O brilho da noite escura

Hoje, 19 de abril, Lygia Fagundes Telles completaria 99 anos. Ou seriam 102? Ela detestava que a vissem mais velha do que dizia ser. Compreendo isto, como compreendo muitas outras coisas, embora às vezes fosse difícil entender Lygia, ela mesma. Especialmente quando, sendo mulher, olhasse as mulheres com tamanha desconfiança – menos Hilda, claro, menos Clarice, menos Cecília, menos Lúcia, sua neta, menos a bisneta Mariana. Nesta reportagem está a descrição do encontro que tive com a escritora quando ela completava seus alegados 90 anos, em 2013. Eu me atrapalhei um pouco. E senti sua tristeza, sua revolta, a ponto de perder meu celular, não imagino como. Mas aqui ela fala coisas muito interessantes sobre a vida, seu amor a Cecília, seu apreço por Lobato, a falta do filho, o bilhete que alguém lhe deixou quando ela saiu intempestiva de uma palestra na qual ninguém parecia ouvi-la, a certeza de que se esqueceriam dela. Lygia foi para mim um espelho de amor, caso o amor pudesse espelhar-se.

Sobre a foto de Marcos Mendez, tirada para esta reportagem de 2013, aplica-se o bilhete que um admirador deixou para Lygia: “Não é loucura, teus livros já me afastaram do desespero. Beijos”

Lygia Fagundes Telles é uma só, e não há como compará-la com alguma coisa na literatura do Brasil. A Helga de seu conto homônimo, por exemplo, parece-se com ela, “uma manhã de bicicleta nas estradas impecáveis”, embora não se saiba como a manhã terminará, nem se a bicicleta restará inteira. Ao contrário de Helga, contudo, cuja perna mecânica significou capital roubado pelo noivo em núpcias, a particularidade de Lygia está no que jamais se desprende dela, nem na hora do amor. Ela vive como quem pressente. Seu assunto é a crueldade, ampliada pela escrita simples. Mas pode ser cruel quem sorri?

O sorriso de Lygia se oferece ao desconhecido, ao contrário do que lhe aconselhava a amiga Clarice Lispector. A autora de “Ciranda de Pedra” desafiou-a em todos os momentos nos quais estampou essa confiança nas fotos. Que sua face jamais parecesse turva. Ela era, pelo contrário, efusiva de exercer o ofício escolhido. Os lábios vermelhos, os anéis dourados, os brincos de prata, os lenços azuis. E foi sempre a mesma, impecável para o dia, enquanto ali, naquela noite escura onde se desenhava sua literatura, fazia crescer um turbilhão de desencontros, submissões e empreendimentos falidos. Era uma mulher do Brasil e ainda é.

Enquanto menina

Antes, uma menina. Completa 90 anos neste dia 19, mas o faz sem festa e com irritação camuflada. Aceita falar com toda a imprensa porque é preciso. Ela se vê viva nos jornais. “Se você achar Machado de Assis na lista de mais vendidos, eu lhe dou um doce. O povo analfabeto não sabe ler, só pensa em futebol, e o futebol está mal das pernas, hein?”, diz. Ela me pede que faça chegar ao prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, a solicitação que anteriormente fizera à presidenta Dilma Rousseff, creches e escolas para salvar o Brasil.

“Um país se faz com homens e livros, dizia Monteiro Lobato, mas onde estão os livros brasileiros? Só há estrangeiros entre os mais vendidos. ‘Dom Casmurro’ nunca apareceu numa lista. Nem os românticos, Álvares de Azevedo, Fagundes Varella, Castro Alves. Que esperança eu posso ter? Por que eu vou sobreviver? Não vou sobreviver nada. Enquanto estou viva, ainda lembram de mim, depois adeus.”

Por isso, talvez, não seja o caso de lhe pedir que acolha a celebração neste momento, embora ela tenha uma resposta pronta para rejeitar os parabéns. Tudo foi culpa da mãe. Desejosa de acender a vela de seus oito anos, ela encomendou bolo, biscoitos e balas para a filha caçula, mas ninguém apareceu. Lygia se esqueceu de entregar os convites. As festas de aniversário seriam terríveis dali por diante, mas ela aprenderia a pular a decepção. Como o pai lhe ensinou nas desastrosas idas ao cassino, a gente perde hoje, mas ganha amanhã.

