Tua vida não é minha

Quando Moser lançou sua biografia de Clarice Lispector, eu a li e não compreendi o relevo que dava a específicas interpretações crítico-filosóficas, estas que pareciam se sobrepor sem sentido à história de vida da escritora, já tão bem contada antes pela professora Nádia Battella Gotlib.

Pareceu-me que a vida de Clarice lhe fazia sugerir uma questão sobre o desenraizamento judaico, que muito antes já o preocupava pessoalmente, por conta de uma ascendência familiar. E que ele usava a oportunidade de uma biografia de Clarice pra veicular suas próprias ideias. Porque nada do que dizia no livro parecia encaixar-se no que Clarice foi.

Marquei uma entrevista com o autor na sede da editora do livro, a Cosacnaify. Então um jovem educado e gentil, Moser me recebeu muito bem. Mas, de novo, não me convenceu da tese do livro (se havia propriamente uma) com suas respostas a minhas perguntas. Eu fazia uma reportagem, não uma crítica, porque não sou especialista acadêmica em Clarice. Ainda assim, eu intuía uma roubada.

Pareceu-me então que, fascinado (não sem razão) pela escrita de Clarice, ele teve uma iluminação pra iniciar o trabalho, que incluía Spinoza, e dela não arredou pé no transcorrer da pesquisa, mesmo que os fatos andassem em outra direção. Ou talvez quisesse discorrer sobre Spinoza e usou Clarice para isso, sem devidamente pesquisar os fatos da vida da biografada que o contradissesse.

Por fim, e mais terrível, me parecia que ele tivesse um plano. Depois de sua biografia, as obras da escritora estourariam no mercado americano, e ele seria o responsável por tal fenômeno… Triste dizer, mas me senti assim: usada como brasileira. Mais um gringo esperto achava ser o primeiro a descobrir nossa riqueza “selvagem”, com o objetivo enviezado de crescer a partir dela.

Como sempre, nessas horas, minha avaliação é raramente compartilhada por nossa crítica local, que nem existe, a rigor. Indulgente, deslumbrada… Naquele caso, também orgulhosa da amizade com um estrangeiro de projeção…

E parece finalmente que agora Moser fez um caminho parecido em relação a Susan Sontag, pior ainda, de modo a incriminá-la por alguma coisa. https://brasil.elpais.com/brasil/2019/09/10/cultura/1568114545_419957.html Não deve gostar da Sontag como talvez gostasse de Clarice… Ele culpa Susan, por exemplo, de trair a causa de sua homossexualidade… Mas ela era bissexual. Mas ela achava que discussão particular de gênero não definia sua escrita.

O interessante (e demolidor) é que agora Moser não fala para brasileiros passivos, antes para um público de intelectuais e jornalistas do mundo com voz alta para rebatê-lo.

Não tenho mesmo como saber se o crítico do El País, tradutor da obra de Sontag para o espanhol, está sendo justo com o biógrafo. Não lerei este texto de Moser, quase certamente. (Livros são caros e tenho tanto ainda, a vida que me resta, pra experimentar…) Mas, pelas razões que exponho aqui, acredito que o crítico infelizmente não esteja muito longe de ter analisado o trabalho com acerto.

what’s done is done…

conje ensaiou o monólogo com conja? quem escreveu?

o cara se entrega, é comovente a estupidez!

ele não só justifica a agressão à mulher de uma maneira geral.

o cara se entrega mesmo, pessoalmente, como se conja fosse sua lady macbeth, a tal intimidante, impositiva, superior…

e ele, macbeth, o próprio, em névoa, parece prestes a assassinar o rei duncan porque a mulher o convenceu assim…

essa escócia ainda acaba em facada verdadeira, céus!

pudor da história

só na biblioteca a gente pode mesmo respirar um consolo pra esse mundo ruim… borges, dos meus autores mais relidos, sempre tem algo a ensinar. deparo com este trecho de “o pudor da história” que eu não “enxergara”; é como se eu seguisse um procedimento que o escritor descreve aqui e do qual também, alguma vez, foi vítima; a gente precisa ler para entender, mas não somente, também para olhar o que antes não vimos:

“… desconfio que a história, a verdadeira história, tem mais pudor e que suas datas essenciais podem ser também, durante longo tempo, secretas. Um prosador chinês observou que o unicórnio, justamente pelo fato de ser anômalo, pode passar despercebido. Os olhos veem o que estão habituados a ver; Tácito não percebeu a Crucificação, embora seu livro a registre.”

