O piauiense Edvaldo Pereira da Silva: panos célebres na praça Dom José Gaspar
No caminho para a ginástica das terças-feiras, esta que hoje nem mesmo haveria (a memória, como de uso, me traiu), deparei mais uma vez com os panos coloridos ao vento, amarrados na grade do respiradouro do metrô. Panos muito famosos. Às vezes são apenas eles, às vezes, a tenda do morador que constrói a instalação. Frequentemente ele deita por ali para se refrescar. O importante, me parece, é que tudo infle e cresça a caminho do céu.
Eis uma atração na praça Dom José Gaspar paulistana que nunca me animei a fotografar, eu que gosto de espiar, pela modesta câmera de telefone, apenas o que normalmente não se vê. Mas hoje foi diferente, porque a instalação vinha retumbante. Azul, amarelo, verde e branco, sim, como o Brasil. Normalmente nos esquecemos desse branco que quer dizer não sei o quê em nossa bandeira conspurcada, e desse azul do céu. Como eu jamais havia visto essa combinação de cores ali, parei para olhar.
O branco à frente: às vezes nos esquecemos da cor na bandeira conspurcada
Ao lado da ventania, apareceu-me o autor. Edvaldo Pereira da Silva, um homem de olhos claros e elegância natural, tem 49 anos e está em São Paulo há trinta. É soldador, mas há três anos, sem emprego, virou um sem-teto da praça, a morar com seus panos e cão sob uma marquise do prédio na rua Bráulio Gomes. Edvaldo se aproximou e me orientou a fotografar seu trabalho, que intitula “Arte sobre o vento”, com o fundo das árvores. (Pode ser “Arte sopra o vento”, um título ainda mais bonito. Edvaldo não tem os dentes da frente e fala rápido, e eu me envergonhei de pedir que repetisse o nome da instalação.)
Ele ganha a vida como artista de rua de obra única, mas sempre variada, a depender dos panos que lhe dão. A gente admira seu trabalho e lhe dá o dinheiro que puder. Ração pra cachorro também é bem-vinda. Como se trata de um homem articulado, perguntei-lhe por que não tentava um novo emprego como soldador. Poderia conseguir um lugar pra morar. Respondeu-me que não. Era melhor trabalhar nisso que lhe dá prazer do que em certos empregos por aí.
“De Floriano??”
Disse-me ser do Piauí. Surpresa, contei-lhe que minha mãe nasceu em Teresina e que, durante a infância e a adolescência, minhas férias eram piauienses. “Em Teresina?”, perguntou. Disse-lhe que não, que ficávamos em Floriano. “Floriano? Sou de Floriano!”, respondeu, sem acreditar (o pequeno vídeo abaixo mostra sua reação). Eu ri muito, o que não chega a ser novidade. Gosto de gargalhar, e alto. Ele sorriu bastante também.
Ao saber que eu conhecia Floriano…
A coincidência, contudo, pareceu-lhe tão extraordinária que ficou me testando. “Rio Parnaíba, certo?” E eu: sim, a gente passeava no cais e comia no restaurante Flutuante. “Do outro lado do rio, ficava Barão de Grajaú?” E eu: isso, no Maranhão. “Sabe aquela torre imensa? Eu pulava do alto, direto no rio.” E eu: nem nadava nele, de medo da correnteza, nunca subi na torre, não!
Diante da obra, a expressão do autor
Ele nasceu no bairro do Matadouro e estudou até a quarta série na Unidade Escolar Djalma Nunes. Saber como foi parar na vizinhança a céu aberto talvez seja tarefa para as próximas vezes. Quis que eu fotografasse a instalação em sua presença, mas demorou bastante tempo para acertar os panos em ascensão, sua obra como deve ser. Tudo leva tempo, tudo o tempo leva. Mostrei-lhe minha foto tirada no cais, durante a adolescência, e ele hesitou em atestar veracidade. “Mas no seu tempo devia ser mesmo assim.”
