Horror indistinto

Dois sem-teto estão ao meu lado.

O negro aproxima-se de mim profissionalmente.

Não o vejo chegar ao caixa onde eu pago um sorvete.

E, quando lhe dou dinheiro, todos na padaria riem de mim.

O segundo sem-teto não me vê.

Magro, loiro, barba, cabelos ondulados e longos, olhos azuis que o transformam em uma espécie de Jesus de calendário, ele se ajoelha  volta da igreja São Luiz.

Eu é que me aproximo.

Dou-lhe dinheiro, muito pouco.

Mas não sei se ele quer meu dinheiro ou um milagre.

Dou-lhe dinheiro por não saber o que fazer.

Peço-lhe seu nome.

Não diz.

Não sei se ele quer meu dinheiro ou um milagre.

A voz treme.

Ainda não é uma voz.

Minha boca de mãe

Ando com o amigo e mestre pelo centro quando ele se apieda de uma linda mulher abandonada à rua. Sentada no chão, ela olha de lado como quem não vê ninguém, exceto a si. Todas as portas abertas à melancolia. 
– Vou dar dez reais a ela. Você entrega? – meu amigo diz. Ele é tímido para estes contatos.

– Vamos juntos. – respondo. – Eu tenho mais seis.

Linda, negra, a sem-teto (anos indefiníveis; eu diria quarenta, mas pode ser que não tenha trinta) mal acredita em tanto dinheiro nas mãos.

– É muuuito, muito.

Sorri, meio que chora. Não abaixa a cabeça, contudo:

– Vocês estão me dando isto, mas vou gastar com pinga, tá?

E mostra com orgulho, a seu lado, aquele destilado que já vi rodar em festa na garrafinha de água de plástico.

– Mas você vai comer também? (Me arrependo da pergunta assim que sai da minha boca de mãe.)
Ela sorri.
– Pode gastar com pinga – diz meu mestre.
– Você tem amigos por aqui? Cães? (Pergunto porque quero experimentar o alívio de saber que ela sempre poderá contar com a solidariedade de um rosto.)
– Vou sozinha. Não gosto de ninguém comigo. Sou… perturbante.
Nos despedimos. Meu amigo pede que ela fique bem e eu lhe jogo um beijo.
– Vão felizes, casal mais lindo! – ela diz, quase como se cuidasse de nós.
Rimos. Tudo nela corresponde à tristeza. Não sei o que fazer por alguém tão inteligente que perdeu as esperanças.

Adivinhe quem vem

50 Anos de “Adivinhe quem Vem para Jantar”.

Você sabe quem vem pra jantar? 

Os pais do “negro”.

A tensão racial em época de luta pelos direitos civis é a razão do filme teatral de Stanley Kramer, que bem poderia tê-lo rodado em preto&branco, mas, de qualquer modo…

… o filme é feito para Spencer Tracy brilhar.

O ator que Marlon Brando julgava ser o melhor do mundo, a reviver o cinema de um quarto de século atrás.

Spencer Tracy, que reluz em todo espectro de atuação, mas aqui, especialmente, evidencia o mais espinhoso, o humorístico.

Os homens que tudo entendem depois das mulheres.

Katherine Hepburn, atriz luminosa transformada em escada para Tracy. 

Que altivez ao desfilar tão horríveis figurinos!

E uma grande entrada para Sidney Poitier, sobre quem nem todas as palavras bastariam.

Adeus a um grande

Comecei a escrever sobre HQ para o JT no final dos anos 1980. Na época não era comum que as mulheres lessem ou fizessem quadrinhos. Apesar disso, em minha lida semanal, me vi totalmente acolhida (e sem qualquer preconceito, coisa rara então) por gente séria da área, como o Mauro e o Douglas da distribuidora e editora Devir. 
O Douglas morreu hoje, o que me deixa sem palavras. Tinha 63 anos e já não podia contar com o Mauro, morto em 2012. Eram jovens de cabeça e de coração. 

Eu conversava mais com o Mauro. Ele comentava tudo o que eu cometia no jornal, e de um jeito muito particular. Uma vez analisou assim uma resenha simples: “Você escreve uns textos de fantasia tão bonitos.” Me senti honrada. Eu tinha um gênero de escrita!

Tudo o que esses dois pensavam adquiria enorme importância, e mesmo determinava o rumo de nossos pensamentos. 
Douglas, meu caro, obrigada por tudo e adeus.

