Minha boca de mãe

Ando com o amigo e mestre pelo centro quando ele se apieda de uma linda mulher abandonada à rua. Sentada no chão, ela olha de lado como quem não vê ninguém, exceto a si. Todas as portas abertas à melancolia. 
– Vou dar dez reais a ela. Você entrega? – meu amigo diz. Ele é tímido para estes contatos.

– Vamos juntos. – respondo. – Eu tenho mais seis.

Linda, negra, a sem-teto (anos indefiníveis; eu diria quarenta, mas pode ser que não tenha trinta) mal acredita em tanto dinheiro nas mãos.

– É muuuito, muito.

Sorri, meio que chora. Não abaixa a cabeça, contudo:

– Vocês estão me dando isto, mas vou gastar com pinga, tá?

E mostra com orgulho, a seu lado, aquele destilado que já vi rodar em festa na garrafinha de água de plástico.

– Mas você vai comer também? (Me arrependo da pergunta assim que sai da minha boca de mãe.)
Ela sorri.
– Pode gastar com pinga – diz meu mestre.
– Você tem amigos por aqui? Cães? (Pergunto porque quero experimentar o alívio de saber que ela sempre poderá contar com a solidariedade de um rosto.)
– Vou sozinha. Não gosto de ninguém comigo. Sou… perturbante.
Nos despedimos. Meu amigo pede que ela fique bem e eu lhe jogo um beijo.
– Vão felizes, casal mais lindo! – ela diz, quase como se cuidasse de nós.
Rimos. Tudo nela corresponde à tristeza. Não sei o que fazer por alguém tão inteligente que perdeu as esperanças.

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