Morra

O pior de tudo, no caso da negativa de gratuidade da passagem àqueles entre 60 e 65 anos, é que prejudicar o pobre nesse quesito sempre se faz assim, no fim do ano e entre as festas, quando todos têm os olhos voltados para outra coisa. Nem originais são, porque assim agiram os prefeitos/governadores em conluios anteriores.

E não se vai reclamar por isso agora, nem pelo aumento de 46 por cento nos salários dos executivos, com a covid à porta.

Eu tinha aqui guardada uma foto em que um sem-teto está diante de uma parede próxima da prefeitura com a inscrição “morra Bruno Covas”.

E não usei.

Oração

Há nove meses desvisto as roupas que tenho, senhor.

A cada dia mais distante de mim, daquilo que conheço e entristeço, vejo que a liberdade não é azul nem vermelha, a liberdade é pequena.

E nem os sapatos me servem mais.

Só os vestidos, largos e raros, movem-se para me esconder.

Há nove meses deixo que meus cabelos cresçam e dupliquem suas pontas.

É o melhor que tenho feito para multiplicar as coisas.

Olho pelas janelas sujas onde os reflexos fazem poesia.

Um deserto para os sonhos que tive, e não procuro o futuro.

Jamais soube obedecer.

A cada dia mais ocupada em aprender o que já vi, o que já sei e o que pisou em mim, sigo voltada para dentro do que sou, e amém.

pequena dúvida

sonhei que me mandaram fazer uma matéria no shopping onde uns artistas se apresentavam.

queriam seus perfis.

contudo, eu não identificava artistas entre as figuras com quem cruzava. muitas mulheres falavam alto, para um grande público, mas eu não entendia o que diziam, se eram artistas ou não, e passava adiante.

então comecei a conversar com a moça que engraxava sapatos sorrindo.

tirei fotos dela, acompanhei-a até encontrar seu filho e saí do shopping em dúvida.

“fiz a matéria ou não fiz?”

Na hora de dormir

A gente luta pra dormir sem livro e não consegue. Então a gente pega um livro de histórias curtas pra ver se o sono embala rápido essa nossa cabeça culpada e doída, na velocidade da historieta.

Toda noite isso.

E nada acontece.

O tempo não existe na literatura. E as imagens são poderosas mesmo se longas ou pequenas. Não adianta usar a literatura pra nada, porque, usada, ela nos rejeita.

Mas isto de ler novelas de Proust na cama na hora de dormir funciona às vezes pra mim, sim. Assim como as novelas e os cachorrinhos nos contos de Tchecov. Bulgakov, que ousei comprar na feira do livro, vai ser interessante absorver no que tem de riso, tristeza e potencial sonífero.

Hoje foi a vez de Conceição Evaristo e seus Olhos d’Água. A passagem do tempo, a profundidade do rio, a cor dos olhos de minha mãe, o espelho que vem a ser nosso inconsciente, a fome, a mulher, quem é a mulher, quem são suas filhas.

Não me ajudou a dormir.

Acho até que não dormirei nunca mais.

o uol pisou na bola

trabalhei na folha com thais oyama quando ela começava como repórter e eu, como redatora.

escrevia bem e rápido e os homens a amavam. o glauco cartunista, por exemplo.

não era minha amiga. mal nos cumprimentávamos. mas estava na cara que se destacaria na carreira.

acho que a veja fez a cabeça dessa mulher. e dela extraiu para sempre um lado obscuro, como acontece a muitos jornalistas de passagem por lá.

isto nada tem a ver com o debate no uol no qual ela fez papelão. no fundo, era o papel exigido dela como jornalista de linha golpista burguesa brasileira.

acho que foi o uol quem pisou na bola. não tem de correr segundos como fez. nenhum anunciante está na grade exigindo a hora de aparecer. deixa o povo falar, gente. é importante para o eleitor. e com bom senso tudo se consegue.

Máscara, o style de um povo

Ontem na votação vi pela rua mais gente usando máscara do que nos últimos tempos. Porém, um uso irregular. Parece que em alguns momentos a máscara se torna uma obrigação de estilo, tendência de verão, até pertencimento. Um acessório pendurado pela orelha, como um brinco. Ou fixada no queixo, como barba. Depende de quem a veste – que nem são todos – e algum sinal de personalidade, individual ou de grupo, é expresso.

