Menino era só liberdade

As qualidades do meu pai como fotógrafo eram imensas.
Imensas mas severas.
Todos tínhamos de posar em nosso melhor estado pra ele.
Porém, aqui, não foi possível que ele nos controlasse a este ponto.
Meu irmão caçula dava seu primeiro passinho, com um ano, e a arrumação não iria funcionar!
Foi também uma das únicas fotos que ele fez neste trecho de calçada estreita onde estava o prédio da rua Santo Antônio, para onde nos mudamos.
E sobre mim?
Eu era uma espécie de mãe alternativa do meu irmão.
Mas me parecia com um menino da época, com meus cabelos repicados e meu short-e-camiseta.
Me chamavam de menino também.
“Ei, menino!”
Eu não ligava.
Menino era só liberdade.

A mente brilhante e o sonho desfeito

Todas as manhãs, ao acordar, nos primeiros segundos em que os olhos ainda fecham a tela para o espetáculo do mundo, mas a mente cintila e comove, é extraordinário que eu saiba o que desejo e, entre tantas as coisas insinuadas, quem sou e a que vim.

Imersa na neblina do sonho recente que aos poucos se desfaz, como o corpo tragado na areia movediça dos filmes B, procuro sua mão ao meu lado. Ela está lá e eu a aperto com força. Ele também. Ele é a única realidade.

E então tudo o que raciocinei naquela nebulosa sucessão de imagens do passado vai ficando pra trás, com a lembrança apenas de alguns trechos, um tobogã, um amante de juventude, como ele emagreceu, como permanece insensível a mim!

A urna irresistível

Estudei na ECA-USP, que foi bastante definidora de minha vida posterior. Lá conheci grandes pessoas que se tornaram muito próximas por toda a vida. Usei muito a biblioteca, vi diversos filmes e combati a timidez durante meu curso de jornalismo. Muito importante foi ter frequentado ocasionalmente, durante meu período de graduação por lá, dois outros cursos, de cinema e rádio e tv, cujos professores eu considera criativos, bem melhores.

As aulas de jornalismo eram irregulares e maçantes, e eu só terminei a faculdade empurrada, porque na reta final um professor do currículo básico me assediava e queria me impedir de tirar o diploma.

Com a ajuda dos amigos, que me deram avaliação 10 em conjunto (e o professor tirava a média entre nossas avaliações e a dele), pude concluir a disciplina que me faltava. Naturalmente, ele me deu zero e eu passei com 5, depois de duas tentativas anteriores de convencê-lo a me deixar prosseguir em paz.

É um sujeito conhecido, ganhou cargos no governo paulista e até bem recentemente me procurou via email para que participasse de um conjunto de depoimentos de ex-alunos. Não vou dizer de quem se trata, já que não me interessa ter meu nome ligado ao dele jamais. É velho e deve estar aposentado.

Não conto essa história sempre, só falo agora porque novamente a ECA me pede alguma coisa, que é participar da eleição do representante dos ex-alunos. Não conheço as duas candidatas, mas como se trata de duas mulheres, escolhi a mais velha e fim.

Acho que não resisto a exercer o direito a voto em qualquer ocasião que se apresente a mim…

A ignorância é o brinde

Nos anos 1990 eu trabalhava numa grande revista cujo editor, hoje astro da imprensa de direita, era um homem atormentado, porém culto, porém digno com seus subordinados, porém capaz de assumir para ele os erros da equipe. Editores assim raramente existiram antes ou depois para mim. Ser de esquerda não obriga ninguém a desempenhar o trabalho com esse profissionalismo, infelizmente. E ele foi realmente especial.

Um dia, até por isso, entrou em franco atrito com a direção e se viu demitido, não sem antes olhar com pena para nós, os subordinados que permaneceríamos, consolando-nos: “Eu fiz o que pude.”

O editor a substituí-lo era um pulha que exigia receber presentes. No dia de sua chegada à redação, flores se abarrotaram em cima de sua mesa, partidas de todas as assessorias de imprensa, especialmente as musicais. Ali já entendi que eu não teria mais lugar.

Uma vez esse expoente me perguntou se eu havia feito o “necrófilo” de uma celebridade, em lugar de “necrológio”, e nem pude rir. Mas lembro de ter respondido: “Não faço essas coisas não”, para que ele me respondesse com seu olhar grave ou estúpido, eu era incapaz de distinguir.

A coisa prosseguiu daí pra baixo, até o dia em que fui fazer um perfil pedido por ele, de uma personalidade até então desagradável a mim, mas que até hoje recordo com carinho: Claudia Raia. Ela era mais baixa do que eu, se bem me lembro, e estava sem salto, ao lado de uma assessora que não largava de seu pé. Tudo espantoso. Era tímida, imagine, e ingênua também. E se dizia muito triste, muito arrependida de ter feito campanha para um homem tão mau para o Brasil como Collor foi.

