oprah, a lula lá

o discurso de oprah,

como o de lula, é um daqueles

fatos impressionantes

de nosso tempo.

tão atento às ênfases e

às particularidades,

à enumeração dos

problemas e das categorias

profissionais…

um discurso rico, popular, perfeito!

sempre achei

(quero dizer, desde o início)

que os americanos escolheram

obama porque não puderam

optar por um ator melhor…

Ressuscita, Chaplin

Donald Trump.

Ele jamais esperava ganhar a eleição, diz Michael Wolff em “Fogo e Fúria”. O livro, que está pra sair, foi feito a partir de duas centenas de depoimentos de fontes próximas ao presidente dos EUA.

O velho, diz Wolff, queria apenas ter estado muito perto do poder, por calcular que isto daria um up nas suas empresas em baixa.

Não queria o poder político, por não saber do que se tratava.

Melania, a esposa, chorou desesperada na noite da vitória, enquanto Trump, ele mesmo, com o globo nas mãos, virou uma barata tonta resignada a viver fora da Trump Tower.

Ele não queria ou não sabia ler relatórios.

Pediu duas tevês para seu quarto na Casa Branca, enquanto a esposa dormia em outro cômodo. Dormia e chorava.

Trump quis trancar a porta de seu dormitório, mas o serviço secreto lhe disse: melhor não.

O presidente deixou suas camisas no chão, veio a limpeza e as pôs no guarda-roupa. Ele enfureceu-se. Ordem presidencial: o presidente põe as camisas onde quer.

Trump vigia sua velha escova de dentes, porque desconfia que será a arma para seu envenenamento.

Sem nomes pra sugerir aos ministérios, veta os homens que usam bigodes.

Seu chefe de gabinete o descreve como uma criança cujos desejos devem ser adivinhados.

(Tive um patrão igualzinho.)

A filha do presidente, Ivanka, é a única que pode ironizar sua ausência de cabelos e o decorrente penteado do pai. Convenceu Trump a nomeá-la ao governo, mas alguém no gabinete o alertou para uma palavra nova: nepotismo. Jared Kushner, marido de Ivanka, é seu testa-de-ferro. Eles têm todo o poder.

Ivanka sonha em ser a próxima (e primeira) presidenta americana. Ela, não Hillary.

Vamos ressuscitar Charles Chaplin, please?

Horror indistinto

Dois sem-teto estão ao meu lado.

O negro aproxima-se de mim profissionalmente.

Não o vejo chegar ao caixa onde eu pago um sorvete.

E, quando lhe dou dinheiro, todos na padaria riem de mim.

O segundo sem-teto não me vê.

Magro, loiro, barba, cabelos ondulados e longos, olhos azuis que o transformam em uma espécie de Jesus de calendário, ele se ajoelha  volta da igreja São Luiz.

Eu é que me aproximo.

Dou-lhe dinheiro, muito pouco.

Mas não sei se ele quer meu dinheiro ou um milagre.

Dou-lhe dinheiro por não saber o que fazer.

Peço-lhe seu nome.

Não diz.

Não sei se ele quer meu dinheiro ou um milagre.

A voz treme.

Ainda não é uma voz.

Minha boca de mãe

Ando com o amigo e mestre pelo centro quando ele se apieda de uma linda mulher abandonada à rua.

Sentada no chão, ela olha de lado como quem não vê ninguém, exceto a si. Todas as portas abertas à melancolia.

– Vou dar dez reais a ela. Você entrega? – meu amigo diz. Ele é tímido para estes contatos.

– Vamos juntos. – respondo. – Eu tenho mais seis.

Linda, negra, a sem-teto (anos indefiníveis; eu diria quarenta, mas pode ser que não tenha trinta) mal acredita em tanto dinheiro nas mãos.

– É muuuito, muito.

Sorri, meio que chora. Não abaixa a cabeça, contudo:

– Vocês estão me dando isto, mas vou gastar com pinga, tá?

E mostra com orgulho, a seu lado, aquele destilado que já vi rodar em festa na garrafinha de água de plástico.

– Mas você vai comer também? (Me arrependo da pergunta assim que sai da minha boca de mãe.)
Ela sorri.

– Pode gastar com pinga – diz meu mestre.

– Você tem amigos por aqui? Cães? (Pergunto porque quero experimentar o alívio de saber que ela sempre poderá contar com a solidariedade de um rosto.)

– Vou sozinha. Não gosto de ninguém comigo. Sou… perturbante.

Nos despedimos. Meu amigo pede que ela fique bem e eu lhe jogo um beijo.

– Vão felizes, casal mais lindo! – ela diz, quase como se cuidasse de nós.

Rimos. Tudo nela corresponde à tristeza. Não sei o que fazer por alguém tão inteligente que perdeu as esperanças.

Adivinhe quem vem

50 Anos de “Adivinhe quem Vem para Jantar”.

Você sabe quem vem pra jantar? 

Os pais do “negro”.

