E parvos

Eu sei que muitos foram à Paulista ontem.
Não esperava outra coisa.
Nunca menosprezei a parvoíce humana.
Agora tem o seguinte.
Não aceito Cantanhêde, muito menos conhecido meu, censurar a gozação que qualquer um faça pra cima dos parvos.
Porque eles são parvos mesmo.
Parvos, parvos, parvos.
Só a parvoíce em sua inteireza, plantada entre ricos e pobres, constrói o fascismo.
E humor é arma.

Estúpidos, cruéis, preguiçosos e desonestos, por Tchecov

Foto de Tchecov mostra a colocação de ferro nos pés dos presidiários de Sacalina em 1890

“Afinal, em que esses homens estúpidos, cruéis, preguiçosos, desonestos são melhores que os mujiques bêbados e supersticiosos, ou melhores que os animais, também desvairados quando um acontecimento qualquer rompe a monotonia de suas vidas limitadas pelos instintos? Lembro-me de cães torturados até a morte ou enlouquecidos; pardais depenados vivos por garotos e em seguida atirados à água; toda uma longa, enorme lista de lentos e miúdos sofrimentos que pude observar nesta cidade desde a infância. E não cheguei a entender como vivem seus sessenta mil habitantes, por que leem o Evangelho, por que rezam, por que leem livros e revistas. De que lhes adianta tudo o que foi escrito e dito até agora se as mesmas trevas continuam em suas almas e se o seu desprezo pela liberdade é tão grande quanto há cem ou trezentos anos?”

Tchecov em “Minha Vida” (1896), citado em “Tchekhov”, de Sophie Laffitte, trad. Hélio Pólvora, ed. José Olympio, 1993, pag. 139

Pulhas versus Lula

Gosto da conversa pequena que tenho com os comerciantes no centro. Mas hoje de manhã, depois da noite ruim, queria apenas ouvir minhas playlists (lindas e até menos óbvias que a de Perfect Days, posso garantir) enquanto comprava o necessário para o dia.

Usava o fone de ouvido quando começou uma conversa áspera entre o chaveiro e um freguês. Só via os rostos e esperava minha vez, cantarolando no modo lipsync. Quando me aproximei do quiosque, o chaveiro Erasmo, baixinho, cheinho, olhinho espantado e cara de bom, virou-se para me dizer:

– Tá todo mundo contra o Lula.

Aiai. Sem trégua pra mim. O que a loka esperava? Tiro o fone.

– Por que contra o Lula?

E o chaveiro só abaixando o rosto, sem falar, talvez temendo que eu fosse uma daquelas. Daí perguntei logo, para economizar tempo:

– Todos estão contra o que ele disse sobre Israel?

Erasmo:

– Sim, todos falam bem de Israel, de deus.

E eu:

– E o que Lula falou de errado? Ele tá muito certo, amigo. Que deus iria aprovar a matança de crianças?

E ele:

– De crianças e de mulheres!

– Pois então.

– Olhe, senhora, a foto do meu filho.

– Muito parecido com você!

– Então, esse é meu filho! Eu ia lá querer que jogassem bomba nele?

– Nunca!

– As crianças de lá estão tatuando os nomes nos bracinhos…

– Horror. – Quase estendi o assunto, tamanha minha indignação benjaminiana, acompanhada de choro, mas preferi cortar caminho: – Sabe o que o Brasil perde financeiramente se as relações com Israel forem rompidas?

E Erasmo sem responder, na mudez do início, o mesmo olhinho de susto.

– Nada! – eu disse. – As pessoas precisam se informar mais. Esquecer a Globo, esquecer o zap. Não vamos confiar em gente burra, vamos? (A cara do Jorge Pontual todinha na minha frente.)

– Vamos não!

E depois reclamam quando eu falo mal de jornalista. Que vergonha, e não só do Pontual, certamente. Caio Blinder, Demetrio Magnoli, conheci bem de perto esses lambe-botas caras de pau. Destroem o Brasil de boa quando é preciso manter suas vidinhas de hienas majestosas no reino do Scar. Um em Nova York, outro na Vila Madalena, ajustando o implante capilar. Vocês já perderam, seus pulhas.