Um dia no museu

Depois de exatos um ano e meio sem ir aos museus, fui ontem a dois. Os avisos sobre a pandemia são tão perceptíveis em cada canto, as pias dos banheiros, interditadas com tamanha fita isolante vermelha a intervalos frequentes, que é impossível esquecer de quem manda sobre nossa impotência, mas eu esqueci. Eu sou uma agitação interna tão grande depois de uma visita ao museu que é como se meu coração parasse por idênticos intervalos isolantes, e a química em minhas mãos para estancar o vírus não me atrapalhasse em nada.

Mário Cravo, eu e a praga do vidro sobre as molduras, no Masp

Deve ter pesado sobre essa intensidade o fato de que passo por uma suspeita ocular e a cada dia sinto necessário ver mais e mais, como se fosse a antepenúltima vez. Gosto de sentir isso, todas as urgências me confortam, porque também se tornam uma desculpa para, em casa, abrir meus livros de fotografia sem uma razão prática, sem um objetivo finito, sem a praga do dinheiro a queimar mais essa luxúria de perceber e sentir, e neles eu mergulho profundamente.

E eu me sinto livre, enfim, porque não gosto de colocar em prática o que vejo e sinto, e porque dificilmente serei compreendida quando exponho minha percepção. Conheço pessoas excelentes a compreender o que escrevo e a pedir um texto meu com alegria, até para sofrer de surpresa, mas, nestes últimos tempos, tenho escrito para gente ruim de novo, povo do dinheiro, dos editais e das assessorias de imprensa (me perdoem vocês, assessores, que não compreendo como aguentam). E me enraiveço ou rio.

Anteontem, por exemplo, uma galerista que desejava aparecer no meu texto informativo mais do que eu julgava ser de merecimento quis me machucar com uma estocada, dizendo que eu escrevera adjetivos. Não liguei. Sei que ela desconhece o significado de um adjetivo. E nunca, nunca mesmo, desde os tempos longínquos de submissão ao manual da Folha, liguei para essa interdição de classe gramatical. O que todo mundo tem contra os adjetivos? E os gerúndios? Leio os pobrezinhos como prêmios, anéis onde se esconde uma pedra vermelha, e luto para assentá-los bem na terra do meu jardim.

Mas isso não é importante. (A propósito, Senhor Democracia reclamava do “mas” em início de frase. “Você escreve bem demais para insistir nessa mania”. E eu ria por dentro, por saber a origem italiana da restrição). Importante é sentir que vivo três vezes mais quando vou aos museus. E aconselho a vocês que vivam também.

Fui ao Masp e percorri novamente tudo. Os moços das curadorias andam atrás do déficit histórico e expõem mais mulheres que antes. O acervo esteve bagunçado pro meu gosto, uma vez que deixaram a espantosa virgem com o menino de Bellini pro fim da viagem. Mas algumas autoras romperam o caminho da identificação nos cavaletes da Lina Bo Bardi, completando a composição no verso da tela, razão pela qual me diverti, doce vingança à necessidade que ela nos impõe de ter de olhar o tempo todo para trás em busca do nome do autor.

“O implacável”, de Maria Martins,
no Masp

Revi Maria Martins e senti o conforto de sua adjetivação. Seres míticos compostos de sentidos. Tormentos que nascem dos ventres de bronze. As figuras do “implacável” e do “impossível”. Que mulher. De Gertrudes Altschul, redescoberta aqui depois de exposição no MoMA (mas é claro), gostei deveras das sobreposições, como se a fotógrafa sonhasse explicitamente, e apreciei ainda mais os rostos raros e graves de seus personagens infantis (enquanto, nas fotos, a autora aparece rindo sempre).

No IMS, novas sobreposições, desta vez inesperadas, porque de Madalena Schwartz sobre Ney Matogrosso, para que seus movimentos não se perdessem. Que aparição representou o Ney no sopro do tempo! Mas o esforço de Madalena (que levava seu cachorrinho nas sessões) para capturá-lo na sua elasticidade expressiva o tornou interessantemente rígido. Os retratos de Madalena são poses estudadas, teatro explícito, e pelos filminhos ali exibidos sabemos que ela irritava os personagens com sua insistência e sua timidez. Alguns retratos de Paz Errázuriz também estão lá, e senti a diferença, a intensidade, a falta de intenção, a dor subjetiva de suas transexuais em comparação com as de Madalena.

Mário Cravo Neto também se expõe no IMS, e é previsivelmente um deslumbre. De Salvador a Nova York e à Dinamarca, captamos aquele seu furor de vida, que, ao contrário do que acontece com a doce Madalena, raramente se congela. Ele era escultor, como o pai, antes de se acidentar, imobilizar-se por um ano e passar a fotografar como gosto e necessidade. Mestre da subexposição com uma razão, a de viver com seus personagens, a de rodar como suas baianas, no caminho de exprimi-los, ele é um pintor também, e suas aquarelas são o que são, movimentos.

