Quando a energia masculina resulta em ilusões perdidas

Sou esta pessoa que não acompanha podcasts. Só ouço música no Spotify e leio reportagens. Meu tempo de rádio se foi. Nele, os apresentadores “escreviam” ao vivo. E eu gostava dos improvisadores escalafobéticos, do tipo do Gil Gomes, que sabiam dividir os tempos e narrar em crescendo, com exagero, as histórias de banditismo mais simples.

Imagino que improviso não seja o caso deste “CPF na nota?”, episódio do podcast Rádio Novelo no qual a escritora Vanessa Barbara narra o abuso que sofreu por parte do ex-marido, o editor André Conti, 14 anos atrás. Aparentemente, o sujeito expunha suas traições a outros tolos igualmente boquirrotos num grupo de e-mails.

Se não é um Gil Gomes quem narra, o que pode me atrair nos detalhes das conversas expostas? Creio que nada. Só me interesso pela treta em si, essa que expõe a velha misoginia tão presente na elite masculina do clube de jornalismo cultural & de letras Brasil.

Conheço alguns dos envolvidos no episódio, direta ou indiretamente. Um deles, certa vez, me procurou para saber detalhes de minha diferença com um jornalista jovem, louco para ser reconhecido como herdeiro do Francis, e que muito me prejudicara profissionalmente. Esse que me procurava, contudo, não tinha moral pra me fazer tal solicitação, pois à época estava por baixo, vítima de uma maquinação de assessoria que lhe custara o emprego. Por que eu lhe contaria o que passei? Um segundo me ligou para que eu falasse mal de um livro do mesmo candidato a herdeiro, o que prontamente recusei (não porque gostasse do livro ou respeitasse seu autor, mas porque… por que ele mesmo não acertava as contas com o candidato à herança? que lesse o livro e o resenhasse, ora.) E o terceiro, esse cuidava de HQ em respeitada editora, e nunca quis me dar nenhum contato com autores pra entrevista.

Enfim, jovens machos letrados bem-sucedidos que esperavam ser laureados por nós, mulheres submissas do jornalismo. Eu só não imaginaria que tivessem deixado impressas as pegadas de sua burrice.

Se eu fosse editora do podcast, ouviria o “outro lado”? Quase certamente, eu faria a história durar em outros episódios nos quais esses homens seriam ouvidos, mas só por gosto pela treta mesmo. Acontece que não faço rádio. E treta, tenho evitado até nos pesadelos.

Não tenho o link do podcast, mas deve ser fácil de achar pelo google. Abaixo, vai o texto da coluna de Mônica Bergamo sobre o assunto.

“Podcast sobre relacionamento abusivo abala meio literário”

“Um episódio do podcast Rádio Novelo abalou o mundo literário ao trazer o relato da escritora Vanessa Barbara sobre o fim do seu casamento com André Conti, editor e sócio-fundador da Todavia, há cerca de 14 anos. Ambos já foram colunistas da Folha.

No programa, chamado ‘CPF na Nota?’, Barbara narra em 50 minutos como descobriu, em 2011, que era vítima de violência psicológica durante seu casamento. Ela relata que o então marido compartilhava detalhes íntimos de traições em um grupo de emails com outros 15 homens, todos também escritores e jornalistas.

Entre eles estão autores famosos da geração que despontou no país neste século: Daniel Galera, Michel Laub (ex-colunista da Folha), Joca Reiners Terron (ex-colunista da Folha), Paulo Scott, Daniel Pellizari (ex-colunista da Folha), Emilio Fraia e Antônio Xerxenesky.

O episódio foi ao ar na quinta passada (16) e a repercussão foi crescendo durante o fim de semana. Na segunda (20), chegou às redes sociais. Desde então, nove envolvidos vieram a público se manifestar.

‘É nesse ponto que conto como ganhei a minha cicatriz’, diz Barbara, no podcast. ‘É de um relacionamento abusivo que eu tive muito tempo atrás. Aliás, fica o alerta de gatilho: essa história contém ameaças, coerção, gaslighting, exposição, humilhação e isolamento, ou seja, é puro suco de violência psicológica.’

André Conti respondeu na manhã de segunda: ‘Manipulei e coagi minha ex-esposa de forma machista e misógina’. Ele reconheceu que ‘num grupo de emails, expus pessoas, traí amigos e colegas e inventei intrigas’.

Na manhã de terça (21), a Todavia se posicionou dizendo que ‘reconhece a gravidade dos acontecimentos narrados no podcast que envolvem um de nossos sócios. Compreendemos a indignação causada pelos diversos exemplos de machismo e misoginia. Sentimos muito, sobretudo, pelo sofrimento causado à vítima. No momento, buscamos garantir a manutenção de um espaço de acolhimento para nossas colaboradoras e colaboradores.’

