Extratos de um sonho sobre a revolução transcorrido no Bixiga

Meu sonho, ou minha tentativa de explicá-lo e comungá-lo, como ensinou Sidarta Ribeiro, num relato dedicado à linda e sábia Simone Curi:

Eu estava na feira livre, muito próxima de minha casa, escolhendo frutas, mas elas eram ora muito pesadas de carregar ora rolavam pela ladeira da rua São Vicente, no Bixiga, e eu as perdia lá embaixo, pela escola de samba Vai-Vai.

Às vezes os feirantes se recusavam a me ajudar. Ou reaviam as frutas, mas decidiam não vendê-las a mim. E frutas… Frutas eram tudo de que eu precisava, a boca seca necessitada de trato. Tal carência, por sua vez, vinha alimentada pela terra vermelha árida. A necessidade me fazia permanecer na feira, que, como um organismo vivo, parecia me rejeitar.

Os feirantes eram jovens com o rosto enlameado ou muitas crianças que usavam aparelhos nos dentes, feito a Fadinha do skate. Pareciam maquiadas. Sorriam por baixo do pó, ele também cor de terra. Espécies de duendes numa terra alta.

Pouco a pouco eu entendia que, a partir do chão da rua, erguia-se um tablado, depois uma construção plena de relevos tornados assentos, como muretas, onde era difícil se equilibrar. Mas eu conseguia aprontar o equilíbrio por esses acidentes sem saber explicar como.

Todo o sobrenatural era até bem natural pra mim, e meu manejo simples com a dificuldade não despertava a curiosidade de quem me via. Eu não chamava atenção.

Ninguém percebia a dificuldade envolvida no meu movimento, embora, pelas leis da física, tudo em verdade que eu fizesse para andar fosse impossível de ser realizado, exceto sob efeitos especiais ou sonho. E eu tinha consciência disso no inconsciente pulsante do sonho.

Percorria de lá pra cá o auditório erguido com arquibancada de muitos degraus, feito um gigantesco e acidentado teatro Oficina, em busca ainda de fazer minhas compras de frutas. E para andar sobre os acidentes usava um pedaço de madeira fino, comprido, que segurava com as mãos – espécie de perna de pau, com a diferença de ser manual.

E então me lembrava que havia estado nesta peça no ano anterior, e não entendera nada dela, pois se falava língua eslava no filme (agora a peça se transformava em filme) sem legendas. Mas eu gostara das atuações e desconfiava que a trama era boa.

Os atores haviam mudado. A peça-filme se passava em três dias. Eu voltara para entendê-la, mas me arrependia de ter feito isso, sem contudo conseguir simplesmente me ausentar, por respeito aos atores. Havia muito sacrifício envolvido em presenciar a trama.

Pouco a pouco eu compreendia que os feirantes todos representavam uma peça sobre a revolução. Um texto clássico, apresentado nos cineteatros dos anos 1960 com muito sucesso alternativo. Os meninos na feira eram militantes da resistência. Cada circunstância ou passagem de frutas tinha um sentido de acordo com o texto. Eram mensagens cifradas. Eles organizavam a caça ao tesouro em lugar a ser encontrado.

Conforme passávamos pelo auditório, um ano de luta revolucionária transcorria. Cantores e cantoras vestidos como num cabaré de Visconti em Os Deuses Malditos anunciavam os personagens. Eram pedreiros e marceneiros arregimentados para destruir a parede e arrancar o precioso, o excêntrico, o brilho da revolução.

A certa altura, ao projetar o filme do ano anterior na parede, me descobriam na plateia. E riam muito. Como eu tinha conseguido voltar pra ver aquilo?

Havia alguém que fora comigo assistir à segunda versão, mas desaparecera do cenário para fumar um baseado, então distribuído pelos atores-militantes ao público, em flagrante desconcerto com as normas revolucionárias dos anos 1960, quando drogas eram vetadas.

Envergonhada por ter sido descoberta na segunda tentativa de assistir ao filme, agora para compreender de fato seu segredo, eu deixava o auditório atrás do meu acompanhante, porque ele era igualmente importante para a revolução. Mas o teatro grande e esfumaçado fazia com que eu me perdesse na bruma e não conseguisse chegar ao pátio dos fumantes.

Acordei com as costas doendo. Vou colocar bolinhas de tênis para massageá-las enquanto tomo o sol que vem pela janela. Estou a pouca distância física do Bixiga. Lá nasci, me formei e sonhei os primeiros sonhos da existência.

Adeus, Roberto Romano da Silva, alma gentil

Uma das mortes menos esperadas por mim entre os amigos foi esta do professor Roberto Romano da Silva, hoje, após uma batalha de semanas contra a covid. Ele nos narrou a revelação do exame positivo no facebook e pediu orações quando se viu internado no Incor. Não tenho religião, mas rezei muito por ele, sempre à espera angustiante de uma notícia boa.

Das mais sofridas, injustas, foi essa morte também porque ele já havia se vacinado. Mas a gente sabe que a vacina não pode tudo. E que, sob o governo genocida, não criamos ainda condições para uma imunização coletiva mínima. Então ele acabou vítima dessa animalidade que combatia todos os dias em artigos nos jornais, na televisão. E em toda a imprensa que editava mal o que ele dizia e que intentava conduzi-lo nas entrevistas, sem o conseguir, sob seus protestos veementes.

Eu o considerava muito amigo, embora nunca tivéssemos nos visto. Às vezes me mandava mensagens pelo inbox do face e chegou a celebrar uns tantos anos de nossa amizade na rede, uma gentileza tão grande. Ele era uma luz pra meu pensamento. Ele e seu comportamento digno de um dominicano, cão de Deus, que também foi.

Filósofo com o saber na ponta da língua, tinha o afã de se relacionar, como a gente via pelo face. E sofria grande indignação ao se ver descartado pela idade. Recusava o sarcasmo etarista: se alguém ligasse a velhice à caduquice, ele o tirava de sua lista de amigos e acabou.

Fui subeditora de um suplemento cultural, um dos mais antigos da imprensa, o Caderno de Sábado, do Jornal da Tarde, que me demitiu tão logo voltei da minha segunda gravidez. O usual para mulheres que têm filhos, mas isto não vem ao caso. Os textos do professor eram muito importantes pra mim.

