Uma foto é uma foto

Uma foto é o retrato de um momento, isto parece certo.
Mas um momento de quem?
Da realidade ou de quem fotografa?
Fotografia, escrita da luz em grego.
Isto quer dizer que existe um “escritor” por trás.
E a imagem não é, nem precisa ser, o retrato da realidade como ela foi.
Trata-se de um instante para o qual o fotógrafo determina tudo.
Ângulo, desenho, movimento, expressão, intenção.
Simples e pura capacidade de ver.
A imagem é fruto de sua decisão momentânea, de sua cultura, de seu modo rápido de perceber as coisas.
Sim, o fotógrafo é um autor.
Quando vcs analisam a foto de Richarlison abraçando calorosamente um Neymar imóvel, sabem mesmo o que está acontecendo enquanto a imagem se dá?
Se se trata do momento da comemoração do gol, significa necessariamente que Richarlison foi caloroso e Neymar, não?
Me lembro de prestar atenção quando Richarlison faz o voleio para a bola entrar no gol, a partir da imagem do drone. Vi o menino Sonega se mexer, dando um primeiro passo para a corrida até o gol, uma vez que contribuiu para que ele acontecesse. Mas não sei se correu de fato, porque o filme não continua a partir desse ponto.
Então, a foto, que aliás Richarlison postou no seu Instagram, sob a legenda “Ídolo”, com o comentário de emoticons e corações de Neymar, pode querer dizer apenas que Sonega estivesse já dolorido e Richie tenha ido até ele, para acolhê-lo. Pode querer dizer que Richie, como a gente espera, foi um ser humano incrível, abraçando seu ídolo num ato de compaixão, surpreendendo-o na sua dor, razão pela qual Sonega se mantém imóvel.
Sim, porque moeram o tornozelo de Sonega realmente, certo? E eu nem sei como, depois disso, ele ainda permaneceu de pé.
Interpretações são ótimas, principalmente quando acompanhadas de contexto. Porque, sim, uma foto não substitui mil palavras. Porque, como dizia Millôr, tente substituir essa frase por uma foto.
Foto é foto, palavra é palavra.
Vamos usá-las sabiamente.
Aguardo informações.

Futebol, guerra declarada, coração metafórico reunido

Pelé em campo, por
Luiz Paulo Machado

Me ligo neste assunto pela vivência afetiva, mas também histórica. Sei que o futebol acompanha o carrossel dos acontecimentos sócio-políticos. Que sua estrutura, nascida da diversão pré-colombiana de rolar a cabeça do inimigo e chutá-la, foi sendo estabelecida pelos milênios ao passo que mudavam as táticas de batalha. Laterais, defesa, ataque, marcação homem a homem ou por zona? Posicionamentos de guerra. As invenções de Napoleão, incorporadas. 

Futebol é combate e o campo, um templo para os fans, os torcedores, os fanáticos. Um homem guarda sua virgem pátria no gol, sob pena de ela ser arrebentada pelo opositor. 

Melhor que choro e fúria, então, a tática. Porque antes era um amontoado em campo, como no calcio storico fiorentino, onde todo mundo junto (ainda) persegue a bola. Como naquele atraso do rúgbi, sangue e lama lambuzam o corpo de quem luta. Futebol tem muito disso também, como uma recordação de origem, constituindo, ao mesmo tempo, uma sensação evolutiva.

Por isso há um compasso mágico do futebol com a realidade política – ela está implícita nele. Talvez grandemente em razão disso tenhamos perdido para a Alemanha por sete a um em 2014, porque naquele instante mesmo começava o desmoronamento de um país. E quem sabe a juventude volte neste momento, concentrada, mágica e inventiva, para desfazer o golpe dos bárbaros, que só agora parece ser entendido quase universalmente como um barbarismo.

Futebol, guerra declarada, coração metafórico reunido.

Não brinque com futebol!

Rafael Leão, o gato

Quando um filme é ruim demais, minha cabeça viaja pelos penteados dos atores, geralmente piores ainda. E dou um jeito de me divertir pelo menos com eles.

Uma vez, num filme ruim com o Richard Gere, ri tanto dessa situação peculiar que transpareci meu humor na crítica para a IstoÉ, onde eu trabalhava. E comecei a usar isso como mensagem subliminar, quem sabe um leitor a captasse (nenhum captou): “Quando ela critica penteado, é porque nada no filme prestou.”

