Na moral

Se eu tenho uma boa recordação da escola onde estudei? Tenho uma divertida.

Eu era muito boa aluna de português, adorava análise sintática e escrevia bem as redações pedidas, às vezes poesias, além de me esmerar em declamar poemas clássicos de cor (sim, eram coisas estimuladas pelo povo lá de trás e eu fazia isso “de coração”, porque tornava minha vida menos triste). E enquanto isso tinha de me esforçar em ciências, exceto em biologia.

Quando estava terminando o Ensino Médio, os professores me perguntaram o que eu iria cursar. Disse jornalismo (estava em dúvida entre jornalismo e psicologia), até porque meus pais haviam me apoiado integralmente na decisão. Então estranhei quando os professores reagiram: “Que é isso, você merece coisa melhor!”

Adorei desobedecer meus professores e o colégio então.

Mas hoje entendo o que pensavam naquele tempo. Jornalismo era para a ralé. E eu deveria cursar direito ou estudar diplomacia, coisas muito mais de bem para o povo de humanas então.

Lembro disso e não paro de rir, acho que de nervoso mesmo. Se tivesse seguido uma carreira diplomática, talvez já estivesse aposentada ganhando bem. E no direito, concursada, não enfrentaria muito problema, acredito, só mesmo o trabalho a fazer.

Escolhi errado, porque jornalismo não dá dinheiro e, no atual momento, muito menos moral.

Mas é vida que segue que chama?

Trauma de S. Paulo

Vejo os testemunhos emocionados dos amigos jornalistas sobre sua experiência no jornal que faz 100 anos.

Pois bem.

Na Folha de S. Paulo perdi dez quilos e ganhei 10 cáries. Ninguém esquece uma coisa dessas.

Um jornal onde fui pisada e humilhada.

Mas um lugar onde me pagaram seguro médico, férias e demais direitos trabalhistas.

Desta segunda parte da Folha sempre gostei muito. E não encontrei o mesmo respeito que ela praticava conosco em publicações ditas de esquerda.

De resto, para mim, foi onde iniciei a amizade prolongada com Renato Pompeu.

E a meu ver isso foi quase tudo de bom que pudesse ter havido ali.

Como eu vi Maureen

Minha reportagem de 2010 com a fotógrafa Maureen Bisilliat, que reproduzo a seguir

Maureen Bisilliat em foto feita
por Olga Vlahou em 2010

Em abril de 2010, Maureen Bisilliat foi tema de uma grande retrospectiva na então galeria do Sesi, em São Paulo. Na ocasião eu a entrevistei para uma reportagem de revista que reproduzo a seguir. A genial foto de Maureen na reportagem foi feita por uma das maiores retratistas brasileiras, minha amiga Olga Vlahou. Maureen faz 90 anos no dia 16 de fevereiro de 2021 e este texto é minha homenagem a ela.

A primeira foto de Maureen,
nos anos 1950

A MÃE DA INVENÇÃO

Exposição na Galeria do Sesi refaz a trajetória da artista Maureen Bisilliat, que agora usa o vídeo para captar o instante

POR ROSANE PAVAM

A primeira de suas fotos ainda é a mais importante. Com ela, Maureen Bisilliat diz ter compreendido o ato de fotografar. A imagem foi feita em preto e branco nos anos 50, entre nisseis plantadores de algodão no interior paulista. Na humilde cozinha campesina, a mãe usa a faca diante da janela aberta à luz. Um menino cujo rosto não vemos deita parcialmente o corpo sobre a bancada em direção à mulher com a faca, como se a ela se entregasse, em sacrifício. No primeiro plano da fotografia, à esquerda, uma menina à sombra olha para Maureen.

“Depois desta, fiz sempre a mesma foto, não é?”, observa rapidamente a artista de 79 anos nascida em Surrey, Inglaterra, filha da pintora Sheila Brannigan. Maureen, que me recebe na Galeria de Arte do Sesi, em São Paulo, onde até o dia 2 de julho de 2010 ocorre a monumental retrospectiva de seu trabalho visual, tornou-se uma das mais importantes intérpretes fotográficas do Brasil, à moda de um Pierre Verger ou de um Marcel Gautherot, não, obviamente, sem dificuldade ou dor.