Tive um colega de redação que reclamava do brasileiro: “Um povo que não sabe nem atravessar a rua”. Desconfio que ainda não saibamos. Mas é isso mesmo, a deseducação, a impaciência, a desesperança, a incredulidade no que é o estudo, o que nos torna esse povo eriçado, à flor da pele, constantemente. Pro mal, como no caso de espelhar-se nos judas da política. Pro bem, quando humoriza no cotidiano, visando à crítica de todos e tudo, tornando-se, assim, um verdadeiro “povo” indivisível, com quem nem mesmo o mal pode contar.

Globo News and the snakes

Meu filho decidiu que era hora de ligar a tevê no mute pra ver a apuração dos resultados pela Globonews.

(Uma insanidade de quem gosta de assistir ao programa do Neto, fazer o quê).

E saiu.

E me deixou sozinha na sala com essa turma de jornalistas peçonhentas agora felizmente separadas por bancadas covid.

Não ouço nada do que dizem, mas descubro pelas infos ao estilo de restaurante prato-feito o que eu já sabia, que terei de andar a Brigadeiro inteira no segundo turno só pra votar no Celtinha.

A tevê a cabo é meu paraíso.

Fico imaginando a Saadi no ponto detestando o mundo, maltratando o cabeleireiro, praguejando contra a Christiane Pelajio, a Khloé gordinha dessas Kardashians do Leblon, e me encho de alegria…

Minha mente ficcional é minha única companheira.

E a Globonews, um serpentário, migues!

Mas tá faltando alguém mais na bancada covid.

Que tartaruga murcha é essa mexendo o bocão no cativeiro do Butantã?

Gabeira, please no.

Na janela da sala dele tem rede de proteção! Aposto que contra si mesmo!

Ai, meu deus, só deixo a Globonews agora, diretamente do holoceno, pela Karen Walker do Will & Grace.

Na Mongólia, o ouro que cava desertos

“As Veias do Mundo”, na seleção da Mostra Internacional, apresenta as contradições da resistência ao garimpo predador em um país que perdeu 300 lagos e 300 de seus rios

O resistente Erdene (Yalalt Namsrai) e seu filho Amra (Bat-Ireedui Batmunkh)

A mais ativa usina de ouro do mundo está situada na Mongólia, onde cerca de trezentos lagos e trezentos rios secaram por conta da mineração sem controle dos últimos anos. Neste país em que a densidade populacional é tão baixa, menos de dois habitantes por quilômetro quadrado, as esperanças são igualmente desérticas sobre o que vive, incluídos nesta última categoria, os seres humanos.

Um desejo resistente de conservar o que restou

Expulsos pela ação do garimpo, os mongóis se dirigem cada vez mais às áreas urbanas, especialmente à capital Ulan Bator, não só para sobreviver, mas também para realizar seus sonhos como artistas, às vezes expressos por ilusões globais como a franquia do programa de calouros “Mongolia’s got talent”. 

A venda de queijo no caminho para a escola

Assim é que Amra (interpretado por Bat-Ireedui Batmunkh), menino de 11 anos filho de um camponês resistente à cessão da terra aos especuladores, e cuja família vive do pastoreio na estepe, vendendo queijo nos arredores, é levado pelo próprio pai a se candidatar ao sucesso como cantor neste “As veias do mundo”. Um fato grave se interpõe a seu objetivo e ele de repente o menino estará mudado, experimentando precocemente o lado que o oprime. 

A mãe de Amra, Zaya (Enerel Tumen), e a filha Altaa (Algirchamin Baatarsuren) no pastoreio

O filme da diretora Byambasuren Davaa, nascida em Ulan Bator em 1971, esquematiza a desesperança. Seus planos de paisagem natural e humana são exuberantes, e os atores, especialmente os infantis, veem-se conduzidos de modo a intensificar o encanto da história. Tudo neles é expresso pelo rosto ardente e gentil, a dor, o riso, a determinação, a inocência e sua perda. Talvez as sequências fossem mais fortes se se demorassem um pouco em suas qualidades, mas esta cineasta é ágil para o corte, porque se move pelo princípio da ação.

A diretora de “As Veias do Mundo”, Byambasuren Davaa

“As Veias do Mundo” é a obra essencial desta artista que atuou como assistente de direção na televisão pública mongol e estudou na Escola de Cinema de Munique (HFF). Seu primeiro longa-metragem, “Camelos Também Choram” (2003), foi exibido na 28ª Mostra Internacional, indicado ao Oscar de melhor documentário daquele ano. A cineasta também dirigiu “The Cave of the Yellow Dog” (2005) e o documentário “The Two Horses of Genghis Khan” (2009).

Na revolta de Amra, a expressão da resistência

AS VEIAS DO MUNDO

Dir.: Byambasuren Davaa

Alemanha, Mongólia

2020   

96 min

https://mostraplay.mostra.org/film/as-veias-do-mundo/

Chineses, reclamar por quê?

