Nem Paris, nem Texas: “Pegando a estrada” revive um cinema

O primeiro longa-metragem de Panah Panahi, presente na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, rompe as regras do filme estático contemporâneo ao explorar a jornada de um jovem em formação

Infância, um lugar para a música

Um jovem dirige o carro no qual viajam seu pai, sua mãe, seu irmão mais novo e o cachorro da família. Ele precisa alcançar a fronteira e atravessá-la, para então viver sozinho do outro lado. Mas de que modo irá viver sem ninguém, se é tão imaturo? Principalmente, por que tamanha peripécia familiar para que se vá? Se você assistir a este longa-metragem sem saber que se trata da primeira realização cinematográfica de Panah Panahi, o filho de 37 anos do grande Jafar Panahi, diretor desterrado do cinema pelo governo do Irã em 2010, talvez o entenda parcialmente. De qualquer forma, estará diante de um belo filme com extenso arco emocional, este que admitirá até mesmo a presença do humor.

Eis um longa que mereceria ser incluído em todas as redes de streaming popular. Porque é acessível sendo ainda bom cinema, não um arremedo de telenovela brasileira baseado no jogo infinito entre campo e contracampo, a partir de enfadonhos planos médios e closes. Panah Panahi tem o controle da história e a fotografia de Amin Jafari é sempre clara, seja dia ou seja noite, de modo a fabular com nitidez a psicologia dos personagens. Os atores têm enorme carisma e beleza. Suas máscaras são acionadas tão perfeitamente que nos esquecemos de que interpretam papeis. Eles existem sem contestação dentro da verdade do filme.

A fotografia de uma fabulosa paisagem

Em poucos minutos iniciais nos quais apenas o caçula aceso fala sem parar, conhecemos todas as circunstâncias que orientarão a história. Para isso, o diretor se encarregará de condensar o Oriente em sua iconografia icônica. As montanhas parecerão pintadas, a estrada se alongará, o carro acessará os mundos interiores e exteriores, a religiosidade se introjetará nas canções e observações, o velho venderá pele de carneiro, a mulher espirituosa também será a mãe devota e o pai terá um mau humor divertido, que se desinteressará das convenções. Seremos jogados para o contexto no qual os personagens funcionarão com muita intensidade e leveza, se isto é uma coisa que se possa conceber simultaneamente. Até mesmo sentiremos vontade de conhecer esse recanto do mundo tão isolado pela intolerância, que sempre antes nos causara temor.

É coisa rara nestes dias, mas o diretor pratica a beleza do movimento, marca do cinema de antes, de Douglas Sirk a Wim Wenders. O filme deste Panahi também é musical, um “Paris, Texas” que corre pela imensidão habitada, mas às avessas. A questão do filho, do que fazer com ele, é também central. Mas o filho aqui não está abandonado, antes deseja se descolar dos pais, existir por si próprio, embora não pareça reunir ainda condições para tal. “Você fuma muitos cigarros vendo filmes”, diz-lhe a mãe. “Veja menos filmes”.

“Veja menos filmes”

É muito engenhosa a resolução dramática da figura filial. O personagem do filho, que imaginamos ser uma referência do cineasta a si em relação a sua família, a seu pai, vê-se construído numa convergência entre dois personagens, a criança e o jovem. O filho criança é brilhante, o filho jovem, opaco e comicamente inseguro. Dois meninos representam um. Mas como não se tornar progressivamente inseguro para se lançar no cinema se seu pai é Jafar Panahi? E há o cão. O cão está à morte. O cão é a alma de todos que se despedaça para que a jornada de herói do filho possa enfim começar.

Diante do herói

É um filme radioso, brilhante, também porque não se apega às convenções do que deva ser o cinema de arte contemporâneo. Vencedor do Festival de Londres, ele não paralisa as atuações à toa, não abusa da cinemafotografia sem movimento, que se insere apenas quando o diretor quer destacar uma estranheza, uma profundidade. Este cinema que não teme ser cinema paga sem temor um tributo à arte estadunidense, embora ironize o país (e os amantes do país) por meio de uma deliciosa piada em torno do ciclista Lance Armstrong. É um filme para ver, rever, mergulhar e cantar.

Panah Panahi, um
grande primeiro filme

Pegando a Estrada

(“Hit the Road”, “Jaddeh Khaki”)


Dir. Panah Panahi

cor, 93 min. 

