dentro, minha píton. Nada espero da vida, a não ser que me espere um pouco mais. Sonho lento. Que a noite seja o dia, que o dia seja a nuvem, que a nuvem seja eu.

Policiano!

Quando falo sério, não me acreditam.
Quando brinco, chamam o socorro do Instagram pra me ressuscitar.
Quem me entende?
A rua e os loucos da rua, por certo.
Amo viver no alto deste prédio, nesta avenida que provoca uma saudade imensa das minhas viagens diárias, e por onde agora todos passam, muitos sem máscara, suicidando-se.
Um deles grita aos intervalos, desde as dez da manhã:

– POLÍCIAAA!!! POLICIANOOO!!!!

E eu sorrio para a incompreensão que ele causa, ecoando a mim.

Na vigência pandemente

Acabo de comentar com uns amigos daqui como rio e choro o tempo todo durante a vigência pandemente de meu país, como tudo fotografo (embora isto faça sempre), e como tudo quero ser, o presente, o passado, e como vejo um futuro, quem sabe, engordando (sem ser triste) a cada dia, e como tudo quero amar. Há quem não me entenda, quem não me veja, nem agora, nem antes, muito menos na imagem do que será, não importa, não os vejo nem entendo tampouco, eu que vivo ao lado deles. Perdoem a enxurrada de fotos, de auto-imagens, de desconcertos neste fluxo demonstrativo de nossas vidas que eram uma antes e agora são outras. Perdoem-me a ausência de outros rostos, perdoem que seja o meu. É um processo de cura e entendimento, quem sabe, e espero que o aceitem os que me têm amizade, talvez só eles, viva eles!, e que tudo viva em nós.

Live and let die

pelo curto período de tempo em que minhas amizades mostram seus filmes, seus desenhos, seus vídeos, suas fotos, seus poemas, críticas, receitas, seus cantos, seus lamentos, suas costuras, filosofias, suas aulas e suas histórias e seus loucos experimentos, eu me esqueço desse mundo de porcaria em que nos colocaram profundamente e existo numa plenitude como nunca antes nestes últimos quatro anos, viva na pele de uns outros personagens que não eu, livres por completo desse ressequimento.

façam suas lives!

isto também é viver!

e um dia vou me atrever à minha (com algum photoshop, que só assim pra esta face se atrever.)