Saio do dia do museu como sempre, tentando, sem exatamente conseguir, expressar minha intensidade

Saí do dia do museu como saio sempre, com vontade de perceber o mundo à volta, mas meu telefone sobrecarregado dificultou os registros. De todo modo, contudo, porque a vida continua, eu seria interrompida, razão pela qual não liguei muito pra essa limitação, e sonhei à noite, e continuei feliz.

Uma das melhores coisas que a Netflix tem para nós

A mulher que sou aconselha os leitores que tenho a acompanhar esta encenação da trajetória de um diretor pornô

Takayuki Yamada vive Toru Muranishi em “O Diretor Nu”

Meu blog, meus problemas.

Tive sempre muitos deles ao escrever sobre cinema na valorosa imprensa deste grande país.

Meu principal, talvez único obstáculo na direção desse intuito, foi mesmo ser mulher. Eterna fonte de contraditório, paradoxo e energias ruins, minha expressão nessa área jamais se viu autorizada por ninguém. E não fui a única interrompida, claro. É fácil contar quantas mulheres receberam admissão nesse círculo em tantas décadas de ofício nacional. Enquanto os homens o percorreram infinitamente.

E talvez porque quase não houvesse espaço para uma sensibilidade, diga-se assim, feminina e sutil de escrita sobre o cinema, tratava-se no fim de uma condição vetada a nós. Como se ser mulher não dialogasse com a criação, a linguagem cinematográfica, com sua invenção. Elas eram tão boas montadoras, excelentes produtoras, figurinistas e fofoqueiras de Hollywood! Mas críticas de cinema? Que exagero, gente. Só faltava quererem dirigir filmes…

Ainda assim, sempre que pude, enquanto jornalista cultural, escrevi sobre o assunto. E nunca temi dizer o que pensava. Mas sofri. Escorraçada pelo meio, pelos próprios colegas, jogada num canto da sala, como se meus comentários sofressem de uma espécie indesejada de exotismo, fui seguindo, como sempre, distraída para a exclusão.

Voilà, isto tudo passou. Mas só porque não escrevo mais para a imprensa. Pesquisei o assunto no meu mestrado e doutorado. Escrevo aqui. Escrevo pra vocês. Escrevo pra mim. É muito melhor assim.

O diretor Toru Muranishi, que inspirou a série, e suas atrizes

E tudo isso só pra introduzir que o melhor da netflix, por exemplo, vou dizer eu sozinha por aqui. O melhor pra mim é algo como a série japonesa “O Diretor Nu”, que espetaculariza a trajetória de Toru Muranoshi, de 73 anos, um diretor pornô a ter revolucionado a indústria a partir do VHS com a câmera na mão, a abertura a novas abordagens, o desafio a vender suas ideias e se ver, adivinhe só? Interrompido em todas as áreas, da polícia à máfia, dos bancos às empresas.

Amei a série porque ela não romantiza nada. Ou, pelo menos, não o essencial. Fazer qualquer cinema de verdade é mesmo uma questão de vida ou morte, dizem os roteiristas de “O Diretor Nu” (dez ao todo). É arriscar-se não só com a yakuza, mas com seus amores no cotidiano, sua liberdade de ir e vir, o próprio direito de exercer a felicidade. E é também errar bastante, especialmente com as mulheres que se dedicam a você.

Com Yuri Tsunematsu

As coisas nesta série em duas temporadas são muito bem feitas desde a interpretação de grandes atores e cômicos, a direção de arte, a fotografia funcional brilhante, o figurino de época, a trilha pop livre de compromisso histórico, até os ângulos e paisagens. “O Diretor Nu” não aborrece, antes diverte, tensiona, ridiculariza o próprio meio, o país, sua polícia corrompida. Tem drama, humor, exagero, ritmo, tudo na tradição de excelência japonesa.

Se eu pudesse dar um conselho aos loucos por “Breaking Bad”, diria que olhassem na direção Leste…

O DIRETOR NU (2019-2020)

Diretores: Masaharu Take, Hayato Kawai, Kôtarô Gotô e Eiji Uchida.

Elenco: Takayuki Yamada (Toru Muranishi), Shinnosuke Mitsushima (Toshi), Misato Morita (Kuroki), Yuri Tsunematsu (Mariko Nogi) e outros.

Netflix, duas temporadas.

Elsa Morante defende sua visão de arte e literatura em ensaios que chegam ao Brasil

A seguir, a resenha que escrevi sobre o livro de ensaios “Pró ou Contra a Bomba Atômica”, publicado no suplemento Aliás, do Estadão, em 8 de agosto de 2021

O novo não envelhece. É aquilo de bom e moderno que, segundo a escritora Elsa Morante (1912-1985), está adormecido na eternidade e deve ressurgir para o combate quando solicitado pelo presente. Para esta romana de ascendência judaica, autora dos clássicos literários La Storia e A Ilha de Arturo, somente com os olhos novos será possível desfazer a insistência humana em patrocinar a própria desintegração. Ela prega a sobrevivência desse ser pleno em 13 ensaios que, produzidos entre 1950 e 1985, foram publicados dois anos após sua morte na coletânea Pró ou Contra a Bomba Atômica, agora disponível no Brasil pela editora Âyiné, com tradução de Davi Pessoa.

