Mais que bala de revórver

Samba dos bons.

“Teu olhar mata mais do que bala de carabina, que veneno, estricnina, que peixeira de baiano. Teu olhar mata mais que atropelamento de automóver, mata mais que bala de revórver”.

E ironia das melhores.

A música é tocada alegremente no restaurante aglomerado da minha rua, em pleno setembro amarelo contra o suicídio.

Da Venezuela ao passado onde vivo

Morar no centro tem sido minha alegria neste ano que já se vai.

Aliás, ele se vai, mas não desejemos que parta tão já.

Vamos curtir o que resta deste ano, porque como me disse um músico ontem, o Marcos Mauricio, tudo vai piorar no ano que vem.

Então vamos curtir o sol e as árvores…

E antes que você me pergunte: há miséria onde vivo, sim.

Mas a cidade inteira tem sua porção.

São Paulo se enche dela.

Me interessa a luz do centro.

Gosto de me centrar.

Às vezes me parece que, neste lugar onde reside o caos calmo dos meus afetos, volto à infância.

Um comportamento… um jeito de falar que é só daqui e que é pra mim…

E os prédios da Light e do Mappin que ainda estão lá, além de todos os caminhos que levam à Sé, à Liberdade, à Mário de Andrade!

A linda biblioteca para onde, criança, eu ia ler e estudar, já que não tínhamos muitos livros em casa, exceto os maravilhosos de arte de meu pai e duas enciclopédias: a portuguesa Verbo (seis volumes bem fininhos) e a Tecnirama, em fascículos.

Creio que fosse pouca coisa pra minha curiosidade em relação ao mundo, que nessa época me atordoava em demasia.

Sempre morei no meu passado com muito carinho.

Mentalmente.

E agora fisicamente também.

Pois sexta-feira ia naquele caminho bem andado quando o garoto de 15 anos da foto se aproximou de mim em cima de sua bike.

Me perguntou se eu sabia onde vendia brinquedo.

Fiquei meio confusa. Não achei que nada ruim partisse dele. Mas falava portunhol, eu não compreendia bem.

Queria comprar brinquedo, mas não de criança.

Não brinquedo de brincar.

Bonecos, assim.

Disse a ele que havia lojas especializadas nesse setor em duas galerias.

Ele não as conhecia.

Perguntei se queria que eu o levasse até lá, já que estavam próximas de meu destino.

Quis.

Então lhe perguntei de que tipo de bonecos gostava.

“Não são pra mim.”

“São pra sua namorada?”

“Ainda não. Não é minha namorada.” Riu. É só sorrisos.

“Ah, então é pra conquistar…

“Não sei se vou conseguir. Mas já fiz o desenho dela olhando a foto do WhatsApp.”

“Você é desenhista?”

“Sou.”

“Que bacana. Mas, olha, os brinquedos às vezes não são baratos.”

“Meus pais compram pra mim se eu for bem na escola.”

“Em que série você está?”

“Primeira do Ensino Médio.”

“E passou de ano?”

“Ainda não sei” (um riso grande). “Vou ver uma nota na segunda.”

“E de onde você é?”

“Como assim?”

“Onde nasceu?”

“Venezuela.”

“Que legal! Conheço um venezuelano que faz um documentário sobre os compatriotas no Brasil. Foi até Rio Branco.”

“Eu também.”

“Você veio de lá?”

“Não, eu moro na Rio Branco.”

“A avenida! Entendi. Você veio pro Brasil com sua família?”

“Primeiro vieram meu pai e meu tio. Depois vim com minha mãe.”

“Você gosta daqui ou pensa em voltar?”

“Penso em voltar.”

“Lá está ruim, né?”

“É aquele presidente.”

“Sim, imagino. E o que vocês achavam do Chavez?”

“Bom. Muito bom. Com ele não tinha ninguém morando na rua, hoje tem. Ninguém passava fome, hoje passa. Ele protegeu as áreas dos índios. Não quis saber dos Estados Unidos. E ele falava três línguas, sabe?”

“Não sabia. Quais? Espanhol…”

Mais um riso longo.

“Lá não falamos espanhol. É castelhano.”

“Claro!” (rio de volta). “E que outras línguas?”

“Guarau.”

“Língua indígena?”

“Sim.”

“E a terceira?”

“Não sei.”

“Que bom que Chavez era bom. Aqui falam mal dele, é incrível.”

“Também falam mal de Lula, não? As pessoas são muito ignorantes.”

“Pode ter certeza! Olha, chegamos na galeria.”

“Eu não posso entrar com a bicicleta, só vim ver onde comprar. Depois volto. Obrigado.”

“Como você se chama?”

“Elker.”

“Legal te conhecer, Elker. Sou Rosane. Posso te fotografar?”

Obi-wan e meus pés

Em 7 de dezembro de 2016.

Sonhei com o Ewan McGregor. Eu passava por um corredor e o via numa cadeira de metal bebendo com amigos. Dizia-lhe oi. Ele morria de rir. E eu retrucava diante da figura de cabelo comprido, um pré-obi-wan: “Dou oi pra todo mundo, em todo caso, porque sou míope, não só por ser você.”

Que raio de sonho com Ewan, quando na semana inteira pensei em Alain Delon, sobre como se dava isso de ele ser uma divindade fria? (Enquanto do outro ator, nos últimos tempos, tenho mais apreciado seu perfil no Instagram: motocicletas e causas, causas e motocicletas.)

Ewan queria me dar uma entrevista, mas não conseguia falar. Não se lembrava de nada. E eu, paciente, à espera. Tanto esperava que perdia meus sapatos. E, largada no boteco sujo à noite, saía pra casa de meia, pelo chão alagado, sem saber como voltar.

i-Phones debrets

Havia miséria de arrepiar em São Paulo antes dessa tomada de poder. Os sem-teto e os viciados eram maltratados pela guarda civil. Os jovens contra a máfia do transporte, ridicularizados e bombardeados.

Mas agora, com Doria e Alckmin juntos, tornou-se outra paisagem. É um novo contingente. Mulheres e homens nas estações de metrô, viadutos, becos e escadas envolvem-se em panos leves, à espera do que beber antes da morte. Os olhos fecharam-se para as crianças. São as responsáveis pelo alimento e o futuro de seus irmãos, como no século 19 londrino ou piemontês, como no filme de Buñuel, ‘Os Esquecidos’.

São Paulo tornou-se o pitoresco acinte que ilustramos com nossos iPhones debrets.

ouve o que eu digo

vivo entre as britadeiras de são paulo.
quando não britam no andar de cima, britam aqui dentro.
para superar esses ruídos, que calam a calma, as pessoas acostumam-se a gritar.
gritam lá embaixo, agora, enquanto tento escrever.
não deve ser assalto desta vez.
minha rua tem muitos sem-teto, às vezes fixados nos bancos do calçadão.
falam consigo, com seus cães e com um ser que somente eles podem ver.
desta vez, a voz potente com aflição (creio que de um negro, rivalizando com os britos cheia de docilidade) agita-se.
grita, aparentemente, com alguém que eu poderia ver.
como se falasse comigo.
“ouve, porra, o que eu digo! ouve!”
ou falasse por mim.