O preço não mente

No Submarino, o Grupo Companhia das Letras oferece por 27 reais o livro de Thais Oyama sobre Bozo que custava 54.

E um outro volume pela Penguin, uma antologia com “textos” de Dallagnol, Pozzobon e Moro intitulada “Corrupção: Lava Jato E Mãos Limpas”, sai de 58 reais por 27.

Especialmente no caso deste último, me perguntou aqui o Mau, a Companhia está oferecendo 27 conto pra gente ficar com o livro?

Porque nem de graça a gente vai pegar uma radiação dessas com as lindas mãozinhas, mores.

o levante dos inhozinhos em longa duração

o pior é ter de reconhecer que são muitos os bolsonarinhos entre nós faz muito tempo, até mesmo antes de o verme aparecer em pessoa pra azucrinar os brasileiros todos numa sinfonia de escárnio sem fim.

microbiozinhos incultos, soberbos, orgulhosos porque nada sabem ou porque sabem uma coisa só, os que batem seu instinto sobre a mesa, os que não perdem tempo, os violentos, ressentidos, nervosos, óbvios!

há quanto tempo, hein, esses inhozinhos mamam a paz da gente na chuva, na rua, na fazenda, no cubículo gourmet?

O Verme e o lúgubre paraíso dos medíocres

O comportamento do Verme é o do menino de 14 anos que H.G. Wells viu em Hitler.

Como um Hitlerzinho, Verme precisa ser o dono do chão em que roda, sem contestação qualquer, sem guarda ou sinal de trânsito no seu périplo rodoviário. Ele está farto da infância escondida e quer esmagar os oponentes apenas porque está no mundo e é esse seu destino easy rider.

Doente mental, como sugerem?
Duvido.
Fascista mesmo, e já é bastante coisa.
Fascista dos brabos e renovados.
Fascista autorizado pelo capitalismo, esse sistema político-econômico que recorre ao irmãozinho menor violento, corpulento e sem cabeça sempre que as coisas se complicam pro seu lado e ele, o nerd flácido, está prestes a levar uma surra.

Fascista tem autorização pra ser fascista.
E sonha ser pleno.

Verme alcançou a plenitude!
Uma plenitude única.
Porque ele se torna pleno sendo sabujo de outros condutores de Estados terroristas.
É um curioso fascista antipatriota, modalidade que nos projeta como pioneiros no mundo em experienciar um nazismo sem nacionalismo, sem um uber alles sequer.

É o menino de 14 anos em profundo desprezo pelo mundo, ignorado em sua infância política, que nos governa. Parece até mesmo que este é o principal ingrediente para formar um ditador: que tenha sido ignorado por sua mediocridade na infância e, conforme vá crescendo, seja aplaudido mais e mais pelos medíocres.

Como Hitler, Verme só tem a oferecer a seus subordinados, que são todos os outros a pisar o mesmo país, a dor, o sofrimento e a morte. É assim o céu demoníaco. Quem o elegeu aceitou salivando a premissa funesta desse paraíso lúgubre, igualzinho ao que aconteceu com quem quis Hitler – e teve.

Quiseram.
Esperaram.
Não paz, não lazer, não conforto:
morte.
E a tiveram conforme pediram.

Embora hajam desejado e esperado o mal a todos os outros, não a si mesmos, nossos alemãezinhos de periferia já não são tantos como no início – embora muito barulhentos, os que restaram. Dariam ótimos prisioneiros feitores em Dachau.

Verme é o Super-homem, enquanto todos os outros, ralés miniaturizadas que devem andar de jegue, não de avião; os outros são coveiros, ele jamais; maricas que não param de reclamar, enquanto ele manda fazer; gente que fracassou, para que os sonegadores vencessem; quilombolas desprovidos de arrobas e indígenas sem um centímetro a mais, perdidos na poeira. Ele é o soldadinho inflado que não põe a mão na massa nem pra matar, porque tem escravo miliciano-policial-militar pra fazer.

Por acaso ele e sua família são melhores do que aqueles que o elegeram, sobre os quais ele pisa? Um tem pinto minúsculo, outro faz nas calças, o terceiro é enrustido abilolado. Mas são melhores, sim! The Hole Family!

