Nenhum retrato melhor

Se eu sobreviver, uma coisa da quarentena restará em minha memória: a faxina virou lembrança.

Uma tia-avó dedurava minha mãe dizendo que ela havia me achado muito feia ao nascer, ao contrário do que aconteceria depois com meus irmãos. Mamãe nunca negou o que disse. E nela eu acreditei.

Me achei desengonçada a vida inteira. Às vezes, feia de doer. Especialmente quando me sentia de mal comigo, algo tão frequente na adolescência, quando era muito alta pros meninos e por isso (ou por qualquer outra razão) não me tiravam pra dançar. E eram eles quem mandavam no baile, sabem, meninas?

Com o tempo entendi que eu não era mesmo essa coisa extraordinária e que precisaria me virar com o que tinha. Uma força lá dentro, um prazer em observar o mundo – isso me bastaria. Haveria vida, sim, fora da sala dos apartamentos onde uns sortudos dançavam colados.

Até hoje procuro me divertir com a vida. Que uso melhor fazer dela? Me acho muito engraçada nesta montagem que era serviço fotográfico consagrado durante minha infância.

Na maioria das vezes, felizmente, ainda sou a Rosane do meio. Mas as Rosanes pensativas, desconfiadas e/ou irônicas acima dela tomam bastante meus dias. Essa desconfiança e esse pensamento me deram as rugas de agora. Eis por que jamais vou me esforçar em tirar qualquer sulco nascido em torno destes olhinhos. Não existe melhor retrato de mim que eu possa inventar, exceto esse que eu mesma, por décadas partícipe da vida, construí.

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