Resistir, eis o que Lygia nos pediu

Ela morreu. Uma mulher mais jovem do que eu. Bailarina que dançava na sala do seu apartamento em prédio dos Jardins, ladeado por palmeiras, toda vez que lançava um livro. Em duas ocasiões abriu um vinho do porto pra mim. Sabia de tudo, dos escondidos da vida, da simplicidade da morte, esta que talvez tenha visitado de passagem e onde desaparecemos um pouco todos os dias. Dessas viagens voltava com um riso, não gargalhada, os olhos sapecas, franzidos.

Lygia Fagundes Telles, afastada agora definitivamente de nós, aos 98 anos, morava em um lugar próximo, ainda que distante. Foi a paraninfa da minha turma de Escola de Comunicações e Artes, lá nos anos 1980, e deu seu banho sem abrir mão da atitude protocolar. Bonita, gozadora, presente. Alguém para quem os ouvidos abertos na direção de Olavo Bilac não impedia sua entrega a Roberto Piva. Olhos, mãos, cabelos, tudo como a razão de uma expressão. Lembro-me sempre dela até porque moro no mesmo prédio onde residiu seu filho.

Ela fumava razoavelmente durante as conversas jornalísticas e eu, que não suporto bem o cheiro de cigarro, nem sentia nada, submetida a uma espécie de básica hipnose. Nem sei, juro, como isso podia ser.

Com ela era só sedução. Sabia ser distante, apresentando-se, contudo, cordial. Chegava na gente com sua impessoalidade sorridente, às vezes irritada, também. Fazia da ocasião conosco uma espécie de palco… e recitava. 

Se me telefonasse para agradecer pelo texto “inteligente” que eu fizera sobre ela, cessavam as borboletas no meu estômago. Porque antes disso era viver sem dormir: e se ela não gostasse, gente? E se não gostar? 

Eu a entrevistei muitas vezes. Feliz ou infelizmente mal guardei todos os textos que escrevi. Não presta muito reler o que a gente faz, sob pressão, na imprensa. Mas com Lygia estava tudo certo. Jamais estaríamos nem mesmo próximas a sua altura, e a questão era quase só copiar o anotado, servindo ao leitor.

Fez questão de proclamar a mim o veredito de culpado a O J Simpson, quando o mundo transformara o assassínio por ele cometido em questão racial. Ela não estava nem aí. Caetano Veloso bonito? Como poderia se equiparar a Rodolfo Valentino? Eu ria muito. Até suas paredes falavam. Os quadros que guardava, fotos, desenho de Darcy Penteado, de Carlos Drummond. Um apartamento antigo, móveis de boa madeira. Somente a história interessava como elemento de decoração.

Eu queria ter-lhe dito adeus em algum momento, mas me intimidei. Sua neta me abrira as portas para entrevistas, mas faria o mesmo para minha presença tímida e pessoal? De toda forma, talvez eu não aguentasse. Da última vez que fui entrevistá-la perdi o celular no qual fizera fotos. Ela parecia deprimida, embora encorajada. Vivia pela força da paixão por seu filho, para quem construíra um altar onde estavam a imagem dele ao lado de seu urso de pelúcia de infância… E o próprio urso, velho, encardido, nos sorria de cima daquela cadeira.

Eu nem sei como agradecer a essa mulher por tanto que me deu. Uma vez eu a indiquei para um trabalho, o de falar, sob um bom pagamento, para umas funcionárias de telemarketing que gostavam de escrever. E o que ela lhes disse? Basicamente, que resistissem. “É preciso resistir!” Sem isso não haveria literatura, não haveria Lygia, não haveríamos nós. Mas resistir a quê, não fez questão de explicar. Resistir, entendeu?

Eita que as saudades serão imensas.

Vou publicar algumas coisas que tenho sobre ela pela semana. E até um texto inédito em livro, de sua autoria, que ela me mandou por ocasião da edição de Natal do Caderno de Sábado, do Jornal da Tarde, nos anos 1990.

Viva Lygia! Viva para sempre em nós!

