Nenhuma a menos

De 19 de outubro de 2016

Adoro Buenos Aires. Mas preciso dizer. Que decepção quando viajei para lá a primeira vez, há um quarto de século. Sozinha. Somente Salvador se equiparava então, por minha experiência, em machismo praticado contra uma turista solitária.

Estranhei o quarto de hotel onde me colocaram. Fiquei no segundo subsolo, a janela diante da parede. Reclamei, nada foi feito. Prossegui. No meu andar se hospedavam duas brasileiras em um quarto. Demorou três dias até eu perceber que se esquivavam de meus cumprimentos. Recebiam uns tipos à noite.

Fui almoçar em um restaurante na avenida Nove de Julho. Na hora de pagar a conta, me disse o garçom, loiro de olhos azuis: “Saio às quatro, me espere na rua X”. Fiquei assombrada. Achava que só no Brasil, como acontecera na Bahia antes, eu seria chamada às vias de fato por estar sozinha em uma mesa: “Por que tá dando uma de difícil comigo, porra?” – perguntou o sujeito que se sentou na cadeira em frente à minha, no Zanzibar, sem permissão.

Não estranho, infelizmente, o feminicídio na Argentina.

E aproveito para dizer: nenhuma a menos.

Meninos mimados não governam o Brasil!

Esta é Alessandra Leão durante o lindo show de lançamento do seu disco “Macumbas e Catimbós”, sábado, 24 de agosto, no Auditório Ibirapuera.

ATENÇÃO para o que ela diz, maravilhosamente:

https://www.facebook.com/rosane.pavam/videos/2439333719516979/

“Salve a força, a fé, e o vigor e a coragem!

E a resistência!

E a resistência do povo indígena nesse Brasil.

Salve a força da floresta que está há tanto tempo de pé, e que vai continuar de pé, se a gente assim deixar, se a gente assim brigar pra que ela continue de pé, e não queimando desse jeito.

Que cada árvore que caia doa em cada um de nós.

Que cada índio que morra doa em cada um de nós.

Que cada negro que morra doa em cada um de nós.

Que cada gay, cada lésbica, cada trans que morra doa em cada um de nós.

Que a gente tenha o direito de existir e ser o que deseja ser.

Ninguém está aqui para abaixar a cabeça, ninguém está aqui para dar o lombo pra apanhar mais.

E a gente vai ficar de pé.

Porque meninos mimados não governam a nação.

Meninos mimados não governam nada!

Viva o Brasil!

Viva esse Brasil aqui.

É esse!

Viva os índios, viva os negros, viva os gays, viva as lésbicas, viva as trans, os trans!

Viva o povo brasileiro, viva o respeito, viva o povo de santo, que a gente vai ficar de pé até o fim.

E a gente briga cantando, dançando.

O corpo espanta a miséria, meu povo, é festa!

É disso que eles têm medo, e que a gente faz.

A gente briga e a gente celebra.

A gente dança.

A gente canta.

A gente goza a vida.

E é isso que dói, a gente estar de pé.”

Memories can’t wait

Digressão.

Do caos às lembranças.

Memories can’t wait, cantavam os Talking Heads…

Pois bem.

Muito saudável, Barbara Eden faz 88 anos hoje.

A atriz protagonizou a série Jeannie é um Gênio, que eu amava absolutamente.

Era propaganda americana, mas também humor físico encenado por ótimos comediantes.

E tinha motivação sensual liberadora para uma menina católica sob o furacão ditatorial.

Parabéns, Barbara!

Eu nunca soube de uma Barbie inspirada no seu personagem.

E, se soubesse, meus pais jamais teriam tido dinheiro para comprar o brinquedo.

(Nem pra Susie tinham!)

Mas semanas atrás deparei com este exemplar no centro e me perguntei:

Se 500 reais me sobrassem, transformaria esta boneca no meu rosebud?

Me respondi que não, sem saber por quê.

ilusão vitoriana

o fenacistocópio (“espectador ilusório”, em grego) foi inventado em 1829 por joseph plateau de modo a confirmar sua teoria sobre a persistência na retina.

o dispositivo consistia em uma sequência de imagens com posições ligeiramente diferentes entre si (inicialmente 16 delas, número adotado depois, no início do cinema) sobre uma placa circular lisa.

quando a placa girava diante de um espelho, criava a ilusão da imagem em movimento.

tornou-se um brinquedo amado e disputado pelas crianças da era vitoriana.

Nosso Marlon Brando pop viverá para sempre

Aqui, uma montagem com cenas de um seriado de televisão holandês de 1969, “Floris”, dirigido pelo inseparável Paul Verhoeven, em que Rutger Hauer, morto no último dia 19, aos 75 anos, interpreta um cavalheiro forçado ao exílio, embrenhado na floresta junto ao amigo aborígine.

Juntos os dois personagens tentam reaver a certidão de nascimento do herói, roubada por um nobre mau. Durante a procura, um fidalgo os ajuda, oferecendo-lhes abrigo em seu castelo.

O personagem ardiloso de Hauer em “Feitiço de Áquila”, e talvez também aquele em “Blade Runner”, deve ter nascido disto, desta sua compleição de conquistador, da máscara de príncipe-mendigo que carregava no rosto, do seu saber cavalgar, da improvisação de quem parecia conhecer de cor a vida nos baixos domínios.

Inteligência, independência, solidão, beleza.