Então, quando me sentei à máquina (sim, enquanto a Folha já usava havia muito os computadores, nessa redação eu tinha de batucar nas teclas pretas), eu o fiz com muito carinho e responsabilidade por ela e por quem leria seu perfil. Escrevi o melhor que pude.

Mas lá estava o editor necrófilo diante de mim.

Ele leu e me chamou até sua mesa, sério:

“O problema com seus textos é que nunca sabemos o que estará no parágrafo seguinte”.

Pensei por dois segundos e respondi: “Isso é ruim?”

Era ruim.

Ri e fui embora da revista, porque ainda por cima suspeitei que ele havia sido colocado lá especificamente pra me mandar embora, e que não havia como lutar mais contra tantas forças contrárias.

Conto tudo isto porque, apesar de toda a ignorância a grassar nas redações, jamais imaginei que ouviria tamanho absurdo de novo.

Mas a gente não pode ser arrogante assim. Achar que sabe tudo!

Acontece de o mundo dar voltas e eu ter de parar sempre em algum momento no qual é um frila ou nada para sobreviver.

Eis que ouço exatamente isto semana passada de alguém que precisou autorizar um texto meu: “É estranho como a gente não sabe o que você vai dizer em seguida! A gente se surpreende o tempo todo na leitura.”

Desta vez resolvi tomar o dito como elogio. Até porque, depois de muito matutar, essa espécie de editor parece ter gostado do material no geral, e só quer esse detalhe, que eu mude meu lide – esse que agora deve dizer tudo o que escreverei em seguida, pra não ter erro.

Eu sei que sou uma perturbação, que vim ao mundo pra isso. Mas não vou deixar de fazer jornalismo se precisar, porque perdidas minhas ilusões já foram séculos atrás.

O santo shopping dos pretos

Queria esclarecer uma coisa.
Quando mudei para o centro frequentei um shopping de verdade pela primeira vez.
O Shopping Light, onde antes funcionou a central administrativa da Light e, depois, da Eletropaulo.
Tive paixão por esse prédio na calçada oposta ao do Mappin desde a infância.
E meus pais, quando eu já não andava com eles, amavam ir até lá para passear e comer nos fins de semana.
O prédio não é preservado em sua integridade arquitetônica interior.
Mas alguns pontos ali dentro ainda são maravilhosos por evocar antigos passos.
As vitrines na entrada, de onde observamos o reflexo do Municipal.
Os corredores dos antigos elevadores, hoje desativados.
Os andares altos, de onde avistamos a praça Ramos.
As escadas rolantes.
Mais que isso, é o único shopping da cidade, de seu centro, onde os pretos circulam livremente com suas famílias, sem medo de que os seguranças venham massacrá-los pela cor.
Na época em que me mudei, ia todo dia por aquelas bandas só para apreciar esse lindo espetáculo.
Até me matriculei na academia descuidada cuja mensalidade era 80 reais.
Eu sentia que pagava para estar diante das imensas janelas que me davam uma perspectiva de todo o viaduto do Chá.
Malhar, emagrecer, o que são tais coisas diante da visão?
E torcia para que caísse água, e que eu ficasse presa lá, e que pudesse fotografar as pessoas livres enquanto esperassem a chuva passar.
Então, quando hoje vejo essa enorme fila da gente remediada ou humilde só para entrar no prédio imponente, com máscaras no queixo, usadas como acessórios de estilo, posso compreender o efeito Beyoncé que as captura.
O pobre naquele entorno sente sua majestade.
Beleza e poder.
Shopping Light, shopping-luz.
Só me entristece mesmo que precisem correr até ele e aglomerar-se nele, desde o quarteirão de entrada, justamente neste momento.
Não carecia.
Preto é bonito onde estiver.
E até mais.

Infância

quando criança eu adorava o filme e seu título em português: “bonnie and clyde: uma rajada de balas”.

mas nunca sabia direito quem era a linda mulher da história, se bonnie ou clyde.

então construí um caminho mental. bonnie usava mais boina que o clyde. era a mulher.

e eu às vezes, na brincadeira dos meninos, queria ser a bonnie.

sem boina mesmo, porque o importante era rajar as balas.

Letícia, um anjo perfeito

A gente chama de anjos os habitantes das nuvens, mas não tem palavras para descrever quem abre as asas no chão. Ora, são anjos também.

Letícia Kaplan, a primeira filha de Bob Fernandes e Ana, morta aos 24 anos no sábado 10, sempre foi um anjo perfeito. 

