Express yourself

Sem dormir, porque o povo comemora o carnaval com banda lá fora, aparece a consciência do mundo pra me atormentar. A imundície. A canalhice desse verme que não pretende se levantar da cadeira por resultado eleitoral nenhum. Penso em quem votou nele e continuará a votar. Vejo a luta cotidiana de um padre que a PM bandida parece simplesmente querer exterminar. Esses trastes fálicos das forças brochadas a rir abertamente de nós.

Que país. Que falta de país.

Tento pensar em outras coisas. Pensar que sou mulher e que muito me alegra sê-lo, mesmo na idade em que estou. Me lembro de uma discussão no programa da Oprah (sim, eu assistia ao programa), há milhares de anos, e que não esqueci. Lá estava Cybill Shepherd, a linda atriz, a lamentar que, mal completados seus 50 anos, tenha se recusado a olhar o próprio rosto no espelho. Não se deve fazer isso, ela dizia à Oprah. A depressão vai acabar com você. Porque tudo em sua aparência não será o mesmo, mas vc ainda terá uma vida pra viver.

Claro que esse problema atinge mais essas mulheres tão belas do que nós. Me deu pena da Cybill. Do que o cinema fez com ela. Nem de longe o dude Jeff Bridges, seu parceiro em “A última sessão de cinema”, enfrentou a mesma situação.

Me divertiu mesmo, no sofá da Oprah, o conselho de uma autora motivacional convidada a se postar ao lado de Cybill: “Depois de certa idade, é preciso projetar em você mesma uma grande confiança. Você tem de se sentir uma Sofia Loren, ou não conseguirá viver.”

Eu acho que, ao projetar Sofia em mim, acabei expressando o Christophe Lambert. Será que tem problema aí? Espero que não.

Crescidinhos

No meio do caminho, tinha um gato…

Sei que nem todo mundo vai se interessar.

Mas eu, talvez por ter tido filhos, talvez por saber da luta que é fazê-los enfrentar as dificuldades todas de viver, estou amando “Crescidinhos”.

Crianças muito pequenas são levadas a cumprir tarefas sozinhas, pelas ruas de um Japão gentil e seguro…

Rio e choro mais ainda.

Feliz por ter algo pra ver nessa Netflix inescapável e no geral tão ruim.

https://www.netflix.com/br/title/81506279?s=i&trkid=13747225&vlang=pt&clip=81582861

A elegância é uma ideia

Ele estava próximo de uma academia de ginástica e o rosto era inchado, vermelho. Embriagado crônico, fácil perceber, mas acreditei não se tratar de um sem-teto, pois os tênis pareciam bons, até lustrosos. Então ele apenas bebia com os amigos, quase na sarjeta.

Eu passei colorida, bata e calça, os cabelos brancos soltos, carregando sacolas de supermercado. Ele decidiu dizer:

– Ficou muito elegante, senhora, mesmo!

Sorri por baixo da máscara, continuei andando. Mas ele me seguiu e parou na minha frente:

– Desculpe ter falado assim, mas a senhora está elegante mesmo, olha, vou dizer!

– Eita que eu acredito no seu julgamento, hein?

– Senhora, eu não julgo ninguém!

– Ah, que bom. Mas se sou elegante, vc é mais. Gostei das tattoos, da pulseira de couro larga. E essa bermuda cargo com a regata Suicidal Tendencies, tudo preto, ficou massa.

– Eu não sou elegante, sou um perdido! Mas a sua elegância está demais. Sabe Highlander? Highlander, eu juro.

Não entendi bem. Talvez eu precise mesmo pintar o cabelo e cortar. Mas o fato de alguém ter me percebido na rua me deixou surpreendentemente alegre. Me despedi.

– Meu querido, obrigada, fique bem, ganhei o dia!

No olho da fera

sim, é uma cidade com travas cotidianas propositalmente irresolvidas e uma escala de desigualdades sociais que toca a imensidão.

mas é minha cidade.

por ela respiro, sinto sua dor e seu olhar, este que solicita minha meditação e meu percurso.

amo São Paulo, amo sem fim, os becos, as armadilhas, os rios que pedem libertação, os corredores em que aguardam por um desfecho os suicidas e os amantes.

os paulistanos são seus problemas. aos cafonas, sua cafonice.
aos marginais, meu abraço forte inclusivo, meu sangue sendo o sangue de vocês.