Ficção

Irã

2021 

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=13S–yt8esA

Totò e a razão do humor

O Totò que dava de comer a Antonio de Curtis…
… e o nobre de
elegância
senhorial

Eu observo uma coisa aqui. Uma interpretação muito literal, às vezes amarga, das falas dos artistas que reproduzo. Então queria esclarecer uma coisa a vocês. Muitas das minhas postagens, exceto talvez as bobagens que adoro, memes pra rir, são pensadas para que a gente consiga fugir ao óbvio, ao conhecido sobre qualquer assunto da vida ou da arte. Não gosto muito de postar o sabido, embora poste também.

Dou como exemplo a fala provocativa de Totò sobre a idade. Da morte, ele não tinha medo. Mas achava algo bom em envelhecer?

Não, não tenho medo de morrer. A morte é uma coisa natural e temê-la me parece tolice. Eu, a primeira coisa que fiz quando ganhei um dinheirinho foi comprar uma capela em Nápoles. Morto, vou morar lá. Já existe o túmulo e nele estão gravados a data de nascimento e o meu nome. O dia da morte está em branco.

Não, eu não me importo de morrer. Eu me importo, isso sim, de envelhecer. É tudo o que me incomoda. Que drama sentir-se jovem e depois, no espelho, ver um rosto cheio de rugas, uma cabeça de cabelos grisalhos… Jesus! Que nojo!

O que diz você?! Maturidade?! Não, não, minha linda: não pense que me encanta com seus discursos sobre a maturidade. Eu gostaria de ser imaturo e ter 18 anos. O quê? Pobreza?! Não dou a mínima. Eu gostaria de ser pobre e ter 16 anos. Dezesseis não! Quinze. Treze. Nove!

Concordo em parte com Totò. Acho lindos os velhos, sua independência de aceitação, e amo fotografá-los, mas ainda não me acostumei comigo nessa condição. Sinceramente não acho muita graça em envelhecer. Sofro de dores nas costas, prudência.

Mas tudo chegou a ser pior na minha juventude. Quando eu era jovem, por me achar horrível fisicamente, vivia escondia. E não ia aos bailes por uma razão: os meninos não me tiravam pra dançar. Século 20, meus amores, e as meninas se sujeitavam a isso, pobrezinhas! Eis por que a maldade que retribuíam era negar a dança com os feios ou desajeitados… Não eu, que não podia me dar esse luxo, certo?

Hoje acho que fui um tanto má comigo mesma sob esse aspecto da beleza. Mas me perdoo. A feiúra que eu via em mim era real, porque guardava relação com a norma. E eu estava fora dela. Era magra e alta demais, tinha sono psicológico o tempo todo, tanta vergonha do corpo que o escondia, meu cabelo não era abundante e liso, o nariz parecia achatado, os dedos, não suficientemente longos… Tão brasileira, não é? Deveria ter sabido me valorizar, mas eu estudava em colégio alemão.

Hoje me sinto um tanto liberta, ou em processo de aprendizado sobre a liberdade dos velhos. E enquanto a beleza desaparece, é curioso como procuro destacá-la de algum jeito. Minha busca, nos autorretratos, é por qualquer detalhe físico que possa me fazer gostar de mim. Não se trata de vaidade, portanto, antes de um exercício de afeição. Quem mais temos para gostar de nós como somos, além de nós mesmos?

Acreditem ou não, Totò, o Antonio de Curtis, buscava a perfeição física. Enfeitava-se todo quando andava por aí e era de uma elegância senhorial. Eis por que não queria envelhecer. Porque sua busca pessoal representava um desafio.

Porém, quando reproduzo o que ele dizia sobre a velhice, nem penso na velhice da vida, mas da arte. Meu propósito com o post é mostrar como funcionava um aspecto da personalidade cômica do artista. Naturalmente, a interpretação do que posto é de todo livre. Digo apenas que tive um propósito com a publicação.

Antonio de Curtis vivia cindido entre a persona popular e a íntima. Ele achava que Totò era seu funcionário amado, que lhe dava de comer. Mas pessoalmente fazia questão de se comportar como um nobre. Achava que era aristocrata por direito e provou essa condição em cartório. É o que procuro desenvolver naquele meu capítulo em “Além do riso”, aliás. Totò era a contradição o tempo todo, uma das razões para seu enorme talento.