À época, ele cedia ao caderno a íntegra de suas palestras, para que a publicássemos num tamanho cabível. Eram sempre textos grandes demais, razão pela qual me davam um certo trabalho. Ademais, os seus eram raciocínios que pediam a duração normalmente negada pelo jornalismo. E lá ia eu, contra o relógio, linha a linha, buscando reduzi-las sem estragar o entendimento. Trabalho este que, desnecessário dizer, ninguém reconhece, ninguém vê, e quando reconhece ou vê, é mau sinal.

Um dia, Romano ligou para meu editor e perguntou quem cortava seus textos no caderno. Meu editor disse que era eu, a subeditora, simplesmente esperando o pior. E não.

O que Romano lhe disse foi que os cortes feitos em seus textos agiam por mágica. Ele não os percebia, mas, ao reler o que estava publicado, considerava-o melhor que o texto original.

Uma gentileza a mais que será para sempre um dos meus maiores orgulhos como jornalista.

Meu amigo prossegue no caminho da luz que jamais abandonou.

O tigre Llosa e eu

Não sei se acontece com vocês. Mas eu sou do tipo devagar. Demoro a perceber que realmente não sou bem quista em certos ambientes. Devo achar, por alguma razão misteriosa, talvez fundada em minha educação, que mereço ser considerada sempre. E quando acontece de os laços se desfazerem inequivocamente, fico impressionada. O susto demora a acalmar.

Acontece no trabalho. Na vida com amigos. Aconteceu nos namoros. Por que não percebo e não dou no pé? Acho que sempre vão me chutar antes.

Uma vez foi exatamente assim com Mário Vargas Llosa. Nunca fui fã do homem. E o escritor… eu preferia todos os latino-americanos antes dele. Adorei a análise que fez de Flaubert. De Madame Bovary. Reconheceu-se nela, mesmo sem o dizer. Escreve bem porque lê bem. Mas é isto. Pra mim, falta um toque pra me alcançar como leitora.

E então aconteceu de eu ir entrevistá-lo. Nem estava a fim. Tinha medo daquela figura, do seu cabelo liso, dos dentes. Ele começava a falar pelos cotovelos na imprensa elogiando os Tigres Asiáticos. Toda aquela sorte de bobagens partida do escritor-candidato. E então pensei: se eu conseguir que ele seja honesto comigo, vai ser bom, não vai? Vou gostar, não vou?

E fui. O problema era que eu trabalhava no JT. E ninguém no mundo editorial morria de vontade de frequentar aquelas páginas. A editora já tinha escolhido os quatro de sempre, Veja, Estadão, Folha e Globo, a quem ele concederia as entrevistas brasileiras. Mas uma boa alma na assessoria decidiu, talvez por eu ter feito algumas boas entrevistas antes, que eu poderia pegar o táxi com ele até o aeroporto.

No táxi? Tá bom. Pelo menos seria uma entrevista diferente. Perguntei-lhe o que pude, literariamente falando. Me lembro de ele gostar de trocar ideias sobre Melville, sobre Moby Dick. Conversávamos até animadamente quando de repente eu cheguei com os Tigres, uma pergunta que Renato Pompeu me ajudou a formular. Sua mulher o tempo todo olhava pela janela, o cabelo pintado de preto, os grandes óculos de mesma cor. Mas ué, o Llosa não gostava das bonitas? Não brigou com Garcia-Marquez por isso?

Claro que não perguntei sobre a desavenças com seu antigo amigo, nem sobre suas preferências femininas. Mais sóbria que eu, naquele momento, impossível. Mas depois dos Tigres ele se calou.

Chegamos ao aeroporto e continuei ao lado deles. Achei que pudesse retomar o fio. Até que a repórter fotográfica que fazia o papel de acompanhante/assessora, pelo lado da editora, olhou pra mim e berrou: “Não tá vendo que tá importunando? Dá o fora!” A mulher era (ainda é) um cão. (Depois soube de outras pessoas parecidas na fotografia. Logo na fotografia, que amo.)

Dei o fora.

Me lembro do casal imperturbável. E que ele, de costas, tinha um redemoinho no cabelo.

Anos depois, um amigo peruano de meu filho, também conservador, me disse algo que não me saiu da cabeça. O problema com Llosa é que ele “fala pelas feridas”.

Adorei ouvir. E me reconciliei de imediato comigo. De quebra, tive pena da pobre moça que me agrediu.

Preciso de muitos insights assim para curar eu mesma minhas feridas – e não falar por elas. Demora, né? Mas eu consigo. Vou conseguir.

O ato desmedido de Boris Schnaiderman

Na guerra, na escrita ficcional, no ensaio literário ou na tradução, este grande pensador, morto há cinco anos, negou a covardia

Boris Schnaiderman durante
entrevista que realizei com ele
em 2011, registrada pela fotógrafa
Olga Vlahou: um sorriso sempre

Neste 18 de maio de 2021, completam-se cinco anos desde a morte do crítico, escritor e tradutor Boris Schnaiderman, que hoje teria 104 anos. A seguir, reúno o obituário que escrevi em 2016 à entrevista realizada no ano anterior em torno de seu último livro, “Caderno Italiano”.

Em foto de Olga Vlahou,
o professor Schnaiderman,
sua esposa Jerusa e esta

jornalista, há dez anos

 

POR ROSANE PAVAM

O sorriso brasileiro, a alma russa, uma doçura no trato, a rara retidão. Morto em decorrência de pneumonia um dia após completar 99 anos, numa quarta-feira, dia 18 de maio de 2016, em São Paulo, Boris Schnaiderman viveu de traduzir. No título de um livro lançado em 2011, equiparou seu ofício a um “ato desmedido”, este para o qual, com modéstia peculiar, nunca se via pronto, embora o entendesse necessário, exigente de sua ousadia. Não somente verteu ao português os clássicos da literatura russa, libertando-a das más versões anteriores, como, por seu gosto e humor, preferiu exercitar a “tradução vivida”. Um ser humano, dizia, existe para traduzir aquilo que caminha em seu íntimo. E o tradutor deve ser um ético, um fiel, a quem não competirá desfazer do texto alheio, ainda que confuso. “Antes o obscuro que o óbvio, o frouxo”, proclamava, numa citação a Guimarães Rosa.

