Quatro diretoras e seus caminhos abertos


Presentes na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, as cineastas de ficção e documentários exploram mundos encobertos

Em sentido horário, Charlotte Gainsbourg (Jane por Charlotte), Marí Alessandrini (Zahori), Marie Amiguet (O Leopardo das Neves) e Maria Speth (Sr. Bachmann e seus alunos)

Vi quase três dezenas de filmes da Mostra, todos virtualmente. Alguém disse que por este meio eu não assistiria, então, aos melhores filmes disponíveis. Possível, mas o que fazer? Não correria às salas fechadas neste momento em que pandemia ainda há, sim. E, de fato, poucos títulos vistos virtualmente me pareceram grandiosos ou mesmo tocantes. Coisas boas houve, contudo. E as canhestras também. Alguns filmes serviram como informações sobre dramas localizados em determinadas paragens. Outros me divertiram por seu estrito senso intelectual. Mas me chamou a atenção que alguns deles, dirigidos por mulheres, tenham feito vibrar o mundo das sensações. Foram filmes a manter os caminhos abertos. A seguir, comento quatro deles.

ZAHORÍ

Direção: Marí Alessandrini

Suíça, Argentina, Chile, França

2021   cor   105 min.   

Ficção  

TRAILER: https://vimeo.com/567531628 

Mora (por Lara Tortosa) e Zahorí no filme de Marí Alessandrini

Zahorí, da estreante Marí Alessandrini, me pareceu particularmente belo, cheio de sentido. O título refere-se ao cavalo do gaúcho Nazareno, que, enquanto se perde numa noite de tempestade de cinzas na Patagônia, olha para os dois lados da estrada. A ficção, apresentada no Festival de Toronto e vencedora do prêmio Os Filmes Depois de Amanhã no Festival de Locarno de 2020, mesmo evento em que foi exibido na seção Cineastas do Presente deste ano, existe para nos fazer percorrer esta imensa região no que ela tem de mais profundo. Há ali imigrantes italianos enraizados, mas não realizados, em luta contra a terra e seus frutos, além dos religiosos europeus de sempre. 

A jovem protagonista Mora (interpretada com beleza por Lara Tortosa), de 13 anos, vive por lá com os pais e o irmão menor. Os pais, italianos, não falam com ela a língua local, mas Mora só tem um castelhano para lhes devolver. Quer jogar futebol, e porque menina, não pode. Quer ser gaúcho, mas, por idêntica razão, querem interromper seu sonho. A escola de nada lhe serve, porque olha para fora do seu mundo, justamente a vasta, árida terra onde habita. E então ela deseja seguir o seu caminho. Ela quer Zahorí. 

A diretora Marí Alessandrini tem talento de sobra. Nasceu na Argentina em 1979 e cresceu na Patagônia, onde gira seu filme. Formada em direção de cinema e artes visuais pela Universidade de Genebra, realizou, entre curtas ficcionais e documentais, filmes como Dragona y Sus Cachorros (2010) e Buscando Patriotas (2015). Foi escolhida pela Cinéfondation do Festival de Cannes para desenvolver seu primeiro longa-metragem, este “Zahorí“, que vale cada momento sob o sol.

SR. BACHMANN E SEUS ALUNOS

Direção Maria Speth

Alemanha

2021   cor  217 min.   

Documentário  

TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=6eMaaDGxIPc 

Sr. Bachmann, o professor, e suas alunas de uma outra Europa

São quase quatro horas de filme, mas você, como espectador, não as perceberá. Os documentários destes tempos quase não esclarecem que o sejam. Tudo é vida e encenação dos personagens, que caminham enquanto o filme corre. Este documentário, que substancia a vida, discorre sobre a empatia e as dores do aprendizado. A diretora Maria Speth desceu até a escadaria de uma escola e, com a fulgurante distância de quem não se pode fazer demasiadamente notar, acompanhou os alunos de uma classe determinada nas suas mínimas alegrias e dores. Aos 54 anos, nascida na Baviera, a diretora vive em Berlim desde 1987. Trabalhou como assistente de edição e direção até 1995 e no ano seguinte formou-se em direção pela Universidade de Cinema Babelsberg Konrad Wolf. Dirigiu os longas-metragens Levando a Vida (2001, 26a Mostra), vencedor do Tigre de melhor filme no Festival de Roterdã, Madonas (2017), premiado no Festival de Mar del Plata, e As Filhas (2014). Também realizou o documentário 9 Lives (2011).

