No palco napolitano, a revolução dos irmãos De Filippo

“Os irmãos De Filippo” permanece em cartaz até dia 4, grátis e on-line, no streaming do Festival de Cinema Italiano.

O filme de Sergio Rubini reconstitui época para que conheçamos a família responsável por encenar uma nova comicidade no teatro napolitano. Seu humorismo à moda de Pirandello antecipou ideias neorrealistas, incorporando o sentimento das ruas.

No filme, a participação, para variar brilhante, do bom e velho Giancarlo Giannini, no papel do cômico Edoardo Scarpetta.

I FRATELLI DE FILIPPO (Os Irmãos De Filippo)

a música brasileira não morreu

sim, eu sinto muito falta dos músicos que perdemos.
choro e me angustio por isso.
mas a música brasileira não morreu com eles.
eu aliás raras vezes a vi tão bonita como vejo agora.
as cenas são as do samba, da canção, da improvisação do jazz, até do free jazz, do erudito, do romântico, do funk, do brega, do brega às vezes tecno do Pará, da música para o carnaval, das bandas instrumentais, dos compositores incríveis nos becos (e há tantos onde moro, em São Paulo).
vamos com carinho por eles, lutadores, e com calma e agradecimento para os que perdemos.
sertanojo e música que toca na globo geralmente não são nada, são só dinheiro, a deformação que o dinheiro traz.
ouvidos atentos, isso é tão importante…
não temos tempo de temer a morte, nem vamos fabricá-la!

por que koo

eu sei que isso não interessa a vocês, pessoas sérias, mas me sinto acolhida no koo por motivo de: os memeiros me seguem e eu os sigo.

sinto que estou ganhando uma família melancólica e desesperançada, por isso mesmo divertida, para quem o humor, bom ou terrível, se não cura, alivia.

e de rede social nada se leva, não é assim?

Soube da morte de Gal pela manhã, fiquei muda, tinha de trabalhar, trabalhei, nem comi, vim pro no consultório médico e só agora, justamente agora, no corredor de espera da clínica, meio da tarde, janela estreita aberta ao sol brilhante, bonito, que parece gritar sua voz, as lágrimas decidem aparecer.

MANÉ É MANÉ

Ainda bem que alguns amigos do meu face, como a Anita Galvão, me ajudam nessas horas. Hoje de manhã, rachei o bico ao saber de uma nova fake news da bravata dos doido, que ela nos contou por lá, gargalhando. E depois do café com facebook, fui à feira.

Perguntei ao vendedor se ele pagava menos taxa quando eu levava os limões no débito, em lugar do crédito.

O sujeito, que antes conclamava com mau humor as freguesas a gastarem com ele seu suado dinheiro, fechou a cara ainda mais.

– É tudo a mesma porcaria. E agora, ainda mais, vão começar a cobrar pelo Pix em 1 de janeiro.

– Fake news, meu amor!

– Ah, é? E o que faziam os banqueiros ao lado do cara?

Pensei. Não vou ficar braba. Nem vou jogar os limões aqui. Vou pagar pra me divertir.

– Verdade, né? E o Paulo Freire, que vai virar ministro da Educação?

– Então? – respondeu, sem que eu conseguisse identificar a cor da cara azeda numa escala pantone. E emendei:

– Vai virar nem sei como, porque o Freire morreu tem uns 30 anos, amigo!

– Quero é ver!

– Aí que está, não vai ver!

E continuou me respondendo, meio sem braços, feito o cavaleiro negro do Monty Python. Jamais volto nessa barraca, porque o problema com essa limonada de cérebros é a gente não se divertir direito com ela, já que, como sabemos, não dispõe de cognição pra entender piada.

E seguimos com Bezerra da Silva, malandro é malandro, mané é mané!

