Um original inédito de Lygia

Lygia Fagundes Telles escreveu a meu pedido este texto em torno de um dos Dez Mandamentos, “Não cobiçarás”, incluído em uma publicação especial do Caderno de Sábado, suplemento literário do antigo “Jornal da Tarde”, em 1994, e não mais publicado. Ao digitar a ficção, produzida originalmente em máquina de escrever sobre duas folhas de papel sulfite, com correções manuais a caneta, mantive a grafia e a pontuação originais da escritora

A rubrica de Lygia, ao final do manuscrito

OS MANDAMENTOS

NÃO COBIÇARÁS

Lygia Fagundes Telles

As duas folhas de papel sulfite em que foi produzido o texto “Não cobiçarás”, para o Caderno de Sábado

Ele tinha apenas seis anos quando propositalmente deixou sua bola no quintal do vizinho e levou a bola do amigo. Assim que chegou em casa, escondeu-se debaixo da cama e ficou olhando deliciado a bola do outro que era mais descorada e menor, disso estava certo. Mas foi com renovado prazer que correu para brincar com ela.

Era quase um adolescente quando ao sair da escola, viu o pai estacionar o jipe para apanhá-lo. Parou e ficou a uma certa distância observando o pai todo amassado naquele jipe amassado fazer aquela manobra até ficar atrás do Jaguar do pai do seu colega. Apertou os olhos turvos. Apertou a boca pálida. Esperou que o colega entrasse no Jaguar (último tipo) e só então aproximou-se do jipe empoeirado, verdolengo. Tudo bem, filho? o pai perguntou. Fez que sim com a cabeça e apertou com força os maxilares e teve vontade de gritar, Não venha me buscar nunca mais nunca mais! Ficou em silêncio, mordiscando o lábio até sentir gosto de sangue na boca. Relaxou a posição tensa quando viu o Jaguar lá na frente desaparecer na esquina. Quis pedir licença para fumar. Ficou quieto. O pai iria fazer parte daquele discurso proibitivo e o melhor ainda era fumar sem permissão, o verdadeiro prazer no ilícito. No escuro.

A vocação (tão nítida!) o impelia para a medicina. Não atendeu ao chamado porque viu o primo que fez sucesso na arquitetura, dinheiro, glória. Melhor estudar arquitetura que estava na moda e oferecia tantas possibilidades, o primo tinha um escritório pomposo. E convites para viagens. Seu casamento foi um casamento de amor? Na festa em que comemoravam os quinze anos de casados (três filhos, projetos importantes, tanta ansiedade!) sentiu de repente um agudo prazer de estar dançando com a cunhada, era excitante demais o contacto quase cerimonioso com aquela que no dia seguinte estaria nua e inteira ao lado, inteira, ô! gozo pleno. Insubstituível. E o curioso é que essa cunhada não era nem mais bonita nem mais jovem do que sua mulher e no entanto com que intensidade o atraía. Eu te amo! quis gritar enquanto cortesmente perguntava se ela não queria mais um copo de vinho. Quer dizer que amor é transgressão?


Na doença (tão longa!) irritou-se quando lembrou que o irmão (aquele) tivera uma doença mais simpática, existe doença simpática? Pois ele tivera essa doença. Estranhou também a solidão, mas onde estavam todos? É verdade que a mulher há muito já tinha ido embora e os filhos, bem, aqueles filhos um tanto rejeitados estavam sempre distantes, sabiam que não eram os filhos sonhados, aqueles. Sabiam que o pai não vira neles os modelos ideais e foram se afastando aos poucos. Sim, não pudera esconder desses filhos que os quizera diferentes, assim como os outros, os primos tão festejados. Tão perfeitos. Mas por quê a vida melhor era sempre a do outro? ele pensou. E concluiu sem remorso, Eu não me amei. E se não consegui me amar é claro que não podia mesmo amar o meu próximo, esse próximo que teve uma porção maior do que a minha. Um quinhão melhor do que o meu. Abriu ao acaso a Bíblia e leu: Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertence. Não tenho boi mas tenho cavalo, disse à enfermeira quando ela chegou para aplicar-lhe a injeção. Uma criação de cavalos de raça, acrescentou e a enfermeira sorriu e cochichou com a outra, Ele está delirando. Antes que a enfermeira saisse, comentou ainda que não tinha a criação sonhada porque essa era a do haras do vizinho onde estavam os mais belos cavalos de corrida do mundo, se vivesse mais conseguiria esses cavalos. A enfermeira concordou, Sem dúvida, sem dúvida. Quando abriu a porta do quarto para sair, ele estranhou, que barulho era aquele ali no corredor do hospital? Ela hesitou um pouco. Mas achou melhor contar, o doente do apartamento vizinho tinha acabado de morrer e a família, os amigos… Ele apertou os olhos e apesar da névoa ainda tinham esses olhos a mesma expressão daquela manhã em que o menininho levou a bola do amigo. A expressão ávida com que enlaçou mais tarde a mulher do irmão, Vamos dançar? E depois e depois. Teve um breve gesto para reter a enfermeira, Quer dizer que esse vizinho morreu e a família, os amigos, estavam todos por perto? Perguntou e percorreu com o olhar o brancor vazio do próprio quarto. Quis ainda saber, qual tinha sido a doença desse vizinho? Ouviu a resposta, um problema cardíaco, a morte fôra rápida enquanto dormia. Ele ficou pensativo e disse a última frase da noite. A última da vida, Quisera eu ter uma morte assim feliz.

O envelope com o timbre da Academia Paulista de Letras onde o texto de Lygia foi incluído, entregue a mim pelo funcionário do jornal Armando, que foi pegá-lo a meu pedido

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