
Imensamente feliz por nossas mulheres olímpicas. Quem não estaria? São pessoas que vestem a luta, habituadas a presenciar a lida de mães e avós. Seus olhares parecem voltar-se a tudo em torno, sem se esquecer do que é próximo. Difícil ser mais bonito como povo do que agora, com essas pessoas diante de nós.
Segunda-feira cedo, contudo, eu pensava diferente. Atrasada, a caminho do metrô para a fisioterapia semanal, me perguntava o que São Paulo fez das mulheres, insistentemente abandonadas no centro da cidade. Nossos governos, municipal e estadual, habituaram-se a exercer a crueldade com elas, como quem não larga um vício. Mas e nossas mulheres, desistiram de lutar?
Bem, ainda não. Lutam de um outro jeito, talvez.
Três delas me pediram ajuda no trajeto para a estação próxima de casa. Um número incomum até para mim, que transito por essas ruas todos os dias. Não usavam os filhos. O pedido, como de uso, era por dinheiro-não, mas uma coca-cola, por favor. Eu me recuso a distribuir coca-cola e meu estoque de barrinhas de cereais para doação acabou. Passei pelas mulheres a abanar meu sinal de não. Às vezes saio para distribuir roupa e comida a quem aceite, mas não naquele dia. Não.
Grande padre Júlio que circula por lugares muito difíceis, munido da concha de sopa que é a espada dos justos. Mas eu não sei fazer um grão do que ele faz em regiões como a estação da Luz à noite, por exemplo. Estou na praça da República, mas já aqui, onde as coisas nem são tão ruins, vejo que, para essas mulheres, não se trata apenas da dificuldade em sobreviver. Elas vêm aqui para morrer. E isto é ainda mais difícil conseguir. Um processo custoso, lento.
As três que me procuraram em um intervalo de menos de dez minutos tinham idades variadas. Uma trans de vestido vermelho longo, grandes brincos de argolas, sorridente, não chegava aos 20 anos. Uma religiosa sem dentes, talvez aos 50, clamava “pelo amor de Jesus” dentro da estação do metrô. Uma noia desbocada e impaciente, quem sabe aos sofridos 30, agitava as mãos e abria os olhos em minha direção, na avenida Ipiranga, sem que eu pudesse entender o que dizia.
Muitas mulheres, cis ou trans, religiosas ou noias, já me imploraram ajuda antes, mas não tão cedo, ou não fora da hora de almoçar, como nessa segunda-feira. Sofriam demais. Achei que me procuravam com intensidade (a religiosa quase segurou meu braço) porque sou mais velha do que elas. Buscavam solidariedade na senhora de alpargatas, óculos escuros pretos e redondos, bolsa de mesmo formato e tecido africano, camiseta branca e calça pantacourt preta, gentil com os pobres, difícil para o mundo. Mas por que só mulheres atrás de mim?
O que sei: me viram desde longe, caminhando, e me surpreenderam com sua aproximação. E isto me lembrou eu mesma quando detecto um personagem à distância e chego arriscadamente mais perto dele para fotografá-lo e ao seu entorno. De certo modo, me escolheram por meu jeito de me movimentar e vestir. Fui um palpite.
Não quero comparar meu modo de tirar fotografias ao delas quando esmolam. O que quero dizer é que compartilhamos a atmosfera da cidade, razão pela qual usamos estratégias algo parecidas de aproximação.
Hoje sou uma pessoa um tanto isolada, por entender que não triunfei na maioria das relações humanas, e não desejo, a partir de agora, me estender nelas mais do que o necessário. Prefiro a família próxima, os amigos antigos, meus livros, meus filmes, minha música, minha cozinha. Posso preferir. Tenho o que essas mulheres nem sonharam ter.
Contudo, nossa atitude em comum é não temer tanto assim o estranho, aquele desconhecido que será, para nós, o meio de alcançar um objetivo. Não sofro por morar no centro, não ainda. Gosto dessas pessoas. Unimo-nos por instantes tão breves. Somos um fluxo de intuições, incertezas e tentativas, o sol às nossas costas, até a hora do fim.