Tinha princípios e lutava por eles. Nos anos 1940, após a entrada do Brasil no grande conflito mundial, deu-se conta, sem o apoio dos pais ou dos amigos, que era preferível lançar-se à óbvia guerra, temeroso dela, do que acovardar-se na frouxidão. Não somente a terra a acolher sua família fugida dos pogroms, nos anos 1930, merecia sua batalha, como toda a humanidade. Na Itália, Schnaiderman lutou pela democracia, enquanto no Brasil havia a ditadura. E ele, que condenava todos os autoritarismos, até mesmo os atuais, vivia de inconformismo por saber que as duras batalhas da FEB eram ridicularizadas. “As pessoas não se lembram de que o Brasil participou da Segunda Guerra.” No ano passado, lançou Caderno Italiano, no qual deu sua visão dos combates, desta vez intitulando os combatentes, sem mesclá-los ficcionalmente como fizera em um dos mais belos textos da literatura brasileira, Guerra em Surdina

Nos últimos tempos, revia suas traduções e esboçava as memórias da infância ucraniana, aquelas que lhe permitiriam contar a vida a partir de suas andanças em Odessa e seu testemunho, aos 8 anos, das filmagens de O Encouraçado Potemkin. Alguns meses antes de morrer, ainda tomava sua cachaça, recolhia a correspondência por baixo da porta, andava acompanhado pela Higienópolis onde morava e silenciava, os olhos sorridentes, diante de tudo o que lhe dissesse, com inteligente formosura, a esposa Jerusa Pires Ferreira. 

A seguir, a íntegra da entrevista realizada com o escritor e professor em sua residência paulistana na tarde do dia 4 de setembro 2015, por ocasião do lançamento de Caderno Italiano.

Por cerca de uma hora e meia, Schnaiderman falou com calma e pausadamente, empenhado em ressaltar a participação brasileira na guerra. Sentado em uma cadeira na sala repleta de livros de seu apartamento, não se recusou a responder uma pergunta sequer.

 

Meu filho Bernardo Tagliari,
Boris Schnaiderman e eu em foto que Carol Carquejeiro realizou durante a última entrevista que o professor
me deu, em setembro de 2015

“Caderno Italiano”, seu novo relato sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra, tem o formato documental, ao contrário de “Guerra em Surdina”, de 1964. Quanto tempo de escrita o novo livro lhe tomou?

 

Pouco tempo. Cerca de um ano e meio. Quando escrevi Guerra em Surdina, havia limitações. Certas pessoas ficariam muito ofendidas, outras viriam a público desmentir o que escrevi. E coisas assim bem desagradáveis. Mas agora, passados esses anos todos, quase todo mundo já morreu, não há mais impedimento. E eu resolvi vir a público principalmente porque está tudo muito esquecido. Demais. Demais. As pessoas não se lembram de que o Brasil participou da Segunda Guerra Mundial. Os jornais noticiam quando há as datas e tal, mas o povo de modo geral esqueceu. Era uma contradição lutar pela democracia lá fora enquanto havia ditadura aqui. Fiquei perplexo porque esperava um desastre completo desta participação brasileira. Os soldados não tinham motivação para lutar. No entanto, lutaram. Uma coisa estranhíssima. Desempenharam muito bem, quando parecia que tudo iria resultar num desastre. E não.

 

Foi difícil tomar a decisão de participar dessa guerra?

 

Eu quis lutar. Foi antes ainda da minha convocação, não é, a minha vontade de ir para a guerra. Eu estava completamente arrasado com as notícias que chegavam da Europa. Já se sabia daquilo que depois chamariam de holocausto, aliás um nome muito inadequado para o que houve. A palavra holocausto significa o sacrifício a uma divindade. E esse sacrifício era em prol do quê? Não tinha um objetivo. Então, o nome me parecia completamente inadequado. Aliás, na França houve todo um movimento de intelectuais contra a designação desse massacre como holocausto.

 

Como o sr. avalia a participação brasileira na Segunda Guerra?

Fiquei perplexo porque esperava um desastre completo. No entanto, os brasileiros se saíram bem, realmente bem. Agora vêm essas conversas de que afinal de contas era uma linha de frente secundária, nem Stalingrado, nem o desembarque na Normandia… Tudo bem, mas não tinha nada de secundário naquele combate! Afinal de contas, um exército alemão foi imobilizado na Itália, uma coisa importante. Aliás, o fato de existir uma frente na Itália facilitou o desembarque aliado na Normandia.

 

A FEB teve algumas derrotas. O primeiro ataque ao Monte Castello resultou num fracasso completo, mas houve poucos insucessos. Incrível o que se conseguiu. A tomada de Montese, em abril de 1945, foi uma coisa extraordinária. Quer dizer, eu só participei calculando tiro. Mas os homens da infantaria lutaram de rua em rua e de casa em casa. Não se pode diminuir isso de modo nenhum. Eu continuo perplexo, sem compreender bem como foi possível que o combate se desse. Aqueles homens falavam mal da guerra, diziam que Getúlio Vargas tinha sido enganado pelo ministro Oswaldo Aranha, que nós havíamos sido vendidos por dólares (e era verdade). Eles tinham consciência disso, no entanto lutaram. Uma surpresa para mim.

 

A grande maioria dos soldados era da camada mais pobre da população. Os estudantes foram à rua pedir guerra na avenida, tal, mas na hora do vamos ver, eram bem poucos lutando. Havia alguns estudantes, claro. Eu fiz parte da Central de Tiro. No meu grupo de artilharia, havia vários estudantes convocados. Tínhamos uma situação concreta. Eu era um pacifista convicto, mas me convenci de que era necessário lutar.

 

Os soldados de divisões diferentes eram tratados de maneira semelhante por seus superiores durante a guerra?

 

Na artilharia, a diferença entre o soldado e o oficial era muito mais sentida. Na infantaria, a relação entre soldados e oficiais era muito melhor. Na artilharia, havia assim como que uma barreira entre os oficiais e os praças. Uma coisa que vem de longe, não é? De uns se acharem superiores aos outros. Não vinha de alguma especialidade exigida de quem calculava. O cálculo de tiro era uma função como outra qualquer.

