Sergio Larrain: uma carta de amor à fotografia

Aqui, o texto no qual o fotógrafo chileno Sergio Larrain dá ao sobrinho a primeira lição fotográfica. O que você lê a seguir é uma adaptação minha para o material relatado originalmente no blog Mistos Fotografia

Sergio Larraín (1931-2012) escreveu em 1982 uma carta ao sobrinho que queria ser fotógrafo. Esta carta se tornou icônica, como muitas outras histórias do fotógrafo chileno.

Larrain teve seu maior momento de fama nos anos 1960, quando ingressou na agência Magnum por intermédio de Henri Cartier-Bresson. Em seguida, estabeleceu-se em uma pequena cidade chilena e aos poucos começou a desaparecer do cenário fotográfico, o que motivou inúmeras lendas sobre sua figura.

Até Julio Cortázar se inspirou em uma história que o fotógrafo lhe contou para seu livro “Las babas del diablo”. Michelangelo Antonioni, por sua vez, usou o texto de Cortázar para compor o filme “Blow up”.

A carta

O sobrinho de Larrain pediu-lhe que desse alguns conselhos sobre a profissão de fotógrafo. E o tio respondeu com este monumento à fotografia. Se você tem dúvidas sobre seu amor por esta arte, ou precisa de motivação, leia a carta de Larrain:

A primeira coisa a fazer no caminho da fotografia é ter uma máquina de que você goste, a de que mais goste, porque se trata de estar feliz com o seu corpo, com o que você tem nas mãos, e o instrumento é fundamental. Que seja o mínimo, o indispensável e nada mais. Em segundo lugar, tenha um ampliador preferido, o mais rico e simples possível (em 35 mm. O menor que a Leitz fabrica é o melhor, dura a vida toda).

O jogo é partir para uma aventura, como um veleiro solta as velas. Vá para Valparaíso ou Chiloé, fique nas ruas o dia todo, vagueie e vagueie por lugares desconhecidos, sente-se quando estiver cansado debaixo de uma árvore, compre uma banana ou um pão e assim pegue um trem, vá para algum lugar e olhe, desenhe também e olhe. Saia do mundo conhecido, entre no que você nunca viu, deixe-se levar pelo gosto, vá de uma parte a outra, aonde quer que vá. Aos poucos, é possível descobrir que as coisas e as imagens vêm até você, como aparições.

Depois de voltar para casa, você revela, copia e começa a olhar o que pescou, todos os peixes, e os coloca junto com o uísque na parede, copia-os em folhas do tamanho de cartão postal e olha para eles. Então você começa a brincar com os Ls, procurando cortes, enquadramentos, e você aprende composição, geometria.

Enquadre com o L e largue o que você emoldurou na parede. Então comece a procurar, a ver. Quando tiver certeza de que a foto está ruim, deixe embaixo. As melhores você levanta um pouco mais alto na parede. No final, fique com as boas e nada mais (mantendo as imagens medíocres você estagna na mediocridade). No topo, nada além do que é salvo, tudo o mais é jogado fora, porque a psique carrega tudo o que se retém.

Então você faz ginástica, diverte-se com outras coisas e não se preocupa mais com isso. Você começa a olhar para o trabalho de outros fotógrafos e procura o que há de bom em tudo o que encontra: livros, revistas, etc. Você consegue o melhor e, se puder cortar, coloca o bom na parede ao lado do seu. Se não puder cortar, você abre o livro ou as revistas nas páginas de coisas boas e as deixa em exposição. Aí espera semanas, meses, enquanto der (leva muito tempo pra ver). Aos poucos o segredo se transmite e você vê o que é bom e a profundidade de cada coisa.

Continue vivendo com calma, desenhe um pouco, saia para passear e nunca force a saída para tirar fotos, porque a poesia se perde, a vida que ela tem adoece, é como forçar o amor ou a amizade, não pode. Quando você nascer de novo, você poderá fazer outra viagem, outra peregrinação: a Puerto Aguirre, você pode descer a cavalo até os montes de neve de Aysén; Valparaíso é sempre uma maravilha, é perder-se na magia, gastar uns dias a vaguear pelas colinas e ruas e pernoitar algures no saco de dormir, muito imerso na realidade, como quando nada, aprofundando-se debaixo d’água, tudo longe do convencional. Deixe suas sandálias lhe levarem aos poucos, como se você se curasse com o prazer de olhar, cantarolar, e o que aparecer será fotografado com mais cuidado.

Algo que você anteriormente aprendeu a compor e cortar, comece a fazer com a máquina. E assim continue, o carrinho se enche de peixes, você volta para casa. Você aprende foco, abertura, close-up, saturação, velocidade, etc. Aprende a brincar com a máquina e suas possibilidades, junta poesia (sua e dos outros), tira todo o bem que encontra, o bem dos outros. Faça para si uma coleção de grandes coisas, um museu em uma pasta.

Siga o que for do seu gosto e nada mais. Não acredite mais do que naquilo que aprecia. Você é a vida e a vida é o que você escolhe. O que você não gosta, não vê, não funciona. Você é o único critério, mas absorva todos os outros. Você está aprendendo. Quando consegue uma foto muito boa, as grandes, você faz uma pequena exposição ou um livrinho. Manda colar e com isso estabelece um piso. Quando você mostra ao público, posiciona-se sobre o que fez. Quando coloca seu olhar na frente de outras pessoas, você o sente. Fazer uma exposição é dar algo, como dar comida, é bom para os outros ver algo realizado com seu trabalho e gosto. Não é se exibir. Faz bem. É saudável para todos e faz bem porque lhe fiscaliza.

Bem, isso feito, você tem como começar. É preciso vagar, sentar-se sob uma árvore em algum canto. É uma caminhada solitária pelo universo. Você começa a olhar de novo, o mundo convencional lhe coloca uma tela na frente, mas você tem de sair dela na hora de fotografar.

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