No documentário “Trilha sonora para um golpe de estado”, candidato ao Oscar, a história revolucionária africana acolhe a cadência do jazz

Tudo pulsa no documentário “Trilha sonora para um golpe de estado”, candidato ao Oscar 2025. Seu diretor, o belga Johan Grimonprez, promove um estado de reflexão que não cessa no decorrer do filme. Pensamos e sentimos por meio da montagem de Rik Chaubet, a entrelaçar fotos e fragmentos documentais sob a cadência do jazz. Mas não de qualquer jazz. Neste filme produzido por belgas, holandeses e franceses, só vale a música urgente, partícipe, que instiga à libertação social, à conquista dos direitos civis e à celebração da existência plena.

Louis Armstrong, Thelonious Monk, John Coltrane, Duke Ellington, Max Roach, Abbey Lincoln, Dizzy Gillespie, Nina Simone, Archie Shepp, Melba Liston, Ornette Coleman, Art Blakey, John Coltrane. Estes são alguns dos músicos que, dentro do filme, movimentam o raciocínio do espectador e constroem sua escuta.

por holandeses, franceses e belgas
Em “Trilha sonora para um golpe de estado”, os oprimidos da terra combatem a chaga colonialista de europeus e estadunidenses. Sedentos do sangue e do minério africanos, os brancos conspiram para matar, e uma Organização (Criminal) das Nações Unidas estende-lhes o tapete para que o extermínio ocorra a contento. Um personagem destaca-se contra o estado de coisas, com carisma e humor: o líder russo (entre 1953-1964) Nikita Kruschev, a cobrar da ONU a legitimação de Patrice Lumumba (1925-1961) no poder, no Congo. Ao assistir a este documentário por duas horas e meia, nosso retrovisor começa a apontar para a frente, para o hoje, para o sempre.

O Congo ainda está aqui. Cheio de feridas e usurpação. Em 1960, Cuba triunfara e os negros, desonrados nos Estados Unidos de Eisenhower, olhavam para a África. Eles tinham um exemplo principal a seguir: o congolês Patrice Lumumba, eleito pelo povo para obter o que ele próprio, por algum tempo, julgou ter conseguido – a libertação do domínio belga, com a ajuda da estrategista Andrée Blouin.

Allen Dulles: o sorriso do líder soviético surgia
nos intervalos das contendas
O olhar de Lumumba é doce, direto e fundo. Vemos não seu triste fim, mas um olhar do fim, difícil de esquecer. Malcolm X também se lembraria de tudo. No filme, falam ele, mercenários ingleses e alemães, chefes da CIA como Allen Dules, a “inteligência” britânica. Vemos como Armstrong foi enviado pelo Departamento de Estado do seu país para “distrair” o povo africano antes do golpe final – e como Armstrong se deu conta de que o enganavam. O mesmo ocorreria com Nina Simone, mandada à Nigéria para apresentar-se, sem desconfiar que a usavam para acalmar os ânimos revolucionários da população local.
Um filme extraordinário.
Estreia dia 30 de janeiro no Brasil.