Bem, agora estou aqui a ver Portugal e Gana, e é assim: não é que Portugal jogue mal, mas também não é que jogue bem. Marcou um gol de pênalti, mas sei lá se foi pênalti de fato. E virou o jogo porque joga mais, em duas saídas de bola, oportunistas, etc. Gana, que empatou depois do erro do zagueiro português e seguiu com outro gol bonito, não fez quase nada no jogo exceto se defender. Que mania a desses técnicos de recuar a vida, deus meu!

Não é um jogo que me obrigue, portanto, a chegar à raiz dos cabelos, visto que coisas ali trazem a marca do futebol, como a emoção, e me divirto no fim.

Mas eu olho. Não só cabelos. Coxas. Gente alta! Me irrita o Salonpas do João Félix que fica caindo do pescoço. Quem é o mais bonito em campo? Eu fico com o Rafael Leão, o autor do terceiro gol português. Na torcida de Gana as mulheres são maravilhosas e pulam o tempo inteiro, que animação, pena que seja gente rica humilhando os pobres na terra natal!

Mas pensam que é fácil ficar comentando assim na minha casa? Não. Futebol é religião. Não se aconselha ninguém aqui a rir do cabelo de José durante o parto de Jesus.

Pena, me restou amolar vocês!

2 de janeiro de 2021

Minha cabeça que roda e roda enquanto deveria ficar quieta é incapaz de inventar coisas simples e criativas como esta que li há pouco num texto de facebook, isto é, plantar sementes descascadas de limão em canecas para perfumar a casa e a encher de vida.

Sou muito ruim de tarefas domésticas e arrumação, e minhas habilidades manuais talvez se resumam a pendurar a roupa no varal de modo a que não seja preciso passá-la. Vou mal e minimalista na cozinha, sou impossível de crochê e não me arrisco a desenhar, mesmo tendo sido filha de um desenhista exímio, mulher de um e mãe de dois bons, um deles extraordinário.

Minha casa, para quem a conhece, é um retrato de histórias. “Sem decoração”, como fez questão de lembrar uma parente, com a ponta de sinceridade (não devo dizer maldade) habitual.

Livros por todos os cantos, livros que ganhei quando os editava para as publicações gerais, a cada dia menos interessadas neles. Livros que são antigos e que leio com vergonha aos pedaços, quando os leio. Livros em torno da tese que escrevi e só eu li. Tese de muitas pontas, que decidi qualificar de poligonal, e que não me possibilitou entrada no mundo acadêmico, como me lembrou um ex-amigo para justificar que ele não me defendesse quando fui publicamente ignorada por um crítico desinteressado dos livros, com lapsos de memória, mas gente de culto.

Infelizmente demoro demais a ler coisas novas, e até o pdf do livro-sensação ganhei, mas não me capturou logo nas primeiras páginas (alguma mágica que deixei de sentir), então logo me despedi dele, para começar a Felicidade Conjugal de Tolstói, homem cuja vida ou personalidade jamais admirei, mas que escreve como quem conversa as coisas desde seu princípio até sua impossibilidade.

Não sou uma scholar e não leio tudo, mas deixo de fazê-lo com culpa. Com culpa e responsabilidade. Tenho filhos jovens que leem e não raro se sentem solitários porque os amigos não compartilham suas leituras. Espero que, se houver netos para mim, sejam estranhos leitores no seu tempo, divertidos com os livros da grande biblioteca que possivelmente iremos lhes legar.

Tive filhos, tive misérias, mas nunca causadas por eles, com quem aprendi todo dia um novo modo de entender as coisas, estas que no fim das contas são muito parecidas, mas nunca iguais, nascidas da crise que é constante, como observou Edgar Morin, e que combatemos em oásis de felicidade, termo dele também.

Tenho igualmente muito amigos que não leram nada e que mal entendem do que eu estou falando. Mas, quando nos encontramos, rimos. Como perdemos essa possibilidade com a pandemia, de nos enroscarmos com vinho, nos lamentamos via memes, estes que considero uma grande invenção, mas que não têm o mesmo efeito de um comentário-soco em mesa de bar quando nele entra alguém.

Quem lê assim até pensa que sou do bar, mas sempre bebi mais em casa que fora dela. Meu marido é um pro, que identifica o bom da bebida entre o ruim. Eu também identifico, mas me envergonho por não saber as razões de superioridade ou inferioridade de qualquer coisa líquida, estas que ele descreve à perfeição.

