
O império da subjetividade reconta a grande humilhação sofrida pelos negros estadunidenses durante a segregação. “Nickel Boys”, candidato ao Oscar 2025 a melhor filme e melhor roteiro adaptado, nasceu da obra homônima do escritor Colson Whitehead, de 55 anos. Vencedor do Pulitzer em 2020, o romance se apropria de elementos de um massacre real de jovens negros na Flórida, durante a vigência das leis Jim Crow, entre 1877 e 1964, para ilustrar a segregação assassina no Sul do país.
Ponha de lado o afrofuturismo. Esqueça por enquanto a beleza negra que empossou reis e rainhas ancestrais. Há menos da brilhante África aqui e mais da realidade ocidental nos Estados Unidos, onde historicamente a vida negra careceu de importância. Ao inverter o caminho interpretativo escolhido em anos recentes, o diretor RaMell Ross (um estadunidense de 42 anos nascido na Alemanha) promove menos agência ou resistência por parte dos pretos e mais descrição da brutalidade sofrida por eles.
Os jovens negros do reformatório Nickel só têm quatro possibilidades de escapar do inferno, diz o personagem Turner (Brandon Wilson): a improvável saída pelos tribunais, o cumprimento integral da pena injusta, a fuga e a morte. Turner conclama o colega interno Elwood (Ethan Herisse) a fugir. Um filme dentro do filme, do qual vemos sequências durante esta narrativa, é aquele protagonizado por Sidney Poitier e Tony Curtis em 1958, “Acorrentados” (The Defiant Ones), a contar a fuga de dois presos inicialmente rivais.
Elwood resiste à fuga porque acredita no estado de direito, na possibilidade de defesa, especialmente na intensificação da luta, conforme ela vinha sendo travada pelo líder Martin Luther King, cujos trechos de discursos também vemos no decorrer do filme. Elwood leu Jane Austen. Aluno exemplar em Tallahassee, ele partia para uma bolsa universitária quando se viu injustamente preso no Nickel, onde nada de bom esperava pelos menores segregados.
Para narrar tudo isto, a câmera é subjetiva sempre, com muitas sequências feitas na mão. Mas o subjetivo varia conforme a história anda. Quando a narrativa é em tempo real, quem vê o que se passa é Elwood. Quando a narrativa se passa no futuro, a coletar memórias, a câmera subjetiva é de Turner, que, na sua representação adulta, curiosamente cita a aparência atual do escritor Whitehead.
A escolha por menos ação e mais poesia, em muitas sequências belamente fotografadas, é ousada para encenar o livro. Às vezes a câmera subjetiva funciona bem, como na sequência inicial, onde Elwood está desaparecido da visão familiar. Dentro do reformatório, contudo, quando se alterna entre Elwood e Turner, dois meninos imersos na atmosfera do movimento pelos direitos civis e da conquista da Lua, ela não parece contar a história muito bem.
Ouvimos ecos, experimentamos distâncias e sentimos cada vez menos envolvimento durante as duas horas e vinte minutos do filme. Há, contudo, boas reconstituições dos anos 1960 na direção de arte e na fotografia, que às vezes cita Gordon Parks. A trilha sonora, o jazz, sublinha a imersão subjetiva pretendida pelo diretor. Os dois protagonistas são bons intérpretes, assim como Aunjanue Ellis-Taylor, no papel da avó Hattie, e Hamish Linklater, como o cruel diretor Spencer. Talvez o que falte ao filme seja justamente uma intenção realista, menos palavras e mais timing ao suceder fatos tão cruéis.