Há algo que não terei visto hoje e que se passa secretamente diante de mim. Algo de bom. Preciso fechar os olhos pra ver?

Na contramão

Franklin de Oliveira (1916-2000) lembrava o seguinte em seu ensaio “A Semana de Arte Moderna na Contramão da História”:

A universidade chegou ao Brasil em 1922, no Rio.

Mas quatro séculos antes, em 1538, fundava-se em São Domingos a universidade São Tomás de Aquino e, logo a seguir, a de Santiago de La Paz.

Em 1553, a do México e a de La Paz, a da Guatemala e a do Peru, a da Colômbia, duas no Chile, duas na Argentina, a de São Marcos, em Lima, a de São Jerônimo, em Havana, a de Santa Rosa, em Caracas, a De São Gregório Magno, em Quito, a de Santo Ignacio de Loyola, em Córdoba.

Todas elas dotadas de imprensa. Todas imprimiam livros e jornais.

Enquanto isso, por Carta Régia de 5 de junho de 1747, o Reino mandava sequestrar todas as letras de imprensa existentes no Brasil, por inconvenientes aos seus interesses.

“Sem a educação não se chega à consciência política”, dizia Franklin. “E era isto que Portugal queria impedir quando no Brasil, desde o final do século XVIII, já tínhamos todas as condições objetivas para sermos uma nação soberana”.

Tudo isto te faz entender umas coisas ou não?

Um longo penar

Admirado por Machado de Assis e um dos mais prestigiados autores de seu tempo, José de Alencar foi um expoente do nacionalismo romântico, aquele que buscava no indígena uma “identidade brasileira” original.

Ao argumentar longamente a partir de um trecho do texto de posse do novo chanceler, a colunista Eliane Brum nos lembra hoje desse nacionalismo praticado pelo escritor, como por Gonçalves Dias, mas deixa de lado outras facetas de Alencar.

No teatro, Alencar promoveu uma comédia que intitulou “realista”, didática, de bons costumes e polida, que Machado buscou sem muito sucesso seguir.

Na política, Alencar defendeu que a escravização dos negros, então agonizante e sob descrédito generalizado, se extinguiria naturalmente, sem a necessidade de um decreto de abolição. E que nosso sistema econômico colonial, baseado no trabalho forçado, entraria em colapso se a libertação ocorresse de forma indiscriminada.

Machado não confrontou diretamente este ponto. Alencar era uma figura inalcançável, quase paterna, que muito contribuíra para o reconhecimento literário de seu discípulo.

Em seu artigo hoje para o El País, Brum não ressalta esta passagem ao evocar o Alencar citado pelo chanceler aloprado na posse. E anuncia (acho um verbo adequado) que nos explicará o porquê de Araújo ter mencionado o autor de “Iracema”. Brum tem todas as certezas e pacientemente as mostrará a seu leitor.

Ela argumenta que Araújo descontextualizou Alencar pra tentar provar a grandeza de um ensino isento de “ideologias de marxismo cultural”. Mas que passou longe de seu objetivo, já que o discurso de Alencar fez sentido naquele tempo de formação e que não faria hoje, adaptado canhestramente por Araújo para uso nostálgico e manipulador.

Tudo bem, o chanceler é um banana que talvez nunca tenha ouvido falar de contexto histórico. Contudo, se Brum tivesse notado o importante detalhe da defesa de um sistema colonial moribundo escravagista pelo Alencar, certamente teria melhorado sua argumentação.

Porque é o tolerante à escravização que Araújo defende em Alencar, não o nacionalista de puro ideal. É outro o modelo que o chanceler nos deseja impor por meio da evocação de um trabalho literário.

Me deu a impressão de que a jornalista sabe sobre Alencar tanto quanto o colegial que um dia fomos nós; que pegou uns livros dele da estante e adaptou trechos a sua convicção no momento de escrever.

Tem sido assim com a Brum de que tantos amigos parecem precisar. Desinteressada da pesquisa, ela fala o que sua formação mediana e sua intuição lhe ditam. Quando isto já bastou a um pensador, a um jornalista, por mais que ele conheça a língua portuguesa e não dê vexame ao escrever?

