
Sou da geração do Prince. Ouço algo dele quase todos os dias. Por isso estou aqui na minha rede, encolhida, com suas músicas no último volume do fone de ouvido, enquanto um bloco de pré-carnaval passa lá embaixo na São Luís, a tal avenida-folia paulistana. Não que toquem só o que é do carnaval por aqui, claro. Ô mania de alardear tudo, menos o samba, que este povo tem. E no volume mais ensurdecedor, of course. Mas amanhã vai chegar. Amanhã, o dia de eu fazer ioga para velhos no SUS. (Isto se não chover o mundo outra vez, que o salão do Anhangabaú não suporta a choradeira e se entope da sujeira das lágrimas.) Amanhã vou de bermuda ciclista seguir as manobras ditadas por minha jovem professora de óculos, magra e austera. De bermuda, sim, para enfrentar o mundo que me estranha. Que se danem, ok? Foi o que respondi delicadamente para aquela colega ao final de uma dessas aulas. Virou-se para mim, a espoleta, nos seus 70+: “Hum, tá bonita ainda, hein, olha essas pernas, aproveita!” Concluo que aquela idade com que eu sonhava secretamente chegou. “Que se danem”, respondi. Quase não ligo para mais nada nem ninguém. Se é elogio, como no caso da colega, não é: antes uma ameaça, um desdém. E de homem então é que não espero nada – assalto, talvez? Meu carnaval é o teatro das ruas do centro de todos os dias. You Sexy Mother Fucker, Prince. Bad girls, Donna. Michael, don’t stop ‘til you get enough. (E obrigada pela escuta atenta: a raiva de hoje vai passar, amém.)