Cinema puro

Rouben Mamoulian, diretor dos contrastes, entre o ligeiro e o sombrio, reflete em “O Cântico dos Cânticos”, com Marlene Dietrich, sobre o espaço designado à mulher

Morre-se de amor pelo cinema ao ver um filme de Rouben Mamoulian. Cinema em sua complexidade dramática, visual e sombria.

O diretor de origem armênia nascido no império russo, belo fisicamente, forte artisticamente, irônico e bem-humorado, dá a seus atores o tempero das falas e os gestos realistas num cenário de pompa. Os contrastes constantes e vívidos embelezam o simples e trazem a dificuldade (o não-dito, o que é só sentimento) ao nível do palpável, do chão.

O diretor Mamoulian e
Marlene Dietrich no set de
“O Cântico dos Cânticos”

Qualquer beleza fílmica acaso haveria sido maior do que esta, ainda mais se a tivéssemos presenciado numa sala de cinema daquele tempo, onde os veludos do aconchego se cruzavam com os ratos nos banheiros?

Em “O Cântico dos Cânticos”, de 1933, que a Colecione Clássicos disponibiliza através da caixa “Cinema Pré-Code”, vemos uma amostra desse cinema comercial hollywoodiano ainda livre, pleno de graça e ardor. O cinema como ele foi antes que o Código Hays, em 1934, passasse a controlar (e isto até as quatro décadas seguintes) as produções cinematográficas dos Estados Unidos, dificultando que a vida real – libidinosa, homossexual, política – se visse representada pelo drama.

A menina do interior
terá de se despir para Berlim

Nesse filme de 1933, por exemplo, um condutor de charrete adentra o quadro num pulo e pulamos nós espectadores com ele também, surpresos porque até então somente os cavalos assomavam junto ao portão. Cinema!

A escultura é mostrada desde sua giacomettiana fundação, e nos refestelamos de suspense pela figura que vai surgir. Cinema também!

O campo florido está repleto de grama e Lily Czepanek (Marlene Dietrich) enfia sua cabeça nela, explicando ao amante que dali sai o cheiro da vida. Cinema, sim!

O chão que nos protege

E os diálogos simples e diretos, humorados, dos atores? E os olhos grandes de Dietrich, sua fala doce e suas muitas faces, da menina ingênua no cemitério até chegar à baronesa e à mulher dissoluta? Que percurso para uma atriz, que cinema puro!

O escultor Richard Waldow
(Brian Aherne) e sua modelo
Lily Czepanek (Marlene Dietrich)

A trama é dos Novecentos. Um escultor pobre, Richard Waldow
(Brian Aherne), busca a obra de arte perfeita, até porque um barão já pagou por ela. A jovem órfã Lily carrega sua Bíblia para Berlim porque está atrás do amor. Os dois se encontrarão, e rapidamente, porque Mamoulian sabe com quem fala, leitores de folhetim arrastados ao cinema no domingo. É de romance que todos precisam.

Diante do espelho, ou será da cruz?

Então que não se perca tempo demais com isso: está claro que Dietrich se transformará na principal obra do escultor. Mas não só dele, visto que todos quererão moldá-la à sua semelhança no filme. Claro que o amor virá em um ponto luminoso e será chamuscado, talvez perdido pela jovem, que logo envelhecerá suas expectativas.

De início ela vai trabalhar na livraria da tia (e até o folhear dos volumes, nesse ambiente, insinua uma outra intenção) porque seu pai, com quem morava no campo, morreu. De cara, a velha a faz ver que tudo na bela sobrinha está inapropriado à cidade. Ela chega encapada por camadas de saias e anáguas na inversa proporção do que Berlim exige – a “nudez” de seus habitantes, ou seu pragmatismo, submissão, entrega absoluta. (Não será por acaso que no ano em que se faz o filme Hitler sobe ao poder na Alemanha.)

Numa sequência herdeira da época silenciosa, Dietrich tira a primeira saia, depois mais outra e outras, até deitar na cama para dormir. É um trabalho preciso na sua feitura cômica e igualmente sinalizador de uma proposição: o novo cinema deve se desfazer de suas camadas de apetrechos inúteis, de empolação. (Do que mais se fala nas entrelinhas de “O Cântico dos Cânticos”, aliás, é do cinema em si.)