HINO AO JUIZ

Arte de Rodtchenko para a capa
do livro “Maiakóvski Sorri,
Maiakóvski Ri”, de 1923

Pelo Mar Vermelho vão, contra a maré,
Na galera a gemer os galés, um por um.
Com um rugido abafam o relincho dos ferros:
Clamam pela pátria perdida – o Peru.

Por um Peru-Paraíso clamam os peruanos,
Onde havia mulheres, pássaros, danças,
E, sobre guirlandas de flores de laranja,
Baobás – até onde a vista alcança.

Bananas, ananás! Peitos felizes.
Vinho nas vasilhas seladas…
Mas eis que de repente como praga
No Peru imperam os juízes!

Encerraram num círculo de incisos
Os pássaros, as mulheres e o riso.
Boiões de lata, os olhos dos juízes
São faíscas num monte de lixo.

Sob o olhar de um juiz, duro como um jejum,
Caiu, por acaso, um pavão laranja-azul:
Na mesma hora virou cor de carvão
A espaventosa cauda do pavão.

No Peru voavam pelas campinas
Livres os pequeninos colibris;
Os juízes apreenderam-lhes as penas
E aos pobres colibris coibiram.

Já não há mais vulcões em parte alguma,
A todo monte ordenam que se cale.
Há uma tabuleta em cada vale:
“Só vale para quem não fuma.”

Nem os meus versos escapam à censura:
São interditos, sob pena de tortura.
Classificaram-nos como bebida
Espirituosa: “venda proibida”.

O equador estremece sob o som dos ferros.
Sem pássaros, sem homens, o Peru está a zero.
Somente, acocorados com rancor sob os livros,
Ali jazem, deprimidos, os juízes.

Pobres peruanos sem esperança,
Levados sem razão à galera, um por um.
Os juízes cassam os pássaros, a dança,
A mim e a vocês e ao Peru.

VLADÍMIR MAIAKÓVSKI, 1915

em “Maiakóvski Poemas”, ed. Perspectiva, 2017.

Tradução de Augusto de Campos

O heróico MST na vertigem do cinema

O novo documentário de Adilson Mendes aproxima de nossa compreensão os seres humanos que integram o movimento e que, como consequência, comandam a zeladoria do planeta

As mãos do trabalhador sem-terra Jussimar Luís Dalenagare, presentes no documentário De quanta terra precisa o homem?

Pode-se dizer que um quarto de século se passou entre o brilho que o MST causou a primeira vez nos olhos do cineasta e historiador Adilson Mendes e a feitura do documentário único que é De quanta terra precisa o homem?, de sua autoria, sobre o movimento. Adilson procura o cerne das coisas, das boas e dos problemas, com muita beleza e um ritmo espetacular, a vagar e ecoar como o barulho das águas, sempre presentes nos seus filmes. É dos nossos mais promissores jovens documentaristas, sem fazer caso disto. Considera-se apenas um pesquisador que filma, um cineasta da história, por ela e com ela. Mas a sua é uma história inusitada, uma vez que contém poesia. E talvez seja deste modo poético que um único artista do filme acabe por representar o cinema inteiro.

No ano passado, durante a 45 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o diretor apresentou seu talento ao público pela primeira vez, em “Tempo Ruy”, sobre a obra e o pensamento do grande cineasta que é o homem do Atlântico Ruy Guerra. O filme se faz a partir de um diálogo com suas ideias e termina por ser um editorial sobre a solidão empreendida, acompanhada das memórias. O documentário será mais bem sorvido no futuro, porque hoje andamos a ensaiar nossa cegueira e ainda não o vimos suficientemente…

Agora, o que Adilson Mendes fez e apresenta nesta 46 edição da Mostra é muitíssimo importante, mais uma vez. No momento perturbador em que vivemos, com as tantas ameaças a nossa democracia, o diretor mostra a face e as mãos dos sem-terra que fazem o MST. Geralmente tendemos a vê-lo como um movimento indistinto, de gente importante, por certo, mas sem o rosto que nos impele à empatia. Ou as mãos. Adilson mostra esses homens e mulheres com ênfase na sua racionalidade, mas também nas suas histórias de vida. Quem é sem-terra nunca está só. Sua produção mira a comunidade e, mais que isto, a saúde do planeta. 