Morante foi casada com o escritor Alberto Moravia entre 1941 e 1961, período no qual desenvolveu amizade com o poeta e cineasta Pier Paolo Pasolini. Para o diretor, atuou como a prisioneira Lisa no filme Desajuste Social (Accattone), de 1961, e junto a ele lutou contra a destruição da tradição popular na Itália do pós-guerra. Eram os três amigos, de certa maneira, representantes da “força do passado” que Pasolini se orgulhava em encarnar.

Havia nesses intelectuais o entendimento de que o que estava enraizado no país, sua tradição cultural, não deveria sucumbir à uniformidade pregada pelos novos tempos de ‘boom’ econômico, em que se destacavam a prática de sonegação fiscal e o surgimento de um italiano médio sem escrúpulos. Eles raciocinavam que a burguesia igualava todos os habitantes do país pelo consumo, destruindo com isso as diferenças de origem, a alegria, o erotismo. Tais monstros burgueses produzidos “pelo sono da razão”, numa paráfrase a Francisco Goya, deveriam ser combatidos pela arte em prol de uma beleza original.

Ensaísta especialíssima, para quem o sublime equivalia a um sentimento religioso, Morante usa seus recursos ficcionais de modo a refletir sobre o caos que drenou o frescor de toda a sociedade, mesmo sabendo que alguns dos conceitos por ela defendidos, como a beleza, perdiam prestígio na reflexão artística de então. Para ela, os opositores que a difamavam como conservadora eram maus críticos, novidadeiros, “escreventes” em lugar de escritores, e não traziam para a arte a essência da renovação. Entre os anos 1950 e 1960, ainda vingava a ideia de que um bom literato deveria submeter-se a cânones “neorrealistas” de engajamento, enquanto Morante julgava ser preciso acordar o ideal clássico e criar um novo Ressurgimento, este sim capaz de reconduzir a vida social à multiplicidade.

Seus ensaios não praticam isenção. Antes, produzidos em tempos de crise, a refletem. E seu ponto de vista crítico é quase geométrico. Para ela, a arte deve ser nítida como as composições renascentistas: “O informe é o contrário da poesia, assim como é o contrário da vida, uma vez que a poesia, do mesmo modo que a vida (e a coisa soa muito comum para ser dita!), deseja realmente dar uma forma e uma ordem absoluta aos objetos do universo, tirando-os do informe e da desordem, isto é, da morte”, escreve em O Poeta de Toda a Vida, em homenagem ao escritor Umberto Saba.

Para afinar a leitura desses textos escritos em linguagem direta, é preciso entender que a autora, enquanto cobra a existência social múltipla, quer da arte uma função unificadora. Por exemplo, em relação ao romance, ela acredita que não deve ser restrito à medida de um gênero literário fixado por convenções acadêmicas. “O gosto de inventar a história inexaurível da vida é uma disposição humana natural, comum a todas as épocas e a todos os países (até mesmo as lendas mitológicas e populares são uma espécie de romance coletivo). O romance em prosa, que prevaleceu (embora não exclusivamente) do século 17 em diante, não é nada mais que o sucessor direto do poema narrativo.” Ela lamenta que, segundo a ideia corrente, mereça o título de romance qualquer narrativa em prosa com peso não inferior a cem gramas. “Qualquer um que tenha preenchido trezentas páginas com fofocas ou alongado até a página trezentos uma novelinha agradável presume-se autor de romance.” Morante vê o romancista como alguém além dessas medidas, diverso do tipo que hoje vingou, autoficcional. “Ao romancista (como a qualquer outro artista) não basta a experiência contingente de sua aventura. Sua exploração precisa se transmutar num valor para o mundo: a realidade corruptível precisa ser transformada por ele numa verdade poética incorruptível. Essa é a única razão da arte, e esse é seu realismo necessário.”

Para Beato Fra Angelico (1395-1455) vão suas palavras mais ternas. O pintor italiano de afrescos com temas bíblicos equivale a um ideal artístico, visto que representou o Renascimento inicial. Um homem que se apaixonou pela luz e a entregou a quem merecia: “Para aqueles que não conhecem a verdadeira, íntima alquimia da luz, as minas terrestres são o lugar do tesouro escondido. E, assim, para a exaltação de seus olhos ignorantes, esse pintor da ordem dos mendigos constrói para a mãe e para a criança, como se fossem dois ídolos, tronos de ouro, quartos ostentados por ouro, pisos de mármore, tapetes orientais.”

A prosa ensaística de Morante tem verve deliciosa e também humor. Para ela, o gato siamês deveria ser coroado rei dos animais. “Estamos certos de que esse título não fará com que ele perca sua discrição natural e sua afabilidade. De fato, como não comeu o fruto da ciência do bem e do mal, ele dá menor importância ao título de rei do que a um peixinho; e jamais empinará sua cabeça.” Também louva a praça Navona, em Roma, por não ser perfeita, ao contrário de suas irmãs, “muito bonitas para que alguém tenha a petulância de ir ali simplesmente tomar um café”.