Como posse do barão
Von Merzbach (Lionel Atwill)

Dietrich vai assim tirando as anáguas até o osso do seu corpo – ao contrário do que fará o escultor depois, ao “vesti-la” com a carne de sua argila, por vezes moldando-a como quem a aperta para o amor. Muito erotismo silencioso e insinuado será feito essencialmente a partir daí, da troca de olhares que resultará em sorrisos entremeados pelo desafio.

O caminho da dissolução,
o mesmo onde a mulher poderá encontrar a liberdade

Principalmente, a essência deste filme que tão bem repercute sua era cinematográfica está na localização do espaço delimitado onde será possível obter a liberdade feminina. E que espaço sombrio, esse! Impor-se a ele, em resumo, é fazer um caminho indignado porém sorridente, “queer”, em que a mulher incorporará a dissolução para dela se servir, como quem veste um colar.

O desejo ardente silenciado

“Junho Ardente”.

A obra-prima de Lord Frederic Leighton foi concluída no final de sua carreira, em 1895.

A sensualidade de sua figura central resplandece na cor laranja do vestido drapeado.

Ela dorme ou está no limiar da morte, conforme talvez simbolize o ramo tóxico no canto superior direito do óleo sobre tela.

As prováveis modelos da obra foram as atrizes Dorothy Dene e Mary Lloyd, retratadas por vários artistas pré-rafaelitas.

“Junho Ardente” começou como motivo para adornar uma banheira de mármore em outra obra de Leighton, “Descanso de Verão”.

Mas ele amou tanto seu personagem que decidiu recriá-lo numa pintura separada. 

Leighton realizou pelo menos quatro esboços antes de pintar a figura central e lutou para fazer o ângulo de seu braço direito parecer natural.

A naturalidade era importante nesse movimento inglês de “arte pela arte” (art for art’s sake) ao qual aderira, em que as qualidades artísticas importavam mais que o tema das pinturas.

Mas como não ver importância neste tema?

A figura central não consegue acordar, como se seu desejo, evidente na cor radiante, estivesse reprimido entre o sono e a morte.

É ou não uma magnífica maneira de entender a repressão à sexualidade feminina numa Inglaterra vitoriana?

E em tantas eras que se seguiram?

Arte pela arte, estamos igualmente diante de uma representação excepcional.

Fake fashion, a onda

Quão chocante lhes parece que uma empresa cobre para vestir alguém virtualmente, como a Carlings tem feito na Noruega?

Para mim, o choque é quase zero.

Nossos olhos tristes já são maquiados por meio dos filtros de selfie do Instagram. E pagamos indiretamente por esse embelezamento. Os anúncios infindáveis que suportamos na rede constituem o preço.

E se pagamos de um jeito enviesado pelo direito à boniteza esfumaçada, arrasadora de espinhas, olheiras e rugas, por que não deixaríamos que uma marca de roupa nos “vestisse” por um custo menor do que o da roupa verdadeira?

Eu não pagaria por isso hoje. Mas talvez no futuro o próprio Instagram nos venda disfarçadamente a possibilidade, da qual eu talvez usufruísse como quem brinca.

Não queremos aparecer nas imagens ainda mais feios do que somos, certo? E isto desde a segunda metade do século XIX, quando a fotografia começou a ser comercializada, espalhando a onda da beleza filtrada dos retratos.

Já que a pandemia nos força a viver reclusos (pelo menos nós, os exaustos conscientes), não há por que a indústria deixe de tirar proveito também disso. Será mais uma oportunidade de incutir em nós o consumo em prol da jovialidade exigida pelo mundo de aparências.

O fardo impressionista

João Luiz Lafetá, o grande professor

Naqueles anos 1980 era possível frequentar duas faculdades simultaneamente na USP, e foi assim que, enquanto cursava Jornalismo, um pouco decepcionada com tudo, buscava Letras também. Moradora do Crusp, ia à aula do segundo curso com muito prazer, como quem desce após o jantar para cumprir um exercício.

