O conto das três joias perdidas

Na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, um árido brilhante sobre a opressão aos palestinos

Yussef e Aida: por ela, com ela

O filme “O conto das três joias perdidas”, que Michel Khleifi, cineasta nascido em Nazaré, Israel, apresentou ao mundo em 1995 (restaurado agora e presente na 48ª Mostra), é uma fábula sobre o confinamento realizada no formato de uma aventura infantil. O menino Yussef, vivido por Mohammed Nahnal – ele não fez carreira no cinema, assim como as outras crianças do filme -, sai do campo de refugiados onde mora em busca de aventurar-se nas Américas, onde estariam as referidas joias perdidas. Yussef acredita que consegui-las o fará casar-se com a linda menina cigana Aida (Hana’ Nc’mch), por quem se apaixona. E o colega de escola Salah (Ghassan Abu Libda), rico por morar numa casa em Gaza junto ao pai, que vende laranjas ao exterior, irá ajudá-lo no que puder, embora passaporte e dinheiro, todos sabem, Yussef jamais poderá ter.

Ao centro, Salah, o menino rico que os ajuda a sonhar

No filme, a aridez é permanente, e a cor vermelha se faz presente nos bordados das lindas roupas femininas dos pobres tanto quanto no sangue dos combatentes palestinos. Eles são homens jovens escondidos entre as árvores, armados de rifles de assalto e perseguidos nas ruas de Gaza até que israelenses decidam metralhá-los, em sequências onde a câmera na mão chega bem perto. Sim, você verá as ruas de Gaza quando elas ainda existiam, mesmo já envoltas em terror. Pela cidade os vendedores de shawarma lutam por conseguir comerciar, os carros velhos andam apertados em um trânsito louco sem sinais, o exército ameaça o cotidiano e a força da ONU não ajuda em nada.

O roteiro escrito pelo diretor parte do pressuposto que os israelenses são mesmo assassinos, sem discussão possível. Eles roubaram não somente a terra, mas o mar, inalcançável depois desse roubo, e a paz, o presente, aquele futuro intuído como inexistente (e se os palestinos correm, fiéis a sua origem ao usar no pescoço os pingentes onde se estampa sua bandeira, é para viver apenas um pouco mais, como uma galinha ou um coelho fariam por instinto).

O verde e a névoa de areia e poeira

A narrativa é envolta em cascalho, poeira, areia. Sentimos que ela nos penetra. Yussef caça passarinhos para vendê-los porque seu pai foi preso pelos israelenses e a mãe não pode resolver o problema financeiro da família sem ajuda. A mãe sempre lhe sorri e acolhe, sua irmã até desejaria tirar o hijab para ser ainda mais bonita, mas tudo isso é um suspiro que não pode se transformar em coisa maior ou melhor. 

O mapa do tesouro, em centímetros

As gaiolas para os passarinhos perpassam o filme, a evocar o confinamento em profundidade e multiplicação dos palestinos. E não é que eles deixem de engaiolar metaforicamente os outros: há um grande distúrbio em ser como os homossexuais ou os ciganos… São presos os pássaros, são presos os homens. 

Tempo, espaço, carne: o sentido
das três joias de sangue

Como viver assim em família, todos os dias, sem esperança? Eles simplesmente decidem que seus dias serão encantados pela culinária quase ritual, percebida com as mãos, e pelas histórias, contadas continuamente pela mãe e pelo tio cego. O clima onírico é constante e a utopia, retrô: todo sonho está no passado, quando ainda se podia andar livre pelas ruas e tomar banhos de mar. O futuro mora mesmo nas três joias reveladas: o tempo, o espaço e a carne, que se anulam mutuamente em busca da eternidade.

O diretor Michel Khleifi

Sessão no Cinesystem Frei Caneca 4 (21h30 do dia 25)

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