Não estudei política partidária na academia. Jamais me aventurei por jornalismo nessa área. Meu pão, comi em outras circunstâncias.
Eis por que não entendo a campanha eleitoral do Lula. Não entendo o que ele deveria ter feito e não fez para ganhar os votos que perdeu, e que seriam justamente dirigidos a ele se vivêssemos em equilíbrio social.
Mas não vivemos, certo?
Temos um povo calado e submisso. Ou, como dizia Lima Barreto, não temos povo, temos público. Ou, como dizia Milton Santos, nosso povo não é cidadão, já que se viu silenciado em seus direitos quando a classe média buscou privilégios para si. Ou como diz Marilena Chauí sobre a classe média: uma aberração política, porque fascista; uma aberração ética, porque violenta; uma aberração cognitiva, porque ignorante.
Isso sem contar a elite econômica brasileira, ranzinza, azeda, medíocre e cobiçosa, como diz Darcy Ribeiro. Uma classe desinteressada de cultivar o amor pelo povo ou pela democracia, de fazer o país avançar.
Colado a essa população desinformada pela imprensa e destruída em sua cognição pelas redes sociais, está o capitalismo financeiro internacional. É ele a fomentar a ultradireita que intervém em nossas eleições, decidido a rapinar nossos recursos.
O que o PT haveria de ter feito para interromper esse tsunami de mentalidades e abastecer o povo com informações reais sobre quem está a seu lado?
Usar uma comunicação assemelhada à fake do ZAP, a mesma que a cada dia anula a cognição desses não-cidadãos do Brasil, para, com isso, obter resultados ao revés?
Contrapor-se ao fascismo com armas fascistas já comprovadamente eficazes, como as palavras que simplificam a verdade, rebaixando-a?
Combater o fascismo com o dinheiro internacional fascista?
Dançar conforme a música dos tik toks fascistas?
Comprar o horário da imprensa fascista e falar por meio dela, já que o povo só entende as coisas nesses moldes comunicacionais?
Romper o cerco das big techs fascistas que escondem nossos posts de internet por meio de uma enxurrada de ações judiciais?
Ninguém me diz.
O que sei é que sempre sobraremos nós mesmos para desviar os tufões que bem facilmente nos transformam em poeira. A militância de rua, de vizinhança, de bar, de telefone, será sempre ela a acionada para nos livrar dos farrapos do apocalipse.
Sou pessimista no pensamento e também na ação, mas, na hora das eleições, me curvo ao santuário de Gramsci e parto para a utopia descarada, sempre um horizonte à frente de mim, como Galeano ensinou.
Bora Lula, então, que atrás vem gente. Não exatamente gente, mas a indigência toda que só com sorte e resistência deixaremos para trás.