Triste mundo em riste

antigamente eu precisava entender, e por isso o fazia num texto, o que a cerimônia do Oscar e os filmes por ele selecionados nos traziam sobre a representação do poder.

fazia isso no lugar errado, é claro, na revista de senhor democracia, um hollywoodiano de carteirinha, e que se pretendia dono hierárquico de nosso pensar.

mas ainda faço isso cá comigo quando assisto à cerimônia. não acompanhei esta de ontem porque… porque só havia visto de verdade o belo filme do hamaguchi e não passado de meia hora no ataque dos cães.

pelo jeito, então, perdi a mais uma fiel correspondência do momento vivido. um homem preto socar outro homem preto ao vivo diante do mundo em guerra é resultado/representação deste nosso triste mundo em riste.

e eu talvez tivesse gostado, apesar de toda a dor de cabeça que isso me daria, de me aprofundar nos meandros desta tragédia, com toda a fatal incompreensão de quem me lesse.

vocês podem nem acreditar, mas por isso mesmo as redes sociais, pra mim, têm suas vantagens. às vezes, incrivelmente, elas me livram de um mal maior.

Humor com humor se paga, Will Smith

Amanhã será engraçado o que hoje foi triste.

Então riremos muito dessa atitude melancólica do Will Smith, que, no Oscar deste ano, socou o apresentador Chris Rock porque fez uma piada sobre sua mulher.

Uma piada fraca, é verdade, francamente estúpida, mas que não matou ninguém. O humor não nasceu pra matar, razão pela qual é desproporcional a agressão física para responder à piada de alguém. A única maneira justa de responder à piada ruim é com uma piada melhor.

Will Smith nasceu da comédia televisiva, onde é preciso improvisar. Mas naquele momento, tocado pelo sofrimento da mulher, esqueceu-se como faz. Ou estava bem alterado. De toda forma, é um grande ator ou não é? Parece que sim. E a cerimônia do Oscar é trabalho, exige improvisação. George Clooney, que surgiu para a fama como galã numa série de tevê sobre um pronto-socorro, é bem mais rápido neste quesito, e melhor.

A agressão do Will Smith, francamente, pareceu-me coisa que vi muito no nordeste brasileiro, onde o macho vai tomar satisfação quando um engraçadinho faz pouco de sua mulher, sua propriedade.

Deixasse Jada, ela própria, responder à piada ruim, certo?

Ou respondesse ele depois, com o Oscar na mão.

Cena roubada

Achei triste quando no passado não só o Ivo Pitanguy como o Zé Sarney entraram na ABL. E quando chegou a vez do Paulo Coelho, pra mim tudo aquilo virou grêmio escolar, onde personalidades do espectro político, ora reaças de verdade, ora neoliberais da arte, revezam-se para ocupar o lugar dos grandes escritores, estes que já vinham fora do clube e fora permanecerão.

Não vi o discurso da Fernanda nem vou ver. Bastou que eu soubesse que usou seu poder para declarar seu não-voto à presidência, o que não fez sentido pra mim. Declara-se o voto quando se tem um ou não se declara nada, certo? Como personalidade, você tem um peso, exerce influência. Sem contar que estamos afundados neste Brasil. Entrar para a eternidade das artes assim talvez não tenha sido o melhor pra ela, mas que sei eu?

Eis uma atriz de respeito, uma dama de excelências, claro, soberba em “A Falecida”, embora capturada em algumas situações, por um Othon Bastos, por exemplo, que, sem dizer palavra, roubou a cena ao contracenar com ela em “Central do Brasil”. Fernanda deve sempre levar outros atores a querer superá-la, e isto deve ser uma coisa maravilhosa, tenho certeza.

O risco

Me retratei nesta imagem há dois anos e poucos meses, antes de uma conversa que fiz a pedido do Instituto Moreira Salles, em São Paulo, sobre a obra da fotógrafa estadunidense Susan Meiselas.

Eu estava mais do que feliz naquele dia com o convite para falar ao público ao vivo, ademais no solo do museu que pra mim é um fundamento. Mas me sentia apreensiva também.

As conversas na biblioteca do IMS, eu percebia, não situavam muito o assunto fotografia como eu o via, antes se centravam nos temas desenvolvidos por seus realizadores – e quando o assunto é fotojornalismo, como no caso desta grande profissional, talvez não se pudesse nem devesse fugir deste enfoque, pois o assunto e seu viés dizem tudo sobre a grandeza política, a ética de um autor.

Ainda assim, me pus a falar sobre o que fazia sentido pra mim, não somente sobre a atividade de strippers nas caravanas daqueles anos 1970 que Meiselas acompanhou, mas também sobre a luz, as escolhas de um fotógrafo, o que o ampara, linhas, prontidão, sua formação visual, a construção de seu olhar.