Na adolescência, posei no cais à frente do Restaurante Flutuante, em Floriano: o rio Parnaíba separa a cidade piauiense de Barão de Grajaú, no Maranhão
O filme de Leos Carax que será precedido de um curta de Alice Rohrwacher e JR, a partir de 17 de abril
“Não sou eu” talvez resuma Leos Carax. Este seu documentário de 2024, em exibição no IMS Paulista, no IMS Poços de Caldas e no Cine Arte UFF, em Niterói, a partir de 17 de abril, precedido do curta de Alice Rohrwacher e JR “Alegoria urbana” (no qual Carax também atua), apresenta-se como chave interpretativa para a obra do diretor francês de 65 anos.
Realizado para uma exibição jamais concretizada pelo Museu Pompidou – e que perguntava “onde está você, Leos Carax?” -, o filme, exibido na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, outubro último, apresenta o cineasta à sua maneira poética. Não sendo um inventor, mas um mestre (isto se aceitarmos as categorias determinadas aos artistas por Ezra Pound), Carax espelha e arredonda o cinema de arestas de Jean-Luc Godard, este sim o criador de uma nova trajetória cinematográfica, cuja voz aparece em um trecho deste documentário solicitando-lhe um encontro.
Diretor de “Os amantes de Pont-Neuf” (1991), Carax escondeu a narrativa tumultuada da nouvelle vague em um invólucro de clareza fotográfica e argumentativa. Foi um filósofo do amor. E também, como se autodefine neste documentário, um heterossexual e judeu do século XX que buscou a liberdade e a igualdade, a seu ver escassas na Europa dos Le Pen, naquele Israel de Netanyahu, na China de Xi Jinping, nos EUA de Trump ou na Rússia de Putin.
Colagem de imagens e efeitos em “Não sou eu”, à moda de Godard
Carax, por isso mesmo, não esteve em nenhum lugar – ou, pelo menos, não em um novo lugar. A sua perspectiva foi a de revisitar os lugares já percorridos, acrescentando-lhes um espírito de época tantas vezes indesejado. Perseguidor que advoga o déjà-vu, Carax defende repetir planos como recurso para construir alegorias do presente. O documentário, em que ele também cita trechos de suas obras, refaz uma estética tardia de Godard: cenas de arquivo do cinema e do jornalismo colam-se a palavras e letreiros, formando um mosaico poético-reflexivo de efeitos crepitantes.
Iria tudo muito bem se sua narrativa não contradissesse um dos princípios do cineasta, exposto no documentário: o de que o belo contém a imperfeição. Por que então Carax não abraça as camadas reflexivas pontiagudas que elevam a beleza do cinema de Godard? Se um rosto é belo justamente por conter a assimetria de uma pinta, por que retirá-la?
Carax cochicha a Naïm El Kaldaoui o sentido da revolução, no curta “Alegoria urbana”
Carax parece bem melhor – ou coerente – ao atuar como um diretor canastrão de balé no curta “Alegoria urbana”, de Alice Rohrwacher e JR, também presente na 48ª Mostra. O seu personagem ensinará ao menino interpretado por Naïm El Kaldaoui o sentido da revolução: ela deverá mostrar aos acorrentados da caverna de Platão que as sombras às quais se acostumaram não são a realidade, antes constituem sua prisão.
Em 2008, o intelectual italiano aceitou conversar comigo sobre a perda da liderança estadunidense em favor daquela do país asiático: “A China adotou mudanças graduais sem aceitar a terapia de choque neoliberal”
Funcionário do correio leva correspondência na garupa da bicicleta em Pequim, 2007: “O sucesso da China se baseia em saber que aquilo que fez não poderá ser seguido por ninguém. Os chineses insistem no respeito a suas soberanias e tradições, e isto parece confortador para todos. O que os outros realizarão a partir disto é problema dos outros”
Em 2008, o pensador italiano Giovanni Arrighi, então com 71 anos, lecionava Sociologia e dirigia o Instituto para Estudos Globais em Cultura, Poder e História da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Nas últimas três décadas, havia consolidado sua relevância intelectual ao estudar a crise da hegemonia estadunidense dos anos 1970 e as transformações político-econômicas mundiais das décadas seguintes, que passaram pela expansão vertiginosa da China até a crise financeira de 2008. No ano anterior, a editora Boitempo lançava no Brasil o último livro de Arrighi, “Adam Smith em Pequim: Origens e fundamentos do século XXI”, sobre a substituição dos Estados Unidos como líderes incontestes internacionais. Um livro incrível, um assunto e tanto sobre o qual conversar.