Tive sorte e azar. Professores ruins de Literatura Portuguesa e Inglesa, mais ou menos insignificantes de Linguística e Português. Em Teoria Literária a coisa era diferente. Não cheguei a Antonio Candido, mas João Adolfo Hansen, Alfredo Bosi e João Luiz Lafetá foram meus professores.

Hansen era maravilhoso. A aula desse grande estudioso da sátira e do poema barroco surgia para mim como uma espécie de show teatral de humor hipnotizante. Certa vez, o professor comemorou rindo muito ao saber que o dicionário de latim deixado por ele no xerox havia sido roubado. Quem se interessaria por esse assunto a ponto de surrupiar um dicionário?

Bosi era o oposto, carisma nenhum. Sentava-se e lia a aula sentado no púlpito. E eu anotava. Devo ter aprendido alguma coisa, tinha 19 anos, não me lembro. O seu jeito de padre, pude reviver três décadas depois enquanto jornalista. Falava comigo de perfil, como se me ouvisse no confessionário, enquanto Eclea Bosi atravessava diversas vezes a sala sem me olhar.

O Lafetá era o melhor. Dava uma aula perfeita, enquadrada. E sorria, infantil, com suas próprias conclusões aparentemente tiradas naquele instante, enquanto andava pela sala. Ele e Hansen eram fumantes o tempo todo, e eu, que sofrera por anos ao aspirar a fumaça produzida por meu pai na sala onde ele estudava e eu dormia, nem sentia o cheiro ruim.

Lafetá, entre esses todos, cuidava de seu aluno. Ele o percebia, como sentia os textos, as intenções do autor estudado, sua tessitura. E eu me encontrava nisso. Estou penando para me lembrar do livro que destrinchou pra nós em aulas seguidas e sorridentes, mas não consigo.

Sei que nos pedia dois trabalhos de análise literária como avaliação do curso. Guardei por anos a folha em que avaliou o meu primeiro. Ele se disse feliz com minha sensibilidade, que classificou de brilhante, mas enquanto me dava 10 afirmava temer que eu me tornasse uma “crítica impressionista”.

Querido Lafetá, nem crítica literária me tornei! E me perdoe por ter cultivado a sintonia com os textos mais do que a pesquisa em literatura, esta que a vida rotineira e a necessidade de sobrevivência me fizeram perder de vista. Também me perdoe por entender hoje que você via em mim um pouco a si mesmo, lutando para se manter na pesquisa e construir uma coerência de scholar enquanto a leitura lhe banhava de impressões.

Creio que impressionista fui e impressionista me tornei, sem me aborrecer com isso, antes me beneficiar dessa percepção e morrer por ela, por assim dizer. E agradeço a esses três pela dignidade com que envolveram a transmissão de seu saber.

Borgen, a deliciosa utopia

Amigas queridas e poderosas me indicaram Borgen, uma série dinamarquesa na Netflix que foi ao ar no país entre 2010 e 2013, anterior portanto a House of Cards.

A protagonista é uma política de partido moderado que ambiciona a premiê. É casada com um descolado professor que cuida dos dois filhos pequenos do casal enquanto ela corre na política. Ele é inteligente, bem-humorado e lindo: ela tem atração por ele e ele, por ela. Ela é bonita, charmosa e engordou um pouco.

Borgen é o palácio que concentra o Parlamento, o gabinete do primeiro-ministro e o Supremo Tribunal. Ali acontecem as tramas da sordidez do poder, impulsionadas pela apuração do jornalismo político. A outra protagonista, âncora de telejornal, é jovem e tem envolvimento amoroso com fontes.

Enfim, o que me encanta, para além do modo ágil e gostosamente caricatural pelo qual se desenvolvem essas séries padrão Netflix, é mesmo uma dupla questão.

A primeira. Me sinto representada pelo fato de as protagonistas serem mulheres num mundo de homens, tendo de dar atenção a aspectos triviais de sua vida familiar e amorosa enquanto pensam em como avançar a carreira diante dos degenerados. Também me encanta o fato de a candidata a premiê pretender ser moderada sem abrir mão de respeito a minorias, gêneros e meio ambiente.

A segunda. A Dinamarca não é aqui. As mulheres são respeitadas. A imprensa é cobrada pelo público e pelos próprios jornalistas a agir independentemente. São todos frios e diretos, mas bem-humorados nas suas relações e observações. E o tecido social surge reluzente.