Ele é bem perfeito em tudo, aliás, tem uma memória extraordinária e lê todas as coisas interessantes, muito mais do que eu. E não as dispersa pelo Facebook, como eu, carente da conversa alheia num círculo de amizades que a idade começa a fechar mais e mais. Ele guarda tudo para despejá-lo quase sempre na forma visual, condensada e difícil, da canção.

Por que estou dizendo tudo isto, não sei. Talvez por estar sorvendo estes dias livres, depois de pela primeira vez na vida ter trabalhado no dia 31 de dezembro (verdade, sempre forcei a sorte nos plantões de redação). Sou dispersa e desatenta de um modo geral, distraída pra morte, como dizia o Otto (aliás uma das coisas mais bem ditas da música popular), razão pela qual fotografo a rua com prazer.

Escrevo tudo isto com um dedo só no celular, e na cama, da qual demoro a sair de manhã, lendo ali mesmo, via internet, as notícias da barbaridade cotidiana. Fui jornalista que nunca admirou excessivamente os jornais, e não me lamento por ter perdido a gana, não só a grana, de comprá-los.

Nos últimos dias, os algoritmos têm me trazido as excepcionalidades, a natureza, um pouco menos de desesperança, razão pela qual agradeço.

Sim, é verdade que não vejo dilema em redes sociais, só escolhas, e até boas, muitas delas.

Tudo isto para dizer que tenho o coração tranquilo?

Nunca está.

Mas talvez por esta razão exista um infinito dentro dele, onde cabe você.

Deixem meu sorriso

Ah pronto.

Você não pode rir do que acontece de ruim.

E seria bom não chorar.

Seria melhor não acreditar, nem rezar, nem pular.

Estar contrito, vigilante, inabalável.

A seriedade confiável, a alegria sem juízo.

Seria bom não brilhar a carne, deixá-la intocável, segura de seu caroço, sua semente.

E assim não viver, nem sentir, apenas vigiar e punir.

Eu aconselharia aos moralistas progressistas da rede social também o riso, pois ele carrega consigo o deslocamento, a contradição, o paradoxo, a capacidade de raciocínio num segundo, a agilidade do sonho e do poema.

Aconselharia.

Porque não vou obrigar ninguém, obviamente, a nada.

E vou continuar no meu caminho.

Acertamos a cor!

A jornalista e a cabeleireira: oportunidade que o zap nos dá

Precisei do salão coreano ontem, para o qual me dirigi um pouco apreensiva. Há mais de um mês posto informações sobre a eleição no stories do WhatsApp, justamente para tentar furar a bolha e atingir pessoas como minha cabeleireira, cerceada por fake news que são  tubarões. O que ela acharia das informações que ponho para circular no zap?

Observo que, sim, ela é presente em cada status meu, embora não comente as postagens. Como minha cabeleireira, o tapeceiro, o dedetizador, a marmiteiro, o perueiro, a mulher que faz bela azeitona, a faxineira, a funcionária da imobiliária, alguns amigos e parentes, todos estão lá, sempre presentes. Mas não os vejo nunca, razão pela qual não preciso sofrer o desgaste do contato.

Agora vai ser diferente. Minha cabeleireira trabalha há décadas nesse salão que frequento há três anos, embora não seja coreana. Sua hidratação é ótima, usa vapor, um método que, tudo indica, a Coreia do Sul de belas mulheres bem tratadas também usa. Saio feliz de lá, quando vou, e gasto relativamente pouco.

Ontem, marquei um horário e só pude aparecer uma hora depois. Ela disse que eu poderia ir, mesmo atrasada, embora ressaltasse um problema de horário: teria de sair às cinco e ponto para a reunião da sua igreja.

Pensei: deus do céu. Mas também pensei: ela não me rejeitou. É uma boa profissional, só interessada no que faz. Mal conversa. Se for evangélica bolsonarista, não vai falar nada para perder a cliente, ninguém é besta assim.

Chego e a porta de vidro está fechada, como tem sido nos últimos tempos, quando famintos e noias se acumulam em todo canto, especialmente na rua José Paulino, para vasculhar o lixo, a tapas, diante dos atacadistas no fim de tarde. Olho para baixo do letreiro adesivado na porta de vidro do salão e vejo-a procurar quem chegou. Me sorri!