Eu talvez não erre ao dizer que a conversa foi um sucesso, já que o público maravilhoso (muitos homens e mulheres da vida comum, velhos, jovens, alguns lindos amigos e a turma do educativo do museu, tão nova) estava aberto a ela, até ansioso por ouvir meus pensamentos, entender minha leitura da fotografia, influenciada que é, entre outras, pela obra e pela genialidade do fotógrafo-pensador paulistano Carlos Moreira.

E então, logo em seguida a este evento, veio a pandemia e anulou minha sensação de que eu poderia levar adiante meu intento, o de promover a modesta organização de um curso sobre a ação das mulheres artistas na fotografia, bem antes e bem depois de Meiselas. O IMS não me chamou para refletir sobre isto, até porque passou a haver uma onda de estudos acadêmicos sobre o assunto, e meu “orientador” (mais que isso, pai, irmão, amigo), apesar de ter sido um professor exímio na Escola de Comunicações e Artes da USP, não escreveu livros, não provou sua tese aos pares acadêmicos e muitos fotógrafos brasileiros ignoram o grande artista que ele foi.

É claro que, diante da derrocada de tudo, pensei em fazer algo por mim mesma, ainda mais em meio a esses tempos que provaram a serventia disciplinar do zoom, mas ainda não consegui. Não apenas porque me alimenta o calor das presenças físicas, mas porque não sei empreender negócios em meu nome como deveria saber. Ainda espero levar isso pra frente, contudo, assim como espero organizar um minicurso para os amigos interessados na comédia italiana, esta que foi tema do meu doutorado na História da USP.

Eu sou um pouco distante dos modos presentes de fazer as coisas, talvez não tenha a proatividade exigida, como eles dizem, mas sei que isto, mais que um problema, é uma circunstância que um dia chegarei a remover como quem estende as roupas no varal ou prepara a mesa pra comer.

Além do mais, a vida é esse risco todo mesmo, esse perigo que a gente sabe quem detectou, e não há como viver sem resistir.

Quatro diretoras e seus caminhos abertos


Presentes na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, as cineastas de ficção e documentários exploram mundos encobertos

Em sentido horário, Charlotte Gainsbourg (Jane por Charlotte), Marí Alessandrini (Zahori), Marie Amiguet (O Leopardo das Neves) e Maria Speth (Sr. Bachmann e seus alunos)

Vi quase três dezenas de filmes da Mostra, todos virtualmente. Alguém disse que por este meio eu não assistiria, então, aos melhores filmes disponíveis. Possível, mas o que fazer? Não correria às salas fechadas neste momento em que pandemia ainda há, sim. E, de fato, poucos títulos vistos virtualmente me pareceram grandiosos ou mesmo tocantes. Coisas boas houve, contudo. E as canhestras também. Alguns filmes serviram como informações sobre dramas localizados em determinadas paragens. Outros me divertiram por seu estrito senso intelectual. Mas me chamou a atenção que alguns deles, dirigidos por mulheres, tenham feito vibrar o mundo das sensações. Foram filmes a manter os caminhos abertos. A seguir, comento quatro deles.

ZAHORÍ

Direção: Marí Alessandrini

Suíça, Argentina, Chile, França

2021   cor   105 min.   

Ficção  

TRAILER: https://vimeo.com/567531628 

Mora (por Lara Tortosa) e Zahorí no filme de Marí Alessandrini

Zahorí, da estreante Marí Alessandrini, me pareceu particularmente belo, cheio de sentido. O título refere-se ao cavalo do gaúcho Nazareno, que, enquanto se perde numa noite de tempestade de cinzas na Patagônia, olha para os dois lados da estrada. A ficção, apresentada no Festival de Toronto e vencedora do prêmio Os Filmes Depois de Amanhã no Festival de Locarno de 2020, mesmo evento em que foi exibido na seção Cineastas do Presente deste ano, existe para nos fazer percorrer esta imensa região no que ela tem de mais profundo. Há ali imigrantes italianos enraizados, mas não realizados, em luta contra a terra e seus frutos, além dos religiosos europeus de sempre. 

A jovem protagonista Mora (interpretada com beleza por Lara Tortosa), de 13 anos, vive por lá com os pais e o irmão menor. Os pais, italianos, não falam com ela a língua local, mas Mora só tem um castelhano para lhes devolver. Quer jogar futebol, e porque menina, não pode. Quer ser gaúcho, mas, por idêntica razão, querem interromper seu sonho. A escola de nada lhe serve, porque olha para fora do seu mundo, justamente a vasta, árida terra onde habita. E então ela deseja seguir o seu caminho. Ela quer Zahorí. 

