Zé Carioca desaprendeu a driblar

A fé damarista das últimas décadas arruina nosso ímpeto e nosso futebol

O pequeno-grande malandro perdeu
o humor: até quando, Brasil?

Sou uma força do passado. Nada me prepara para o fundamentalismo evangélico-bolsonarista entranhado no Brasil.

Vou ao supermercado popular e pego a fila para fazer o pagamento. Um consumidor na minha frente, moreno encorpado de altura média, na faixa dos 45 anos de idade, conversa com a caixa, a quem parece conhecer. Em seus 19 anos, ela está otimista. Acha que o Brasil chega às oitavas na Copa, ao que ele comenta, professoral: 

– Se jogar como ontem (contra o Panamá), chega.

    Próximo ao caixa, o segurança bem-humorado, preto retinto com o cabelo apontado para cima, ouve a conversa e não se aguenta:

    – Grande Panamá! O Brasil só chega nas oitavas se for carregando a mala.

    A moça não retruca o segurança, mas olha nos olhos do consumidor:

    – A gente precisa ter fé no Brasil.

      Em lugar de concordar de imediato, o cliente age como se a caixa tivesse dito algo indevido. E ela parece aceitar a repreensão:

      – Fé não, que a gente não pode pôr deus nisso!

        Sou a próxima da fila e, desavisada como sempre, decido brincar:

        – Vai na fé sim, que deus é brasileiro, hahaha.

          O cliente então se vira indignado para mim. (Será ele o pastor da igreja frequentada pela  caixa?)

          – Deus não é brasileiro. Deus é brasileiro, alemão, americano, de todos nós.

            E é claro que eu não resisto:

            – Aí a gente precisa ver.

              Mas fico triste. A falta de repertório crítico, de um humor básico a acompanhá-lo, diz muito sobre este momento por que passamos.

              Tentam tirar tudo do povo brasileiro. O gingado. O jogo de cintura de Carmem Miranda. Até a pequena malandragem hollywoodiana do Carioca, o Zé. Não à toa nosso futebol virou essa coisa obediente, sem ímpeto. Os evangélicos nascidos da fé damarista são uns temerosos do drible.

              Até quando, hein?

              Deixe um comentário