Onde ficou perdida minha face?

“Tira minha foto?”

Este rapaz se aproximou de mim na avenida São João e pediu:

– Tira uma foto minha? Faz tempo que não me olho no espelho.

Fiz a foto, mostrei a ele, ficou feliz (e eu também, por proporcionar que se visse) e partiu antes que eu perguntasse seu nome.

Não deu três segundos, levei um baita susto com duas mulheres sem máscaras, gritando rente ao meu rosto:

– Esconde esse celular, vão roubar de você!

Agradeci (“Sim, senhora!”) e pensei. Não me assustei com o menino me pedindo para ser fotografado, fiquei, pelo contrário, lisonjeada. Sou muito mais incapaz de entender as mulheres sem máscaras. Deveria ter gritado pra elas: “Usem máscaras, negacionistas do inferno!”, mas não gritei.

Na moral

Se eu tenho uma boa recordação da escola onde estudei? Tenho uma divertida.

Eu era muito boa aluna de português, adorava análise sintática e escrevia bem as redações pedidas, às vezes poesias, além de me esmerar em declamar poemas clássicos de cor (sim, eram coisas estimuladas pelo povo lá de trás e eu fazia isso “de coração”, porque tornava minha vida menos triste). E enquanto isso tinha de me esforçar em ciências, exceto em biologia.

Quando estava terminando o Ensino Médio, os professores me perguntaram o que eu iria cursar. Disse jornalismo (estava em dúvida entre jornalismo e psicologia), até porque meus pais haviam me apoiado integralmente na decisão. Então estranhei quando os professores reagiram: “Que é isso, você merece coisa melhor!”

Adorei desobedecer meus professores e o colégio então.

Mas hoje entendo o que pensavam naquele tempo. Jornalismo era para a ralé. E eu deveria cursar direito ou estudar diplomacia, coisas muito mais de bem para o povo de humanas então.

Lembro disso e não paro de rir, acho que de nervoso mesmo. Se tivesse seguido uma carreira diplomática, talvez já estivesse aposentada ganhando bem. E no direito, concursada, não enfrentaria muito problema, acredito, só mesmo o trabalho a fazer.

Escolhi errado, porque jornalismo não dá dinheiro e, no atual momento, muito menos moral.

Mas é vida que segue que chama?

Navegar é preciso

Takashi Shimura em “Viver”,
de Akira Kurosawa, 1952

A gente precisa ter muito carinho pelas pessoas num momento como este. Num post anterior disse que pouco me ficou da Folha além da amizade prolongada e cúmplice com o Renato Pompeu. Mas fui injusta. Tenho amigos vindos de lá ainda, que reencontrei no face. E que são pessoas incríveis.

Eu falava de uma cumplicidade que só tinha mesmo com o Renato. Uma visão ampliada do caos, da indignidade que era a vida naquele jornal.

De resto, queria dizer que o facebook traz mesmo pessoas mais perto de nós. É muito bom conhecer gente cheia de experiências tão novas, e com alguma proximidade. Mas, é claro, temos de ter cuidado com isso também. Ou eu preciso. Às vezes me empolgo demais e me decepciono. Como na vida, certo?

Viver! “Viver” que é um filme de Kurosawa, finalmente conhecido por mim ontem, a nos trazer com tanta intensidade o sentido do tempo. A um minuto antes do fim, ainda podemos fazer algo que mude nossa direção nessa barca da vida que vai dar em nada.

Vejam! Por mim!

Trauma de S. Paulo

Vejo os testemunhos emocionados dos amigos jornalistas sobre sua experiência no jornal que faz 100 anos.

Pois bem.

Na Folha de S. Paulo perdi dez quilos e ganhei 10 cáries. Ninguém esquece uma coisa dessas.

Um jornal onde fui pisada e humilhada.

Mas um lugar onde me pagaram seguro médico, férias e demais direitos trabalhistas.

Desta segunda parte da Folha sempre gostei muito. E não encontrei o mesmo respeito que ela praticava conosco em publicações ditas de esquerda.

