Ignorância de sonhar

A indiferença sobre eles parece tanta que descem pelo corrimão da escada rolante sem esperar a segurança do metrô descer o pau. Eu não compreendo, mas os vigias da estação Trianon Masp, aparentemente sim. Nem se mexem. Estão de costas para os menores, que são, claro, negros, magros, os cabelos cortados curtos, se meninos, ou presos em um rabo de cavalo espetado, se menina. Nenhum passageiro reclama da algazarra que presencia. Mas os meninos gritam demais, gente, eles fazem essa brincadeira de bater na bunda, de puxar o braço um do outro, de socar nos cucurutos. Era para todo mundo se importar. Ou será a última refeição dos condenados e só eu não entendi?

Tomam a rua vestidos com o capuz do moletom. A Paulista não ecoa qualquer íntima ou desesperada perplexidade de alguém, que dirá a deles. Os policiais, em grupos de dois ou três, miram qualquer agitação com o soslaio da serpente, e se olham de frente, esqueça suas chances. Mas nem se importam com os meninos, ignorados mais uma vez. Reparo que as autoridades executoras engordam a cada dia, fartas, talvez, de tantos bois engolidos pelas bordas. Não sei se há algo tão indesculpável, intratável ou abjeto em São Paulo quanto ser policial, essa gente que morre cedo, por fora e por dentro. Mas pode ser que exista.

Em quase toda esquina da avenida, a cada dia transformada em beco, circo, picadeiro ou pátio prisional, algum homem ou mulher estará de cabeça baixa a considerar consigo, eu diria consigos, um erro cometido. Pode prestar atenção. A Paulista é fechada. Seus marginais falam com o ar. O jovem que fotografei de cabeça baixa, sentado no banco dos maconheiros do calçadão das Flores, por exemplo, lamentava repetidamente sua “ignorância de sonhar”. Quem sonha ignora? Sinto que tudo funciona em direção oposta a isto, mas não me arrisco a perguntar. Sofro de não entender nem mesmo a mim.

 

Logo cai o dia. Logo tudo cai.

 

O por do sol é o pertencimento dos tristes.

Um grande coração

A aventura humana era o tema da filmografia de John Huston, morto há trinta anos

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O diretor americano John Huston, retratado por Norman Seeff em 1981

Em 28 de agosto de 1987 morreu John Huston, um dos maiores cineastas do mundo inteiro, artífice da aventura humana. Que ninguém se lembre de homenageá-lo nestes trintas anos é um sinal dos maus tempos. Quando o diretor partiu, era como se as velas da arte estivessem recolhidas. Um ano antes, com graves problemas respiratórios e ao lado de Akira Kurosawa e Billy Wilder, entregara a Sydney Pollack uma estatueta de direção, em bizarra cerimônia do Oscar (com Sonia Braga na plateia) que sinalizava para o futuro modo hollywoodiano, nem sempre tão brilhante, de contar histórias.

Quem dera ser a jornalista Lillian Ross para descrever, com a elegância de “Filme”, o embate de Huston contra a cegueira dos produtores durante a produção de “The Red Badge of Courage”, a obra mutilada sobre a Guerra Civil americana. Seu saber lidar neste mundo, a maneira de compor as obsessões, a cinematografia baseada nas grandes literaturas… Cada filme de Huston parecia destinado a desenhar uma face de nossos enganos, medos, inúteis amores. Havia decadência, delírio e laços desfeitos na obra-prima “À sombra do vulcão”. Uma desoladora vaidade em “The Misfits”. “O Tesouro de Sierra Madre” trazia a cobiça e o castigo. “Uma Aventura na África” transformava a paixão reprimida em comédia tensa. O humor negro era o prato apetitoso de Huston em “A Honra do Poderoso Prizzi”. Em “Os Vivos e os Mortos” ele compunha uma epifania. Em “Falcão Maltês”, um jogo.

 

Sua habilidade narrativa se estendia a documentários como “Let There be Light”, de 1946, atualmente disponível no Netflix, em que descrevia a batalha interior dos veteranos traumatizados pela guerra (e seus caminhos neste esforço documental são narrados por Francis Ford Coppola na série “Five Came Back”, igualmente pertencente ao catálogo do canal).