Entro no salão e sou a única cliente, com três funcionárias e uma gerente a arrumar as mesas, varrer e limpar materiais. Tento ser simpática: “Que sorte a minha, só eu e vocês!” Digo para a minha cabeleireira que me atrasei em função de um trabalho como jornalista frilancer e ela abre um sorriso ainda maior: “Você é jornalista, então! Só podia!” Eita. “Adorei aquele Tarcísio no poste, perdido em São Paulo, que você colocou…”

Ela é das minhas? Ou o que eu postei funcionou? Ela crê que eu só poderia votar em Lula, sendo jornalista. E eu retruco que há jornalistas bolsonaristas de monte, não se fie! Ao que ela diz: “Na minha família, a maioria é bolsonarista, especialmente quem trabalha em saúde (!). Por isso uso suas postagens, pra provocar eles no grupo de família.”

Hahaha. Sim, ela vota em Lula e hoje fará em sua casa mais uma leitura semanal do evangelho. “Mas sou a única que vota em Lula no salão. Os donos coreanos são bolsonaristas, claro.” Olha em volta: “E elas também!”, apontando para as colegas. Vixe. “Sabe quem está aqui e vai explicar as coisas pra vocês?”, grita para as funcionárias, de repente. “Uma jornalista!”

É claro que eu mereço. No dia em que encontro um horário pra cuidar de mim e relaxar, alguém me põe pra conversar com o gado, cheek to cheek! Contudo… É um instinto. Já entendo que não serei maltratada como fui pelo macho escroto que dirigia o carro do Uber. São mulheres, trabalhadoras, mães. Não é possível.

Então me imagine como um personagem de Jacques Tati. Estou metida num vaporizador que cobre os cabelos e solta fumaça pra todo lado. Três quilos mais gorda, depois da imobilização no pé, sou a própria jubarte no centro do salão, a dialogar com o povo! Estou no centro e elas, sentadas em volta. Me lembro da Dilma cercada pelos milicos de 69. Do Haddad no Roda Viva. Do Lula com Renata e Bonner. Me inspire, se isso for ao menos possível, paim!

A mais faladora é a loira de cabelos amarrados, uniforme preto, vassoura nas mãos, trinta e poucos anos. “Lula, sai fora!” Ela vota em Bolsonaro e “no outro” (gente) porque é de deus. Acha que Lula não é? “Meu pai era metalúrgico e votava no Lula. Dois anos depois que ele assumiu, não votava nele nunca mais. A vida dele piorou.”

Digo-lhe que tb fiquei desempregada nos primeiros anos do governo Lula, mas que não o culpei por isso. “Sou mulher da Bíblia e não aceito.” O que não aceita? “Certas coisas. Ideologia de gênero não!” Mas isso não existe, sabe? Kit gay é fake news. “Mas sou contra essas coisas na escola. Homossexualismo. Aborto.” 

Você diz, falar sobre isso? Mas é preciso falar. Ensinar o que é aparelho reprodutor. Eu estudei durante a ditadura e lá com meus 12 anos aprendi onde ficavam os ovários, o útero, o pênis. Quantos anos tem seu filho?

“Dezesseis”.

Então ele já pode saber sobre isso, não?

“Ele sim. Mas banheiro unissex não!”

Não existe banheiro unissex em escola. Como existiria?

“Na escola do meu filho querem implantar.”

Quem quer implantar?

“A escola”.

Então é só dizer que não quer, certo? O Lula não pode decidir isso. Como não pode obrigar alguém a ser homossexual ou a abortar.

“Ele disse que vai dar dinheiro pras pessoas. Quero é ver.”

Ele não disse que vai dar dinheiro. Ele não é o Silvio Santos! “Ele disse que, com emprego, você vai poder comprar as coisas”, pronuncia-se minha cabeleireira, sentada numa poltrona. Bravo! Mas a loira insiste. “Não se deve dar. Tem de dar a vara de pescar, não o peixe. As mulheres tinham seis, sete filhos só pra ganhar o bolsa família!” 