Intuição não resolve tudo.

Pensar é penar.

Algo como a morte

Certa vez um editor me pediu para fazer matéria sobre determinado volume de ensaios do Otto Maria Carpeaux.

Fiquei muito feliz com a incumbência.

Até demais.

Pensei: como um assunto bom desses caiu comigo e não com os lobos de sempre?

Não demorei a perceber que se tratava de uma armadilha.

Ao abrir o livro, vi que fora organizado por Olavo de Carvalho.

Isto faz tempo, vinte anos, mas Olavo já era então uma porcaria. Astrólogo que maltratava mulheres e se dizia filósofo. Uma porcaria não por ser reaça, mas por ser Olavo mesmo.

Meu editor havia batido boca com ele pelo jornal em torno de uma pseudoquestão erudita. Meu editor também era reaça, jovem discípulo do Francis, condição que os jornalistas “de cultura” da época almejavam.

(Uma professora da ECA deu de comparar meu estilo ao do Francis, sei lá por quê, e eu, mesmo aluna dela, rejeitei ofendida a comparação. Queria pra mim um vigésimo da iluminação de Lúcia Miguel Pereira! Deixa o Francis pros meninos!)

O editor havia então me dado o livro como tarefa porque não queria se ver com o astrólogo novamente.

O discípulo do Francis, que se achava melhor que o Francis, me disse o seguinte: que eu poderia fazer a matéria sobre o Carpeaux desde que não entrevistasse o organizador do livro.

Estranho, né?

Mas, do meu ponto de vista pessoal, magnífico.

Meu editor quis me colocar no fogo e eu fingi que não percebi. Na época tinha dois bebês em casa, trabalhava e saía correndo pra amamentar e medicar. Escrevia nos intervalos da vida. Não ia perder tempo com essa preocupação.

O que eu não sabia era que observar qualquer coisa sobre Olavo vinha já acompanhado de muitas ofensas virtuais.

Desconhecia sinceramente o eco de suas aberrações pronunciadas e fiz a reportagem.

Escolhi um sobrevivente da época do Carpeaux para que descrevesse o crítico pra mim. Era o poeta Sebastião Uchoa Leite, o melhor tradutor da Alice do Lewis Carroll. Ele havia trabalhado como estagiário numa enciclopédia dirigida pelo crítico, e crescido a seu lado a partir de então. (Não me recordo bem que caminhos me levaram a esta informação que funcionou como descoberta na época.)

Um gênio poético, um ensaísta, um homem das palavras, gente muito boa. Uchoa Leite tornou-se minha fonte amiga.

Mal saiu a matéria, o Olavo começou uma campanha contra mim nos seus espaços e naqueles de seus discípulos. Não reconhecia Uchoa Leite como discípulo. Disse que eu tinha inventado a história! Por ter deixado de ouvi-lo, gracejou, eu deveria ingressar na dupla sertaneja pavam-pavamzinho. Por meu lado, eu certamente esperava um insulto melhor…

(Não foi o único a correr atrás de mim na vida jornalística, claro. Me vi perseguida por umas figuras a quem, como a ele, inicialmente não dava a menor importância, e pensando bem, ainda não dou. Entre outros, por Paulo Coelho, que jurou lançar seus poderes de guerreiro para obstruir minha “luz”; por Pablo Capilé, que não se dirigiu a mim pessoalmente, preferindo em lugar disso ordenar o ataque de suas galés.)

Ser achincalhada por Olavo, aprendi, equivalia a um certo elogio. Não que tivesse me achincalhado, na verdade. Não falei nenhuma bobagem no texto, por sorte, e ele não tinha por onde andar. Mas como ousei não entrevistá-lo para realizar a matéria?

Na redação, todos comentavam os ataques de Olavo a minha pessoa com inveja clara.

E eu tinha de contornar os lobos jornalistas feridos por minha fama!

Muito divertido e tal.

Mas ninguém consegue imaginar isto hoje, estou certa.

Olavo, ele próprio, interessado em organizar os ensaios de um Carpeaux!

A vertigem da queda transformou-o em algo diferente, não?

Algo como a morte.