E o que os torna melhores é o nada construído em torno. O que os torna melhores é o poder forjado para que simplesmente respirem acima da lama nostálgica, enquanto os outros chafurdam nela sem nariz.

Hitler não teve filhos, não é?
Que bom.

E Hitler foi abandonado pela classe média branca que o apoiou (ou não se mexeu) quando tudo começou a dar errado pra ela. Depois de se ver tratada muito mal, sem poder de compra, sem lei, sem sol, aí, só aí, essa classe média-medíocre começou a pensar que Hitler não era mais uma boa ideia.

Principalmente quando desprovidos do sonho dourado de que a exclusão dos judeus, pretos, ciganos, conscientes, esquerdistas ou doentes lhe faria bem, a classe média de Hitler deixou de ser o sustentáculo do líder.

Isto vai fatalmente acontecer ao Verme, visto que a classe média de nossos alemãezinhos inferiores já se levanta, impaciente, escondida e atônita.

Vai acontecer sim.

O problema é só um.

Não sei quando.

Um jantar com Robert Crumb

Em 2010, a oportunidade de estar com o desenhista e Aline Kominsky,
com Gilbert Shelton e Lora Fountain, foi-nos oferecida pelo editor de seus livros no Brasil,
Rogério de Campos, depois que entrevistei o artista por ocasião do lançamento de “Gênesis”. Nesta rara ocasião, contudo, quem ficou a conversar com Crumb, principalmente sobre música, foi o Mauricio Tagliari, também convidado, que me acompanhou. Me diverti, isto sim, em falar com as maravilhosas mulheres dos desenhistas, que
rapidamente se cercaram de mim no sofá da sala… Aqui vai um resumo do que fomos
e falamos naquela noite de agosto, na qual descobri que Crumb era canhoto,
não bebia álcool e havia trocado os Estados Unidos pela França depois
de sua filha ser discriminada na escola por ter pai “pornógrafo”

As assinaturas de Gilbert Shelton,
de sua esposa Lora, de Aline Kominski e
Robert Crumb: presente de fim de noite

Em 2010, por ocasião do lançamento de “Gênesis”, pela editora Veneta, entrevistei o estadunidense Robert Crumb, algo extraordinário para mim. Eu o admirava por eternizar seu país à moda de um fundador, muito distante do puritanismo, já em voga então. Um desenhista aberto, contra tudo e contra todos, à investigação e à arte. A esta entrevistadora, pelo telefone, Crumb se mostrara paciente e gentil, disposto a lhe explicar como vertera o Antigo Testamento aos quadrinhos segundo um princípio fielmente literário. Enumerou preferências entre os novos desenhistas, informou que seria avô pela primeira vez e pediu aos marmanjos que ficassem longe de sua filha.

Imaginei que tais modos atenciosos e bem-humorados não fossem dirigidos a mim de forma exclusiva, até que deparei com a repercussão à mesa da qual ele participara na companhia de Gilbert Shelton, durante a última Festa Literária de Parati. Segundo disse a imprensa, os dois amigos, atualmente residentes na França, foram desinteressados, monossilábicos e repetitivos diante do público festeiro, que pouco a pouco abandonou a tenda na qual supostamente debateriam. Tais jornalistas desqualificaram a mulher de Crumb, Aline Kominsky, pela qualidade de suas piadas. A grosseria midiática prosseguia por caminhos que eu decidira não percorrer. Perguntei-me apenas de que Crumb falavam os colegas. De que Shelton, de que Kominsky. Até que fui convidada a jantar com eles.

Em uma segunda-feira, dia 9 de agosto de 2010, Crumb, Kominsky, Shelton e sua delicada esposa, Lora, também empresária de Crumb, aportaram na casa de seu editor brasileiro em São Paulo, Rogério de Campos, e de sua mulher, Letícia. Chegamos, eu e o produtor e músico Maurício Tagliari, um pouco antes de o jantar ser servido, mesmo concluído. Os artistas estavam no trânsito, atrasados porque o motorista que os trouxera de Parati se perdera em São Paulo. A cidade foi vista pela primeira vez por eles, portanto, sob a perspectiva da exaustão. Que humor teriam para nós esses seres postos diante da realidade sul-americana pela primeira vez?