Os enquadramentos em profundidade, a direção dos atores, as palavras! Principalmente estas, bem tratadas, diretas e essenciais, extraídas das obras de Herman Melville (“Moby Dick”) ou de Sigmund Freud (“Freud Além da Alma”), e proferidas sob brilhantes cenários, tornaram-se marcas de seu estilo. Huston (autor da autobiografia “Um Livro Aberto”) reforçou um caminho clássico, alto e perene para o cinema americano, atualmente tomado pelas folhagens dos fragmentos.

Três anos após a morte do cineasta, Clint Eastwood (“White Hunter, Black Heart”) apontou-lhe uma face cruel. Ninguém duvida que seu caráter mergulhasse por vezes em águas sombrias. Contudo, amparados por seus filmes, jamais nos convenceremos de que Huston não tivesse um grande coração.

O riso de Kafka

Aos 134 anos do nascimento do grande escritor, o retrato até hoje supreendente que dele fez o biógrafo Max Brod: “Nós, os amigos, morremos de rir quando ele nos fez conhecer o primeiro capítulo de O Processo. E ele mesmo ria tanto que por momentos não podia continuar lendo. Bastante assombroso, se se pensa na terrível seriedade desse capítulo. Mas acontecia assim.”

 

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“Assinalo o que se esquece facilmente quando se contempla a obra de Kafka: sua dobra de alegria do mundo e da vida”, escreveu Max Brod

Um sorriso na contramão.

Franz Kafka tinha grande senso de humor, escreveu o amigo e biógrafo Max Brod.

A seguir, na tradução que fiz de alguns dos trechos da edição em espanhol de Kafka, pela Emecé Editores de Buenos Aires, 1951, Brod explora este aspecto usualmente negado na personalidade e na obra do grande escritor.

 

Sobre conviver com seu humorismo:

Com renovada experiência adverti que os cultores de Kafka, aqueles que somente o conhecem por seus livros, têm uma imagem totalmente falsa dele. Creem que também no trato fosse triste, desesperado. Pelo contrário. Era bom estar com ele. A plenitude de seus pensamentos, que expunha quase sempre em tom festivo, o convertia pelo menos (e me refiro unicamente ao grau mais baixo) em uma das pessoas mais interessantes que conheci, apesar de sua modéstia e sua calma. Falava pouco; em reuniões grandes se calava frequentemente durante horas inteiras. Mas, quando dizia algo, prestava-se imensa atenção nele. Porque era transcendental, dava em que pensar. E na conversação íntima soltava às vezes assombrosamente a língua, chegando a entusiasmar-se, a se tornar encantador. As piadas e as risadas não tinham fim. Ria à vontade e cordialmente, e fazia rir os amigos. E mais: em situações difíceis era possível confiar sem reparos em sua experiência do mundo, em seu tato, seu conselho, porque bem poucas vezes errava. Era um amigo maravilhosamente útil. Só se sentia desorientado e desvalido consigo mesmo, impressão esta que, por conta de seu autodomínio, dava muito poucas vezes em seu trato pessoal, embora se aprofundasse nela indubitavelmente por meio de seus Diários. Um dos motivos que me impulsionam a escrever estas recordações é o seguinte: da leitura de seus livros e, sobretudo, dos Diários, pode-se chegar a ter uma imagem totalmente distinta dele, muito mais lúgubre do que aquela cotidiana. A biografia de Kafka que nosso círculo conserva na memória deve ser adicionada a seus escritos e reclama sua inclusão no julgamento total.

 

 

Sobre o sentido de humor em Kafka:

 

Que um ser puro não possa tocar o impuro é tanto sua força quanto sua debilidade. Força, porque significa sentir a distância entre ele e o absoluto, senti-la até o fim. Mas esta mesma distância é algo negativo, é debilidade. De modo que a força do ser puro só se pode manifestar enquanto o ser puro persiste em não querer escamotear sua distância do absoluto, em extremar sua debilidade através de lentes de mil aumentos. Porém, enquanto quer manter sua posição, não pode nem deve admitir que sua força é precisamente essa. Se origina assim um duplo fundo, e onde há duplo fundo há humorismo. Sim, ainda que em meio ao horror de tal perseverança, de tal persistência na mais perigosa de todas as atitudes (pois se trata de vida ou morte), brota um sorriso amável. E um sorriso novo, que caracteriza a obra de Kafka, um sorriso próximo às questões últimas, quase, diríamos, um sorriso metafísico; e às vezes quando ele lia alguns contos àqueles de nós que éramos seus amigos, crescia esse sorriso e lançávamos uma sonora gargalhada. Mas logo nos calávamos. Não era um sorriso destinado a seres humanos. Somente aos anjos é lícito rir dessa maneira (anjos que não se deve imaginar os anjinhos, angelotes, de Rafael; não, anjos, serafins masculinos com três gigantescos pares de asas, seres demoníacos entre o homem e Deus).