Obras sobre escolas e professores inspirados projetam nossa infância e às vezes nossos desejos de acolhimento que não se realizaram. O senhor Bachmann é mesmo um senhor, tem mais de 60 anos, mas também, e principalmente, um menino. Ele dá aula de música e outras disciplinas a alunos que estão por findar o ensino fundamental, prestes a enfrentar uma nova etapa de vida que determinará seu caminho profissional. A escola se localiza em ​​Stadtallendorf, uma cidade que durante o nazismo recebeu trabalhadores forçados da Europa Oriental para suas fábricas de explosivos. Os descendentes e novos migrantes são seus alunos. As crianças turcas e búlgaras às vezes não têm a menor noção do que fazer com a língua alemã. Mas Bachmann crê que mereçam futuro. O que fazer, senão integrá-los em suas diferenças, soltar seus medos, ouvi-los? Ele é bom nisso. Tem história. Seu nome de família não é seu nome de origem. A avó teve de aceitar o que lhe coube como cristã nova. Uma empatia é também uma coincidência de identidades.

JANE POR CHARLOTTE

Direção Charlotte Gainsbourg

França

2021   cor   90 min.   

Documentário  

TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=492IFWJxYBk 

Charlotte, assessorada pelas câmeras incríveis, e Jane, com a doce doença de tudo reter

Mãe e filha têm a voz delicada. Falam baixo e quase pedem autorização para entrar uma no mundo da outra. Jane Birkin, a mãe, é cantora e atriz. Charlotte Gainsbourg, atriz, é a filha de quem este filme descobre um dom para dirigir. Charlotte tem muitas câmeras vintage. Gosta de efeitos, de sobreposições, não quer que nada se fixe demais. Porém, como atriz, está ali para encenar junto à mãe. Por ser a filha única e altiva de seu casamento com Serge Gainsbourg, Jane sempre foi mais reservada com ela do que com as outras duas filhas, de outros dois casamentos. Jane teria gostado de tocar os seios de Charlotte enquanto crescia, uma vez tão bonitos… Mas não ousaria lhe pedir.

Se Jane quiser pegar a câmera para filmar a filha, Charlotte será a orgulhosa e dura rebenta de Serge, e não a deixará tocar no que não é seu. De resto, ela parecerá entender que a mãe se distancia do mundo, e esta finitude a perturbará.

Jane vive só numa casa de praia e gostaria de dormir com alguém. Porém, desde que sua primeira filha, com o cantor John Barry, morreu, em 2013, ela se demora a levantar. Horas na cama a olhar o teto e a fazer suas muitas considerações. Ela sabe que envelheceu demais desde a tragédia. Até determinada etapa de seus 71 anos, ainda tinha uma face que o espelho poderia reconhecer. Agora prefere vê-la desfocada ou mudar de espelho – e ela já tem os seus preferidos, os generosos, pela casa. Como Jane diz, sofre a doce doença da acumulação. Nada que é seu desaparece.

Charlotte terá conseguido enfim tocá-la? Pergunta complicada. Jane, tão simpática, é uma  pérola rugosa e brilhante, que não parece se deixar domesticar. 

O LEOPARDO DAS NEVES

Direção Marie Amiguet

França

2021 cor 92 min

Documentário  

O Leopardo das Neves, um filme para valorizar o que existe mas é raro

Graduada em biologia, a diretora Marie Amiguet, que investiu em uma vida de viagens nas Antilhas, na África e na América do Sul, apresenta seu primeiro documentário, O Leopardo das Neves, antes apenas exibido no Festival de Cannes. Seu intento como cineasta é se concentrar a partir de agora em registros da vida selvagem. Por isso ela retornou à França para cursar, em Ménigoute, um mestrado técnico em documentários sobre a natureza. Deve seguir a trilha na qual começou bem.

Seu objetivo em O Leopardo das Neves é alcançar o alto do planalto tibetano para, entre vales às vezes pouco percorridos, descobrir uma fauna desconhecida. Para isso, ela acompanha Vincent Munier, renomado fotógrafo da vida selvagem, cujo objetivo, antes mesmo de fotografar, é encontrar um dos felinos mais raros. O aventureiro e romancista Sylvain Tesson, também como a diretora, um viajante, acompanhará o fotógrafo e com ele aprenderá a se deter com a atenção exigida. 

Não será um filme em que a superespecialização, como aquela da equipe de David Attenborough, registrará os animais na nitidez noturna ou os mínimos movimentos dos pássaros em lentidão. Aqui, o quebra-cabeça da diretora estará em localizar o drama e a obsessão de quem assiste à natureza como a um espetáculo de captura e ensinamentos.