Uma dessas dores talvez tenha nascido daquilo que ela intitula “inconsciência”, mas que, pelo contrário, pode indicar o ato deliberado de quem se sacrifica por seu destino artístico. Na década em que registrara a família de lavradores, Maureen deixara a filha Kyra, de dois anos, aos cuidados dos avós na Espanha. Sem a menina e na companhia da amiga Ann Bagley, fora estudar no ateliê parisiense do cubista André Lhote (1885-1962), o professor de pintura do fotógrafo Henri-Cartier Bresson.

Aquele momento de distância familiar foi crucial, no entanto, para que ela pudesse ter aprendido composição e cor. “Sendo mais consciente, talvez não tivesse me afastado tanto de minha filha. No frigir dos ovos, não sei se isto foi necessário, mas assim foi”, ela diz, com seu português de quase seis décadas, acrescido de todas as contribuições européias. Lhote gostava de Maureen e de Ann porque elas chegavam até ele sem qualquer influência. “O que a gente produzia era primário, mas não envenenado.”

Aquela primeira foto nasceu de seu talento, mas também de seu conhecimento da arte. “A falta de técnica era compensada por uma consciência da luz e da composição, o que naturalmente vinha do meu passado na pintura”, ela explica. A artista não se descobriu com Lhote, embora ele a tenha introduzido à formalidade, embutida no ato de pintar e expressa nos esboços barrocos da artista, presentes na exposição. A descoberta da liberdade artística, ela atribui a Morris Kantor (1896-1974), russo ligado ao expressionismo abstrato que lhe deu aulas nos Estados Unidos em1957.

“Foi uma invertida total”, conta Maureen sobre seu aprendizado com Kantor. “Ele era o oposto do Lhote. Dizia que os erros eram tão interessantes!” Naquela Nova York, os artistas não viviam sob o jugo de produtores e agentes. Eram sobretudo simples. Depois dessa experiência, Maureen jamais deixaria de buscar tal qualidade em todos os artistas. Ela a viu no escritor Guimarães Rosa tanto quanto no sertanista Orlando Villas-Boas. Os dois a prepararam respectivamente para Minas Gerais e para o Xingu. Guimarães Rosa, por exemplo, disse-lhe que a fotógrafa não teria dificuldade em Cordisburgo porque, descendente de irlandeses, ela também cantava ao falar.

Os trabalhos a partir das indicações literárias de Rosa e de outros escritores, como Jorge Amado, Euclides da Cunha e João Cabral de Melo Neto, estão expostos no Sesi tanto quanto no livro Fotografias, editado pelo Instituto Moreira Salles. O extenso volume representou a “argamassa”, como ela diz, para esta exposição que também traz a passagem da artista pelo mangue e por Japão, África ou China. Desde 2003, porque faria o livro, Maureen promoveu “uma volta no tempo com tempo”, selecionando duas centenas entre 16 mil de suas imagens referentes ao passado. “Eu pareço toda artista, mas tenho muito de prática”, ela diz, sempre grata à grande equipe que a auxiliou a expor. “Sou organizada desorganizadamente.” 

Esta pensadora se realiza com a escrita, para a qual se diz meticulosa, enquanto, ao falar, lamente se soltar demais. Em muitos momentos, Maureen parece ansiar o rigor pregado por Lhote. E por que, sendo tão precisa nas composições, declinou ela própria da pintura? “Pensei essa coisa engraçada agora. Eu me sinto perdida diante do branco. Eu não sei inventar.”

Maureen Bisilliat habituou-se, então, a tirar da realidade seus temas. Mas não clica seriamente há trinta anos. “Sempre achei que perdi mais do que ganhei na fotografia”, ela considera. “Estou falando de captação. O que eu via era mais do que eu captava.” Conhecida por seu trabalho no Xingu, por exemplo, ela não retratou os índios como gostaria. Maureen só viveu intensamente aquele mundo ao mostrá-los durante seu processo de trabalho em Xingu/Terra, documentário em parceria com Lúcio Kodato, de 1979. 