De resto, para mim, foi onde iniciei a amizade prolongada com Renato Pompeu.

E a meu ver isso foi quase tudo de bom que pudesse ter havido ali.

Para que não se enganem sobre mim

Esclareço a vocês uma parte importante do que sou, para que não se iludam e decidam se querem ficar por aqui ou não, apesar de minhas posições.

Então:

Fui uma das pessoas em São Paulo que, para viabilizar a existência do Partido dos Trabalhadores, a ele se filiou.

Votei no PT na maioria das eleições e em Lula sempre, desde os tempos de deputado federal.

Da única vez que votei num conhecido, pai de amigo dos meus filhos, fora do espectro do PT-PSOL-PDT, me arrependi. E me arrependi votando no PT também ao escolher a Soninha.

Moro é um escroto e tem de pagar pelo que fez. Lula é inocente no processo que ele conduziu e a Lava Jato representou uma farsa desde seu inicial instante.

Sou pela ampliação do SUS e não por sua desintegração ou acomodação em parcerias com a iniciativa privada.

Quero que as fortunas sejam taxadas.

Defendo que o aborto seja uma decisão exclusiva da mulher, seu direito absoluto.

Sou santista no futebol. Fã de Marta quando vestiu a camisa do meu time, assisti-a vencer em campo maravilhosamente. E a amo ainda.

Fui fã de Robinho e Neymar. Hoje as duas pessoas se tornaram abjetas demais para que eu tome o impulso de vê-las jogar seu futebol tão bonito. Mas ainda acho seu futebol bonito.

As cotas nas universidades têm de se expandir, não se retrair.

Gosto de gente educada. Que responde aos meus posts com educação. Quando as pessoas não fazem isso, é muito fácil que eu simplesmente as retire da lista de amigos.

Gosto do facebook, apesar de saber o que representou neste processo de destruição da democracia. Entendo que ele possa ser usado como canal informativo. Aqui aprendi muito seguindo bons perfis, especialmente ligados à arte e à fotografia. Aqui tenho amigos, a maioria desconhecidos pra mim, que me apoiaram e consolaram e vibraram comigo nestes tempos difíceis. Não vejo dilema na rede neste sentido.

Não tenho preconceito contra o uso do gerúndio e dos adjetivos. Tento usá-los bem.

Não acho essencial o lide, uma invenção dos Estados Unidos na época da Guerra Civil. (Se o telex quebrasse, o essencial do texto estaria garantido logo). Não precisamos mais de telex, mas ainda precisamos de textos bons.

Não acredito na expressão “jornalismo literário”. Todo jornalismo deveria ser literatura.

Sou da poesia, da novela e do conto, mais até que do romance.

Acho a birra que fizeram entre apreciar Cortázar e Borges um mal estúpido. Os dois não foram rivais em vida e não há um melhor que o outro. O mesmo vale para Graciliano e Rosa. Competição é pra cavalos de corrida.

Gosto de selfies e autorretratos pela história, desde a pintura.

Gosto do cinema que se movimenta. Das boas escolhas de câmera. Não suporto o campo versus contracampo das novelas de tevê, que reduz a história à lida com personagens intensos e tensos, fotografados fixos da cabeça ao peito, mas falantes em demasia. Detesto como a computação gráfica vem sendo usada e abusada. O cinema também é o que não diz.

Conforme me lembre de mais divisórias, coloco aqui pra vocês, se acaso se interessarem.

Beijos meus.

Fake fashion, a onda

Quão chocante lhes parece que uma empresa cobre para vestir alguém virtualmente, como a Carlings tem feito na Noruega?

Para mim, o choque é quase zero.

Nossos olhos tristes já são maquiados por meio dos filtros de selfie do Instagram. E pagamos indiretamente por esse embelezamento. Os anúncios infindáveis que suportamos na rede constituem o preço.

E se pagamos de um jeito enviesado pelo direito à boniteza esfumaçada, arrasadora de espinhas, olheiras e rugas, por que não deixaríamos que uma marca de roupa nos “vestisse” por um custo menor do que o da roupa verdadeira?