Um festival de mulheres em “As Bruxas do Oriente”

Julien Faraut conta como dirigiu este filme espetacular, em cartaz na 45ª Mostra Internacional de Cinema, a partir da arte de uma documentarista e de uma desenhista de anime dos anos 1960, junto ao depoimento das ex-atletas

As Bruxas do Oriente, time nacional de vôlei do Japão, partem para vencer as soviéticas em 1964, na Olimpíada de Tóquio

O francês Julien Faraut, de 43 anos, é um eterno satisfeito com o cinema. Dentro dele, ao contrário do que ocorreu com a maioria de seus antecessores e contemporâneos, pode fazer o que quiser, no tempo que desejar. Para chegar a este ponto, contudo, ele teve antes de subir degraus no Instituto Francês de Esportes, o Insep, a “fábrica” de campeões olímpicos situada no coração da Floresta de Vincennes, na região sudeste de Paris, onde numa gigantesca área de 28 hectares a entidade acolhe e prepara diversas gerações de esportistas de alto nível. Ali, Faraut cuidou de coleções de filmes e recuperou filmagens antigas. Desse trabalho de quinze anos, o mestre em história pela Universidade Paris-Nanterre extraiu uma possibilidade: construir filmes a partir de outros.

As Bruxas do Oriente é, como tudo em sua carreira, um filme a partir de outras filmagens do esporte. Especialmente de um desses documentários, O preço da vitória, dirigido em 1964 pela cineasta e atriz japonesa nascida na China Nobuko Shibuya (1932-2016). O filme fez Faraut literalmente pirar. Nesta obra-prima de luz e angulação, exibida no Festival de Cannes de 1964, Shibuya apresentava o time de voleibol feminino de uma fábrica de tecelagem. Treinada por Hirofumi “Demon” Daimatsu, que instruía as jogadoras com rigor, especialmente na arte de rolar na quadra, a equipe foi a escolhida, em 1960, a representar o país no campeonato mundial do Rio. E apenas perdeu para as soviéticas na final. Depois disso, o time seguiu em turnê pela Europa e em 1964 vingou-se do time da URSS, levando a medalha de ouro sobre ele na Olimpíada de Tóquio.

O filme de Faraut foi feito a partir da montagem dessas filmagens e do anime Ataque número 1, da artista japonesa de 75 anos Chikako Urano, que acompanhou o sucesso das chamadas bruxas nos anos 1960. Duas mulheres, portanto, a servir como inspiração a este criador… Além das filmagens de época, Faraut conseguiu reunir as próprias jogadoras seis décadas depois do sucesso. Foi a primeira vez que tiveram a chance de expor em filme as histórias que circundaram seu feito.

A diretora Nobuko Shibuya (esq.) e a autora de mangá Chikako Urano, cujo trabalho foi reaproveitado por Julien Faraut em seu filme sobre a trajetória das Bruxas

Segundo Faraut, a história do treinador, por seu lado, foi suficientemente contada no Japão, e para além do voleibol de fábrica. Convocado pelo exército japonês durante a Segunda Guerra, Daimatsu se viu no meio da desastrosa campanha na Birmânia. Um dos poucos sobreviventes, fez o seu caminho ao longo da “estrada dos ossos brancos” de volta à Tailândia e à vida no pós-guerra. Apesar do rigor que impunha aos treinamentos das jogadoras de voleibol, ele falava com suavidade e era calmo. Fumante inveterado, morreu 14 anos após a vitória em Tóquio.

Tudo em As Bruxas do Oriente caminha bem. A edição é especialíssima, interessada no crescendo emotivo. E assim segue o padrão visual do longa, cuja direção de arte acerta o tempo todo ao nivelar as diferenças entre animação e filme, e provocando incessante diálogo entre elas. Isto sem mencionar que o assunto sugere na medida paralelismos e metáforas de conquista pessoal a partir dos depoimentos das ex-jogadoras.

A seguir, a entrevista que fiz com o diretor Julien Faraut.

O diretor francês Julien Faraut, também autor de “John McEnroe no reino da perfeição”, de 2018

Gostaria de entender seu trabalho há 15 anos no Instituto Desportivo Francês, o Insep. Sempre atuou para eles como cineasta? Ou era pesquisador, roteirista, diretor de fotografia, editor? Os filmes para o instituto são destinados ao cinema, à televisão ou a ambos?

Quando jovem adulto, eu era um cinéfilo, mas jamais imaginei que um dia dirigiria filmes! Descobri o documentário e, sobretudo, encontrei rolos de filme na universidade (Paris X Nanterre) que me despertaram para as possibilidades de fazer meu próprio cinema. Em 2001, tive a oportunidade de estagiar no Insep, onde cuidei das coleções de filmes. A partir deste período, comecei a editar e reutilizar as filmagens dessa pequena biblioteca e mostrar seus itens desconhecidos.