Contudo, lamenta que os bailes, antes feitos para mirar o céu nos lustres dos salões, evocando ascensão e eminência, agora mirem sob o chão. “Jerônimo Savonarola, para persuadir a austeridade do costume, não poderia inventar meio mais oportuno do que aquele de nossos contemporâneos, os quais imitam, por prazer mundano, o estilo do inferno. Hoje, vamos aos bailes em subsolos magníficos de teto baixo, nos quais o som ensurdecedor exprime furor, agitacão ou sonolência angustiante. Sobre a pista de dança são projetadas luzes de um vermelho sanguíneo ou de um amarelo sulfúreo. E as figuras que dançam parecem fazer referência ao choque das almas culpadas e atormentadas.”

Morante não perdoava nada dos burgueses, nem mesmo um alegado despojamento. “Ó Austeridade, quantos pecados foram cometidos em seu nome!”, exclama no ensaio Defesa de Certa Frivolidade no Hábito Viril contra os Perigos da Austeridade. Segundo ela, os ditadores e os homens de Estado exercem a “leveza rústica” do mesmo modo que os “camisas negras” italianos se tornaram sinônimo de fascismo ao adotar o ‘orbace’, tecido de lã tingido sempre de cor neutra, cinza ou preto. “Leviano quem procura a sobriedade também na gravata!”, escreve. “Façam-na com bordado, renda, cetim e arminho; pintem-na florida e com alguma espécie de surpresa, decorem-na com plumas e fios de ouro e prata. Nenhuma outra será tão audaz. A gravata é a última ponte entre o homem e a fantasia; é o último fosso entre ele e a barbárie.”

Se se ocupassem de suas vestes com mais imaginação, os homens valorizariam a vida de outro modo? Certamente, ela imagina, não teriam pensado na explosão atômica como uma ameaça constante a dividir o mundo. “As famosas bombas são orcas que se encontram dormindo nos bairros mais protegidos da América, da Ásia e da Europa, preservadas, defendidas e mantidas no ócio como se estivessem num harém dos totalitários, dos democráticos e de todos; elas, nosso tesouro atômico mundial, não são a causa potencial da desintegração, mas a manifestação necessária desse desastre já ativo em nossa consciência.” Eis por que, a seu ver, a arte não cabe nos regimes totalitários: sua razão de existir é integrar, não separar: “A arte é o contrário da desintegração. E por quê? Simplesmente porque a razão da arte, sua justificação, seu único motivo de presença e sobrevivência, ou, caso se prefira, sua função, é exatamente a seguinte: impedir a desintegração da consciência humana.”

Como a arte poderia combater a pandemia narcísica?

*ROSANE PAVAM É JORNALISTA, PESQUISADORA E AUTORA DE ‘O SONHO INTACTO’ E ‘O CINEASTA HISTORIADOR’

Em ‘O Ministério da Verdade’, Dorian Lynskey traça uma biografia de ‘1984’, de George Orwell

A seguir, a resenha que fiz deste importante livro de história cultural para o suplemento Aliás, do Estadão, publicada em 11 de julho de 2021.

Há uma informação logo na primeira frase que foi modificada de meu texto original. No artigo publicado, imprime-se que Orwell morreu em 1949, mas foi em janeiro de 1950. E “1984” foi publicado em 1948.

George Orwell (1903-1950) publicou 1984 em 1948, um ano e meio antes de morrer com tuberculose. A obra, que ao sair foi comparada a um terremoto, a um feixe de dinamite e ao rótulo numa garrafa de veneno, revelou-se caleidoscópica, e a cada temporada histórica uma diferente interpretação do livro se sobressaiu. Durante a Guerra Fria, este que se tornou o último texto ficcional do escritor inglês foi lido como um romance sobre o totalitarismo, com a tendência de a crítica ocidental ligá-lo unicamente à barbárie stalinista. Na década de 1980, o volume, já compreendido como um clássico, parecia alertar sobre as tecnologias de vigilância, embora Milan Kundera e Harold Bloom o entendessem como um romance ruim. O escritor Anthony Burgess, que construiu Laranja Mecânica à sua luz, chegou a defini-lo como “o código apocalíptico de nossos piores medos”. E atualmente, em meio ao império global das informações falsas, 1984 tornou-se um dos mais poderosos livros em defesa da verdade.

Ainda que seja possível admitir sua imaginação ficcional limitada, como queriam Bloom e Kundera, o romance exibe intacto o poder da escrita persuasiva, em um fluxo de observações a expressar o profundo incômodo de seu autor, conforme escreve o historiador cultural inglês Dorian Lynksey, de 47 anos, nas espetaculares 488 páginas de O Ministério da Verdade. A sua é uma investigação muito bem fundamentada de história cultural, que insere as ideias e seus artífices no contexto de produção, sem perder de vista o leitor comum. A linguagem clara arma-se para reproduzir a atmosfera mental na qual foi composta a dura sátira que, mesclada a uma história de amor, virou peça radiofônica, encenação televisiva e filme homônimo por Michael Radford, além de traduzida para mais de 60 línguas.