Então, quando ele falava em ter nojo da velhice e de seus cabelos brancos, também falava do papel do artista. O cômico tem de ser necessariamente jovem, assim como o fotógrafo de rua, a meu ver (o fotógrafo Bruce Gilden disse: “A fotografia de rua é basicamente um jogo de juventude. E agora sou mais velho, tenho 74 anos. Não posso descer tanto, mas não mudei: ainda estou interessado em tirar o mesmo tipo de foto que sempre tirei.”)

E por que jovem? Porque o humorista capta a contradição no ar. Só ela faz o efeito humorístico aparecer. Então, o paradoxo tem a ver com o deslocamento do usual, com a surpresa. Se você é velho nesse sentido, se só busca o conhecido e aceito por todos, esqueça de ser humorista. Totò queria ser jovem – e no trecho acima fala de ser jovem como uma criança de 9! – porque só assim saberia fazer o outro rir.

E rir pra quê, mesmo?

No caso de Totò, para nada além de sobreviver à miséria humana.

Quando o SUS é o melhor do dia…

Dormi mal. Tenho dormido assim há alguns anos. E ontem ainda tive uns dissabores, pequenos mas decisivos, que confundiram meu sono ainda mais. Me incomoda tanto a falta de graciosidade, de delicadeza por parte de pessoas adultas, que vocês nem calculam… O corpo estremece todo, como se chorasse. Mas não tenho direito de reclamar, pois, como sabemos, tantas coisas piores estão em curso.

E, felizmente, as melhores também.

Hoje de manhã, por exemplo, ainda com muito sono, fui informada de que duas agentes do SUS estavam à minha espera na portaria do prédio. Desci com a rapidez possível, com meu descabelo, e quase as abracei, como fazia antes.

As duas vieram especialmente para me entregar um formulário de agendamento da mamografia. Desde que a pandemia começou não vou a médicos, explico a uma delas, a mais inconformada com meu afastamento das rotinas. Claro, fui ao ortopedista e ao oftalmo em duas emergências, fiz exame num hospital lotado e acompanhei meu filho num procedimento. Só isso. “Mas na sua idade”, pareciam me responder…

Enfim, também me convidaram ao papanicolau sábado, dia em que será possível submeter-se ao exame na UBS sem marcação.

Essa preocupação comigo, não me acostumo… E no entanto é tão emocionante, tão procedente no nosso grande país.

Viva o SUS, como se diz, viva o Brasil.

Que estes dois possam novamente existir.

A pandemia não acabou, pois é

As pessoas não pararam de morrer de covid.
Mas pouca gente se liga nisso.
Eu tenho sempre de repetir: meu amigo, a pandemia não acabou!
Porque só ouço som de festa o tempo todo, só vejo gente amontoada sem máscara no caminho pro mercado.
Enquanto isso, muitas das minhas queridas pessoas, isoladas e vacinadas, contaminam-se de novo.
Entre essas, grandes, enormes pessoas com quem eu aprendia todos os dias, vão-se como pó.
Eu não sei mais o que pensar e, privilegiada do jeito que sou, não tenho pra onde ir.
Fico com aquele choro no olho que não rola pelas bochechas.
Eu sou contida, sou durona pra viver, mas isso tudo…
Ainda bem que ontem saí e bebi vinho num lugar aberto.
Ri!
Fazia muito tempo que não ria ao ar livre.
Ganhei um pouquinho de força, e ainda bem.
Porque hoje tudo recomeçou daquele jeito.
Porque ainda não tiramos esse assassino e seus ministros genocidas daquele ponto onde estão.
Porque estamos sozinhos nessa ilha de alucinados, olhando pelo buraco os fantasmas de pé.

