Em março deste ano, aterrissei na Bahia. E para alcançar a praia onde me hospedaria, contratei o transporte em carro particular.
Cheguei exausta. Nem tanto em razão do caminho acidentado, mas porque, durante a hora em que durou a viagem, o motorista não parou quieto.
Falou horrores.
(Horrores literais.)
E falou para nos doutrinar.
Estranho?
Nem tanto.
Eu diria até que ele conseguiu. Me deu mesmo uma aula de Brasil. Esse homem negro de estatura miúda, relativamente jovem, mostrou um país ressentido que nem minhas trajetórias de Uber por São Paulo souberam aprofundar.
Vi que estava em maus lençóis desde o início da viagem. Ao passar por um grande carro de polícia estacionado diante de um barraco, o motorista gargalhou: “Os policiais não são bobos de usar sirene.” Imaginei que tipo de bandido a habitar aquela casa de pescador mereceria o cerco.
Fiquei quieta, mas o motorista prosseguiu.
Sua Bahia tão linda, disse-nos, está abandonada. Bolsonaro foi mal, mas teve o azar da pandemia. E Lula, como explica o desastre em seu governo?
Que desastre? pergunto. E vou ao óbvio. As pessoas comiam osso durante Bolsonaro e agora o Brasil é a nona economia que mais cresce no mundo.
E daí?, me pergunta.
Ele não quer saber de quem chegou agora. De quem arranjou trabalho com Lula. De quem pode comer e tratar da saúde com Lula. Ele trabalha há dez anos, todo dia a desgastar seu carro pela via acidentada. E por isso merece mais que os outros.
Mais o quê? Trabalho por mais de quarenta anos e só agora me aposentei, digo-lhe; é assim mesmo a vida do trabalhador. Do que ele está falando?
Simples. Ele não quer ser trabalhador. Quer as vantagens que a elite tem, mas ninguém se candidata a lhe dar. Quer ser como o endinheirado brasileiro é, belos carros importados e casarões, mas nada disso cai na sua mão.
Vote em Bolsonaro então, digo-lhe depois de ouvir um sem-fim de seus queixumes, até mesmo contra a preservação de território “para os índios, tudo vagabundo”.
Mas eis que o motorista não quer ter de escolher entre Bolsonaro e Lula. O candidato de que ele precisa nem existe. Ou, em março, ainda não havia. Vai ter de acabar votando no “menos pior”.
Pensei. Aqui é a Bahia e estamos assim. E me lembrei que não se cura fascismo desde seu nascimento, ocorrido no seio das utopias revolucionárias. O fascismo é um traíra de berço. Veio para enganar. Para se confundir com justiça social.
Quando Bolsonaro ganhou, em 2018, deu corda infinita para esse anti-ideal. São muitos os que “conseguiram pouco” e se projetaram nele para “crescer”. Que só veem o caminho do opressor a trilhar. Que não se interessam pela fome alheia, pela construção de uma sociedade igualitária, portanto mais rica.
Estamos cercados por essa indiferença. Pela ausência cognitiva contida na submissão egoísta, pela falta de educação geral.
Agora que o filho do monstro gasta ditos três milhões de reais para colocar seu canal no YouTube 24 horas no ar, o fascismo vai urdir todo tipo de ilusão a olhos vistos.
E serão muitos os olhos, já que o canal hoje em dia é o mais acessado no YouTube do Brasil.
Eles já são muitos, acesos pelo sinal de sempre, de que agora passarão a perna no próximo e subirão de vida.
Sim, eles são muitos, mas saberão voar?