Em seu apartamento paulistano naquele bairro dos Jardins onde mora há três décadas, depois da muito lamentada morte do crítico de cinema Paulo Emilio Salles Gomes, seu segundo marido, Lygia mostra que ainda está de pé. Quebrou o fêmur há quatro anos, anda de bengala, mas de pé permanece. Recebe a reportagem em sua mesa onde há livros, papéis e uma bandeja cortês na qual repousam uma garrafa de água e castanhas de caju sem sal. A mesa é grande, de madeira escura antiga, colocada na sala a certa distância da estante onde há livros e tantas fotografias. Nelas estão o pai, a mãe pianista, o avô que era coronel da guarda do Império, o filho, seu amor. Tudo se desfila e se embaralha nas estantes, como a memória apenas aberta com determinada chave. Lygia se senta na cadeira de encosto firme.

Com Paulo Emílio diante do túmulo de Karl Marx em Londres, 1970, em foto tirada por Vladimir Herzog

“Eu tenho uma vontade de permanência, acho que será isso. A vontade de não desaparecer”, diz ela do outro lado da mesa. Ela é quase uma diretora de ensino enquanto discorre sobre o valor que dá à eternidade. Paulo Emilio era ateu e comunista, como ela explica ao imitá-lo, o punho cerrado em braço estendido. E há outras provas de seu materialismo, como a fotografia que o amigo Vladimir Herzog fez do casal pouco antes de morrer, diante do túmulo de Karl Marx, em Londres. Contudo, ela que tanto protestou contra duas ditaduras, do Estado Novo e dos anos 1960, não responde se um dia acreditou no materialismo do alemão (Lygia passa por cima de muitas perguntas). 

Na infância gostava de padres, mas hoje prefere acreditar na transmigração da alma. Uma crença que mais parece literária, retirada daquele poeta que escreveu ter sido em vidas passadas um mancebo, uma donzela, um pássaro azul da floresta e um peixe mudo do mar. Ela jura gostar de orações, mas não se liga a igrejas. E faz o sinal da cruz como a se livrar do diabo, aquele com o qual deparou num voo para China. O demoníaco era um homem grande e descabelado que apagava o cachimbo com o polegar.

Com o primeiro marido
e o filho Goffredo

“Voilà. Prefiro que fiquem com minha obra e esqueçam meu aniversário”, ela diz, às vezes hesitante ao proferir a palavra “obra”, substituindo-a por “trabalho”, a mão percussiva sobre a mesa como a marcar uma inflexão para tantas histórias. Diante dela está o santuário. Um belo desenho de Darcy Penteado na parede, a representar seu filho Goffredo, criança de cachos, ao lado de seu ursinho de pelúcia. Abaixo da moldura, fica o urso ele mesmo, sentado de camiseta sobre uma pequena poltrona do outro lado da mesa onde se encontra Lygia.

Goffredo morreu em 2006, aos 52 anos, era o documentarista de sua vida e de outras, alguém cuja presença permanece intocada para ela nessa espécie de altar. A bisneta de Lygia, a pequena Mariana, ama o urso de Goffredo, como lembra sua neta. Lúcia é cotidiana e firme ao lado da avó. E há sua secretária de três anos, Regina, a auxiliá-la no trabalho atual de burilar histórias antigas de Lygia, como “O Tesouro”. “Meu filho era meu companheiro e eu procuro compensar essa dor com humor.”

Com Cecília Meireles,
no tempo de faculdade

Malgrado a angústia sofrida agora, Lygia nunca deixou de olhar para o passado. A experiência é um farol voltado para trás, dizia Pedro Nava, e com muito orgulho ela mostra à reportagem uma foto em que aparece, estudante de Direito no largo São Francisco, ao lado de Cecília Meireles. “Uma poeta maravilhosa, cujos versos me deram o título do livro A Noite Escura e Mais Eu.” Lygia convidou-a a fazer uma conferência no centro acadêmico nos anos 1940. “Eu era tão pobre que a gente não tinha carro, andava de bonde. Fui atrasada até Cecília, com um raminho de violetas na mão. Ela já estava na Estação da Luz, veio dormindo no trem de prata, ao lado do marido, o doutor Heitor Grilo. Pedi perdão e ela me perguntou em que hotel iriam ficar. Mas eu não tinha pensado em hotel nenhum! O doutor, que era rico, arrumou um lugar.”

Na faculdade de Direito, Lygia conta, era possível improvisar sobre uma canção em voga durante a Segunda Guerra: Quando se sente bater no peito heróica pancada, deixa-se a folha dobrada enquanto se vai morrer. A partir da canção, suas colegas (eram seis na heróica classe de Lygia) chegavam a paródias como esta: O menino que eu namoro e que me quer muito bem tem um sorriso que encanta, quinhentos contos também. A escritora ainda se lembra, com uma gargalhada, do versinho que Cecília lhes deu sobre a surrada melodia: Passarinho ambicioso, nas nuvens fez seu ninho, quando as nuvens forem chuva, pobre de ti, passarinho. “Aproveite esta história, é muito importante, inédita”, ela me aconselha.