A trama ficcional parece conhecida, a ponto de uma de suas situações, a da eterna vigilância, ter sido parodiada em um reality show de sucesso, onde o punitivo Quarto 101 virou Confessionário. Mas talvez poucos a tenham lido realmente, o que vale uma rememoração. Em 1984, o protagonista Winston Smith passa os dias reescrevendo exemplares antigos do jornal The Times no Ministério da Verdade, de modo a tornar os fatos inventados do passado uma justificativa à opressão presente. Um dia, apaixona-se, o que é proibido. Ele e Julia, seu amor, precisam driblar a impressão de que a memória os engana. Tentam acessar o mundo anterior à imposição da “novafala” (a tradução a preferiu à conhecida “novilíngua”), recurso vocabular de modificação constante que dá sentido ao “duplipensar”, ou o pensar uma coisa enquanto se propõe outra distinta.

O sistema de duplicidade em que vivem é estabelecido pelo Grande Irmão, que tudo controla e vê. Seu objetivo ao construir “despessoas” é interromper tanto a ciência quanto a história. Ao desejar o fim desse mundo no qual “guerra é paz”, “liberdade é escravidão” e “ignorância é força”, Winston também sabe que seu final logo virá, embora não calcule que esse apagamento se dará por meio da renúncia horripilante a seu amor por Julia. Enquanto isso, os cientistas continuarão a projetar teletelas e helicópteros-espiões, a inventar novas armas e dispositivos de tortura, a realizar cirurgias plásticas radicais e a tentar abolir o orgasmo, ao mesmo tempo em que nada farão para melhorar a qualidade de vida geral.

É o mundo terrível como o vemos conhecendo? Sim e não. A novafala de Donald Trump, por exemplo, exemplificou o sim, uma vez que sob o ex-presidente estadunidense foram admitidos “fatos alternativos” em lugar de “fatos”. O livro não deseja retratar apenas aquele universo de constante tensão e cancelamento imaginado pela sanha stalinista. 1984 é também um retrato do fascismo e de todos os regimes políticos a sufocar a liberdade e a convergir o poder na direção de um “coletivismo oligárquico” do qual os trabalhadores se veem, na verdade, excluídos. Orwell, um homem de esquerda, investiu contra todos os totalitarismos. “Por trás de Stalin se esconde o Grande Irmão”, escreveu o crítico E. M. Forster em 1951, “mas o Grande Irmão também se esconde por trás de Churchill, Truman, Gandhi e qualquer outro líder usado ou inventado pela propaganda”.

O cineasta Radford, que adaptou a trama às telas aceleradamente, para que estreasse em 1984, a vê como um “mito grego”, por meio do qual é possível até mesmo “examinar a si mesmo”. Mas é curioso como tantos, desde a apresentação do livro ao público, tenham preferido tratá-la como uma obra falha no sentido de cravar profecias. Orwell disse muitas vezes que não previa nada com seu escrito, certamente nada que envolvesse ciência, ao contrário do que elaborara com bastante sucesso seu antecessor H.G. Wells. O autor de 1984 apenas fazia uma leitura “provável” do futuro, baseada tanto na sua experiência como combatente na Guerra Civil Espanhola quanto naquela de ávido leitor, tanto de história política quanto das ficções utópicas, entre elas Nós, de Ievguêni Zamiátin, que conheceu depois de haver iniciado seu romance e na qual parcialmente se baseou.

A experiência ao lado dos anarquistas foi uma daquelas a contribuir para a fama de “idealista estabanado” com a qual o escritor e amigo Henry Miller o presenteara. Nascido Eric Arthur Blair na Índia em 1903, um descendente da baixa classe média que havia cursado a elitista escola Eton, Orwell era um “revolucionário apaixonado”, segundo o amigo Cyril Connolly. E somente quando colocado na pele daqueles caídos abaixo do sistema de classes sentia experimentar um “igualitarismo”. Havia escrito Na Pior em Paris e Londres, de 1933, em que usou pela primeira vez o pseudônimo que o tornaria famoso, com esse objetivo, e três anos depois se encontrava ao lado dos anarquistas no Aragão. Os anarquistas queriam a revolução além da queda do general Francisco Franco, motivador do conflito. Mas os comunistas estavam ali apenas para expulsá-lo do poder. Apesar de pertencer ao grupo anarquista, Orwell, alguém a cultivar o não como quem se alimenta à vasta mesa da contrariedade, acreditava que os comunistas estavam certos em seu objetivo.

Com o tempo, o escritor percebeu, estupefato, que não somente os fascistas eram uma ameaça, mas também os comunistas adeptos de Stalin. Eles haviam expandido mentiras em cascata para desabonar os anarquistas. Mentiram, por exemplo, que eles haviam se associado a Franco para solapar a revolução. Eram os comunistas os transmissores das fake news sobre Trotsky que culminaram em seu assassinato. E haviam obrigado o próprio Orwell a fugir para Paris em meio ao conflito, uma vez que lutava ao lado dos anarquistas. Por que Orwell criticava o comunismo com mais vigor que o fascismo? Porque ele o tinha conhecido de perto, e porque o apelo do comunismo, a seu ver, era mais traiçoeiro, uma vez que também ele apagava a verdade, como num pesadelo. Mas a política não o enojava. Ele até mesmo a introduziu na sua distopia (termo criado por John Stuart Mill em 1868 que Orwell, aliás, jamais usou), diferenciando-a daquela de Aldous Huxley, que não mencionava a manipulação política em seu Admirável Mundo Novo, de 1932.