Os meninos por detrás

Quase não saio de casa, e não culpo a pandemia por isso.
Tenho vivido e trabalhado sozinha faz cinco anos, longe da malandragem das ruas, essa da qual me dou conta apenas quando fotografo.
Antes da catástrofe virótica, só descia pela avenida onde moro por ocasião de biblioteca, exposição, filmes (raramente), festa e show, ainda assim, levada por convites.
E agora que os poderes municipais não se decidem a abrir as bibliotecas, que as exposições são raras e não há festa ou show possíveis (mas logo haverá), saio menos ainda.
Livros, filmes, pra que vos quero comigo?!
Mas hoje tive de pegar remédio numa farmácia de manipulação aqui do centro, mais barata que as outras, e me encapotei.
Deu tudo certo na farmácia, razão pela qual, no caminho de volta, decidi aproveitar que estava na rua para comprar o papel higiênico que faltava.
Parei num desses mercados expressos sem segurança na porta – muitos deles espalhados pelo centro, para o inferno dos empregados.
E entrei.
Entrei porque a pão-durice desses donos me enche da paz que os pobres funcionários não têm.
Minha paz reside no fato de que ninguém vai morrer, negro nenhum, nas mãos de um segurança no porão, porque se trata de mercados essencialmente inseguros, sem capatazes.
Tão feliz por isso!
Mas triste por só ter felicidade nesses momentos.
No mercado da rua 24 de Maio, você fica de costas pra rua quando vai digitar seu código de cartão.
E eu não me dei conta de que, uma vez de costas para tudo, sou colocada no centro das ocorrências.
Porque foi nesse momento que o menino entrou.
Tinha uns 16 anos aparentando 13, gorro de lã na cabeça, casaquinho demais para um dia até quente.
Negro.

– Tia, me deixa levar café?
O mercado é mais barato que os outros, pensei. Café por dez reais?

– Deixo.
Ele então salta feito louco pelos corredores, entremeando os clientes, mas demora mais do que a fila aguenta pra voltar.
Enquanto pago minha conta ele chega esbaforido com o café. Mas não só com o café. Com o óleo de milho também.
Vejo que ele é magro e se agita – está claro que quer sair dali correndo.

– Eita, menino, você não falou que era só o café? – pergunto.

– Eu sei, tia… Mas o óleo! – me diz, como quem faz um xis com o canivete.
O óleo fecha meus olhos.
O caixa me pergunta:

– Quer que eu tire?
E eu digo rápido que não.
O menino é tão pequeno e magro. Deve sustentar a família com esses serpenteios.
Penso que vim ao mercado pra economizar, mas que não tenho esse direito.
Se saí à rua, penso, preciso pagar por isso.
Pouco tempo antes, no caixa eletrônico, uma mulher branca com cara de crente havia enfiado uma pasta de limão no meu nariz exigindo que eu comprasse a gosma para a limpeza doméstica – e eu precisei gritar pra ela que não limpo minha casa todo dia.

– Leva, menino.
Ele nem se virou pra mim.

– Me dá uma sacola? – pediu ao caixa, que lhe deu o que pedia resignado, sem me cobrar.

– Deus abençoe, tia!
Garrafinha de óleo: 12 reais.
Café: 11.
Eu não fiz nada, nem queria ter feito nada, não tive rapidez de ação pra decidir coisa alguma, não conheço todos os truques dessas crianças trabalhadoras do dia, mas talvez tenha salvado o menino.
O menino e todos os meninos que andam ali por detrás.

O acúmulo que pratico

Tenho mais livros que os possa ler.
E não conto isso para as mentalidades marie kondo, para quem livros, como roupas, devemos acumulá-los ao mínimo denominador de uso. Entendo e respeito que sua experiência com os livros seja diferente da minha.

Eu não uso livros desse modo. Eles não se esgotam, para mim, como um quimono ou um sapato. Exceto, é claro, se suas costuras forem frágeis.

No tempo em que fiz pós, meu hábito de juntar livros permitiu a conclusão de capítulos, visto que eu trabalhava e cuidava dos filhos enquanto estudava, portanto sem tempo para bibliotecas.

Até hoje, ser afortunada a ponto de dispor de mais livros que os possa ler me abriu possibilidades para temporadas ruins, como esta, pandêmica. Nesses momentos, é só percorrer as estantes para redescobrir um gosto guardado, interrompido, e se ocupar das iluminações.

Sei que em razão disso as minhas serão, no mais das vezes, leituras novas-antigas, visto que não estarei atrás do que emerge no momento. Por mais que meus amigos se entusiasmem com as novidades literárias, não sei compará-las, sem prejudicá-las, com a visão do passado.

Qual foi o último novo livro ficcional brasileiro que me fisgou pelo sabor? Melhor nem dizer. Leio os primeiros capítulos e não me entusiasmo. Por certo estou ultrapassada em informações, por certo preciso ler mais e mais.

