Amávamos tanto

Creio que muitos de meus amigos conhecem “Nós que nos amávamos tanto”, belo filme de Ettore Scola lançado em 1974.

Terno, reflexivo, risonho, às vezes lindamente grotesco, com a interpretação magistral de Aldo Fabrizi, e também tão triste…

Commedia all’italiana de meu coração.

Talvez nele vocês reconheçam os amigos que abandonaram seus sonhos de igualdade e se tornaram os espectros que vemos achatar a terra ainda hoje…

Que roteiro maravilhoso, quase uma HQ nascida dos experts em humor do jornalzinho onde Fellini também trabalhou!

Esta versão é integral com legendas em espanhol.

Revejam, vejam. 💜

I love Lily

Não sei o que me faz amar Lily Tomlin tanto assim.
Desde Nashville, de Nine to Five a All of Me…
Que estrela!
Mal chega uma temporada de “Grace and Frankie” e eu a devoro inteira por causa dela…
Em primeiro lugar, uma comediante que sorri!
E que parece feliz.
Que sabe o seu lugar.
E que jamais desistiu de lutar com elegância por ele.
Que se recusou a sair do armário numa capa pra Time.
E que acabou capa da Time do mesmo jeito anos depois, em 1977, celebrada como “Rainha da Comédia”.
Uma comediante, mulher comediante, é sempre uma heroína.
Vocês sabem que Lily é o nome da mãe dela?
Que seu verdadeiro nome é Mary Jean, quase uma Norma Jean?
Que ela estudou medicina, como Graham Chapman, o Brian de Monty Python?
Que sua esposa se chama Jane? Que são uma dupla de trabalho também? Que ela cria e escreve papeis pra Lily?
E que sua preferência como atriz é atuar diante da plateia, improvisando e trocando energias com ela?
Pois então.
Sinto falta de chamar os amigos pra falar sobre Lily Tomlin.
Não que eu tenha muitos, mas…
Pelo menos tentaria reuni-los, não fosse a tristeza atual.
Mas Lily não é triste.
Não vou ser.
💜

Selfiar o que há de bom

a quarentena me volta ao autorretrato.
selfie, como vcs chamam.
e normalmente usam o termo pra depreciar os outros, aqueles que moram no inferno.
(até porque alguns autorretratos são aquilo mesmo que se desgasta, coisas iguais, hipócritas, iludidas.)
adoro selfiar o que há de bom.
talvez só eu mesma conheça os poucos ângulos onde exista algo que se aproveite em mim.
acho que todo mundo é assim.
um dos grandes fotógrafos da minha vida, lee friedlander, fez um revolucionário e lindo livro com seus autorretratos, impressos até mesmo como sombra em quem passava.
entendo-os como uma forma de autoconhecimento.
até eventualmente os mais íntimos, que a gente prudentemente esconde na nuvem, pra não decepcionar o próximo.

Música com sangue

www.netflix.com/title/80227122

A quarentena mal começou.

Vocês terão tempo.

Assistam a este documentário espetacular de Stanley Nelson, “Miles Davis: Birth of the Cool”.

Está na netflix, mas suspeito que seja fácil baixar.

Que edição de imagens.

Ritmo!

A música era tudo para Miles.

Principalmente, evoluir dentro dela.

Ou isto ou a arte não faria sentido.

Foi um perfeito condutor de instrumentistas para o exercício de suas próprias visões.

Mais importante que ensaiar, para ele, era improvisar no palco.

E improvisar significava exercer a música em profundidade, sem limites.

Irascível, desafiador do racismo e do establishment, amante de ferraris, Miles foi igualmente louco por mulheres.

Às vezes, louco de verdade.

Machista, espancador.

Enfraqueceu-se mais e mais pelo uso de drogas e por seu comportamento autodestrutivo.

O cool que ele inventou e que quiseram transformar em entretenimento para brancos chiques vinha extraído de sua verve áspera.

Miles nos deu a música com sangue.

Vi Miles ao vivo.

Viva Miles.

