Quatro diretoras e seus caminhos abertos


Presentes na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, as cineastas de ficção e documentários exploram mundos encobertos

Em sentido horário, Charlotte Gainsbourg (Jane por Charlotte), Marí Alessandrini (Zahori), Marie Amiguet (O Leopardo das Neves) e Maria Speth (Sr. Bachmann e seus alunos)

Vi quase três dezenas de filmes da Mostra, todos virtualmente. Alguém disse que por este meio eu não assistiria, então, aos melhores filmes disponíveis. Possível, mas o que fazer? Não correria às salas fechadas neste momento em que pandemia ainda há, sim. E, de fato, poucos títulos vistos virtualmente me pareceram grandiosos ou mesmo tocantes. Coisas boas houve, contudo. E as canhestras também. Alguns filmes serviram como informações sobre dramas localizados em determinadas paragens. Outros me divertiram por seu estrito senso intelectual. Mas me chamou a atenção que alguns deles, dirigidos por mulheres, tenham feito vibrar o mundo das sensações. Foram filmes a manter os caminhos abertos. A seguir, comento quatro deles.

ZAHORÍ

Direção: Marí Alessandrini

Suíça, Argentina, Chile, França

2021   cor   105 min.   

Ficção  

TRAILER: https://vimeo.com/567531628 

Mora (por Lara Tortosa) e Zahorí no filme de Marí Alessandrini

Zahorí, da estreante Marí Alessandrini, me pareceu particularmente belo, cheio de sentido. O título refere-se ao cavalo do gaúcho Nazareno, que, enquanto se perde numa noite de tempestade de cinzas na Patagônia, olha para os dois lados da estrada. A ficção, apresentada no Festival de Toronto e vencedora do prêmio Os Filmes Depois de Amanhã no Festival de Locarno de 2020, mesmo evento em que foi exibido na seção Cineastas do Presente deste ano, existe para nos fazer percorrer esta imensa região no que ela tem de mais profundo. Há ali imigrantes italianos enraizados, mas não realizados, em luta contra a terra e seus frutos, além dos religiosos europeus de sempre. 

A jovem protagonista Mora (interpretada com beleza por Lara Tortosa), de 13 anos, vive por lá com os pais e o irmão menor. Os pais, italianos, não falam com ela a língua local, mas Mora só tem um castelhano para lhes devolver. Quer jogar futebol, e porque menina, não pode. Quer ser gaúcho, mas, por idêntica razão, querem interromper seu sonho. A escola de nada lhe serve, porque olha para fora do seu mundo, justamente a vasta, árida terra onde habita. E então ela deseja seguir o seu caminho. Ela quer Zahorí. 

A diretora Marí Alessandrini tem talento de sobra. Nasceu na Argentina em 1979 e cresceu na Patagônia, onde gira seu filme. Formada em direção de cinema e artes visuais pela Universidade de Genebra, realizou, entre curtas ficcionais e documentais, filmes como Dragona y Sus Cachorros (2010) e Buscando Patriotas (2015). Foi escolhida pela Cinéfondation do Festival de Cannes para desenvolver seu primeiro longa-metragem, este “Zahorí“, que vale cada momento sob o sol.

SR. BACHMANN E SEUS ALUNOS

Direção Maria Speth

Alemanha

2021   cor  217 min.   

Documentário  

TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=6eMaaDGxIPc 

Sr. Bachmann, o professor, e suas alunas de uma outra Europa

São quase quatro horas de filme, mas você, como espectador, não as perceberá. Os documentários destes tempos quase não esclarecem que o sejam. Tudo é vida e encenação dos personagens, que caminham enquanto o filme corre. Este documentário, que substancia a vida, discorre sobre a empatia e as dores do aprendizado. A diretora Maria Speth desceu até a escadaria de uma escola e, com a fulgurante distância de quem não se pode fazer demasiadamente notar, acompanhou os alunos de uma classe determinada nas suas mínimas alegrias e dores. Aos 54 anos, nascida na Baviera, a diretora vive em Berlim desde 1987. Trabalhou como assistente de edição e direção até 1995 e no ano seguinte formou-se em direção pela Universidade de Cinema Babelsberg Konrad Wolf. Dirigiu os longas-metragens Levando a Vida (2001, 26a Mostra), vencedor do Tigre de melhor filme no Festival de Roterdã, Madonas (2017), premiado no Festival de Mar del Plata, e As Filhas (2014). Também realizou o documentário 9 Lives (2011).

