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Não me iludo e contudo

Todos esses raciocínios que vislumbram uma era mais humana pós-corona me levam a ter carinho por quem os faz, embora, na real, me pareçam iludidos, infundados.

Basta observar que no meio da pandemia, por exemplo, o que se vê é guerra internacional por máscaras e sequestro universal de respiradores por parte de quem detém o poder.

Por que tudo será tão melhor depois que a pandemia for embora, então?

Enfim, não custa crer que em nível global o sonolento desperte após um longo sofrimento.

O que eu sei é que nós, eu digo nós, os fudidos, sempre nos lembraremos das lições que tivemos. E, se sobrevivermos, vamos mandar batatas pra eles quando parecerem vencer.

Operacionalizar meu ovo

Não sei por que de repente a minha irritação.

Melhor dizendo, não sei por que ela está maior do que a branda, cotidiana e costumeira irritação destes dias.

Me sentia tão bem hoje, até dancei meu Prince na sala…

Penso, penso e acho que o que me tirou do sério foi tanto ler sobre essa história de “presidente operacional”. Me perdoem o Kotscho e o Nassif, mas isto me cheira a ideia plantada, a fake. Não há previsão para “estado operacional” dentro da constituição, não existe nada disso a ser conjecturado ou realizado. Estão nos enrolando de novo.

Desde quando, a partir do início do mandato de Bozó, ele mandou em alguma coisa, coordenou algum projeto, tranquilizou a nação? Desde quando administrou o Brasil?

Até parece que querem nos fazer crer em uma “operacionalidade” recente, com o general, o posto ypiranga, o conje e o Mandetta anti-SUS à frente, a nos conduzir por um caminho sensato em meio à tempestade.

São só golpistas dentro do golpe que eles mesmos deram. Neste ponto, nem mesmo Bozó está tão errado assim.

Quem governa são os governadores. E não acho a ideia má. Andávamos necessitados de ser uma federação, não uma centralização de poder em um Planalto ensandecido.

F-se os operacionais.

Precisamos da reforma política.

Na banheira de lixo da história

Talvez alguns de vocês conheçam este episódio. Mas vou recontá-lo, porque parece ser uma boa hora para isso. Que hora é mesmo agora? Sábado, já?


Não importa. Isolei-me. Vou tardar a dormir.


A história breve que vou lhes contar ou recontar gira em torno desta foto de David E. Scherman.


Na banheira, está Lee Miller.


Sim, Miller, linda mulher que aprendeu a posar criança, modelo de um problemático pai. Musa de Picasso, amiga de Steinberg, estampou a capa da Vogue várias vezes, uma delas em autorretrato que ela mesmo exigiu fazer – um fato memorável, quiçá jamais repetido na história da turma da Condé Nast.

Aprendeu a estar atrás das câmeras com um vaidoso Man Ray, com quem se relacionou amorosamente. Um dia, foi fotografar as dores do mundo, a Segunda Guerra, o estrago num campo de concentração, e convenceu a glamurosa Vogue a publicar o que reportava, algo também inédito até ali.


Tudo parecia maravilhosamente inusual na vida de Lee Miller, principalmente este retrato na banheira, embora seus últimos anos não tenham sido tão mágicos assim.


O retrato foi feito logo após a capitulação alemã, 1945, na casa à praça Prinzregentenplatz, em Munique. Tomada horas antes pelo exército dos Estados Unidos, a residência pertencia a Adolf Hitler.


“A casa se encontrava em perfeitas condições. Havia eletricidade, água quente e aquecimento disponíveis, além de um refrigerador elétrico”, escreveu Miller, gozadora, máxima.

Enquanto estiveram rapidamente por ali, ela fotografou seu retratista, Scherman, na mesma banheira, mas ninguém parece querer republicar esse retrato, vai saber por quê. Ele sorria.


Me lembrei da história (e são tantas envolvendo essa grande mulher) por uma razão trivial.


Quando a gente tomar a casa bozolina depois deste pesadelo, duvido que tenhamos idêntica coragem de mergulhar em sua banheira, suja com o sangue roubado de nós pela família infame – infâmia esta pela qual jamais imaginaríamos um dia passar, vencidos tantos anos desde a destruição sem precedentes promovida pelo bigodudo da foto a quem Miller dá as costas.


Nem por uma imagem histórica sentaríamos numa banheira de leite condensado, não é?


Eu, pelo menos, é que não.

Vermeeeee

Estava demorando pra acontecer.


Tô aqui sossegada no meu panelaço diário das 20 horas quando aparece o vizinho.

– Mitooo!


Respondo:

– Bolsominion Lixooo!
(Eu grito bem.)


Panelas se insurgem contra ele e logo chega a resposta a mim:

– Putaaa!


Por que toda mulher é puta ou vaca, neném?


Não tenho problema com as duas.
Quase grito Puta com Orgulhooo, mas não dá pra ser sutil numa hora dessas, lembra meu filho.


Vou no tradicional:

– Vermee!


Mais panelas por cima dele e a boca do infeliz interrompe a evacuação.

Um presente de Crumb

Viver é isso.
Jantar com Gilbert Shelton, Lora Fountain, Aline Kominsky e Robert Crumb na casa de Leca e Rogério, em São Paulo.
E ainda ganhar este presente feito pelos convidados.
Achei a noite tão especial que escrevi um texto sobre ela.
Mas o Maurício ponderou que não se deve publicar intimidade.
Passados dez anos, ainda não sei.
O fato é que conversamos um tanto.
Aline, Lora e eu, especialmente.
Gavetas, suas lindas.

