Extratos de um sonho sobre a revolução transcorrido no Bixiga

Meu sonho, ou minha tentativa de explicá-lo e comungá-lo, como ensinou Sidarta Ribeiro, num relato dedicado à linda e sábia Simone Curi:

Eu estava na feira livre, muito próxima de minha casa, escolhendo frutas, mas elas eram ora muito pesadas de carregar ora rolavam pela ladeira da rua São Vicente, no Bixiga, e eu as perdia lá embaixo, pela escola de samba Vai-Vai.

Às vezes os feirantes se recusavam a me ajudar. Ou reaviam as frutas, mas decidiam não vendê-las a mim. E frutas… Frutas eram tudo de que eu precisava, a boca seca necessitada de trato. Tal carência, por sua vez, vinha alimentada pela terra vermelha árida. A necessidade me fazia permanecer na feira, que, como um organismo vivo, parecia me rejeitar.

Os feirantes eram jovens com o rosto enlameado ou muitas crianças que usavam aparelhos nos dentes, feito a Fadinha do skate. Pareciam maquiadas. Sorriam por baixo do pó, ele também cor de terra. Espécies de duendes numa terra alta.

Pouco a pouco eu entendia que, a partir do chão da rua, erguia-se um tablado, depois uma construção plena de relevos tornados assentos, como muretas, onde era difícil se equilibrar. Mas eu conseguia aprontar o equilíbrio por esses acidentes sem saber explicar como.

Todo o sobrenatural era até bem natural pra mim, e meu manejo simples com a dificuldade não despertava a curiosidade de quem me via. Eu não chamava atenção.

Ninguém percebia a dificuldade envolvida no meu movimento, embora, pelas leis da física, tudo em verdade que eu fizesse para andar fosse impossível de ser realizado, exceto sob efeitos especiais ou sonho. E eu tinha consciência disso no inconsciente pulsante do sonho.

Percorria de lá pra cá o auditório erguido com arquibancada de muitos degraus, feito um gigantesco e acidentado teatro Oficina, em busca ainda de fazer minhas compras de frutas. E para andar sobre os acidentes usava um pedaço de madeira fino, comprido, que segurava com as mãos – espécie de perna de pau, com a diferença de ser manual.

E então me lembrava que havia estado nesta peça no ano anterior, e não entendera nada dela, pois se falava língua eslava no filme (agora a peça se transformava em filme) sem legendas. Mas eu gostara das atuações e desconfiava que a trama era boa.

Os atores haviam mudado. A peça-filme se passava em três dias. Eu voltara para entendê-la, mas me arrependia de ter feito isso, sem contudo conseguir simplesmente me ausentar, por respeito aos atores. Havia muito sacrifício envolvido em presenciar a trama.

Pouco a pouco eu compreendia que os feirantes todos representavam uma peça sobre a revolução. Um texto clássico, apresentado nos cineteatros dos anos 1960 com muito sucesso alternativo. Os meninos na feira eram militantes da resistência. Cada circunstância ou passagem de frutas tinha um sentido de acordo com o texto. Eram mensagens cifradas. Eles organizavam a caça ao tesouro em lugar a ser encontrado.

Conforme passávamos pelo auditório, um ano de luta revolucionária transcorria. Cantores e cantoras vestidos como num cabaré de Visconti em Os Deuses Malditos anunciavam os personagens. Eram pedreiros e marceneiros arregimentados para destruir a parede e arrancar o precioso, o excêntrico, o brilho da revolução.

A certa altura, ao projetar o filme do ano anterior na parede, me descobriam na plateia. E riam muito. Como eu tinha conseguido voltar pra ver aquilo?

Havia alguém que fora comigo assistir à segunda versão, mas desaparecera do cenário para fumar um baseado, então distribuído pelos atores-militantes ao público, em flagrante desconcerto com as normas revolucionárias dos anos 1960, quando drogas eram vetadas.

Envergonhada por ter sido descoberta na segunda tentativa de assistir ao filme, agora para compreender de fato seu segredo, eu deixava o auditório atrás do meu acompanhante, porque ele era igualmente importante para a revolução. Mas o teatro grande e esfumaçado fazia com que eu me perdesse na bruma e não conseguisse chegar ao pátio dos fumantes.

Acordei com as costas doendo. Vou colocar bolinhas de tênis para massageá-las enquanto tomo o sol que vem pela janela. Estou a pouca distância física do Bixiga. Lá nasci, me formei e sonhei os primeiros sonhos da existência.