Os olhos arrancados do Brasil, segundo Pasolini

Eu me sentia em dívida com vocês, uma vez que tanta leitura teve outro post deste blog sobre a produção poética de Pasolini, intitulado “Pasolini em Recife”. E agora creio que acalmo minha consciência ao lhes mostrar o outro grande, imenso poema que o cineasta fez sobre o Brasil.

Em 1970, durante sua viagem à América do Sul para participar de um festival em Mar del Plata, no qual apresentaria “Medeia, a feiticeira do amor” (1960), Pasolini visitou brevemente o País. Fez uma escala no Rio de Janeiro, foi obrigado a um pouso de emergência em Recife, na ida, e rumou a Salvador, por fim. O Rio de Janeiro inspirou-lhe a escrever “Hierarquia”, que segue aqui com tradução de Mariarosaria Fabris.

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“É assim, por mero acaso, que um brasileiro é fascista e outro subversivo; o que arranca os olhos pode ser confundido com o que tem os olhos arrancados”

HIERARQUIA

Pier Paolo Pasolini, 1971

Se chego a uma cidade
além do oceano
Muita vez chego a uma nova cidade, levado pela dúvida. Tornado de um dia para outro em peregrino
de uma fé na qual não creio;
representante de mercadoria faz tempo sem valia,
mas é grande, sempre, uma estranha esperança –
Desço do avião com o passo do culpado,
o rabo entre as pernas, e uma eterna vontade de mijar,
que me leva a andar meio dobrado, com um sorriso incerto – Livrar-se da aduana, e, muita vez, dos fotógrafos:
fato corriqueiro que cada um encara como se fosse exceção.

 

Depois o incógnito.

Quem passeia às quatro da tarde
por canteiros cheios de árvores
e alamedas de uma desesperada cidade onde europeus pobres vieram criar de novo um mundo à imagem e semelhança do seu, levados pela pobreza a fazer do exílio sua vida?
Com um olho em meus afazeres, minhas obrigações –
Depois, nas horas vagas,
começa minha busca, como se ela também fosse uma culpa –
A hierarquia, porém, está bem clara na cabeça.
Não há Oceano que aguente.
Desta hierarquia, os últimos são os velhos.
Sim, os velhos a cuja categoria começo a partencer

(não falo do fotógrafo Saderman que, com a mulher já amiga da morte, me acolhe sorrindo
no pequeno estúdio de toda uma vida)
Sim, há algum velho intelectual que na Hierarquia
está à altura dos mais belos michês
os primeiros que se encontram nos pontos logo achados e que, como Virgílios, conduzem com popular delicadeza algum velho

é digno do Empíreo,
é digno de ficar perto do primeiro garoto do povo
que se oferece por mil cruzeiros em Copacabana
os dois são meu guia
a segurar-me pela mão com delicadeza,
a delicadeza do intelectual e a do operário (quase sempre desempregado)
a descoberta da invariabilidade da vida
requer inteligência, requer amor.
Vista do hotel de Rua Resende, Rio –
a ascese exige sexo, exige caralho –
aquela janelinha do hotel onde se paga pelo quartinho – se olha dentro do Rio, num aspecto da eternidade,
a noite de chuva que não traz refrigério,
e molha as ruas miseráveis e os entulhos,
e os últimos beirais do art nouveau de portugueses pobres sublime milagre!
E assim Josué Correia é o Primeiro na Hierarquia,

e com ele Haroldo, veio menino da Bahia, e Joaquim.

A Favela feito Cafarnaum debaixo do sol –
Cortada pelas valetas do esgoto
um barraco em cima do outro, vinte mil famílias
(ele, na praia, pedindo-me um cigarro como se fosse um puto)

Não sabíamos que aos poucos iríamos nos revelar, prudentemente, uma palavra depois da outra,
dita quase distraidamente:
eu sou comunista, e: eu sou subversivo:
sou soldado de uma divisão expressamente treinada
para lutar contra os subversivos e torturá-los;
mas eles não sabem;
as pessoas não se dão conta de nada;
elas pensam em viver
(me fala do lumpemproletariado).
A Favela, fatalmente, nos aguardava
eu grande entendedor, ele guia –
seus pais nos acolheram, e o irmãozinho nu
que acabara de sair de trás da lona –
pois é, invariabilidade da vida,