Quieta, esguia, os cabelos algo anelados, tinha os olhos grandes e claros. Olhos de cinema mudo, de Lilian Gish. Seu observar agudo não escondia o alvo. Se ela lhe observasse, você se saberia observado.

Quando eu soube que havia entrado na escola de Direito, achei perfeito, porque era notável como ela apontava os detalhes e acompanhava a sequência das cenas. Acredito mesmo que tenha se formado brilhantemente.

Digo essas coisas, mas mal falei com ela na vida. Eu a conheci muito menina, colega dos meus filhos na escola de esportes. Sua idade regulava com a de meu filho mais velho e a de sua irmã Luana, com a do mais novo. Dois irmãos, duas irmãs.

Letícia criança era grande e longilínea, e seu corpo se dava muito bem com as desenvolturas da feminilidade. A ginástica, a corrida. Em campo, de início foi tímida, depois se tornou imprescindível na defesa. Num jogo decisivo, lembro do Bob ao meu lado comentando imodesto sua atuação como zagueira: “Praticamente um Baresi!” Ou o jogador italiano teria sido outro?

Ao fim do ano, a escola realizava longa e incansável olimpíada com competição final. Ficávamos às vezes na arquibancada por muito tempo, à espera dos jogos que se emendavam. Numa dessas ocasiões, meu filho mais novo aproximou-se do meu colo e deitou a cabeça suada na minha perna, de modo a descansar. Bob então se disse invejoso do gesto, pois suas garotas já pareciam independentes demais para dar esse mole público a um pai apaixonado.

Suas meninas iam crescendo, amadas e admiradas, e percebíamos a nítida diferença entre ela e a irmã Luana, uma atacante decisiva e virtuosa. Letícia, esse nome que a ligava à alegria, era também seriedade.

Bonita demais.

Um anjo perfeito.

De berço

Em um congresso de farmacêuticos nos anos 1950

Esta é minha mãe num congresso de farmacêuticos nos anos 1950. Por muito tempo ela foi mulher quase solitária a praticar seu saber. Gostava muito de trabalhar dentro de seu ofício, mas a demitiram grávida de mim, sem qualquer pudor ou lei para protegê-la, logo na década seguinte. (Também quase nasci em pleno voo, mas depois conto isso melhor pra quem se interessar).

Minha mãe era do tipo que não me queria envolvida em namoro, que jamais me preparou um enxoval. “Não pense em casamento. O estudo é a única coisa que importa”, me disse, na contramão do que as outras mães faziam naquela época. E eu entendia seu porquê na prática. Sem trabalho, ela, a única entre as irmãs a se formar na faculdade, era triste – e nós, muito pobres.

Não sei se em razão do que ela sempre me aconselhava, mas jamais na infância me visualizei vestida de noiva, casada ou com filhos. Vai ver que por isso mesmo casei (me juntei) e tive filhos… Foi o natural, o não-iludido, a incrível surpresa em minha vida.

Mas eis o que considero importante em minha mãe, cuja relação comigo sempre sofreu alguma espécie de tensão, mas por outros motivos. Tenho razão para admirá-la. Ela me deu sem saber a primeira grande aula de feminismo da vida. E hoje, porque essa mulher andava a seu modo na contramão, sou feminista com um orgulho que só.

Um gato, um rato

Morre com pneumonia aos 92 anos Flávio Damm, um fotógrafo para nossa história do instante e do humor

Uma comemoração da Revolução dos Cravos em Lisboa, 25 de abril de 2008

Flávio Damm (1918-2020) era meu amigo. Não que ele soubesse exatamente disso, porque amigos não lhe faltavam e ele não me conhecia pessoalmente. Mas eu o entendia assim porque, quando lhe telefonava da redação, aflita por um raciocínio inteligente que pudesse incluir nas minhas reportagens sobre fotografia, ríamos às vezes por mais de uma hora durante a qual ele enfileirava episódios anedóticos. Flávio soltava sem pudor linhas admiradas ou duras acerca de fotógrafos do passado, como seu ídolo José Medeiros ou o correspondente de guerra Luciano Carneiro, que não sabia invejar secretamente.

Não raro, após essas longas ligações, ele me enviava de maneira gentil fotos suas autografadas, como esta acima, de Lisboa, naquele Portugal que visitava sempre. Cidade da história, da qual ele extraía um fado de alegria.