Angela Davis, o julgamento, o documentário

Eu confesso que não sabia muita coisa sobre este julgamento até terminar de assistir, agora, ao documentário “Libertem Angela Davis”, de Shola Lynch (2012).

Na verdade, muito sobre a filósofa era de meu total desconhecimento, razão pela qual, ao ver o filme, me arrepiei diante da altivez da personagem, sua serenidade e beleza, não menos importantes que a consciência política em seu coração.

Talvez não seja exagero dizer que o sopro de resistência desta intelectual se estende a nossas vidas depois de presenciarmos, no filme, suas palavras calmas e a ação decidida por justiça.

Assistam!

Está em cartaz de graça no streaming do Sesc Digital, não sei até quando.

Triste mundo em riste

antigamente eu precisava entender, e por isso o fazia num texto, o que a cerimônia do Oscar e os filmes por ele selecionados nos traziam sobre a representação do poder.

fazia isso no lugar errado, é claro, na revista de senhor democracia, um hollywoodiano de carteirinha, e que se pretendia dono hierárquico de nosso pensar.

mas ainda faço isso cá comigo quando assisto à cerimônia. não acompanhei esta de ontem porque… porque só havia visto de verdade o belo filme do hamaguchi e não passado de meia hora no ataque dos cães.

pelo jeito, então, perdi a mais uma fiel correspondência do momento vivido. um homem preto socar outro homem preto ao vivo diante do mundo em guerra é resultado/representação deste nosso triste mundo em riste.

e eu talvez tivesse gostado, apesar de toda a dor de cabeça que isso me daria, de me aprofundar nos meandros desta tragédia, com toda a fatal incompreensão de quem me lesse.

vocês podem nem acreditar, mas por isso mesmo as redes sociais, pra mim, têm suas vantagens. às vezes, incrivelmente, elas me livram de um mal maior.

O risco

Me retratei nesta imagem há dois anos e poucos meses, antes de uma conversa que fiz a pedido do Instituto Moreira Salles, em São Paulo, sobre a obra da fotógrafa estadunidense Susan Meiselas.

Eu estava mais do que feliz naquele dia com o convite para falar ao público ao vivo, ademais no solo do museu que pra mim é um fundamento. Mas me sentia apreensiva também.

As conversas na biblioteca do IMS, eu percebia, não situavam muito o assunto fotografia como eu o via, antes se centravam nos temas desenvolvidos por seus realizadores – e quando o assunto é fotojornalismo, como no caso desta grande profissional, talvez não se pudesse nem devesse fugir deste enfoque, pois o assunto e seu viés dizem tudo sobre a grandeza política, a ética de um autor.

Ainda assim, me pus a falar sobre o que fazia sentido pra mim, não somente sobre a atividade de strippers nas caravanas daqueles anos 1970 que Meiselas acompanhou, mas também sobre a luz, as escolhas de um fotógrafo, o que o ampara, linhas, prontidão, sua formação visual, a construção de seu olhar.

Eu talvez não erre ao dizer que a conversa foi um sucesso, já que o público maravilhoso (muitos homens e mulheres da vida comum, velhos, jovens, alguns lindos amigos e a turma do educativo do museu, tão nova) estava aberto a ela, até ansioso por ouvir meus pensamentos, entender minha leitura da fotografia, influenciada que é, entre outras, pela obra e pela genialidade do fotógrafo-pensador paulistano Carlos Moreira.

E então, logo em seguida a este evento, veio a pandemia e anulou minha sensação de que eu poderia levar adiante meu intento, o de promover a modesta organização de um curso sobre a ação das mulheres artistas na fotografia, bem antes e bem depois de Meiselas. O IMS não me chamou para refletir sobre isto, até porque passou a haver uma onda de estudos acadêmicos sobre o assunto, e meu “orientador” (mais que isso, pai, irmão, amigo), apesar de ter sido um professor exímio na Escola de Comunicações e Artes da USP, não escreveu livros, não provou sua tese aos pares acadêmicos e muitos fotógrafos brasileiros ignoram o grande artista que ele foi.