a mãe
falou comigo como Maria Limardi, preparando a limonada sagrada para o hóspede; a mãe encanecida, mas de carnes firmes; envelhecida como envelhecem as pobres, e ainda garota; sua gentileza e a do companheiro,
fraternal com o filho que só por sua vontade
agora era um mensageiro da Cidade –
Ah, subversivos, busco o amor e encontro vocês.
Busco a perdição e encontro sede de justiça.
Brasil, minha terra,
terra de meus amigos à vera,
que não se interessam por nada
ou então se tornam subversivos e feito santos são cegados.
No círculo mais baixo da Hierarquia de uma cidade,
imagem do mundo que de velho se faz novo,
coloco os velhos, os velhos burgueses,
pois um velho da cidade, se é do povo, fica garoto
não tem nada a defender –
vestindo camiseta e calção surrado como Joaquim, o filho.

 

Os velhos, minha categoria,
quer queiram ou não queiram –
Não se pode fugir do destino de deter o Poder, ele se coloca por si
lenta e fatalmente nas mãos dos velhos, apesar de eles serem mãos-furadas
e sorrirem humildes feito mártires sátiros –

Acuso os velhos de terem vivido seja como for, acuso os velhos de terem aceitado a vida

(e não podiam não aceitá-la, mas não existem vítimas inocentes)
a vida, ao acumular-se, deu o que ela queria – acuso os velhos de terem feito a vontade da vida.

De volta à Favela onde não se pensa em nada
ou se almeja ser mensageiros da Cidade
lá onde os velhos são americanófilos –
Entre jovens que jogam, bravos, futebol
diante de cumes encantados sobre o frio Oceano,
quem quer algo e sabe, foi escolhido ao acaso –
inexperientes em imperialismo clássico
em delicadezas para com o velho Império a ser explorado.
Os americanos dividem entre si os irmãos supersticiosos
sempre aquecidos pelo próprio sexo como bandidos por uma fogueira –

É assim, por mero acaso, que um brasileiro é fascista e outro subversivo; o que arranca os olhos pode ser confundido com o que tem os olhos arrancados.
Joaquim nunca poderia ter sido diferente de um sicário.
Então, por que não amá-lo, se assim fosse?
O sicário também está no vértice da Hierarquia,
com seu traços simples, mal esboçados,
com seu olhar simples,
sem outra luz do que a da carne.
Assim, no topo da Hierarquia,
encontro a ambiguidade, o nó inextricável.
Oh, Brasil, minha desgraçada pátria,
voltada sem escolha à felicidade,
(de tudo são donos o dinheiro e a carne,
enquanto você é tão poético)

Em cada habitante seu, meu concidadão, há um anjo que não sabe de nada, sempre curvado sobre seu sexo,
e se agita, velho ou jovem, para pegar em armas e lutar,
pelo fascismo ou pela liberdade, é indiferente – Oh, Brasil, minha terra natal, onde
as velhas lutas – bem ou mal já vencidas –
para nós velhos tornam a fazer sentido – respondendo à graça de delinquentes ou soldados, à graça brutal.

 

É preciso saber viver

Quando acordo me vêm as melhores palavras. Mas demoro a levantar. Então saco do celular, na cama, como quem pegava o lápis na cabeceira. Hoje foi assim, ontem também. Ontem um texto sobre um filme, hoje a coisa difícil de ser dita ao amigo, os dois amontoados saídos com relativa facilidade, após a reflexão da noite. O melhor que faz o celular por mim é estar sempre perto para que eu escreva e fotografe nas horas improváveis. Mas, claro, há também as notícias que chegam nesses momentos, sempre piores. E a inspiração se perturba, começa a sumir, vira a areia que rola nesta pedra de tantos anos. A gente nunca vai aprender direito como fazer as coisas.

Na vigência pandemente

Acabo de comentar com uns amigos daqui como rio e choro o tempo todo durante a vigência pandemente de meu país, como tudo fotografo (embora isto faça sempre), e como tudo quero ser, o presente, o passado, e como vejo um futuro, quem sabe, engordando (sem ser triste) a cada dia, e como tudo quero amar. Há quem não me entenda, quem não me veja, nem agora, nem antes, muito menos na imagem do que será, não importa, não os vejo nem entendo tampouco, eu que vivo ao lado deles. Perdoem a enxurrada de fotos, de auto-imagens, de desconcertos neste fluxo demonstrativo de nossas vidas que eram uma antes e agora são outras. Perdoem-me a ausência de outros rostos, perdoem que seja o meu. É um processo de cura e entendimento, quem sabe, e espero que o aceitem os que me têm amizade, talvez só eles, viva eles!, e que tudo viva em nós.