A diretora Marí Alessandrini tem talento de sobra. Nasceu na Argentina em 1979 e cresceu na Patagônia, onde gira seu filme. Formada em direção de cinema e artes visuais pela Universidade de Genebra, realizou, entre curtas ficcionais e documentais, filmes como Dragona y Sus Cachorros (2010) e Buscando Patriotas (2015). Foi escolhida pela Cinéfondation do Festival de Cannes para desenvolver seu primeiro longa-metragem, este “Zahorí“, que vale cada momento sob o sol.

SR. BACHMANN E SEUS ALUNOS

Direção Maria Speth

Alemanha

2021   cor  217 min.   

Documentário  

TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=6eMaaDGxIPc 

Sr. Bachmann, o professor, e suas alunas de uma outra Europa

São quase quatro horas de filme, mas você, como espectador, não as perceberá. Os documentários destes tempos quase não esclarecem que o sejam. Tudo é vida e encenação dos personagens, que caminham enquanto o filme corre. Este documentário, que substancia a vida, discorre sobre a empatia e as dores do aprendizado. A diretora Maria Speth desceu até a escadaria de uma escola e, com a fulgurante distância de quem não se pode fazer demasiadamente notar, acompanhou os alunos de uma classe determinada nas suas mínimas alegrias e dores. Aos 54 anos, nascida na Baviera, a diretora vive em Berlim desde 1987. Trabalhou como assistente de edição e direção até 1995 e no ano seguinte formou-se em direção pela Universidade de Cinema Babelsberg Konrad Wolf. Dirigiu os longas-metragens Levando a Vida (2001, 26a Mostra), vencedor do Tigre de melhor filme no Festival de Roterdã, Madonas (2017), premiado no Festival de Mar del Plata, e As Filhas (2014). Também realizou o documentário 9 Lives (2011).

Obras sobre escolas e professores inspirados projetam nossa infância e às vezes nossos desejos de acolhimento que não se realizaram. O senhor Bachmann é mesmo um senhor, tem mais de 60 anos, mas também, e principalmente, um menino. Ele dá aula de música e outras disciplinas a alunos que estão por findar o ensino fundamental, prestes a enfrentar uma nova etapa de vida que determinará seu caminho profissional. A escola se localiza em ​​Stadtallendorf, uma cidade que durante o nazismo recebeu trabalhadores forçados da Europa Oriental para suas fábricas de explosivos. Os descendentes e novos migrantes são seus alunos. As crianças turcas e búlgaras às vezes não têm a menor noção do que fazer com a língua alemã. Mas Bachmann crê que mereçam futuro. O que fazer, senão integrá-los em suas diferenças, soltar seus medos, ouvi-los? Ele é bom nisso. Tem história. Seu nome de família não é seu nome de origem. A avó teve de aceitar o que lhe coube como cristã nova. Uma empatia é também uma coincidência de identidades.

JANE POR CHARLOTTE

Direção Charlotte Gainsbourg

França

2021   cor   90 min.   

Documentário  

TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=492IFWJxYBk 

Charlotte, assessorada pelas câmeras incríveis, e Jane, com a doce doença de tudo reter

Mãe e filha têm a voz delicada. Falam baixo e quase pedem autorização para entrar uma no mundo da outra. Jane Birkin, a mãe, é cantora e atriz. Charlotte Gainsbourg, atriz, é a filha de quem este filme descobre um dom para dirigir. Charlotte tem muitas câmeras vintage. Gosta de efeitos, de sobreposições, não quer que nada se fixe demais. Porém, como atriz, está ali para encenar junto à mãe. Por ser a filha única e altiva de seu casamento com Serge Gainsbourg, Jane sempre foi mais reservada com ela do que com as outras duas filhas, de outros dois casamentos. Jane teria gostado de tocar os seios de Charlotte enquanto crescia, uma vez tão bonitos… Mas não ousaria lhe pedir.

Se Jane quiser pegar a câmera para filmar a filha, Charlotte será a orgulhosa e dura rebenta de Serge, e não a deixará tocar no que não é seu. De resto, ela parecerá entender que a mãe se distancia do mundo, e esta finitude a perturbará.

Jane vive só numa casa de praia e gostaria de dormir com alguém. Porém, desde que sua primeira filha, com o cantor John Barry, morreu, em 2013, ela se demora a levantar. Horas na cama a olhar o teto e a fazer suas muitas considerações. Ela sabe que envelheceu demais desde a tragédia. Até determinada etapa de seus 71 anos, ainda tinha uma face que o espelho poderia reconhecer. Agora prefere vê-la desfocada ou mudar de espelho – e ela já tem os seus preferidos, os generosos, pela casa. Como Jane diz, sofre a doce doença da acumulação. Nada que é seu desaparece.