Os quatro chegam para o jantar com muita simpatia e, solicitados ou não, espalham suas impressões. Tudo desenham e tudo observam. Suas imagens nunca param de aparecer durante as conversas, puxadas de um grande arquivo, com infinitos comentários oportunos, de quem, na vida, muito leu e aprendeu ao folhear papeis. Estavam impressionados com São Paulo. Como notou Aline, perto de seu hotel, em Pinheiros, havia casas decoradas com estranhos balões à espera de convidados para festas infantis. Muitas lojas ofereciam, de forma exuberante, roupas para casamento. Estranho, para caracterizar isso, seria um adjetivo simples. Contei a elas como o escritor V. S. Naipaul, aqui presente há 17 anos, qualificara a capital, em uma entrevista concedida a mim: dreadful, terrível cidade, apesar de ocasionais habitantes cultos, como não havia na sua Trinidad.

Aline, que sorri constantemente e fala com desenvoltura, achou o qualificativo de Naipaul exagerado. Éramos, no seu entender, apenas confusos. Sem qualquer plano, como se tudo tivesse sido plantado sobre o asfalto de uma só vez. Era difícil explicar que São Paulo tivera planejadores na medida exata de seus destruidores. Não desejei alongar-me sobre a Light, sobre como fecháramos nossos olhos para o inconsciente da cidade, representado por seu mais importante rio, e sobre como o elitismo de uma classe matara nossas esperanças de uma convivência harmoniosa.

Mudei de assunto. Muito bonita aos 63 anos, olhos claros, os cabelos ruivos ondulados nem tão fartos como aqueles que Crumb tantas vezes retratara, Aline falava rápido, mas, atenciosa e educada, não só de si. Muito atenta a todas as intervenções alheias, interessava-se, como Lora, pelo que era evocado ou dito. Ela não bebe álcool, Crumb também não (ele adorou o guaraná). Lora e Gilbert alternam-se moderadamente em vinho e cerveja. Aline dá aulas de ioga na França. Mostrou-me a foto do neto de dez meses no celular. Ela e Lora dizem que Eli Robert é “um Buda”. Calmo, o rosto redondo, naquela foto o bebê sorria para a avó em sua piscina. Falsas pedras decoravam as bordas.

A filha, Sophie, é a cara de Crumb. Ouvi o que não sabia: eles decidiram deixar os Estados Unidos há vinte anos depois que Aline indagou à diretora da escola a razão de não haver crianças quando Sophie chegava para as aulas. A diretora respondeu-lhe que era um pedido dos pais, preocupados que seus filhos convivessem com a família do “pornógrafo infantil”. Depois disso, como Lora já morava em Paris, Aline, que tem prenome francês e parentes na Venezuela, decidiu criar a filha em outro lugar. No interior da França, a reação da diretora ao saber que Sophie era filha de Crumb foi bem diferente. Ela o lera e queria dar acesso a seus livros. Aline, precavida, perguntou-lhe se conhecia o conteúdo de muitas das histórias. Sim, claro, disse-lhe a diretora, segurando o sorriso com as mãos.

Eu conversava com elas enquanto Crumb, Shelton e Tagliari olhavam as belas estantes forradas de livros de arte, literatura e história da casa do editor. Aline lhe confiou trezentas páginas de uma produção autobiográfica. Os olhos de Crumb orientaram o interesse geral para os discos nas estantes. Ele maneja o banjo, diz, mas sempre informalmente, nas coisas básicas e simples. Tocou durante o casamento recente da filha. Mas não tem banda. Seus clássicos são os do blues e do country da época dos discos de 78 rotações.

Crumb à mesa, ao lado de Lora,
registrados pelo celular muito ruim que eu tinha à época:
ele só queria falar sobre música brasileira

Durante as cinco horas em que a recepção se deu, sua conversa quase única com os convidados foi música brasileira. Conhecia Pixinguinha, mas não os Oito Batutas. Jamais ouvira falar de Noel Rosa e surpreendeu-se com o retrato falado do Rio da época, a polêmica com Wilson Batista, a morte de Geraldo Pereira por Madame Satã. Tagliari, com quem trocou ideias sobre música a maior parte do tempo, contou-lhe as tantas histórias da Lapa, e ele as anotava de maneira meticulosa, agradecido, disposto a construir os nomes dentro de uma genealogia, sempre transcrevendo datas de ocorrência, como um historiador. Crumb, um homem alto, escreve com a mão esquerda.

