Uma foto é uma foto

Uma foto é o retrato de um momento, isto parece certo.
Mas um momento de quem?
Da realidade ou de quem fotografa?
Fotografia, escrita da luz em grego.
Isto quer dizer que existe um “escritor” por trás.
E a imagem não é, nem precisa ser, o retrato da realidade como ela foi.
Trata-se de um instante para o qual o fotógrafo determina tudo.
Ângulo, desenho, movimento, expressão, intenção.
Simples e pura capacidade de ver.
A imagem é fruto de sua decisão momentânea, de sua cultura, de seu modo rápido de perceber as coisas.
Sim, o fotógrafo é um autor.
Quando vcs analisam a foto de Richarlison abraçando calorosamente um Neymar imóvel, sabem mesmo o que está acontecendo enquanto a imagem se dá?
Se se trata do momento da comemoração do gol, significa necessariamente que Richarlison foi caloroso e Neymar, não?
Me lembro de prestar atenção quando Richarlison faz o voleio para a bola entrar no gol, a partir da imagem do drone. Vi o menino Sonega se mexer, dando um primeiro passo para a corrida até o gol, uma vez que contribuiu para que ele acontecesse. Mas não sei se correu de fato, porque o filme não continua a partir desse ponto.
Então, a foto, que aliás Richarlison postou no seu Instagram, sob a legenda “Ídolo”, com o comentário de emoticons e corações de Neymar, pode querer dizer apenas que Sonega estivesse já dolorido e Richie tenha ido até ele, para acolhê-lo. Pode querer dizer que Richie, como a gente espera, foi um ser humano incrível, abraçando seu ídolo num ato de compaixão, surpreendendo-o na sua dor, razão pela qual Sonega se mantém imóvel.
Sim, porque moeram o tornozelo de Sonega realmente, certo? E eu nem sei como, depois disso, ele ainda permaneceu de pé.
Interpretações são ótimas, principalmente quando acompanhadas de contexto. Porque, sim, uma foto não substitui mil palavras. Porque, como dizia Millôr, tente substituir essa frase por uma foto.
Foto é foto, palavra é palavra.
Vamos usá-las sabiamente.
Aguardo informações.

Tenho fome de quê? Ou por que amo a fotografia de rua

Fiz esta foto hoje de manhã por trás da vidraça de um café na praça Dom José Gaspar, no centro de São Paulo, onde moro.

Eu contemplava a estátua de Dante Alighieri à distância quando o sem-teto se aproximou do lixo, para vasculhá-lo, em sua fome.

Coloquei-o no enquadramento apenas porque fazia sentido a presença desse personagem forte, a expressar a miséria brasileira, diante da representação do escritor que nos relatou a perambulação da alma humana pelas profundezas, pela culpa.

Mas só depois de fotografar e de publicar a imagem no Instagram, sob a legenda “Dante vê”, fui capaz de entender (sempre em parte) o que fotografei.

Ao rever a foto horas depois de tirá-la, enxerguei nessas espadas de são jorge em primeiro plano as chamas do inferno.

Alguém olha desde o inferno para este ser!

Quem?

Talvez todos saibamos. Talvez todos tenhamos contribuído para que nosso semelhante chegasse a esse lugar.

O mais interessante para mim, contudo, não é exatamente essa constatação.

A foto me diz mais.

Ela fala de mim, igualmente, sob outra perspectiva.

Fala de minha procura, feita à luz do dia, diante do mundo e da minha consciência.

Eu estou do lado de lá, como num sonho.

Sou eu o miserável que procura saciar a fome, à semelhança elegante do meu personagem sem-teto.

Mas que fome é a minha?

O que procuro entre os vestígios deixados por outros seres humanos?

E que inferno me localiza, me observa?

É incomparável o que a gente encontra depois de olhar o que fotografamos.

As escolhas de composição e enquadramento, fazemos por instinto, num instante.

Mas esse instinto que formata a imagem, na verdade, nasce antes, de um acúmulo.

De uma meditação contínua sobre o que somos, da confusão imagética e de conhecimentos que assimilamos pela vida.

Amo a fotografia de rua porque ela me permite acessar esse inconsciente, com aparente racionalidade, num segundo.

Ela me faz pensar.

Me faz ser.

Tenho fome de quê?