Charlotte terá conseguido enfim tocá-la? Pergunta complicada. Jane, tão simpática, é uma  pérola rugosa e brilhante, que não parece se deixar domesticar. 

O LEOPARDO DAS NEVES

Direção Marie Amiguet

França

2021 cor 92 min

Documentário  

O Leopardo das Neves, um filme para valorizar o que existe mas é raro

Graduada em biologia, a diretora Marie Amiguet, que investiu em uma vida de viagens nas Antilhas, na África e na América do Sul, apresenta seu primeiro documentário, O Leopardo das Neves, antes apenas exibido no Festival de Cannes. Seu intento como cineasta é se concentrar a partir de agora em registros da vida selvagem. Por isso ela retornou à França para cursar, em Ménigoute, um mestrado técnico em documentários sobre a natureza. Deve seguir a trilha na qual começou bem.

Seu objetivo em O Leopardo das Neves é alcançar o alto do planalto tibetano para, entre vales às vezes pouco percorridos, descobrir uma fauna desconhecida. Para isso, ela acompanha Vincent Munier, renomado fotógrafo da vida selvagem, cujo objetivo, antes mesmo de fotografar, é encontrar um dos felinos mais raros. O aventureiro e romancista Sylvain Tesson, também como a diretora, um viajante, acompanhará o fotógrafo e com ele aprenderá a se deter com a atenção exigida. 

Não será um filme em que a superespecialização, como aquela da equipe de David Attenborough, registrará os animais na nitidez noturna ou os mínimos movimentos dos pássaros em lentidão. Aqui, o quebra-cabeça da diretora estará em localizar o drama e a obsessão de quem assiste à natureza como a um espetáculo de captura e ensinamentos.

Um festival de mulheres em “As Bruxas do Oriente”

Julien Faraut conta como dirigiu este filme espetacular, em cartaz na 45ª Mostra Internacional de Cinema, a partir da arte de uma documentarista e de uma desenhista de anime dos anos 1960, junto ao depoimento das ex-atletas

As Bruxas do Oriente, time nacional de vôlei do Japão, partem para vencer as soviéticas em 1964, na Olimpíada de Tóquio

O francês Julien Faraut, de 43 anos, é um eterno satisfeito com o cinema. Dentro dele, ao contrário do que ocorreu com a maioria de seus antecessores e contemporâneos, pode fazer o que quiser, no tempo que desejar. Para chegar a este ponto, contudo, ele teve antes de subir degraus no Instituto Francês de Esportes, o Insep, a “fábrica” de campeões olímpicos situada no coração da Floresta de Vincennes, na região sudeste de Paris, onde numa gigantesca área de 28 hectares a entidade acolhe e prepara diversas gerações de esportistas de alto nível. Ali, Faraut cuidou de coleções de filmes e recuperou filmagens antigas. Desse trabalho de quinze anos, o mestre em história pela Universidade Paris-Nanterre extraiu uma possibilidade: construir filmes a partir de outros.

As Bruxas do Oriente é, como tudo em sua carreira, um filme a partir de outras filmagens do esporte. Especialmente de um desses documentários, O preço da vitória, dirigido em 1964 pela cineasta e atriz japonesa nascida na China Nobuko Shibuya (1932-2016). O filme fez Faraut literalmente pirar. Nesta obra-prima de luz e angulação, exibida no Festival de Cannes de 1964, Shibuya apresentava o time de voleibol feminino de uma fábrica de tecelagem. Treinada por Hirofumi “Demon” Daimatsu, que instruía as jogadoras com rigor, especialmente na arte de rolar na quadra, a equipe foi a escolhida, em 1960, a representar o país no campeonato mundial do Rio. E apenas perdeu para as soviéticas na final. Depois disso, o time seguiu em turnê pela Europa e em 1964 vingou-se do time da URSS, levando a medalha de ouro sobre ele na Olimpíada de Tóquio.

O filme de Faraut foi feito a partir da montagem dessas filmagens e do anime Ataque número 1, da artista japonesa de 75 anos Chikako Urano, que acompanhou o sucesso das chamadas bruxas nos anos 1960. Duas mulheres, portanto, a servir como inspiração a este criador… Além das filmagens de época, Faraut conseguiu reunir as próprias jogadoras seis décadas depois do sucesso. Foi a primeira vez que tiveram a chance de expor em filme as histórias que circundaram seu feito.