É claro que, diante da derrocada de tudo, pensei em fazer algo por mim mesma, ainda mais em meio a esses tempos que provaram a serventia disciplinar do zoom, mas ainda não consegui. Não apenas porque me alimenta o calor das presenças físicas, mas porque não sei empreender negócios em meu nome como deveria saber. Ainda espero levar isso pra frente, contudo, assim como espero organizar um minicurso para os amigos interessados na comédia italiana, esta que foi tema do meu doutorado na História da USP.

Eu sou um pouco distante dos modos presentes de fazer as coisas, talvez não tenha a proatividade exigida, como eles dizem, mas sei que isto, mais que um problema, é uma circunstância que um dia chegarei a remover como quem estende as roupas no varal ou prepara a mesa pra comer.

Além do mais, a vida é esse risco todo mesmo, esse perigo que a gente sabe quem detectou, e não há como viver sem resistir.

para furar nossos olhos

Eu me lembro que, jovem, não morria de amores por homem bonito, não. Nem queria saber. E nem eles, é verdade, queriam saber de mim. Homem bonito não servia pra nada, enrolado em si.

A gente chamava os meninos de Alain Delon pra sacanear, especialmente quando eram feios e se achavam, ainda por cima.

Cresci e me amedrontei de Delon porque não era um ator deste mundo. Sem medo algum. A câmera que se virasse em segui-lo. Não se submetia a nada, furava nossos olhos de espectadores e seguia na maior calma.

Valerio Zurlini o chamou pra trabalhar com ele naquele monumento que foi “A Primeira Noite de Tranquilidade”, queria estar com seu aparato de arte pra discutir o papel, jantar e almoçar, e qual o quê. Delon ia dormir.

E depois, como todo homem bonito demais, varou as mulheres sem qualquer preocupação, até prometendo amor. Romy Schneider, Mireille Darc, Norma Bengell, vixe! E talvez se apaixonasse mesmo por elas por muitos segundos intensos. Com Monica Vitti, eram dois moleques em cena, uma entre mil razões pelas quais acho a Vitti um caso tão especial, pra não dizer sozinho.

Pra mim, Delon é um italiano de alma, e dos brabos. Com a imensa vantagem de não ser um italiano de verdade, com todo o meu perdão aos italianos, eu que sou neta de um Danielle que conquistou minha vó Guilhermina lá dos Açores justo por ser, no entendimento dela, um veneziano bonitão.

Eu tive amigos capazes de delonizar o coração da gente não por serem bonitos como ele, mas por nos arrastarem até seus olhos, mesmo em situações inglórias, sei lá, debaixo de um erro colossal como o Minhocão. Homem bonito é uma qualidade interior. Encontro bonitos todos os dias na rua e meu facebook está cheio deles. Mas são sacanas, ousados diante desta vida miserável que vivemos, como o Delon foi?

Então, adoro falar dele como amo gastar algum minuto a pensar em Sidney Poitier, Geraldo del Rey, Paul Newman, homens tão maravilhosos do cinema. Tenho certeza de que se tornaram bem mais interessantes quando envelheceram, sabedores. Ninguém mora com alegria nos palácios do passado, a menos que desista do encantamento da vida, como Delon desistiu.

só um pouco mais, delon

sim, Delon, você tem razão quando diz que envelhecer é uma merda e que tem o direito de escolher, por meio da eutanásia, o momento de partir.

certeza que não chegarei a seus 86 anos e que se tivesse sido você nesta vida muito teria lamentado a perda do meu rosto magnífico, da minha sabedoria nascida nos arrabaldes, do meu olhar sem fim.

desejo-lhe o melhor processo para que sua tristeza atual acabe, mas por meu egoísmo, por reconhecimento de seu imenso talento e de sua presença na arte e no sonho, desejo também que fique entre nós e que possamos ouvi-lo ainda um pouco mais.