Meu encontro com V. S. Naipaul

Os melhores e breves momentos de um jornalista são vividos em extrema dificuldade. Ou somos habitados pela ousadia ou não saímos de casa. Dói abrir a porta para a guerra no quinto andar. As desculpas não interessam. Tenha ou não sapatos para a neve, o fuzil precisa caber no ombro e é melhor remendar o furo do capacete. Esteja lá, forte e atento. Tenha sorte.

Entrevistar V.S. Naipaul, morto ontem, aos 85 anos, foi uma dessas horas de guerrear. Ele era impossível. Amargo. Pinicava. A “New Yorker” disse que uma jornalista tinha caído aos prantos diante dele. E a Companhia das Letras não queria me incluir entre os entrevistadores deste Prêmio Nobel sobre seu novo livro. Eu trabalhava no pequeno Jornal da Tarde, que credencial era essa? Mas havia uma pessoa querida na assessoria da editora, a Ruth Lanna. E ela me ajudou a entrar.

Não fiz nada demais antes do dia da entrevista, apenas li o livro. Acho bom ler o livro antes de entrevistar. E muito mais eu não poderia fazer, o tempo era curto. Tinha sido tão bom ler. Me transportei até Balzac, que eu percorria muito na época, 1994.

Naipaul estava em São Paulo para a promoção do livro. Fiquei aliviada. Telefone é do outro mundo. E cara a cara tenho menos medo desses enfrentamentos culturais ou do meu inglês imperfeito, eu diria ruim.

Entrei na sala e ele me olhou de cima abaixo. Analisava meus olhos como um diretor de escola ou um dirigente da polícia secreta. Com uma curiosidade a mais. Eu soltei a língua. Não me lembro direito o que perguntei, mas o comparei a Balzac. “Em que página do meu livro você encontrou a comparação?” Abri a página e a li em português. Ele era casado então com uma argentina. Não achou difícil entender. Divertiu-se.

E nos divertimos. “Não sei por que jornalistas acham difícil me entrevistar. É só ler até a página 100.” Perguntei de sua vida em Trinidad. “Lá não há pessoas tão finas e cultas como você e o Luis Schwarcz.” Ri só por dentro, mas ele ali falava sério. “Em São Paulo, a única coisa terrível é o trânsito.” Perguntei por que fora jornalista: “Pelas viagens.” (Dizer isso pra mim, que viajei tão pouco na profissão… Foi a única vez em que me envergonhei diante de alguém mais inteligente do que eu.)

Continuamos a conversar e ele não queria que o papo acabasse. Do nada me convidou pra jantar. Deus meu. Disse que não podia, porque eu ainda precisava escrever o texto. “Vocês têm muito pouco tempo”, admirou-se. Mas não era pelo tempo. Escrevemos o que podemos, mesmo, em prazos impossíveis. Meu medo era que tudo desse errado num jantar. (Contei essa história a uma ex-amiga, e ela concluiu que ele estava interessado em mim. E cometi o erro de relatar isto também durante uma palestra para jornalistas iniciantes. Gente ruim.)

A reportagem saiu e vai neste pdf V. S. Naipaul (1). Não se esqueçam de que escrevi rápido realmente e que o espaço a mim concedido no jornal resultou bem pequeno.

O Luis Schwarcz me contou que no dia seguinte deu a notícia ao escritor: “A melhor matéria foi a da Rosane.”

E a resposta de Naipaul:

“I knew it.”

Ignorância de sonhar

A indiferença sobre eles parece tanta que descem pelo corrimão da escada rolante sem esperar a segurança do metrô descer o pau. Eu não compreendo, mas os vigias da estação Trianon Masp, aparentemente sim. Nem se mexem. Estão de costas para os menores, que são, claro, negros, magros, os cabelos cortados curtos, se meninos, ou presos em um rabo de cavalo espetado, se menina. Nenhum passageiro reclama da algazarra que presencia. Mas os meninos gritam demais, gente, eles fazem essa brincadeira de bater na bunda, de puxar o braço um do outro, de socar nos cucurutos. Era para todo mundo se importar. Ou será a última refeição dos condenados e só eu não entendi?