De quanta terra precisa o homem? faz o contraponto necessário entre esses heróis brasileiros, que sobrevivem mesmo às duras penas de um governo miliciano, e a entrada, no movimento, do ex-banqueiro Eduardo Moreira, importantíssima voz da esquerda atual. Será ele a empreender o crédito que libertará o trabalho na terra do azedume do poder.

Na abertura do filme, um drone observa o desenho que um trator dos sem-terra faz nas águas, como se o veículo fosse um pincel de aquarela. Mas, antes, é uma epígrafe a conter um trecho de texto do crítico Paulo Emilio Salles Gomes a nos emocionar: 

Na história do liberalismo e da pseudodemocracia do Brasil, os grandes fazendeiros, industriais, comerciantes e banqueiros já falaram muito. A classe média e o operariado disseram algumas palavras. Os trabalhadores da terra são a grande voz muda da história brasileira.

A seguir, a entrevista com o diretor Adilson Mendes.

A sem-terra Lúcia Marlei Rodrigues, no filme de Adilson Mendes

Fale-me um pouco, por favor, sobre o projeto do filme. Como ele surgiu? Como você conseguiu empreendê-lo? De quanto tempo precisou para fazer o filme, desde a pré-produção?

De quanta terra precisa o homem? é um filme de baixíssimo orçamento, encomendado por Eduardo Moreira. O filme é uma encomenda no sentido clássico e o esforço foi atender a uma demanda individual, mas principalmente a uma demanda social. Fazer uma homenagem ao MST é um desejo antigo. Desde 1998 que acompanho o movimento, quando – estudante de História em Assis – fui até Brasília com eles para protestar contra FHC. A ocasião da homenagem em forma de filme surgiu quando Moreira me convidou para colaborar em seu Instituto Conhecimento Liberta. Durante a pandemia, Moreira e sua equipe criaram uma plataforma de cursos online e me convidaram para realizar algumas atividades: a) ministrar disciplina sobre Cinema e Sociedade, b) organizar uma coleção de ebooks [Coleção Grandes Filmes do Brasi], c) criar um programa de bolsas para produção do audiovisual periférico [O Brasil de Verdade oferece bolsas de cinquenta mil reais para jovens da periferia do Brasil e teve, entre seus bolsistas, o cineasta do Capão Redondo, Lincoln Péricles, que, em 2021, fez um lindo curta-metragem, Mutirão] e, por último, d) realizar esse documentário.

A decisão de fazer De quanta terra precisa o homem? se deu quando Moreira me mostrou uma série de materiais audiovisuais que ele próprio produziu em suas viagens pelos rincões do Brasil, junto a povos indígenas, quilombolas e sem-terras. Mesmo tendo sido feito de forma amadora, o material de Moreira sobre o MST me interessou particularmente. Além disso, ele como personagem me pareceu estimulante para pensar as forças sociais em ação no país neste momento. Sua singularidade de novo rico recentemente convertido a causas sociais me pareceu uma mediação possível para apresentar o MST. Moreira está no centro de uma operação no mercado financeiro em que o movimento social adquiriu títulos de dívida com juros baixos.

A ideia de fazer o documentário surgiu em 2020, pouco antes da pandemia. Para compor o retrato do movimento foi preciso filmar seu lugar de origem, a região Sul do país. As filmagens das plantações de arroz e suas cooperativas estruturam o filme e absorvem o material produzido de forma amadora por Moreira. A pandemia atrasou a produção e o filme foi concluído apenas em setembro deste ano.

Você pergunta a um dos personagens qual filme ele queria ver feito, e seu documentário o contempla. Foi o filme que você quis fazer? Entre o projeto inicial e o resultado, quais caminhos novos você descobriu?