Somos todos irmãos 

Não se esqueçam de que a polícia age com truculência mesmo entre a classe média quando o assunto é manter privilégios dos favorecidos pelo governo golpista (os três por cento que apoiam Temer).
A polícia bateu, torturou e deteve ilegalmente menores manifestantes nos últimos dois anos. E a justiça considera condenar aqueles jovens que nem mesmo haviam iniciado sua protesto e se reuniam em um centro cultural há um ano, delatados por um infiltrado.
Não se esqueçam de que os infiltrados iniciam a violência (contra as vidraças de bancos e de ônibus) pela qual algum tempo atrás vocês acusaram os jovens.
As escolas foram cercadas, os currículos, subtraídos, suas ocupações e manifestações, combatidas. São os jovens os primeiros a dar a cara a bater contra as opressões em qualquer sociedade sob tirania, aquela de São Petersburgo do czar ou a da invasão de Praga ou a do Chile que assistiu à morte de seu líder cercado no palácio.
Nossos jovens estão desmobilizados pela violência.
Vocês não vão às ruas. Vocês estão aqui comigo, reclamando muito, sob a vigilância do algoritmo. 
Os donos de jornais recebem sem ser lidos. Muito dinheiro governamental. Jornais não precisam de jornalistas e o texto acabou, exceto o do Waack e o da Gloria Perez, esta tão sensível às pesquisadas pautas modernas.

 

Vocês sustentam a tevê com sua audiência tolerante. 
Vocês pensam que sabem, mas ainda não sabem, o que é viver sem proteção trabalhista e previdenciária, porque as restrições ainda não se regulamentaram.
Vocês são surpreendidos, ofendidos e humilhados pelos conluios fascistas. Mas a maioria dos seus amigos não entendeu o que se passa. Eles idolatram juízas. Eles desistiram da informação dos jornais sem texto.
Um dia os golpistas prenderão e arrebentarão aqueles que os sustentaram entre as altas esferas, e estes, assim como os pobres da direita, começarão a se sentir desfavorecidos e mobilizados.
Só assim vocês sentirão no ar o inevitável sopro da história a seu favor.
Enquanto isto, não custa apoiar a classe artística censurada, parte dela apoiadora do golpe.
Somos todos irmãos.

são paulo do fim

são de todos os lugares,

negros, loiros, acabados,

mais homens que mulheres,

elas normalmente companheiras,

sem casa nem teto.

o que mais aterroriza 

meu coração

é ver aquelas noites de fogueira na praça dom josé gaspar 

que eu imaginava findas

e as gangues de adolescentes

gritalhonas sob as tendas

como se nunca tivéssemos

abandonado o crash de 29

e a depressão dos trinta.

Âmbar gris

Insisto em ver do meu modo

Insisto em ver

No susto 

Um selfie não é pior que a lama do carro 

transformada em cocada negra 

pelo filtro mayfair 

Quero constatar

A doce luz dos veraneios nas pontes da liberdade ampliada em mim

Um himalaia de sal nos cobre 

Azedamos todos 

Esquecidos de que já vencemos  

Me deixe de lado, não é difícil 

Mas acompanhe o dono do pequeno gesto

A criança em sua cadeira

O sonho dos pedintes 

Ser Candido ou não ser

A crítica deveria ser uma independência, estendida até mesmo a quem a observa… Mas certas autonomias, no país do grande intelectual, desenham-se impossíveis.

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As palavras, as coisas e um ilustre inventor

Nunca entrevistei Antonio Candido. Nem busquei entrevistá-lo. Gigante demais, filé para os altamente hierárquicos do jornalismo, disputado entre todos os repórteres e editores culturais… Achei por bem esquecê-lo, sem contar que sempre me senti melhor entre os perdedores. E Candido, morto dia 12 de maio, aos 98 anos, era, como sabemos, um campeão extremo.

 

Além disso, eu já havia tido sorte demais com outros personagens. Por exemplo (e espero conseguir recuperar alguma coisa dessa vida louca neste blog), fui a última a entrevistar, em maio de 1999, o crítico teatral, jornalista e historiador Decio de Almeida Prado, em Baú de frases nítidas, o que já me parecera enorme. Companheiro de Candido na revista Clima, era tão erudito como ele, de grande conversa, um humor mal-humorado, sensacional. Nós nos abraçamos ao final da entrevista. Suspeito que ficaríamos amigos, se tempo tivesse havido. Uma amizade respeitosa como aquela que senti haver alcançado, anos depois, com o tradutor e crítico Boris Schnaiderman. Homens de grande simplicidade, a exibir generosamente um conhecimento ainda maior.