 

Em “Caderno Italiano”, o sr. menciona uma discriminação importante no exército americano. Como a percebia?

 

No exército americano, havia um racismo entranhado. E no nosso, não. Os americanos nos diziam: “Vocês é que estão certos. Brancos, amarelos, negros, mulatos, todos misturados. Vocês é que têm razão! Mas nós não podemos. Nós não conseguimos. Para nós, negro não é gente.” Uma coisa terrível. Estivemos muito em contato com a oitava divisão negra americana, mas nessa divisão negra americana os oficiais eram brancos. Isto por si acarretava uma situação deprimente para nós. Admiro muito o escritor Rubem Braga. Gosto muito das crônicas de guerra dele, porque conseguiu captar com muita sensibilidade as situações humanas. Mas ele não menciona a questão racial no exército durante a Segunda Guerra. Nunca conversei com o Rubem Braga sobre isto. Só o vi uma vez, de longe, durante os combates. Eu fui o primeiro a calcular um tiro de artilharia na minha divisão. E o Rubem Braga estava lá para ver.

 

Tem certeza de que o cálculo de artilharia era uma coisa simples de fazer?

 

Muito simples, bastante simples. Era um cálculo feito na base das curvas de nível. Eu ficava diante de uma prancheta. Nela, estava o mapa da região, com as curvas de nível. E o cálculo era feito na base dessas curvas. Não usava réguas de cálculo, calculava no papel mesmo. O exército brasileiro teve toda uma formação pela missão francesa que veio ao Brasil. Nossa organização era baseada no exército francês. Mas depois fomos incorporados ao exército americano e tudo mudou. Em tempos de paz, no Rio de Janeiro, fomos treinados para usar o canhão de 75mm, adotado pelos franceses. E nesse sistema era o capitão comandante da bateria quem fazia os cálculos. Quando fomos incorporados ao exército americano, eles passaram a ser feitos por uma central de tiro. Um grupo de sargentos e cabos, comandado por um capitão, calculava. Mas no nosso sistema, o francês, éramos nós mesmos a fazer esses cálculos. Os americanos trabalhavam sob uma organização quase empresarial. A gente foi preparado de um modo no Brasil e deparou com tudo diferente na guerra. Fomos aprender lá mesmo. Improvisando.

 

O exército brasileiro oferecia a possibilidade de leituras aos soldados nos intervalos dos combates? O sr. escreveu cadernos naquele período?

 

Nós recebíamos alguns livros, sim. A Legião Brasileira de Assistência, organização presidida pela mulher do Getúlio, oferecia livros. Poucos, geralmente. E era muito individual, isso: ela ajudava uns, não ajudava outros. Por meio desses livros pude me interessar por Alphonse Daudet, para depois me decepcionar com suas posições, que conheci mais tarde. De Knut Hamsun, eu também gostava muito, e novamente só depois soube que aderira ao nazismo. Fiquei perplexo com as posições do Daudet, com o que aconteceu com o Hamsun.

 

E eu não conseguia escrever durante a guerra. Comprei um caderno e fiquei anotando umas coisas, mas por muito pouco tempo. Não valeu de nada.

Nem desenhei. Sou muito ruim de desenhar. 

Pode não ter valido nada naquele momento, mas valeu depois, por certo.

 

Acho importante contar o que aconteceu. Acho importante lembrar. As pessoas saberem o que foi. Um livro sobre os acontecimentos não é uma coisa fácil de ser feita. Guerra em Surdina, eu levei muito tempo para colocar no papel, saiu 19 anos depois de eu ter voltado da guerra. Eu tentava e não vinha nada. A ideia era escrever assim que o conflito acabasse, mas eu não conseguia. Eu tinha lido muita literatura de guerra, mas minha experiência era completamente diferente de tudo o que eu havia lido.

 

O sr. sente falta de escrever ficção? “Guerra em Surdina” é um dos mais belos romances da literatura brasileira.

 

Uma tentativa de romance… Eu sempre quis fazer ficção. Mas não sou ficcionista. Minha autobiografia me arrasta mais.

 

Sua infância não valeria um livro?

Tenho vontade, sim, de escrever sobre a infância. Estou escrevendo agora. Eu tive esta sorte. Estou com 98 anos e continuo capaz de fazer as coisas. Então houve essa vantagem. Estou tentando contar minha vida desde a infância. Estou tentando, mas é muito difícil, porque aparece o problema, não é? Mostrar o podre das pessoas ou não mostrar?

 

O sr. deve ter muitas histórias a oferecer, como aquela em torno de seu testemunho sobre um clássico do cinema, aos 8 anos.

Acho que sou o único sobrevivente das filmagens de O Encouraçado Potemkin. Todo mundo morre. As pessoas foram morrendo e eu sobrevivendo. Talvez seja o único sobrevivente daquela cena. Isto foi em 1925. Em Odessa, onde eu vivia. Acontece que as crianças em Odessa tinham muito mais liberdade e circulavam muito mais pela cidade do que as nossas. Não havia quase trânsito. As potências ocidentais estavam bloqueando a Rússia, quase não circulavam carros na cidade. Só os veículos coletivos. Agora, automóveis particulares, não havia. Simplesmente não havia.

 

Então existia muito movimento pelas ruas. Eu andava pela cidade toda. Gostava muito daquele espaço da escadaria de Odessa, entre a parte alta e o porto. E uma vez eu estava sozinho na escadaria quando vi um movimento estranho. Era a filmagem do Encouraçado Potemkin. De repente, aqueles homens atiravam os chapéus para o alto… E apareciam aquelas mulheres com umas toaletes que não se usavam mais, muito estranhas para mim. Não me lembro bem, mas devo ter visto o próprio Eisenstein. E o cinegrafista dele, que filmava, o Tisse. Mas me recordo mesmo é das cenas. Vi os chapéus atirados para o alto, aquelas damas todas lá, saudando os marinheiros revoltados. Aquelas damas em toaletes muito estranhas, não é? 

 

 

Odessa era uma cidade diferente das outras?