No entanto, acompanho com ânimo novas pesquisas históricas. Os livros sobre a aventura intelectual me proporcionam o prazer da descoberta que não encontrei nos ficcionais.

É tudo uma questão de limitação pessoal. Se eu fosse um Borges, nem precisaria de biblioteca em casa, pois a teria toda em minha cabeça.

Uma vez o escritor argentino se declarou insultado com a observação de Vargas-Llosa, que, ao visitá-lo em Buenos Aires, anotou com surpresa (ou terá sido superioridade) o número limitado de livros nas estantes. Como se acúmulo de publicações significasse saber! Adoro recordar isso porque conheci de perto a figura pequena que Vargas Llosa é.

A meu modo sou pequena também, razão pela qual minha biblioteca é razoavelmente grande, capaz de deter em parte os pesadelos que vivo no presente.

Prata da casa

Não quis entrar aqui antes pra estragar os prazeres e a boa intenção de quem também não aguenta mais o verme e achava importante ir à passeata de hoje.

Tampouco quis manchar o respeito que as pessoas instruídas têm por seus raros bons cronistas.

Mas eu sinto que precisamos falar sobre Antônio Prata agora.

Ele é um escritor que dá o melhor de si e de sua palavra coloquial para falar aos leitores de classe média paulistana. E faz um grande serviço por ela, ao manter os argumentos civilizatórios em grau comum de entendimento, incluindo às vezes alguma inteligente ironia para reforçá-los.

Só acho que ele não pode ser um orientador de nossa estratégia política.

Prata sabe o que é o MBL? Sabe. Mas, se sabe, por que sugeriu que seus iguais engolissem o sapo dessa manifestação onde pixulecos de Lula na cadeia, ao lado daqueles de Bozo, desfilaram não surpreendentemente pelas mãos de tanta gente sem máscara?

Entendo que o escritor esteja preocupado com a união da oposição contra Bozo. Perfeito. Mas desde quando o MBL se opõe a Bozo?

MBL é oposição por exclusão, e apenas nos interessa se compuser número parlamentar para votar pelo impeachment. Então deixem que ele aja no Congresso!

Não é preciso dar a magnitude das ruas a esses lavajatistas rancorosos pela saída de Moro do governo, todos eles, além do mais, montados em capital estadunidense. No governo fariam tal e qual Bozo faz, sem se apoiar, é claro (ou sim, a depender), no poder miliciano de Rio das Pedras.

Kim é parvo, fascista ignorante. O mesmo para Holiday, cujo discurso nessas ocasiões é feito com o objetivo de mobilizar mentes binárias de pouco vocabulário.

Somos mais do que isso, suspeito.

E continuaremos lutando, certo?

Waste land

Hoje andei pela Brigadeiro Luiz Antônio, da Paulista ao centro, depois de fazer um exame. Me chamaram a atenção:

vendedores de bancas de jornal sem máscaras

crianças sem máscaras com seus pais, depois da saída da escola

crianças sem máscaras trabalhando para seus pais, vendendo de balas a cachorro quente

poucos produtos em qualquer prateleira

um deserto de estabelecimentos comerciais, exceto academias de ginástica com paredes escuras e neon, imitando boate e com “up” no título

sem contar o frenesi no hospital, com elevadores cheios.

se tenho esperança?

eu nunca tive.

Um dia no museu

Depois de exatos um ano e meio sem ir aos museus, fui ontem a dois. Os avisos sobre a pandemia são tão perceptíveis em cada canto, as pias dos banheiros, interditadas com tamanha fita isolante vermelha a intervalos frequentes, que é impossível esquecer de quem manda sobre nossa impotência, mas eu esqueci. Eu sou uma agitação interna tão grande depois de uma visita ao museu que é como se meu coração parasse por idênticos intervalos isolantes, e a química em minhas mãos para estancar o vírus não me atrapalhasse em nada.

Mário Cravo, eu e a praga do vidro sobre as molduras, no Masp

Deve ter pesado sobre essa intensidade o fato de que passo por uma suspeita ocular e a cada dia sinto necessário ver mais e mais, como se fosse a antepenúltima vez. Gosto de sentir isso, todas as urgências me confortam, porque também se tornam uma desculpa para, em casa, abrir meus livros de fotografia sem uma razão prática, sem um objetivo finito, sem a praga do dinheiro a queimar mais essa luxúria de perceber e sentir, e neles eu mergulho profundamente.