Um Monteiro Lobato deslocado no
seu aniversário de 23 anos

É como se a cada grande personagem da literatura lhe correspondesse uma história peculiar. Monteiro Lobato, por exemplo, a quem visitara na prisão, esteve em sua indesejada festa de 23 anos. O olhar do escritor na foto em que está registrada a ocasião não esconde o assombro. Ele passava pela rua no momento em que a mãe de Lygia ia atrás do vermute e não viu jeito senão aparecer para agradecer-lhe a visita. Não é fácil enfrentar o desconhecido, como Lobato fez. A escritora experimentaria coisa parecida numa ocasião na faculdade de Direito. Ela se cansou da audiência que não parecia ouvi-la e se retirou dali rispidamente. Antes de chegar à porta, “um rapaz descabelado” lhe entregou um bilhete e saiu sem mais ser visto. Lygia ainda guarda o manuscrito: “Não é loucura, teus livros já me afastaram do desespero. Beijos.”

Ela tem a memória plena de versos e os recita com as mãos para o alto. E ainda se lembra da inscrição em latim naquele relógio de Paris: “Guarde somente as horas felizes.” É assim, alegre, que ela se recorda de grandes amigos como Clarice Lispector. Lygia não responde se a contraria que coloquem as duas num pódio de rivalidades literárias. “Clarice era ótima”, começa, rindo. “Não tinha amigas. Me dizia, com sua língua presa: ‘Não gosto de amiga mulher. São lésbicas. Eu não sou lésbica, eu gosto é de homem!’ E gostou de mim porque eu não era…” Lygia igualmente prefere o convívio masculino. “O homem é mais coração aberto. A mulher, mais perigosa. Serpente. Está na Bíblia. Ela vai deslizando pela grama, na sombra”, diz, representando com a mão direita um rastejar sinuoso. Quando Lygia fala, é como se escrevesse um conto. E se lhe fosse permitido reencarnar, ela fugiria como do diabo da ideia de voltar menina.

A culpa interditada: Lygia vê Capitu

Lygia Fagundes Telles
em foto de Olga Vlahou

Nesta reportagem publicada em 21 de agosto de 2008, Lygia Fagundes Telles fala sobre o roteiro feito em parceria com Paulo Emilio Salles Gomes, relançado em livro, que muda o foco narrativo de “Dom Casmurro”

Os diretores de cinema apareciam de mochila nas costas para visitar Lygia Fagundes Telles e Paulo Emilio Salles Gomes naquele ano de 1967. Ela era, como é ainda, uma das grandes escritoras do Brasil, e ele desfrutava o título de maior crítico de cinema em terras nacionais. A Vila Mariana onde moravam, dizia Paulo Emilio, fora um charco originalmente, e por esta razão ele apelidara seu apartamento paulistano de Sapos. Um dia, o diretor Paulo César Saraceni chegou ali munido não só de mochila, mas de um olhar oblíquo e dissimulado. Com ele, Saraceni os convenceria a transformar em roteiro de cinema o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis.  

 

“Este Capitu nos deu uma tarefa difícil”, disse Paulo Emilio a Lygia, quando Saraceni, em quem ele vira aquele olhar da protagonista do livro, deixou Sapos para trás. O casal não começou imediatamente a trabalhar na adaptação do romance de 1900 no qual Bentinho, apelidado dom Casmurro, desconfia que sua amada o trai com o amigo Escobar. Seria preciso convencer Lygia de certas coisas antes, ela que era formada na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e fazia julgamentos a partir de evidências.

 

Quando leu o livro de Machado de Assis pela primeira vez, ainda universitária, Lygia se convencera de que o protagonista era um homem “inseguro e invejoso”, desmerecedor de confiança, ainda mais porque não outra voz, além da sua, falava no romance. Na segunda leitura, contudo, ela mudaria o pensamento por completo. Sim, Capitu seria a amante de Escobar. Ele era um homem muito mais atraente do que Bentinho, para começar. E havia alguns “indícios jurídicos” muito fortes a serem considerados pela escritora para que ela estabelecesse a culpa deste Leviatã.