O que mais perturbava Orwell, um “guerreiro puritano” segundo seu editor Fredric Warburg, era a retórica brutalizante. O escritor, cujos admiradores foram tão díspares quanto a escritora Margaret Atwood e o músico David Bowie, via a Inglaterra como uma “terra de esnobismo e privilégio governada sobretudo pelos velhos e pelos imbecis”. E em todo avanço científico assimilado pelo poder o autor de 1984 constatava acelerar-se a tendência para o nacionalismo e a ditadura. Para ele, que deixou de examinar o sexismo ou o racismo em seu romance, a tecnologia jamais seria capaz de construir paraísos, ao contrário do que estabelecia o senso comum das ficções utópicas. Até porque, como diria o líder trabalhista e ex-premiê britânico Clement Attlee, citado por este estudo, “a maioria de nós seria muito infeliz nos paraísos alheios”.

É JORNALISTA, PESQUISADORA E AUTORA DE ‘O SONHO INTACTO’ E ‘O CINEASTA HISTORIADOR’

Pior que o Führer. Acho que ele vai gostar

Insônia é fogo e me lembra que Hitler fez mais pela cultura de seu país do que Verme.

Hitler exigia cinema bom e apaixonou-se pela loucura de Leni Riefenstahl, além de conseguir reter na sua administração atores como Emil Jannings (“O Anjo Azul”) e diretores como Walter Ruttmann (“Berlim, Sinfonia de uma Metrópole”).

Nana Caymmi apoiou Bozo, que por sua vez destruiu nosso cinema e nossa cinemateca, mas não sei se Bozo gosta de Nana Caymmi, isto se souber de quem se trata. O único apoplético a serviço do Verme com algum relevo acidentado talvez seja Amado Batista.

E sei lá do que mais essa anticriatura gosta e o que aplaude, a não ser o caixa eletrônico quando espirra.

Cinema puro

Rouben Mamoulian, diretor dos contrastes, entre o ligeiro e o sombrio, reflete em “O Cântico dos Cânticos”, com Marlene Dietrich, sobre o espaço designado à mulher

Morre-se de amor pelo cinema ao ver um filme de Rouben Mamoulian. Cinema em sua complexidade dramática, visual e sombria.

O diretor de origem armênia nascido no império russo, belo fisicamente, forte artisticamente, irônico e bem-humorado, dá a seus atores o tempero das falas e os gestos realistas num cenário de pompa. Os contrastes constantes e vívidos embelezam o simples e trazem a dificuldade (o não-dito, o que é só sentimento) ao nível do palpável, do chão.

O diretor Mamoulian e
Marlene Dietrich no set de
“O Cântico dos Cânticos”

Qualquer beleza fílmica acaso haveria sido maior do que esta, ainda mais se a tivéssemos presenciado numa sala de cinema daquele tempo, onde os veludos do aconchego se cruzavam com os ratos nos banheiros?

Em “O Cântico dos Cânticos”, de 1933, que a Colecione Clássicos disponibiliza através da caixa “Cinema Pré-Code”, vemos uma amostra desse cinema comercial hollywoodiano ainda livre, pleno de graça e ardor. O cinema como ele foi antes que o Código Hays, em 1934, passasse a controlar (e isto até as quatro décadas seguintes) as produções cinematográficas dos Estados Unidos, dificultando que a vida real – libidinosa, homossexual, política – se visse representada pelo drama.

A menina do interior
terá de se despir para Berlim

Nesse filme de 1933, por exemplo, um condutor de charrete adentra o quadro num pulo e pulamos nós espectadores com ele também, surpresos porque até então somente os cavalos assomavam junto ao portão. Cinema!

A escultura é mostrada desde sua giacomettiana fundação, e nos refestelamos de suspense pela figura que vai surgir. Cinema também!

O campo florido está repleto de grama e Lily Czepanek (Marlene Dietrich) enfia sua cabeça nela, explicando ao amante que dali sai o cheiro da vida. Cinema, sim!

O chão que nos protege

E os diálogos simples e diretos, humorados, dos atores? E os olhos grandes de Dietrich, sua fala doce e suas muitas faces, da menina ingênua no cemitério até chegar à baronesa e à mulher dissoluta? Que percurso para uma atriz, que cinema puro!

O escultor Richard Waldow
(Brian Aherne) e sua modelo
Lily Czepanek (Marlene Dietrich)

A trama é dos Novecentos. Um escultor pobre, Richard Waldow
(Brian Aherne), busca a obra de arte perfeita, até porque um barão já pagou por ela. A jovem órfã Lily carrega sua Bíblia para Berlim porque está atrás do amor. Os dois se encontrarão, e rapidamente, porque Mamoulian sabe com quem fala, leitores de folhetim arrastados ao cinema no domingo. É de romance que todos precisam.

