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A cinemateca no país sem substância

Sabe o que eu sinto, no fundo?
Sinto que a situação da Cinemateca não comove o Brasil tanto assim.
Um acervo precioso, nem só de filmes brasileiros, aliás nem só de filmes, em que quase ninguém vê preciosidade.
Isto ou alguma coisa já teria sido feita, e há muito tempo, para reverter a rolagem no penhasco.
É tudo tão inacreditável quanto este país da sobremesa, como dizia o Oswald de Andrade.
País da vida melada, sem proteína, sem substância.

Liberdade já para os detidos do Borba

Não achei indecente queimar o Borba, embora admita existir um grau de controvérsia na história, visto que o autor da obra, Julio Guerra, foi artista humilde e essas encomendas, do que quer que fossem (e Guerra é também o autor da Mãe Preta no Paissandu, bela sem controvérsia), alimentavam os escultores quando escultura era um caminho considerável para a arte popular remunerada.

Mas se julgasse indecente o ato dos meninos do grupo militante, nem me manifestaria. Quero dormir na paz. Gritar pega ladrão no Brasil não pega ladrão. A polícia só aceita intimidar e trancafiar pobre, indefeso, preto, criança. E sabe-se lá fazer o quê (sabemos o quê) com a vida dessas pessoas. O ativista Galo que foi preso já estava na mira dos escroques. E sua mulher, mãe do filho deles de 3 anos, que foi visitá-lo, o que justifica sua prisão? E o motorista de caminhão que carregou os pneus?

Borba Gato foi um facínora. A estátua representa sim e adocica a imagem de um facínora. Ainda mais de botas, quando andava descalço…

O monumento deveria ter sido mandado há anos para um museu de imagens de atrocidades históricas, como existe em outros lugares. Mas aqui neste tucanistão não tem quem pense nisso. A classe média paulistana tão abominável cognitivamente, como ensinou a Chauí, pensa que Borba Gato foi importante pra São Paulo por se tratar de um tremendo desbravador, do tamanho da estátua.

Não espero mais nada dessa gente burra de mau juízo. Nem pra plantar batatas serve.

O que eu quero, demando ou exijo, como cidadã, é liberdade já para os detidos.

Fragmentos do que fomos

essa barbaridade perpetrada pela imprensa internacional que é dar voz e quase justificativas aos antivacina europeus feito eric clapton, figura que no passado já demonstrara seu racismo e que aliás se vacinou, expondo “razões” (“ah, mas a astrazeneca me deu calafrios por dez dias, ah mas o direito individual”), é o que mais me irrita e perturba ao ler os jornais do mundo, droga de jornalismo onde fomos parar depois de todos os erros cometidos, de todas as fake news deliberadas e exigidas pelo capital financeiro que alimentava notícias, droga de gente que faliu nossa consciência e nos arrastou para fora de nosso espaço público onde reivindicávamos a mínima liberdade e nos deixou onde estamos, neste campo minado eterno, espécie de vácuo de fragmentos do que fomos.

So long

A pandemia me afastou dos poucos amigos que eu tinha pra olhar nos olhos.
Sinto tanta falta deles, embora tenha muita sorte de viver com minha família e poder senti-la também assim pelo olhar.
Com esses poucos amigos era apenas um outro jeito de partir.
Sou alguém sempre em viagem, embora quieta, surda e muda pras grandes expectativas.
Todo dia é um grande movimento pra mim.
E minha casa fica lá de trás do mundo onde eu vou (voo?) em segundo quando começo a pensar, ô felicidade!
Vi hoje o documentário sobre Leonard Cohen e Marianne na Netflix, sugerido
pelo querido Gabriel Barcelos, no Facebook, e estou muito necessitada de segurar minhas malas.
A inquietação que ninguém adivinha.
Uma definição de amar.
Como é difícil o amor!
Não li a autobiografia do Cohen por medo do que encontraria.
Eu tinha razão.

Extratos de um sonho sobre a revolução transcorrido no Bixiga

Meu sonho, ou minha tentativa de explicá-lo e comungá-lo, como ensinou Sidarta Ribeiro, num relato dedicado à linda e sábia Simone Curi:

Eu estava na feira livre, muito próxima de minha casa, escolhendo frutas, mas elas eram ora muito pesadas de carregar ora rolavam pela ladeira da rua São Vicente, no Bixiga, e eu as perdia lá embaixo, pela escola de samba Vai-Vai.

