Lula e a pátria-mãe

Lula e Dilma no lançamento da campanha à presidência, Anhangabaú, 20 de agosto de 2022.
Foto de Ricardo Stuckert

Discursos de Lula. Eis os triplos carpados que as escolas deveriam de vez em quando mostrar aos alunos, se um dia já não o fizeram, de modo a contribuir para a evolução de seu pensamento. Falo de escolas hipotéticas, claro. Escolas de raciocínio, escrita, improviso. Lugares que talvez ainda não existam no Brasil, porque nem o Brasil existe hoje, vamos dizer assim.

E por que as escolas terão Lula no futuro? Bem. Todo mundo já ouviu falar do discurso de Lincoln em Gettysbourg, aquele que selou a vitória sobre os confederados na Guerra de Secessão. Todos sabem que Luther King teve um sonho, e que disse isso a quem, no seu tempo, lutava pelos direitos civis. Todos conhecem a carta que Getúlio Vargas deixou para que a história o lesse com seus olhos. Até Jânio fez das suas, naquela sua típica escuridão. Hoje temos nosso jeito de avaliar o que essa gente aprontou para o mundo, dar o peso das suas atitudes, lendo sobre suas ações. E fazemos isso também por meio de seus discursos, esses que permanecem por si, como poemas da política.

As escolas brasileiras não informam sobre os discursos de Lula hoje. Ou ao menos supomos que não. Mas as do futuro não terão saída. E, independentemente dos erros que ele tenha cometido na política, as do futuro vão ouvi-lo. O futuro é onde permanecem as coisas duradouras, mas combatidas no presente, plenas de faíscas nem tão visíveis hoje.

Não sei se ouviram o discurso de ontem no Anhangabaú, abertura oficial da campanha política de Lula à presidência. Aqui de casa, porque moro no centro, a gente sentia os ecos das falas e dos apupos. Quando Dilma Rousseff apareceu, o chão tremeu. Lula deve ter sentido esse tremor por lá, naturalmente. E aposto que na onda daquele carinho que as pessoas manifestaram por sua querida, Lula pegou o barco para outras coisas que pretendia dizer sobre a condição feminina no Brasil de hoje. Nossa condição de mulheres é aquela que confronta diretamente a miséria brasileira, e Lula sabe bem a quem falar, a quem pedir.

Eu acompanhei seu discurso pela live no Facebook de Gleisi Hoffman. E juro que ele comparou Dilma Rousseff a Tiradentes. Tenho certeza de que já havia pensado nisto antes, nessa particularidade simbólica do destroçamento de Dilma à exposição pública, na sua carne salgada para intimidação histórica. Mas depois de sentir a acolhida a Dilma no palco da manifestação, aquela que a fez chorar, Lula a incorporou no que já iria dizer.

Dilma seria Tiradentes porque, antes tão difamada publicamente, hoje já pode ser  acolhida à maneira simbólica. Lula leu: Tiradentes, o maltratado pela elite portuguesa, foi absorvido como símbolo brasileiro somente pelos golpistas da República. Já temos público para entender isso, ele decidiu. E passou à lição histórica.

Um símbolo do passado é arrancado sempre que falta outro, de mais potência, no presente. Foi o que aconteceu com os golpistas militares republicanos. A quem poderiam recorrer? Tiradentes estava no ar, um homem contra os abusos da Coroa portuguesa, esta que eles, tão sem modos, acabavam de despachar. Tiradentes! Dilma! E Lula não se intimidou em comparar os contextos. Ele faz história, mas é também um historiador. Um historiador não somente porque conhece os fatos e os memorializa. Historiador porque reinterpreta esses fatos, porque o passado merece uma nova leitura que o resgate das mãos sujas do tempo. Lula leu Walter Benjamin? Não sei.

Acho que ele já pretendia dizer isso, mas ontem foi o dia. Seu pai, um pária. Um verme, quase. E não é que hoje conhecemos pelo menos um? Lula desancou a figura paterna que batia na mãe. Vi o Haddad, lá no fundo, abrir a boca. A metáfora da pátria como mãe é terrivelmente oportuna, e sempre podemos recorrer a ela. Perder um país é perder a própria mãe. Mas nossa mãe, como a mãe do Lula, como a Dilma, não se intimida. Tira os oito filhos de lá, como fez a mãe do Lula, e refaz o lar em outro lugar. 