Meu bom, meu velho

Que noite esta.
Antes de batalhar pelo sono, olho através da janela do quarto na direção das luzes acesas nos apartamentos dos meus vizinhos.
Quem serão eles?
Não os conheço pessoalmente, mas já lhes agradeço por tudo.
Pela liberação de um sentimento tão ruim (mais um) que me ocupou todo o dia. E que de modos diferentes me toma sempre desde 2016.
(Preciso de tanta energia amanhã. Alguém, eu mesma, haveremos de olhar por mim.)
Depois do panelaço, aproveitei o sinal aberto e vi Dunkirk.
Que filme.
Filmão de homens perdidos não em batalha, mas na fuga que a antecedeu.
A frustração, o desejo de voltar ao conhecido, de lutar pela permanência no mundo, de resistir.
Cinema, seu bom e velho.
Se não viram o filme ainda, quem sabe amanhã?
Ou pensando bem…
Não amanhã, com o coração aos pulos, mas talvez depois?

A noite no invisível

Às vezes me sinto uma câmera termográfica que fotografa o mundo escuro.

É uma sensação poderosa e reveladora.

Ninguém precisa concordar comigo, mas se digo que vi alguma coisa no invisível, pode crer, vi sim.

Acontece com vocês?

Não raro, quando assisto à maravilhosa série “Night on Earth”, na netflix (essa involuntária companheira), transponho suas revelações para minha vida, tipo “eu sei que aquele orangotango come à noite, por que nunca ninguém viu?” (metaforicamente, né gente).

Assisti ao último capítulo da série hoje, o making of em que o trabalho dos câmeras é revelado aos nativos e zoólogos.

A pesquisadora dos guepardos não conseguia provar ao mundo científico a perambulação noturna dos animais, embora tivesse fortes indícios disso, ao constatar suas coleiras desgastadas; as filmagens mostraram os guepardos bastante ativos à noite e assim validaram o trabalho de dez anos da cientista.

O orangotango nunca fora percebido comendo sob a lua, mas a fotógrafa o captou sem querer do alto da árvore de 30 metros, quando lá se encarapitara sozinha, de madrugada. Chorei junto com os pesquisadores nativos que se emocionaram ao constatar a vida noturna de um bicho querido.

Enfim, o importante é que vocês aproveitem a chance de assistir a essa preciosidade durante seu relativo confinamento.

Mesmo.

🌸

Abraço não é polêmica

Não morro de amores pelo Drauzio Varela. Sou impaciente com gente vaidosa. Da primeira vez que me deu entrevista, há milhares de anos, nem me olhou nos olhos. Falou ao infinito, como se lá estivesse uma câmera de tevê. E, sim, no futuro haveria no infinito uma câmera de tevê.

Também lidei semanalmente com ele por alguns anos, quando escrevia pra Gazeta Mercantil e pra Folha de São Paulo em dias alternados da semana. Suas colunas para os dois veículos eram sempre sobre o mesmo assunto. Ganhava o dobro para dizer coisas idênticas de modos diferentes, resumindo.

O procedimento me dizia mais alguma coisa indesejável sobre ele, embora nos tratássemos bem ao telefone. A gazeta era ordinária, mal me pagava salário e quase ninguém lia aquela coisa mesmo. Se eles queriam o Drauzio replicador, ficassem com ele.

Dito isto, o que tenho a considerar sobre o episódio da trans encarcerada é que ao abraçar um preso o Drauzio não comete crime algum, indiscrição ou falta de ética. E não por ser médico.

Não sou médica e no entanto abraço trans sob o viaduto sem lhe perguntar por que foi parar no viaduto e o que faz pra ganhar a vida sob o viaduto. Se quero me aproximar de um ser humano, me aproximo.

Me perdoem, mas, pensando bem, ele tinha mais era que abraçar a presa. Tomou seu tempo, certamente sem nada lhe pagar, expôs seu rosto ao mundo e ganhou visibilidade por meio dela – embora tudo tenha dado no que deu.

Ela é uma presa, melhor dizendo: cometeu um crime e não fugiu de pagar com o encarceramento pelo que fez.

Para mim, melhor abraçar uma pessoa nessas condições do que muito safado(a) com quem trabalhei no jornalismo.

Aliás, ou abraçamos o mundo ou ele nos abraça feito cobra depois de nos picar.

Padilha exterminador

José Padilha é um produtor que assina como diretor. Não sabe dirigir. Aliás, precisou contratar um cineasta estadunidense que sacasse minimamente o raio dessa coisa chamada cinema para realizar seu primeiro filme, Os Carvoeiros.