Propus entrevistar o professor milanês naquele junho de 2008 e ele aceitou. Era um cavalheiro paciente. Respondeu com muita gentileza às perguntas que lhe fiz por telefone e não recusou continuar nossa conversa no dia seguinte, depois de eu ter verificado a qualidade pífia da gravação, feita com o aparelho de terceira linha fornecido pela redação pagadora. Eu não sabia que Arrighi tinha câncer. Não teria insistido na entrevista se tivesse sido informada sobre a doença que o mataria no ano seguinte, vinte dias antes de completar 72 anos.
Naquele momento, o mundo sofria outras convulsões. Barack Obama, presidente dos Estados Unidos por dois mandatos seguidos, entre janeiro de 2009 e janeiro de 2017, nem havia sido eleito ainda (Arrighi não dava sua vitória como certa). Lula, contudo, já exercera sua primeira presidência do Brasil (2003-2006) e cumpria um segundo período como presidente (entre 2007 e 2010). Eu entendia muito bem o privilégio da situação brasileira. Mas não teria sido possível, para mim, prever a virada fascista de que seríamos vítimas dez anos depois desta conversa, muito menos a necessidade de Lula voltar ao poder para garantir nossa existência democrática, 15 anos depois.
No livro “O longo século XX”, publicado em 1994, Arrighi desenvolvera o tema da progressiva recuperação do Leste asiático como centro econômico mundial, posição que havia perdido para o Ocidente pan-europeu (Estados Unidos incluídos) desde o século XIX. No alvorecer dos anos 2000, contudo, a China, já considerada líder regional por sua população, extensão territorial e relativa posição de força no Extremo Oriente, exibia um desenvolvimento econômico espantoso, atraindo a atenção mundial para sua caminhada rumo a uma posição hegemônica.
Àquela época, a trajetória estadunidense era inversa. Enfraquecidos pelo atoleiro iraquiano, à beira da depressão e com um fantástico déficit em transações correntes financiado pelo Japão e cada vez mais pela China, os Estados Unidos se viam vitimados por essa virada histórica. Ela acentuava a possibilidade de equalização do poder mundial entre o Ocidente conquistador e o não Ocidente conquistado, como previra o filósofo escocês Adam Smith no longínquo século XVIII.
A proposta investigativa de Arrighi em “Adam Smith em Pequim” era ambiciosa. Ele desejava identificar as conexões entre o que fazia da China a grande economia mundial até meados do século XIX e o que tornava possível sua transformação, em dias correntes, na protagonista de um fantástico ressurgimento econômico.
A seguir, a entrevista.
Giovanni Arrighi durante palestra em Grahamstown, África do Sul, para a divulgação de seu livro “Adam Smith em Pequim (Origens e Fundamentos do Século XXI)”, em 2007: “Os Estados Unidos não são mais hegemônicos. Por enquanto, são aqueles com o maior aparato militar, capaz de destruir qualquer país. E é precisamente por isso que podem dominar: porque têm um impacto sobre o mundo muito maior do que qualquer outra nação. Este domínio, contudo, não significa que os outros países necessariamente seguirão sua liderança. Na verdade, eles não a seguem mais”
Em seu livro “Adam Smith em Pequim (Origens e Fundamentos do Século XXI)”, o sr. desenha a perspectiva da decadência econômica estadunidense e a confronta com a ascensão chinesa. Contudo, diz que essa decadência estadunidense se anuncia sem a imediata perda de domínio político no cenário mundial. Como se processaria o domínio sem a hegemonia?