Fechei o livro

Me ponho a ler o texto de um desses curadores/historiadores da arte que gostam de meter seu pitaco sobre fotografia.

A certa altura, o pensador diz que no trabalho de determinada fotógrafa “não se percebia nenhum cacoete da fotografia direta, por exemplo, ainda muito valorizada naquele período”.

Chego a ter pena.

Fotografia direta, “cacoete”?

“Ainda muito valorizada”?

Talvez esses críticos/historiadores/curadores não passem mesmo de avaliadores de mercado.

Fechei o livro.

As cópias imperfeitas

No primeiro passeio ao ar livre, pela praça 14 Bis, em São Paulo, eu tinha quatro meses. Curti? Não sei. Talvez tivesse sono. Talvez desconfiasse…

As fotos foram feitas por Walter Pavam, meu pai, reveladas e ampliadas em formato pequenino no banheiro de nosso apê alugado de um quarto no Bixiga. Nunca vi estas imagens coladas nos álbuns, estes que ele compunha como se diagramasse livros.

Esperava o foco perfeito da sua Flexaret, o enquadramento ideal, o sorriso de seu personagem ou a surpresa. E estas imagens não resultaram no que pretendia exatamente. Mas, como prezava a fotografia como entidade, não jogava nada fora, nem seus erros.

As duas imagens estavam localizadas em uma das pastas nas quais ele acumulava suas frustrações, as cópias imperfeitas, fosse pela foto em si, fosse pela ampliação malsucedida.

A primeira imagem não tem meu sorriso, e talvez ele estivesse insatisfeito com a composição. A segunda, compôs como queria, com essa diagonal rumo ao infinito, meu sorriso e o esplendor da praça ao fundo. Mas o fundo, justamente, parecia estourado e indefinido.

Então guardou tudo. Para usar depois? Era muito comum que ele desse cópias aos parentes, amigos presentes nas fotos. Muita gente que conheci só teve imagens de infância porque meu pai lhe deu. Uma grande generosidade da parte dele, porque levava a sério a infância. Mas o papel fotográfico era caro, suado para ele, que o usava também profissionalmente, para ampliar seu horizonte na pintura.

De todo modo, estas são tentativas muito bonitas da forma como foram feitas. O tempo as valorizou. Ou ganharam imenso valor pra mim.

Obrigada, menino velho, por tudo e em tudo que me fez.

A emoção terrena

É bem verdade que não se faz mais jornalismo sem fotos com drone. Nas manifestações, só eles comprovam a multidão de verdade, coisa que antes se obtinha a uma distância pouco cósmica, posicionando-se à janela alta de um prédio próximo.

Os drones espaciais nos deixaram saber, ontem, que muitos e muitos seres humanos, como num imenso formigueiro de paz, recuperaram, para uso justo, a bandeira do Brasil.

Mas minha alegria veio de verdade quando as fotos foram pouco cartográficas. As imagens dadas no corpo a corpo, em terra, como essas que vocês fizeram, mostraram os homens no teatro da vida, os tipos simples, fantásticos, com suas cabeças de pássaro, os cocares guajajara, os ternos brancos da malandragem, as camisetas com opções políticas, às vezes filosóficas, os cartazes de mão. As crianças estavam na escola, que pena, não puderam estar lá!

Foram essas as fotos que me deram a perspectiva humana dos arredores, de quem esteve no largo mas nem pôde ver a cerimônia de perto, fotos de quem se misturou e festejou a democracia do seu jeito, naquele espaço onde quatro anos atrás reinaram as serpentes janaínas que interromperam um sonho de nação.

Obrigada a quem esteve no mesmo lugar ontem com renovados propósitos e nos colocou lá dentro (nós, os distantes) para celebrar a seu lado!

cafonice leibowitz

Não, não é inacreditável Anne Leibowitz ter encenado os Zelensky compungidos diante de sacos de areia fake e de soldados que são modelos da “beleza azov”.

Ela é isso. O kitsch, as sobras representativas dos valores do dinheiro. Ex-mulher de Susan Sontag, ensaísta que esteve em Sarajevo para experimentar o sabor da guerra.

Claro, Sontag representou mais porque se arriscou mais. Era uma boa influencer no seu tempo.