E eu me sinto livre, enfim, porque não gosto de colocar em prática o que vejo e sinto, e porque dificilmente serei compreendida quando exponho minha percepção. Conheço pessoas excelentes a compreender o que escrevo e a pedir um texto meu com alegria, até para sofrer de surpresa, mas, nestes últimos tempos, tenho escrito para gente ruim de novo, povo do dinheiro, dos editais e das assessorias de imprensa (me perdoem vocês, assessores, que não compreendo como aguentam). E me enraiveço ou rio.

Anteontem, por exemplo, uma galerista que desejava aparecer no meu texto informativo mais do que eu julgava ser de merecimento quis me machucar com uma estocada, dizendo que eu escrevera adjetivos. Não liguei. Sei que ela desconhece o significado de um adjetivo. E nunca, nunca mesmo, desde os tempos longínquos de submissão ao manual da Folha, liguei para essa interdição de classe gramatical. O que todo mundo tem contra os adjetivos? E os gerúndios? Leio os pobrezinhos como prêmios, anéis onde se esconde uma pedra vermelha, e luto para assentá-los bem na terra do meu jardim.

Mas isso não é importante. (A propósito, Senhor Democracia reclamava do “mas” em início de frase. “Você escreve bem demais para insistir nessa mania”. E eu ria por dentro, por saber a origem italiana da restrição). Importante é sentir que vivo três vezes mais quando vou aos museus. E aconselho a vocês que vivam também.

Fui ao Masp e percorri novamente tudo. Os moços das curadorias andam atrás do déficit histórico e expõem mais mulheres que antes. O acervo esteve bagunçado pro meu gosto, uma vez que deixaram a espantosa virgem com o menino de Bellini pro fim da viagem. Mas algumas autoras romperam o caminho da identificação nos cavaletes da Lina Bo Bardi, completando a composição no verso da tela, razão pela qual me diverti, doce vingança à necessidade que ela nos impõe de ter de olhar o tempo todo para trás em busca do nome do autor.

“O implacável”, de Maria Martins,
no Masp

Revi Maria Martins e senti o conforto de sua adjetivação. Seres míticos compostos de sentidos. Tormentos que nascem dos ventres de bronze. As figuras do “implacável” e do “impossível”. Que mulher. De Gertrudes Altschul, redescoberta aqui depois de exposição no MoMA (mas é claro), gostei deveras das sobreposições, como se a fotógrafa sonhasse explicitamente, e apreciei ainda mais os rostos raros e graves de seus personagens infantis (enquanto, nas fotos, a autora aparece rindo sempre).

No IMS, novas sobreposições, desta vez inesperadas, porque de Madalena Schwartz sobre Ney Matogrosso, para que seus movimentos não se perdessem. Que aparição representou o Ney no sopro do tempo! Mas o esforço de Madalena (que levava seu cachorrinho nas sessões) para capturá-lo na sua elasticidade expressiva o tornou interessantemente rígido. Os retratos de Madalena são poses estudadas, teatro explícito, e pelos filminhos ali exibidos sabemos que ela irritava os personagens com sua insistência e sua timidez. Alguns retratos de Paz Errázuriz também estão lá, e senti a diferença, a intensidade, a falta de intenção, a dor subjetiva de suas transexuais em comparação com as de Madalena.

Mário Cravo Neto também se expõe no IMS, e é previsivelmente um deslumbre. De Salvador a Nova York e à Dinamarca, captamos aquele seu furor de vida, que, ao contrário do que acontece com a doce Madalena, raramente se congela. Ele era escultor, como o pai, antes de se acidentar, imobilizar-se por um ano e passar a fotografar como gosto e necessidade. Mestre da subexposição com uma razão, a de viver com seus personagens, a de rodar como suas baianas, no caminho de exprimi-los, ele é um pintor também, e suas aquarelas são o que são, movimentos.

Saio do dia do museu como sempre, tentando, sem exatamente conseguir, expressar minha intensidade

Saí do dia do museu como saio sempre, com vontade de perceber o mundo à volta, mas meu telefone sobrecarregado dificultou os registros. De todo modo, contudo, porque a vida continua, eu seria interrompida, razão pela qual não liguei muito pra essa limitação, e sonhei à noite, e continuei feliz.