Era então, melhor dizendo, minha amizade à distância no jornalismo, alguém cujos livros eu resenhava e em torno de quem sempre procurava uma desculpa a resultar num telefonar. Seja um fotógrafo, pense sobre o que faz, e eu não largo você nunca mais…

Flávio me deu uma definição muito prática para o que, na sua opinião, seria um fotógrafo de rua, no caso ele próprio: “Eu me aproximo como um gato e fujo como um rato”. A foto de rua (e ele nunca se esqueceu disso, como todos os grandes) é um roubo explícito, necessário – e galante, contudo.

Há alguns anos, Flávio, que na revista Cruzeiro experimentara a passagem gloriosa e sofrida do uso de câmeras reflex (cujos negativos, quadrados, eram do apreço de Jean Manzon) para o de ágeis Leica (e Manzon de início vetara seu uso), nos últimos tempos vivia ensimesmado com o fim da fotografia. Bem, ensimesmado é pouco. Furioso mesmo.

Ele ouvira dizer que em O Globo não se usariam mais máquinas fotográficas, mas câmeras de filmar. Isto daria então ao editor o poder de escolher o frame que lhe aprouvesse do trabalho de quem filmava para publicação no jornal. Seria demais se isto de fato se desse e eu no fundo desconfiava dessa ocorrência, porque se tratava de acrescentar mais uma atribuição ao editor de jornal, ele que já mergulhava em tantas imagens a decidir num dia só. De um jogo de gato e rato, tudo passaria então à atribuição de lebres atordoadas…

Flávio foi um precursor em tudo, não só porque levou ao mundo as primeiras imagens do exílio de Getúlio Vargas ou esteve longamente com Cândido Portinari, tornando-se seu retratista quase exclusivo e dando até mesmo ao único filho o nome do pintor. Foi precursor porque, insistente capturador de breves momentos bem-humorados na cidade áspera, transformava-a por vezes numa vila de frescor, como aquela Paris de Robert Doisneau ou Édouard Boubat.

Vou sentir muita falta de sua risada, de sua narrativa precisa de detalhes e datas. Principalmente, de sua reserva memorial e analítica para uma arte sobre a qual repousa um silencioso desprezo crítico e de apreciação. Amigo, fique em paz.

As lágrimas apagadas

Documentário refaz a trajetória de Vivian, a primeira esposa
de Johnny Cash, perseguida pela Ku Klux Klan e descaracterizada pela cinebiografia “Johnny e June”, lançada há 15 anos

Vivian, que nasceu Liberto, a primeira e controversa esposa de Johnny Cash

Quando um pintor deseja modificar um trecho indesejado de seu quadro, cobre-o usando o pincel. Mas, conforme o tempo passa, seu quadro corre um risco. O envelhecimento pode anular a camada de tinta e fazer surgir o que ficou encoberto. A este processo, na pintura, se intitula “arrependimento”. Vivemos para constatar algo parecido surgir no cenário da música popular estadunidense. Vivian Liberto (1934-2005), a primeira esposa de Johnny Cash, foi apagada de um quadro inteiro e o arrependimento começou.

Na sua festa de casamento com Cash, em 1954

Vivian conheceu o marido aos 17 anos numa pista de patins enquanto ele, aos 19, prestava serviço militar em San Antonio, Texas. Cash viajou para servir em Berlim, escreveu-lhe mil cartas apaixonadas e de volta casou-se com ela. Tiveram quatro filhas em breve período, enquanto sua carreira explodia e eles se mudavam para uma montanha na Califórnia. De menina católica do interior, Vivian se viu cercada por flashes e fãs. Não tardaria em se apoiar numa espingarda capaz de livrá-la tanto das cascavéis quanto de possíveis ataques da Ku Klux Klan. Entendida como negra pelos supremacistas, Vivian precisou declarar-se branca em juízo para que o marido pudesse fazer shows no sul. Logo, mergulhado em drogas e em novo amor, o músico não voltaria mais para casa.

Ao centro, rodeada pelas filhas, anos depois da separação

Endemonizar a mãe solitária e rechaçada pelo establishment foi o que fez Johnny e June, cinebiografia de 2005 que deu o Oscar a Reese Witherspoon no papel de June Carter, a segunda mulher de Cash. No filme, Ginnifer Goodwin interpreta Vivian, parodiada no Saturday Night Live por Kristen Wiig. O documentário My Darling Vivian, que não é musical, mostra como até mesmo o único agradecimento feito à primeira esposa, durante o funeral de Cash, foi cortado pela transmissão televisiva do evento. Suas filhas produziram este filme de narrativa tradicional, recheado de depoimentos, fotos e efeitos delicadamente especiais, para dar sua versão sobre a mãe cancelada, e já era tempo.

MY DARLING VIVIAN
Diretor: Matt Riddlehoover
Brasil, 2019, 90 min

onde: bit.ly/3hIMcWs [até 20/9, às 18h]