Seremos os filhos desta pátria novamente? Eu creio que seremos. Uma pedra fedorenta não consegue interromper o correr de um rio, um rio e seu fluxo. Ouvir Lula equivale a um aprendizado, não apenas de retórica. Livre pensar, mais do que só pensar. Esta pátria manchada é a liberdade em movimento, é nossa mãe.

Mattoli à brasiliana

Roberta Gomes, Maurício Tagliari e Marco Mattoli na Biroska, em 2019

Mau, meu marido, era já amigo dele havia décadas quando finalmente o conheci, em um desses cinemas da avenida Paulista, em São Paulo, durante a première de “Mundo Cão”, em 2016. O estranho filme de Marcos Jorge inspirado em “Un Borghese Piccolo Piccolo”, de Mario Monicelli, embora ancorado na Globo Filmes, não faria sucesso algum.

Eu diria que Jorge, embora tendo estudado cinema em Roma, não havia absorvido o espírito frio como aço da commedia all’italiana, algo, cá entre nós, que seria muito difícil mesmo para qualquer um fazer. Seria preciso ter estado lá, naquelas duas décadas posteriores ao fim da guerra, sofrendo aquela Itália de um classe média sonegadora e pequena (alguma semelhança com o que acontece em outro tempo e lugar?), e além disso, estar munido das garras do socialismo crítico de Monicelli, para entender aquele tipo médio italiano que nem pequeno burguês chegara a ser. 

Contudo, com toda a parcialidade possível, eu havia entendido que a trilha sonora composta por meu marido, o Maurício Tagliari, para “Mundo Cão”, com a participação do Marco Mattoli, dera a dimensão da malandragem que a ficção havia tentado mostrar sem conseguir.

Mattoli cantava ali com a bossa de um Wilson Simonal. Uma coisa propositadamente suingada, a evocar com muita beleza um cantor que a história não repete. E assim o filme ganhava o sal que sua direção (ou a produção de Daniel Filho) falhara em ter. 

Em certo momento da première nos vimos juntos, Mattoli e eu, os sem estrela, presos num corredor, e ele que mal havia sido apresentado a mim começou a me falar de filhos. Do meu, que então estagiava no estúdio onde ele trabalhava… “Ele tem talento, musicalidade, é um menino muito bacana”, foi dizendo. Agradeci e comentei alguma coisa em relação ao conflito geracional que temos de enfrentar em relação aos nossos meninos, e ele começou a me falar da filha arquiteta, que tanto respeitava.

Pronto. Desde então, sempre me senti próxima dele, do modo como a gente sente um igual, embora nunca mais tenhamos conversado muito tempo sozinhos, e com tanta franqueza. Certeza que eu não fora a única com quem Mattoli dividira um momento assim, pois se uma coisa ele fazia como ninguém era tratar a humanidade como uma situação a seu alcance.

Em uma ocasião na qual desejava introduzir o Maurício ao imenso talento musical da compositora Roberta Gomes, por exemplo, cozinhou meticulosamente um macarrão a carbonara para nós, e eu notei pela primeira vez a seriedade por trás daquele sorriso. E ele só extravasou a enorme alegria de novo pra mim quando soube que eu tinha relação com a “Animal”, revista que ajudei (ou atrapalhei) o Rogério de Campos a fazer. Era um amante de quadrinhos. Liberatore!

Fui a muitos shows do Mattoli nestes últimos anos, do Clube do Balanço ao Samba do Marcos, ou àqueles de que participava como convidado. Bebíamos e ríamos muito depois. O último foi o show da big band Nova Malandragem, que ele produziu com Maurício para o selo Mundaréu Paulista, criado pelos dois. Que descoberta! Que músicos além de seu tempo! “Feliz com essa juventude, né, querido?”, eu lhe perguntei. E ele, sério, cabeça baixa: “Gosto muito também”.