A diretora Nobuko Shibuya (esq.) e a autora de mangá Chikako Urano, cujo trabalho foi reaproveitado por Julien Faraut em seu filme sobre a trajetória das Bruxas

Segundo Faraut, a história do treinador, por seu lado, foi suficientemente contada no Japão, e para além do voleibol de fábrica. Convocado pelo exército japonês durante a Segunda Guerra, Daimatsu se viu no meio da desastrosa campanha na Birmânia. Um dos poucos sobreviventes, fez o seu caminho ao longo da “estrada dos ossos brancos” de volta à Tailândia e à vida no pós-guerra. Apesar do rigor que impunha aos treinamentos das jogadoras de voleibol, ele falava com suavidade e era calmo. Fumante inveterado, morreu 14 anos após a vitória em Tóquio.

Tudo em As Bruxas do Oriente caminha bem. A edição é especialíssima, interessada no crescendo emotivo. E assim segue o padrão visual do longa, cuja direção de arte acerta o tempo todo ao nivelar as diferenças entre animação e filme, e provocando incessante diálogo entre elas. Isto sem mencionar que o assunto sugere na medida paralelismos e metáforas de conquista pessoal a partir dos depoimentos das ex-jogadoras.

A seguir, a entrevista que fiz com o diretor Julien Faraut.

O diretor francês Julien Faraut, também autor de “John McEnroe no reino da perfeição”, de 2018

Gostaria de entender seu trabalho há 15 anos no Instituto Desportivo Francês, o Insep. Sempre atuou para eles como cineasta? Ou era pesquisador, roteirista, diretor de fotografia, editor? Os filmes para o instituto são destinados ao cinema, à televisão ou a ambos?

Quando jovem adulto, eu era um cinéfilo, mas jamais imaginei que um dia dirigiria filmes! Descobri o documentário e, sobretudo, encontrei rolos de filme na universidade (Paris X Nanterre) que me despertaram para as possibilidades de fazer meu próprio cinema. Em 2001, tive a oportunidade de estagiar no Insep, onde cuidei das coleções de filmes. A partir deste período, comecei a editar e reutilizar as filmagens dessa pequena biblioteca e mostrar seus itens desconhecidos.

Sou responsável pela cinemateca do Insep desde 2003. Os primeiros filmes foram feitos para uso interno, apenas dentro do instituto. Depois comecei a dirigir para museus, eventos especiais ou festivais. Com o tempo, esse trabalho foi se tornando mais importante, mais “profissional”. Comecei a atuar junto a uma produtora e dessa colaboração nasceu Um novo olhar para Olympia 52, transmitido pela TV francesa em 2013. Os dois filmes seguintes (John McEnroe no reino da perfeição, de 2018, presente na 42 Mostra, e As bruxas do Oriente) foram produzidos pela UFO Production e lançados nos cinemas. Ainda é uma forma de mostrar a biblioteca de filmes, e ainda os uso para palestras ministradas dentro do instituto.

Toda a atenção do Japão para o que uma mulher era capaz de fazer

Como nasceu “As Bruxas do Oriente”? Você já conhecia esse assunto e decidiu dirigir um filme sobre ele? Ou o trabalho começou quando encontrou os documentários japoneses que descreviam a história dos atletas? Quantos anos você passou fazendo este filme?

Como em qualquer um dos meus filmes anteriores, descobri a história das Bruxas por meio de uma filmagem. Há dez anos, uma treinadora francesa de vôlei (que comandava a seleção nacional de vôlei feminino na década de 1980) me procurou com um filme de 16mm produzido pelos japoneses e destinado a ensinar técnica às jogadoras. Essa filmagem do treinamento das Bruxas me deixou maravilhado. Me fez lembrar de um anime japonês a que assistia quando criança! Comecei a pesquisar e minha vontade de fazer um filme sobre a história se confirmou. É difícil dizer quanto tempo levei para fazer o longa. Eu diria dois anos. E mais alguns anos para conceber o projeto.

O material histórico deste filme tem uma fotografia impressionante. Foi preciso restaurá-lo? Você conseguiu entrar em contato com as equipes de filmagem originais?

