A dança bet dos deuses

O futebol como guerra de sobrevivência em um mundo sem trégua

Eu não brinco com os deuses do futebol.

Sei que são melindrosos.

Ruins.

Como todos os deuses são.

Santista, aprendi a dureza de torcer pro meu time mesmo ciente de que um jogador de comportamento tão duvidoso está em campo – ainda por cima, e teoricamente, por mim.

Esqueço tudo diante da batalha, a partida. 

O campeonato é a guerra. 

Nós a venceremos ou não, mas jamais nos esqueceremos das vitórias (os belos cortes!) em certas batalhas.

Aprendi que aquilo a movimentar um time, além de preparo físico, do talento individual, da cintura flexível e de uma boa orientação técnica, é a fúria. A necessidade (vida ou morte) de vencer a guerra, sem deixar que a virgem padroeira do time seja violada pelo inimigo entre as traves do altar.

Kento Shiogai nem chegou a dizer irrealidades sobre o time brasileiro atual, e por isso morri de pena do jogador japonês ao saber de sua declaração, ao mesmo tempo que senti um alívio tremendo ao ouvi-la.

Porque intuí que ela movimentaria a bile dos soldados em campo e dos fanáticos do templo (os fans, nós), impulsionando com isso a chance de vitória de nosso time.

Coisa mais estranha que essa, ainda, é dar de ombros aos generais.

Velhos críticos do futebol custam a aceitar que Ancelotti mexe com cautela as peças à disposição – nem tantas assim – para obter vantagens estratégicas.

O técnico italiano come pelas bordas e não espera jogar bonito, embora, em se tratando do Brasil, velhos comportamentos inconscientes possam surgir nessa direção.

Vencer não depende de boniteza, mas, ah, quando ela acontece, somos tão mais que comuns!

Vini Jr. viu Ronaldo jogar.

Craques atuais como ele estão cheios de dinheiro das bets, mas aposto que, cutucados, lembram da necessidade de sobreviver. Eles não possuem minas de diamante para explorar por toda a vida. O bolso cheio agora não quer dizer que guardarão as notas para sempre. E a fome do passado, quem diz que desejam reviver? Por isso (às vezes) lutam.

Muitos de vocês são jovens demais para saber que mesmo o time de 1970 teve críticos, que um técnico desprezou Pelé, que Amarildo caminhou como um possesso na ausência do rei, que pouca gente acreditava em Ronaldo antes de ele acontecer em 2002, entre tantas outras estranhezas a caminho da taça.

Muito soldado incompreendido, portanto, ainda pode aparecer pelo Brasil.

Martinelli, por exemplo, esse prédio sem sentido, nem deu tempo para o goleiro japonês se mexer. Foi um fuzilamento. Restou ao lindo preto no gol gritar de raiva diante de suas traves xintoístas.

Sem deixar de comentar o Casemiro dos abreus, da minha infância querida, que, com sua cara de bebê enfezado, deu um jeito de partir o brinquedo ao meio para mostrar aos pais sua superioridade diante dos irmãos.

Não espero coisa alguma do próximo jogo. Temo por tudo. E talvez nem assista à partida. Ontem, por exemplo, vi um documentário de Éric Rohmer sobre Carl Dryer durante aquele primeiro tempo triste contra o Japão e fiquei tão feliz.

Respeita o manto!

Porque o que será será.

Tem sido muito, por exemplo, o “Brasil com S”, um batidão forjado por Inteligência Artificial e assinado pelo esperto DJ de Uberlândia M4IA, a movimentar todos os reels comemorativos do Brasil, do Líbano a Bangladesh, da Jamaica aos meninos dançantes da África.

Momento de declínio sem fim de nossa indústria cultural, certo? Porém, me divirto em pensar que a CBF pagou gente de sucesso (Ludmilla, Zeca Pagodinho, João Gomes, outros) para tornar “Bate no peito” um hino da seleção, mas que ele não aconteceu, de tão ruim.

Enquanto isso, o sucesso que estronda, aquela canção fake, diz as coisas que querem ser ouvidas, a saber: que a seleção chegou, que deve ser respeitada, que os soldados têm um nome a ser repetido e que seu rei, em home office ou não, é o Neymar.

Zé Carioca desaprendeu a driblar

A fé damarista das últimas décadas arruina nosso ímpeto e nosso futebol

O pequeno-grande malandro perdeu
o humor: até quando, Brasil?

Sou uma força do passado. Nada me prepara para o fundamentalismo evangélico-bolsonarista entranhado no Brasil.

Vou ao supermercado popular e pego a fila para fazer o pagamento. Um consumidor na minha frente, moreno encorpado de altura média, na faixa dos 45 anos de idade, conversa com a caixa, a quem parece conhecer. Em seus 19 anos, ela está otimista. Acha que o Brasil chega às oitavas na Copa, ao que ele comenta, professoral: 

– Se jogar como ontem (contra o Panamá), chega.

Próximo ao caixa, o segurança bem-humorado, preto retinto com o cabelo apontado para cima, ouve a conversa e não se aguenta:

– Grande Panamá! O Brasil só chega nas oitavas se for carregando a mala.

A moça não retruca o segurança, mas olha nos olhos do consumidor:

– A gente precisa ter fé no Brasil.

Em lugar de concordar de imediato, o cliente age como se a caixa tivesse dito algo indevido. E ela parece aceitar a repreensão:

– Fé não, que a gente não pode pôr deus nisso!

Sou a próxima da fila e, desavisada como sempre, decido brincar:

– Vai na fé sim, que deus é brasileiro, hahaha.

O cliente então se vira indignado para mim. (Será ele o pastor da igreja frequentada pela  caixa?)

– Deus não é brasileiro. Deus é brasileiro, alemão, americano, de todos nós.

E é claro que eu não resisto:

– Aí a gente precisa ver.

Mas fico triste. A falta de repertório crítico, de um humor básico a acompanhá-lo, diz muito sobre este momento por que passamos.

Tentam tirar tudo do povo brasileiro. O gingado. O jogo de cintura de Carmem Miranda. Até a pequena malandragem hollywoodiana do Carioca, o Zé. Não à toa nosso futebol virou essa coisa obediente, sem ímpeto. Os evangélicos nascidos da fé damarista são uns temerosos do drible.

Até quando, hein?