Em maio fiz aniversário, convidei-o a almoçar com a gente, mas ele andava por uma Ilhabela ensolarada (ainda bem!), com sua linda Betânia. Não deu.

Meu italiano sambista, figura rara, tive tanta sorte em lhe conhecer! Você viverá para sempre na gente, como um pedaço de luz.

cafonice leibowitz

Não, não é inacreditável Anne Leibowitz ter encenado os Zelensky compungidos diante de sacos de areia fake e de soldados que são modelos da “beleza azov”.

Ela é isso. O kitsch, as sobras representativas dos valores do dinheiro. Ex-mulher de Susan Sontag, ensaísta que esteve em Sarajevo para experimentar o sabor da guerra.

Claro, Sontag representou mais porque se arriscou mais. Era uma boa influencer no seu tempo.

E o que significa Leibowitz, exatamente? Nem chega a ser fotografia. Uma abominação ética de classe média, como ensinou a Chauí? Arrisco dizer que nem isso. Uma cafona, talvez.

no meio da escada, a gente ruim

Vi no Facebook uma foto, que não reproduzo, de apoiadoras ricas do verme. Extasiadas, sorridentes, nem todas botocadas, algumas bem jovens, elas se perfilavam em torno de uma escada. Ao aproximar seus rostos com o zoom, senti uma espécie de desmaio emocional. Como se tivesse batido a cabeça na parede e ela balançasse. Como se, diante de tais mulheres, me tirassem um pedaço de pele. Eu sei que hoje, no Brasil, essa gente é comparativamente pouca. E piso nela com o meu coração. Mas a foto me diz que ela existe, barulhenta como lhe convém, por aí. Talvez eu até tenha tratado bem alguém próxima delas. Talvez os graus de separação entre nós sejam menos que seis. Talvez eu tenha escrito algo que leram ou lerão. Talvez eu tenha cruzado com uma delas no laboratório de análises clínicas e nossos vestígios se entreolharam! Talvez a mãe de uma delas tenha estudado comigo naquele tempo de bolsista de colégio pago, talvez essa mãe me reconhecesse e abraçasse ao me ver! O trigal dourado não tem fim. É como se eu voltasse ao pior dos pesadelos dos contos de fada. Como se fosse Bambi de novo, sem minha mãe. Como se ouvisse outra vez a história de João e Maria abandonados ao caldeirão da bruxa pelos pais. Desde a visão das imagens dos convalescentes da covid nos hospitais eu não me sentia tão ruim. Não pode ser que essa gente vença, não vai vencer, não vai.

A Casa Abandonada no mundo bizarro de Seinfeld, Billy Wilder, Gil Gomes e Grey Gardens

Ao espetacularizar um caso não resolvido, caímos num buraco sem fundo

Edith Bouvier e a filha Little Edie em “Grey Gardens”, de Albert Maysles

Mundo Bizarro. Assim, em um episódio do programa Seinfeld, intitula-se um universo ao contrário. Nesse universo especular, o Super-Homem faz tudo inversamente, fala tchau quando deveria dizer oi. Esse princípio dá origem, no episódio, a situações semelhantes no mundo dos personagens. Ali aparecem os duplos dos amigos tão especiais da personagem Elaine – porém, ao contrário deles, nerds, que leem livros e têm compaixão.

Em “Seinfeld”, a repetição
bizarra dos amigos de Elaine

Ontem assisti ao episódio de Seinfeld na Netflix e ele me remeteu ao caso A Casa Abandonada. Quando apareceu o podcast, não o ouvi, possivelmente não ouvirei. Gosto do que o Chico Felitti escreveu sobre Fofão, um personagem doce, gentil e muito conhecido na região em que eu morava. A apuração de Felitti sobre sua história foi extensa, compassiva, como não existe mais nos jornais. Alô, jornais! E a Folha, sabedora disso, uma das maiores responsáveis pelo estado de pobreza escrita e moral do jornalismo, encampou a ideia para dela se beneficiar.