Você tem razão: o objetivo foi contemplar o MST. O personagem em questão é Jussimar Luís Dalenagare, ele foi decisivo para o filme. A maneira como Jussimar e sua companheira Isabel Cristina Dalenagare internalizaram o ideário do MST é de uma profundidade surpreendente, transferindo para a vida as práticas da agroecologia. E a agroecologia é tomada por eles como proposta de renovação da vida social, não apenas como técnicas de plantio. Este para mim é o maior ensinamento desse filme.

Como o documentário procura ouvir e atender à demanda do MST, busca converter uma encomenda individual em uma encomenda coletiva, o diálogo com os membros do movimento foi estruturando o filme ao longo do processo. Desde o início ele foi pensado para se desenvolver conforme o avanço do diálogo com o MST. O diálogo é que estrutura o roteiro, mesmo se Felipe de Moraes e eu, a partir das preciosas indicações de Miguel Stédile, estabelecemos linhas básicas para abarcar os temas centrais do movimento. O que eu não sabia era que o diálogo com o MST transformaria não apenas a forma do filme, mas toda a equipe de De quanta terra precisa o homem?, que sentiu de perto o ethos da coletividade. A propósito, esse filme não seria possível sem a incrível equipe reunida por Juliana Lira, a produtora executiva. A delicada fotografia de Carine Wallauer que busca a luz inquieta do movimento. A música de Dino Vicente, que constrói com uma viola atualizada. Fábio Costa Menezes é o montador também de Tempo Ruy.

A díade indivíduo/coletividade ganhou proporções inesperadas e o filme investiga o contato de um movimento social com um “estranho” ao mercado financeiro e as consequências desse encontro para a guinada pessoal, ética e política. Ou seja, o filme quer ser um elogio do coletivo, e pretende que nosso futuro enquanto sociedade está relacionado com nossa capacidade de reunir, sem preconceito, as forças sociais democráticas em nome de um projeto comum. Ninguém nasce um socialista empedernido ou um capitalista voraz. Ou seja, diante da degradação atual da sociedade brasileira, uma figura como Moreira tem sua relevância.

Você encontra uma belíssima citação de Paulo Emílio Salles Gomes e a usa como epígrafe que expõe seu objetivo no filme, quiçá no seu cinema, que é o de dar voz a quem foi calado pelo poder, neste caso o trabalhador sem-terra. Como a citação lhe veio para esta epígrafe? É o trecho de um livro?

Acho engraçado você falar em “meu cinema”, quando o que faço é um produto audiovisual que é resultado de minhas pesquisas enquanto historiador do cinema. Alguém que sempre está a investigar a memória audiovisual, a misturar vestígios de arquivos com a memória do presente. Eu não sou um cineasta, eu sou um pesquisador que faz filmes.

Você tem razão mais uma vez, a citação de um texto da fase política de Paulo Emilio na juventude, quando o intelectual se dividia entre a vida cultural e a vida política, orienta sobre as pretensões do filme. A citação foi colhida em um manifesto, escrito em 1945 para a União Democrática Socialista [publicado no livro Paulo Emilio: um intelectual na linha de frente] e informa que a formação da nação exige que as classes falantes se calem e ouçam a palavra dos trabalhadores do campo. Paulo Emilio Sales Gomes é o grande nome da memória audiovisual brasileira. Graças a ele temos uma cinemateca nacional, seu pensamento influenciou gerações e continua bastante vivo, como se os problemas de nossa “situação colonial” não deixassem de se repor. E Paulo Emilio ronda sempre minhas buscas. A citação foi extraída de um contexto antifascista, em que as diversas forças da sociedade deixavam de lado as diferenças para se unir contra a barbárie…

Gostaria de entender melhor a inserção do personagem renomado, ex-banqueiro branco de classe média que agora, tornado à esquerda, contribui criando crédito ao movimento. Por que ele percorre todo o filme?