A artista diz trabalhar melhor com a fotografia quando o personagem posa para ela, em cumplicidade. Raros são os momentos gestuais espontâneos como aquele em que, numa foto, seu pescador baiano segura a presa em movimento. “E observe como o rabo do peixe é importante para determinar a foto. Basta cobri-lo com a mão.” Quando usa o preto e branco, Maureen é aguda e suas fotos transmitem grande emoção e sensualidade. Em cores, seus registros fotográficos expressam uma beleza fria.

Representar o gestual e a voz das pessoas, contudo, é tudo o que encanta esta artista. Por exemplo, ela esteve com as caranguejeiras na década de 60 para uma reportagem sobre o mangue destinada à revista Realidade, da editora Abril, empresa para a qual trabalhou prazerosamente por sete anos. Sua trabalhadora é alegre e orgulhosa, “como uma bailarina de Degas”. E captar isto não seria dizer ao observador uma parte importante e esquecida da verdade?

Ela considera, contudo, raros e breves os momentos fotográficos em que não só as mulheres do mangue, mas vaqueiros do sertão ou pescadores, surgiram-lhe inteiramente. Por isto, ao registrar a vida em processo, o vídeo pede sua presença mais e mais. Com ele, finalmente, esta artista se sente preparada para o instante. Agora, por exemplo, decidiu correr atrás dos habitantes da Sé paulistana. No projeto que pensa intitular Fracos, Fortes e Fodidos da Praça da Sé, ela quer descrever de onde vêm e para onde vão as pessoas que por lá circulam. A São Paulo desvalida talvez precise, mais do que imagine, deste novo instante de Maureen.

A urna irresistível

Estudei na ECA-USP, que foi bastante definidora de minha vida posterior. Lá conheci grandes pessoas que se tornaram muito próximas por toda a vida. Usei muito a biblioteca, vi diversos filmes e combati a timidez durante meu curso de jornalismo. Muito importante foi ter frequentado ocasionalmente, durante meu período de graduação por lá, dois outros cursos, de cinema e rádio e tv, cujos professores eu considera criativos, bem melhores.

As aulas de jornalismo eram irregulares e maçantes, e eu só terminei a faculdade empurrada, porque na reta final um professor do currículo básico me assediava e queria me impedir de tirar o diploma.

Com a ajuda dos amigos, que me deram avaliação 10 em conjunto (e o professor tirava a média entre nossas avaliações e a dele), pude concluir a disciplina que me faltava. Naturalmente, ele me deu zero e eu passei com 5, depois de duas tentativas anteriores de convencê-lo a me deixar prosseguir em paz.

É um sujeito conhecido, ganhou cargos no governo paulista e até bem recentemente me procurou via email para que participasse de um conjunto de depoimentos de ex-alunos. Não vou dizer de quem se trata, já que não me interessa ter meu nome ligado ao dele jamais. É velho e deve estar aposentado.

Não conto essa história sempre, só falo agora porque novamente a ECA me pede alguma coisa, que é participar da eleição do representante dos ex-alunos. Não conheço as duas candidatas, mas como se trata de duas mulheres, escolhi a mais velha e fim.

Acho que não resisto a exercer o direito a voto em qualquer ocasião que se apresente a mim…

A ignorância é o brinde

Nos anos 1990 eu trabalhava numa grande revista cujo editor, hoje astro da imprensa de direita, era um homem atormentado, porém culto, porém digno com seus subordinados, porém capaz de assumir para ele os erros da equipe. Editores assim raramente existiram antes ou depois para mim. Ser de esquerda não obriga ninguém a desempenhar o trabalho com esse profissionalismo, infelizmente. E ele foi realmente especial.

Um dia, até por isso, entrou em franco atrito com a direção e se viu demitido, não sem antes olhar com pena para nós, os subordinados que permaneceríamos, consolando-nos: “Eu fiz o que pude.”

O editor a substituí-lo era um pulha que exigia receber presentes. No dia de sua chegada à redação, flores se abarrotaram em cima de sua mesa, partidas de todas as assessorias de imprensa, especialmente as musicais. Ali já entendi que eu não teria mais lugar.

Uma vez esse expoente me perguntou se eu havia feito o “necrófilo” de uma celebridade, em lugar de “necrológio”, e nem pude rir. Mas lembro de ter respondido: “Não faço essas coisas não”, para que ele me respondesse com seu olhar grave ou estúpido, eu era incapaz de distinguir.