Mas, bem, o Chico Felitti, no caso do Fofão, novelizava um caso resolvido – Fofão morreu. Enquanto agora optou por uma narrativa em andamento. Isto é, uma personagem com um passado de crime que se deteriora física, quiçá mentalmente, numa casa abandonada em um bairro central e rico de São Paulo.

O dramaturgo Sófocles dizia que a história de alguém só pode ser conhecida com sua morte. Não sabemos de verdade o que aconteceu e acontecerá com a personagem em questão, com o que se passa realmente com ela neste instante. Por que novelizar o caso sem dispor desses elementos?

Kirk Douglas em “A Montanha dos Sete Abutres”, de Billy Wilder

Ninguém aqui quer evocar, penso, A Montanha dos Sete Abutres, filme que Billy Wilder fez em 1951. Nele, Kirk Douglas interpreta um jornalista que, ao descobrir a história de um mineiro encalacrado, dá ibope ao seu trabalho de apuração mantendo a vítima presa quando poderia ter ajudado a soltá-la. O jornalismo é moralmente indesculpável. Claro que Chico nada parece ter do personagem de Kirk Douglas, mas o problema, aqui, é que não sabia da história toda para novelizá-la. Um Mundo Bizarro de Gil Gomes que resultou no desfecho de Datena.

O radialista Gil Gomes, ritmo fantástico

Gil Gomes! Cresci ouvindo os programas de rádio dele, muito bons. Diários. Os crimes eram dramatizados como os jornais não saberiam ou poderiam fazer. Com ritmo, repetições, um suspense doido, um sensacionalismo até o limite. O radialista, que também atuou na tevê, morreu em 2018.

Não ouvi o podcast do Felitti, mais uma vez. Penso que o jornalista, com seu talento de escritor, tenha feito uma novelização expandida, muito bem montada, de um caso que tornou quente. Impossível de se ver decidido pela polícia local, por não ser competência da justiça brasileira resolver a questão – nem a polícia, portanto, pode agir. Mas por que agiu? Brasil. Mundo Bizarro de polícia. Mundo Bizarro de democracia, e a polícia, ontem, foi até lá, com Datena para dar um fim ao espetáculo, vitimizando a mulher que vive em condições precárias após ter fugido décadas atrás dos EUA, onde escravizou uma empregada.

Que história! Quanta semelhança com o caso Grey Gardens, em que uma prima de Jacqueline Bouvier Kennedy, nos anos 1970, deteriorava-se nos Hamptons, na casa abandonada em que morava com sua mãe! Mundo Bizarro novamente, porque, ao contrário da moradora da Casa Abandonada, Edith Bouvier e sua filha, Edith “Little Edie” Bouvier, não cometeram crime algum, exceto talvez o de saúde pública, que já havia sido resolvido pela própria Jacqueline quando o filme de Albert Maysles sobre o caso se deu, em 1975.

Nem quero imaginar o que acontecerá em torno dessa mulher brasileira a partir de agora. As espetacularizações começam com um estrondo e terminam num sopro. Para, Mundo Bizarro, que eu quero descer.

zunir pra ser

devíamos ser como os pernilongos que voam até o andar alto onde moro, todas as noites, faça frio ou sol, e me acordam durante o sono já precário, e bagunçam meu corpo pesado até no espelho, e me fazem perder a hora para a ginástica urgente de manhã, devíamos ser como esses bichos invisíveis, barulhentos, sedentos, lazarentos, contra o putrefato no poder que decretou viver eternamente com os pés fincados sobre o que a muito custo somos, nossos corpos, nossos dias, nossos sonhos.

Acontece assim.
Eu aceito todo mundo no Facebook.
Ou quase todo mundo que me pede “amizade”.
E noto que, por conta da porta escancarada que deixo (desse jeitinho mesmo, pra queimar meu carma, esse que nem sei se existe), ando aceitando sem perceber uns desequilibrados bolsonaristas que querem viver de arte sem largar o Bolsonaro e ainda me procuram para abraçá-los.

Uns doidos, doídos completos, mais do que somos neste lado da margem Pinheiros, zuretas de andar nus com roupa de plástico.

Tenho de desfazer a amizade com eles, mas, como são loucos, sinceramente sinto pena e ainda oferto umas xícaras de chá de boldo, quem sabe o amargo chegue ao doce?