É necessário seguir os protocolos de boa educação e civilidade em todos os momentos. Em uma sequência, dois policiais batem à porta da jornalista. Ela atende sem perguntar quem bate. Eles querem pressioná-la a entregar a fonte de sua apuração. Ela pede os distintivos, eles não querem dar. A jornalista então pega o celular, começa a filmá-los e eles correm do apartamento com medo das consequências.

É quase como assistir a Ursinhos Carinhosos com política no meio. Me diverte, me faz bem, pela delícia contida naquela utopia político-social.

Chineses, reclamar por quê?

O artista plástico Ai Weiwei precisa voltar ao Brasil urgentemente para compreender por que seu filme sobre a pandemia nos parece estranho em muitos momentos. A China errou, e muito, ao ignorar o potencial do vírus no início, mas nunca esteve nos planos do governo matar deliberadamente seus cidadãos contaminados

Nos hospitais, os incansáveis procedimentos de urgência

De 1 de dezembro do ano passado, quando o primeiro caso foi detectado, até o estabelecimento do lockdown na China, em 23 de janeiro de 2020, um grande silêncio foi imposto aos habitantes do país sobre o potencial letal da Covid-19. Este parece ser um dos lamentos centrais do artista plástico Ai Weiwei, que dirigiu remotamente o documentário “Coronation”, exibido até o dia 5 de novembro durante a 44 Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ao organizar imagens aéreas e terrenas de Wuhan, a cidade por onde a contaminação primeiro e rapidamente se espraiou.

A polícia controla os papeis de quem se dirige à cidade que é foco de contaminação



Médicos, enfermeiros, trabalhadores de construção, doentes e seus familiares foram registrados por meio de câmeras e celulares particulares para que ocorrências relacionadas ao estouro da pandemia se vissem exibidas em ritmo cinematográfico, de modo a “coroar” os verdadeiros responsáveis pelos erros que resultaram na contaminação acelerada e transformaram a China, inicialmente, na nação do coronavírus, esta a que o diretor alude ironicamente no título do filme como “coronation”.

Para Weiwei, que reflete enquanto expõe, errado é um sistema político que prende seus habitantes à burocracia controladora de suas vidas, ignorando dores e necessidades particulares, como aquelas envolvidas na luta pela sobrevivência dos doentes. Parentes que não podem dispor facilmente das cinzas de seus mortos, por razões não esclarecidas, e que acabam por queimar seus restos em plena rua, nas sequências finais do filme, são expostos em sua impotência diante da morte evitável. Há humor quando uma idosa servidora do partido reflete sobre a grandeza da união em prol do bem comum no país: ela saberá que a cúpula chinesa mente aos seus cidadãos?

A idosa servidora do partido e seu filho, em uma sequência com elementos de humor:
ela sabe que a cúpula chinesa omite informações a seus cidadãos?

O brasileiro que vê este filme deve se preparar para o sofrimento dobrado. Toda a lamentação chinesa lhe parecerá estranha, desde aquela dos pacientes curados, a quem foi imposto o confinamento sem diagnóstico contundente final. Por que reclamar, se se salvaram?

A vestimenta sem erro e a rigorosa esterilização dos funcionários nos hospitais

Depois de um grande tropeço de avaliação inicial, nada parece errado no que a China faz para curar seu povo e impedir que a contaminação ande além. Todos os que partem de locais contaminados ou a ele se dirigem são rigorosamente inspecionados. Há medidores de temperatura nos locais públicos, incluindo transportes. Depois de certa altura, se sair à rua sem cuidados, e quando não recomendado, um chinês será obrigado a pagar pelo tratamento, que durante a pandemia foi gratuito. Nenhum médico está sozinho na hora de se higienizar: dentro dos hospitais, uma câmera rastreia seus procedimentos e alguém, ao observar a cena por monitores, avisa ao profissional se não limpou direito seus sapatos.

Drones medem a amplitude de um país continental

Não é um filme sobre particularidades, antes sobre contextos. Weiwei preza a observação extensa, continuada, incansável e irônica de seus personagens em linha de montagem, que podem, por exemplo, estar sujeitos a um juramento de fidelidade ao Partido Comunista quando isto nem de longe seria o esperado em pleno estouro de uma crise sanitária.