Eu não pagaria por isso hoje. Mas talvez no futuro o próprio Instagram nos venda disfarçadamente a possibilidade, da qual eu talvez usufruísse como quem brinca.

Não queremos aparecer nas imagens ainda mais feios do que somos, certo? E isto desde a segunda metade do século XIX, quando a fotografia começou a ser comercializada, espalhando a onda da beleza filtrada dos retratos.

Já que a pandemia nos força a viver reclusos (pelo menos nós, os exaustos conscientes), não há por que a indústria deixe de tirar proveito também disso. Será mais uma oportunidade de incutir em nós o consumo em prol da jovialidade exigida pelo mundo de aparências.

O fardo impressionista

João Luiz Lafetá, o grande professor

Naqueles anos 1980 era possível frequentar duas faculdades simultaneamente na USP, e foi assim que, enquanto cursava Jornalismo, um pouco decepcionada com tudo, buscava Letras também. Moradora do Crusp, ia à aula do segundo curso com muito prazer, como quem desce após o jantar para cumprir um exercício.

Tive sorte e azar. Professores ruins de Literatura Portuguesa e Inglesa, mais ou menos insignificantes de Linguística e Português. Em Teoria Literária a coisa era diferente. Não cheguei a Antonio Candido, mas João Adolfo Hansen, Alfredo Bosi e João Luiz Lafetá foram meus professores.

Hansen era maravilhoso. A aula desse grande estudioso da sátira e do poema barroco surgia para mim como uma espécie de show teatral de humor hipnotizante. Certa vez, o professor comemorou rindo muito ao saber que o dicionário de latim deixado por ele no xerox havia sido roubado. Quem se interessaria por esse assunto a ponto de surrupiar um dicionário?

Bosi era o oposto, carisma nenhum. Sentava-se e lia a aula sentado no púlpito. E eu anotava. Devo ter aprendido alguma coisa, tinha 19 anos, não me lembro. O seu jeito de padre, pude reviver três décadas depois enquanto jornalista. Falava comigo de perfil, como se me ouvisse no confessionário, enquanto Eclea Bosi atravessava diversas vezes a sala sem me olhar.

O Lafetá era o melhor. Dava uma aula perfeita, enquadrada. E sorria, infantil, com suas próprias conclusões aparentemente tiradas naquele instante, enquanto andava pela sala. Ele e Hansen eram fumantes o tempo todo, e eu, que sofrera por anos ao aspirar a fumaça produzida por meu pai na sala onde ele estudava e eu dormia, nem sentia o cheiro ruim.

Lafetá, entre esses todos, cuidava de seu aluno. Ele o percebia, como sentia os textos, as intenções do autor estudado, sua tessitura. E eu me encontrava nisso. Estou penando para me lembrar do livro que destrinchou pra nós em aulas seguidas e sorridentes, mas não consigo.

Sei que nos pedia dois trabalhos de análise literária como avaliação do curso. Guardei por anos a folha em que avaliou o meu primeiro. Ele se disse feliz com minha sensibilidade, que classificou de brilhante, mas enquanto me dava 10 afirmava temer que eu me tornasse uma “crítica impressionista”.

Querido Lafetá, nem crítica literária me tornei! E me perdoe por ter cultivado a sintonia com os textos mais do que a pesquisa em literatura, esta que a vida rotineira e a necessidade de sobrevivência me fizeram perder de vista. Também me perdoe por entender hoje que você via em mim um pouco a si mesmo, lutando para se manter na pesquisa e construir uma coerência de scholar enquanto a leitura lhe banhava de impressões.

Creio que impressionista fui e impressionista me tornei, sem me aborrecer com isso, antes me beneficiar dessa percepção e morrer por ela, por assim dizer. E agradeço a esses três pela dignidade com que envolveram a transmissão de seu saber.

