Mais que bala de revórver

Samba dos bons.

“Teu olhar mata mais do que bala de carabina, que veneno, estricnina, que peixeira de baiano. Teu olhar mata mais que atropelamento de automóver, mata mais que bala de revórver”.

E ironia das melhores.

A música é tocada alegremente no restaurante aglomerado da minha rua, em pleno setembro amarelo contra o suicídio.

Antes Lira que Fagner

Ailton Lira, um craque pra olhos admirados

Fagner cantando (mal) o hino na posse do Fux nem é uma morte horrível.

É mais como se o lobisomem sem dentes tivesse voltado para nos dar pena.

Tenho de confessar que gostava de Fagner na minha juventude, especialmente de sua interpretação para “Mucuripe” de Belchior e de sua apropriação descarada de um poema de Cecília Meireles (a família da poeta é um entrave à divulgação de sua obra magnífica).

Principalmente, fiquei feliz ao vê-lo num jogo do Santos contra o Ferrinho (Ferroviário do Ceará) a que compareci, e que saiu empatado em 1 a 1 em Fortaleza nem sei bem por quê.

Um show de Ailton Lira pros meus olhos admirados!

Fagner foi-se faz tempo, mas por onde andará o Lira, gente?

sem amor outra vez

então.

precisei comprar na padaria de novo e uma hipster adentrou a área da vitrine para olhar os produtos, desrespeitando a distância – muito próxima de mim, portanto.

reclamei de sua atitude e ela partiu pra perto de minha máscara.

lembrei-lhe que não encostasse, que não estava mais falando com ela e virei as costas.

parece que são paulo voltou a ser aquela mesma coisa sem amor de novo.

e eu… eu constatei mais uma vez que sou a rosane de sempre.

um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra infernizar o gado ruim.

tempos hodiernos

Saí para a rua hoje, depois de seis meses, e mal diferenciei as calçadas das pistas de automóveis.
As fotos não saíam.
Eu mesma mal andei.
É vertiginoso voltar à divisão do tempo.
Agora que vem a noite, vivo a amargura dos fins de domingo.
Só porque saí pra rua?
Só por isso.
Nas últimas várias semanas, não tenho emprego, só problemas.
E os resolvo trancada em casa, conforme aparecem, num compasso lento que é só meu.
Mas hoje rompi o fio.
Me meti no fluxo de todos, que continua intenso.
Gentes pobres, gentes ricas, todas sob o sol de quase setembro.
O que senti foi o tempo dividido segundo a produção maquinária.
Mal acreditei desenrolar-se lá longe, no Bacio di Latte, a festa do sorvete que só o fim de semana propicia…
Mas eu vinha livre disso!
Que se dane o lazer regrado!
Constato na pele o que incomoda os genocidas do poder, até mais do que nossa morte, que eles aliás anseiam.
Deve irritá-los nossa autonomia diante da corda onde nos enforcam e que denominam eixo.

Dance with me

Esta noite sonhei que Umberto Eco vinha dar entrevista a uns jornalistas num saguão.
Por acaso eu entrava no lugar e o Eco me acenava, como se me reconhecesse.
Eu decidia ficar ali, mesmo sem ter sido convidada.
E logo lhe dizia que admirava seu bom humor.
Ele começava a rir sem parar, sacudindo-se, feliz pelo que considerava meu acerto – o de notar seu bom humor.
Seu corpo era um corpanzil vestido com um terno branco de ombreiras, parecendo quadrado.
Estava tudo beleza, mas eu tinha muito a fazer e precisava ir embora.
Dizia-lhe tchau à distância.
Antes de passar pela porta, me alertavam que eu deveria recolher uns presentes para minha família pobre.
Eu recolhia e isto não tinha fim.
Eco então me dizia: “Deixa dessa história! Vem dançar comigo!”
Sorria, sacolejava.
E eu apesar disso sabia dançar junto dele, embora em minha vida verdadeira jamais soubesse.
Ficava surpresa comigo mesma.
Alegre.
Acabava a música, eu saía do lugar da entrevista, mas ao adentrar a rua logo percebia que esquecera a máscara.
E que ninguém ao meu redor usava nenhuma.
Pegava minha malha e punha em volta do rosto, como improviso.
Todos os outros pela calçada não davam a mínima.
Quando acordei, era como se ainda ouvisse a música do sonho, indefinida.

Jogo minhas tranças

estou abrigada, como e durmo bem, o quanto precisar.
sou uma privilegiada até mesmo entre as centenas de habitantes da minha rua, onde justamente agora, no meio da noite, alguns seres humanos caçam os outros, sempre aos gritos, pela calçada.
ouço tudo o que se passa, aqui do alto da torre.
e tenho bons ouvidos.
mas suspeito que não será só esse o barulho a chegar até mim.
depois de setembro tudo isto ficará muito pior.
sem auxílio emergencial, o resto de civilidade que as pessoas ainda exercem será difícil de manter.
hoje passei um dia improdutivo porque descobri ser privilegiada demais por ter um cartão de crédito, esse que uso para fazer as compras durante a pandemia.
e ninguém nunca mais vai deixar isso barato pra mim nem pra ninguém.
os cartões continuarão sendo clonados agressivamente para que os bandidos roubem… carros alugados na localiza, roupas e bonés no mercado da street wear.
estamos perdidos.
é por isso que me afundo nos livros e nos filmes.
suspeito que seria menos devoradora da arte se este país fosse mais feliz.

