A fábrica involuntária dos monstros do jornalismo

Um dos meus trabalhos ignóbeis na Folha do pleistoceno era reescrever os textos dos repórteres para que fizessem sentido e/ou coubessem no tamanho. Às vezes, eu precisava entrevistar os profissionais para entender como o fato se deu e colocá-lo bem descrito na reportagem a ser publicada.

Alguns desses repórteres cresceram em popularidade e importância graças justamente à reescritura de seus textos, feita por redatores modestos como eu. Resumindo, a gente contribuía, em troca de salário, para fazer crescer muita gente desprovida de talento, transformando-a, sem imaginar, nos monstrinhos do presente.

Hoje levei um susto ao ver que um desses repórteres sem jeito (não me pergunte quem) virou colunista do uol. Ele tem a mesma cara enfezada – aqui obedeço à etimologia -, mas agora produz o sumo da baboseira reaça em poucas linhas (ah, a sorte do editor), no modo platitude, só para agradar ao banqueiro seu patrão.

Até o Paulo Francis, não sendo flor de se cheirar, sabia que o jornalismo é moralmente indefensável. Então não vou eu me defender, né?

Só me desculpar.

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