Sou responsável pela cinemateca do Insep desde 2003. Os primeiros filmes foram feitos para uso interno, apenas dentro do instituto. Depois comecei a dirigir para museus, eventos especiais ou festivais. Com o tempo, esse trabalho foi se tornando mais importante, mais “profissional”. Comecei a atuar junto a uma produtora e dessa colaboração nasceu Um novo olhar para Olympia 52, transmitido pela TV francesa em 2013. Os dois filmes seguintes (John McEnroe no reino da perfeição, de 2018, presente na 42 Mostra, e As bruxas do Oriente) foram produzidos pela UFO Production e lançados nos cinemas. Ainda é uma forma de mostrar a biblioteca de filmes, e ainda os uso para palestras ministradas dentro do instituto.

Toda a atenção do Japão para o que uma mulher era capaz de fazer

Como nasceu “As Bruxas do Oriente”? Você já conhecia esse assunto e decidiu dirigir um filme sobre ele? Ou o trabalho começou quando encontrou os documentários japoneses que descreviam a história dos atletas? Quantos anos você passou fazendo este filme?

Como em qualquer um dos meus filmes anteriores, descobri a história das Bruxas por meio de uma filmagem. Há dez anos, uma treinadora francesa de vôlei (que comandava a seleção nacional de vôlei feminino na década de 1980) me procurou com um filme de 16mm produzido pelos japoneses e destinado a ensinar técnica às jogadoras. Essa filmagem do treinamento das Bruxas me deixou maravilhado. Me fez lembrar de um anime japonês a que assistia quando criança! Comecei a pesquisar e minha vontade de fazer um filme sobre a história se confirmou. É difícil dizer quanto tempo levei para fazer o longa. Eu diria dois anos. E mais alguns anos para conceber o projeto.

O material histórico deste filme tem uma fotografia impressionante. Foi preciso restaurá-lo? Você conseguiu entrar em contato com as equipes de filmagem originais?

Trabalhar numa cinemateca me deu alguns conhecimentos sobre os diferentes materiais, suporte e formato dos filmes. Dou o melhor de mim para procurar as impressões dos negativos originais e peço uma digitalização 4K. Fizemos algumas gradações de cor, mas nenhuma restauração foi necessária. Nobuko Shibuya, que dirigiu o maravilhoso filme O preço da vitória (com a sessão de treinos das Bruxas na fábrica), infelizmente faleceu. Pensei em entrar em contato com Chikako Urano, a autora do mangá Ataque nº 1, mas finalmente não o fiz. É preciso fazer algumas escolhas!

Seu filme não nos mostra o jogo em que o time japonês perdeu para a URSS durante o campeonato mundial sediado no Rio de Janeiro, em 1960. Existem imagens dessa partida? 

Não encontrei nenhuma filmagem deste evento. Solicitei aos arquivos nacionais do Brasil algum noticiário ou filmagem, mas eles não encontraram nada.

Foi difícil reunir as jogadoras para falar sobre esse passado? Elas fizeram alguma exigência preliminar para dar seu depoimento?

Demoramos quase um ano para conseguir encontrá-las. Comecei do zero, pois não tinha vínculo qualquer com os japoneses. Então nós (eu e meu produtor) mandamos garrafas no mar… Uma pessoa na UniFrance finalmente nos deu o contato de alguém que, envolvido nas Olimpíadas de Tóquio 2020, comunicava-se com elas. Meu tradutor foi muito útil e convincente. Também éramos cautelosos, com a preocupação constante em sermos educados e respeitosos. Elas aceitaram falar assim que entenderam nosso pedido.

A montagem deste filme é primorosa, assim como a direção de arte. Quais foram as principais dificuldades que você enfrentou para criar este padrão visual? Sua maneira de fazer a edição atinge o espectador em cheio, ele passa a torcer por elas. A identificação do espectador é uma busca importante em seu trabalho?

Eu tenho de ser o primeiro a me satisfazer com a edição. Como primeiro espectador do meu filme, quero gostar dele. Posso gastar o tempo que for preciso para editar. Nunca trabalho com prazo curto ou comando. Amo editar e fazer filmes. Estou feliz que você tenha sentido prazer em ver o filme.

Os documentaristas japoneses alguma vez entrevistaram essas jogadoras? Ou seu discurso foi simplesmente ignorado pelos filmes da época?

O técnico Daimatsu e a capitã Kasai eram as duas vozes a falar em nome da equipe. Algumas jogadoras só deram entrevistas muito breves depois que os dois faleceram. Encontrei uma verdadeira ausência de testemunhos.