Mas não sinto a mesma pena por senhoras condescendentes que me advertem por eu ter ofendido a religião X ou Z ou porque coloquei um meme muito divertido supondo uma atitude horrível partida de keanu reeves, obviamente estúpida e mentirosa, e por isso mesmo coloquei, mas elas não perdoam, gritando: “estúpida”!
Antes eu fosse estúpida, minha filha, mas o Brasil, de verdade, me tornou entupida. Me entupiu.
Por não fazer qualquer sentido, tudo isso ficou divertido…
E daí vêm me cobrar por ter proferido fake news?
Quando é que ironia virou fé?
Eu não to nem aí pra fake news.
Não sou eu que faço.
Fake news é o que fazem a Globo, a Folha, desde décadas atrás, quando suas peruas levavam suas jornalistas pro calabouço do DOI-CODI.
Só dou bobeira, pegadinha, contradição, sarcasmo, incoerência pra efeito cômico.
E que as pessoas se divirtam!
Virem-se!
Cresçam!
Deve haver um coach por aí que aumente QIs penianos!
Corram!
Me deixem boiar no vácuo de inteligência de vocês, vocês que andam atrás de um candidato melhor que Lula, um revolucionário bombado, ao menos!
Good luck and don’t fuck it up!

Tudo pode dar certo: minha entrevista com Geraldine Chaplin

Em outubro de 2015, aproveitei a rara chance que a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo me dava e, tremendo nas pernas, entrevistei a atriz Geraldine Chaplin, hoje com 78 anos. Me avisaram de um dia para o outro que eu teria dez minutos apenas para conversar com ela no saguão do hotel Renaissance da alameda Santos, em São Paulo. Cheguei lá antes, fui a primeira e abusei da sorte – de dez passei para vinte minutos de conversa, e ela não reclamou. Pessoa rara, raríssima, não recusou responder qualquer questão, riu comigo e me deixou fotografá-la com o celular, imagem que posto aqui. Todos os grandes são simples! Alguns dias depois, tentei entrevistar o diretor Wolfgang Becker, de “Adeus, Lenin”, filme no qual ela atuava, e ele foi tão diferente, um porco comigo, com perdão aos porcos. Quis que eu pagasse a cerveja que tomava no Maksoud Plaza e reclamou de só haver Heineken no bar. Paguei foi nada! Mas o filme com Geraldine era razoável, até muito bom quando ela aparecia nele. Na entrevista a seguir, a atriz atribui sua carreira à sorte. Diz que seu pai jamais quis lhe ensinar atuação, embora ela muito solicitasse. Chaplin, ela conta, demonstrava muito menos bom humor que sua mãe, Oona. Ele não sabia quem era Ingmar Bergman e só se interessava pelos próprios filmes. Cinéfila, Geraldine amou ter conhecido “Limite” e toda a fatalidade a envolver Mário Peixoto, seu diretor.

Com a camiseta das
Tartarugas Ninja e o crachá
da Mostra, posando para
meu celular: os grandes
são simples

Um mar de tranquilidade cerca Geraldine Chaplin. Aos 71 anos, sem jamais impacientar-se, a atriz enfrenta o burburinho em direção à mesa do saguão do hotel paulistano onde conversará sobre sua vida e seus filmes. A presidente do júri da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo tem os cabelos pintados de preto e sua franja se vê encimada por um par de óculos de sol de cor laranja, que ela usa como uma tiara. Veste calça, tênis e uma camiseta com a estampa do desenho animado Tartarugas Ninjas. Uma estrela em “Kaminsky e eu”, o primeiro filme dirigido por Wolfgang Becker depois de “Adeus, Lênin”, de 2003, ela sorri sempre e fala rápido. “Humor é a única maneira pela qual você pode lidar com a tragédia da vida”, acredita, disposta a enfrentar qualquer pergunta, mesmo as inevitáveis a envolver Charles Chaplin, seu pai.

