A exposição da obra de Antonio Obá, a primeira de um artista brasileiro na Pina Contemporânea, até 18 de fevereiro de 2024, ensina a acreditar na visão dos subjugados

Foto: Diego Bresani
Ele não se considera pintor, embora pinte como os melhores. Quer restabelecer os fatos da história, embora jamais tenha argumentado em livros uma tese sobre o assunto. Talvez por não se sentir encaixado em uma única definição, tenha se tornado duas coisas a um só tempo. Um historiador, porque concede protagonismo aos personagens de merecimento de nossa trajetória. E um pintor, ao construir para esses grandes personagens esquecidos uma atmosfera de liberdade que o transcorrer da vida, por si, não lhes deu.

Aos 40 anos, Antonio Obá é o primeiro artista brasileiro a receber uma mostra retrospectiva, de cerca de 20 obras, na Galeria Praça da Pinacoteca Contemporânea, o que não se trata de coisa pouca. O curador de sua exposição “Revoada”, Yuri Quevedo, também responsável pelo acervo contemporâneo da instituição, não duvida de toda essa importância. “Lá atrás, quando pensamos na monta- gem do acervo, já sabíamos que precisaríamos adquirir uma coleção de sua obra. O acervo tem de andar para receber Antonio Obá.”
As razões são nítidas. “O artista leva a figuração, tão presente na obra dos pintores negros desde os anos 1990, para um ponto além”. Em suas telas expostas, desenhos pintados sobre pano e esculturas em resina das mãos de crianças em experiências monitoradas pelo artista na Escola Vera Cruz e na Ocupação Nove de Julho, Obá olha reflexivamente para os anos passados, para sua própria infância negra, em que presenciava os tios tomarem ovo cru para melhorar a voz, como na tela “Alvorada – música incidental Black Bird” (2020), de modo a recriar uma experiência de “revoada”, ou liberdade.

Preto, vindo da Ceilândia, a região administrativa de maior população urbana do Distrito Federal, Obá nasceu de mãe cozinheira e pai trabalhador, tendo se tornado um professor de artes plásticas por conta de seu talento precoce. A qualidade de seu desenho resultou numa possibilidade a mais de estudo no Ensino Médio público. Por meio de um programa educativo conhecido por Sala de Recursos, ele foi monitorado para compreender seu lugar na arte, conforme escreve Cinara Barbosa no catálogo da exposição:
“A partir da Sala de Recursos, Antonio Obá compreendeu princípios de pesquisa potencializados pelo fazer artístico. Importava mais a investigação em si do que se tornar artista.” Eis então por que este grande pintor não se vê como tal. O principal na sua vida é pesquisar. Sua leitura reinterpreta os fatos de modo a restabelecê-los em sua integridade, não como uma reprodução de surrados pontos de vista narrados nos livros de história. Uma antiga fotografia, em que um dono de hotel nos Estados Unidos joga ácido na piscina para que os negros dali sejam expulsos, se transforma na tela “Banhistas n. 3 – Espreita”, ambientada no Cerrado, na qual crianças negras olham o observador com a mesma expressão de espreita de um jacaré da Flórida.
Em suas telas a óleo, os homens e mulheres pretos são potentes, e um Cristo na cruz vira um menino sobre duas pernas de pau, seguradas por crianças arteiras, os ibejis. Sobre a sua cabeça, em lugar da coroa de espinhos, há um arranjo de flores. Toda a obra de Obá evoca sua formação familiar católica, numa perspectiva que lembra a arte medieval do Ocidente, na qual o artista se especializou. A mãe segura o filho deposto da cruz em “Angelus” (2020), enquanto anjos negros sobem aos céus, assim como os pássaros, cuja tridimensionalidade se dá pelas sombras pintadas em cor-de-rosa. E talvez na mais potente pintura da mostra, “Variação sobre Sankofa – Quem toma as rédeas abre caminhos” (2021), a partir de uma fotografia histórica brasileira, uma menina negra está de costas para o espectador depois de romper os laços que a prendiam, disposta a abraçar o futuro que se anuncia adiante em um portal. Viver, Obá parece nos dizer, é acreditar no futuro. Viver é ver.