Você construiu um excelente perfil psicológico do Demon Daimatsu. Mostrou-o como um inovador muito exigente, mas também atencioso com suas jogadoras, que por sua vez pareciam adorá-lo. Ou alguma delas rompeu relações com ele em determinado momento?

Todos as jogadoras que conheci me disseram quão sinceramente se sentiam gratas a ele. Foram realmente muito próximas a Daimatsu. Suas conquistas e trajetória comum criaram laços muito fortes.

Sentimos a ausência da voz do técnico no filme. Não houve entrevistas filmadas que você poderia ter usado neste filme? 

Eu não encontrei esse tipo de filmagem de Daimatsu. Talvez não tenha procurado muito. Ele não era meu alvo. Eu estava focado nas jogadoras, aquelas de quem não tínhamos notícias. Era a elas que eu queria dedicar todo o meu filme.

O técnico “Demon” Daimatsu, sem perder a ternura jamais, e suas jogadoras

Não teve vontade de alongar um pouco mais a trajetória do treinador no seu filme? Você acha que isso desviaria o espectador do objetivo principal? Senti uma curiosidade insatisfeita sobre o que ele fazia antes de trabalhar para a equipe de fábrica e depois que suas jogadoras venceram a Olimpíada.

Eu posso entender sua curiosidade. Daimatsu escreveu vários livros sobre sua história, método e carreira. Sua vida e ponto de vista foram bem documentados. Meu objetivo neste filme foi focar nas jogadoras apenas porque elas não tiveram a oportunidade de falar por si próprias. Daimatsu, Kasai, jornalistas e observadores falavam em nome delas. Desta vez, quis lhes dar a oportunidade de expor seus pontos de vista e sentimentos.

Quanto lhe encanta o cinema japonês? Algum dos cineastas do país influenciou sua carreira como diretor?

Gosto de cinema japonês e de anime com certeza. Mas esse cinema não me influenciou direta ou conscientemente. O cineasta francês Chris Marker (1921-2012), que desempenhou um papel importante na maneira como comecei a fazer filmes, era um amante do Japão. Seu filme Sunless (1983), parcialmente localizado no país, é muito importante para mim. Mas ainda não exerceu nenhuma influência direta na maneira como dirigi As Bruxas do Oriente. Segui o caminho das filmagens de origem, o testemunho das jogadoras e resolvi problemas técnicos. O estilo do filme não seguiu nenhuma ideia anterior ou fixa. Gosto de fazer filmes que encontrem estilo no processo de fazer. “Naturalmente”, se você quiser assim. A forma tem de servir e se adequar ao assunto, em minha opinião.

Quais são as suas principais influências cinematográficas, principalmente no campo do cinema esportivo? Como você vê o trabalho de Leni Riefenstahl em Olympia?

Mencionei o Marker como uma grande influência. O trabalho de Riefenstahl era visualmente muito sofisticado e inovador. Ela teve muitos apoios e fundos para fazer seu filme. Eu pertenço ao mundo indie do cinema. Não sinto nenhuma conexão pessoal com ela, na verdade.

Você acredita que sempre será um diretor de temas esportivos? Ou pretende fazer documentários sobre outros temas ou mesmo ficção?

Nossas vidas são feitas de oportunidades. Quando comecei a dirigir a cinemateca do Insep, encontrei lá a oportunidade de fazer filmes de fundo. Não vejo o “tema esportivo” como uma limitação. Não me sinto frustrado com isso. O tema de um filme não faz todo o filme, o cinema sim é importante. A forma e a narração de um filme importam. Temas esportivos me deram boas oportunidades até agora. Eu me diverti muito. É também um território totalmente desconhecido, uma chance para qualquer cineasta que queira criar sua própria obra. Se lhe dão a oportunidade de fazer uma ficção… por que não?

Você pode nos dizer qual será o seu próximo projeto de filme?

Estou começando a pensar em um novo assunto, mas ainda não sei se conseguiria fazer um filme com ele. Preciso trabalhar nisso ainda, desculpe! Seria sobre um tópico de esporte também, mas um tópico muito incomum.

AS BRUXAS DO ORIENTE

França

Direção Julien Faraut

Documentário

2021 cor & pb 100 min.



TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=np232nnEmvQ

DESTINO

Para viver, preciso dos
enfeites multiplicados,
dos retratos
de autoengano
vingando dores antigas.
O tempo me arredonda
ruim.
Não dorme ao meu lado,
o tempo.
Ele percorre outras moradas elegantes,
destrói os acertos que ingenuamente colecionei.
Contra o grande aniquilador,
no entanto,
resta meu olhar,
que procura o seu até o fim.