 

Em uma cena do livro, Bentinho se cansa do espetáculo de teatro a que assiste, volta para casa e lá está Escobar com Capitu. Não havia motel para encontros naquele tempo, então é claro eles faziam ali o que não poderiam fazer em outro lugar. Depois, havia outra coisa. O menino Ezequiel, embora exímio imitador de todos, remedava perfeitamente Escobar, o que fora notado por ninguém menos que a própria Capitu. O velório de Escobar, por fim, sepultara qualquer chance de redenção à mãe de Ezequiel. Dona Sancha, a viúva, chorara tanto na ocasião quanto a traidora. As lágrimas de Capitu formaram mais um daqueles mares de ressaca, capazes de arrastar um observador, dois ou três, para dentro de si.

 

Estas certezas todas, apresentadas com eloqüência de advogada já na rua Sabará onde os dois passaram a morar, deixaram incrédulo o marido da escritora. Paulo Emilio era um grande professor, mas, se entrasse nesta discussão à maneira de Lygia, não convenceria a talentosa mulher de seu ponto de vista. O negócio era agir como padre: “Você precisa se limpar, você não pode julgar Capitu”, disse ele a Lygia, certo de que as provas que ela acumulara se mostrariam inúteis. O que ele pregou à esposa no momento seguinte a convenceu em definitivo: “Se o triângulo amoroso existe ou não, isto não interessa a você. Tem de haver a dúvida, ou haverá traição a Machado de Assis.”

 

O escritor narrara para intrigar, e teria esclarecido a trama ao final, fosse esse o seu desejo de ficcionista. O que ele parecia almejar, contudo, era que ficássemos discutindo aqui por longo tempo sobre um enigma maravilhosamente urdido e sem solução. Tão essencial é este livro que Lygia, por exemplo, tem-no como o primeiro de Machado, seguido de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. É uma tendência que de certa forma a Universidade de São Paulo segue: Dom Casmurro como a melhor fabulação, Memórias, como a experimentação maior.

 

Se não poderia culpar Capitu em seu roteiro, Lygia enfocaria o sofrimento terrível de Bentinho. Que outra coisa faz este personagem dentro do livro, a não ser penar? O roteiro seria, neste ponto, sobre o sentimento de ser traído, não sobre a traição. E seus autores fariam mais uma coisa interessantíssima, ousadíssima, para falar na língua de superlativos do agregado José Dias: anulariam o foco narrador. No roteiro, não é Bentinho quem conta a história. É um terceiro que urde a trama, iniciada na lua de mel de Capitu e contada livremente pelo tempo de vida dos personagens.

Nascido desta escolha, o livro que originou filme homônimo de Saraceni em 1968 resulta suave, mas intrigante. E é capaz de impacientar quem aguarda respostas claras ou anseia sempre pelo ponto de vista roubado. Goffredo Telles Neto, o filho de Lygia, morava com ela e Paulo Emilio naquele ano de produção crucial, e tomou as folhas datilografadas por Lygia para saber o que tanto elas tramavam. O Jovem, como o apelidara Paulo Emilio, leu e ficou sem entender aonde a escritora queria chegar. “Mamãe, dá sua opinião de uma vez! Ela traiu ou não?”, ele a inquiriu. E a autora foi sincera com o filho: “Eu não sei, eu não sei!” 

 

Lygia tem 85 anos. Para ela, ainda hoje, a traição é  “a dor maior”. Os tiros que de vez em quando os ciumentos desferem sobre as namoradas, segundo ela tem notícia a partir da leitura “destas revistas”, ainda prosseguem acontecendo. Seu ponto de vista, portanto, parece validar-se todos os dias. A traição incomoda. É eterna, enquanto o homem é breve. Paulo Emilio morreu em 1977  e o único filho de Lygia, Goffredinho, há dois anos. Lygia entende de que o sofrimento trata.

Ela dá entrevista no apartamento que habita há um bom tempo nos Jardins paulistanos, em cuja entrada há palmeiras imperiais. As palmeiras são bonitas e resistem à poluição, aos carros que buzinam, à gente que passa, vinda da rua Oscar Freire chique. Lygia não arreda pé dali, apenas para eventos aos quais os amigos insistem em convidar. O livro “O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia da Depressão”, de Andrew Salomon, ainda repousa em um canto de sua sala, mas parece não se relacionar à pessoa que dá a entrevista.