E o que significa Leibowitz, exatamente? Nem chega a ser fotografia. Uma abominação ética de classe média, como ensinou a Chauí? Arrisco dizer que nem isso. Uma cafona, talvez.

Um precursor norueguês da fotografia de rua

O matemático Carl Størmer e seu hábito de clicar escondido que antecipou um campo para a arte fotográfica

Aos 19 anos, o estudante de matemática norueguês Carl Størmer (1874-1957) comprou uma câmera oculta. Era tão pequena que a lente se encaixava na casa de botão de seu colete, com um cordão a descer até o bolso, permitindo que ele acionasse o mecanismo secretamente.

Uma paixão o levou à fotografia. Quando era jovem na Universidade de Oslo, o matemático, que posteriormente se especializou no estudo das auroras boreais, atraiu-se por uma desconhecida, mas sua timidez não lhe permitiu familiarizar-se com ela. Desejoso de ao menos ter uma foto dessa mulher, decidiu tirá-la sem o seu conhecimento. A partir disso, adquiriu o hábito de fotografar as ruas de Oslo e chegou a registrar celebridades como Ibsen. A atividade lhe rendeu 500 imagens entre 1893 e 1897.

Via My Modern Met e Wikipedia

O feminino inelutável

A fotografia de Helen Levitt
A gravura de Käthe Kollwitz

Helen Levitt, Käthe Kollwitz.
Século 20.
Sensibilidade de mulher.
Porque existe isso sim, o tempo, inelutável.
E isto também, o feminino, embora se rejeite discutir o assunto.
Viva estas mulheres, brado do meu peito.

Um dia no museu

Depois de exatos um ano e meio sem ir aos museus, fui ontem a dois. Os avisos sobre a pandemia são tão perceptíveis em cada canto, as pias dos banheiros, interditadas com tamanha fita isolante vermelha a intervalos frequentes, que é impossível esquecer de quem manda sobre nossa impotência, mas eu esqueci. Eu sou uma agitação interna tão grande depois de uma visita ao museu que é como se meu coração parasse por idênticos intervalos isolantes, e a química em minhas mãos para estancar o vírus não me atrapalhasse em nada.

Mário Cravo, eu e a praga do vidro sobre as molduras, no Masp

Deve ter pesado sobre essa intensidade o fato de que passo por uma suspeita ocular e a cada dia sinto necessário ver mais e mais, como se fosse a antepenúltima vez. Gosto de sentir isso, todas as urgências me confortam, porque também se tornam uma desculpa para, em casa, abrir meus livros de fotografia sem uma razão prática, sem um objetivo finito, sem a praga do dinheiro a queimar mais essa luxúria de perceber e sentir, e neles eu mergulho profundamente.

E eu me sinto livre, enfim, porque não gosto de colocar em prática o que vejo e sinto, e porque dificilmente serei compreendida quando exponho minha percepção. Conheço pessoas excelentes a compreender o que escrevo e a pedir um texto meu com alegria, até para sofrer de surpresa, mas, nestes últimos tempos, tenho escrito para gente ruim de novo, povo do dinheiro, dos editais e das assessorias de imprensa (me perdoem vocês, assessores, que não compreendo como aguentam). E me enraiveço ou rio.

Anteontem, por exemplo, uma galerista que desejava aparecer no meu texto informativo mais do que eu julgava ser de merecimento quis me machucar com uma estocada, dizendo que eu escrevera adjetivos. Não liguei. Sei que ela desconhece o significado de um adjetivo. E nunca, nunca mesmo, desde os tempos longínquos de submissão ao manual da Folha, liguei para essa interdição de classe gramatical. O que todo mundo tem contra os adjetivos? E os gerúndios? Leio os pobrezinhos como prêmios, anéis onde se esconde uma pedra vermelha, e luto para assentá-los bem na terra do meu jardim.

Mas isso não é importante. (A propósito, Senhor Democracia reclamava do “mas” em início de frase. “Você escreve bem demais para insistir nessa mania”. E eu ria por dentro, por saber a origem italiana da restrição). Importante é sentir que vivo três vezes mais quando vou aos museus. E aconselho a vocês que vivam também.