 

A disposição topográfica de Odessa é semelhante à de Salvador. Fica num platô. E na parte baixa há o porto e as praias. Suas ruas são bem paralelas, planejadas pelo primeiro governador. É um pouco diferente de outras cidades russas. Digo russa porque era ucraniana, mas, para mim, era tudo Rússia… Eu só falava russo, em volta todo mundo falava russo. Quando ia à feira, ouvia a conversa dos vendedores numa língua que eu não compreendia. Era o único contato que eu tinha quando criança com a língua ucraniana. Toda a vida restante se passava em russo. Odessa é uma cidade praticamente russa. Mas quando eu chego à Rússia (até recentemente, porque agora não estou mais viajando), todo mundo me conhece como odessita, por causa do sotaque. Nasci em Úman, uma cidade relativamente perto de Kiev, capital da Ucrânia. Mas para mim era tudo Rússia.

 

Seus pais não ensinaram aos filhos a língua de família?

 

Em casa, meus pais não falavam a língua dos judeus da Europa Oriental, o iídiche. Exceto quando queriam que nós, eu e minha irmã Berta (que foi engenheira civil), deixássemos de compreender alguma coisa. Então eu fazia um esforço e acabava compreendendo, porque em casa só se falava russo. Eu me interessei pela literatura iídiche, mas sempre em tradução. Não tinha livro em iídiche em casa. Meus pais abandonaram a língua, sei lá, por inércia. Precisavam viver em um meio no qual todo mundo falava russo… Mas eu tinha uma avó, mãe de meu pai, que veio morar conosco e só falava iídiche com ele. Quase não se comunicava com a gente, só falava com meu pai.

 

E seu pai reagiu mal à sua opção por uma carreira literária.

 

Aconteceu o seguinte. Quando tinha uns 12, 13 anos, disse aos meus pais que iria estudar agronomia. Tinha uma fantasia com uma vida no campo, essas coisas. Vim para o Brasil quando tinha 8 anos, em 1926, e sentia muita saudade de Odessa. Mas depois, aos 15, passei por uma crise. Eu me abrasileirei completamente. Fiquei lendo literatura portuguesa e brasileira, romances, poesias, Machado de Assis, José de Alencar. E resolvi que não iria fazer mais agronomia, que me ocuparia de literatura. Escrevi uma carta para os meus pais, caprichei na redação o mais que pude. Disse que não queria mais ser agrônomo. E minha mãe me chamou para conversar. Disse que literatura era muito bom, mas que precisava ser feita nas horas vagas, aos sábados e domingos, de noite. E me contou que a pessoa necessitava ter uma ocupação rentável enquanto fazia literatura… Eis por que, para satisfazer a família, fui para essa coisa de agronomia.

 

O sr. só conversou sobre isso com sua mãe?

 

Não falei com meu pai, era tudo com minha mãe. Escrevi uma carta para eles, que não era a terrível carta de Kafka ao pai, pelo contrário, tinha o tom amistoso. E eu era bem mais criança… Muito recalcada, retraída… Criança imigrada era assim. Não falava com as outras. Cheguei aqui, as frutas eram diferentes, eu não conhecia banana, mamão, coco. E meus pais tinham saudade da Rússia.

 

Como a família veio parar no Brasil?

 

Acontece que meu pai era comerciante. No regime comunista, não havia muito espaço para ele, um homem hábil, com as costas quentes. Ele se dava muito bem com as autoridades. Mas se ele tivesse ficado, teria sido fuzilado. Porque aquelas pessoas que o protegiam, o favoreciam, foram todas fuziladas como trotskistas. Sua fuga não foi questão de habilidade. Aconteceu que ele tinha um primo, Pedro, que estudava na Escola Politécnica de Odessa. Estudava e trabalhava ao mesmo tempo, para ajudar a família. O pai dele faleceu e ele se tornou arrimo de família. Um dia, foi expulso da universidade por ser de família burguesa. Revoltou-se e resolveu emigrar. Emigrou sozinho até a fronteira com a Romênia, onde contrabandistas, mediante certa quantia, ajudavam a pessoa a ultrapassar a fronteira. Atravessou a fronteira com a Romênia, ficou quase sem dinheiro e conseguiu chegar a Viena. Lá, dormiu em banco de praça para não pagar hotel e foi correndo de embaixada em embaixada para obter um visto de entrada em algum país. Conseguiu um para o Brasil.

 

As pessoas saíam da Rússia com um destino em mente. E, para atingi-lo, conseguiam o que se chamava Passaporte Nansen. Diplomata norueguês, Nansen trabalhava para a Liga das Nações e providenciava passaportes para os que saíam da Rússia. Com seu Passaporte Nansen, Pedro veio para o Brasil, onde passou muitas dificuldades. Trabalhou na construção civil como pedreiro, mas conseguiu se firmar. E escreveu umas cartas entusiasmadas para nós. 

 

Meus pais então resolveram emigrar para o Rio de Janeiro. Mas de modo diferente das outras pessoas, que em geral saíram fugidas. Nós saímos com passaporte soviético, de capa vermelha, com letras douradas, a foice e o martelo dourados. Depois, no Brasil, tive problemas com isso. Imagine usar esse passaporte durante o Estado Novo! Eu consegui a naturalização brasileira após muito esforço. Não tinha recursos, portanto não podia contratar advogado nem despachante. Ia pessoalmente de repartição em repartição, mas consegui. Todos na família conseguiram. 

 

Minha naturalização saiu em 1941. Mas me formei engenheiro agrônomo em 1940. Para registrar meu diploma, precisava estar naturalizado e ter prestado serviço militar. Então tratei de me alistar. Eu podia fazer linha de tiro, que era um tipo de instrução mais suave, ou o quartel. Quis o quartel, me chamariam para lutar. Foi uma complicação. Eu morava em Copacabana e tentei me inserir nas fortalezas do litoral. Não me aceitaram. Só consegui ser aceito num quartel em Campinho, depois de Cascadura. Eu acordava às 4 horas da manhã, tomava ônibus, bonde e trem e chegava em Campinho. Fiz lá o curso de sargento e fui convocado à guerra como terceiro-sargento. Dei baixa como segundo-tenente. Fomos todos promovidos depois da guerra.

 

O sr. se considera próximo do marxismo?

 

Passei por um período marxista. O que me distanciou muito do movimento comunista foi o pacto germano-soviético, em 1939. Fiquei com muita raiva, aquilo me afastou por muitos anos, mas depois voltei.