 

A escritora é pessoalmente assistida pela neta, a professora de português Lúcia Telles. Aos 29 anos, Lúcia trabalha sobre cartas de Paulo Emilio para um mestrado. E ajuda Lygia em tudo, até quando uma palavra lhe falta. A certa altura da conversa com a CartaCapital, sugere à avó que catequisar é  o vocábulo certo para designar quem deseja transmitir a mensagem cristã. Com a neta ao lado, Lygia está bem. Ela liga a televisão minúscula onde a avó assiste a Ciranda de Pedra, uma novela que a diverte, sem qualquer relação com seu romance de 1954, segundo Lygia sabe muito bem. Ela também sorri, e fala como atriz, ao invocar seu muito querido Machado de Assis e a própria literatura. Queria tanto que seu Capitu fosse filmado de novo!

 

Está indignada, por ora, que a imitem e ainda cometam a ousadia de lhe mandar os originais com as imitações para ler. Rubem Fonseca lhe contou que isto também vem acontecendo com ele. A literatura de Lygia é inconfundível, forçoso notar que não a imitariam direito. Ela tem um conto que o filho não teve tempo de filmar, Potyra, sobre um vampiro que deseja morrer no Brasil. Quem sabe, entre os contos e o romance novos que prepara, não caiba uma roteirização desta peça ficcional, em companhia da neta constante? 

 

Esta escritora se diverte, apesar de tudo. Eleva a voz como uma atriz e pontua com graça as frases perfeitas. Está lúcida e grande, e seu olhar ainda encara o interlocutor como quem o arrasta.

 

Bicho da sombra

Nesta entrevista que realizei com Lygia Fagundes Telles há 22 anos, em abril de 2000, para o caderno Fim de Semana da Gazeta Mercantil, a escritora reclama do pouco valor dado aos escritores, lembra de Clarice Lispector, ironiza Caetano Veloso, fala de sua relação com Paulo Emílio Salles Gomes e narra o encontro que teve com Simone de Beauvoir

A página em que a entrevista foi publicada, com foto de Juan Esteves feita na Academia Paulista de Letras

Lygia Fagundes Telles banha-se de uma certeza de Santo Agostinho, a de que o importante é a arte de viver num tempo de catástrofe, quando esta entrevista se inicia. Está impaciente, a autora de “As horas nuas”. No dia 1, Nélida Piñon e Lya Luft, conceituadas escritoras, vão homenageá-la com discursos na Bienal Internacional do Livro de São Paulo e, no próximo dia 24, sai o livro “Invenção e Memória”, com 15 contos que apresentam seu imaginário admirado de crueldades, mistério e um ensejo de esperança final. Ela tem tantos compromissos, tantos, e agora mais este. Àquela que pretende entrevistá-la, lança uma consideração de arrefecer. “Não importa nada do que eu diga. Meus livros é que importam. Leia estes papéis.”

Sobre as mãos da interlocutora, ela vai depositando impressos que contêm o resumo de sua ascensão literária e as breves considerações dos críticos, todos esbanjadores de enormidade – Otto Maria Carpeaux, José Paulo Paes, Sergio Milliet – sobre sua importância livro-a-livro. O que fazer? Lygia, 76 anos incompletos, está mesmo impaciente e, supõe-se, não apenas com jornalistas. Há os homenageadores que teimam em lhe dar mais idade do que tem. Os governadores. Os corruptores que revelam suas vocações a céu aberto. Os ricos compositores de música popular. Os estudantes que um dia lhe roubaram a obra de Jorge Luis Borges, autografada, da estante de retratos.

É preciso cobrir Lygia de razão. Sua impaciência cresceu a partir de um ato assinado há três anos pelo governo do Estado de São Paulo, extinguindo a verba honorária a que ela, procuradora autárquica do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo, o Ipesp, teria direito. Seus vencimentos foram reduzidos a menos da metade do que eram. Lygia Fagundes Telles, escritora máxima brasileira, 17 livros publicados, dezenas de prêmios, ficções traduzidas em oito línguas, ficou sem dinheiro.

“Quando me ligam aqui dizendo que podem me pagar uma quantia simbólica por meus textos – e por simbólico entenda 300, 500 reais – minha orelha já levanta, meu cabelo já levanta”, diz Lygia com reiteração, com drama, numa pontuação em que sempre cabem muitos travessões e alguns recursos de estilo, como os itálicos. “Você veja. Os cantores, os compositores. Eles têm, um, apartamento em Paris, outro, em Nova York. Convidam Caetano Veloso para cantar e ele vai porque é um bom perfil – não exatamente um Rodolfo Valentino, como quer ser, com aquele turbante, não é um sheik -, muito bom cantor, compositor. Mas, para um escritor, não se paga o que se paga a ele.”

