O pobre, aliado a seu algoz

Orson Welles em “A Ricota”, de Pasolini

– Pobre Stracci! Morrer foi a única maneira de se lembrar de que viveu.

Orson Welles em “A Ricota”, episódio de Pasolini em “Rogopag” (1963) no qual o estadunidense encena o diretor da “Paixão de Cristo” no set.

Welles diz a frase ao constatar que seu ator, representando o Bom Ladrão, morreu humilhado depois de comer exageradamente tudo o que não lhe havia sido permitido comer antes.

No filme, Pasolini faz o Bom Ladrão representar o pobre que vota em seus algozes e que enxerga na capacidade de passar fome sua verdadeira vocação.

Pasolini, sempre urgente para nós.

O Ladrão Bom, para quem a morte ressalta que viveu

Carnaval é preciso

Doris Day, cabelos hipnóticos, e Thelma Ritter, a incrível, em “Pillow Talk”, de 1959: embriagai-vos de comédia

Hoje só consegui suportar o dia com muita comédia nas veias.

Até revi “Pillow Talk” (1959), que continua gracioso por conta do Rock Hudson, da Doris Day, do Tony Randall e, principalmente, da sábia popular Thelma Ritter de sempre, desta vez embriagadíssima, que atriz incrível!

Amei o filme como o amava desde as Sessões da Tarde, apesar de hoje constatar ali mais uma repetição do destino urdido à mulher desde os anos 1930 e do furibundo código Hays. O casamento como único caminho para a felicidade feminina! O casamento como fim, o fim!

Apesar disso tudo, aprecio no filme outras coisas, os efeitos cômicos de surpresa, a intensa preparação corporal dos atores, seus olhos que crescem, os cabelos hipnóticos, suas máscaras que nos movimentam até um éden momentâneo.

Doris e Rock Hudson: o casamento como fim, o fim!

Meu caçula, um feminista, riu comigo de muitas passagens picantes-inocentes que furavam a censura pelos diálogos dúbios.

A comédia é uma pulsão de cura. Comediantes, a quem sempre se atribui menos, são natos, e eu os louvo em sua eternidade.

E preciso de mais!

John Cleese, participação especialíssima em “Will and Grace”

Na linha de “Pillow Talk”, vou esgotando os episódios da já tão anacrônica série de tevê “Will and Grace” (1998-2006), com sua mistura de Doris e Rock, Lucille Ball e Desi Arnaz, de Thelma Ritter e Mary Tyler Moore, de Jerry Seinfeld e o escambau.

Preciso de humor, de festa da carne, de carnaval. E “Will and Grace” já me tirou de poços profundos…

Carnaval ou Morte! – digo então ao apontar para esta senhora que atualmente é a mais deselegante representação do Brasil.

meu vazio instante

feita nos anos 1980, esta imagem me abriu uma possibilidade para a fotografia e para a vida.

eu era jovem e impetuosa. (talvez me reste algum ímpeto, às vezes.)

nos meus 20 anos, emocionei-me ao conseguir esta imagem para um trabalho de faculdade.

minha intenção era somente clicar a bela janela do bixiga, bairro onde eu morava, com a olympus portátil que uma colega me emprestara. mas eis que esta senhora apareceu. pedi-lhe que se virasse pra mim e ela não se virou. ficou assim, olhando o infinito, por um bom tempo. minha timidez me perguntava se eu deveria clicá-la sem que me autorizasse. minha ousadia decidiu por mim. a senhora não se importou com a foto que eu fiz.

somente depois descobri que fotografia de rua é feita principalmente assim. com o senso claro de que algo está sendo tirado de quem não nos vê. ou, como dizia meu querido e divertido flavio damm: “aproximar-se como um gato, fugir como um rato”, eis o que um fotógrafo de rua deve fazer.

só assim, meio caçadores, meio ladrões, obtemos a imagem límpida, não preparada, desnuda, a verdade por um segundo, principalmente a nossa, e então para sempre.

e será nosso dever devolvê-la ao universo como uma leitura digna, divertida ou dramática, da situação vivida. uma oferta à humanidade.

quem acolheu com assombro esta foto (e as outras do trabalho) foi meu então professor, tornado amigo para sempre, carlos moreira, para mim um dos mais extraordinários fotógrafos do mundo. me deu nota dez.

carlos me ensinou toda a base do que sei, em tantas conversas que acabávamos por fazer, durante curiosos e intensos encontros que aconteciam entre nós de dez em dez anos, a maioria deles gravados.

ultimamente, a seu pedido, eu vinha escrevendo um livro sobre sua vida. nos dávamos bem, ele me contava quase todas as coisas. mas acho difícil, por uma série de razões, que esse livro saia um dia.

choro em pensar que não tenho mais o carlos a meu lado. suas conversas sobre fotografia eram aulas para a vida. pura filosofia, em estado de beleza.

sempre soube que sofreria com sua partida, que fará dois anos logo mais, embora tudo dele ainda viva em mim.

eu apenas não previ que a dor seria tão grande.

e o vazio.

