O veneno das espumas

De volta para meu futuro

O mar é o meu maior medo. Maior que a morte, talvez. 

Sempre fantasio que morrer é um passo em falso até o chão. Morro metaforicamente uma vez por ano ao cair nas calçadas paulistanas, lá onde aprofundo pouco a pouco minha frouxidão ligamentar. Um tropeço, o cimento, o nada: eis a morte pra mim.

Minha visão do mar parece mais aterrorizante porque, ao contrário do que ocorre no chão, dificilmente vejo o fim chegar. Se o mar me engolir, não vou parar em destino sabido. Cairei em um precipício onde me aguardarão arraias de três cabeças, peixes com presas de mamute e espumas venenosas. E o balé não acabará aí. Ainda haverá o tribunal de gorilas carnívoros a cercar o trono flutuante, uma etapa a mais do pesadelo a que serei submetida. 

O presságio da morte em água salgada nasceu quando eu era criança. Tinha 4 anos quando minha mãe me levou para pular as ondas na beira da praia do Futuro. Em Fortaleza, o mar não é para amadores, e minha mãe, que não sabia nadar, caiu num buraco comigo. O vento soprava com tal fúria que a praia parecia mudar de formato constantemente. Eu submergia. A cada par de segundos, minha mãe tentava me levantar pelos braços, o que, ao contrário do esperado, me fazia afundar mais. Lembro-me do maiô preto de helanca que ela usava, com o decote em V. Sua cabeça estava onde eu não podia ver.

Em súbita arremetida, contudo, vi meu pai chegar em nosso socorro, ele que aprendera a nadar quando um dia lhe atiraram ao Tietê. Sua técnica de braçada não funcionava direito porque a cabeça estava sempre fora d’água. Era como se ele se debatesse também.

Como sobrevivemos, não sei. O vento deve ter congelado as arraias, os peixes e os gorilas para nos deixar passar. Curioso que agora eu me sinta tão feliz no mar da Bahia, contra tudo e contra todas as evidências do veneno das espumas.