Há quatro anos, quando mudou de editora, da Nova Fronteira à Rocco, Lygia imaginou que poderia viver no Rio e lá, mesmo timidamente, montar o que ela intitula “uma nova frente de trabalho”. Mas o que ela desejava como moradia – “não uma cobertura, veja bem, um apartamento no Leblon” – não lhe foi acessível. Lygia, de elegância proverbial, lenços no pescoço, cabelos cortados em eterno chanel, e mocassins, quis viver com o conforto presumido de sua condição de dama das letras. Como não conseguiu, voltou a seu apartamento paulistano da rua da Consolação, aconchegante e digno, num prédio cercado por raras palmeiras imperiais. 

“Seria preciso haver, para os escritores, as marquesas antigas, e duquesas, que convidavam e instalavam os artistas naqueles castelos, alas norte e sul, com empregados, por seis meses, para que escrevessem. Ninguém mais nos convida!” E mais travessões, e mais ênfase, porque agora a indignação quer saltar. “Eu devia – eu devia – me informar mais e falar com o Yunes [Jorge Yunes, o empresário com quem o prefeito de São Paulo, Celso Pitta, está envolvido em um escândalo de corrupção]. Parece que ele empresta.” 

É nesses instantes em que ironiza as dores de sua particularidade e de seu país que Lygia está mais distante da mulher que escreve seus livros. Porque Lygia, autora – ao contrário da mulher que está na vida, relativamente indefesa, capturada pelas malhas dos executivos e das leis -, é segura, terrível soberana de todos os destinos. Uma escritora que explora as crueldades, e as expõe, que aponta os assombros de seus personagens, endinheirados ou pobres, e os derrete nas imagens literárias mais sintéticas e poderosas de que as décadas recentes têm notícia. 

Lygia é rápida, de destreza exemplar. Neste novo livro, sua carpintaria de contista continua afiada. Em uma das histórias, um menino é acolhido por um velho, e a relação dos dois vai crescendo diariamente sob os olhos de um determinado comensal; um dia, um dos dois desaparece, por obra de seu par. Para quem a conhece, não há novidade desde o início: aquela história não acabará mesmo bem. A diferença, talvez, resida no fato de este conto não exalar, ao final, aquela ponta de crença de um desfecho feliz. Por onde a olhemos, é uma história de crueldade, num livro de crueldades e mistérios.

“Esperança, esperança, esperança, esperança”, brada Lygia, em novos itálicos, em sua residência na rua da Consolação. Sua esperança é a de ter inventado um novo gênero. O título do livro já diz: “Invenção e Memória”. Foi-lhe sugerido por uma frase anotada em algum lugar por seu marido, o crítico de cinema e escritor Paulo Emílio Salles Gomes, morto há 23 anos: “Invento, mas invento sempre com a secreta esperança de estar inventando certo.” Pois Lygia quer ter inventado isto neste livro: um gênero diferente dentro de seu próprio trabalho (não usa a palavra obra, por parecer grande demais), um gênero que asseguraria à ambiguidade uma avenida por onde passear. “Muitas coisas ali são inventadas, outras são memórias. Eu lá sei, não posso separar uma coisa da outra.” 

É verdade que nunca pôde. Em seus livros, há, sim, crueldades, mas compartilhadas. Maniqueísmo e qualquer outra palavra que evoque contrastes evidentes entre o que é errado e certo não se aplicam a seus livros (ela prepara um romance, mas não adianta sobre o que tratará). “É impossível você separar, como num laboratório de física, o bem do mal”. Lygia se lembra de um padre de infância que lhe disse: “Miolo Mole – ele me chamava assim -, existe o bem e existe o mal. Quem escolhe o mal vai para o Inferno, quem escolhe o bem vai para o Céu.” E então ela via o clube da cidade, para onde se dirigiam as pessoas do bem. Mas seu pai ia lá também, jogar, e entristecia sua mãe. “Eu percebia esse lado no clube, uma porção do mal, você entende?” 

Para Lygia, Santo Agostinho teria sido perfeito se houvesse levado, à vida de santidade, sua vivência anterior do pecado. A perfeição para ela, em se tratando dessas situações, foi personificada por Jesus. Não há quem tenha compartilhado sua glória, a de aceitar o mal como viesse. Nem mesmo seus próprios homens. Houve dois na vida de Lygia, o primeiro deles, um advogado, Goffredo da Silva Telles, que lhe deu seu único filho (também Goffredo, cineasta). Ela se lembra de ouvir o grande advogado dizer: “Não se adiante no tempo, Lygia.” Seu segundo homem, Paulo Emílio Salles Gomes, a escritora admirava e observava: “Ele arrebentava em ideias. Tinha essa coisa de certeza.” Ela o via como o filósofo Sócrates, praticando a “obstetrícia intelectual” em seus alunos, arrancando os fetos de seu pensamento, tamanha a sua lucidez, tudo num sentido diverso daquele em que ela caminhava. “Eu nunca tive essa carga tamanha de vontade.”