Trabalhar numa cinemateca me deu alguns conhecimentos sobre os diferentes materiais, suporte e formato dos filmes. Dou o melhor de mim para procurar as impressões dos negativos originais e peço uma digitalização 4K. Fizemos algumas gradações de cor, mas nenhuma restauração foi necessária. Nobuko Shibuya, que dirigiu o maravilhoso filme O preço da vitória (com a sessão de treinos das Bruxas na fábrica), infelizmente faleceu. Pensei em entrar em contato com Chikako Urano, a autora do mangá Ataque nº 1, mas finalmente não o fiz. É preciso fazer algumas escolhas!

Seu filme não nos mostra o jogo em que o time japonês perdeu para a URSS durante o campeonato mundial sediado no Rio de Janeiro, em 1960. Existem imagens dessa partida? 

Não encontrei nenhuma filmagem deste evento. Solicitei aos arquivos nacionais do Brasil algum noticiário ou filmagem, mas eles não encontraram nada.

Foi difícil reunir as jogadoras para falar sobre esse passado? Elas fizeram alguma exigência preliminar para dar seu depoimento?

Demoramos quase um ano para conseguir encontrá-las. Comecei do zero, pois não tinha vínculo qualquer com os japoneses. Então nós (eu e meu produtor) mandamos garrafas no mar… Uma pessoa na UniFrance finalmente nos deu o contato de alguém que, envolvido nas Olimpíadas de Tóquio 2020, comunicava-se com elas. Meu tradutor foi muito útil e convincente. Também éramos cautelosos, com a preocupação constante em sermos educados e respeitosos. Elas aceitaram falar assim que entenderam nosso pedido.

A montagem deste filme é primorosa, assim como a direção de arte. Quais foram as principais dificuldades que você enfrentou para criar este padrão visual? Sua maneira de fazer a edição atinge o espectador em cheio, ele passa a torcer por elas. A identificação do espectador é uma busca importante em seu trabalho?

Eu tenho de ser o primeiro a me satisfazer com a edição. Como primeiro espectador do meu filme, quero gostar dele. Posso gastar o tempo que for preciso para editar. Nunca trabalho com prazo curto ou comando. Amo editar e fazer filmes. Estou feliz que você tenha sentido prazer em ver o filme.

Os documentaristas japoneses alguma vez entrevistaram essas jogadoras? Ou seu discurso foi simplesmente ignorado pelos filmes da época?

O técnico Daimatsu e a capitã Kasai eram as duas vozes a falar em nome da equipe. Algumas jogadoras só deram entrevistas muito breves depois que os dois faleceram. Encontrei uma verdadeira ausência de testemunhos.

Você construiu um excelente perfil psicológico do Demon Daimatsu. Mostrou-o como um inovador muito exigente, mas também atencioso com suas jogadoras, que por sua vez pareciam adorá-lo. Ou alguma delas rompeu relações com ele em determinado momento?

Todos as jogadoras que conheci me disseram quão sinceramente se sentiam gratas a ele. Foram realmente muito próximas a Daimatsu. Suas conquistas e trajetória comum criaram laços muito fortes.

Sentimos a ausência da voz do técnico no filme. Não houve entrevistas filmadas que você poderia ter usado neste filme? 

Eu não encontrei esse tipo de filmagem de Daimatsu. Talvez não tenha procurado muito. Ele não era meu alvo. Eu estava focado nas jogadoras, aquelas de quem não tínhamos notícias. Era a elas que eu queria dedicar todo o meu filme.

O técnico “Demon” Daimatsu, sem perder a ternura jamais, e suas jogadoras

Não teve vontade de alongar um pouco mais a trajetória do treinador no seu filme? Você acha que isso desviaria o espectador do objetivo principal? Senti uma curiosidade insatisfeita sobre o que ele fazia antes de trabalhar para a equipe de fábrica e depois que suas jogadoras venceram a Olimpíada.

Eu posso entender sua curiosidade. Daimatsu escreveu vários livros sobre sua história, método e carreira. Sua vida e ponto de vista foram bem documentados. Meu objetivo neste filme foi focar nas jogadoras apenas porque elas não tiveram a oportunidade de falar por si próprias. Daimatsu, Kasai, jornalistas e observadores falavam em nome delas. Desta vez, quis lhes dar a oportunidade de expor seus pontos de vista e sentimentos.

Quanto lhe encanta o cinema japonês? Algum dos cineastas do país influenciou sua carreira como diretor?