Agora, bem, qual é a razão para que o homem não chegue ao verdadeiro em si, por que, não obstante animado de ótima vontade, equivoca seu caminho, como aquele médico rural que seguiu os “sons enganosos da campainha noturna”? Kafka não se via inclinado por seu caráter a fazer promessas ou concessões à vida feliz. Admirava quem era capaz de fazê-lo; ele mesmo permanecia em suspense. Mas em suspense seria vazio e deserto, como se ele não houvesse sentido o absoluto como algo indescritível em si. Em meio a sua insegurança se pressente uma distante segurança, a única que pode fazer possível, a de sustentar a insegurança. Já disse que esse rasgo positivo se percebe acaso com menos firmeza em seus escritos (razão pela qual muitos os acham deprimentes) que em sua serenidade pessoal, no suave, discreto, nunca precipitado, de seu caráter. Mas quem lê sua obra com atenção também vislumbra repetidamente, através de zonas sombrias, o núcleo luminoso, ou melhor, suavemente radiante. Na superfície, no que se relata há desgarramento e desespero; mas a serenidade e a extensão com que se expõe o argumento, a acidez enamorada do detalhe, quer dizer, da vida real e da descrição fiel, o humorismo resultante da construção das orações comprimidas por tantos giros estilísticos que seu efeito é muitas vezes análogo ao curto-circuito (os devedores “se voltaram pródigos e dão uma festa no jardim de uma osteria, enquanto outros interrompem um momento seu voo à América e assistem à festa”), tudo alude já por sua forma ao “indestrutível” em Kafka, à natureza humana comum que ele conheceu.

Tal humorismo se fazia particularmente claro quando era Kafka mesmo quem lia suas obras. Por exemplo, nós, os amigos, morremos de rir quando ele nos fez conhecer o primeiro capítulo de O Processo. E ele mesmo ria tanto que por momentos não podia continuar lendo. Bastante assombroso, se se pensa na terrível seriedade desse capítulo. Mas acontecia assim.

Claro, não era uma risada boa e prazerosa. Contudo, havia a partícula de um riso bom, junto às cem partículas de desassossego que não pretendo negar. Só quero assinalar o que se esquece facilmente quando se contempla a obra de Kafka: sua dobra de alegria do mundo e da vida.

 

Uma raiz para seu peculiar humorismo:

 

As exigências que Kafka impunha a si mesmo eram as mais rigorosas. Quase nunca acreditava satisfazê-las. Não era, contudo, nenhum “crítico cultural” no sentido corrente. Pois muito do que ocorria ao seu redor, muitas pessoas bem medíocres com quem travava conhecimento, lhe pareciam realizadas, dignas de admiração por sua efetividade e força, e até agraciadas por Deus. A única certeza nele era a de não haver ninguém com uma consciência mais ardentemente firme que ele acerca da “distância de Deus”. Porém, nesse estar consciente de tal distância, Kafka, de puramente piedoso, não via virtude, senão unicamente insegurança, quer dizer, debilidade. No entanto, como a condição prévia de toda a vida era para ele a faculdade de sentir claramente e sem rituais nem dissimulações místicas a distância de Deus (a distância da perfeição da conduta reta), seu elogio e sua admiração pelo homem corrente (pelo homem “pedestre”, como disse Kierkegaard) tinham em si frequentemente algo de ironia suave, não premeditada, brincalhona e ao mesmo tempo comovente. Sua bondade, por assim dizer, caridosa, cedia de forma fictícia a dianteira aos vencedores cotidianos. Conhecem o abismo como eu e, no entanto, se balançam felizes sobre ele. Deveras o conheciam? A cômica hipótese da premissa iluminava a tragédia pessoal em sua vida, era uma das raízes de seu peculiar humorismo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ser Candido ou não ser

A crítica deveria ser uma independência, estendida até mesmo a quem a observa… Mas certas autonomias, no país do grande intelectual, desenham-se impossíveis.