Como eu vi Maureen

Minha reportagem de 2010 com a fotógrafa Maureen Bisilliat, que reproduzo a seguir

Maureen Bisilliat em foto feita
por Olga Vlahou em 2010

Em abril de 2010, Maureen Bisilliat foi tema de uma grande retrospectiva na então galeria do Sesi, em São Paulo. Na ocasião eu a entrevistei para uma reportagem de revista que reproduzo a seguir. A genial foto de Maureen na reportagem foi feita por uma das maiores retratistas brasileiras, minha amiga Olga Vlahou. Maureen faz 90 anos no dia 16 de fevereiro de 2021 e este texto é minha homenagem a ela.

A primeira foto de Maureen,
nos anos 1950

A MÃE DA INVENÇÃO

Exposição na Galeria do Sesi refaz a trajetória da artista Maureen Bisilliat, que agora usa o vídeo para captar o instante

POR ROSANE PAVAM

A primeira de suas fotos ainda é a mais importante. Com ela, Maureen Bisilliat diz ter compreendido o ato de fotografar. A imagem foi feita em preto e branco nos anos 50, entre nisseis plantadores de algodão no interior paulista. Na humilde cozinha campesina, a mãe usa a faca diante da janela aberta à luz. Um menino cujo rosto não vemos deita parcialmente o corpo sobre a bancada em direção à mulher com a faca, como se a ela se entregasse, em sacrifício. No primeiro plano da fotografia, à esquerda, uma menina à sombra olha para Maureen.

“Depois desta, fiz sempre a mesma foto, não é?”, observa rapidamente a artista de 79 anos nascida em Surrey, Inglaterra, filha da pintora Sheila Brannigan. Maureen, que me recebe na Galeria de Arte do Sesi, em São Paulo, onde até o dia 2 de julho de 2010 ocorre a monumental retrospectiva de seu trabalho visual, tornou-se uma das mais importantes intérpretes fotográficas do Brasil, à moda de um Pierre Verger ou de um Marcel Gautherot, não, obviamente, sem dificuldade ou dor.

Uma dessas dores talvez tenha nascido daquilo que ela intitula “inconsciência”, mas que, pelo contrário, pode indicar o ato deliberado de quem se sacrifica por seu destino artístico. Na década em que registrara a família de lavradores, Maureen deixara a filha Kyra, de dois anos, aos cuidados dos avós na Espanha. Sem a menina e na companhia da amiga Ann Bagley, fora estudar no ateliê parisiense do cubista André Lhote (1885-1962), o professor de pintura do fotógrafo Henri-Cartier Bresson.

Aquele momento de distância familiar foi crucial, no entanto, para que ela pudesse ter aprendido composição e cor. “Sendo mais consciente, talvez não tivesse me afastado tanto de minha filha. No frigir dos ovos, não sei se isto foi necessário, mas assim foi”, ela diz, com seu português de quase seis décadas, acrescido de todas as contribuições européias. Lhote gostava de Maureen e de Ann porque elas chegavam até ele sem qualquer influência. “O que a gente produzia era primário, mas não envenenado.”

Aquela primeira foto nasceu de seu talento, mas também de seu conhecimento da arte. “A falta de técnica era compensada por uma consciência da luz e da composição, o que naturalmente vinha do meu passado na pintura”, ela explica. A artista não se descobriu com Lhote, embora ele a tenha introduzido à formalidade, embutida no ato de pintar e expressa nos esboços barrocos da artista, presentes na exposição. A descoberta da liberdade artística, ela atribui a Morris Kantor (1896-1974), russo ligado ao expressionismo abstrato que lhe deu aulas nos Estados Unidos em1957.

“Foi uma invertida total”, conta Maureen sobre seu aprendizado com Kantor. “Ele era o oposto do Lhote. Dizia que os erros eram tão interessantes!” Naquela Nova York, os artistas não viviam sob o jugo de produtores e agentes. Eram sobretudo simples. Depois dessa experiência, Maureen jamais deixaria de buscar tal qualidade em todos os artistas. Ela a viu no escritor Guimarães Rosa tanto quanto no sertanista Orlando Villas-Boas. Os dois a prepararam respectivamente para Minas Gerais e para o Xingu. Guimarães Rosa, por exemplo, disse-lhe que a fotógrafa não teria dificuldade em Cordisburgo porque, descendente de irlandeses, ela também cantava ao falar.

