Visto-me de vermelho e roxo, coloco o adesivo “Boulos 50, Machistas não Passarão” e ando tranquila pelos noias miseráveis sob o viaduto, até minha zona eleitoral e literal. Um homem de 50 anos, que se parece com um garçom, me diz: “Força aí”. Outro de mesma faixa etária, com cara de quem lê, exclama ao passar bem perto, quando eu nem o havia notado: “É isso!”
Chego confiante à seção, que está completamente vazia, sem filas. Os mesários parecem felizes ao me ver paramentada. Pergunto-lhes se esse é o nível de comparecimento até agora. Ele diz encabulado “não sei como está la fora” e ela, sorrindo: “Parece que hoje eles estão com preguicinha”.
Me dá uma tristeza lembrar que estamos tão fudidos. Como assim, preguiça? Andei cinco mil passos pra votar. Tô ansiosa de não dormir ao pensar que O Amigo da Onça prepara um coronel para ocupar a secretaria de Educação e agradar ao Minto. Como assim, preguicinha, com estas ruas imundas e essa gente do corote falando sozinha?
Volto pra casa em longo caminho e um homem de uns 60 me para, perguntando se votei direito. Sim, votei direito, meu querido. Me pede dinheiro pra comer, não tenho, dou-lhe barra de chocolate. “Ah, chocolate, ainda bem que não é do seu chiclete. Sugiro que a senhora não chupe, porque isso engana seu estômago, o ácido úrico pensa que a senhora está digerindo e fura seu estômago causando úlcera ou coisa pior, gastrite ou morte…” Eu mereço: “Úrico, meu querido? Não será clorídrico? Só faltava isso na minha vida, morrer de chiclete.” E ele: “Ah é, clorídrico! Mas, olha, a senhora tá parecida com a Marta Suplicy!”
Eu mereço, né? Úlcera, gastrite ou morte?