ah, o gatilho

Quando acho que nada mais irá me chocar na vida, aí mesmo a boiada bate na minha cara com força.

Ponho a bagagem no carrinho adquirido pelo prédio onde moro. Vou levá-la até o porta-malas do nosso automóvel, de modo a fugir do carnaval do Nunes. E de repente, no corredor, ouço um trecho da discussão entre o zelador e o porteiro.

O porteiro, por ser branco, gordo e eleitor de Bolsonaro, um dia eu apelidei de miliciano. O zelador é outra história. Negro, tem o porte elegante e parece ser amigo dos policiais da rua.

Como jamais veste camisa de manga curta, nem no calor infernal, o zeloso zelador me faz fantasiar sobre a existência de eventuais tatuagens pelo corpo, que ele talvez precise esconder.

O zeloso tem voz e expressão de boleiro. O porteiro é assíduo espectador do telejornalismo policial.

– Mas ele não fez isso do nada. O gatilho foi a traição da mulher – diz o zelador.

– Como assim, gatilho? – pergunta o miliciano.

– Ela traía ele. Portanto, ela deu o gatilho. E ele matou.

– Mas matou quem? Ela? Não, matou os filhos. O que tem a ver? 

– O gatilho! – diz o zelador.

– Até quando as pessoas vão justificar os crimes baseadas nisso? Nem a mulher ele poderia matar.

– Mas o gatilho é importante – sentencia o zelador ao se dar conta da minha presença.

    Então até um bolsonarista tem momentos de lucidez? Mas o miliciano é só o porteiro. É o zelador quem dita os paranauês cotidianos do edifício, de cujos moradores posso imaginar a opinião sobre este caso.

    O que fazer? Haja camiseta crítica, haja boné dos sem-terra para esclarecer quem somos no entra e sai de todos os dias. Lula, viva cem anos. É muito duro ser só.

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