Lygia e Paulo viveram uma existência de 15 anos compartilhados, entre 1962 e 1977, sem filhos, mas com “o jovem”, como ele carinhosamente chamava o pequeno Goffredo, tido como seu próprio filho. “Resolvemos que levaríamos uma vida tranquila, nós e nossos gatos. Já tínhamos o jovem. Resolvemos que chega de filho. Chega de atormentação.” Ela o fazia ver coisas, o obstetra. Fazia-lhe ver que um dia os roteiristas de cinema respeitariam a profundidade de seus livros imagéticos. Se Lygia ainda não conheceu esses profissionais especialíssimos, a explicação foi mesmo dada por Paulo Emílio: os textos de Lygia provocariam uma sensação de intimidade tão grande em quem se aproxima deles que a oportunidade de invadi-la estaria aberta.

Nos anos 1930, quando Lygia vivia a meninice, aceitava-se que fosse estranha. Era uma mulher e, como mulher, dada à percepção, numa intensidade, ela crê, muito maior do que a encontrada nos homens. Para ela e para sua companheira, a escritora Clarice Lispector (1925-1977), Lygia até imaginou um qualificativo: bichos da sombra. “Nós nos desenvolvemos na sombra, mudas.” Esse é um assunto delicado, sua semelhança ou diferença em relação a Clarice – “desconfiada, esperta, ótima” -, aceita como a grande escritora brasileira do século, a inventora, justamente, de uma nova linguagem de percepção. Mas Lygia vê com tranquilidade os pontos que as tocam. “Éramos confessionais, perceptivas, mas éramos diferentes. E a diferença talvez residisse nas doses de mistério. O mistério, sal da ficção, acompanha o escritor.”

Não que Lygia deseje dizer com isso que o mistério, ponto de união com Clarice, deva afastá-la do leitor. Ela e a autora de “Perto do Coração Selvagem” conversavam muito sobre a mania que tinham os professores, nos anos 1960, de tornar seus livros mais complexos do que a necessidade, e, com isso, afastar os interessados possíveis naquelas tramas. “A gente seduzia os leitores, dizíamos coisas interessantíssimas, e os professores daquele tempo – isso estava na moda – vinham e destruíam tudo.” 

Foi como bicho da sombra que Lygia, certa vez, recebeu um convite da escritora francesa Simone de Beauvoir para um chá, quando a escritora esteve aqui com o filósofo Jean-Paul Sartre, nos anos 1960. “Eu falava mal o francês, embora lesse e apreciasse muito a literatura francesa. Dizia: “Meu deus, o que vou conversar com Madame?” Simone, participativa – “a tal da revolução feminista estava começando” -, queria ler textos seus. Havia poucas traduções para o francês à época, e a escritora lhe deu a de um conto do futuro livro “Antes do Baile Verde”. Mas Simone pedia mais. E então Lygia se lembrou de outro padre, o canadense Paul-Eugene Charbonneau (1925-1987), que parecia entender suas ambiguidades e amara “Ciranda de pedra”, seu primeiro romance, a ponto de traduzi-lo.

“Era uma tradução, não sei se boa, porque na época eu não tinha condição de avaliá-la, mas feita com amor por um homem de vocação”, lembra Lygia. E então ela resolveu oferecê-la a Madame, ressaltando que o livro poderia lhe interessar por tratar da decadência da burguesia brasileira e de uma jovem desesperada, querendo fazer parte dela, e dela se libertando. Beauvoir, que partiria no dia seguinte, topou a oferta. “Deixe seu livro lá no meu hotel.” Lygia pensou: “Ela vai jogar isso no mar.” Mas, ainda assim, cumpridora de suas promessas, depositou o enorme embrulho com folhas datilografadas na recepção. “Tempos depois – veja que intelectual séria – chega uma carta dela escrita em papel quadriculado dizendo assim: ‘Gostei muito, que riqueza, pena que seu livro não veio escrito em francês parisiense, porque eu o lançaria aqui.” 