Às vezes os feirantes se recusavam a me ajudar. Ou reaviam as frutas, mas decidiam não vendê-las a mim. E frutas… Frutas eram tudo de que eu precisava, a boca seca necessitada de trato. Tal carência, por sua vez, vinha alimentada pela terra vermelha árida. A necessidade me fazia permanecer na feira, que, como um organismo vivo, parecia me rejeitar.

Os feirantes eram jovens com o rosto enlameado ou muitas crianças que usavam aparelhos nos dentes, feito a Fadinha do skate. Pareciam maquiadas. Sorriam por baixo do pó, ele também cor de terra. Espécies de duendes numa terra alta.

Pouco a pouco eu entendia que, a partir do chão da rua, erguia-se um tablado, depois uma construção plena de relevos tornados assentos, como muretas, onde era difícil se equilibrar. Mas eu conseguia aprontar o equilíbrio por esses acidentes sem saber explicar como.

Todo o sobrenatural era até bem natural pra mim, e meu manejo simples com a dificuldade não despertava a curiosidade de quem me via. Eu não chamava atenção.

Ninguém percebia a dificuldade envolvida no meu movimento, embora, pelas leis da física, tudo em verdade que eu fizesse para andar fosse impossível de ser realizado, exceto sob efeitos especiais ou sonho. E eu tinha consciência disso no inconsciente pulsante do sonho.

Percorria de lá pra cá o auditório erguido com arquibancada de muitos degraus, feito um gigantesco e acidentado teatro Oficina, em busca ainda de fazer minhas compras de frutas. E para andar sobre os acidentes usava um pedaço de madeira fino, comprido, que segurava com as mãos – espécie de perna de pau, com a diferença de ser manual.

E então me lembrava que havia estado nesta peça no ano anterior, e não entendera nada dela, pois se falava língua eslava no filme (agora a peça se transformava em filme) sem legendas. Mas eu gostara das atuações e desconfiava que a trama era boa.

Os atores haviam mudado. A peça-filme se passava em três dias. Eu voltara para entendê-la, mas me arrependia de ter feito isso, sem contudo conseguir simplesmente me ausentar, por respeito aos atores. Havia muito sacrifício envolvido em presenciar a trama.

Pouco a pouco eu compreendia que os feirantes todos representavam uma peça sobre a revolução. Um texto clássico, apresentado nos cineteatros dos anos 1960 com muito sucesso alternativo. Os meninos na feira eram militantes da resistência. Cada circunstância ou passagem de frutas tinha um sentido de acordo com o texto. Eram mensagens cifradas. Eles organizavam a caça ao tesouro em lugar a ser encontrado.

Conforme passávamos pelo auditório, um ano de luta revolucionária transcorria. Cantores e cantoras vestidos como num cabaré de Visconti em Os Deuses Malditos anunciavam os personagens. Eram pedreiros e marceneiros arregimentados para destruir a parede e arrancar o precioso, o excêntrico, o brilho da revolução.

A certa altura, ao projetar o filme do ano anterior na parede, me descobriam na plateia. E riam muito. Como eu tinha conseguido voltar pra ver aquilo?

Havia alguém que fora comigo assistir à segunda versão, mas desaparecera do cenário para fumar um baseado, então distribuído pelos atores-militantes ao público, em flagrante desconcerto com as normas revolucionárias dos anos 1960, quando drogas eram vetadas.

Envergonhada por ter sido descoberta na segunda tentativa de assistir ao filme, agora para compreender de fato seu segredo, eu deixava o auditório atrás do meu acompanhante, porque ele era igualmente importante para a revolução. Mas o teatro grande e esfumaçado fazia com que eu me perdesse na bruma e não conseguisse chegar ao pátio dos fumantes.

Acordei com as costas doendo. Vou colocar bolinhas de tênis para massageá-las enquanto tomo o sol que vem pela janela. Estou a pouca distância física do Bixiga. Lá nasci, me formei e sonhei os primeiros sonhos da existência.

Adeus, Roberto Romano da Silva, alma gentil

Uma das mortes menos esperadas por mim entre os amigos foi esta do professor Roberto Romano da Silva, hoje, após uma batalha de semanas contra a covid. Ele nos narrou a revelação do exame positivo no facebook e pediu orações quando se viu internado no Incor. Não tenho religião, mas rezei muito por ele, sempre à espera angustiante de uma notícia boa.