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As palavras, as coisas e um ilustre inventor

Nunca entrevistei Antonio Candido. Nem busquei entrevistá-lo. Gigante demais, filé para os altamente hierárquicos do jornalismo, disputado entre todos os repórteres e editores culturais… Achei por bem esquecê-lo, sem contar que sempre me senti melhor entre os perdedores. E Candido, morto dia 12 de maio, aos 98 anos, era, como sabemos, um campeão extremo.

 

Além disso, eu já havia tido sorte demais com outros personagens. Por exemplo (e espero conseguir recuperar alguma coisa dessa vida louca neste blog), fui a última a entrevistar, em maio de 1999, o crítico teatral, jornalista e historiador Decio de Almeida Prado, em Baú de frases nítidas, o que já me parecera enorme. Companheiro de Candido na revista Clima, era tão erudito como ele, de grande conversa, um humor mal-humorado, sensacional. Nós nos abraçamos ao final da entrevista. Suspeito que ficaríamos amigos, se tempo tivesse havido. Uma amizade respeitosa como aquela que senti haver alcançado, anos depois, com o tradutor e crítico Boris Schnaiderman. Homens de grande simplicidade, a exibir generosamente um conhecimento ainda maior.

 

Certa feita, contudo, um chefe me exigiu que tentasse entrevistar Candido finalmente. Minha vida ficara mais dura com dois filhos para sustentar e eu não poderia simplesmente me recusar ao impossível… Fiz então o papelão de pedir a uma das filhas do professor que me recebesse. Ana Luísa foi muito gentil, tinha gostado de algo que escrevi sobre o pai, mas… Não, ele não iria falar.

 

Contudo, preciso dizer que, nos anos 1990, eu havia cometido uma ingenuidade. A mando de meu editor em uma revista semanal, lera uma coletânea menor, de quase-crônicas, em que Candido perfilava de Chaplin (a quem chamava Carlitos, equiparando-o a todo o cinema de sua infância) a Azis Simão. E, ao escrever a resenha, decidi mencionar o que não parecia cair bem em um dos textos, aquela hagiografia do sociólogo Simão que não contextualizava seu caminho pelas esquerdas brasileiras, seus antagonismos. Lamentei pela melancolia estalinista que via desenhada no perfil.

 

Eu não sabia, em meus vinte anos, que a gente não está autorizada a fazer reparos ou levantar incômodo em qualquer mínimo aspecto do trabalho de figuras como Candido. Não pode colocar uma objeção que seja no Chico Buarque escritor, no Mick Jagger do disco solo ou, atualmente, no Kleber Mendonça de Aquarius, sob pena da neve eterna, das portas fechadas, do rancor dos discípulos a navegar neste pequeno mundo cultural. A gente até pode, claro. Mas não gente como eu, que muda de ideia, que muito caminha e mais preza o caminho que a pedra…

 

Muitos anos depois de minha observação na resenha (anos estes que me ensinaram a declinar de polêmicas em nome da publicação), um de seus fiéis seguidores, que entrevistei para outra revista, ainda se lembrou de me cobrar pelas palavras proferidas quase dez anos antes. Tenho cá para mim, contudo, que o próprio Candido não fizera caso de palavras tão meninas… Mas meu entrevistado as distorcia, como se eu tivesse chamado o próprio Candido de estalinista. Vejam bem: uma única frase em um texto elogioso de uma página, desvirtuada em fel acadêmico por uma década…

 

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Hansen narra sua visita a Candido: o coroné tá me chamando, debaixo do guarda-chuva…

Há três anos, fui entrevistar um antigo professor e grande pensador da literatura, João Adolfo Hansen, e ele me fez ganhar o dia. Contou que com Candido era assim mesmo. Que seus discípulos eram caricaturais, ansiosos em se prender a sua aura e galgar posições à imensa sombra. Em sua temporada uspiana, os colegas imitavam até mesmo o estilo dos móveis eméritos do professor. Todas as salas dos mestres da Letras repetiam seu toque alemão-bauhaus…”Eles usam cuecas com monogramas repetindo o AC de Antonio Candido. Quando fui à casa de Candido, entendi. Meus colegas copiavam a casa do professor.” Além disso, nenhum trabalho ou concurso poderia excluir a opinião de Candido sobre ela, mesmo que contradissesse a própria pesquisa em questão.