A hegemonia, da forma como a entendo, envolve liderança, capacidade de mobilizar outros países de acordo com uma agenda particular. Em outras palavras, significa fazer com que os outros países acreditem em um consenso em torno deste líder, na sua capacidade de agir em favor do interesse dos liderados. Neste sentido, os Estados Unidos não são mais hegemônicos. Por enquanto, são a maior economia, e aquela com o maior aparato militar, capaz de destruir qualquer país. E é precisamente por isso que podem dominar: porque têm um impacto sobre o mundo muito maior do que qualquer outra nação. Este domínio, contudo, não significa que os outros países necessariamente seguirão sua liderança. Na verdade, eles não a seguem mais. Os Estados Unidos permanecerão dominantes, mas não aptos a liderar o mundo como fizeram, por exemplo, ao final da Guerra Fria. Naquele período, eles eram capazes não só de criar alianças políticas e combinações, mas também tinham o poder de induzir europeus e japoneses a superar antigas diferenças com o objetivo de reconstruir a economia mundial. Agora, os Estados Unidos não têm mais o poder para exercer a liderança rumo à reconstrução. É assim que eles têm o domínio sem a hegemonia.
Em 2009, o presidente dos EUA conversa com o presidente chinês Hu Jintao durante a cúpula do G-20, em Pittsburgh: Barack Obama viu-se em posição “delicada” para reverter a desastrosa guerra de George W. Bush e liderar a reconstrução econômica mundial
E esta incapacidade pode permanecer mesmo que o candidato democrata indicado Barack Obama chegue à presidência?
Obama pode fazer uma diferença, no sentido que não deverá causar desastres políticos semelhantes aos promovidos pela administração de George W. Bush. Obama e mesmo o candidato republicano John McCain, contudo, estarão em uma posição muito delicada neste sentido, porque os desastres cometidos por Bush não serão fáceis de reverter. Se houver mesmo uma mudança profunda nas políticas estadunidenses, como Obama parece invocar, embora ainda não se saiba ainda que mudança será essa, isto claramente poderá melhorar a imagem dos Estados Unidos não só na Europa, mas também na África e em outras partes do mundo. Esta mudança daria sinais de vida à hegemonia do país. Mas seria uma situação temporária, porque esconderia as causas reais dos problemas americanos.
E quais são esses problemas, na sua visão?
Em primeiro lugar, os Estados Unidos não são os mais competitivos economicamente, à moda do que foram naquela idade do ouro. São, em verdade, devedores mundiais, e mantêm um déficit na balança para o qual não há perspectiva clara de resolução.
A crise hegemônica estadunidense vinha sendo anunciada e deveria acontecer naturalmente, independentemente das ações do governo. Quando os Estados Unidos iniciaram esta guerra no Iraque, tinham a intenção de superar a “síndrome do Vietnã”, a derrota naquela guerra. Bush esperava que a disparidade de forças entre os EUA e o Iraque, se comparadas às dos Estados Unidos e daquele Vietnã apoiado pela força militar soviética, resolvesse a guerra rapidamente. Em outras palavras, George W. Bush esperava que a invasão do Iraque revertesse o veredito do Vietnã em favor dos Estados Unidos, o que não aconteceu. O Iraque não os ajudou neste propósito, e as coisas ficaram ainda piores para eles. Os estadunidenses não foram capazes de superar a resistência iraquiana, não criaram um Iraque segundo seus desejos; em lugar de promover a democracia na região, ali instauraram o caos. Neste sentido, a credibilidade do poder militar estadunidense como uma força construtiva caiu por terra como nunca ocorrera antes. Não é fácil imaginar como qualquer um possa reverter isto agora.