Das mais sofridas, injustas, foi essa morte também porque ele já havia se vacinado. Mas a gente sabe que a vacina não pode tudo. E que, sob o governo genocida, não criamos ainda condições para uma imunização coletiva mínima. Então ele acabou vítima dessa animalidade que combatia todos os dias em artigos nos jornais, na televisão. E em toda a imprensa que editava mal o que ele dizia e que intentava conduzi-lo nas entrevistas, sem o conseguir, sob seus protestos veementes.

Eu o considerava muito amigo, embora nunca tivéssemos nos visto. Às vezes me mandava mensagens pelo inbox do face e chegou a celebrar uns tantos anos de nossa amizade na rede, uma gentileza tão grande. Ele era uma luz pra meu pensamento. Ele e seu comportamento digno de um dominicano, cão de Deus, que também foi.

Filósofo com o saber na ponta da língua, tinha o afã de se relacionar, como a gente via pelo face. E sofria grande indignação ao se ver descartado pela idade. Recusava o sarcasmo etarista: se alguém ligasse a velhice à caduquice, ele o tirava de sua lista de amigos e acabou.

Fui subeditora de um suplemento cultural, um dos mais antigos da imprensa, o Caderno de Sábado, do Jornal da Tarde, que me demitiu tão logo voltei da minha segunda gravidez. O usual para mulheres que têm filhos, mas isto não vem ao caso. Os textos do professor eram muito importantes pra mim.

À época, ele cedia ao caderno a íntegra de suas palestras, para que a publicássemos num tamanho cabível. Eram sempre textos grandes demais, razão pela qual me davam um certo trabalho. Ademais, os seus eram raciocínios que pediam a duração normalmente negada pelo jornalismo. E lá ia eu, contra o relógio, linha a linha, buscando reduzi-las sem estragar o entendimento. Trabalho este que, desnecessário dizer, ninguém reconhece, ninguém vê, e quando reconhece ou vê, é mau sinal.

Um dia, Romano ligou para meu editor e perguntou quem cortava seus textos no caderno. Meu editor disse que era eu, a subeditora, simplesmente esperando o pior. E não.

O que Romano lhe disse foi que os cortes feitos em seus textos agiam por mágica. Ele não os percebia, mas, ao reler o que estava publicado, considerava-o melhor que o texto original.

Uma gentileza a mais que será para sempre um dos meus maiores orgulhos como jornalista.

Meu amigo prossegue no caminho da luz que jamais abandonou.

Em ‘O Ministério da Verdade’, Dorian Lynskey traça uma biografia de ‘1984’, de George Orwell

A seguir, a resenha que fiz deste importante livro de história cultural para o suplemento Aliás, do Estadão, publicada em 11 de julho de 2021.

Há uma informação logo na primeira frase que foi modificada de meu texto original. No artigo publicado, imprime-se que Orwell morreu em 1949, mas foi em janeiro de 1950. E “1984” foi publicado em 1948.

George Orwell (1903-1950) publicou 1984 em 1948, um ano e meio antes de morrer com tuberculose. A obra, que ao sair foi comparada a um terremoto, a um feixe de dinamite e ao rótulo numa garrafa de veneno, revelou-se caleidoscópica, e a cada temporada histórica uma diferente interpretação do livro se sobressaiu. Durante a Guerra Fria, este que se tornou o último texto ficcional do escritor inglês foi lido como um romance sobre o totalitarismo, com a tendência de a crítica ocidental ligá-lo unicamente à barbárie stalinista. Na década de 1980, o volume, já compreendido como um clássico, parecia alertar sobre as tecnologias de vigilância, embora Milan Kundera e Harold Bloom o entendessem como um romance ruim. O escritor Anthony Burgess, que construiu Laranja Mecânica à sua luz, chegou a defini-lo como “o código apocalíptico de nossos piores medos”. E atualmente, em meio ao império global das informações falsas, 1984 tornou-se um dos mais poderosos livros em defesa da verdade.