Sim, foi Moreira quem encomendou o filme, seu trabalho também passa pela legitimidade proporcionada pelo audiovisual. O que não vejo como mero oportunismo. Sua guinada ética é sincera mesmo se os cacoetes de sua classe continuam presentes. O plano que encerra o filme, inspirado na estética do cinejornal [a clássica pose do patriarca e sua família no alpendre] e na máxima lampedusiana, aponta para a necessidade de mediações que ampliem as relações pessoais. Ou seja, sem Estado não há ação individual ou empenho coletivo que prevaleçam, as coisas mudam mas voltam para o lugar onde sempre estiveram.

Mas para além de sua presença como “dono da bola”, Moreira comparece como representante da ordem citadina, que vem de fora para sondar uma realidade singular e nós, como espectadores, nos identificamos diretamente com ele, com sua dicção, seus trejeitos, sua força econômica. Ele serve ao documentário como um duplo do espectador, estimulando-o a ver o MST sem os filtros do militante engajado e dono de uma narrativa estabelecida pelo movimento social. Moreira serve ao filme como elemento estrangeiro ao movimento social, que permite um olhar mais livre do preconceito cristalizado pelos meios de comunicação. João Paulo Pacífico, outro artífice da operação junto ao mercado financeiro, tem papel semelhante, assim como outras personalidades entrevistadas no filme. Por isso, Moreira acompanha o filme como elemento romanesco que cede espaço a uma temporalidade mais dilatada, histórica, que o antecede e o ultrapassa.

Acho extraordinária a abertura, um trator que se movimenta na água, visto de cima por um drone, como se a repetir o movimento de um pincel de aquarela. À parte ser um importante e aparente paradoxo, o de citar a água quando ao falar do sem-terra, visto ser ele um “zelador da natureza”, como esclarece Stédile em uma de suas falas, o elemento parece ser uma assinatura sua, presente também no início do documentário sobre Ruy Guerra. Por que escolheu a água para abrir este filme?

Pode ser que a água seja uma figura de estilo inconsciente. Tenho estudos sobre Jean Vigo e Leon Hirszman que destacam o elemento essencial. É verdade que a água é um aspecto da poética de Ruy Guerra, no caso as águas do Atlântico Sul. É verdade também que água é um tema caro ao MST, visto que a “zeladoria da natureza” que eles promovem cuida da terra e, necessariamente, da água. Nas cercanias de Porto Alegre estive em um grande açude recuperado pelo movimento que atendia não apenas a suas plantações, mas também a pequenas cidades. Por isso, mais do que uma figura de estilo, o plano de abertura do trator procura evidenciar o quanto o filme busca se aproximar do meio ambiente para evidenciar a grandeza do projeto de preservação, produção e habitação do MST.

Seleni de Fátima de Lima e Heleni Terezinha de Lima, filha e mãe a integrar o Movimento Sem-Terra

Um objetivo importante do filme, conforme diz João Pedro Stédile a certa altura, parece ser o de constituir uma fonte de informação para o “povão”, que jamais terá a oportunidade de conhecer o movimento por dentro, pelo que ele realmente é, através dos meios de comunicação de massa brasileiros, tão comprometidos com o capital financeiro. Me parece que foi um objetivo cumprido belamente na feitura do filme. O que está pensado como distribuição para este documentário, para que ele seja conhecido amplamente?

Sim, o filme busca uma forma simples, uma forma humilde capaz de narrar o MST. O filme tem a consciência de que é apenas uma entre outras homenagens cinematográficas possíveis ao movimento. Como disse, a estrutura do filme foi se consolidando ao longo do processo de filmagem, em diálogo com os membros do MST. O filme quer estar a serviço do MST, quer ser um produto comunicativo, mesmo se para isso evita o sensacionalismo.

Como uma encomenda, a produção pertence ao Instituto Conhecimento Liberta que decidirá sobre as formas de distribuição, em conjunto com a Lira Filmes, a companhia responsável pela produção executiva do filme.