A coisa prosseguiu daí pra baixo, até o dia em que fui fazer um perfil pedido por ele, de uma personalidade até então desagradável a mim, mas que até hoje recordo com carinho: Claudia Raia. Ela era mais baixa do que eu, se bem me lembro, e estava sem salto, ao lado de uma assessora que não largava de seu pé. Tudo espantoso. Era tímida, imagine, e ingênua também. E se dizia muito triste, muito arrependida de ter feito campanha para um homem tão mau para o Brasil como Collor foi.

Então, quando me sentei à máquina (sim, enquanto a Folha já usava havia muito os computadores, nessa redação eu tinha de batucar nas teclas pretas), eu o fiz com muito carinho e responsabilidade por ela e por quem leria seu perfil. Escrevi o melhor que pude.

Mas lá estava o editor necrófilo diante de mim.

Ele leu e me chamou até sua mesa, sério:

“O problema com seus textos é que nunca sabemos o que estará no parágrafo seguinte”.

Pensei por dois segundos e respondi: “Isso é ruim?”

Era ruim.

Ri e fui embora da revista, porque ainda por cima suspeitei que ele havia sido colocado lá especificamente pra me mandar embora, e que não havia como lutar mais contra tantas forças contrárias.

Conto tudo isto porque, apesar de toda a ignorância a grassar nas redações, jamais imaginei que ouviria tamanho absurdo de novo.

Mas a gente não pode ser arrogante assim. Achar que sabe tudo!

Acontece de o mundo dar voltas e eu ter de parar sempre em algum momento no qual é um frila ou nada para sobreviver.

Eis que ouço exatamente isto semana passada de alguém que precisou autorizar um texto meu: “É estranho como a gente não sabe o que você vai dizer em seguida! A gente se surpreende o tempo todo na leitura.”

Desta vez resolvi tomar o dito como elogio. Até porque, depois de muito matutar, essa espécie de editor parece ter gostado do material no geral, e só quer esse detalhe, que eu mude meu lide – esse que agora deve dizer tudo o que escreverei em seguida, pra não ter erro.

Eu sei que sou uma perturbação, que vim ao mundo pra isso. Mas não vou deixar de fazer jornalismo se precisar, porque perdidas minhas ilusões já foram séculos atrás.

A fogueira do Estado

Longa-metragem romeno presente no festival É Tudo Verdade,
“Colectiv” acompanha a cobertura jornalística do incêndio de uma boate que acabou por expor a corrupção em todo o sistema de saúde do país

Um dos 74 mortos no incêndio da boate Colectiv, em Bucareste

Um filme como este deveria mudar tudo. Não somente a maneira pela qual os documentários são feitos, mas o modo como a coletividade é gerida. Ao investigar as consequências de um incêndio em 2015 numa discoteca romena, irônica e justamente intitulada Colectiv, o longa compreenderá a falência de um sistema político.

O jornalista Catalin Tolontan, que apurou o escândalo da diluição dos biocidas nas UTIs romenas: “Quando a imprensa se curva às autoridades, a população é maltratada”

É como se o espectador tivesse diante de si a excepcional dramatização de um fato, exceto que não se trata de ficção. Não são Hoffmans e Redfords a encenar os repórteres que revelarão Watergate, mas jornalistas reais que descobrirão por meio de sua fonte, de seu Garganta Profunda, que a criminosa diluição de biocidas se alastrou pelos hospitais públicos da Romênia. Foi o ambiente incapaz de suprimir infecções hospitalares o responsável pela maioria das 74 mortes, e não o fogo a interromper o show de rock contra a corrupção a um público que não encontrou as saídas de emergência.

O ministro da Saúde da Romênia Vlad Voiculescu, em luta por
desbaratar um sistema corrompido

O cineasta Alexander Nanau não vai atrás dos donos do estabelecimento, mas obtém todos os materiais que lhe interessam além disso, desde a filmagem do início do incêndio até a via crúcis de pacientes queimados e seus parentes, os protestos de rua que resultaram na convocação de novas eleições gerais, as coberturas da imprensa televisiva e, principalmente, o cotidiano da redação do jornal – especializado em esportes! – que primeiro investiga as denúncias, além da luta de um ministro por combater, a partir delas, a corrupção na saúde. 