Ainda que seja possível admitir sua imaginação ficcional limitada, como queriam Bloom e Kundera, o romance exibe intacto o poder da escrita persuasiva, em um fluxo de observações a expressar o profundo incômodo de seu autor, conforme escreve o historiador cultural inglês Dorian Lynksey, de 47 anos, nas espetaculares 488 páginas de O Ministério da Verdade. A sua é uma investigação muito bem fundamentada de história cultural, que insere as ideias e seus artífices no contexto de produção, sem perder de vista o leitor comum. A linguagem clara arma-se para reproduzir a atmosfera mental na qual foi composta a dura sátira que, mesclada a uma história de amor, virou peça radiofônica, encenação televisiva e filme homônimo por Michael Radford, além de traduzida para mais de 60 línguas.

A trama ficcional parece conhecida, a ponto de uma de suas situações, a da eterna vigilância, ter sido parodiada em um reality show de sucesso, onde o punitivo Quarto 101 virou Confessionário. Mas talvez poucos a tenham lido realmente, o que vale uma rememoração. Em 1984, o protagonista Winston Smith passa os dias reescrevendo exemplares antigos do jornal The Times no Ministério da Verdade, de modo a tornar os fatos inventados do passado uma justificativa à opressão presente. Um dia, apaixona-se, o que é proibido. Ele e Julia, seu amor, precisam driblar a impressão de que a memória os engana. Tentam acessar o mundo anterior à imposição da “novafala” (a tradução a preferiu à conhecida “novilíngua”), recurso vocabular de modificação constante que dá sentido ao “duplipensar”, ou o pensar uma coisa enquanto se propõe outra distinta.

O sistema de duplicidade em que vivem é estabelecido pelo Grande Irmão, que tudo controla e vê. Seu objetivo ao construir “despessoas” é interromper tanto a ciência quanto a história. Ao desejar o fim desse mundo no qual “guerra é paz”, “liberdade é escravidão” e “ignorância é força”, Winston também sabe que seu final logo virá, embora não calcule que esse apagamento se dará por meio da renúncia horripilante a seu amor por Julia. Enquanto isso, os cientistas continuarão a projetar teletelas e helicópteros-espiões, a inventar novas armas e dispositivos de tortura, a realizar cirurgias plásticas radicais e a tentar abolir o orgasmo, ao mesmo tempo em que nada farão para melhorar a qualidade de vida geral.

É o mundo terrível como o vemos conhecendo? Sim e não. A novafala de Donald Trump, por exemplo, exemplificou o sim, uma vez que sob o ex-presidente estadunidense foram admitidos “fatos alternativos” em lugar de “fatos”. O livro não deseja retratar apenas aquele universo de constante tensão e cancelamento imaginado pela sanha stalinista. 1984 é também um retrato do fascismo e de todos os regimes políticos a sufocar a liberdade e a convergir o poder na direção de um “coletivismo oligárquico” do qual os trabalhadores se veem, na verdade, excluídos. Orwell, um homem de esquerda, investiu contra todos os totalitarismos. “Por trás de Stalin se esconde o Grande Irmão”, escreveu o crítico E. M. Forster em 1951, “mas o Grande Irmão também se esconde por trás de Churchill, Truman, Gandhi e qualquer outro líder usado ou inventado pela propaganda”.

O cineasta Radford, que adaptou a trama às telas aceleradamente, para que estreasse em 1984, a vê como um “mito grego”, por meio do qual é possível até mesmo “examinar a si mesmo”. Mas é curioso como tantos, desde a apresentação do livro ao público, tenham preferido tratá-la como uma obra falha no sentido de cravar profecias. Orwell disse muitas vezes que não previa nada com seu escrito, certamente nada que envolvesse ciência, ao contrário do que elaborara com bastante sucesso seu antecessor H.G. Wells. O autor de 1984 apenas fazia uma leitura “provável” do futuro, baseada tanto na sua experiência como combatente na Guerra Civil Espanhola quanto naquela de ávido leitor, tanto de história política quanto das ficções utópicas, entre elas Nós, de Ievguêni Zamiátin, que conheceu depois de haver iniciado seu romance e na qual parcialmente se baseou.