Ai Weiwei: em “Coronation”, os olhos abertos para as grandes dimensões

Vivenciamos as dimensões continentais do país no seu cotidiano. Um médico anda por vários minutos por entre labirínticos corredores até alcançar seu local de trabalho num hospital em que tudo, desde a vestimenta de proteção, funciona a contento e com cuidado. Câmeras em drones demonstram a imensa malha de trilhos e estradas que fazem daquele um vasto território acordado para o mundo em todas as horas da noite e do dia.


Por que reclamar da China, se somos brasileiros nas mãos de genocidas?

Weiwei, volte ao Brasil, e rápido.

O fechamento de uma urna funerária diante dos parentes dos mortos, que ficam de costas

Coronation (Coronation)

Dir. Ai Weiwei

China

115 min

2020

https://44.mostra.org/filmes/coronation

Chechênia, onde matar gays virou obrigação de família

Filme de David France na Mostra Internacional em São Paulo retrata uma dor em andamento. Na república ao sul da Rússia, os homossexuais são reprimidos sem que nada seja feito para impedir a ação policial fora de ordem

Maxim Lapunov e o namorado Bogdan: fuga e afirmação

Welcome to Chechnya é o retrato de uma grande dor em andamento. Na Chechênia, república ao sul da Rússia liderada por um certo Ramsan Kadyrov, fantoche barba-ruiva de Vladimir Putin, os gays são localizados pela polícia, espancados, presos, torturados e mortos sem que nada seja feito para reprimir uma autoridade francamente fora de ordem e vil. 

O líder Ramsan Kadyrov, que com a ajuda de Putin fecha os olhos ao massacre de jovens

Mais. Embora se trate de um país laico, uma maioria populacional muçulmana tem ditado as regras de existência. Quase certamente, ao receber em casa os torturados, as famílias terminarão o serviço iniciado por esses policiais, a seu conselho. Simplesmente matarão os parentes homossexuais feridos – e o filme chega a mostrar uma câmera de rua no momento em que alguém joga uma grande pedra sobre o corpo tirado de um camburão.

O ativista David Isteev, que coordena as fugas dos perseguidos a Moscou

Contudo, não foi sempre assim, conforme diz o ativista David Isteev, coordenador responsável por Crises na organização Rede LGBT Russa. Isteev recebe as ligações de jovens em desespero e encaminha sua fuga para um abrigo em Moscou, até que os refugiados encontrem passaporte para viver em outros países associados à organização não-governamental, como Bélgica ou Canadá. (Foram 151 os repatriados em dois anos de atividade da organização, enquanto nem Rússia nem os Estados Unidos de Trump aceitam acolher chechenos homossexuais).

No abrigo em Moscou, a espera constante por asilo

O trabalho de Isteev, assim como o de Olga Baranova, diretora do centro comunitário para Iniciativas LGBT em Moscou, fez-se necessário ou imprescindível desde que, em março de 2017, uma batida da polícia chechena localizou drogas com dois contraventores. No celular de um deles, os policiais encontraram mensagens e fotos de sexo explícito gay. Os traficantes foram torturados para que delatassem mais dez de seus colegas homossexuais. E, a partir da coerção à delação, que se transformou em hábito no país, o número de perseguidos, torturados e mortos aumentou exponencialmente.

Gisha, pseudônimo de Maxim Lapunov, torna-se protagonista do filme. De início, o diretor lhe aplica um recurso adotado para todos os personagens sob risco: altera digitalmente seu rosto. Gisha nem checheno é. Foi à região para trabalhar, mas, detectado como gay, viu-se preso por um ano numa cadeia onde a tortura era rotineira. Solto e de volta a sua Rússia, prosseguiu caçado e as ameaças se estenderam a sua família – mãe, irmã e sobrinhos que se recusaram a patrocinar sua eliminação. Eles vão penar para encontrar lugar. “Sabe do que fugimos?”, considera sua mãe. “Não de um país, mas de um povo que, ao ganhar poder, começa a abusar dele.”