 

O cinema em algum momento foi fidedigno em relação aos acontecimentos que o sr. presenciou na Itália durante a Segunda Guerra?

 

Tive um tio que dizia não acreditar no Roma, Cidade Aberta, do Roberto Rossellini. Uma bobagem muito grande, porque eu testemunhei o que o filme mostrou em 1945. Vi que os italianos lutaram contra o fascismo. Os partigiani realmente se empenharam a fundo, com grandes perdas humanas e tudo. Uma injustiça muito grande dizerem que não fizeram nada. Quando nós entramos no norte da Itália, ele já havia sido tomado pelos partigiani. Tenho a maior admiração pela contribuição dos italianos na luta contra o fascismo. E Roma, Cidade Aberta me pareceu fiel. Vi Paisà na época do lançamento, 1946, mas não me lembro bem dele. A população italiana estava arrasada. Uma situação de degradação completa. Quando chegamos em Nápoles, era trágico.

 

Qual é o seu sentimento, hoje, sobre a guerra?

 

A guerra, a gente não esquece. Neurose de guerra todo mundo tem. Quem passou por aquela experiência tem neurose de guerra, é inevitável.

 

Como o sr. escreveu “Caderno Italiano”? Ainda usa a máquina de escrever?

 

Escrevo a máquina, não aprendi computação, não consigo. Por quê? Qual é a vantagem? Até hoje existem oficinas para máquinas de escrever, e eu mando a minha para eles. Sabe que há muita gente escrevendo desse modo ainda? Tanto que a gente ainda compra fita de máquina. O computador mudou o tipo de correspondência, não é? É imediata. Hoje em dia quase não escrevo cartas. A Jerusa [Pires Ferreira, sua esposa] manda as mensagens pelo computador. Ela está completamente computadorizada.

 

 

O sr. ainda escreve cartas? Pensa em publicar sua correspondência?

 

Minhas correspondências nunca foram publicadas. Nem quero que sejam. Eu guardo todas as cartas que recebo, mas hoje em dia quase não escrevo cartas. Não posso me queixar. Fico trabalhando, fico escrevendo, lendo, de vez em quando saio, acompanhado de alguém. Acordo cedo. Recebo muito livro, inclusive não há espaço para tantos deles em meu apartamento. No momento, revejo traduções antigas. Traduções novas, não mais.

 

Ao lado dele, por Olga Vlahou

 

 

apartem-nos

saudades do meu pai, sinceramente.
um homem pouco adaptado ao mundo.
um ingênuo, transparente na sua humildade.
creio que mal soubesse o significado de ser contrário, de ser de esquerda.
mas era um homem bom.
bom a ponto de sacrificar o que quer que fosse seu
por nós.
modos e bigodes de tempos em que tudo isto compunha elegância, refinamento simples.
hoje vejo esses sujeitos que se creem adultos desfilando com graxa no olhar, pisando sobre todos.
não, meu pai não era um homem assim.
tão límpido como um riacho antigo, coitado!
um menino.
o pulo, a graça, a vitalidade infantis.
o respeito profundo pelas brincadeiras, pelos lápis de cor.
hoje entendo uma boa parte de você, pai, antes tão inalcançável.
acho que pertenço a seu imaginário e a seu sorriso bom.
tudo o mais me assusta e estupidifica.
os exageros, as contenções.
das desmedidas às menores, as ambições me causam estupor!
esse silenciar o afeto para se submeter aos números…
esse não ser o que se é, em busca de aceitação…
quis tanto que a vida desse certo pra você!
como quis que desse pra mim.
que nos deixassem no fim do arco-íris, pois nosso interesse não estava nas moedas, mas nas luzes.
ninguém vai compartilhar conosco esse sentimento, vai?
e o que teremos nós a ver com isso, pensando bem?
apartem-nos do que vocês construíram!
estamos no lamaçal brincando de escorregar.

A alegria que se foi

Morreu o Diet, o jornalista mais doce

Chamavam o Marcos Filippi de Diet como antes os pretos eram Chocolate. Não havia razão para essa chacota pra cima de um menino tão do bem. Era preciso ser forte na redação do JT. E ele nasceu sabendo como fazer. Para lutar por seu trabalho, sorria com eles, não deles.

O gordinho é figura descolada neste planeta ou não sobrevive. O Diet lutava do seu jeito. Ouvia uma piada e assimilava o soco com o air bag do humor. Era um mascote, ganhava mais carinhos. Precisavam dele na cultura. Sabia tudo de rock e falava inglês, se me recordo bem. Não era pra todo mundo naquele tempo.

Mas ele assimilava a zona toda, sorridente sempre, sorridente eu não sabia bem de quê ou principalmente por quê. Talvez de tudo e de si mesmo. E talvez porque fosse mais simples. O sorriso inclui, o sorriso conquista e faz esquecer.

Sofria sozinho diante do computador, contudo, que eu via, e suava bastante, sempre prestativo até não poder mais. Eu era subeditora, adorava pegar texto dele pra fechar, mas ele ficava tenso sempre: “Deu certo?” dizia pra gente com os olhos.

Nosso Diet, o jornalista, como poderia ser esquecido? Soube pela Paula Medeiros que ele morreu hoje de um infarto fulminante. No fundo, não vou acreditar.

Um jornalista tão inteligente que não tinha turma na redação! Não tinha lado.

Bem, tinha um lado, sim. O Santos Futebol Clube.

Esse lado, nós dois compartilhávamos. Ele era santista, como esta linda foto de perfil no face faz questão de mostrar. Conversávamos então sobre isso. 

Digo, eu puxava o assunto, porque queria entender o que rolava, quais eram as contratações prometidas, de que jeito o time levaria o jogo na próxima partida. Futebolês que sempre amei. Ainda não havia a conquista de 2002, mas nós já tínhamos Giovani de quem depender ou por quem lamentar.

E eu ficava feliz porque, sendo mais velha que o Diet, vinda de um outro mundo de expectativas, podia compartilhar ao menos suas dores e glórias futebolísticas. Sofríamos calados quando tudo dava errado (isto é, quase sempre) e, quando nos saíamos bem pra cima daquele mar de tifosi de outras bandeiras, porque a única coisa que se fazia naquela redação era mesmo torcer, o regozijo vinha bem maior.

