um jornalista se vai, mas há muito o jornalismo se foi

Soube de Marcelo Beraba, jornalista que morreu hoje, em dois momentos. O primeiro deles, quando ele era diretor da sucursal do Rio da Folha e eu, redatora de Geral, em São Paulo. Não nos conhecíamos pessoalmente, mas nos falávamos por telefone. Comigo, era correto e gentil.

Pedi demissão da Folha em 1988 e, alguns anos depois, fiz a besteira de participar de uma seleção para trabalhar novamente nela, desta vez na Ilustrada. Sim, uma seleção para redator com questionário e tudo. Beraba leu minhas respostas, gostou muito delas e, na minha frente, durante a entrevista final, perguntou à editora do caderno por que ela riscara tudo o que eu escrevera. “Alguma coisa errada aqui?”, questionou. Ela não respondeu. Riu.

Fiquei com essa impressão boa do desafio que ele fez à autoridade do caderno, diante de mim. Ah, se todos os profissionais trabalhassem com critérios profissionais! Embora eu esperasse que um secretário de redação fosse mais decisivo do que Beraba foi naquele momento para mim, hoje compreendo suas razões. Ele não poderia ter desautorizado, diante de uma estranha, alguém que Otavinho escolhera para comandar o caderno. E como o secretário poderia saber que o concurso era só uma formalidade? A vaga de redator já tinha dono, alguém sem caráter, por sinal, com quem vim a trabalhar anos depois.

Deve ter sido um bom profissional, o Beraba. E eu sinto muito por sua morte agora, aos 74 anos.

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