Fui ao Masp e percorri novamente tudo. Os moços das curadorias andam atrás do déficit histórico e expõem mais mulheres que antes. O acervo esteve bagunçado pro meu gosto, uma vez que deixaram a espantosa virgem com o menino de Bellini pro fim da viagem. Mas algumas autoras romperam o caminho da identificação nos cavaletes da Lina Bo Bardi, completando a composição no verso da tela, razão pela qual me diverti, doce vingança à necessidade que ela nos impõe de ter de olhar o tempo todo para trás em busca do nome do autor.

“O implacável”, de Maria Martins,
no Masp

Revi Maria Martins e senti o conforto de sua adjetivação. Seres míticos compostos de sentidos. Tormentos que nascem dos ventres de bronze. As figuras do “implacável” e do “impossível”. Que mulher. De Gertrudes Altschul, redescoberta aqui depois de exposição no MoMA (mas é claro), gostei deveras das sobreposições, como se a fotógrafa sonhasse explicitamente, e apreciei ainda mais os rostos raros e graves de seus personagens infantis (enquanto, nas fotos, a autora aparece rindo sempre).

No IMS, novas sobreposições, desta vez inesperadas, porque de Madalena Schwartz sobre Ney Matogrosso, para que seus movimentos não se perdessem. Que aparição representou o Ney no sopro do tempo! Mas o esforço de Madalena (que levava seu cachorrinho nas sessões) para capturá-lo na sua elasticidade expressiva o tornou interessantemente rígido. Os retratos de Madalena são poses estudadas, teatro explícito, e pelos filminhos ali exibidos sabemos que ela irritava os personagens com sua insistência e sua timidez. Alguns retratos de Paz Errázuriz também estão lá, e senti a diferença, a intensidade, a falta de intenção, a dor subjetiva de suas transexuais em comparação com as de Madalena.

Mário Cravo Neto também se expõe no IMS, e é previsivelmente um deslumbre. De Salvador a Nova York e à Dinamarca, captamos aquele seu furor de vida, que, ao contrário do que acontece com a doce Madalena, raramente se congela. Ele era escultor, como o pai, antes de se acidentar, imobilizar-se por um ano e passar a fotografar como gosto e necessidade. Mestre da subexposição com uma razão, a de viver com seus personagens, a de rodar como suas baianas, no caminho de exprimi-los, ele é um pintor também, e suas aquarelas são o que são, movimentos.

Saio do dia do museu como sempre, tentando, sem exatamente conseguir, expressar minha intensidade

Saí do dia do museu como saio sempre, com vontade de perceber o mundo à volta, mas meu telefone sobrecarregado dificultou os registros. De todo modo, contudo, porque a vida continua, eu seria interrompida, razão pela qual não liguei muito pra essa limitação, e sonhei à noite, e continuei feliz.

Sergio Larrain: uma carta de amor à fotografia

Aqui, o texto no qual o fotógrafo chileno Sergio Larrain dá ao sobrinho a primeira lição fotográfica. O que você lê a seguir é uma adaptação minha para o material relatado originalmente no blog Mistos Fotografia

Sergio Larraín (1931-2012) escreveu em 1982 uma carta ao sobrinho que queria ser fotógrafo. Esta carta se tornou icônica, como muitas outras histórias do fotógrafo chileno.

Larrain teve seu maior momento de fama nos anos 1960, quando ingressou na agência Magnum por intermédio de Henri Cartier-Bresson. Em seguida, estabeleceu-se em uma pequena cidade chilena e aos poucos começou a desaparecer do cenário fotográfico, o que motivou inúmeras lendas sobre sua figura.

Até Julio Cortázar se inspirou em uma história que o fotógrafo lhe contou para seu livro “Las babas del diablo”. Michelangelo Antonioni, por sua vez, usou o texto de Cortázar para compor o filme “Blow up”.

A carta

O sobrinho de Larrain pediu-lhe que desse alguns conselhos sobre a profissão de fotógrafo. E o tio respondeu com este monumento à fotografia. Se você tem dúvidas sobre seu amor por esta arte, ou precisa de motivação, leia a carta de Larrain:

A primeira coisa a fazer no caminho da fotografia é ter uma máquina de que você goste, a de que mais goste, porque se trata de estar feliz com o seu corpo, com o que você tem nas mãos, e o instrumento é fundamental. Que seja o mínimo, o indispensável e nada mais. Em segundo lugar, tenha um ampliador preferido, o mais rico e simples possível (em 35 mm. O menor que a Leitz fabrica é o melhor, dura a vida toda).