Os trabalhos a partir das indicações literárias de Rosa e de outros escritores, como Jorge Amado, Euclides da Cunha e João Cabral de Melo Neto, estão expostos no Sesi tanto quanto no livro Fotografias, editado pelo Instituto Moreira Salles. O extenso volume representou a “argamassa”, como ela diz, para esta exposição que também traz a passagem da artista pelo mangue e por Japão, África ou China. Desde 2003, porque faria o livro, Maureen promoveu “uma volta no tempo com tempo”, selecionando duas centenas entre 16 mil de suas imagens referentes ao passado. “Eu pareço toda artista, mas tenho muito de prática”, ela diz, sempre grata à grande equipe que a auxiliou a expor. “Sou organizada desorganizadamente.” 

Esta pensadora se realiza com a escrita, para a qual se diz meticulosa, enquanto, ao falar, lamente se soltar demais. Em muitos momentos, Maureen parece ansiar o rigor pregado por Lhote. E por que, sendo tão precisa nas composições, declinou ela própria da pintura? “Pensei essa coisa engraçada agora. Eu me sinto perdida diante do branco. Eu não sei inventar.”

Maureen Bisilliat habituou-se, então, a tirar da realidade seus temas. Mas não clica seriamente há trinta anos. “Sempre achei que perdi mais do que ganhei na fotografia”, ela considera. “Estou falando de captação. O que eu via era mais do que eu captava.” Conhecida por seu trabalho no Xingu, por exemplo, ela não retratou os índios como gostaria. Maureen só viveu intensamente aquele mundo ao mostrá-los durante seu processo de trabalho em Xingu/Terra, documentário em parceria com Lúcio Kodato, de 1979. 

A artista diz trabalhar melhor com a fotografia quando o personagem posa para ela, em cumplicidade. Raros são os momentos gestuais espontâneos como aquele em que, numa foto, seu pescador baiano segura a presa em movimento. “E observe como o rabo do peixe é importante para determinar a foto. Basta cobri-lo com a mão.” Quando usa o preto e branco, Maureen é aguda e suas fotos transmitem grande emoção e sensualidade. Em cores, seus registros fotográficos expressam uma beleza fria.

Representar o gestual e a voz das pessoas, contudo, é tudo o que encanta esta artista. Por exemplo, ela esteve com as caranguejeiras na década de 60 para uma reportagem sobre o mangue destinada à revista Realidade, da editora Abril, empresa para a qual trabalhou prazerosamente por sete anos. Sua trabalhadora é alegre e orgulhosa, “como uma bailarina de Degas”. E captar isto não seria dizer ao observador uma parte importante e esquecida da verdade?

Ela considera, contudo, raros e breves os momentos fotográficos em que não só as mulheres do mangue, mas vaqueiros do sertão ou pescadores, surgiram-lhe inteiramente. Por isto, ao registrar a vida em processo, o vídeo pede sua presença mais e mais. Com ele, finalmente, esta artista se sente preparada para o instante. Agora, por exemplo, decidiu correr atrás dos habitantes da Sé paulistana. No projeto que pensa intitular Fracos, Fortes e Fodidos da Praça da Sé, ela quer descrever de onde vêm e para onde vão as pessoas que por lá circulam. A São Paulo desvalida talvez precise, mais do que imagine, deste novo instante de Maureen.

Minha entrevista com Jean-Claude Carrière

Em novembro de 2009 tive o prazer de entrevistar o grande escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, numa reportagem publicada em revista brasileira da qual não digo o nome.

Eu havia tentado encontrá-lo no telefone de sua residência, a mim fornecido pela editora que publicava um de seus livros, mas me foi impossível encontrá-lo. Ele nunca se lembrava que precisava ser entrevistado por uma pobre jornalista brasileira, e portanto jamais estava em casa na hora combinada.