A filha maior em
“Luzes da Ribalta”, dirigida
por seu pai

Diz-se que o diretor mal viu os filmes em que ela atuou, mas a atriz assegura o contrário. Por exemplo, Chaplin assistiu a “Doutor Jivago”, no qual ela interpreta Tonya, em 1965. Era sua segunda participação em um longa-metragem depois de ter sido escalada, no mesmo ano, para estrear ao lado de Jean-Paul Belmondo em “Par um beau matin d’été”, de Jacques Deray. Ela havia seguido a carreira de bailarina depois de uma breve aparição, aos 8 anos, em “Luzes da Ribalta”, dirigida por seu pai. Mas o balé, que exercera com brilho até mesmo no circo, não lhe dera compensação financeira. “Não podia voltar para casa assim sem nada, não teria como encarar meus pais. E então pensei: ‘Talvez possa me tornar uma atriz.’ Eu tinha um bom sobrenome, não é? Aquele que me abriria portas. E saí atrás de empresário, simples assim.”


Em “Doutor Jivago”, seu segundo

longa: o diretor David Lean
a escalou porque ela
se parecia com uma russa

“Doutor Jivago” surgiu de um acaso. “O diretor David Lean me viu na capa de alguma estúpida revista feminina e, ao saber que eu era uma Chaplin, disse a sua produtora: ‘Ela parece russa, vamos testá-la’.” O longa correu animado, como sua carreira em mais de uma centena de filmes. “Toda a minha vida foi sorte, sorte, sorte”, diz, sem ironia. “Mas o sobrenome Chaplin não tem a magia de antes. Minha filha Oona, uma atriz maravilhosa, bem o sabe.” O fato é que depois de não se entender estupenda em “Doutor Jivago” pediu ao pai as orientações que auxiliariam seus futuros desempenhos. “Oh, você é a melhor coisa do filme”, respondeu-lhe aquele cujo nome, à época, talvez estivesse próximo de significar todo o cinema. “Queria seus conselhos e ele não me dava. Nem ligava para o que eu fazia ou apenas agia como meu pai.” De todo modo, ela desejou ser atriz, apaixonar-se pela profissão. “Mas não é uma carreira fácil, sabe? O estudo dos seres humanos que fazemos. Os deserdados que representamos. Como chegar até eles?”

No filme “Peppermint Frappé”,
do então marido Carlos Saura:
Chaplin amou

Talvez tenha se sentido atriz pela primeira vez ao lado do diretor espanhol Carlos Saura, com quem esteve casada por doze anos, e para quem atuou em clássicos como “Cria Cuervos”, de 1976. Quando partiu para viver com ele sob a ditadura franquista, seu pai arregalou os olhos: “Você enlouqueceu?” E ela sentiu então de perto a diferença entre lutar contra o totalitarismo imersa no regime ou a milhas distante dele. “Todos na Espanha odiávamos o dramaturgo Fernando Arrabal, porque ele atacava a ditadura acomodado em Paris”, recorda-se. “Percebi, naqueles anos com Saura, que os filmes poderiam ser mais, quem sabe mudar o mundo. Hoje é preciso reconhecer que provavelmente os filmes não mudem o mundo. Se assim fosse, vários deles, como os de meu pai, talvez tivessem transformado alguma coisa.”


Chaplin, que esteve na Suécia para receber um prêmio,

viu um filme de Bergman, gostou,
mas não tinha ideia de
quem fosse o diretor

Ao contrário do que sugerem relatos de época que informam o apreço de muitos diretores, como Vittorio de Sica, às avaliações positivas do criador de Carlitos sobre suas obras, Chaplin não assistia a muitos filmes. “Só os via quando estava escrevendo os seus, porque tinha de escolher com quem trabalhar. Caso contrário, nada de filmes, exceto os que ele fazia.” Uma vez foi à Suécia receber algum prêmio e, quando voltou, perguntou à esposa: “Vimos esse filme, tão bonito, tão incrível, daquele, como é o nome mesmo?” E Geraldine: “Ingmar Bergman?” Para que Chaplin respondesse: “Acho que é esse mesmo”. Ele não tinha a mínima ideia de quem fosse quem no cinema. Seu marido, Saura, Chaplin conheceu por necessidade, e gostou muito de “Peppermint Frappé”, de 1967, em que ela atuou.