Diante do espelho, ou será da cruz?

Então que não se perca tempo demais com isso: está claro que Dietrich se transformará na principal obra do escultor. Mas não só dele, visto que todos quererão moldá-la à sua semelhança no filme. Claro que o amor virá em um ponto luminoso e será chamuscado, talvez perdido pela jovem, que logo envelhecerá suas expectativas.

De início ela vai trabalhar na livraria da tia (e até o folhear dos volumes, nesse ambiente, insinua uma outra intenção) porque seu pai, com quem morava no campo, morreu. De cara, a velha a faz ver que tudo na bela sobrinha está inapropriado à cidade. Ela chega encapada por camadas de saias e anáguas na inversa proporção do que Berlim exige – a “nudez” de seus habitantes, ou seu pragmatismo, submissão, entrega absoluta. (Não será por acaso que no ano em que se faz o filme Hitler sobe ao poder na Alemanha.)

Numa sequência herdeira da época silenciosa, Dietrich tira a primeira saia, depois mais outra e outras, até deitar na cama para dormir. É um trabalho preciso na sua feitura cômica e igualmente sinalizador de uma proposição: o novo cinema deve se desfazer de suas camadas de apetrechos inúteis, de empolação. (Do que mais se fala nas entrelinhas de “O Cântico dos Cânticos”, aliás, é do cinema em si.)

Como posse do barão
Von Merzbach (Lionel Atwill)

Dietrich vai assim tirando as anáguas até o osso do seu corpo – ao contrário do que fará o escultor depois, ao “vesti-la” com a carne de sua argila, por vezes moldando-a como quem a aperta para o amor. Muito erotismo silencioso e insinuado será feito essencialmente a partir daí, da troca de olhares que resultará em sorrisos entremeados pelo desafio.

O caminho da dissolução,
o mesmo onde a mulher poderá encontrar a liberdade

Principalmente, a essência deste filme que tão bem repercute sua era cinematográfica está na localização do espaço delimitado onde será possível obter a liberdade feminina. E que espaço sombrio, esse! Impor-se a ele, em resumo, é fazer um caminho indignado porém sorridente, “queer”, em que a mulher incorporará a dissolução para dela se servir, como quem veste um colar.

O desejo ardente silenciado

“Junho Ardente”.

A obra-prima de Lord Frederic Leighton foi concluída no final de sua carreira, em 1895.

A sensualidade de sua figura central resplandece na cor laranja do vestido drapeado.

Ela dorme ou está no limiar da morte, conforme talvez simbolize o ramo tóxico no canto superior direito do óleo sobre tela.

As prováveis modelos da obra foram as atrizes Dorothy Dene e Mary Lloyd, retratadas por vários artistas pré-rafaelitas.

“Junho Ardente” começou como motivo para adornar uma banheira de mármore em outra obra de Leighton, “Descanso de Verão”.

Mas ele amou tanto seu personagem que decidiu recriá-lo numa pintura separada. 

Leighton realizou pelo menos quatro esboços antes de pintar a figura central e lutou para fazer o ângulo de seu braço direito parecer natural.

A naturalidade era importante nesse movimento inglês de “arte pela arte” (art for art’s sake) ao qual aderira, em que as qualidades artísticas importavam mais que o tema das pinturas.

Mas como não ver importância neste tema?

A figura central não consegue acordar, como se seu desejo, evidente na cor radiante, estivesse reprimido entre o sono e a morte.

É ou não uma magnífica maneira de entender a repressão à sexualidade feminina numa Inglaterra vitoriana?

E em tantas eras que se seguiram?

Arte pela arte, estamos igualmente diante de uma representação excepcional.

Fake fashion, a onda

Quão chocante lhes parece que uma empresa cobre para vestir alguém virtualmente, como a Carlings tem feito na Noruega?

Para mim, o choque é quase zero.

Nossos olhos tristes já são maquiados por meio dos filtros de selfie do Instagram. E pagamos indiretamente por esse embelezamento. Os anúncios infindáveis que suportamos na rede constituem o preço.

E se pagamos de um jeito enviesado pelo direito à boniteza esfumaçada, arrasadora de espinhas, olheiras e rugas, por que não deixaríamos que uma marca de roupa nos “vestisse” por um custo menor do que o da roupa verdadeira?

Eu não pagaria por isso hoje. Mas talvez no futuro o próprio Instagram nos venda disfarçadamente a possibilidade, da qual eu talvez usufruísse como quem brinca.

Não queremos aparecer nas imagens ainda mais feios do que somos, certo? E isto desde a segunda metade do século XIX, quando a fotografia começou a ser comercializada, espalhando a onda da beleza filtrada dos retratos.

Já que a pandemia nos força a viver reclusos (pelo menos nós, os exaustos conscientes), não há por que a indústria deixe de tirar proveito também disso. Será mais uma oportunidade de incutir em nós o consumo em prol da jovialidade exigida pelo mundo de aparências.

O fardo impressionista

João Luiz Lafetá, o grande professor

Naqueles anos 1980 era possível frequentar duas faculdades simultaneamente na USP, e foi assim que, enquanto cursava Jornalismo, um pouco decepcionada com tudo, buscava Letras também. Moradora do Crusp, ia à aula do segundo curso com muito prazer, como quem desce após o jantar para cumprir um exercício.