O jogo é partir para uma aventura, como um veleiro solta as velas. Vá para Valparaíso ou Chiloé, fique nas ruas o dia todo, vagueie e vagueie por lugares desconhecidos, sente-se quando estiver cansado debaixo de uma árvore, compre uma banana ou um pão e assim pegue um trem, vá para algum lugar e olhe, desenhe também e olhe. Saia do mundo conhecido, entre no que você nunca viu, deixe-se levar pelo gosto, vá de uma parte a outra, aonde quer que vá. Aos poucos, é possível descobrir que as coisas e as imagens vêm até você, como aparições.

Depois de voltar para casa, você revela, copia e começa a olhar o que pescou, todos os peixes, e os coloca junto com o uísque na parede, copia-os em folhas do tamanho de cartão postal e olha para eles. Então você começa a brincar com os Ls, procurando cortes, enquadramentos, e você aprende composição, geometria.

Enquadre com o L e largue o que você emoldurou na parede. Então comece a procurar, a ver. Quando tiver certeza de que a foto está ruim, deixe embaixo. As melhores você levanta um pouco mais alto na parede. No final, fique com as boas e nada mais (mantendo as imagens medíocres você estagna na mediocridade). No topo, nada além do que é salvo, tudo o mais é jogado fora, porque a psique carrega tudo o que se retém.

Então você faz ginástica, diverte-se com outras coisas e não se preocupa mais com isso. Você começa a olhar para o trabalho de outros fotógrafos e procura o que há de bom em tudo o que encontra: livros, revistas, etc. Você consegue o melhor e, se puder cortar, coloca o bom na parede ao lado do seu. Se não puder cortar, você abre o livro ou as revistas nas páginas de coisas boas e as deixa em exposição. Aí espera semanas, meses, enquanto der (leva muito tempo pra ver). Aos poucos o segredo se transmite e você vê o que é bom e a profundidade de cada coisa.

Continue vivendo com calma, desenhe um pouco, saia para passear e nunca force a saída para tirar fotos, porque a poesia se perde, a vida que ela tem adoece, é como forçar o amor ou a amizade, não pode. Quando você nascer de novo, você poderá fazer outra viagem, outra peregrinação: a Puerto Aguirre, você pode descer a cavalo até os montes de neve de Aysén; Valparaíso é sempre uma maravilha, é perder-se na magia, gastar uns dias a vaguear pelas colinas e ruas e pernoitar algures no saco de dormir, muito imerso na realidade, como quando nada, aprofundando-se debaixo d’água, tudo longe do convencional. Deixe suas sandálias lhe levarem aos poucos, como se você se curasse com o prazer de olhar, cantarolar, e o que aparecer será fotografado com mais cuidado.

Algo que você anteriormente aprendeu a compor e cortar, comece a fazer com a máquina. E assim continue, o carrinho se enche de peixes, você volta para casa. Você aprende foco, abertura, close-up, saturação, velocidade, etc. Aprende a brincar com a máquina e suas possibilidades, junta poesia (sua e dos outros), tira todo o bem que encontra, o bem dos outros. Faça para si uma coleção de grandes coisas, um museu em uma pasta.

Siga o que for do seu gosto e nada mais. Não acredite mais do que naquilo que aprecia. Você é a vida e a vida é o que você escolhe. O que você não gosta, não vê, não funciona. Você é o único critério, mas absorva todos os outros. Você está aprendendo. Quando consegue uma foto muito boa, as grandes, você faz uma pequena exposição ou um livrinho. Manda colar e com isso estabelece um piso. Quando você mostra ao público, posiciona-se sobre o que fez. Quando coloca seu olhar na frente de outras pessoas, você o sente. Fazer uma exposição é dar algo, como dar comida, é bom para os outros ver algo realizado com seu trabalho e gosto. Não é se exibir. Faz bem. É saudável para todos e faz bem porque lhe fiscaliza.

Bem, isso feito, você tem como começar. É preciso vagar, sentar-se sob uma árvore em algum canto. É uma caminhada solitária pelo universo. Você começa a olhar de novo, o mundo convencional lhe coloca uma tela na frente, mas você tem de sair dela na hora de fotografar.