Mas querida, ter seis, sete filhos pra ganhar essa miséria? Como assim? Não é pedir pouco para a vida? “Tá cheio de gente que faz isso!” Mas, veja, com o bolsa-família tem de haver uma contrapartida, que é a criança estudar, isso é um grande benefício. “Aí que elas gostam! Deixam o filho na escola, ele come lá e tudo, ela não faz nada o dia inteiro!” Mas vc concorda que as crianças têm de ter merenda na escola, não? “Claro. Nos últimos anos elas têm sim, até almoço”. Na escola pública de seu filho oferecem almoço? “Sim, melhorou muito isso depois que o PT saiu”. É uma escola estadual? “É!” Interessante. Não sei de nenhum caso parecido. De todo modo, não é o Bolsonaro quem dá dinheiro para as escolas estaduais, vc sabe disso, não? É o governador, o Doria, foi o Alckmin, o PSDB.

Silêncio. “Dar dinheiro, dar cerveja! É isso que o brasileiro quer. Não trabalhar e ter tudo. Aí que ele vai folgar.” Você acha o brasileiro folgado? Acho que ele trabalha tanto! “É verdade, mas tem uns que Deus me livre.” Sim, mas isso tem em todo lugar, concorda?

Meus sais. Boca seca. Quero valorizá-la, quero valorizar o que ela construiu, ou ela não vai me ouvir. “Você me parece inteligente e informada. Tenho certeza de que não quer ser tratada com desrespeito, como a Damares trata. (Nessa hora estava tão empenhada que nem percebi o que eu falava.) A Damares inventa uma situação para deixar as mães apavoradas, silenciadas, contrárias à escola. Como inventar o que ela inventou, sobre as crianças na ilha de Marajó?

“Você acha que a Damares inventou aquilo? Aquilo acontece!” Ela inventou aquilo. Para assustar o público da igreja. Pra fazer campanha. O Ministério Público pediu as provas e ela não deu, disse que tinha ouvido das pessoas. “E as pessoas não podem estar falando certo? A gente ouve cada coisa!” Sim, a gente ouve. Mas a gente não é ministra dos Direitos da Família. Quando a gente é ministro, se ouve uma denúncia dessas, tem de investigar, mandar prender os responsáveis e acudir as vítimas. Ou ela mentiu sobre a violência pra fazer campanha pro Bolsonaro ou o fato existiu e ela não tomou providência! De toda forma, ela cometeu um crime.

“A verdade é que eu não sinto no Lula, sabe, um projeto claro pra economia.” Não sente? Olha, ele diz duas coisas importantes, ao menos. Uma é que rico tem de pagar imposto. E rico não sou eu, nem você, nem os donos deste salão. Rico é quem tem mina, terra. Então, essas pessoas não podem pagar menos, proporcionalmente, do que a gente paga. Salário não é renda. E outra coisa que o Lula diz é que o pobre precisa entrar no orçamento, isto é: tem de ter saúde, tem de ter escola pro filho, comida na mesa e emprego. Com políticas públicas pra isso, com dinheiro público. O Estado existe pra isso.

“Mas o Bolsonaro não pode fazer tudo.” Pode sim. Deve. A gente paga imposto pra ele administrar. Se eu estou em situação vulnerável, se não posso trabalhar por acidente, ou porque uma pandemia chegou, ele não tem de ajudar? “Tem. Mas ajudou, deu 600 reais, não deu?” Não foi ele que deu. Você sabe, ele é o presidente, o executivo, que executa o que o Congresso mandar. O Congresso, os deputados e senadores, sabe? Quem faz as leis? Bolsonaro não pode decidir sozinho. Neste caso, nem 200 reais queria dar! Foi obrigado pelo Congresso. Ele e o Guedes não gostam de povo. Governam pra empresário. Empresário sonegador, tipo o Velho da Havan. Mas não pode ser assim. O empresário tem de pagar imposto conforme ganha. 

“Eu acho que não importa quem estiver lá. Vai dar sempre errado.” Como assim? Faz muita diferença quem esteja lá. As diferenças que lhe contei. Por que vai dar errado? “Porque… ai, olha, eu sou da Bíblia.” Sim, isso eu entendi. Mas o que diz a Bíblia? “Diz que vai vir o Apocalipse, e que tudo vai desaparecer.” Ah, mas isso demora, não? E enquanto isso a gente não pode ser feliz, tomar uma cerveja e comer um churrasco?