A tensão racial em época de luta pelos direitos civis é a razão do filme teatral de Stanley Kramer, que bem poderia tê-lo rodado em preto&branco, mas, de qualquer modo…

… o filme é feito para Spencer Tracy brilhar.

O ator que Marlon Brando julgava ser o melhor do mundo, a reviver o cinema de um quarto de século atrás.

Spencer Tracy, que reluz em todo espectro de atuação, mas aqui, especialmente, evidencia o mais espinhoso, o humorístico.

Os homens que tudo entendem depois das mulheres.

Katherine Hepburn, atriz luminosa transformada em escada para Tracy. 

Que altivez ao desfilar tão horríveis figurinos!

E uma grande entrada para Sidney Poitier, sobre quem nem todas as palavras bastariam.

Adeus a um grande

Comecei a escrever sobre HQ para o JT no final dos anos 1980. Na época não era comum que as mulheres lessem ou fizessem quadrinhos. Apesar disso, em minha lida semanal, me vi totalmente acolhida (e sem qualquer preconceito, coisa rara então) por gente séria da área, como o Mauro e o Douglas da distribuidora e editora Devir.

O Douglas morreu hoje, o que me deixa sem palavras. Tinha 63 anos e já não podia contar com o Mauro, morto em 2012. Eram jovens de cabeça e de coração.

Eu conversava mais com o Mauro. Ele comentava tudo o que eu cometia no jornal, e de um jeito muito particular. Uma vez analisou assim uma resenha simples: “Você escreve uns textos de fantasia tão bonitos.” Me senti honrada. Eu tinha um gênero de escrita!

Tudo o que esses dois pensavam adquiria enorme importância, e mesmo determinava o rumo de nossos pensamentos.
Douglas, meu caro, obrigada por tudo e adeus.

Somos todos irmãos 

Não se esqueçam de que a polícia age com truculência mesmo entre a classe média quando o assunto é manter privilégios dos favorecidos pelo governo golpista (os três por cento que apoiam Temer).

A polícia bateu, torturou e deteve ilegalmente menores manifestantes nos últimos dois anos. E a justiça considera condenar aqueles jovens que nem mesmo haviam iniciado sua protesto e se reuniam em um centro cultural há um ano, delatados por um infiltrado.

Não se esqueçam de que os infiltrados iniciam a violência (contra as vidraças de bancos e de ônibus) pela qual algum tempo atrás vocês acusaram os jovens.

As escolas foram cercadas, os currículos, subtraídos, suas ocupações e manifestações, combatidas. São os jovens os primeiros a dar a cara a bater contra as opressões em qualquer sociedade sob tirania, aquela de São Petersburgo do czar ou a da invasão de Praga ou a do Chile que assistiu à morte de seu líder cercado no palácio.

Nossos jovens estão desmobilizados pela violência.

Vocês não vão às ruas. Vocês estão aqui comigo, reclamando muito, sob a vigilância do algoritmo.

Os donos de jornais recebem sem ser lidos. Muito dinheiro governamental. Jornais não precisam de jornalistas e o texto acabou, exceto o do Waack e o da Gloria Perez, esta tão sensível às pesquisadas pautas modernas.

Vocês sustentam a tevê com sua audiência tolerante.

Vocês pensam que sabem, mas ainda não sabem, o que é viver sem proteção trabalhista e previdenciária, porque as restrições ainda não se regulamentaram.

Vocês são surpreendidos, ofendidos e humilhados pelos conluios fascistas. Mas a maioria dos seus amigos não entendeu o que se passa. Eles idolatram juízas. Eles desistiram da informação dos jornais sem texto.

Um dia os golpistas prenderão e arrebentarão aqueles que os sustentaram entre as altas esferas, e estes, assim como os pobres da direita, começarão a se sentir desfavorecidos e mobilizados.
Só assim vocês sentirão no ar o inevitável sopro da história a seu favor.

Enquanto isto, não custa apoiar a classe artística censurada, parte dela apoiadora do golpe.

Somos todos irmãos.

são paulo do fim

são de todos os lugares,

negros, loiros, acabados,

mais homens que mulheres,

elas normalmente companheiras,

sem casa nem teto.

o que mais aterroriza 

meu coração

é ver aquelas noites de fogueira na praça dom josé gaspar 

que eu imaginava findas

e as gangues de adolescentes

gritalhonas sob as tendas

como se nunca tivéssemos

abandonado o crash de 29

e a depressão dos trinta.

Âmbar gris

Insisto em ver do meu modo

Insisto em ver

No susto 

Um selfie não é pior que a lama do carro 

transformada em cocada negra 

pelo filtro mayfair 

Quero constatar

A doce luz dos veraneios nas pontes da liberdade ampliada em mim

Um himalaia de sal nos cobre 

Azedamos todos 

Esquecidos de que já vencemos  

Me deixe de lado, não é difícil 

Mas acompanhe o dono do pequeno gesto

A criança em sua cadeira

O sonho dos pedintes