Sciuscià

Vou dedicar o dia das crianças ao Éverton. Ele é este menino lindo de 15 anos. Achei que tivesse menos.

Vocês talvez vejam pela foto que ele segura um lanchinho e que entre suas pernas está o caixote de engraxate.

O lanchinho ele comeu hoje, porque me pediu. Eram 11h30, eu passava pela rua Pamplona e ele tinha fome. Não quis entrar comigo na lanchonete e comer lá mesmo.

Veio de Santo Amaro pra esta região de carona. Está tentando trabalhar como engraxate porque já fez isto outras vezes.

“Sciuscià!”, gritavam os órfãos aos soldados americanos durante a Segunda Guerra. Assim os meninos italianos compreendiam a palavra “shoeshine”, que significa “lustrar sapatos” em inglês. Com o tempo, “sciuscià” virou sinônimo de engraxate, como eternizou Vittorio de Sica em seu belo, duríssimo filme de 1946.

Éverton me respondeu que não o deixaram engraxar na Paulista. Parou às oito na Pamplona e, depois de três horas sem cliente, sentou-se no degrau do edifício. Perdeu um dia de aula inteiro, porque estuda sim, como me garantiu, na escola Oswaldo Aranha. E hoje não deu pra ir.

Tudo isto ele disse sem sorrir nenhuma vez. Menino articulado, soube falar e me ouvir.

Sugeri que de uma próxima vez fosse ao centro, já que há mais engraxates por lá, espalhados pelos calçadões. Ele não sabe onde é o centro. Ensino-lhe como fazer a partir do ponto em que estamos, caminhando, já que não pode pagar passagem.

Mas, claro, digo tudo isso encabulada, sem ouvir a mim mesma.

Pergunto-lhe se não acha melhor vir a esta região acompanhado. Diz que sim. É irmão do meio entre seis. A mãe não trabalha mais, porque tem um problema na mão. O pai abandonou a família. Eles podem perder a casa.

Tenho uma confiança no Éverton que não sei de onde vem. Do seu modo de falar sem rodear. Da roupinha puída que colocou com jeito. Dos olhos tristes que não temem, mas estão cansados.

Dou-lhe o dinheiro da minha carteira. Ele agradece sério.

Me despeço e viro o rosto pra ele não me ver chorar.

Vou subindo a rua, olho pra trás, faço um aceno com a mão. Ele não devolve o gesto, mas me dá um sorriso de ladinho.

Te desejo tempo, meu menino.

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