 

Certa feita, contudo, um chefe me exigiu que tentasse entrevistar Candido finalmente. Minha vida ficara mais dura com dois filhos para sustentar e eu não poderia simplesmente me recusar ao impossível… Fiz então o papelão de pedir a uma das filhas do professor que me recebesse. Ana Luísa foi muito gentil, tinha gostado de algo que escrevi sobre o pai, mas… Não, ele não iria falar.

 

Contudo, preciso dizer que, nos anos 1990, eu havia cometido uma ingenuidade. A mando de meu editor em uma revista semanal, lera uma coletânea menor, de quase-crônicas, em que Candido perfilava de Chaplin (a quem chamava Carlitos, equiparando-o a todo o cinema de sua infância) a Azis Simão. E, ao escrever a resenha, decidi mencionar o que não parecia cair bem em um dos textos, aquela hagiografia do sociólogo Simão que não contextualizava seu caminho pelas esquerdas brasileiras, seus antagonismos. Lamentei pela melancolia estalinista que via desenhada no perfil.

 

Eu não sabia, em meus vinte anos, que a gente não está autorizada a fazer reparos ou levantar incômodo em qualquer mínimo aspecto do trabalho de figuras como Candido. Não pode colocar uma objeção que seja no Chico Buarque escritor, no Mick Jagger do disco solo ou, atualmente, no Kleber Mendonça de Aquarius, sob pena da neve eterna, das portas fechadas, do rancor dos discípulos a navegar neste pequeno mundo cultural. A gente até pode, claro. Mas não gente como eu, que muda de ideia, que muito caminha e mais preza o caminho que a pedra…

 

Muitos anos depois de minha observação na resenha (anos estes que me ensinaram a declinar de polêmicas em nome da publicação), um de seus fiéis seguidores, que entrevistei para outra revista, ainda se lembrou de me cobrar pelas palavras proferidas quase dez anos antes. Tenho cá para mim, contudo, que o próprio Candido não fizera caso de palavras tão meninas… Mas meu entrevistado as distorcia, como se eu tivesse chamado o próprio Candido de estalinista. Vejam bem: uma única frase em um texto elogioso de uma página, desvirtuada em fel acadêmico por uma década…

 

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Hansen narra sua visita a Candido: o coroné tá me chamando, debaixo do guarda-chuva…

Há três anos, fui entrevistar um antigo professor e grande pensador da literatura, João Adolfo Hansen, e ele me fez ganhar o dia. Contou que com Candido era assim mesmo. Que seus discípulos eram caricaturais, ansiosos em se prender a sua aura e galgar posições à imensa sombra. Em sua temporada uspiana, os colegas imitavam até mesmo o estilo dos móveis eméritos do professor. Todas as salas dos mestres da Letras repetiam seu toque alemão-bauhaus…”Eles usam cuecas com monogramas repetindo o AC de Antonio Candido. Quando fui à casa de Candido, entendi. Meus colegas copiavam a casa do professor.” Além disso, nenhum trabalho ou concurso poderia excluir a opinião de Candido sobre ela, mesmo que contradissesse a própria pesquisa em questão.

 

Candido deixara de incluir Gregório de Mattos em sua Formação da Literatura Brasileira, de 1959, e Haroldo de Campos fizera um estudo em torno disso, O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Mattos, já que o valorizava como uma manifestação literária nacional antecipadora, carnavalizante, uma ideia assimilada pelos tropicalistas. Em A Sátira e o Engenho, de 1989, contudo, João Adolfo Hansen contestava o sentido “carnavalizante” da sátira de Gregório, mostrando o fundo conservador de suas tópicas.

 

Quando Candido convidou Hansen a jantar em sua casa, queria “ser justo” e parabenizá-lo pelo estudo. “Fui lá com a Marta, minha esposa”, conta Hansen. “E o Candido se revelou muito amável. Eu disse pra Marta, olha, é o alpendre e o canavial, o coroné tá me chamando, debaixo do guarda-chuva… Ele contou ter lido o livro, achado muito bom, um clássico. Disse-lhe que tinha sido generoso, e ele: ‘Generoso não, procuro ser justo.’ Pessoas que não me olhavam na cara passaram a falar do meu trabalho, elogiar, e eu disse: ‘Marta, fui autorizado pelo professor Candido.’ Mas agora, com a publicação dos volumes do códice Asensio-Cunha para a obra de Gregório, o silêncio voltou a ser estrondoso.”

