um elogio à comédia

Vou contar a vocês o que ando gostando de ver.

Ando gostando de ver um certo tipo de comédia de insulto.

Tipo aquela que a Michelle Fox fez no jantar para os correspondentes na Casa Branca.

Ou aquela que Bianca Del Rio promove docemente no mundo das drag racers.

Insultar quem e o que merece ser insultado, sem medo dos afetos perdidos, com um humor corajoso e gentilmente ofensivo…

Só mulheres nessa, né? Ou quem escolha representar uma mulher…

Quem dera eu fosse a Michelle ou a Bianca para desancar as cândidas crenças no que um comentarista da Globo diz, puxando o saco de um outro comentarista poderoso, em busca de manter o próprio emprego de comentarista.

romária sorte

perdemos em 1982 certos de que tínhamos a seleção dos sonhos.

e quando ganhamos o título, em 1994, nosso futebol (sangue e criação) já parecia morto.

2002 não fez tanto assim para melhorar as coisas.

2014 piorou as coisas.

e 2018 é o nosso tanto faz, porque desde 1994 sabemos que ganhar é uma questão de bebeta, malandra, romária sorte.

mas hoje nem malandros podemos ser, certo?

só eles lá no topo do mundo podem…

a nós, resta jamais comemorar as mínimas vitórias e (principalmente)

aprender a sofrer.

Ressuscita, Martins Pena

Tem paquera e suco todas as noites para as mulheres de cabelo seco e os pançudos de camiseta verde que pedem intervenção diante da Fiesp.

Os diletantes têm algumas palavras de ordem campeãs:

“Intervenção, não queremos eleição”

“Intervenção pra salvar nossa nação”

“Fora três poderes”

Ontem conheci duas novas argumentações, ilustradas com cartazes.

1. Os males do Brasil nascem de um “governo político”.

(Porque “governo político” é igual a “comunismo soviético”.)

2. A palavra de ordem “fora três poderes” nasce da constituição.

(Porque “todo poder emana do povo” e eles são o povo, ao contrário dos três poderes.)

Será que devo cutucá-los pra saber o que estão achando da Copa?

Devo, mas desconfio que não vou.

Na praia dos abutres

Jornalistas. Teria tanto a contar sobre eles. Amei de cara Balzac porque os entendeu muito especialmente. O crítico loiro de ilusões perdidas, por exemplo, encontrei em todas as redações que frequentei…

Teria tanto a contar, mas não conto. Talvez nem mesmo em romance à clef, tão praticado pelos narcisistas que, claro, acham-se mais que jornalistas.

(Você já se imaginou por aí entregando as estrelas de suas próprias profissões? Nunca, né? Além disso, no caso do jornalismo, algo que nem existe mais, que interesse poderia haver nessas histórias? Humorístico? Sou péssima pra contar piadas.)

Às vezes, contudo, dou com a língua nos dentes e me arrependo instantaneamente de ter atingido o ídolo de alguém. Fico toda “bem, mas calma, ele tem ótimas qualidades”…

Meu parceiro do coração para essas histórias era o maior gênio que conheci no jornalismo: o Renato Pompeu. Até hoje me lembro de seu sorriso de criança quando eu aparecia com uma nova. Uma honra para mim se pensarmos que ele sabia tão mais do que eu em qualquer campo.

Renatão morreu, não tenho com quem conversar sobre esses assuntos, mas me lembrei de um minidiálogo que travei com um sujeito na redação certa feita. O Renato me daria um sorrisinho pra esta. A história exemplifica quão despreparada eu sempre estive para entender o patrão.

O chefe me pergunta:

“Você conhece quem cubra bem o mercado de luxo, Rosane?”

E eu:

“Luxo? Em que sentido?”

Eu realmente não achava que luxo fosse assunto pro jornalismo, exceto como denúncia ou por gozação. Mas eis que tal “segmento de consumo”, que poderia incluir “vinhos”, havia se tornado, sem que eu percebesse, tão importante para os patrões quanto “família real” ou “turfe”. Se eu quisesse editar “cultura”, então, não poderia me negar a tratar dessa prioridade.