A secretária do Gado e a lição que eu tive

Vocês talvez não tenham idade pra saber que a secretária do Gado, outrora atriz, rejeitou no passado o título de Namoradinha do Brasil.

Rejeitou-o violentamente por uma única razão. Porque não pegava bem. Ela havia sido formada por Antunes Filho no teatro. E, nos anos 1970, o prestígio de todo ator era o palco.

Depois de namorada, embora bem-sucedida na doçura televisiva, ela foi encenar O Santo Inquérito e outras barras pesadas, com grande carga de sexualidade, em plena ditadura. Queria que a vissem como Mulher mesmo antes da Malu.

Eu achava muito bonito esse seu percurso. E me lembro do ato generoso dela ao oferecer seu Troféu Imprensa de melhor atriz a Eva Wilma, que naquela época, em Mulheres de Areia, havia atuado bem melhor.

Uma vez, quando eu já estava na universidade, andávamos à noite pelas imediações do TBC quando ela apareceu. Tínhamos um amigo maluco que trazia consigo uma câmera de tevê de papelão para entrevistar os passantes. Ele não teve dúvida: partiu pra cima da Regina.

– Pô, você deve ganhar um dinheirão na Globo, né?

E ela sorrindo, sempre sorrindo, despida de maquiagem, mal vestida e de óculos, respondeu com calma:

– Pior que não, pior que não.

Uma única vez nessa época me veio uma ponta de dúvida sobre essa sua personalidade, partida de Betty Faria. Acho que ela era a antiga mulher de Daniel Filho, que agora esposara Regina, então creditei sua fala a uma rivalidade específica.

Perguntaram a Betty como via a nova opção artística da colega e ela não teve dúvida:

– A Regina é a única atriz que eu conheço que lutou pra se tornar objeto sexual.

A gente deve aprender a ouvir direito as pessoas.

É a lição que eu tiro.

Loucura

Eu tive um maior amigo
Que trabalhou ao meu lado
Pra redigir com ponto e vírgula
Nos lugares aclamados
As notícias que raramente cabiam
Na mesura miserável do papel.

Era jovem e não parecia,
Homem, e o sabia,
Figura relutantemente emotiva
Que usava o disfarce
Da esquizofrenia,
Da doença de ser muitos
(Uns contra os outros,
Outros em seu nome),
Para distanciar-se do conluio
Das alegres torpezas
De que são feitas
As redações de jornais.

Meu amigo me encheu
de consolo quando,
grávida, eu lhe disse temer
pela saúde mental do
meu filho que nasceria em
Capricórnio ou Sagitário,
uma vez filho meu,
e portanto da minha família,
estranho ajuntamento
de onde vez ou outra
saía ao mundo
a criatura de nove anos de idade
cujo encanto da fala
se perdia
após um grito na noite.

Meu amigo pausava e sorria
recordando-se dos velhos hospitais
onde fora escondido
com o consentimento dos pais
e de si mesmo,
“porque a ciência é necessária”.

Nascido louco,
tanto e a ponto de não reconhecer
a emoção alheia,
nem a minha,
ele no entanto viu
facilmente as claras fantasias
que Luiz Melodia
soltou num verso.

Meu amigo me disse
olhando-me de lado
desde a cadeira preta
com rodinhas
que ocupava,
diante de um computador
de letras verdes:

– Um louco tem fome e sede.
E pode ser feliz como eu,
que assim me fiz.

E eu inerte.
Os olhos presos.

Por Drucker

Mort Drucker, que morreu agora, era o responsável pelas paródias de filmes da Mad. Lá na minha adolescência, líamos a revista, mas nem sempre tínhamos dinheiro para os filmes. Então nós os conhecíamos primeiro pelas paródias do Drucker. Era um humor de mau humor. Ele apontava as incongruências de roteiro, as hipocrisias dos diálogos, a farsa em si dos blockbusters, com um desenho realista. E ansiávamos por uma nova versão de filme, todo mês.

Enfim, artista, vá em paz.

Randau, como não se pode mais ser

É uma pena que ele se tenha ido, considero eu, tão cedo. Um jornalista como não se vê mais, nem parece mais possível ser. Um rigor como pesquisador, um sabedor com forte comprometimento político.

Era sério demais enquanto escrevia. A redação em volta nem parecia existir. Repórter especial, tinha uma mesa só sua, em que as pastas de recortes se empilhavam feito no filme “Brazil” do Terry Gilliam. Sempre sabia o que escrever e como escrever. Ninguém o pautava, nem seria preciso.