Tomam a rua vestidos com o capuz do moletom. A Paulista não ecoa qualquer íntima ou desesperada perplexidade de alguém, que dirá a deles. Os policiais, em grupos de dois ou três, miram qualquer agitação com o soslaio da serpente, e se olham de frente, esqueça suas chances. Mas nem se importam com os meninos, ignorados mais uma vez. Reparo que as autoridades executoras engordam a cada dia, fartas, talvez, de tantos bois engolidos pelas bordas. Não sei se há algo tão indesculpável, intratável ou abjeto em São Paulo quanto ser policial, essa gente que morre cedo, por fora e por dentro. Mas pode ser que exista.

Em quase toda esquina da avenida, a cada dia transformada em beco, circo, picadeiro ou pátio prisional, algum homem ou mulher estará de cabeça baixa a considerar consigo, eu diria consigos, um erro cometido. Pode prestar atenção. A Paulista é fechada. Seus marginais falam com o ar. O jovem que fotografei de cabeça baixa, sentado no banco dos maconheiros do calçadão das Flores, por exemplo, lamentava repetidamente sua “ignorância de sonhar”. Quem sonha ignora? Sinto que tudo funciona em direção oposta a isto, mas não me arrisco a perguntar. Sofro de não entender nem mesmo a mim.

 

Logo cai o dia. Logo tudo cai.

 

O por do sol é o pertencimento dos tristes.

Um grande coração

A aventura humana era o tema da filmografia de John Huston, morto há trinta anos

norman seeff 1981
O diretor americano John Huston, retratado por Norman Seeff em 1981

Em 28 de agosto de 1987 morreu John Huston, um dos maiores cineastas do mundo inteiro, artífice da aventura humana. Que ninguém se lembre de homenageá-lo nestes trintas anos é um sinal dos maus tempos. Quando o diretor partiu, era como se as velas da arte estivessem recolhidas. Um ano antes, com graves problemas respiratórios e ao lado de Akira Kurosawa e Billy Wilder, entregara a Sydney Pollack uma estatueta de direção, em bizarra cerimônia do Oscar (com Sonia Braga na plateia) que sinalizava para o futuro modo hollywoodiano, nem sempre tão brilhante, de contar histórias.

Quem dera ser a jornalista Lillian Ross para descrever, com a elegância de “Filme”, o embate de Huston contra a cegueira dos produtores durante a produção de “The Red Badge of Courage”, a obra mutilada sobre a Guerra Civil americana. Seu saber lidar neste mundo, a maneira de compor as obsessões, a cinematografia baseada nas grandes literaturas… Cada filme de Huston parecia destinado a desenhar uma face de nossos enganos, medos, inúteis amores. Havia decadência, delírio e laços desfeitos na obra-prima “À sombra do vulcão”. Uma desoladora vaidade em “The Misfits”. “O Tesouro de Sierra Madre” trazia a cobiça e o castigo. “Uma Aventura na África” transformava a paixão reprimida em comédia tensa. O humor negro era o prato apetitoso de Huston em “A Honra do Poderoso Prizzi”. Em “Os Vivos e os Mortos” ele compunha uma epifania. Em “Falcão Maltês”, um jogo.

 

Sua habilidade narrativa se estendia a documentários como “Let There be Light”, de 1946, atualmente disponível no Netflix, em que descrevia a batalha interior dos veteranos traumatizados pela guerra (e seus caminhos neste esforço documental são narrados por Francis Ford Coppola na série “Five Came Back”, igualmente pertencente ao catálogo do canal).

Os enquadramentos em profundidade, a direção dos atores, as palavras! Principalmente estas, bem tratadas, diretas e essenciais, extraídas das obras de Herman Melville (“Moby Dick”) ou de Sigmund Freud (“Freud Além da Alma”), e proferidas sob brilhantes cenários, tornaram-se marcas de seu estilo. Huston (autor da autobiografia “Um Livro Aberto”) reforçou um caminho clássico, alto e perene para o cinema americano, atualmente tomado pelas folhagens dos fragmentos.

Três anos após a morte do cineasta, Clint Eastwood (“White Hunter, Black Heart”) apontou-lhe uma face cruel. Ninguém duvida que seu caráter mergulhasse por vezes em águas sombrias. Contudo, amparados por seus filmes, jamais nos convenceremos de que Huston não tivesse um grande coração.