ilusão vitoriana

o fenacistocópio (“espectador ilusório”, em grego) foi inventado em 1829 por joseph plateau de modo a confirmar sua teoria sobre a persistência na retina.

o dispositivo consistia em uma sequência de imagens com posições ligeiramente diferentes entre si (inicialmente 16 delas, número adotado depois, no início do cinema) sobre uma placa circular lisa.

quando a placa girava diante de um espelho, criava a ilusão da imagem em movimento.

tornou-se um brinquedo amado e disputado pelas crianças da era vitoriana.

variações para um sonho-máscara

as amigas me diziam reservadamente muito tempo atrás que chegando aos 50 eu iria entender a necessidade de me maquiar, eu que só usei batom, e às vezes, na vida.

os 50 chegaram e passaram e eu nada de nada de mover um pincel… não que jamais tenha sentido a necessidade, claro. necessidade senti. mas tenho mais o que fazer. ou não fazer!

agora, se o desenho for assim, quem sabe?

a maquiagem é inspirada nos bordados da elsa schiaparelli, uma rival da chanel a meu ver muito mais interessante que a chanel, louca-extravagante-decadentista-romântica-art-déco que fez o casaquinho nos anos 30 com a parceria de jean cocteau, o vestido-lagosta com salvador dalì e a máscara de seda furada no olho com van cleef & arpels, que confeccionou um broche imitando sobrancelha.

já que é pra pintar, né?

que seja bordar um sonho-máscara sobre a triste realidade!

(prontofalei)

when you’re smiling

“the many faces of billie holiday” (https://youtu.be/wiEcL372LD0, filme para a tevê de matthew seig) talvez seja o melhor documento que conheci sobre billie holiday.

nada de sensacional se apresenta nele exceto a voz da cantora, analisada e respeitada, neste filme de 1990, por alguns dos músicos e produtores que com ela conviveram e que permaneciam vivos à época.

(mal waldron, por exemplo, muito jovem quando chamado a acompanhá-la, tinha exatamente esse rosto sereno quando o vi tocar…)

billie sofre nas biografias.

apanha, literalmente, jogada ao chão.

há essa tendência de a retratar em meio à ruína, como acontece com a carolina de jesus.

mas eu gosto de billie como está aqui, linda e luminosa na maior parte das vezes… da mesma maneira que amo carolina sem o lenço na cabeça, elegante e digna no seu encontro com clarice.

billie sabia rir e chorar, evitava a impessoalidade, falava consigo enquanto cantava para os outros. e, ainda mais raro, comunicava o seu ser e sua história, a tristeza e a alegria de viver no mundo, em cada canção.

conheçam sua maneira moderna e a voz como um trompete do íntimo, à moda do ídolo louis armstrong…

descubram como sua arte sempre foi, à parte todos os ruídos e feridas da vida pública, esse saber interpretar.

what’s done is done…

conje ensaiou o monólogo com conja? quem escreveu?

o cara se entrega, é comovente a estupidez!

ele não só justifica a agressão à mulher de uma maneira geral.

o cara se entrega mesmo, pessoalmente, como se conja fosse sua lady macbeth, a tal intimidante, impositiva, superior…

e ele, macbeth, o próprio, em névoa, parece prestes a assassinar o rei duncan porque a mulher o convenceu assim…

essa escócia ainda acaba em facada verdadeira, céus!

captei

demorei pra entender a estratégia de expulsão incessante nas fraldas adotada por bozó nos últimos tempos.

mas agora captei, rolando!

ele acha que os seus trinta por cento de eleitores, de tão estúpidos e portanto motivados sem descanso pela estupidez do líder, tendo até mesmo mantido a aprovação a ele nas últimas pesquisas, o levarão novamente à presidência nas próximas eleições.

é só agradar às bestas e fechar o apoio irrestrito delas, sempre bem alimentadas, que tá limpo!

a aposta faz um sentido terrível.

mas ainda acho que bozó confia demais.

por exemplo, pode aparecer um motivador mais estúpido do que ele, já pensou?

(toc toc toc)

Cercados das joias populares

Por algum tempo meus filhos nos perguntaram como era viver nos anos 1980.

E eu nunca soube responder.

Nem saberei.

Talvez porque, sendo muito jovem então, eu não pudesse compreender a juventude, por mim apenas sentida nas suas porções de velocidade, impedimento e paixão.

Ontem revi “Blade Runner” com um de meus filhos e pensei sobre a década perdida, as “lágrimas na chuva” de que fala Rutger Hauer no improviso final.

E pensei que talvez o ator estivesse anunciando ele mesmo o fim de uma arte, daí a permanência de suas palavras…

Temo que os anos 1980 tenham acolhido o último grande cinema.

Aquele do movimento incessante, da poesia, do drama realista, o horizonte ampliado, a essência muda, as palavras exatas.

Isto é o “Blade Runner” de Ridley Scott pra mim, um verdadeiro filme.

Assim como “À Sombra do Vulcão”, de John Huston, lançado dois anos depois.

Eles contêm a beleza de Murnau e de Douglas Sirk, a fotografia dos reflexos da alma.

Os filmes nas salas de cinema eram um importante pedaço da vida nos anos 1980.

Cercados das joias populares, nós as sorvíamos em sessões seguidas, pois ninguém nos tirava das poltronas se desejássemos prosseguir vendo o mesmo filme.