 

Candido deixara de incluir Gregório de Mattos em sua Formação da Literatura Brasileira, de 1959, e Haroldo de Campos fizera um estudo em torno disso, O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O Caso Gregório de Mattos, já que o valorizava como uma manifestação literária nacional antecipadora, carnavalizante, uma ideia assimilada pelos tropicalistas. Em A Sátira e o Engenho, de 1989, contudo, João Adolfo Hansen contestava o sentido “carnavalizante” da sátira de Gregório, mostrando o fundo conservador de suas tópicas.

 

Quando Candido convidou Hansen a jantar em sua casa, queria “ser justo” e parabenizá-lo pelo estudo. “Fui lá com a Marta, minha esposa”, conta Hansen. “E o Candido se revelou muito amável. Eu disse pra Marta, olha, é o alpendre e o canavial, o coroné tá me chamando, debaixo do guarda-chuva… Ele contou ter lido o livro, achado muito bom, um clássico. Disse-lhe que tinha sido generoso, e ele: ‘Generoso não, procuro ser justo.’ Pessoas que não me olhavam na cara passaram a falar do meu trabalho, elogiar, e eu disse: ‘Marta, fui autorizado pelo professor Candido.’ Mas agora, com a publicação dos volumes do códice Asensio-Cunha para a obra de Gregório, o silêncio voltou a ser estrondoso.”

 

Em seu clássico A Sátira e o Engenho, Hansen mostrava que os poemas de Gregório eram atribuições apócrifas, de modo que, segundo o professor Alcir Pécora, o seu nome deveria ser entendido mais como uma “etiqueta” de autoridade associada ao gênero da sátira do que como uma autoria original e única. Se fosse manifestação literária, disse-me Hansen, que fosse aquela filiada ao bloco greco-romano, não exatamente brasileiro. “Não é pouca coisa. Gregório é contemporâneo de Juvenal, Horácio, Virgílio, Ovídio, Homero, Calímaco, mas também contemporâneo de Petrarca, Camões, Gongora, altíssima literatura. Mas nem é literatura, porque eles não pensam em literatura naquele século. Uma grande ficção, uma grande poesia.”

O próprio Antonio Candido, diante das querelas entre seus seguidores e os raros divergentes, deve ter sentido a necessidade de aquietar-se. O mundo acadêmico é um pequeno toco no mundo. Lembro-me que fui assistir à sessão em que Candido, ao completar 90 anos, recebia o troféu Juca Pato na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Como sempre, falava com simplicidade ampliadora. E jogava humor sobre os doutos presentes do direito, curso que ele nem mesmo conseguira completar. Sua escrita direta, disse, fora favorecida pelo jornalismo. E a sessão tornou-se, assim, um desagravo ao jornalismo como responsável por desenhar as boas e claras escritas críticas e por formar leitores. (Não estou brincando: há quem ainda lute por entender, no jornalista, um escritor.)

 

Em minha vida de estudante da Letras-USP, além de ter sido aluna do sábio e irreverente Hansen, até hoje a brandir sua verve contra os scholars dos monogramas, frequentei as aulas de um grande discípulo do Candido, o João Luiz Lafetá, morto precocemente, aos 50 anos, em 1996. Na sua tradição, direto, a escrita simples, Lafetá compreendia um grande contexto para a literatura, injetava-lhe história. No final de um semestre da graduação, ganhei nota 10 por um trabalho de teoria literária entregue a ele. E sorvi sua observação final: “Seu texto é muito bom e certeiro, só temo que seja impressionista”. Ou algo assim. Como se me dissesse: você acertou agora, porque teve uma boa impressão sobre um fato literário, mas e se a impressão for ruim depois? Você precisará de método…

 

Nem fui discutir com Lafetá. Jamais poderia contestá-lo. Não teria argumentos. O 10 recebido foi um sonho mantido assim. Interpretei suas palavras a meu modo. Preferi pensar que o impressionismo contaria a meu favor, sem saber que nada nesta vida conta.

 

 

 

 

(*Fotos Wikipedia e Toni Pires, a última publicada em O poeta é um fingidor, reportagem de minha autoria publicada em 12 de novembro de 2014)