Começar de algum modo

Estava aqui a percorrer a lista dos comensais da morte e alguns nomes parceiros do genocida apareceram, como o dono da Riachuelo ou do Bradesco ou o CEO (muita pompa pra grande porcaria) do SBT. Mas o diretor do Ceagesp, pqp? Como boicotar o Ceagesp?

Sendo otimista na ação, a gente enxerga um modo. Fincar os pés nos orgânicos dos sem-terra por meio de suas lojas, ou nas lojas que trabalham diretamente com fornecedores confiáveis, tipo o Instituto Feira Livre, aqui no centro de São Paulo. Ou plantar em casa.

Sei que é difícil, haja mão pra coisa, mas percebi aqui na nossa minihorta de apartamento que os alecrins, sálvias, manjericão, cominho, hortelã e até moranguinhos são bem possíveis de crescer e render, tão melhores quando frescos.

E não tem outro jeito, sabe? É preciso dar uma força pra sustentabilidade e até – sendo claros – para a sobrevivência humana neste pobre planeta. Plantando alguma coisa em casa já diminuímos a mania de transportar alimentos por muitos quilômetros – isto que acresce à produção os gastos absurdos com o transporte que, além do mais, usa combustível fóssil.

É só um começo, mas temos mesmo de começar, certo?

O céu é o processo

Não tenho religião e me impacienta o Natal, que contudo comemoro, porque é mais uma chance de estar à mesa com os bem-quereres. A Páscoa também acho difícil de suportar, visto que me traz de volta as sangrentas sessões da tarde da infância em que Victor Mature aparecia flagelado desde os olhos fundos.

Me parece muito católico celebrar esse sofrimento, sangue, expiação, até que se possa obter algo que não sabemos bem lá no céu. Prefiro tudo pelo agora, condição que conheço, tempo que mastigo. Porém gosto da metáfora de renascer das chagas, quem não? O catolicismo sempre soube calcular nossas necessidades, até segundo a época do ano.

Então, uma renascença, merecemos todos. Renascimento não é simples, é um processo. Eu tenho o meu, vocês o de vocês, e nos ajudamos nos intervalos por onde a vida corre. O céu é o processo, que saibamos processar!

juro

Sinto um pouco de vergonha alheia quando alguém que não me conhece, nem sabe a minha idade e menos ainda o que presenciei, vi ou li, me aplica um ensinamento que não vai rolar sobre coisas (as raras) que, azar desse alguém, sei de cor.

Se gosto desse alguém, é fácil, finjo que não notei a imposição. Se não gosto, hoje ignoro. Mas quando era jovem e insensata, metia o pau logo nessa gente sem dó, pra depois chorar a incompreensão sozinha, no meu canto, dias inteiros.

É melhor guardar o choro pra outras coisas, gente. Juro que é.

no meio das lives, uma espada

se as pessoas que tomam a iniciativa de fazer lives-aula não abraçarem nossas dúvidas, nossas confusões à espera de um esclarecimento, quem vai fazer isso?

então levo até elas, sem muito pensar, as dúvidas surgidas em mim.

ou sentidas por mim (verbo polêmico, o sentir, mas tudo o que sinto é minha fortaleza).

então eu, nas lives, decidi que ficarei no modo “não vim aqui trazer a paz, mas a espada…”

ou traduzindo a provocação jesuítica:

vim trazer o que sinto, e meu sentir é o meu pensar, minha contribuição modesta para complicar seu pensamento em busca de uma síntese para nós.

(tomara que me aguentem 💜)

Sirk sem palavras

Extraí esta foto de “Hino de uma Consciência”, de Douglas Sirk, na desesperada tentativa de reter um pouco da sequência deste filme de 1957 em que órfãos coreanos (os atores eram realmente órfãos coreanos) escapam para a “liberdade”.

Amo tudo o que fez este cineasta alemão amigo de Brecht, que começou no teatro e fugiu de seu país para os EUA porque a esposa era uma judia sob Hitler.

E quando digo amo é porque amo mesmo tudo, desde o mais insignificante, tolo, americanista e carola de seus filmes, até os clássicos que mais me interessam, os que movimentam os sentimentos para bem localizá-los em nós.

Não é tanto um cinema de palavras o deste diretor formado com o mudo.

Ele mais sugere que entrega.

E é cinema, só.