Dance with me

Esta noite sonhei que Umberto Eco vinha dar entrevista a uns jornalistas num saguão.
Por acaso eu entrava no lugar e o Eco me acenava, como se me reconhecesse.
Eu decidia ficar ali, mesmo sem ter sido convidada.
E logo lhe dizia que admirava seu bom humor.
Ele começava a rir sem parar, sacudindo-se, feliz pelo que considerava meu acerto – o de notar seu bom humor.
Seu corpo era um corpanzil vestido com um terno branco de ombreiras, parecendo quadrado.
Estava tudo beleza, mas eu tinha muito a fazer e precisava ir embora.
Dizia-lhe tchau à distância.
Antes de passar pela porta, me alertavam que eu deveria recolher uns presentes para minha família pobre.
Eu recolhia e isto não tinha fim.
Eco então me dizia: “Deixa dessa história! Vem dançar comigo!”
Sorria, sacolejava.
E eu apesar disso sabia dançar junto dele, embora em minha vida verdadeira jamais soubesse.
Ficava surpresa comigo mesma.
Alegre.
Acabava a música, eu saía do lugar da entrevista, mas ao adentrar a rua logo percebia que esquecera a máscara.
E que ninguém ao meu redor usava nenhuma.
Pegava minha malha e punha em volta do rosto, como improviso.
Todos os outros pela calçada não davam a mínima.
Quando acordei, era como se ainda ouvisse a música do sonho, indefinida.

A cinemateca, sozinha nesta noite

não paro de pensar que a esta hora a cinemateca está solitária à espera de que a milícia bolsomínica a depaupere numa noite de facas, fogo ou cristais.

há não somente filmes brasileiros de todos os tempos ali. há raridades de todo o cinema mundial, desde as silenciosas.

uma biblioteca riquíssima, que, pequeno detalhe pessoal, contém dois livros que escrevi.

como vai ser?

vão transformar aquele maravilhoso prédio no matadouro que era antes?

Na vigência pandemente

Acabo de comentar com uns amigos daqui como rio e choro o tempo todo durante a vigência pandemente de meu país, como tudo fotografo (embora isto faça sempre), e como tudo quero ser, o presente, o passado, e como vejo um futuro, quem sabe, engordando (sem ser triste) a cada dia, e como tudo quero amar. Há quem não me entenda, quem não me veja, nem agora, nem antes, muito menos na imagem do que será, não importa, não os vejo nem entendo tampouco, eu que vivo ao lado deles. Perdoem a enxurrada de fotos, de auto-imagens, de desconcertos neste fluxo demonstrativo de nossas vidas que eram uma antes e agora são outras. Perdoem-me a ausência de outros rostos, perdoem que seja o meu. É um processo de cura e entendimento, quem sabe, e espero que o aceitem os que me têm amizade, talvez só eles, viva eles!, e que tudo viva em nós.

Live and let die

pelo curto período de tempo em que minhas amizades mostram seus filmes, seus desenhos, seus vídeos, suas fotos, seus poemas, críticas, receitas, seus cantos, seus lamentos, suas costuras, filosofias, suas aulas e suas histórias e seus loucos experimentos, eu me esqueço desse mundo de porcaria em que nos colocaram profundamente e existo numa plenitude como nunca antes nestes últimos quatro anos, viva na pele de uns outros personagens que não eu, livres por completo desse ressequimento.

façam suas lives!

isto também é viver!

e um dia vou me atrever à minha (com algum photoshop, que só assim pra esta face se atrever.)

Para Migliaccio

Ofereço a Flavio Migliaccio, cujo bilhete de despedida, assim como sua vida, agora incluo em minha memória literária:

“I have had my invitation to this world’s festival,
and thus my life has been blessed.

My eyes have seen and my ears have heard.

It was my part at this feast to play upon my instrument, and I have done all I could.”

Tagore

As cartas suicidas não são ridículas

Amo vocês, saibam.

Mas não aguento mais sua discussão sobre publicar ou não a carta de Migliaccio, que certamente a fez pra ser lida como um último ato.