Saí do JT e não soube mais o que foi feito do menino feliz.

Espero só isto mesmo. 

Que tenha sido feliz.

Vergonha mata

À direita sou eu, mal ajambrada depois das noites difíceis que antecederam minha qualificação para o doutorado, nos bastidores do Auditório Ibirapuera, em outubro de 2014. Comigo na foto estão minha querida Thaís, que faz anos hoje, minha cunhada Tânia e Ela.

Elza, como veem.

Ela cantaria “O meu guri” numa homenagem a Chico produzida por meu marido, Mauricio, a quem Elza se afeiçoou. E quem é de seu conhecimento e afeto, ganha beijinho na boca… A boca de meu marido foi muito bem beijada, calculem.

Porém, como eu não a conhecia, ela apenas pegou minha mão e a beijou. Ficou feliz de ser apresentada à esposa do Mau. Pude sentir sua pele então, macia como poucas.

Esta noite foi bem maluca porque, enquanto eu estava nos bastidores, sozinha, antes de os shows terem início, um homem grande se ajoelhou diante de mim e também pegou minha mão, para em seguida me chamar de “minha flor”. Será que porque eu tinha flores na estampa do vestido? Não sei. Não sabia de quem se tratava. Pensei sorrindo: artistas são mesmo assim.

Contudo, do fundo do palco de onde depois assistiria a todos os shows, vi que um MC chamava esse mesmo rapaz adiante. Percebi com assombro que se tratava de Criolo, no fim das contas. Não lembro o que o menino ajoelhado cantou. E não o procurei para pedir desculpas nos bastidores novamente depois, embora ele sorrisse pra mim o tempo todo, até no caminho de volta, para o táxi.

Vergonha mata!

Eles nunca foram santos

Me lembro que um diretor de redação, Sr. Democrata (vou chamá-lo de SDM), passava sempre pela minha mesa cultural pedindo dica de filme em cartaz para ver com a namorada, e que isso em essência, se parássemos para pensar, era a finalidade de nosso trabalho, servi-lo pessoalmente, além de ele propagar nossas notícias, críticas e conclusões ao público que ia a sua casa aos sábados para beber seu vinho e comer sua comida enquanto ele distribuía sua revista à mesa e discursava sobre a própria importância jornalística.

O que escrevíamos servia também para SDM concluir que no Brasil éramos ridiculamente pequenos, especialmente em todas as artes, exceto talvez, olhe lá, na música, mas sem esses sambistas todos. Nós nos vestíamos em “andrajos” e éramos o povo “mais feio do mundo”, submetidos à “comida dos selvagens” como ela existe na Bahia (ou no Pará, mas “de que me interessa o Pará?”).

Me pergunto se alguém pensa com ingenuidade que só pela Globo fomos destruídos, primeiro culturalmente. Há tanto mais (neste caso, miúdo) a ter solapado aos poucos nossa identidade e manchado nossa história – a ponto de havermos acabado aqui – que serão necessários muitos anos de pesquisa acadêmica e isenção, com os quais possivelmente jamais um dia poderemos contar, para situar toda essa humilhação em perspectiva.

E escrevo isto talvez para o futuro, se futuro houver, para que não nos deixemos enganar pelas tolices hagiográficas que cercam certas figuras jornalísticas.

Na moral

Se eu tenho uma boa recordação da escola onde estudei? Tenho uma divertida.

Eu era muito boa aluna de português, adorava análise sintática e escrevia bem as redações pedidas, às vezes poesias, além de me esmerar em declamar poemas clássicos de cor (sim, eram coisas estimuladas pelo povo lá de trás e eu fazia isso “de coração”, porque tornava minha vida menos triste). E enquanto isso tinha de me esforçar em ciências, exceto em biologia.

Quando estava terminando o Ensino Médio, os professores me perguntaram o que eu iria cursar. Disse jornalismo (estava em dúvida entre jornalismo e psicologia), até porque meus pais haviam me apoiado integralmente na decisão. Então estranhei quando os professores reagiram: “Que é isso, você merece coisa melhor!”

Adorei desobedecer meus professores e o colégio então.

Mas hoje entendo o que pensavam naquele tempo. Jornalismo era para a ralé. E eu deveria cursar direito ou estudar diplomacia, coisas muito mais de bem para o povo de humanas então.

Lembro disso e não paro de rir, acho que de nervoso mesmo. Se tivesse seguido uma carreira diplomática, talvez já estivesse aposentada ganhando bem. E no direito, concursada, não enfrentaria muito problema, acredito, só mesmo o trabalho a fazer.

Escolhi errado, porque jornalismo não dá dinheiro e, no atual momento, muito menos moral.

Mas é vida que segue que chama?

Como eu vi Maureen

Minha reportagem de 2010 com a fotógrafa Maureen Bisilliat, que reproduzo a seguir

Maureen Bisilliat em foto feita
por Olga Vlahou em 2010

Em abril de 2010, Maureen Bisilliat foi tema de uma grande retrospectiva na então galeria do Sesi, em São Paulo. Na ocasião eu a entrevistei para uma reportagem de revista que reproduzo a seguir. A genial foto de Maureen na reportagem foi feita por uma das maiores retratistas brasileiras, minha amiga Olga Vlahou. Maureen faz 90 anos no dia 16 de fevereiro de 2021 e este texto é minha homenagem a ela.

A primeira foto de Maureen,
nos anos 1950

A MÃE DA INVENÇÃO

Exposição na Galeria do Sesi refaz a trajetória da artista Maureen Bisilliat, que agora usa o vídeo para captar o instante

POR ROSANE PAVAM

A primeira de suas fotos ainda é a mais importante. Com ela, Maureen Bisilliat diz ter compreendido o ato de fotografar. A imagem foi feita em preto e branco nos anos 50, entre nisseis plantadores de algodão no interior paulista. Na humilde cozinha campesina, a mãe usa a faca diante da janela aberta à luz. Um menino cujo rosto não vemos deita parcialmente o corpo sobre a bancada em direção à mulher com a faca, como se a ela se entregasse, em sacrifício. No primeiro plano da fotografia, à esquerda, uma menina à sombra olha para Maureen.