Um pouco mais distante dos outros

Me emocionei demais com o professor de bicicleta, sob a chuva, entregando as tarefas a seu aluno na periferia pernambucana (leia reportagem aqui). Nunca tive um professor assim.
Durante a infância morávamos no Bixiga, perto das malocas saudosas. Éramos periferia no centro. Estudávamos como bolsistas em um colégio pago porque o Caetano de Campos, a escola pública mais bem reputada da região, não nos aceitou.
Eu sentia uma grande solidariedade em relação aos meus vizinhos. Fiquei muito doente na infância, hepatite, catapora, sarampo, caxumba, rubéola, e faltava às aulas o tempo todo. No período de resguardo, quando eu já estava bem, os amigos vinham me ensinar as lições que eu havia perdido. Me lembro de seus rostinhos corados, de suas pastinhas com papéis. Me sentia viva no mundo, inteira e agradecida a eles.
E tentava fazer o mesmo, sempre, com quem faltava. Meus pais achavam até que era minha obrigação ir até a casa deles para lhes ensinar o que perderam. E eu ia procurá-los feliz.
Até que um dia bati na porta da casa de uma amiga que faltara alguns dias e ela me recebeu assim: “Legal você ter vindo, mas não veio aqui me passar as lições, veio?”
Meu mundo caiu de verdade. Suspeito que pela primeira vez. Tudo em que eu e meus pais acreditávamos era uma balela pra minha amiga. Uma chateação, um motivo de vergonha.
Isto me distanciou um pouco mais dos outros. Soube que seria sozinha nessa vida, sozinha com o que aprendera. E quando vi o lindo professor sob a chuva, foi primeiro nisso que pensei.

A paixão que não se encerra

Henry Fonda em “Vive-se só uma vez”, de Fritz Lang, 1937

O vizinho de cima vive em festa.

Uma gente falante, que nem conheço, aos gritos pra se fazer entender, como um caminhão do MBL na paulista aberta. Gente de salto alto à noite e que me acorda com reforma intensa no sábado de manhã.

Lá fora, a rua vai enlouquecendo aos poucos.

Alguns gritos de mulheres contra os que parecem ser policiais.

Um som muito alto que, depois de um tempo, passa, como se tivesse sido instalado dentro de um carro em movimento.

Estou sozinha na sala, e os mosquitos começam a pegar minhas mãos.

Mas o filme que escolhi foi maravilhoso.
De Fritz Lang, com Henry Fonda.
E Sylvia Sidney, principalmente.
“Fúria”?
Não.
“Vive-se uma só vez”.
Cada plano, um estudo de fotografia, expressão, geometria, luz.
Enquanto rola a ação.
Fazer cinema policial-dramático nos EUA com tudo o que ele sabia!
Tão grandioso.
E planos muito diferentes uns dos outros.
O mundo engradado, como esta gaiola onde vivemos.

O dia foi bom por um lado.
Mais triste que bom.
Dizem que a única paixão que não se perde é a intelectual.
Bem, espero que me dure os anos todos.

Amores de outras nuvens

Noto que todo o mundo pandêmico voltou a uma espécie de condução rotineira, e que os viventes lá fora aprofundam-se em dois comportamentos. Ou se adaptam bem aos cuidados higiênicos contra o vírus ou infelizmente suicidam-se, daquele jeito rápido-lento, ao ignorá-los. Mas todos produzem. Até os que no início achavam importante parar, nem cobrar-se durante este período, produzem incessantemente agora.

Eu também produzo. Mas não incessantemente. Não concretizo de modo tão fácil o que ando pensando. Porque sou lenta. Naturalmente. Me traduzo num reflexo. Sou de gastar tempo com a risada, de modo a que ela me cure da vontade de parar tudo, de desistir.

Hoje pude testemunhar o sorriso de Hannah Arendt na entrevista que o perfil do Instagram @hannaharendtbr legendou em português (https://m.youtube.com/watch?v=PG8BYwv9IBQ&feature=youtu.be). Tão linda! Senti uma paz imensa ao saber que ela o advogava. E que foi até mesmo perseguida por sorrir. Aquela certeza de que três minutos antes da morte ainda daria sua risada…

Então, no meu caso, antes de recomeçar de algum ponto perdido, sempre preciso ouvir o que diz meu oráculo da alegria. Meu coração intuitivo. Ou qualquer produção se fará errada, corrigível. E precisarei voltar ao início.

Tudo em minha vida precisei fazer minimamente alegre. O jornalismo, por exemplo. Me lembro que era redatora da Folha quando um repórter que se considerava importante veio até minha mesa perguntar, inconformado: “Do que você tanto ri? E pra quê?” Minha alegria o impedia que advogasse sua sisudez, sinônimo aquiescido de seriedade profissional. Continuei rindo depois disso. Até por pena.

Pedalo por pedalar, vivo pelo gosto de viver, estudo porque preciso… Imagine rir escrevendo o doutorado, se é possível! Imagine, além disso, estudar humor!

Não sei o que esta quarentena terá feito de mim ao final, além de mais gorda uns cinco ou seis quilos, com a liberdade grisalha testada e adquirida em minha cabeça. Mas suspeito que não sairei tão triste desta experiência, se tiver a sorte imensa de sair.

Meu filho tem me achado bonita. Diz que não se lembrava dos meus cabelos compridos. Tenho vontade de presenteá-los a ele, aos meus, à família e aos amigos da arte (vocês sabem quem são). Sem essa gente de outras nuvens, o meu mundo, sempre tão voltado para dentro, antes mesmo de o isolamento forçado acontecer, jamais seria feliz como tem sido.

Obrigada sempre.