O artista plástico Ai Weiwei precisa voltar ao Brasil urgentemente para compreender por que seu filme sobre a pandemia nos parece estranho em muitos momentos. A China errou, e muito, ao ignorar o potencial do vírus no início, mas nunca esteve nos planos do governo matar deliberadamente seus cidadãos contaminados

Nos hospitais, os incansáveis procedimentos de urgência

De 1 de dezembro do ano passado, quando o primeiro caso foi detectado, até o estabelecimento do lockdown na China, em 23 de janeiro de 2020, um grande silêncio foi imposto aos habitantes do país sobre o potencial letal da Covid-19. Este parece ser um dos lamentos centrais do artista plástico Ai Weiwei, que dirigiu remotamente o documentário “Coronation”, exibido até o dia 5 de novembro durante a 44 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ao organizar imagens aéreas e terrenas de Wuhan, a cidade por onde a contaminação primeiro e rapidamente se espraiou.

A polícia controla os papeis de quem se dirige à cidade que é foco de contaminação



Médicos, enfermeiros, trabalhadores de construção, doentes e seus familiares foram registrados por meio de câmeras e celulares particulares para que ocorrências relacionadas ao estouro da pandemia se vissem exibidas em ritmo cinematográfico, de modo a “coroar” os verdadeiros responsáveis pelos erros que resultaram na contaminação acelerada e transformaram a China, inicialmente, na nação do coronavírus, esta a que o diretor alude ironicamente no título do filme como “coronation”.

Para Weiwei, que reflete enquanto expõe, errado é um sistema político que prende seus habitantes à burocracia controladora de suas vidas, ignorando dores e necessidades particulares, como aquelas envolvidas na luta pela sobrevivência dos doentes. Parentes que não podem dispor facilmente das cinzas de seus mortos, por razões não esclarecidas, e que acabam por queimar seus restos em plena rua, nas sequências finais do filme, são expostos em sua impotência diante da morte evitável. Há humor quando uma idosa servidora do partido reflete sobre a grandeza da união em prol do bem comum no país: ela saberá que a cúpula chinesa mente aos seus cidadãos?

A idosa servidora do partido e seu filho, em uma sequência com elementos de humor:
ela sabe que a cúpula chinesa omite informações a seus cidadãos?

O brasileiro que vê este filme deve se preparar para o sofrimento dobrado. Toda a lamentação chinesa lhe parecerá estranha, desde aquela dos pacientes curados, a quem foi imposto o confinamento sem diagnóstico contundente final. Por que reclamar, se se salvaram?

A vestimenta sem erro e a rigorosa esterilização dos funcionários nos hospitais

Depois de um grande tropeço de avaliação inicial, nada parece errado no que a China faz para curar seu povo e impedir que a contaminação ande além. Todos os que partem de locais contaminados ou a ele se dirigem são rigorosamente inspecionados. Há medidores de temperatura nos locais públicos, incluindo transportes. Depois de certa altura, se sair à rua sem cuidados, e quando não recomendado, um chinês será obrigado a pagar pelo tratamento, que durante a pandemia foi gratuito. Nenhum médico está sozinho na hora de se higienizar: dentro dos hospitais, uma câmera rastreia seus procedimentos e alguém, ao observar a cena por monitores, avisa ao profissional se não limpou direito seus sapatos.

Drones medem a amplitude de um país continental

Não é um filme sobre particularidades, antes sobre contextos. Weiwei preza a observação extensa, continuada, incansável e irônica de seus personagens em linha de montagem, que podem, por exemplo, estar sujeitos a um juramento de fidelidade ao Partido Comunista quando isto nem de longe seria o esperado em pleno estouro de uma crise sanitária.

Ai Weiwei: em “Coronation”, os olhos abertos para as grandes dimensões

Vivenciamos as dimensões continentais do país no seu cotidiano. Um médico anda por vários minutos por entre labirínticos corredores até alcançar seu local de trabalho num hospital em que tudo, desde a vestimenta de proteção, funciona a contento e com cuidado. Câmeras em drones demonstram a imensa malha de trilhos e estradas que fazem daquele um vasto território acordado para o mundo em todas as horas da noite e do dia.


Por que reclamar da China, se somos brasileiros nas mãos de genocidas?

Weiwei, volte ao Brasil, e rápido.

O fechamento de uma urna funerária diante dos parentes dos mortos, que ficam de costas

Coronation (Coronation)

Dir. Ai Weiwei

China

115 min

2020

https://44.mostra.org/filmes/coronation