O presidente dos EUA é recebido em banquete pelo presidente chinês Jiang Zemin em Pequim, 1998: Bill Clinton e as nuances de um “poder suavizado”, mais “inteligente”, que não ousou voltarao Iraque depois da primeira Guerra do Golfo
Mas por que o senhor aponta este ponto de ruptura na administração Bush e não na de Clinton, que o precedeu?
Porque a administração Clinton revelou-se muito mais inteligente do que esta. A principal diferença entre os dois governos foi a percepção de Bill Clinton de que não deveria contrariar a Doutrina Powell. Esta doutrina estabelecia que, depois da primeira Guerra do Golfo, não se deveria voltar ao Iraque, uma vez que o país já demonstrara não saber sair dele _ o grande exército estadunidense, neste caso, não poderia, nem deveria ser usado. Havia um entendimento de que este uso não se provaria eficiente, que não se deveria promover um novo Vietnã, não só em razão desta doutrina que estabelecia a cautela na aplicação do poderio militar dos Estados Unidos, mas porque o país teria a chance de exercer a hegemonia de maneira mais suave, por meio de um acordo econômico que levaria o nome de globalização. Globalização foi a palavra-chave da administração Clinton.
O presidente Bill Clinton, portanto, conhecia melhor esses limites impostos ao poder. Por isso era mais cauteloso na hora de fazer valer sua força militar. Enquanto a guerra travada por sua administração no Kosovo queria mostrar, entre outras coisas, que era dispensável o apoio da ONU às ações estadunidenses aprovadas pela Otan, a Guerra do Iraque iniciada por Bush dispensava até mesmo o apoio da Otan.
Contudo, depois de 1997 e 1998, quando o poder econômico “suavizado” de Clinton foi exercido em seu ponto mais elevado, houve uma mudança significativa da relação dos Estados Unidos com o mundo. Em toda a parte o déficit aumentou tremendamente. As dívidas estadunidenses cresceram. Os Estados Unidos se viram diante não mais de países do Primeiro Mundo, mas daqueles do sul global, dos países anteriormente comunistas, como a Rússia.
A bolha estadunidense estava se desfazendo. Globalização e liberalização vinham, em realidade, minando o poder dos Estados Unidos. Foi então que o país decidiu voltar militarmente à cena, para restabelecer sua posição no cenário mundial. Em lugar de resolver o problema, os estadunidenses o tornaram maior ainda quando decidiram endurecer. Sua ação se tornou mais efetiva interna e externamente.
Ronald Reagan, quando ascendeu ao poder nos Estados Unidos, teve problemas semelhantes. Ele introduziu políticas econômicas muito duras e restritivas, que provocaram uma imensa recessão no país. Mas não há, atualmente, a perspectiva de uma recessão como aquela. Agora, a situação exige encontrar barganhas não somente com os europeus, mas com os novos poderes asiáticos e latino-americanos.
Obama pode tentar acomodar as coisas. Mesmo entre os conservadores, há diferentes posições diante desta situação e não está claro qual delas emergirá. De toda forma, não acredito, como nunca acreditei, que os Estados Unidos venham a passar por uma catástrofe como a recessão dos anos 1930. Isto não quer dizer que a crise atual inexista. É uma crise acompanhada de transferência de poder. Mas os Estados Unidos resistem à transferência. Resistir a ela foi o que Bush fez, o que tornou, como sabemos, as coisas piores. É preciso, do ponto de vista do poder estadunidense, que ele encontre formas de tomar pulso novamente da situação.
O presidente dos EUA George W. Bush entre o embaixador dos EUA no Iraque, Zalmay Khalilzad, e o comandante das forças multinacionais em Bagdá, George Casey, em 2006: “A credibilidade do poder militar estadunidense como uma força construtiva caiu por terra como nunca antes, incapaz de superar a síndrome do Vietnã”
O sr. diz que a China é a grande vencedora da luta contra o terror patrocinada pelos Estados Unidos após o ataque às Torres Gêmeas, em 2001.