No dia em que a imprensa parar de publicar as ofensas de Bolsonaro e seus encontros sorridentes com notórios torturadores;

no dia em que os jornais se negarem a espetacularizar os massacres nas favelas, o heroísmo dos tropas de elite sumindo com amarildos, no dia em que pararem de dar cartaz para os fuzilamentos na escola do Realengo;

no dia em que a imprensa deixar de noticiar os fogos que destroem as creches municipais onde morrem as crianças sufocadas depois do soninho da tarde;

no dia em que se esquecerem que uma mãe no Paraná, há 25 anos, entregou o filho ao sacrifício ritual de uma seita de falsos macumbeiros;

nesse dia em que, espero, o capitalismo esteja morto e enterrado, juro que defenderei o dever sagrado de silenciar o Migliaccio e sua dor.

Por enquanto, eu a difundo e ainda publico aqui uma carta de outro suicida, entre tantos e tantos da história cujos bilhetes finais dariam um livro pro Rogerio de Campos publicar.

Eis a carta que o poeta Vladimir Maiakovski nos deixou:

“A todos

Ninguém é culpado da minha morte e, por favor, nada de fofocas. Ao defunto não lhes gostava.

Mãe, irmãs e camaradas, sinto muito, este não é o caminho – não recomendo a ninguém – mas não tenho outra saída.

Lília, ama-me.

Camarada governo: minha família é Lília Brik, minha mãe, minhas irmãs e Veronika Vitodóvna Polánskaia. Se lhes fazes a vida suportável, obrigado.

Os poemas inacabados dá-los aos Brik. Eles os decifrarão.

Como se costuma dizer:

“Acabou-se”,

o barco do amor

se arrebentou contra a vida cotidiana.

Estou em paz com a vida, não vale a pena recordar

sofrimentos,

desgraças

e mútuas ofensas.

Sejam felizes.

Vladimir Maiakovski, 12-4-1930

Amigos do VAPP não penseis que sou frágil. De verdade, não podíeis me ajudar. Cumprimentos.

Dizer a Yermilov que me arrependo de haver tirado a nota, era necessário haver lutado até o final. VM

Sobre a mesa há 2.000 rublos, para pagar os impostos.

O resto cobrar ao Giz.

Não vejo problema em publicar as cartas dos suicidas. Nem em noticiar os suicídios. A divulgação dos suicídios torna as pessoas suicidas? Então a divulgação de tiroteios em massa e dos crimes cotidianos, também.

No caso do Migliaccio, me parece claro que ele escreveu pra ser ouvido.
E gosto de tê-lo ouvido. Gosto de saber de sua inteligência até no ato final. Me consolaria se Mario Monicelli, o diretor italiano, nos tivesse esclarecido por que pulou do quinto andar de um hospital mal se viu informado sobre um câncer de próstata. Parece óbvia a razão, mas gostaria de conhecê-la, por me importar com ele e seu legado, por ser uma pesquisadora de seu trabalho.

Agora, a publicação de qualquer coisa relativa ao morto deve ser autorizada pela família, ou não ser feita. No caso do Migliaccio, seu filho informou hoje que a polícia transmitiu as imagens da casa sem autorização. E que vai processar o Estado, o que me parece perfeito, por intromissão indevida.

Mas pelo jeito a carta foi autorizada pela família, sim.

Enrouquecendo

Minha quarentena (às vezes involuntariamente interrompida) está pra lá de interessante.
Filmes, conversas inspiradoras pelo insta, face, WhatsApp.
Livros, fotos…
E até me esqueço da hora do panelaço.
Isto porque, aqui no centro, nem preciso me lembrar dele.
É tanto grito e buzina às 20h que lá vou eu pra janela…
Hoje foi especialmente lindo.
Estou enrouquecendo, migues.
Isto mesmo.
Ficando rouca.
Porque louca sou gradualmente pelos anos, até a batalha final.

o capacete da noiva do führer

sonhei com a regina duarte.
(creio que o sonho foi motivado por um story elogioso de parente à figura).
durante o sonho, brigávamos feio, gritos dela contra os meus, cada vez mais altos, porque eu não aceitava que ela usasse fotos de minha família para fazer propaganda de suas ações, como vinha ocorrendo em rede nacional.
enquanto discutíamos, o cabelo da mulher crescia e eriçava, até formar uma espécie de capacete que diminuía sua cabeça.
acordei com os dentes rangendo.
só isso mesmo.