A célebre mesa era perto da minha no JT. Então eu tinha esse prazer diário de vê-lo chegar, com sua camisa branca aberta pra fora da calça surrada, e vir brincar com o Renato Pompeu, o outro gênio, o redator que trabalhava ao meu lado e que havia sido seu companheiro em tantas jornadas pelo jornalismo brasileiro.

Na minha lembrança era um homem simples e grande.

Vá em paz.

Nenhum retrato melhor

Se eu sobreviver, uma coisa da quarentena restará em minha memória: a faxina virou lembrança.

Uma tia-avó dedurava minha mãe dizendo que ela havia me achado muito feia ao nascer, ao contrário do que aconteceria depois com meus irmãos. Mamãe nunca negou o que disse. E nela eu acreditei.

Me achei desengonçada a vida inteira. Às vezes, feia de doer. Especialmente quando me sentia de mal comigo, algo tão frequente na adolescência, quando era muito alta pros meninos e por isso (ou por qualquer outra razão) não me tiravam pra dançar. E eram eles quem mandavam no baile, sabem, meninas?

Com o tempo entendi que eu não era mesmo essa coisa extraordinária e que precisaria me virar com o que tinha. Uma força lá dentro, um prazer em observar o mundo – isso me bastaria. Haveria vida, sim, fora da sala dos apartamentos onde uns sortudos dançavam colados.

Até hoje procuro me divertir com a vida. Que uso melhor fazer dela? Me acho muito engraçada nesta montagem que era serviço fotográfico consagrado durante minha infância.

Na maioria das vezes, felizmente, ainda sou a Rosane do meio. Mas as Rosanes pensativas, desconfiadas e/ou irônicas acima dela tomam bastante meus dias. Essa desconfiança e esse pensamento me deram as rugas de agora. Eis por que jamais vou me esforçar em tirar qualquer sulco nascido em torno destes olhinhos. Não existe melhor retrato de mim que eu possa inventar, exceto esse que eu mesma, por décadas partícipe da vida, construí.

Na banheira de lixo da história

Talvez alguns de vocês conheçam este episódio. Mas vou recontá-lo, porque parece ser uma boa hora para isso. Que hora é mesmo agora? Sábado, já?


Não importa. Isolei-me. Vou tardar a dormir.


A história breve que vou lhes contar ou recontar gira em torno desta foto de David E. Scherman.


Na banheira, está Lee Miller.


Sim, Miller, linda mulher que aprendeu a posar criança, modelo de um problemático pai. Musa de Picasso, amiga de Steinberg, estampou a capa da Vogue várias vezes, uma delas em autorretrato que ela mesmo exigiu fazer – um fato memorável, quiçá jamais repetido na história da turma da Condé Nast.

Aprendeu a estar atrás das câmeras com um vaidoso Man Ray, com quem se relacionou amorosamente. Um dia, foi fotografar as dores do mundo, a Segunda Guerra, o estrago num campo de concentração, e convenceu a glamurosa Vogue a publicar o que reportava, algo também inédito até ali.


Tudo parecia maravilhosamente inusual na vida de Lee Miller, principalmente este retrato na banheira, embora seus últimos anos não tenham sido tão mágicos assim.


O retrato foi feito logo após a capitulação alemã, 1945, na casa à praça Prinzregentenplatz, em Munique. Tomada horas antes pelo exército dos Estados Unidos, a residência pertencia a Adolf Hitler.


“A casa se encontrava em perfeitas condições. Havia eletricidade, água quente e aquecimento disponíveis, além de um refrigerador elétrico”, escreveu Miller, gozadora, máxima.

Enquanto estiveram rapidamente por ali, ela fotografou seu retratista, Scherman, na mesma banheira, mas ninguém parece querer republicar esse retrato, vai saber por quê. Ele sorria.


Me lembrei da história (e são tantas envolvendo essa grande mulher) por uma razão trivial.


Quando a gente tomar a casa bozolina depois deste pesadelo, duvido que tenhamos idêntica coragem de mergulhar em sua banheira, suja com o sangue roubado de nós pela família infame – infâmia esta pela qual jamais imaginaríamos um dia passar, vencidos tantos anos desde a destruição sem precedentes promovida pelo bigodudo da foto a quem Miller dá as costas.


Nem por uma imagem histórica sentaríamos numa banheira de leite condensado, não é?


Eu, pelo menos, é que não.