A China se revelou mais competitiva economicamente, exercendo o poder nesta base não militar. Nos anos 1980 e 1990, ela venceu uma batalha gradual na qual demonstrou mais eficiência econômica do que a Rússia no cenário mundial. A Rússia destruiu seu sistema de planejamento, sem a capacidade que teve a China de se voltar ao mercado. Sem adotar a receita neoliberal do Consenso de Washington, a China foi mais aberta que o Japão, por exemplo, aos investimentos estrangeiros, desde que servissem a seus interesses nacionais. Soube fazer sua industrialização voltar-se à exportação. Mais do que no resto do mundo, na China o governo investe diretamente para promover a colaboração entre universidades, empresas e bancos estatais no desenvolvimento da informática. A China não aceitou a terapia de choque neoliberal. Fez as mudanças gradualmente, o que provou ser acertado.
Neste momento, os chineses estão mudando, em seu entorno, a situação de muitos outros países, como os da África, como a própria Rússia, o Brasil, a América Latina. Eles criam uma nova conjuntura, por serem mais competitivos que os Estados Unidos. Estatisticamente, há uma situação de maior igualdade entre as nações depois da ascensão chinesa. A igualdade é crescente também dentro do próprio país. O problema é como manter esta situação em progressão. Há uma nova consciência para os problemas ecológicos e sociais que cresce rapidamente. A dificuldade é que, em se tratando de um país de tão grandes dimensões, a China não pode controlar tudo o que acontece em todas as províncias. É minha posição moderadamente otimista, mas não cega, ao que acontece por lá.
Integrantes da comunidade Uighur realizam danças tradicionais em Pequim, 2017: “Os chineses sabem muito bem que não estão oferecendo um modelo para as outras pessoas. Eles acreditam, em outras palavras, que seu sucesso é baseado em uma espécie de característica histórico-geográfica que não pode ser reproduzida além dos limites do país”
Supondo que a China vença a batalha econômica, e faça mesmo este tipo de ascensão pacífica, como o senhor anota em um dos capítulos de seu livro, de que forma conseguirá vencer igualmente a batalha pelas mentes e corações mundiais? Como seria possível aceitar globalmente o estilo chinês de viver, que comporta alguns elementos de repressão e pobreza?
A China, apesar de todos os avanços, é, de fato, um país pobre. Mais pobre, proporcionalmente, que o Brasil e a América Latina (seus índices per capita são mais altos do que os da África). Entendo o que está em questão. Como pode ser hegemônico um país que, no fundo, é pobre? Um país pobre que está ausente da tradição ocidental? E está emergindo como um país poderoso, apesar de, em certa medida, ser o mais pobre do mundo.
Mas a questão é que os chineses sabem muito bem que não estão oferecendo um modelo para as outras pessoas. Eles acreditam, em outras palavras, que seu sucesso é baseado em uma espécie de característica histórico-geográfica que não pode ser reproduzida além dos limites do país. O consenso de Pequim parece mais aceitável ao sul global do que aquele de Washington, nos anos 1990, já que não oferece uma solução global para os problemas de todos os países. Parece haver o reconhecimento de que a China encontrou um modelo, mas que o modelo dos outros será encontrado por eles próprios.
Seu sucesso se baseia no fato de que o que a China fez não poderá ser seguido por ninguém. Os chineses insistem no respeito a suas soberanias e tradições, e isto parece confortador para todos. O que os outros realizarão a partir disto é problema dos outros. O medo de que o Brasil, os Estados Unidos ou a Europa adotem um modelo político-social parecido com o chinês é baseado em nada, realmente. Além do mais, não há um histórico chinês de tentativa de colonização mundial, antes de autodefesa. Eles sabem que vêm de uma tradição diferente e que não há nada a ganhar impondo-a fora de seus limites. Têm noção de que um consenso em torno do poder econômico é mais produtivo do que aquele militar, do que uma guerra patética contra um país como o Iraque. É uma simples questão de cálculo.