Comentários de internautas ao comunicado, a maioria escrita por mulheres, pediam que Conti fosse removido de suas funções na editora. À coluna, ele disse que só o CEO da Todavia, Flávio Moura, poderia responder. Moura afirmou, então, que ‘nosso posicionamento é o que está no post’.

A atual esposa de Conti, a também escritora Natércia Pontes, contestou a narrativa com um longo texto em seu blog pessoal. Segundo ela, Barbara manteve contato com Conti nos últimos anos e, há seis meses, enviou email pedindo ajuda para divulgar seu novo livro. Segundo Natércia, ele não respondeu a esse pedido.

‘Meu marido errou. Mentiu. Foi um crápula imaturo. Há catorze anos’, escreveu ela, questionando por que Barbara decidiu trazer o caso à tona agora. ‘Como não obteve resposta desse último e-mail, reflito depois das minhas tristes conclusões, preferiu fazer um podcast para assassinar a reputação do meu marido e de homens, nem todos brancos como ela descreveu, que precisam de seus trabalhos e que têm famílias para sustentar, junto as suas mulheres, que também trabalham. Tudo isso nesse país de merda, onde é quase impossível sobreviver da escrita e do jornalismo.’

Pontes acusa a Rádio Novelo de não ter procurado outro lado da história. A Novelo disse à coluna que não vai se pronunciar sobre o caso.

Michel Laub disse que ‘muita coisa mudou’ nos últimos 14 anos e que as pessoas ligadas à história ‘viraram protagonistas numa trama que está sendo tratada nas redes como conspiração do presente, envolvendo pessoas poderosas envolvidas em crimes os mais diversos’.

‘Quanto às imputações de crimes, estou fazendo prints e decidirei que medidas tomar a respeito’, completou, em seu texto dividido em cinco pontos.

Joca Reiners Terron criticou o podcast por não ter ouvido o outro lado da história e afirmou que envolvidos estão sendo vítimas de ‘linchamento online’ e de ‘tentativas de hackeamento de contas e acusações descabidas. A obsessão pelo punitivismo precisa evoluir para uma argumentação lógica que nos conduza para além do atual maniqueísmo’, acrescentou.

Emilio Fraia afirmou que sente e sempre sentiu ‘demais por tudo o que aconteceu. Da minha parte, peço desculpas a Vanessa. Quero poder dialogar, aprender com os erros e, sobretudo, escutar.’

Paulo Scott, que foi o primeiro a se manifestar, disse que ‘a responsabilidade pela dor legítima de uma pessoa que fez parte de uma relação conjugal encerrada dolorosamente não pode ser estendida a pessoas que, direta ou indiretamente, nada fizeram para o fim dessa relação ou interferiram em seus desdobramentos posteriores’.

Daniel Galera disse que se solidariza ‘com a dor de todos os envolvidos’, mas rebateu a narrativa do podcast. ‘A maneira como [a lista de emails] é descrita no podcast é inverídica. Também é inverídica a alegação de que participantes teriam ativamente criado empecilhos pra carreira da Vanessa’, escreveu.

André Xerxenesky afirmou que não conhecia Vanessa à época, mas enviou ‘o mais sincero possível pedido de perdão. Fomos todos criados num imenso caldo de machismo e misoginia e reproduzi falas e comportamentos por volta dessa época dos quais me arrependo e me envergonho.’

À coluna, Hermano Freitas disse que o assunto ‘é de natureza pessoal’. Daniel Pellizzari e Marcelo Träsel não quiseram se manifestar.

A história não é nova. Barbara já havia abordado o fim do casamento no romance ‘Operação Impensável’ (2015) e em um texto para a revista piauí em 2017 chamado ‘O Dia que Aprendi a Lutar Caratê’. Assim como na revista, no novo podcast ela alterna suas falas com as de sua instrutora de caratê, Heloíse Fruchi.

A reportagem procurou Vanessa Barbara, que não quis se manifestar. No podcast, ela afirma que sofreu retaliações profissionais após denunciar o caso e que precisou se afastar do meio editorial brasileiro. Isso foi contestado por alguns dos envolvidos, pois ela teve livros publicados por selos da Companhia das Letras, onde trabalhavam Conti e Emilio Fraia, e publicou diversas matérias na revistas piauí, onde seu ex-sogro, Mario Sergio Conti, foi diretor de redação entre 2006 e 2011, além de ter colaborado com grandes jornais.”

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