Joguei então a toalha, como se diz, mas lancei uma última mensagem pela garrafa, enviando-lhe as perguntas por e-mail.

E não é que ele as respondeu?

Às dúvidas que eventualmente tive, ele acrescentou mais respostas.

Tratou-se então de uma conversa, no fim das contas…

Aqui vai o texto que escrevi e que publico nesta tristíssima ocasião da morte deste grande artista enquanto dormia, aos 89 anos.

Grande Carrière, pelo muito que nos deu, obrigada!

Jean-Claude Carrière em 2016,
na estreia da sua peça ‘As Palavras e a Coisa’ em Madri.
Foto de CLAUDIO ÁLVAREZ,
para o El País

FÉ NA PALAVRA

Jean-Claude Carrière fala de sua colaboração com Luis Buñuel, de seus romances e das lições aprendidas com o Oriente

POR ROSANE PAVAM

Aos 78 anos, o roteirista francês Jean-Claude Carrière não perdeu a fé na palavra, nem nas imagens que façam ampliar seu sentido. Mais exatamente, ele não declina de escrever, nem que para isso sirva ao cinema, a si mesmo ou à literatura no senso estrito. E Carrière é um grande escritor, paulatinamente transferido ao terreno de um novo romance visual, como este que a Cosacnaify lança em janeiro do ano que vem, depois de agora ter colocado nas livrarias uma reedição de sua co-autoria para a espetacular autobiografia do diretor Luis Buñuel, Meu Último Suspiro, de 1982. O prodígio recente de Carrière foi ter novelizado o filme-ícone de humor poético Meu Tio, que o diretor Jacques Tati concebeu há cinco décadas, curiosamente vazio de palavras.

“Para mim, reescrever um filme é sempre uma maneira de experimentar modos diferentes de escrita. Espero acrescentar alguma coisa a ele, como se lhe oferecesse um bônus”, ele diz em entrevista no dia 6 de novembro de 2009, véspera de sua viagem à Índia, onde o mexicano Juan-Carlos Rulfo filmará uma etapa da vida do célebre roteirista. “Foi uma decisão estranha a de Rulfo, esta de fazer minha biografia. De qualquer modo, um filme com este tema não poderia prescindir daquele país, para onde vou duas vezes ao ano, desde que roteirizei em 1989 o Mahabharata e me senti fascinado com a experiência. É algo sobre que ainda me debruço, em conferências, em toda parte.”

Na sua Índia imprescindível, ele estará acompanhado por “um bando de mexicanos loucos” que jamais esteve no país. “Promissor”, diz, bem-humorado e atencioso ao extremo, animado a dizer que já tem engatilhado um novo livro visual, com lançamento francês também em janeiro, e de título Mon Chèque. Será a história de um produtor de filmes com um cheque nas mãos, e que encontra muitas maneiras para não pagá-lo. 

Promissor? É o que ele espera, depois do enigma que cerca Os Fantasmas de Goya, filme nascido de um de seus romances, sobre o drama de uma musa do pintor injustamente acusada de heresia. Dirigido pelo experiente Milos Forman (Amadeus, Estranho no Ninho) e protagonizado por Natalie Portman, o filme fracassou em 2006, fato com que Carrière não se conforma, para não dizer que se enfurece ao encarar as objeções críticas à qualidade cinematográfica da obra.

“Milos e eu nunca entendemos o que aconteceu com o filme”, ele começa. “Ambos gostamos muito dele, outras pessoas também gostaram. E vemos que aos poucos se transforma em um filme cult.” Onde residiu o problema, eles não sabem dizer, já que entendem esta como parte de um grande mistério. “Alguns críticos disseram que concebemos um melodrama, como se não estivéssemos conscientes disso, como se fôssemos estúpidos, cegos e ignorantes”, ele se exalta. “Mas justamente durante a Revolução Francesa o melodrama foi inventado!”