Exército chinês atravessa Drongpa, no Tibete, em 2007: “A China se baseia nos limites territoriais desenhados no século XVIII. Isto pertence a sua doutrina moral. O próprio Dalai-Lama sabe disso melhor do que ninguém, que não pode conseguir a independência tibetana diante da China da maneira como o Ocidente a desejaria”
Ou de pragmatismo.
Sim, eles são muito pragmáticos e sabem que não adianta imitar o Ocidente em certas particularidades. Aprenderam uma lição no Vietnã. Voltaram ao exercício tradicional do poder econômico, não do militar. O poder militar chinês é essencialmente, como eu disse antes, o de autodefesa. O que os chineses não farão é qualquer tipo de concessão em relação a Taiwan ou ao Tibete, porque se baseiam nos limites territoriais desenhados durante o século XVIII. Isto pertence a sua própria doutrina moral, de certa forma. O próprio Dalai-Lama, do Tibete, sabe disso melhor do que ninguém, que não pode conseguir a independência de seu país diante da China da maneira como o Ocidente a desejaria.
Um robô confidente no filme “Levados pelas marés”, de Jia Zhang-ke, 2024: “Nos próximos vinte ou trinta anos haverá muitas surpresas em relação ao que pensamos agora. A grande utopia liberal do consenso de Washington entrou em colapso, e agora vivemos a grande utopia da emergência asiática, uma diversificação entre os modelos comunistas e capitalistas”
Nos próximos vinte ou trinta anos haverá muitas surpresas em relação ao que pensamos agora. A grande utopia liberal do consenso de Washington entrou em colapso, e agora vivemos a grande utopia da emergência asiática, uma diversificação entre os modelos comunistas e capitalistas. O modelo não é preciso, e ainda bem que não o é. Veja que a Europa caminha para uma guinada ao fascismo, como na Itália de Silvio Berlusconi, e há Ângela Merkel na Alemanha, além de outras figuras do passado. Seria interessante ver Barack Obama neste cenário _ não acho que ele tenha grandes chances de ganhar a presidência, mas as chances existem.
Depois de tudo isso, é possível que tenha lugar uma utopia latino-americana.
O sr. realmente acredita nesta possibilidade?
A América Latina tem promovido sua guinada à esquerda. Se considerarmos o que houve politicamente na região nos anos 1970, a emergência de ditaduras militares, este momento traduz uma mudança considerável. Houve períodos de um revival democrático, depois uma tentativa de liberalismo, e agora a América Latina entrou nesse período de crítica do regime liberal. É uma nova cultura, talvez. Em termos de relações econômicas internacionais, a América Latina tem as melhores chances em muitos anos, em razão também dessa ascensão chinesa. Está-se criando uma grande unidade continental. Claro que esta evolução também precisa ser traduzida em termos de reformas sociais.
O chanceler da República Popular da China, ministro Yang Jiechi, com o presidente Lula e o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, conversam em Brasília sobre relações multilaterais nas áreas de tecnologia, agricultura e energia, em 2009: “Internacionalmente, Lula tenta preservar esta porção do continente diante de uma investida dos Estados Unidos. Economicamente, suas decisões têm dado ao Brasil uma condição de maior independência em relação às outras nações”
O sr. tem uma avaliação sobre a posição do presidente do Brasil neste cenário?
Lula é uma imagem mista, como você sabe. Internacionalmente, creio eu, ele está indo muito bem, tentando preservar esta porção do continente diante de uma investida dos Estados Unidos. Economicamente, não sou tão crítico quanto à disciplina adotada por seu governo, porque suas decisões têm dado ao Brasil uma condição de maior independência em relação às outras nações. Socialmente, não sou familiarizado com a situação brasileira para emitir opiniões.
Yasujiro Ozu ensaia os atores Ryo Ikebe e Keiko Kishi para a cena incomum de um beijo escondido, rodado de costas para a câmera, em seu filme “Começo de primavera”, de 1956.