Quando Miranda morreu

De 25 de março de 2018

Às vezes, em noites caseiras e insones como esta, eu sabia que ele, entre outros amigos queridos igualmente idos, estaria por aqui, quase ao lado, observando com sentimento (com seu jeito bonito ou mesmo contrariado de olhar as coisas) uma foto que eu tivesse colocado, uns versos que houvesse exposto, uma alegria ou talvez uma angústia que me apertasse e que desapareceria pela manhã. (E ele nunca brigou com minha tristeza, nem me julgou esquisita ou estranha por isso, como seria de esperar, e talvez experimentasse, como escreveu, uma admiração de igual.)

Fazia sentido postar nessa abscência se eu intuísse que ele se situava perto para me ouvir. Às vezes estava acordado como eu naquela madrugada de morcegos e me dava sugestões, como a última, para que eu expusesse minhas fotos, especialmente as dos reflexos, e que meu marido desse um jeito com os vinhos para quem aceitasse vê-las numa noite de museu na minha casa.

Ele vivia acordado com seus sonhos, eu fugia dos meus.

Não tenho muitos amigos presentes, eles são circunstâncias, vivem em mim, eu converso com eles em imaginação todo o tempo, talvez a experimentar tardiamente as amizades invisíveis que nunca tive na infância.

Enquanto leio a insolência de Gógol e choro com as tragédias de sentimento sem final de Tchecov, enquanto converso em ondas com esses mares de Bergman, Buñuel e Murnau e busco meu retrato em Walker Evans ou Saul Leiter, prescindo de tudo e todos, de quem tenha sangue pra me ouvir.

Meu amigo à distância que não existe mais viverá.

Naquele dia de sua morte uma mariposa negra me atormentou no quarto, avantajada, inquilina, e eu me assustei a ponto de andar pelo cômodo de guarda-chuva aberto. Quando meu marido chegou em casa e soltou a persiana, ela saiu, mas o coração saltava.

Soube depois.

No momento em que a mariposa deixou nosso quarto, ele partiu também.

Desconfio contudo que ainda permaneça aqui em algum canto, desejando ficar e me ouvir seriamente, expondo um triste e familiar enredo de filme japonês, talvez inventado, no qual os filhos morrem por seus pais, numa transformação poética do esperado e conquistado.

Abro a janela.

Parta com paz, meu querido, para a terra das nuvens e do riso, mas ainda me traga desde o infinito seus brinquedos e perfumes.

Outbreak

queria dar a cada um de vocês uma palavra de carinho.
mas não sei se sou boa nisso.
conhecem uma pessoa direta?
sou eu.
a que não sabe disfarçar.
aquela que diz bobagens sinceramente, porque crê nelas.
e que, se precisa dar carinho, gosta de fazê-lo pessoalmente.
fisicamente.
vocês estão longe, embora perto…
mas não é só isso o que quero dizer.
neste momento, na rua onde moro, passam pessoas gritando por turnos.
ouço da janela da sala.
gritos como se quisessem se libertar de alguém.
ou parar alguém.
não sei do que tratam essas pessoas.
não sei se são os sem-teto sem comida que querem arrancá-la de alguém.
não tenho como saber.
estou a uma altura excessiva do prédio onde moro, aqui onde vejo as nuvens, meus personagens.
prometi à família que me comportaria e que não sairia à rua à toa.
minha família é meu tudo.
eles me amam na complicação.
e não vou complicá-los me aproximando de quem não conheço no meio da pandemia.
mas queria lhes pedir.
nunca mais reclamem se um médico abraçar um prisioneiro na cadeia de novo.
não importa a escrotidão que o preso tenha aprontado.
nem o médico!
não reclamem.
temos um tempo limitado pra viver e amar.
não vamos estragar tudo espirrando no outro uma moral que não precisa ser respeitada.
é tarde.
e eles não vão parar de gritar contra nós.

Música com sangue

www.netflix.com/title/80227122

A quarentena mal começou.

Vocês terão tempo.

Assistam a este documentário espetacular de Stanley Nelson, “Miles Davis: Birth of the Cool”.

Está na netflix, mas suspeito que seja fácil baixar.

Que edição de imagens.

Ritmo!

A música era tudo para Miles.

Principalmente, evoluir dentro dela.

Ou isto ou a arte não faria sentido.

Foi um perfeito condutor de instrumentistas para o exercício de suas próprias visões.

Mais importante que ensaiar, para ele, era improvisar no palco.

E improvisar significava exercer a música em profundidade, sem limites.

Irascível, desafiador do racismo e do establishment, amante de ferraris, Miles foi igualmente louco por mulheres.

Às vezes, louco de verdade.

Machista, espancador.

Enfraqueceu-se mais e mais pelo uso de drogas e por seu comportamento autodestrutivo.

O cool que ele inventou e que quiseram transformar em entretenimento para brancos chiques vinha extraído de sua verve áspera.

Miles nos deu a música com sangue.

Vi Miles ao vivo.

Viva Miles.

Enrouquecendo

Minha quarentena (às vezes involuntariamente interrompida) está pra lá de interessante.
Filmes, conversas inspiradoras pelo insta, face, WhatsApp.
Livros, fotos…
E até me esqueço da hora do panelaço.
Isto porque, aqui no centro, nem preciso me lembrar dele.
É tanto grito e buzina às 20h que lá vou eu pra janela…
Hoje foi especialmente lindo.
Estou enrouquecendo, migues.
Isto mesmo.
Ficando rouca.
Porque louca sou gradualmente pelos anos, até a batalha final.