
“Sem chão” (No other land) é um filme-diário sobre a luta pela terra palestina. Um filme jovem, urgente, feito de esperança sem razão, boicotado pelos distribuidores nos Estados Unidos e vítima de apagamento. Um candidato ao Oscar de documentário em 2025 como se isto constituísse uma ousadia impensável…
Neste documentário, Basel Adra, jovem de origem camponesa formado em Direito, desacredita dos tribunais e vive para informar ao mundo que os israelenses roubam a terra dos seus ancestrais sem cerimônia ou dignidade. O jornalista israelense Yuval Abraham, que aprendeu árabe com um colega e a partir dele compreendeu a causa palestina, segue os passos de Basel munido de comprometimento, a ponto de juntos, na companhia de Hamdan Ballal e Rachel Szor, editarem “Sem chão” sob a perspectiva do palestino, ou seja, do perdedor.
A família Adra pertence a Masafer Yatta, um povoado fundado pelos palestinos em 1830 no sul da Cisjordânia, mas reivindicado em 2019 pelos israelenses por meio de uma determinação de sua Suprema Corte. Os sionistas decretam que a região montanhosa deve servir para o treinamento de tanques do exército de seu país – e não, nunca, para abrigar um bando de despossuídos árabes que, a partir daquele ponto, poderia sonhar com mais.
Assim é que escavadeiras, tanques e soldados israelenses destroem tudo o que Yatta constrói: suas humildes habitações, escolas, até um curral de ovelhas e um playground. Eles não podem esperar. Precisam desfazer tubulações, fiações, cozinhas, brinquedos, o que vier, diante dos olhos revoltados dos reais proprietários, para que o teatro de destruição cotidiana se efetive. Contudo, as pequenas câmeras e os celulares da família Adra, assim como o equipamento do jornalista israelense, jamais param de funcionar, registrando com agilidade, sob pena de agressão, morte ou invalidez, todos os movimentos do Estado de terror.
O plano sionista não declarado, mas já em parte realizado, é encher a região de ocupantes israelenses cujas casas são eficientes e cheias de luz. Enquanto isso, os resistentes fogem para as cavernas sujas da região à espera de reconstruir suas casas, todas as manhãs, naquele exato local onde foram derrotados no dia anterior.
Quem ganha a luta, podemos adivinhar. Quem fará os camponeses se mudarem para as cidades entulhadas, onde míseros apartamentos abrigarão famílias inteiras, serão os israelenses.
Aquilo que não sabemos, contudo, constitui o cerne deste belo filme. Ele está localizado na luta que se faz todos os dias, não importa quantos palestinos resultem feridos ou inutilizados pelos explosivos do exército ou pelos tiros dos colonos armados. O cerne é o senso de pertencimento. O calor familiar. O amor às crianças. O humor de quem nunca desiste de estar ali.