Mulheres homossexuais como Anya estão sujeitas à violência constante

Mais do que Gisha, o filme materializa a dificuldade em amparar as mulheres homossexuais. Elas vivem já cerceadas, escondidas em casa. Detectada sua sexualidade, sofrem torturas e abusos violentos. Foi o que aconteceu com Anya, uma jovem rica de 17 anos chantageada pelo tio: ou transava com ele ou ele a delataria ao pai, que certamente decidiria matá-la. Isteev a acolhe depois de uma complicada operação para enganar sua família, mas as coisas não correrão como imaginadas em prol de sua libertação.

Um filme sem fotografia especial, com o fôlego, a apreensão e o coração de uma transmissão televisiva. Um filme a pedir ajuda, desesperadamente.

Welcome to Chechnya (Welcome To Chechnya)

Dir.: David France

EUA, 2020

107 min

https://mostraplay.mostra.org/film/welcome-to-chechnya/

A quem se destina

Aproveite a chance rara de assistir de graça a “Todas as horas do fim”, o documentário sobre Torquato Neto que é só poesia

Nosferatu como um profeta triste

Há três anos apareceu com imenso lirismo este filme dirigido a partir de depoimentos, da pontuada narração de Jesuíta Cardoso e de outros filmes – os de Torquato Neto, em super-8, e aquele de Ivan Cardoso, por exemplo, em que o poeta da literatura e da música do Brasil é um vampiro convicto, de sandálias e cabelo longo.

Três anos e este “Todas as horas do fim”, dirigido por Eduardo Ades e Marcus Fernando, ainda dói na gente. Em quem é gente no Brasil. Em quem não se cansa de penar para entender por que um poeta da vida tenha escolhido a morte, suicidado com gás, aos 28 anos, em 1972.

E no entanto Torquato surgia pleno no mundo, gênio precocemente, poeta desde os 9, filho único de pais amorosos, magro, seco e severo como eles na Teresina que era a sina de todos…

E mesmo sendo pai de Thiago, outra realização de amor, marido de Ana, sua santa, isto não o impedia de imaginar que, tendo concluído sua obra, viver não seria mais preciso… E o que dizer daquela ditadura que não parecia ter mais fim, nem nada de si?

Caetano e Gil eram seus amigos da Tropicália, em que Torquato nem mesmo acreditava de início. Hélio Oiticica podia dizer-se fartamente admirado por ele, assim como Glauber Rocha, assim como o cinema. Um poeta a observar toda a arte, toda a vanguarda, todo o sentido.

É um filme de ritmo e canção, que busca a poesia com simplicidade, razão pela qual a encontra, embora não a discuta nas linhas próprias de Torquato Neto nem trace os paralelos entre elas e os versos, por exemplo, de um conterrâneo como Mário Faustino.

É madrugada, passou das três, e eu tive de reescrever isto tudo! O texto primeiro, o blog comeu…

Torquato, é você aí?

Poeta desde os 9 anos que ele foi

Aqui vai o streaming do documentário “Torquato Neto – Todas as Horas do Fim”, dentro do projeto “Em Casa com o Cine 104”:

https://vimeo.com/460725286

senha: torquato_104

Até as 20h de 9 de outubro de 2020

A liberdade celestial

Em “A Ponte de Bambu”, Marcelo Machado vê a ligação mantida
pelo amigo e jornalista Jayme Martins com a China desde os anos 1960

Em Pequim, a partir de 1962, Jayme Martins atua como professor

Se um lugar não lhe dá liberdade, você pode procurar outro lugar para ser livre. Ou talvez encontre esta condição dentro de si. O jornalista Jayme Martins, hoje com 90 anos, não se sentia tão livre assim no Brasil. Ele buscou por sistemas filosóficos que lhe garantissem uma ação libertária, mas não parou em nenhum até encontrar o marxismo. Em 1962, ser comunista não parecia coisa boa. Ele então decidiu experimentar a China que lhe oferecia trabalho, e a sua mulher, além de moradia em um hotel para estrangeiros. Teve duas filhas lá e não pensava em voltar ao seu lugar, então francamente antilibertário, até que a anistia chegasse aos brasileiros e ele pudesse estar em Jundiaí para espalhar o que aprendeu com os chineses.