Continua a varrer, “a senhora não me convence”, as outras abaixam a cabeça, minha cabeleireira ri. Termina o serviço e diz, levantando minhas mechas: “Olha que cabelo você tem! Parece uma permanente, cheio. E as mulheres coreanas aqui pagam pra ter o cabelo que vc já tem.” Gente. Nunca ouvi um elogio dela antes. No final me abraçou, sorriu e disse que agora acertamos a cor.

Acertamos a cor!

Polarization news

Quando passeio pela avenida Ipiranga…

É domingo, vou à feira no centro e já estendo o peito para colarem todo tipo de adesivo pró-Lula, até porque, na feira, o Verme não entra. Às vezes acho que nem panfletagem os vermináceos fazem mais. Os rios do orçamento secreto devem desaguar diretamente nas fakes do zap.

Bom. Vamos fazer pastéis em casa e na feira não tem catupiry. Me mando pro super dos chineses, mais barato no geral, em busca do ingrediente. Porém é domingo e os chineses não estão lá. Pergunto pro marrento branco gordo, funcionário de bermuda e boné, se têm catupiry. Me olha. Afasta os olhos. E me diz não, de lado. É o tipo físico do miliciano, mas se trabalha, miliciano não deve ser, só um fã estupidificado, mais um.

Me resta o supermercado do bairro também frequentado pela besta do Augusto Nunes, jornalista que, zumbi véi, sempre adentra o espaço sem olhar pros lados. Fazer o quê? No Carrefour, também aberto, não entro nunca mais, então só tenho essa opção. E penso: sempre que vou a esse mercado do bairro (e nem é sempre, visto o preço alto das coisas por lá) me tratam bem. Caem dois adesivos do peito pelo caminho, resta um, quase no ombro. Aperto pra ele ficar coladinho. Vamos ver como reagem.

Entro e encontro o catupiry, assim como o palmito, o aliche em conserva e o fundo de alcachofra. Fecho os olhos e decido levar tudo no meu cartão de crédito. Vou até a caixa e ela me olha por trás da máscara, a franja progressiva preta, solta, caindo sobre olhos. Penso: lá vem. Ela aponta meu ombro. “Esse sim!”, faz com um sinal de positivo. Ao nosso redor, ninguém. “Só não posso dizer isso aqui, mas é nele que vou votar”. Eu fico tão feliz e desconcertada a ponto de lhe dizer: “Isso aí, companheira!”

E são estas as notícias de polarização do dia.

Um mar de sangue em uma ilha de sal

Ganhei da amada Lulina no meu aniversário. Demorei pra engrenar, embora seja tão direto e simples. Descrever o aborto, comparar o exame da gravidez com o da aids, essa secura, essa distância, irrelevância, tudo isso que nos torna humanos, esse exercício existencial pra nos fortalecer, é difícil, mas feito sem assumido desejo de perfeição, sem rancor. Tão bonita essa ilusão, tão francesa. Annie Ernaux acaba de ganhar o Nobel de Literatura, porque a autoficção nasceu pra vencer. Neste livro, a cada golpe corresponde uma tranquilidade. Um mar de sangue em que há uma ilha de sal. A tradução de Isadora de Araújo funcionou pra mim como um dez.

então pronto.
eu me admito triste.
desde domingo não sou a mesma.
dor de cabeça, de corpo.
energia zero, sem dormir e lutando pra cumprir o mínimo.
mas isto não importa.
dá pra fazer tudo igualzinho com ou sem dor.
não que resolva muito, mas continuo denunciando fake news nas redes sociais.
discutindo com uberistas e porteiros se for o caso.
enchendo os amigos com as informações que tenho e trocando o que tenho pelo que me dão.
f-se.
não vou parar de viver só porque essa meia dúzia troncha de vizinhos resolveu que eu não sirvo.
essa meia dúzia é que não me serve, ela que não aguentaria um minuto de discussão com a gente.
vão achando que canhões matam ideias, vão!
nunca dei bola pra classe média paulistana, não ia ser agora.
espero que acordem, mas se não acordarem, que pena.
até a xtébtis sabe diferenciar um pato de um laranja!
e se a minha pessoa querida, minha conhecida, que perdeu seu filho pro Brasil já voltou a lutar, como eu ficaria quieta?
é tudo difícil como sempre foi.
e a gente sabe mais que ninguém que está lutando por nossas vidas, por nossa comida, nossa saúde, nossa escola, nosso impossível!
ainda temos tempo, sim.