Como uma documentarista
em “Nashville”: a única
orientação do diretor
Robert Altman foi que
ela o seguisse e imitasse

Um pouco à moda do pai, Geraldine buscou a originalidade, e suas interpretações mesclaram graça, profundidade e estranheza. Muitas vezes, um papel inesquecível representado por ela nasceu de uma orientação inesperada. Em “Nashville”, por exemplo, ela surpreendeu ao interpretar uma documentarista que sai atrás dos nomes da cena country estadunidense. “Eu não conhecia o trabalho do diretor quando aceitei o papel. Uma amiga que trabalhava com ele sugeriu meu nome”, conta. “Ao me aceitar para o filme, Robert Altman deu apenas esta indicação: ‘Siga-me e me imite.’ Fiz como ele pediu. Alguns dos filmes de que participei são muito bons, e eu fiquei tão feliz por ter atuado neste. Ninguém imaginou que virasse o que virou. Uma obra-prima, ao contrário de ‘Mash’, do mesmo diretor, que envelheceu.”

Na direção oposta à do pai, Geraldine tem muito a dizer sobre o cinema, novo ou antigo. Sentiu-se maravilhada, por exemplo, ao descobrir “Limite”, realizado por Mário Peixoto em 1931, restaurado e exibido durante a mostra. “Foi um choque completo para mim. Os planos são mágicos nesse filme melancólico, tão poético. E de pensar que, velho, o diretor ainda tentasse explicar essa magia jamais retornada, como se fosse um Arthur Rimbaud retirado da poesia, mas aos 21 anos.” Apesar de tão observadora, nem sempre deu sorte com os filmes de que participou, especialmente os dirigidos pelos novos. Ela destaca um raro caso de felicidade ao aderir a uma obra de estreia. Em 2007, interpretou uma médium em “El Orfanato”, um sucesso de crítica e público na Espanha. O diretor Juan Antonio García Bayona a quis para “A Monster Calls”, com lançamento então previsto para 2016, por sentir que ela lhe dava sorte. Contudo, de início, não tinha o que lhe oferecer. “O papel disponível era o de uma professora chinesa de 25 anos. E então Bayona decidiu que deveríamos esquecer que ela era chinesa e tinha 25 anos.”

Em 1952, entre Chaplin e Oona,
além da irmã Jacqueline: a
engraçada da família era a mãe

A atriz aderiu alegremente a “Kaminsky e eu”. Adorava o filme anterior de Wolfgang Becker, um diretor que lhe garantiu ter feito muito dinheiro no cinema e não ter pressa. “Ele me perguntou se eu aprenderia alemão para atuar, respondi que não. E no filme falo a língua apenas foneticamente. Mas Wolfgang se entusiasmou com a performance a ponto de me pedir para adicionar uma pronúncia francesa a meu alemão. Fiquei incrédula.” Seu personagem neste filme é um entre tantos que interpretou à margem da vida. “Tentei atuar como um computador que deu errado. Tudo estava lá, mas algum botão… Bem, não entendo nada de computadores. Vejo meu marido, o diretor Patricio Castilla, reclamar dizendo que perdeu tudo dentro deles, e eu penso como isso se dá. Então sou como um computador neste papel. Estou lá, mas não estou.”

Por não saber cantar, nunca enfrentou uma carreira na Broadway, como fizera seu irmão Sydney, embora tenha atuado ao lado de Anne Bancroft na bem-sucedida peça “The little foxes”, de Lilian Hellmann, dirigida por Mike Nichols. “O teatro é diferente demais, exige outra técnica. Cinema é o que sei fazer.” Uma arte naturalmente equilibrada entre o riso e a melancolia, como ela a entende. “Sempre vi o humor correr pelo sangue da família, mas jamais fui ensinada a desenvolvê-lo. Muito mais que meu pai, minha mãe nos divertia com seu senso de humor extraordinário. E somente Oona conseguiria rir das situações mais trágicas, como os funerais.”


Com o pai, que jamais quis
lhe ensinar a atuar