Nosso Marlon Brando pop viverá para sempre.

se esmere, bozó

Bozó realmente se sente excitado com a atuação de conje, um ser bem mais político que ele, mas igualmente mau e analfabeto, como lhe convém.

está se vendo, ali no pacote, como a última bolacha. já disse que quem demarca terra indígena é ele, já disse que quem decide sobre armas é ele, já disse que quer dois pinos em lugar de três, que quer lula na cadeia até apodrecer.

acho que ele quer coisa demais. acho que dom pedro II quebrou a cara quando exigiu a cabeça de solano lopez, mesmo advertido por caxias. acho que a justiça, por sua duração no tempo (e não por determinados homens em um curto período específico), tarda mas não falta pra um bozó como esse.

CAN I GET AN AMEN UP IN HERE?!?

Na minha extensa vida pública praticamente extinta, fui sempre a louca pra melindrar alguém cujo apoio é importante.

Mas eu não tinha modos nem sabedoria de dublê de Beyoncé.

Por isso, claro, deu tudo errado na minha trajetória queer de subúrbio.

Hoje percorrendo o brechó do intercept me dei conta de que fracassei logo na categoria extravaganza do meu runway!

Ru Moro, desapontei você…

Que inveja dessas procuradoras da season 10 que ficam se exibindo no work room antes de desfilar o look pra Mama na apoteose da Globo!

Elas sim estão sempre garantidas nas gigs!

“Gostou do brinco do FHC que eu decidi combinar com esse vestido vermelho do LULA?”, pergunta a queen pra Mãe de Todas as Procuradoras, e ainda implora:

“Tô equilibrada na parcialidade???”

Mas a Ru Moro responde na lata, quase irritada porém sincera…

“VOCÊ DIZ ESSE PARZINHO DE 1996?!?”

Ela está certa! Mais que prescrito! Tão season 2 da Lava Race!! Esperavam mais de você!

Gente sortuda essa que tem Ru Moro pra julgar de verdade os acessórios de nossa vulnerabilidade! Ela é dura mas sabe faturar!

E como vai ser agora?

A Gabriela Hardt Visage que puseram no lugar dela vai lá dar conta de todo esse Snatch Game?!?

A House da Moro periga cair!!!

EVERYBOFE say love, pelo amor de deus!

Natureza sem precedentes

Nunca vi coisa parecida com o documentário Our Planet. O mais próximo em impacto que uma filmagem da natureza exerceu sobre mim foi A Crônica de Hellstrom, sobre insetos, que passou em cópia ruim no Cine Bijou dos anos 1970. Meus olhos de criança mal fecharam por dias.

Agora, em Our Planet, com David Attenborough na narração, não só as imagens são espetaculares e tornam todas as outras menores, tímidas, esmaecidas e insuficientes, como sua narrativa poderosa, construída com vagar e detalhe a cada segmento, abre a perspectiva de conhecimentos que imaginávamos impossíveis.

Descobrimos águias investindo contra suas irmãs, rituais em que os pássaros integram corpos de balé para atrair fêmeas, tragédias e perseveranças dos animais sobre a terra, no céu e sob a água. Sem a presença humana, exceto a de seus sinais de devastação, o documentário parte de um ponto de vista claro sobre a urgência de mudanças e nos convence de que há esperança de rápida reconstrução de habitats, caso sejamos firmes. Se você lutar pela Terra, espectador, ainda haverá chance!

Seis diretores com equipes em cada parte do globo trabalharam por quatro anos para obter imagens incríveis, até da vida animal e da floresta aos poucos reconstruída em Chernobil. Usaram câmeras em armadilhas, casebres, tendas, fizeram os drones nos mostrar animais espremidos nas praias depois de criminoso degelo.

As equipes passaram invernos rigorosos em tendas, vinte dias atrás de uma avalanche de gelo, entre outras tantas e tantas proezas, às vezes em busca de dois minutos imprescindíveis.

Em inesperadas situações-limite, acompanhamos emotivos o surpreendente suicídio de morsas, o seguro caminhar do tigre siberiano, a baleia azul com seu filhote na água, os orangotangos que sobem nos galhos e usam ferramentas para comer formigas, peixes que constroem fortalezas com conchas para atrair fêmeas – e peixes ladrões que roubam suas conchas para vencer as disputas…

Magnífico não dá a dimensão do que se vê.

E lá vou eu desistir da Netflix por causa de mecanismo? Ele que se mude. #netflixcancelmecanismo

vi gente mandando danares praquele lugar porque “analisou” desenho animado.

e pensei: olha nosso anti-intelectualismo outra vez.

não há problema em analisar desenho animado. os roteiros nascem de cabeças inseridas em seu tempo. analisar os produtos industriais é dever do intelectual. mas não gostamos de intelectuais.

o problema de danares é anterior a esse. ela só gira o pino em cima dessa sua bíblia de araque. não acumula repertório, não estuda.

aposto que se houvesse lido suficientemente, sem se submeter à corrupção evangélica braba, saberia fazer uma crítica.

ousadia ela tem.

mas falta cultura, filha.

e isenção, e amor ao próximo…

doris maior

me lembro de a crítica na minha adolescência ser tão pesada contra a doris day.

branca, virgem, cristã…

como se ela tivesse sido a única a representar certos valores nos filmes de uma hollywood sob censura até o início dos anos 1970…

comediante das melhores, cantora que podia dançar…

eu amava que hitchcock a tivesse entendido bem, estendendo sua atuação para o drama. e que ela tivesse feito “pillow talk”, entre outras comédias com rock hudson, para alegrar as minhas tardes.

e além de tudo doris foi amiga de hudson até o fim, sem ligar pra qualquer histeria do público e da imprensa de seu tempo em relação à aids que ele contraíra.

me lembro da perseguição que ele sofreu para declarar-se gay, e me lembro de um artigo de ruy castro defendendo a divulgação da informação como “relevante”.

doris day era maior.