 

Em seu clássico A Sátira e o Engenho, Hansen mostrava que os poemas de Gregório eram atribuições apócrifas, de modo que, segundo o professor Alcir Pécora, o seu nome deveria ser entendido mais como uma “etiqueta” de autoridade associada ao gênero da sátira do que como uma autoria original e única. Se fosse manifestação literária, disse-me Hansen, que fosse aquela filiada ao bloco greco-romano, não exatamente brasileiro. “Não é pouca coisa. Gregório é contemporâneo de Juvenal, Horácio, Virgílio, Ovídio, Homero, Calímaco, mas também contemporâneo de Petrarca, Camões, Gongora, altíssima literatura. Mas nem é literatura, porque eles não pensam em literatura naquele século. Uma grande ficção, uma grande poesia.”

O próprio Antonio Candido, diante das querelas entre seus seguidores e os raros divergentes, deve ter sentido a necessidade de aquietar-se. O mundo acadêmico é um pequeno toco no mundo. Lembro-me que fui assistir à sessão em que Candido, ao completar 90 anos, recebia o troféu Juca Pato na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Como sempre, falava com simplicidade ampliadora. E jogava humor sobre os doutos presentes do direito, curso que ele nem mesmo conseguira completar. Sua escrita direta, disse, fora favorecida pelo jornalismo. E a sessão tornou-se, assim, um desagravo ao jornalismo como responsável por desenhar as boas e claras escritas críticas e por formar leitores. (Não estou brincando: há quem ainda lute por entender, no jornalista, um escritor.)

 

Em minha vida de estudante da Letras-USP, além de ter sido aluna do sábio e irreverente Hansen, até hoje a brandir sua verve contra os scholars dos monogramas, frequentei as aulas de um grande discípulo do Candido, o João Luiz Lafetá, morto precocemente, aos 50 anos, em 1996. Na sua tradição, direto, a escrita simples, Lafetá compreendia um grande contexto para a literatura, injetava-lhe história. No final de um semestre da graduação, ganhei nota 10 por um trabalho de teoria literária entregue a ele. E sorvi sua observação final: “Seu texto é muito bom e certeiro, só temo que seja impressionista”. Ou algo assim. Como se me dissesse: você acertou agora, porque teve uma boa impressão sobre um fato literário, mas e se a impressão for ruim depois? Você precisará de método…

 

Nem fui discutir com Lafetá. Jamais poderia contestá-lo. Não teria argumentos. O 10 recebido foi um sonho mantido assim. Interpretei suas palavras a meu modo. Preferi pensar que o impressionismo contaria a meu favor, sem saber que nada nesta vida conta.

 

 

 

 

(*Fotos Wikipedia e Toni Pires, a última publicada em O poeta é um fingidor, reportagem de minha autoria publicada em 12 de novembro de 2014)

Criancinha do século

 

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Retratos do subsolo. Pega-luzes. Milésimas auroras. Intangível.

Foram tantos os títulos que imaginei para este blog. Mas descartei todos. Meu nome tão antigo seria o melhor batismo para minhas alucinações. Um nome a carregar a identidade de pobreza do meu avô. Seu Danielle virou Daniel poucos meses antes de morrer. Nascido no Vêneto, imigrado durante a infância, teimou em se tornar brasileiro, mas nunca aprendeu a ler. Eis por que seu sobrenome virou qualquer um. Pavam, Pavani, Pavão ou Pavan, que os escrivães registrassem seus oito filhos da maneira aceita. O importante era que as crianças aprendessem, como ele próprio, a resistir.

Meu avô transportava lixo em uma carroça. No início, não apenas a conduzia. Igualmente recolhia a carga nos ombros até colocá-la em sua caçamba puxada por cavalos, um cansaço dos infernos. Eis por que, muito esperto, um dia contratou um carregador que aliviasse seu maior peso.

Sempre me imaginei na pele de meu avô. Em trinta anos de jornalismo, transportei os resíduos dos outros. Contudo, ao contrário de seu Danielle, jamais consegui contratar um carregador enquanto dirigia a carroça. E um dia decidi deixar o lixo pra trás.

Não sei exatamente o que você encontrará neste blog.

Um resíduo, uma palavra.

Talvez a mim.

Bom encontro pra nós.

*(foto de Claude Lévi-Strauss em “Saudades de São Paulo”)