Lygia, bicho da sombra, ficou “animada e quieta” com o elogio. Na mesma carta, Simone de Beauvoir comentava seus textos dizendo que se enredavam em tristezas e desesperos muito grandes, mas que depois mostravam a esperança. Identificava um gesto desse sentimento final em “As pérolas”, conto com que Lygia lhe presenteara. Nele, o homem rejeitado joga o colar esfacelado para sua mulher, que, com a peça, ansiava encontrar um novo amor. “Depois do que ela disse, me senti coerente comigo. Sou triste, às vezes, mas há um gesto final, de esperança, no que escrevo”, diz Lygia. “E essa carta de Simone de Beauvoir, na verdade, eu vou vender.”

Resistir, eis o que Lygia nos pediu

Ela morreu. Uma mulher mais jovem do que eu. Bailarina que dançava na sala do seu apartamento em prédio dos Jardins, ladeado por palmeiras, toda vez que lançava um livro. Em duas ocasiões abriu um vinho do porto pra mim. Sabia de tudo, dos escondidos da vida, da simplicidade da morte, esta que talvez tenha visitado de passagem e onde desaparecemos um pouco todos os dias. Dessas viagens voltava com um riso, não gargalhada, os olhos sapecas, franzidos.

Lygia Fagundes Telles, afastada agora definitivamente de nós, aos 98 anos, morava em um lugar próximo, ainda que distante. Foi a paraninfa da minha turma de Escola de Comunicações e Artes, lá nos anos 1980, e deu seu banho sem abrir mão da atitude protocolar. Bonita, gozadora, presente. Alguém para quem os ouvidos abertos na direção de Olavo Bilac não impedia sua entrega a Roberto Piva. Olhos, mãos, cabelos, tudo como a razão de uma expressão. Lembro-me sempre dela até porque moro no mesmo prédio onde residiu seu filho.

Ela fumava razoavelmente durante as conversas jornalísticas e eu, que não suporto bem o cheiro de cigarro, nem sentia nada, submetida a uma espécie de básica hipnose. Nem sei, juro, como isso podia ser.

Com ela era só sedução. Sabia ser distante, apresentando-se, contudo, cordial. Chegava na gente com sua impessoalidade sorridente, às vezes irritada, também. Fazia da ocasião conosco uma espécie de palco… e recitava. 

Se me telefonasse para agradecer pelo texto “inteligente” que eu fizera sobre ela, cessavam as borboletas no meu estômago. Porque antes disso era viver sem dormir: e se ela não gostasse, gente? E se não gostar? 

Eu a entrevistei muitas vezes. Feliz ou infelizmente mal guardei todos os textos que escrevi. Não presta muito reler o que a gente faz, sob pressão, na imprensa. Mas com Lygia estava tudo certo. Jamais estaríamos nem mesmo próximas a sua altura, e a questão era quase só copiar o anotado, servindo ao leitor.

Fez questão de proclamar a mim o veredito de culpado a O J Simpson, quando o mundo transformara o assassínio por ele cometido em questão racial. Ela não estava nem aí. Caetano Veloso bonito? Como poderia se equiparar a Rodolfo Valentino? Eu ria muito. Até suas paredes falavam. Os quadros que guardava, fotos, desenho de Darcy Penteado, de Carlos Drummond. Um apartamento antigo, móveis de boa madeira. Somente a história interessava como elemento de decoração.

Eu queria ter-lhe dito adeus em algum momento, mas me intimidei. Sua neta me abrira as portas para entrevistas, mas faria o mesmo para minha presença tímida e pessoal? De toda forma, talvez eu não aguentasse. Da última vez que fui entrevistá-la perdi o celular no qual fizera fotos. Ela parecia deprimida, embora encorajada. Vivia pela força da paixão por seu filho, para quem construíra um altar onde estavam a imagem dele ao lado de seu urso de pelúcia de infância… E o próprio urso, velho, encardido, nos sorria de cima daquela cadeira.

Eu nem sei como agradecer a essa mulher por tanto que me deu. Uma vez eu a indiquei para um trabalho, o de falar, sob um bom pagamento, para umas funcionárias de telemarketing que gostavam de escrever. E o que ela lhes disse? Basicamente, que resistissem. “É preciso resistir!” Sem isso não haveria literatura, não haveria Lygia, não haveríamos nós. Mas resistir a quê, não fez questão de explicar. Resistir, entendeu?

Eita que as saudades serão imensas.

Vou publicar algumas coisas que tenho sobre ela pela semana. E até um texto inédito em livro, de sua autoria, que ela me mandou por ocasião da edição de Natal do Caderno de Sábado, do Jornal da Tarde, nos anos 1990.

Viva Lygia! Viva para sempre em nós!