Mania de chover

Ontem a caminho de Pinheiros, o mausoléu…

Ganhei um resfriado forte.
E os quilos a mais, já venho ganhando faz tempo.
Estas teriam sido duas boas razões a impedir minha saída de casa nessa chuva para ver… pessoas.
Mas mesmo assim saí.
Eu havia me prometido assistir ao show de Saulo Duarte, Anaïs Sylla, Victoria dos Santos e Caê Rolfsen que reabriria o Bona, casa-restaurante de Pinheiros.
Fui e ainda bem.
Que delícia de show, dê uma olhadinha.

Palhinha de show


Eles são talentos muito diferentes e juntos se parecem com amigos de infância.
Um pouco acanhados com aquela rentrée, talvez?


Já eu sou acanhada sempre.
E na casa de show me senti a mais velha das criaturas.
Porque ainda por cima vocês me enganaram.
Ninguém deixou de pintar o cabelo na pandemia, não…
A certa altura fui apresentada à grande Anaïs e só me ocorreu dizer “prazer”, como se eu fosse a tia da secretaria recebendo a estudante nova.
Não sei se vocês já assistiram ao Seinfeld, mas às vezes eu tenho o sentimento de inadequação do George Costanza e quero consertar as bobagens que fiz rápida e transtornadamente, como ele.
Contudo, nesta noite, nem me mexi.
A gente se desabitua à vida, sabe?
E de máscara, se não nos conhecem, não existimos.

Lotar realmente é uma
qualidade, certo?


Pra ser sincera, fiquei temerosa mesmo foi com o tanto de gente pra ver o show.
Mas dominei o pânico.
Quando saí de lá, de quebra, pude ver pela janela do uber a coisa estranha que Pinheiros vem se tornando.
O que é aquele canteiro de obras concorrentes ao maior paliteiro do mundo?
Paliteiro não…
Está mais pra mausoléu.
Obrigada pela atenção, mores, e parabéns a vocês que permanecem em casa escondidinhos de todo mal, amém.

A leopardia de Delon

Alain Delon: máxima beleza, delinquência, caça

Uma vez ensaiei escrever por aqui o que tornava Alain Delon um homem tão bonito pra mim… Eu via razões, digamos, multiplicadas como os raios solares.

Daí uma amiga dessas executivas muito importantes e pragmáticas da universidade perdeu a paciência: é bonito porque é bonito, ora.

Mas não, né? Não comigo. É claro que eu vou tentar compreender melhor como a coisa funciona (e só comigo, entendeu?). Vou olhar a beleza de frente, como disse a querida Eliete Negreiros. Não tenho muito mais o que fazer, rs. E se quer ser minha amiga, me aguente, ora.

Poitier, um juiz para nossa alma imoral

É tanto homem bonito no cinema. Escolho os primeiros que me vêm. O Sidney Poitier, por exemplo. O Paul Newman. Geraldo Del Rey. Toshiro Mifune. E até nesse Henry Carvill, estrela dos pobres de hoje, é possível vê-la.

Carvill: ele quer te abraçar

Carvill é o bobo que pede cuidados, como se fôssemos nós a fulminá-lo. Sua beleza pressupõe o abraço.

Newman, só sensualidade
Del Rey, o tímido translúcido
Por que tanta
pressa,
Toshiro?

O Paul Newman veste o erotismo sem vicinais. O Del Rey, o translúcido, é também o tímido, o distraído. O Poitier olha de um pedestal e, com profundidade, crava nossa alma imoral. O Mifune quer resolver tudo logo e fica lindamente engraçado nessa pressa de se impor, que ele nem precisava ter.

Mas o Delon, olha… O Delon é só desafio. Competição. Vou chamar isso de leopardia. Como se ele nos dissesse: venha, venha você e você, vou lhes derrubar um a um. Com a pele forjada na delinquência das ruas, os olhos em fulgor, inspeciona, calcula e caça em poucos segundos de câmera. Aposto que este homem nunca plantou um tomate na vida.

Para além de todas as qualidades, essa é uma não-qualidade, uma força irresistível… que move o observador diretamente para a armadilha.

Nem me arrisco a falar muito sobre mulheres, embora outro dia eu tenha dito o que penso sobre o fator Chantal Akerman de atração. Quando viajo em torno delas tem sempre um eco sem noção no face de meu deus pra tentar desqualificar minhas tentativas. Homens são colibris desajeitados…

Ao cinema, gente!

É fim de semana.

Escolham bem.