Tive sorte e azar. Professores ruins de Literatura Portuguesa e Inglesa, mais ou menos insignificantes de Linguística e Português. Em Teoria Literária a coisa era diferente. Não cheguei a Antonio Candido, mas João Adolfo Hansen, Alfredo Bosi e João Luiz Lafetá foram meus professores.

Hansen era maravilhoso. A aula desse grande estudioso da sátira e do poema barroco surgia para mim como uma espécie de show teatral de humor hipnotizante. Certa vez, o professor comemorou rindo muito ao saber que o dicionário de latim deixado por ele no xerox havia sido roubado. Quem se interessaria por esse assunto a ponto de surrupiar um dicionário?

Bosi era o oposto, carisma nenhum. Sentava-se e lia a aula sentado no púlpito. E eu anotava. Devo ter aprendido alguma coisa, tinha 19 anos, não me lembro. O seu jeito de padre, pude reviver três décadas depois enquanto jornalista. Falava comigo de perfil, como se me ouvisse no confessionário, enquanto Eclea Bosi atravessava diversas vezes a sala sem me olhar.

O Lafetá era o melhor. Dava uma aula perfeita, enquadrada. E sorria, infantil, com suas próprias conclusões aparentemente tiradas naquele instante, enquanto andava pela sala. Ele e Hansen eram fumantes o tempo todo, e eu, que sofrera por anos ao aspirar a fumaça produzida por meu pai na sala onde ele estudava e eu dormia, nem sentia o cheiro ruim.

Lafetá, entre esses todos, cuidava de seu aluno. Ele o percebia, como sentia os textos, as intenções do autor estudado, sua tessitura. E eu me encontrava nisso. Estou penando para me lembrar do livro que destrinchou pra nós em aulas seguidas e sorridentes, mas não consigo.

Sei que nos pedia dois trabalhos de análise literária como avaliação do curso. Guardei por anos a folha em que avaliou o meu primeiro. Ele se disse feliz com minha sensibilidade, que classificou de brilhante, mas enquanto me dava 10 afirmava temer que eu me tornasse uma “crítica impressionista”.

Querido Lafetá, nem crítica literária me tornei! E me perdoe por ter cultivado a sintonia com os textos mais do que a pesquisa em literatura, esta que a vida rotineira e a necessidade de sobrevivência me fizeram perder de vista. Também me perdoe por entender hoje que você via em mim um pouco a si mesmo, lutando para se manter na pesquisa e construir uma coerência de scholar enquanto a leitura lhe banhava de impressões.

Creio que impressionista fui e impressionista me tornei, sem me aborrecer com isso, antes me beneficiar dessa percepção e morrer por ela, por assim dizer. E agradeço a esses três pela dignidade com que envolveram a transmissão de seu saber.

Borgen, a deliciosa utopia

Amigas queridas e poderosas me indicaram Borgen, uma série dinamarquesa na Netflix que foi ao ar no país entre 2010 e 2013, anterior portanto a House of Cards.

A protagonista é uma política de partido moderado que ambiciona a premiê. É casada com um descolado professor que cuida dos dois filhos pequenos do casal enquanto ela corre na política. Ele é inteligente, bem-humorado e lindo: ela tem atração por ele e ele, por ela. Ela é bonita, charmosa e engordou um pouco.

Borgen é o palácio que concentra o Parlamento, o gabinete do primeiro-ministro e o Supremo Tribunal. Ali acontecem as tramas da sordidez do poder, impulsionadas pela apuração do jornalismo político. A outra protagonista, âncora de telejornal, é jovem e tem envolvimento amoroso com fontes.

Enfim, o que me encanta, para além do modo ágil e gostosamente caricatural pelo qual se desenvolvem essas séries padrão Netflix, é mesmo uma dupla questão.

A primeira. Me sinto representada pelo fato de as protagonistas serem mulheres num mundo de homens, tendo de dar atenção a aspectos triviais de sua vida familiar e amorosa enquanto pensam em como avançar a carreira diante dos degenerados. Também me encanta o fato de a candidata a premiê pretender ser moderada sem abrir mão de respeito a minorias, gêneros e meio ambiente.

A segunda. A Dinamarca não é aqui. As mulheres são respeitadas. A imprensa é cobrada pelo público e pelos próprios jornalistas a agir independentemente. São todos frios e diretos, mas bem-humorados nas suas relações e observações. E o tecido social surge reluzente.

É necessário seguir os protocolos de boa educação e civilidade em todos os momentos. Em uma sequência, dois policiais batem à porta da jornalista. Ela atende sem perguntar quem bate. Eles querem pressioná-la a entregar a fonte de sua apuração. Ela pede os distintivos, eles não querem dar. A jornalista então pega o celular, começa a filmá-los e eles correm do apartamento com medo das consequências.

É quase como assistir a Ursinhos Carinhosos com política no meio. Me diverte, me faz bem, pela delícia contida naquela utopia político-social.