Obras sobre escolas e professores inspirados projetam nossa infância e às vezes nossos desejos de acolhimento que não se realizaram. O senhor Bachmann é mesmo um senhor, tem mais de 60 anos, mas também, e principalmente, um menino. Ele dá aula de música e outras disciplinas a alunos que estão por findar o ensino fundamental, prestes a enfrentar uma nova etapa de vida que determinará seu caminho profissional. A escola se localiza em ​​Stadtallendorf, uma cidade que durante o nazismo recebeu trabalhadores forçados da Europa Oriental para suas fábricas de explosivos. Os descendentes e novos migrantes são seus alunos. As crianças turcas e búlgaras às vezes não têm a menor noção do que fazer com a língua alemã. Mas Bachmann crê que mereçam futuro. O que fazer, senão integrá-los em suas diferenças, soltar seus medos, ouvi-los? Ele é bom nisso. Tem história. Seu nome de família não é seu nome de origem. A avó teve de aceitar o que lhe coube como cristã nova. Uma empatia é também uma coincidência de identidades.

JANE POR CHARLOTTE

Direção Charlotte Gainsbourg

França

2021   cor   90 min.   

Documentário  

TRAILER: https://www.youtube.com/watch?v=492IFWJxYBk 

Charlotte, assessorada pelas câmeras incríveis, e Jane, com a doce doença de tudo reter

Mãe e filha têm a voz delicada. Falam baixo e quase pedem autorização para entrar uma no mundo da outra. Jane Birkin, a mãe, é cantora e atriz. Charlotte Gainsbourg, atriz, é a filha de quem este filme descobre um dom para dirigir. Charlotte tem muitas câmeras vintage. Gosta de efeitos, de sobreposições, não quer que nada se fixe demais. Porém, como atriz, está ali para encenar junto à mãe. Por ser a filha única e altiva de seu casamento com Serge Gainsbourg, Jane sempre foi mais reservada com ela do que com as outras duas filhas, de outros dois casamentos. Jane teria gostado de tocar os seios de Charlotte enquanto crescia, uma vez tão bonitos… Mas não ousaria lhe pedir.

Se Jane quiser pegar a câmera para filmar a filha, Charlotte será a orgulhosa e dura rebenta de Serge, e não a deixará tocar no que não é seu. De resto, ela parecerá entender que a mãe se distancia do mundo, e esta finitude a perturbará.

Jane vive só numa casa de praia e gostaria de dormir com alguém. Porém, desde que sua primeira filha, com o cantor John Barry, morreu, em 2013, ela se demora a levantar. Horas na cama a olhar o teto e a fazer suas muitas considerações. Ela sabe que envelheceu demais desde a tragédia. Até determinada etapa de seus 71 anos, ainda tinha uma face que o espelho poderia reconhecer. Agora prefere vê-la desfocada ou mudar de espelho – e ela já tem os seus preferidos, os generosos, pela casa. Como Jane diz, sofre a doce doença da acumulação. Nada que é seu desaparece.

Charlotte terá conseguido enfim tocá-la? Pergunta complicada. Jane, tão simpática, é uma  pérola rugosa e brilhante, que não parece se deixar domesticar. 

O LEOPARDO DAS NEVES

Direção Marie Amiguet

França

2021 cor 92 min

Documentário  

O Leopardo das Neves, um filme para valorizar o que existe mas é raro

Graduada em biologia, a diretora Marie Amiguet, que investiu em uma vida de viagens nas Antilhas, na África e na América do Sul, apresenta seu primeiro documentário, O Leopardo das Neves, antes apenas exibido no Festival de Cannes. Seu intento como cineasta é se concentrar a partir de agora em registros da vida selvagem. Por isso ela retornou à França para cursar, em Ménigoute, um mestrado técnico em documentários sobre a natureza. Deve seguir a trilha na qual começou bem.

Seu objetivo em O Leopardo das Neves é alcançar o alto do planalto tibetano para, entre vales às vezes pouco percorridos, descobrir uma fauna desconhecida. Para isso, ela acompanha Vincent Munier, renomado fotógrafo da vida selvagem, cujo objetivo, antes mesmo de fotografar, é encontrar um dos felinos mais raros. O aventureiro e romancista Sylvain Tesson, também como a diretora, um viajante, acompanhará o fotógrafo e com ele aprenderá a se deter com a atenção exigida. 

Não será um filme em que a superespecialização, como aquela da equipe de David Attenborough, registrará os animais na nitidez noturna ou os mínimos movimentos dos pássaros em lentidão. Aqui, o quebra-cabeça da diretora estará em localizar o drama e a obsessão de quem assiste à natureza como a um espetáculo de captura e ensinamentos.

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