💜

Quando o SUS é o melhor do dia…

Dormi mal. Tenho dormido assim há alguns anos. E ontem ainda tive uns dissabores, pequenos mas decisivos, que confundiram meu sono ainda mais. Me incomoda tanto a falta de graciosidade, de delicadeza por parte de pessoas adultas, que vocês nem calculam… O corpo estremece todo, como se chorasse. Mas não tenho direito de reclamar, pois, como sabemos, tantas coisas piores estão em curso.

E, felizmente, as melhores também.

Hoje de manhã, por exemplo, ainda com muito sono, fui informada de que duas agentes do SUS estavam à minha espera na portaria do prédio. Desci com a rapidez possível, com meu descabelo, e quase as abracei, como fazia antes.

As duas vieram especialmente para me entregar um formulário de agendamento da mamografia. Desde que a pandemia começou não vou a médicos, explico a uma delas, a mais inconformada com meu afastamento das rotinas. Claro, fui ao ortopedista e ao oftalmo em duas emergências, fiz exame num hospital lotado e acompanhei meu filho num procedimento. Só isso. “Mas na sua idade”, pareciam me responder…

Enfim, também me convidaram ao papanicolau sábado, dia em que será possível submeter-se ao exame na UBS sem marcação.

Essa preocupação comigo, não me acostumo… E no entanto é tão emocionante, tão procedente no nosso grande país.

Viva o SUS, como se diz, viva o Brasil.

Que estes dois possam novamente existir.

Teima triste

Leio que Claudia Abreu completa 51 anos e me dá vontade de lhe enviar meus parabéns, umas congratulações sem eira nem beira do tipo destas que todos nós aqui oferecemos aos distantes ilustres. Mas não vou.

Mal conheço Claudia Abreu como atriz. Sei que se trata de uma estrela de tevê, mas há décadas não vejo telenovela, minissérie, qualquer coisa que seja nascida da Globo, essa emissora da qual, me parece, a atriz não arreda pé. Mas gosto de algo em Claudia ligado a sua expressão, a sua doçura triste, à beleza de menina que Vera Fisher um dia proclamou ser maior que a sua, de mulher.

Há alguns anos, estive num jantar da Conspiração Filmes aqui em São Paulo, sem minimamente o desejar. E me lembro de Claudia Abreu ali na cabeceira da mesa, ao lado do marido, o filho do escritor Rubem Fonseca, enquanto todos sorriam a seu lado. Ela, não.

Creio que o jantar comemorava o lançamento de um filme de episódios da produtora, razão pela qual o marido, diretor de um deles, transpirava felicíssimo. O homem conversava com todos, ria de todos e para todos, mas com a esposa, não dividia nem o prato. Ele parecia adivinhar que ela olhava pra baixo, absolutamente desinteressada de um sorriso, e talvez por esta razão tivesse concluído ser mau juízo voltar-se à mulher num momento festivo.

Claudia parecia tão sozinha, e eu também, que tentei fazer um contato visual solidário, mas ela nem mesmo notou minha compulsão ao gesto.

O que tinha essa mulher-menina que lhe implodia o coração? Não soube dizer e não procurei averiguar.

Hoje, passados vinte anos, de vez em quando me lembro daquele monolito arrepiante, daquele seu incômodo de presença, e me pergunto o que pode ter havido. A arte não significa necessariamente alegria na vida do artista, muitas vezes, nem mesmo escolha. Espero que naquela noite ela apenas estivesse de mau humor, embora minha intuição (maldita, indesejada) diga que não.

Pega leve

Emily Blunt: Miu Miu para evocar Hedy Lamarr

As capas pesadas que imobilizaram os célebres no Met Gala significaram o quê? Coitada da Sharon Stone. Quase precisou ser carregada. Clóvis Bornay era quem entendia desse carnaval de pedras, meu bem.

Já a Emily Blunt usando Miu Miu para citar Hedy Lamarr se deu melhor. A elegância é leve!

Um dia no museu

Depois de exatos um ano e meio sem ir aos museus, fui ontem a dois. Os avisos sobre a pandemia são tão perceptíveis em cada canto, as pias dos banheiros, interditadas com tamanha fita isolante vermelha a intervalos frequentes, que é impossível esquecer de quem manda sobre nossa impotência, mas eu esqueci. Eu sou uma agitação interna tão grande depois de uma visita ao museu que é como se meu coração parasse por idênticos intervalos isolantes, e a química em minhas mãos para estancar o vírus não me atrapalhasse em nada.