Ele escreveu o livro ao mesmo tempo que Milos Forman o filmava. A ideia era desenvolver o drama no cinema e no romance a partir de um mesmo argumento inicial. “Há muitas diferenças entre os dois objetos, por exemplo em relação ao que acontece com o personagem Lorenzo [o inquisidor vivido por Javier Bardem] em Paris, e que não aparece no filme. Chegamos a uma certa amargura ao fim, mas não pudemos evitá-la.”

Nem sempre a dor acompanha o que ele escreve para tantos diretores. Em 1963 iniciou, aos 42 anos, uma parceria com o espanhol Luis Buñuel (1900-1983) que se estenderia até o final de sua vida no cinema, em 1979. “Eu não sou capaz de lhe dizer quais dos roteiros que fiz a ele me deu mais prazer”, diz, antecipando-se à questão universal proposta por seus entrevistadores. “Mas tenho um sentimento secreto por Esse Obscuro Objeto do Desejo, provavelmente por ter sido o último filme em que trabalhamos.”

Às vezes, ele diz, parece-lhe ainda ouvir a voz do amigo espanhol, que nunca escreveu uma só linha, nem tentou, e até detestava a própria letra sobre o papel. “O que teria sido dele em um outro tempo, antes da invenção do cinema?”, pergunta-se. Foi de Carrière a ideia de que escrevessem a autobiografia, já que, desde o início de sua cooperação, ele tomara várias notas sobre a vida de um dos maiores cineastas de todos os tempos e suas opiniões. 

De início o diretor recusou a proposta. Mas enquanto estavam no México Carrière decidiu redigir à revelia um dos capítulos, sobre os prazeres terrenos do diretor. Buñuel amou o que leu e lhe disse que era como se ele próprio tivesse proferido tais coisas. Os dois iniciaram a narrativa na casa mexicana do diretor. Conversavam pela manhã e Carrière escrevia sozinho, à tarde, coisas como esta: “Sou feito de meus erros e de minhas dúvidas, assim como de minhas certezas. Não sendo historiador, não recorri a nenhuma nota, a nenhum livro, e o retrato que proponho é, em todo caso, o meu, com minhas afirmações, hesitações, repetições e brancos, com minhas verdades e minhas mentiras; para resumir: minha memória.”

Parecia muito fácil trabalhar com Buñuel, que não era uma pessoa má, antes seu exato oposto, “generoso, tolerante e engraçado”. Ao mesmo tempo, tudo se revelava muito difícil de ser feito, justamente por se tratar de Buñuel. “Quando se está diante de alguém desse nível, é como se chegássemos à final dos Jogos Olímpicos. Não há nada acima, então é melhor estar na melhor forma para lidar com ele, dia e noite. Se você não estiver, ele notará imediatamente.” Carrière guarda a imagem de um homem solitário, meditativo, andando na floresta e contemplando os insetos. “E, claro, seus olhos olhando diretamente em minha direção por horas e horas todos os dias.”

As idas e vindas às terras dos budistas não alteraram um sentimento que o escritor compartilhou com o diretor espanhol. Jean-Claude Carrière se diz, como ele, um completo ateu. E acha que somente os apegados a esta básica descrença podem escrever de maneira confiável sobre os misticismos. “O que as religiões nos dizem sobre deuses, anjos ou demônios é pura fantasia. Isto tudo só interessa quando metaforicamente trata de nós mesmos, de nosso medos, esperanças, fracassos, fraquezas, daquilo que nos falta. A crença é sempre maior do que o conhecimento. É preciso saber disso ao escrever sobre religiões.” 

E o que os ensinamentos orientais lhe trouxeram, eis um outro mistério que ele não pretende definir. Sabe somente que seu poder de descrever as coisas por meio das palavras cresceu. “Encontrei um outro vocabulário, um novo modo de fazer as mesmas perguntas, às vezes encontrando, para elas, respostas diferentes.” No caso do budismo, aprendeu de que maneira se pode ser mais ecológico na relação com o mundo. Nada mais, e nada melhor.