E a intensidade desse maravilhamento talvez seja o mais difícil de traduzir para quem não a viveu, ou não era jovem então.

manda um abraço pro juarez!

vocês bem poderiam estar comigo da próxima vez que o suplicy aparecesse em manifestação.

e me ajudar…

não tenho coragem de pedir selfie com ele. até porque não sei fazer essas coisas. preciso de fotógrafo que além de tudo peça pra ele uma foto comigo. se bem que já é um ritual na vida do cara: posar com todos, falar ao microfone e cantar.

desta vez não cantou porque tinha “responsabilidade”, como disse, de ir ao velório do companheiro juarez soares. falou primeiro que todo mundo, pegou um papel pra não errar o nome dos presos, disse que pedia a sensibilidade de doria e bolsonaro para a injustiça das prisões (o suplicy de sempre), garantiu que todos trabalhavam pra resolver isso… e terminou com um lula livre, aplaudido com ênfase e carinho.

foi então que o organizador das falas pegou o microfone de sua mão e achou de dizer uma despedida empolgada, enquanto o suplicy deixava o recinto:

– manda um abraço pro juarez soares!

quase ninguém percebeu. nem ele, que falou, nem quem ouviu. o suplicy quis consertar lentamente, como de costume, mas só deu um riso compreensivo no fim. todo mundo muito sério na manifestação, mais homens que mulheres, polícia e remoção circundando a praça.

na real, eu não fui muito melhor que o rapaz atarantado ao microfone. mas pelo menos hoje, como todo mundo, homem e mulher na praça do patriarca (e o suplicy é um patriarca também), dei-lhe um beijo no rosto. só não sabia o que dizer depois. soltei o que me ocorreu:

– muito prazer!

e saí de perto, porque não nasci pra este mundo, entendeu?

Nosso Marlon Brando pop viverá para sempre

Aqui, uma montagem com cenas de um seriado de televisão holandês de 1969, “Floris”, dirigido pelo inseparável Paul Verhoeven, em que Rutger Hauer, morto no último dia 19, aos 75 anos, interpreta um cavalheiro forçado ao exílio, embrenhado na floresta junto ao amigo aborígine.

Juntos os dois personagens tentam reaver a certidão de nascimento do herói, roubada por um nobre mau. Durante a procura, um fidalgo os ajuda, oferecendo-lhes abrigo em seu castelo.

O personagem ardiloso de Hauer em “Feitiço de Áquila”, e talvez também aquele em “Blade Runner”, deve ter nascido disto, desta sua compleição de conquistador, da máscara de príncipe-mendigo que carregava no rosto, do seu saber cavalgar, da improvisação de quem parecia conhecer de cor a vida nos baixos domínios.

Inteligência, independência, solidão, beleza.

Nosso Marlon Brando pop viverá para sempre.

e se mudar a rádio?

Começo o dia ainda animada pelo show de ontem. E entro no uber cheia de esperança. O jovem motorista, negro, usa boné e tem um carro bonito, não me pergunte qual, bem limpo. Sorri o tempo todo. Comenta o clima.

– Por isso a gente fica doente, né? Que sol é esse depois do frio de manhã cedo?

– Tem razão – digo. – E aconselho uma coisa: vacine-se contra a gripe. Peguei H1N1 e quase fui… Gripe e antigripal acabaram comigo! Ainda me sinto mal, sabia? Não vale a pena.

Me olha, diz baixo:

– Olha, moça, eu não acredito muito nessa indústria de vacinas…

(Rosane, por que não te maria calas?)

– Melhor você acreditar nessa indústria que naquela farmacêutica pra curar seu sarampo – brinco, na tentativa de lhe devolver toda a boa educação que teve comigo. – E vacina ainda é grátis no posto, não mata você…

– Acho que a senhora vai gostar deste programa.

Aumenta o rádio. Já o ouvia quando entrei. Eu penso: é agora, Orora. O Pânico da Jovem Pan comenta o aquecimento global.

O jovem professor de nome Ricardo Felicio, climatologista “da usp”, parece um jogador olímpico de pingue-pongue contra os radialistas do achincalhe da cognição. A cada pergunta banal, o entrevistado faz um rebate surreal, rápido, de tontear.

O Felício diz que:

1. Aquecimento global é cem por cento geopolítica. Não existe. Apenas passamos a monitorar a temperatura nos últimos anos. Nunca se viu tanto gelo como agora.

2. É só desenvolver uma bactéria que coma o plástico jogado ao oceano.

3. As abelhas, se morrerem, serão substituídas por outras espécies. Nunca se produziu tanto mel como no ano passado.

4. A engenharia florestal brasileira é a melhor do mundo. “Madeira dá muito dinheiro.”

Olho pro motorista com pena. O programa acompanha sua tentativa de entender a confusão do mundo. Uma rádio que é uma concessão pública, meu deus. Um entrevistado que nem sei classificar, um mitômano, um canalha.

Estamos chegando e eu, aterrada daquela felicidade airosa de minutos atrás, só lhe digo:

– Me promete que não vai deixar de se vacinar?

– Sim – sorri. – Prometo.

– E dou uma dica de estação de rádio melhor que essa. Já ouviu a Brasil Atual?

Solidão de histórias

A gente costuma pensar que Edward Hopper foi único em seu estilo regionalista, narrativo, imerso na naturalidade fotográfica. Mas nem tanto. Ele, que seguiu um espírito de época, também teve seguidores. E suas próprias primeiras pinturas e desenhos foram diferentes do trabalho final, assim como aconteceria com tantos, com Lucian Freud, um surrealista no início…

Sally Storch, nascida em 1952 e atualmente residente em Pasadena, nos EUA, admirava Hopper e Thomas Hart Benton, como se pode ver por estas imagens.

Porém, mais importante que eles em sua formação foi a convivência com as duas tias pintoras. Uma delas, tia-avó, privou da proximidade com Matisse na Paris dos anos 1920.

Sally conta histórias mais cálidas, interessadas, empáticas. A solidão não a movimenta ao isolamento distópico, como talvez tivesse ocorrido a Hopper. E ela parece estar representada nas próprias pinturas, reflexiva.