Mário Cravo, eu e a praga do vidro sobre as molduras, no Masp

Deve ter pesado sobre essa intensidade o fato de que passo por uma suspeita ocular e a cada dia sinto necessário ver mais e mais, como se fosse a antepenúltima vez. Gosto de sentir isso, todas as urgências me confortam, porque também se tornam uma desculpa para, em casa, abrir meus livros de fotografia sem uma razão prática, sem um objetivo finito, sem a praga do dinheiro a queimar mais essa luxúria de perceber e sentir, e neles eu mergulho profundamente.

E eu me sinto livre, enfim, porque não gosto de colocar em prática o que vejo e sinto, e porque dificilmente serei compreendida quando exponho minha percepção. Conheço pessoas excelentes a compreender o que escrevo e a pedir um texto meu com alegria, até para sofrer de surpresa, mas, nestes últimos tempos, tenho escrito para gente ruim de novo, povo do dinheiro, dos editais e das assessorias de imprensa (me perdoem vocês, assessores, que não compreendo como aguentam). E me enraiveço ou rio.

Anteontem, por exemplo, uma galerista que desejava aparecer no meu texto informativo mais do que eu julgava ser de merecimento quis me machucar com uma estocada, dizendo que eu escrevera adjetivos. Não liguei. Sei que ela desconhece o significado de um adjetivo. E nunca, nunca mesmo, desde os tempos longínquos de submissão ao manual da Folha, liguei para essa interdição de classe gramatical. O que todo mundo tem contra os adjetivos? E os gerúndios? Leio os pobrezinhos como prêmios, anéis onde se esconde uma pedra vermelha, e luto para assentá-los bem na terra do meu jardim.

Mas isso não é importante. (A propósito, Senhor Democracia reclamava do “mas” em início de frase. “Você escreve bem demais para insistir nessa mania”. E eu ria por dentro, por saber a origem italiana da restrição). Importante é sentir que vivo três vezes mais quando vou aos museus. E aconselho a vocês que vivam também.

Fui ao Masp e percorri novamente tudo. Os moços das curadorias andam atrás do déficit histórico e expõem mais mulheres que antes. O acervo esteve bagunçado pro meu gosto, uma vez que deixaram a espantosa virgem com o menino de Bellini pro fim da viagem. Mas algumas autoras romperam o caminho da identificação nos cavaletes da Lina Bo Bardi, completando a composição no verso da tela, razão pela qual me diverti, doce vingança à necessidade que ela nos impõe de ter de olhar o tempo todo para trás em busca do nome do autor.

“O implacável”, de Maria Martins,
no Masp

Revi Maria Martins e senti o conforto de sua adjetivação. Seres míticos compostos de sentidos. Tormentos que nascem dos ventres de bronze. As figuras do “implacável” e do “impossível”. Que mulher. De Gertrudes Altschul, redescoberta aqui depois de exposição no MoMA (mas é claro), gostei deveras das sobreposições, como se a fotógrafa sonhasse explicitamente, e apreciei ainda mais os rostos raros e graves de seus personagens infantis (enquanto, nas fotos, a autora aparece rindo sempre).

No IMS, novas sobreposições, desta vez inesperadas, porque de Madalena Schwartz sobre Ney Matogrosso, para que seus movimentos não se perdessem. Que aparição representou o Ney no sopro do tempo! Mas o esforço de Madalena (que levava seu cachorrinho nas sessões) para capturá-lo na sua elasticidade expressiva o tornou interessantemente rígido. Os retratos de Madalena são poses estudadas, teatro explícito, e pelos filminhos ali exibidos sabemos que ela irritava os personagens com sua insistência e sua timidez. Alguns retratos de Paz Errázuriz também estão lá, e senti a diferença, a intensidade, a falta de intenção, a dor subjetiva de suas transexuais em comparação com as de Madalena.

Mário Cravo Neto também se expõe no IMS, e é previsivelmente um deslumbre. De Salvador a Nova York e à Dinamarca, captamos aquele seu furor de vida, que, ao contrário do que acontece com a doce Madalena, raramente se congela. Ele era escultor, como o pai, antes de se acidentar, imobilizar-se por um ano e passar a fotografar como gosto e necessidade. Mestre da subexposição com uma razão, a de viver com seus personagens, a de rodar como suas baianas, no caminho de exprimi-los, ele é um pintor também, e suas aquarelas são o que são, movimentos.

Saio do dia do museu como sempre, tentando, sem exatamente conseguir, expressar minha intensidade

Saí do dia do museu como saio sempre, com vontade de perceber o mundo à volta, mas meu telefone sobrecarregado dificultou os registros. De todo modo, contudo, porque a vida continua, eu seria interrompida, razão pela qual não liguei muito pra essa limitação, e sonhei à noite, e continuei feliz.