Ao final do jantar, ele e os três desenharam-se como agradecimento a quem os recebia, sobre uma folha de caderno universitário. Para mim e Maurício Tagliari, Aline legendou-se como “serial killer”, cabelos fartos e grandes brincos. Crumb fez-se por trás de seus cabelos, dizendo-se um serial killer como ela. A expressão do clássico desenho autobiográfico do artista era de perplexidade. Shelton fez-se como um de seus personagens freak brothers, cabelos amarrados e chapéu, e o lindo desenho de Lora evocava os anos 1950, algo assemelhando-se a um personagem famoso da época, Clementine.

No dia seguinte, os quatro visitariam a loja Eric Discos, na rua Artur Azevedo, porque só ali talvez encontrassem o puro som das antigas bolachas de vitrola. Crumb não parecia preocupado com toda a futrica originada de Parati. Lá, ressaltaram, foram muito bem tratados, com a curiosa e obrigatória oferta de guarda-costas para onde se deslocassem. Aline Kominsky queria saber quem era Fernanda Young, uma vez que fora comparada à escritora e apresentadora brasileira após o evento. Seu editor disse tratar-se de mulher bonita e divertida, responsável pelo humor de uma série de tevê. Aline talvez quisesse saber se a comparação era boa ou má.

Shelton divertia-se de observar. Falava às vezes, ria sempre. Em uma das ocasiões, solicitou nossa tradução para uma nota de jornal em que, supostamente, a atriz Regina Casé lamentava a performance de Kominsky durante a Flip. Aline parecia não se chatear com nada. E destacou que as perguntas organizadas pela mediação durante a mesa foram pobres, denotando desinformação. O público que ama Crumb e Shelton merecia mais. Pelo menos, acreditava ela, mais humor.

Shelton, Lora, Crumb, Aline, Mauricio e Letícia:
era agosto, fazia frio e nós partíamos

Josias, o sr. Frialdades

Não vou postar aqui a fala plena de raivinha e de mãozinhas explicativas de Josias de Souza ao espumar contra a liberação de Lula. Ele já tem audiência demais, justamente por ser triste.

Fico aqui pensando na suja diversidade desses estilos jornalísticos. Cadê o verniz, turma?

Tão difícil saber quem é pior, se Vera Magalhães (que voz!) ou Merval (que dono de puteiro!). Me confundo tanto, não sei a quem premiar.

Josias, querendo mostrar serviço às Frialdades, sofre de emplumação, ademais com um anel bojudo no indicador, que volteia para pontuar suas frases num crescendo de estupidez até a conclusão.

O que me divertiu mesmo foi um comentário no Twitter sobre a tal fala: “O Josias é o Olavo de Carvalho da Folha.”

Hahaha.

Se bem que não seja, não.

Se há algo que Olavo não faz é girar em círculos pra pronunciar a palavra anal que mais ama. Josias está a dizê-la sem a dizer, cera, enceradeira, muito fazer nada em campo pra um Zinho só.

Almofadinha! Isto sim é o que ele é!

O chato é que nem assim consigo decidir a quem dar o troféu.

Istas

Acho muito curioso perceber uma coisa sobre o nosso ativismo digital fuleiro de todos os dias.

O que as pessoas chamam de ativismo em nós é apenas a tentativa que empreendemos de restabelecer as palavras corretas para as situações vividas.

Vocês se lembram quando cinco anos atrás a gente chamava o golpe de golpe e eles (seus amigos, colegas de trabalho, chefes, família) se riam de nós?

Ativismo é apenas saber ler e escrever munidos do impulso, ou a mania, de tentar fazer o próximo acordar para a necessidade de leitura e de escrita.

Filé adocicado

Conheci o Reinaldo. Convivi com ele no final dos anos 1980, um sujeito muito culto e inteligente. E é verdade que admirava desde então a sagacidade de Lula, talvez por reconhecer de onde ela vinha, da ausência de visibilidade social. Reinaldo nasceu sabendo que era maior que este mundo, como Lula, claro, também.

Principalmente, Reinaldo foi sempre submisso ao poder, a tudo o que emanasse dele. Apaixonado pelo patrão do Diário do Grande ABC, que o descobriu, entregou-se ao Frias posteriormente. E viveu essa pataquada de ser de direita esses anos todos porque era moda, desde o Paulo Francis, apresentar-se conservador. Isto agradava aos patrões. Reinaldo sempre foi chaveiro de quem tem o poder.