Uma das pacientes vítimas de queimaduras e mutilações posa para um ensaio fotográfico

O filme tem um ritmo espetacular, calmo e seguro, para abordar os silêncios e as exasperações. Os documentaristas estão presentes nas reuniões e nas apurações, e seus personagens são nítidos, assim como sua apreensão. Os repórteres liderados por Catalin Tolontan logo se verão ameaçados não só por mafiosos, mas pelos próprios colegas. O novo ministro da Saúde depara com a burocratização das leis e a empáfia daqueles sem experiência hospitalar alçados à direção por um gangsterismo há muito instituído.

Nas ruas de Bucareste, em 2015, manifestantes apoiam imprensa que
revelou o escândalo: “Diluam a corrupção!”

“Diluam a corrupção!”, gritam os manifestantes nas ruas. Mas o que ocorrerá se as eleições gerais confirmarem os criminosos no poder? Contenha-se para não assemelhar o assunto deste filme ao Brasil. Nós não temos essa imprensa, nem mesmo a esportiva.

COLECTIV

onde: bit.ly/3mI4SJI

quando: 25/9, às 18h

Um pensamento amoroso

Uma vez o Renato Pompeu, jornalista e escritor brilhante, me disse isto que vou contar agora pra vocês.
Ele não falava mal de livro ruim.
Isto porque sentia o peso da responsabilidade.
E se sua crítica fosse no futuro a última na Terra sobre um objeto extinto, o livro, justamente?
A resenha deveria então servir para mais do que simplesmente classificar uma obra no presente como boa ou ruim.
O texto deveria evocar a literatura, para que os leitores a reconstruíssem no futuro, por meio de novos livros.
Bonito, não?
Ontem tive de escrever sobre um filme que não julguei de todo bom.
E o pensamento do meu amigo retornou.
Mas e se meu texto fosse o último no futuro a restar sobre o cinema, este que teria se perdido?
Então minha responsabilidade cresceria.
Não que o filme que eu resenhasse fosse ruim.
Mas tinha um problema (a meu ver).
Embora ainda evocasse lindamente o cinema!
Este que no presente dá a impressão de se perder…
Então lutei pra aplicar ao cinema o princípio do Renato em relação à literatura.
Nem todo filme é cinema, como nem todo livro, literatura.
Porém, cinema e literatura precisam continuar a existir.
A se refazer.
Espero que minha crítica tenha dito isto.
Hoje e no futuro, se algum futuro houver…
Mais importante que tudo isto, como sou feliz por ter usufruído da amizade com o Renatão!
Uma riqueza amorosa de pensamento, como muitos livros não conseguem conter.

Febeapá com Bey

Não sei se vocês leram o artigo de retratação de Lilia Schwarcz. Não o reproduzo aqui, mas, segundo ela diz ali, escreveu de maneira errônea e irrefletida sobre o pretensamente inadequado luxo hollywoodiano em Beyoncé, razão pela qual se desculpa.

Acontece que li e reli as linhas de Schwarcz e mal pude constatar a ausência de admissão real de um erro. Quem errou, ela diz, e isto parece explícito no artigo, foi o redator que aplicou título e linha fina ao que ela escreveu. Quem errou, ela diz, foi a Folha ao exigir de uma pesquisadora de seu porte um texto tão rápido sobre questão primária. E o erro dela foi sua submissão.

Porque Lilia não é de errar. Porque errando, isto é, achando que saberia escrever sobre um assunto aparentemente banal como este sozinha, sem ouvir seus pares e o movimento negro, estrepou-se. E precisou se desculpar de algum modo com as comunidades que dão sustentação a seu trabalho de historiadora.

Sei bem como são intrínsecas e entrelaçadas as relações dos Schwarcz com a Folha. Interdependência, interligação, nem sei que nome dar aos telefonemas da editora de seu marido para garantir aos jornalistas da casa exclusividade em entrevistas e leituras antecipadas de cópias de livros.

Toda a vida da Cia das Letras está tão estritamente ligada à da Folha que é difícil que eu imagine, apontada sobre a cabeça acadêmica de Lilia, uma arma qualquer empunhada pela ralé jornalística.