“Depois desta, fiz sempre a mesma foto, não é?”, observa rapidamente a artista de 79 anos nascida em Surrey, Inglaterra, filha da pintora Sheila Brannigan. Maureen, que me recebe na Galeria de Arte do Sesi, em São Paulo, onde até o dia 2 de julho de 2010 ocorre a monumental retrospectiva de seu trabalho visual, tornou-se uma das mais importantes intérpretes fotográficas do Brasil, à moda de um Pierre Verger ou de um Marcel Gautherot, não, obviamente, sem dificuldade ou dor.

Uma dessas dores talvez tenha nascido daquilo que ela intitula “inconsciência”, mas que, pelo contrário, pode indicar o ato deliberado de quem se sacrifica por seu destino artístico. Na década em que registrara a família de lavradores, Maureen deixara a filha Kyra, de dois anos, aos cuidados dos avós na Espanha. Sem a menina e na companhia da amiga Ann Bagley, fora estudar no ateliê parisiense do cubista André Lhote (1885-1962), o professor de pintura do fotógrafo Henri-Cartier Bresson.

Aquele momento de distância familiar foi crucial, no entanto, para que ela pudesse ter aprendido composição e cor. “Sendo mais consciente, talvez não tivesse me afastado tanto de minha filha. No frigir dos ovos, não sei se isto foi necessário, mas assim foi”, ela diz, com seu português de quase seis décadas, acrescido de todas as contribuições européias. Lhote gostava de Maureen e de Ann porque elas chegavam até ele sem qualquer influência. “O que a gente produzia era primário, mas não envenenado.”

Aquela primeira foto nasceu de seu talento, mas também de seu conhecimento da arte. “A falta de técnica era compensada por uma consciência da luz e da composição, o que naturalmente vinha do meu passado na pintura”, ela explica. A artista não se descobriu com Lhote, embora ele a tenha introduzido à formalidade, embutida no ato de pintar e expressa nos esboços barrocos da artista, presentes na exposição. A descoberta da liberdade artística, ela atribui a Morris Kantor (1896-1974), russo ligado ao expressionismo abstrato que lhe deu aulas nos Estados Unidos em1957.

“Foi uma invertida total”, conta Maureen sobre seu aprendizado com Kantor. “Ele era o oposto do Lhote. Dizia que os erros eram tão interessantes!” Naquela Nova York, os artistas não viviam sob o jugo de produtores e agentes. Eram sobretudo simples. Depois dessa experiência, Maureen jamais deixaria de buscar tal qualidade em todos os artistas. Ela a viu no escritor Guimarães Rosa tanto quanto no sertanista Orlando Villas-Boas. Os dois a prepararam respectivamente para Minas Gerais e para o Xingu. Guimarães Rosa, por exemplo, disse-lhe que a fotógrafa não teria dificuldade em Cordisburgo porque, descendente de irlandeses, ela também cantava ao falar.

Os trabalhos a partir das indicações literárias de Rosa e de outros escritores, como Jorge Amado, Euclides da Cunha e João Cabral de Melo Neto, estão expostos no Sesi tanto quanto no livro Fotografias, editado pelo Instituto Moreira Salles. O extenso volume representou a “argamassa”, como ela diz, para esta exposição que também traz a passagem da artista pelo mangue e por Japão, África ou China. Desde 2003, porque faria o livro, Maureen promoveu “uma volta no tempo com tempo”, selecionando duas centenas entre 16 mil de suas imagens referentes ao passado. “Eu pareço toda artista, mas tenho muito de prática”, ela diz, sempre grata à grande equipe que a auxiliou a expor. “Sou organizada desorganizadamente.” 

Esta pensadora se realiza com a escrita, para a qual se diz meticulosa, enquanto, ao falar, lamente se soltar demais. Em muitos momentos, Maureen parece ansiar o rigor pregado por Lhote. E por que, sendo tão precisa nas composições, declinou ela própria da pintura? “Pensei essa coisa engraçada agora. Eu me sinto perdida diante do branco. Eu não sei inventar.”

Maureen Bisilliat habituou-se, então, a tirar da realidade seus temas. Mas não clica seriamente há trinta anos. “Sempre achei que perdi mais do que ganhei na fotografia”, ela considera. “Estou falando de captação. O que eu via era mais do que eu captava.” Conhecida por seu trabalho no Xingu, por exemplo, ela não retratou os índios como gostaria. Maureen só viveu intensamente aquele mundo ao mostrá-los durante seu processo de trabalho em Xingu/Terra, documentário em parceria com Lúcio Kodato, de 1979. 

A artista diz trabalhar melhor com a fotografia quando o personagem posa para ela, em cumplicidade. Raros são os momentos gestuais espontâneos como aquele em que, numa foto, seu pescador baiano segura a presa em movimento. “E observe como o rabo do peixe é importante para determinar a foto. Basta cobri-lo com a mão.” Quando usa o preto e branco, Maureen é aguda e suas fotos transmitem grande emoção e sensualidade. Em cores, seus registros fotográficos expressam uma beleza fria.

Representar o gestual e a voz das pessoas, contudo, é tudo o que encanta esta artista. Por exemplo, ela esteve com as caranguejeiras na década de 60 para uma reportagem sobre o mangue destinada à revista Realidade, da editora Abril, empresa para a qual trabalhou prazerosamente por sete anos. Sua trabalhadora é alegre e orgulhosa, “como uma bailarina de Degas”. E captar isto não seria dizer ao observador uma parte importante e esquecida da verdade?

Ela considera, contudo, raros e breves os momentos fotográficos em que não só as mulheres do mangue, mas vaqueiros do sertão ou pescadores, surgiram-lhe inteiramente. Por isto, ao registrar a vida em processo, o vídeo pede sua presença mais e mais. Com ele, finalmente, esta artista se sente preparada para o instante. Agora, por exemplo, decidiu correr atrás dos habitantes da Sé paulistana. No projeto que pensa intitular Fracos, Fortes e Fodidos da Praça da Sé, ela quer descrever de onde vêm e para onde vão as pessoas que por lá circulam. A São Paulo desvalida talvez precise, mais do que imagine, deste novo instante de Maureen.