Qualquer um admiraria a qualidade direitista num jornalista disposto a fazer carreira. Seja conservador, seja herói. Daniel Piza, Mario Sabino, trabalhei pra todos e segurei a onda de
todos. Piza sempre foi acochambrado, um menino do deslumbre, que comprava roupa na Daslu. Mas Mário era do PT e escrevia pra sua revista. Todos, exceto o Mário, me viraram a cara ou traíram, razão pela qual me inquieto com sua porção vendida atual.

Mas voltando a ele, o Reinaldo. O Reinaldo que conheci não permitiria uma crítica sequer a Marilena Chauí. Naquele tempo, a complexidade da filósofa tinha algo de mitológica, emanava um poder ao qual quem é invisível se entrega facilmente. Mas isto, como tudo, passou.

Pois bem, Lula.

Reinaldo está enamorado de Lula, por que não? Até hoje fez tudo para chamar sua atenção. Quer amalgamar-se a ele, como fez com o Frias e talvez agora, sei lá, faça com o Johnny Saad. Ele interrompe Lula o tempo todo na tentativa de equivaler suas experiências de vida. Eu fiz isso, você aquilo. Eu, eu. Você me ouvia na prisão, Lula?

Não, Reinaldo, você não governou o Brasil. Não, ele não poderia prestar tanta atenção assim em você, tenho vontade de dizer. Não, Reinaldo, filé mignon não quer dizer macio, mas pequeno – porque se eu não lhe explicasse isso lá em 1990, ele iria querer entrar na porrada verbal com o dono do restaurante, por considerar seu medalhão insignificante no prato.

É muito inteligente, repito. É engraçado. Mas uma inteligência perdida. Eu não saberia explicar direito como acontece uma coisa dessas.

Hora de dormir, não consigo desaparecer

tem horas, como agora, que é duro pensar no que somos, todos nós, um a um, neste momento que gira nossas cabeças.

tristes, cansados, brasileiros, bêbados.

(e minhas costas doem.)

em que dimensão nos jogaram, Doug? onde o túnel foi parar?

hora de dormir, e não consigo desaparecer.

essa tragédia que não ensina nada a ninguém não sai diante dos olhos, entra pelos sete buracos da minha cabeça, essa presença, essa ausência.

estava assistindo a “La ronde”, do Max Ophüls, 1950, e de repente a bicicleta no carrossel (sim, havia uma bicicleta no carrossel) girava e girava e me ligava diretamente aos ciclistas da rapi andando sem máscara.

“La ronde” é uma ciranda de amor, uns contos de amor entrelaçados em que um cavalheiro se segue a outro em sua perdição amorosa cotidiana, e as mulheres são irônicas, e os ridicularizam, pois nada mais podem fazer, e todos voltam ao mesmo lugar…

Estruturas de sonho de Arthur Schnitzler, o autor da peça de origem.

(Prazeres tolos: é a tolice, não o prazer, o pecado.)

Há um momento em que um desses homens se torna risível ao lado de uma mulher casada na cama – e sabemos disso porque lá fora um fusível do carrossel pifou.

me senti aquele fusível!

e ele também, o personagem, é claro. ele cita stendhal pra dizer que amor demais pode derrotar… mas ela só levanta os grandes olhos, pobrezinho, não foi desta vez.

divertida essa peça de Arthur Schnitzler, a gente supõe, tanta coisa inventiva que o Ophüls faz a partir dela. O muito com tão pouco, os reflexos pela janela num cenário repleto dos badulaques burgueses, mimos e cristais! Vejo hoje que as comédias italianas citaram tão bem esse estado de coisas, que Buñuel, que não é bobo bem nada, foi atrás disso no anjo exterminador.

Essas iluminações rosíneas me alegram, às vezes é tudo o que eu tenho de meu, mas não, agora não, nada me traz paz.

depois do filme, é preciso mais uma percorrida no celular (quem mais nos engana, quem agora nos quer mal?), mais um texto, mais um poema, ou nada vai acontecer.

ciranda, carrossel, cavalo, bicicleta…

estamos sós!