Jayme Martins vestido com o rigor da tradição

É, em linhas gerais, o que diz o documentário de Marcelo Machado, A Ponte de Bambu. Não que o diretor tenha conseguido aprofundar a história de Martins desde a infância de suas vocações. Em verdade, trata-se de mais um filme sobre a China em que a perspectiva precisa ser familiar, resistente como aquela gramínea. A mulher do diretor é chinesa, e Jayme Martins nunca perdeu a fé nos comunistas dali, nem mesmo quando deixou às pressas a Pequim onde as filhas estudavam. O massacre na Praça da Paz Celestial, conforme ele informou à época em reportagens ao JT, ao Estadão e ao SBT, foi desnecessário e cruel. Tropas com seus tanques chegaram a Pequim naquele 1989 desinformados das manifestações políticas crescentes, achando que combateriam uma enchente.

As filhas Raquel e Andrea com os colegas da escola para chineses
Raquel com os estudantes da Praça da Paz Celestial durante as manifestações que resultaram no massacre de 1989

Marcelo Machado é um documentarista sensível, com belo entendimento do ritmo musical e dos depoimentos, obtidos com a naturalidade de quem divide a cozinha com seus personagens. Não se posiciona a favor da China, e não precisa. Martins ainda acredita nela. A seu ver, o país adaptou a economia de mercado ao comunismo, transformando a mais-valia em bem-estar social. E o jornalista acredita que isto vai dar em coisa boa, com certeza.

A família reunida em Jundiaí
Com amigos e a esposa Angelina na Muralha da China

A PONTE DE BAMBU

Diretor: Marcelo Machado

Brasil, 77 min

Onde: bit.ly/3mI4SJI

exibições: 27/9, às 21h, 28/9, às 15h

Para sustentar a leveza

Documentário presente no festival É Tudo Verdade mostra a história de superações, o humor e os filmes do diretor tcheco Milos Forman

O diretor Milos Forman com os filhos Petr e Matej em Praga, 1965

Milos Forman (1932-2018) é o diretor cujas marcas de linguagem estão no volteio das curvas dos corpos impressionistas, em especial na fase tcheca, e nas expressões exacerbadas dos personagens operísticos. Um diretor para quem toda a exasperação se sustenta em leveza, a contrariar o título do romance de um conterrâneo seu. Contudo, o documentário Forman versus Forman, assim intitulado para evocar uma batalha de boxe interna, mas também para parodiar um filme inquisidor de entrevistas com o diretor (Chytilova Versus Forman, 1982), não se concentrará nessas explorações. Ele explicará este grande cineasta algo esquecido por meio de sua personalidade bem-humorada e de sua inacreditável história de superações, entremeada por seus filmes.

Pedro e Paula, realizado na Tchecoslováquia em 1964

Nasceu em cidade de seis mil habitantes na Tchecoslováquia, de mãe expansiva e pai professor, ambos mortos em campos de concentração. A partir dos 10 anos, vagou de família em família até ser internado num colégio para órfãos onde conviveu com Vaclav Hável, intelectual que se tornou presidente do país. O stalinismo deixou-lhe marcas profundas, ele que, depois de rejeitado pela escola de teatro, estudou em escola de cinema exuberante e seguiu uma carreira de êxito mesmo impedido de se manifestar livremente. Seus ídolos, como o italiano Pietro Germi, eram realistas novos, de pulso forte, necessários como modelo para eliminar a dura ideologia de arco-íris que amarrava a arte do país.

Procura Insaciável, filme inicial de sua fase estadunidense, 1971

Auto-exilado nos Estados Unidos, morador do Chelsea Hotel sem precisar pagar a conta, encontrou uma explicação para a liberdade: “Sei que ela está onde se pode duvidar publicamente de sua presença”. O documentário de Jakub Hejna e Helena Trestíková traz momentos preciosos, retirados de outros filmes, em que ele por exemplo dirige os atores lado a lado, com ímpeto alegre, e os faz sorrir. Forman versus o Mozart de Amadeus: “Pessoalmente me sentia como Salieri invejando Fellini, Antonioni e Bergman.” O medíocre não precisa ser ruim.

FORMAN VS FORMAN

Diretores: Helena Trestíková e Jakub Hejna

República Tcheca, 77 min

onde: bit.ly/3mI4SJI