O historiador Adilson Mendes, que dirigiu De quanta terra precisa o homem?

Você já tem outros projetos fílmicos engatilhados depois deste? Imagino que continue com sua carreira como professor? Como pretende equilibrar essas atividades?

Tenho muitos projetos que pretendo realizar, que estão ligados a resultados de minhas pesquisas enquanto historiador. Documentários e filmes de ficção. Mas está muito difícil produzir qualquer coisa no Brasil. O campo do audiovisual foi desmantelado nos últimos anos e quem persiste em produzir precisa ter uma couraça bem forte. Como dizia Kulechov em seu manual de direção: “Requisito número um para a direção cinematográfica: saúde.” No caso brasileiro, onde a saúde sempre é pouca e as saúvas, muitas, é preciso muita sorte para se encontrar a parceria adequada.

Neste momento preparo um filme sobre a formação da favela de Heliópolis. Um documentário feito com moradores históricos e jovens habitantes da maior favela de São Paulo. O filme é feito coletivamente, de maneira totalmente independente e com total parceria com jovens universitários moradores de Heliópolis.

Como equilibrar a feitura de filmes com o trabalho de pesquisa e docência? Eis uma questão para a qual não tenho resposta. Apenas busco a complementaridade e não ficar na mediania de um e de outro.

Exibições do filme durante a 46 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo:

SESSÃO 1

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1       

28/10/22 – 21h15

SESSÃO 2

CINE MARQUISE Sala 2     

 31/10/22 – 16h45

DE QUANTA TERRA PRECISA O HOMEM?

Brasil

2022   cor   74 min.   

Documentário  

direção Adilson Mendes

Roteiro Adilson Mendes, Felipe de Moraes 

fotografia Carine Wallauer

montagem Fábio Costa Menezes

design de produção Magda Figueiredo

música Dino Vicente

produção Juliana Lira

produzido por Lira Filmes

então pronto.
eu me admito triste.
desde domingo não sou a mesma.
dor de cabeça, de corpo.
energia zero, sem dormir e lutando pra cumprir o mínimo.
mas isto não importa.
dá pra fazer tudo igualzinho com ou sem dor.
não que resolva muito, mas continuo denunciando fake news nas redes sociais.
discutindo com uberistas e porteiros se for o caso.
enchendo os amigos com as informações que tenho e trocando o que tenho pelo que me dão.
f-se.
não vou parar de viver só porque essa meia dúzia troncha de vizinhos resolveu que eu não sirvo.
essa meia dúzia é que não me serve, ela que não aguentaria um minuto de discussão com a gente.
vão achando que canhões matam ideias, vão!
nunca dei bola pra classe média paulistana, não ia ser agora.
espero que acordem, mas se não acordarem, que pena.
até a xtébtis sabe diferenciar um pato de um laranja!
e se a minha pessoa querida, minha conhecida, que perdeu seu filho pro Brasil já voltou a lutar, como eu ficaria quieta?
é tudo difícil como sempre foi.
e a gente sabe mais que ninguém que está lutando por nossas vidas, por nossa comida, nossa saúde, nossa escola, nosso impossível!
ainda temos tempo, sim.

Pra cima deles com nossos vermífugos, moçada

Por que as pesquisas eleitorais erram? No caso atual, há pelo menos uma explicação. Os institutos tiram suas conclusões a partir de um mapeamento do país proporcionado pelo censo. Mas, por certo, perdemos o censo! Ele foi tirado de nós, em tempo, para que não soubéssemos quem somos até a eleição.

Véus.

Uma vez que a canalhada escondeu o país onde vivemos (encolhidos e humilhados, por sinal), nós nos desatualizamos sobre nós mesmos. Quem somos? A base de dados desatualizada não ajudou ninguém a compreender o país antes de inquiri-lo nas pesquisas eleitorais.