O que me leva, não sei bem por quê, a um episódio ocorrido quando o Renato Pompeu e eu trabalhávamos no Jornal da Tarde.

O Renato vê entrar pela redação o então célebre jornalista Miguel de Almeida ao lado de um sujeito de óculos escuros, vestido com casaco de couro. Me cutuca:

– O Miguel de Almeida anda de guarda-costas, agora?

Eu olho e solto uma gargalhada que dura até hoje.

– É o Ivald Granato, Renato! O artista plástico!

E o Renato:

– Quem?

Das drags aos noivos reais

Mesmo ao ironizar a palhaçada real damos ibope aos palhaços. Eu sei! Mas penso assim: não controlamos a psicologia de massas mesmo. Ninguém compete com a família real, célebre amiga de Goebbels, nesse campo político…

E se não sabemos competir, então vamos tirar, porque a zoação talvez empoe esses diamantes de zircônia que tantas vezes atiram em nossa cara.

Particularmente, adorei que uma brasileira tenha reproduzido em poucas horas o vestido de 500 mil dólares da noiva e ainda postado no face o modelo chinfrim! Só se não for brasileira nessa hora.

(Quando lembro que a Oprah Winfrey obrigou as costureiras da Stella McCartney a passar a noite anterior ao casamento fazendo um vestido novo, já que a cor anterior do seu não ficaria bem na tevê, entendi melhor minha aversão ao espetáculo de mídia-me-too).

O único reality show a que assisto, porque há décadas gosto do acting do Rupaul (não dele, necessariamente), é o Drag Race. Então pesquei na página do programa dois sensacionais conselhos ao casal feitos por queens desta última temporada.

Miss Vanjie: “Eu diria à noiva para cancelar o Grindr do telefone dele. Não tem bobo no reino.”

Yuhua Hamasaki: “Do anal.”

Olhos mortos de sono

Entendo a Dilma vezes tantas.

Ter feito seu trabalho sob péssimas condições financeiras mundiais e haver sofrido uma discriminação tremenda por ser mulher, enquanto conduzia o país abatido pela tempestade.

Em meu universo mais que paralelo não tive qualquer Katia Abreu por escolha, mas precisei suportar muitas katias obscuras que me foram impostas em empresa particular na base da humilhação.

Dilma foi derrubada por um conluio de golpistas de direita. E eu também, no meu quintal, por homens ditos de esquerda.

No entanto, não odeio a esquerda por isso. Sou ainda mais à esquerda do que quem me golpeou.

Não roubei, não traí. Vivo pela igualdade.

Fico pensando neste assunto em horas insones apenas para me livrar dele. Me sinto tão melhor sem esse círculo danoso (grotesco ou caricatural) por perto. Não é felicidade ser chicoteada todos os dias por mentirosos a exercer seu pequeníssimo poder.

Olhos que desejariam estar mortos de sono agora. Mas que terão calma.

queer querer bem

meu professor, minha última razão pra escrever, me disse isto há uns meses, partido do nada:

– você é queer, rosane. doida. alicerçada em mistério. você não é deste mundo. ninguém sabe disso porque, pra esse mundo, você não é útil.

fiquei confusa. era uma sentença. talvez um elogio. ou uma constatação. ou nada.

e os olhos cheios d’água.

ter me chamado de queer foi um grande amor demais.

sem fim

ódio à marielle assassinada

ódio aos ocupantes do prédio feridos ou mortos

aos acampados por lula

aos drogados

sem-teto

índios

ateus

ódio aos pobres

às mulheres

aos nordestinos

ao haiti e a cuba

ódio aos negros

aos chacinados nas ruas

aos gays

sapatas

travas

trans

artistas

ódio aos estudantes de escolas públicas

aos camponeses que plantam sem veneno

aos intelectuais

às putas…

ódio, tens espelho?