Desalinho vip

Parecia-se comigo e me animei.

Cabelos pintados da mesma cor cortados a altura semelhante, óculos que viravam uma tiara como os meus, idêntico tom de pele, às vezes mais jovem para a idade, às vezes menos, a depender da incidência da luz do sol.

Eu observava a motorista do uber de costas e ela me devolvia o olhar pelo retrovisor, como se jogássemos uma partida de reflexos de Magritte.

Diante dela era muito fácil que eu viajasse por meu pensamento em nuvem e a visse como um segundo eu.

Nesta altura de minha vida sou como essa mulher, pensei, frequentemente uma ilusão, principalmente uma desilusão de ótica pro mundo.

Sei o que ela passa porque nem as mulheres jovens de óculos escuros nos encaram sob o sol. Na minha juventude, pelo contrário, eu vivia querendo saber como era existir aos 50 anos. Talvez estivesse à procura de mãe, de um exemplo, de uma projeção ou proteção. Coisa minha, que eu encontrava facilmente nas conversadeiras do ponto de ônibus.

Mas elas, as meninas atuais, não querem se adiantar, não têm o tempo a perder. Talvez e principalmente não nos enxerguem, o que já nem me traz problema, pra falar a verdade. Saio sempre acreditando que alguém me verá, pelo melhor ou pelo pior.

A Mércia do uber era sem-cerimônia. Logo me oferecia a bala Pipper do nosso tempo, embora não as durinhas, que ela desistira de colocar no carro porque os passageiros as quebravam ruidosamente com os dentes.

Os passageiros são umas coisas, concluiu sem pensar: não dá pra controlar quem hoje pode pagar uber como quem paga a passagem de ônibus!

– Só os pobres te dão trabalho? – arrisquei.

– Os pobres de espírito – emendou, o dedo apontado ao dirigir.

De alguma maneira empobrecidos, os passageiros de Mércia, ela diz, querem impor a própria rota nas viagens compartilhadas, solicitar parada rápida em locais proibidos, escândalo sobre escândalo…

Eu começava a vê-la. Ela se julgava a melhor, embora raspasse o meio-fio. “Pro uber eu sou vip”. E como ela via a mim? “Usuária 4,6. Não é vip, mas tá bom.”

Falou dos filhos, dois formados e outra por se formar, embora ela nem tenha se esforçado pra que eles crescessem assim tão responsáveis – foi sua mãe, explicou, a tratá-los com rigidez enquanto ela trabalhava fora. Contou que exerceu o cargo de gerente comercial e que o irmão dispensou um salário de 16 mil reais para ir morar em São Luís.

Depois de Mércia ter sido assaltada no uber, seu filho lhe pagou um curso pra apostar na bolsa. Às vezes ela ganha mil reais, às vezes perde mil numa aposta de hora do almoço. E tem de saber quando parar, sob o risco de gastar o que não tem. (Não vi vantagem, mas acho que não é a vantagem o que move o jogador.)

– Eu sei no que você pode investir – me disse por fim.

Imaginei que ela se referisse a investimento na bolsa ou no curso, três mil reais por 45 dias pelo skype; o professor te observa apostando em simulação e um dia te deixa apostar também.

– Sabe no que posso investir? – eu a questionei. – Nem eu sei! Tenho tantas dúvidas, sou uma distraída pros números e…

– Pôquer.

– Como?

– Pôquer é o jogo pra você.

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