Gosto de cinema japonês e de anime com certeza. Mas esse cinema não me influenciou direta ou conscientemente. O cineasta francês Chris Marker (1921-2012), que desempenhou um papel importante na maneira como comecei a fazer filmes, era um amante do Japão. Seu filme Sunless (1983), parcialmente localizado no país, é muito importante para mim. Mas ainda não exerceu nenhuma influência direta na maneira como dirigi As Bruxas do Oriente. Segui o caminho das filmagens de origem, o testemunho das jogadoras e resolvi problemas técnicos. O estilo do filme não seguiu nenhuma ideia anterior ou fixa. Gosto de fazer filmes que encontrem estilo no processo de fazer. “Naturalmente”, se você quiser assim. A forma tem de servir e se adequar ao assunto, em minha opinião.

Quais são as suas principais influências cinematográficas, principalmente no campo do cinema esportivo? Como você vê o trabalho de Leni Riefenstahl em Olympia?

Mencionei o Marker como uma grande influência. O trabalho de Riefenstahl era visualmente muito sofisticado e inovador. Ela teve muitos apoios e fundos para fazer seu filme. Eu pertenço ao mundo indie do cinema. Não sinto nenhuma conexão pessoal com ela, na verdade.

Você acredita que sempre será um diretor de temas esportivos? Ou pretende fazer documentários sobre outros temas ou mesmo ficção?

Nossas vidas são feitas de oportunidades. Quando comecei a dirigir a cinemateca do Insep, encontrei lá a oportunidade de fazer filmes de fundo. Não vejo o “tema esportivo” como uma limitação. Não me sinto frustrado com isso. O tema de um filme não faz todo o filme, o cinema sim é importante. A forma e a narração de um filme importam. Temas esportivos me deram boas oportunidades até agora. Eu me diverti muito. É também um território totalmente desconhecido, uma chance para qualquer cineasta que queira criar sua própria obra. Se lhe dão a oportunidade de fazer uma ficção… por que não?

Você pode nos dizer qual será o seu próximo projeto de filme?

Estou começando a pensar em um novo assunto, mas ainda não sei se conseguiria fazer um filme com ele. Preciso trabalhar nisso ainda, desculpe! Seria sobre um tópico de esporte também, mas um tópico muito incomum.

AS BRUXAS DO ORIENTE

França

Direção Julien Faraut

Documentário

2021 cor & pb 100 min.



TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=np232nnEmvQ

DESTINO

Para viver, preciso dos
enfeites multiplicados,
dos retratos
de autoengano
vingando dores antigas.
O tempo me arredonda
ruim.
Não dorme ao meu lado,
o tempo.
Ele percorre outras moradas elegantes,
destrói os acertos que ingenuamente colecionei.
Contra o grande aniquilador,
no entanto,
resta meu olhar,
que procura o seu até o fim.

Mania de chover

Ontem a caminho de Pinheiros, o mausoléu…

Ganhei um resfriado forte.
E os quilos a mais, já venho ganhando faz tempo.
Estas teriam sido duas boas razões a impedir minha saída de casa nessa chuva para ver… pessoas.
Mas mesmo assim saí.
Eu havia me prometido assistir ao show de Saulo Duarte, Anaïs Sylla, Victoria dos Santos e Caê Rolfsen que reabriria o Bona, casa-restaurante de Pinheiros.
Fui e ainda bem.
Que delícia de show, dê uma olhadinha.

Palhinha de show


Eles são talentos muito diferentes e juntos se parecem com amigos de infância.
Um pouco acanhados com aquela rentrée, talvez?


Já eu sou acanhada sempre.
E na casa de show me senti a mais velha das criaturas.
Porque ainda por cima vocês me enganaram.
Ninguém deixou de pintar o cabelo na pandemia, não…
A certa altura fui apresentada à grande Anaïs e só me ocorreu dizer “prazer”, como se eu fosse a tia da secretaria recebendo a estudante nova.
Não sei se vocês já assistiram ao Seinfeld, mas às vezes eu tenho o sentimento de inadequação do George Costanza e quero consertar as bobagens que fiz rápida e transtornadamente, como ele.
Contudo, nesta noite, nem me mexi.
A gente se desabitua à vida, sabe?
E de máscara, se não nos conhecem, não existimos.

Lotar realmente é uma
qualidade, certo?


Pra ser sincera, fiquei temerosa mesmo foi com o tanto de gente pra ver o show.
Mas dominei o pânico.
Quando saí de lá, de quebra, pude ver pela janela do uber a coisa estranha que Pinheiros vem se tornando.
O que é aquele canteiro de obras concorrentes ao maior paliteiro do mundo?
Paliteiro não…
Está mais pra mausoléu.
Obrigada pela atenção, mores, e parabéns a vocês que permanecem em casa escondidinhos de todo mal, amém.