A experiência ao lado dos anarquistas foi uma daquelas a contribuir para a fama de “idealista estabanado” com a qual o escritor e amigo Henry Miller o presenteara. Nascido Eric Arthur Blair na Índia em 1903, um descendente da baixa classe média que havia cursado a elitista escola Eton, Orwell era um “revolucionário apaixonado”, segundo o amigo Cyril Connolly. E somente quando colocado na pele daqueles caídos abaixo do sistema de classes sentia experimentar um “igualitarismo”. Havia escrito Na Pior em Paris e Londres, de 1933, em que usou pela primeira vez o pseudônimo que o tornaria famoso, com esse objetivo, e três anos depois se encontrava ao lado dos anarquistas no Aragão. Os anarquistas queriam a revolução além da queda do general Francisco Franco, motivador do conflito. Mas os comunistas estavam ali apenas para expulsá-lo do poder. Apesar de pertencer ao grupo anarquista, Orwell, alguém a cultivar o não como quem se alimenta à vasta mesa da contrariedade, acreditava que os comunistas estavam certos em seu objetivo.

Com o tempo, o escritor percebeu, estupefato, que não somente os fascistas eram uma ameaça, mas também os comunistas adeptos de Stalin. Eles haviam expandido mentiras em cascata para desabonar os anarquistas. Mentiram, por exemplo, que eles haviam se associado a Franco para solapar a revolução. Eram os comunistas os transmissores das fake news sobre Trotsky que culminaram em seu assassinato. E haviam obrigado o próprio Orwell a fugir para Paris em meio ao conflito, uma vez que lutava ao lado dos anarquistas. Por que Orwell criticava o comunismo com mais vigor que o fascismo? Porque ele o tinha conhecido de perto, e porque o apelo do comunismo, a seu ver, era mais traiçoeiro, uma vez que também ele apagava a verdade, como num pesadelo. Mas a política não o enojava. Ele até mesmo a introduziu na sua distopia (termo criado por John Stuart Mill em 1868 que Orwell, aliás, jamais usou), diferenciando-a daquela de Aldous Huxley, que não mencionava a manipulação política em seu Admirável Mundo Novo, de 1932.

O que mais perturbava Orwell, um “guerreiro puritano” segundo seu editor Fredric Warburg, era a retórica brutalizante. O escritor, cujos admiradores foram tão díspares quanto a escritora Margaret Atwood e o músico David Bowie, via a Inglaterra como uma “terra de esnobismo e privilégio governada sobretudo pelos velhos e pelos imbecis”. E em todo avanço científico assimilado pelo poder o autor de 1984 constatava acelerar-se a tendência para o nacionalismo e a ditadura. Para ele, que deixou de examinar o sexismo ou o racismo em seu romance, a tecnologia jamais seria capaz de construir paraísos, ao contrário do que estabelecia o senso comum das ficções utópicas. Até porque, como diria o líder trabalhista e ex-premiê britânico Clement Attlee, citado por este estudo, “a maioria de nós seria muito infeliz nos paraísos alheios”.

É JORNALISTA, PESQUISADORA E AUTORA DE ‘O SONHO INTACTO’ E ‘O CINEASTA HISTORIADOR’

O preço não mente

No Submarino, o Grupo Companhia das Letras oferece por 27 reais o livro de Thais Oyama sobre Bozo que custava 54.

E um outro volume pela Penguin, uma antologia com “textos” de Dallagnol, Pozzobon e Moro intitulada “Corrupção: Lava Jato E Mãos Limpas”, sai de 58 reais por 27.

Especialmente no caso deste último, me perguntou aqui o Mau, a Companhia está oferecendo 27 conto pra gente ficar com o livro?

Porque nem de graça a gente vai pegar uma radiação dessas com as lindas mãozinhas, mores.

Pior que o Führer. Acho que ele vai gostar

Insônia é fogo e me lembra que Hitler fez mais pela cultura de seu país do que Verme.

Hitler exigia cinema bom e apaixonou-se pela loucura de Leni Riefenstahl, além de conseguir reter na sua administração atores como Emil Jannings (“O Anjo Azul”) e diretores como Walter Ruttmann (“Berlim, Sinfonia de uma Metrópole”).

Nana Caymmi apoiou Bozo, que por sua vez destruiu nosso cinema e nossa cinemateca, mas não sei se Bozo gosta de Nana Caymmi, isto se souber de quem se trata. O único apoplético a serviço do Verme com algum relevo acidentado talvez seja Amado Batista.

E sei lá do que mais essa anticriatura gosta e o que aplaude, a não ser o caixa eletrônico quando espirra.