Até fantasio que uma bela noite num desses jantares com a direção do jornal ela tenha se animado a lamentar o luxo consumista de Beyoncé e algum presente, no momento de montar a pauta, apenas pediu que a historiadora transcrevesse seu pensamento tão informalmente bem expresso antes.

Alegar irreflexão é um pouco melancólico da parte de Lilia, que vive de refletir, e nos últimos tempos o tem feito de peito aberto, de modo a nos alertar sobre a perda gradual de nossas liberdades sob este regime de milícias. Mas – fico com isto – pelo menos ela provou uma retratação. Ninguém suporta tanto febeapá cotidiano, ademais partido de uma de nossas mais festejadas intelectuais.

De que fotografia se fala

Bolsonaro convidou Orlando Brito, fotógrafo veterano de presidentes agredido domingo por apoiadores golpistas, a almoçarem juntos hoje. E o fotógrafo foi até lá.

Brito disse pra Bolsonaro, na ocasião, que ele deveria acenar com um gesto de apoio e visitar o comitê de imprensa do planalto, o que nunca fez desde que assumiu a presidência.

Brito aceitou o convite de Bolsonaro? Pra almoçar neste momento, sem máscaras com esse verme, e ele foi?

E Bolsonaro, aceitará o convite dele?

Se depois desse almoço o miliciano realmente visitar o comitê de imprensa, vai ser interessante de ver. Um belo truque midiático. Se eu fosse ele, neste momento, iria sim. Apareceria por cima. Mas não creio que ele vá.

Nunca trabalhei com Orlando Brito. Mas o conheci durante o primeiro curso Abril de jornalismo, ao qual fui selecionada, entre tantos estudantes de jornalismo de São Paulo, em tempos muito antigos. O curso era constituído de um ciclo de palestras com os luminares locais em todas as áreas, da política à moda e à fotografia. No final, selecionavam um jornalista pra estagiar lá. Não passei na seleção, hoje posso imaginar por quê, e agradeço.

Me lembro que o Orlando Brito levou uma de suas fotos de Figueiredo, feita para uma edição de Veja, para acalorar a discussão. Achei-o corajoso. Era uma imagem sua em que Figueiredo aparecia sorridente, sendo erguido por uma multidão de fazendeiros e trabalhadores rurais. Os jovens jornalistas pareciam chocados. E ele respondeu que não via razão, já que aquele fato tinha se dado assim. Foi vaiado por grande parte da plateia, aquela que justamente buscava trabalhar na empresa. Já então, naquele tempo, sabia-se que o ângulo, o fotógrafo escolhe…

O Brito é um profissional de carreira que mostra os presidentes a uma certa distância, sempre clássicos e respeitosos. Não é um fotógrafo ruim, pelo contrário, a depender do que se espera da fotografia.

Ter ido almoçar com o presidente hoje faz parte de sua rotina profissional, e ele depende disso para continuar trabalhando naquela posição. Triste, mas é isso mesmo. Foi um trabalho que ele escolheu fazer e do qual não arredou pé em cinco décadas. E não arredaria agora.

Prefiro outros fotógrafos e outros temas. Creio que jamais seria uma fotojornalista, especialmente em torno de palácios oficiais. Sou do que ocorre à volta, além e dentro de nós.

Mas penso.

Ao Brito o que é de Brito.

Cada um no seu quadrado e no seu sonho.

Randau, como não se pode mais ser

É uma pena que ele se tenha ido, considero eu, tão cedo. Um jornalista como não se vê mais, nem parece mais possível ser. Um rigor como pesquisador, um sabedor com forte comprometimento político.

Era sério demais enquanto escrevia. A redação em volta nem parecia existir. Repórter especial, tinha uma mesa só sua, em que as pastas de recortes se empilhavam feito no filme “Brazil” do Terry Gilliam. Sempre sabia o que escrever e como escrever. Ninguém o pautava, nem seria preciso.

A célebre mesa era perto da minha no JT. Então eu tinha esse prazer diário de vê-lo chegar, com sua camisa branca aberta pra fora da calça surrada, e vir brincar com o Renato Pompeu, o outro gênio, o redator que trabalhava ao meu lado e que havia sido seu companheiro em tantas jornadas pelo jornalismo brasileiro.

Na minha lembrança era um homem simples e grande.

Vá em paz.