Todas as informações relevantes, como aquelas sobre nossa saúde, por falar nisso, estão ocultas há tempos. É muito sigilo correndo solto, não somente sobre os crimes e o cartão corporativo da família verminácea – simplesmente nossas vidas têm sido obliteradas, sem que nos demos conta da proporção voraz em que isto ocorre.

Somente essa falta de informação proposital na área da saúde pública, por exemplo, já teria sido motivo para impeachment do governante uns dois anos atrás. Mas nada é feito neste país quando todas as instituições, como a imprensa, estão tomadas pelo desinteresse em mudar. A imprensa, a Procuradoria-geral, o Congresso, a Justiça – todos os que deveriam lutar por nós não querem fazê-lo. O espaço público, queridos, encolheu.

Enquanto isso, outro encolhimento, o cognitivo, prossegue lancinante por meio da existência zapeada dos brasileiros, em especial a dos pobres, mas a dos remediados também. É pelo zap que circulam livremente as notícias alucinatórias, fakeadas, que remodelam o conceito de opressão aos oprimidos, para fazer com que ela lhes pareça natural – até justa! Já viram sem-teto bolsonarista? Pois hoje meu marido deparou com um deles remexendo o lixo…

(Um dos memes mais fantásticos que vi nos últimos tempos é aquele que, sobre a ficção distópica “1984”, de Orwell, coloca estas palavras: “Este livro era pra ser um alerta, não um guia”.)

Aceitamos a cegueira porque vivemos nela. É um golpe carniceiro o que transcorre, como vocês sabem. E sofisticado no último, porque se baseia na anulação de nossa habilidade de reagir. Estamos aqui, pequenos, lutando uns contra os outros nos cabos de guerra da internet, onde não cabem os olhos, os sorrisos, o cheiro, os argumentos, a conversa, além disso impondo o pouco que realmente sabemos e percebemos, censurando a mínima oposição, apenas para que sintamos algum poder sobre o outro. Que tal, em vez disso, conversar cara a cara com ele? Talvez tenhamos esquecido como se faz. Mas seríamos tão mais felizes se o fizéssemos.

Eu não sei como isso pode mudar. No fundo do coração, nem creio que seja mais possível.

Ontem, ao consultar o Facebook de minha família bolsonarista, deparei com um vídeo do papagaio pelado da Havan, que pelo jeito é o novo filósofo-astrólogo a substituir o fumante que partiu desta, espero, para pior. Naquele vídeo, um dia antes da eleição, ele pede para que seu espectador vá ao quarto dos filhos e netos, cubra-os e beije-os na cama e depois se ponha a pensar numa só coisa: na Venezuela. “Você quer que os seus sofram como sofrem as pessoas naquele país? Então, se não quer, se deseja um futuro aos seus, veja lá o que vai fazer amanhã na urna, hein?”

Foi das coisas mais assustadoras que vi antes de o dia amanhecer. Até o metrô mais próximo, duzentos ou mais metros, não vi ninguém de vermelho feito eu a caminho da votação. Antes, vinham todos na contramão, assustados ou desafiadores, às vezes animados, mas fingindo não me perceber. E isto para mim significou apenas uma coisa: estamos encolhidos, conforme esses monstros pelados nos ensinaram a ser. Não ousamos mudar o passo, porque, bem, sabe-se lá o que nos espera.

Vamos continuar assim, talvez? Eu desejo que não. Mas, de novo, sem qualquer esperança a circundar meu pensamento… Sou boa de ação, contudo, muito otimista pra agir! E talvez por isso espere de todos nós a guerra de trinta dias para mudar este presidente que é a própria maldição, mesmo que estejamos habitados por nossos medos. Por que, caso contrário, que saída teremos?

Só posso lhes propor isso, ademais no abstrato de suas intuições. Vamos desligar os vermes. Vamos meter-lhes os vermífugos invisíveis de nosso conhecimento, sem dó. E voar alto, por sobre seus canhões.