Tropa de Elite, aquele do fascismo imagético fundador, só virou história-símbolo com Wagner Moura (esse democrata) porque Daniel Rezende, hoje cineasta, montou o filme de modo a que Capitão Nascimento, representado pelo melhor ator do elenco, fosse o protagonista. Pensem nisso: Padilha dirigiu um filme sem nem mesmo saber quem seria seu personagem principal.

O manipulador que se diz das artes mas no fundo é o que sua formação original como economista dita, um homem da grana, já provou ser incapaz de ver o Brasil com independência. É no máximo e tão-somente o Robocop cuja saga tanto quis “dirigir” nos Estados Unidos e aos trancos e barrancos “dirigiu”.

Não há nada nesse biltre obscuro que se pareça com Spike Lee, o diretor citado pela roteirista do Marielle na Globo para humilhar todos os diretores negros do Brasil. Nem Spike Lee acerta em todo filme, então imagine…

Ela, a Globo, e possivelmente a família de Marielle, mais ainda a roteirista Antonia Pellegrino, mulher do Freixo, querem grana e visibilidade internacional por meio de um projeto sensível, de uma história que nem mesmo desfecho teve ainda. Quem mandou matar Marielle, filha? O Lula??

Visibilidade vão ganhar, embora ao custo de muita vergonha alheia. E se querem grana de verdade, deveriam ter chamado outro diretor brasileiro internacional meia-boca para colocar rodas nesse projeto, tipo o Meirelles.

Nada justifica um Padilha na história, exceto (e condescendendo muito) se um ghost fizer seu trabalho minimamente correto como diretor.

A perversão exala por todos os poros do Brasil.

E a história está cara a cara com seu anjo exterminador.

eu rio sim

não sei usar revólveres nem fuzis.

e sou oprimida pelo estado de coisas.

como vou me defender?

se não puder usar o humor como arma, ou como correção para um estado de coisas, à moda do que ensinou aristóteles, do que raciocinou bergson ou do que escreveu pirandello, o que restará de mim?

vou rir, sim, enquanto posso.

vou desmontar risonhamente o cinismo deles, os que me oprimem.

não particularizo minha crítica em micheque, porque nem mesmo isto ela merece de mim.

mas talvez devesse.

desmontando Maria Antonieta (“comam brioches”) nos panfletos satíricos, os oprimidos franceses contribuíram para a revolução.

contudo, não espero revolução nenhuma por aqui.

nem mesmo uma correção.

meu riso é só liberador.

é meu alívio.

por que rio?

porque é sublime.

rio do caos deles.

um dos meus jeitos de enfrentar as coisas.

rio enquanto espero o impossível.

Meu problema central com as redações brasileiras desde os longínquos anos 1980 foi sempre ter de me ver com a estupidez geral e fingir que nada acontecia, imaginando que um leitor lá longe iria pagar por tudo isso, por minha tristeza inclusive.

A mediocridade alegre dos confinados não impedia, era claro, que houvesse gente maravilhosa e genial a sobreviver nesses locais insalubres. Invariavelmente, embora nem sempre, os bons eram os párias. Cito o Renato Pompeu porque ele se foi e muito sinto sua ausência deste mundo.

Renato me dava uns sorrisos de canto quando ouvia coisas como estas, que me faziam enrubescer e, como sempre, sem sucesso, contra-argumentar entre as máquinas de escrever:

– O melhor jornalista brasileiro é William Waack.

– O Augusto Nunes tem um texto maravilhoso.

– O Bial é um poeta.

Para Renato, tudo era uma contrapartida à célebre frase que um dia ele ouviu no boteco (boteco como a instituição onde se anunciava o fim do mundo):

– Pelé, cego de bola!

O Bial é um ignorante machista, nunca deixou de ser. Só se espanta quem quer. (Meu teclado vermelho escreveu: “quem queer”).

Mas, como eu disse antes, não é o único jornalista a criticar a diretora antes de criticar o filme.

Aparentemente os mesmos que viram na trash & comic Bacurau uma leitura revolucionária do Brasil e nas novelas de Muylaert, tratados de sociologia sobre a senzala, acham o Democracia um lixo. Mas por que um lixo?

Ah, a voz da Petra.

Menininha rica.

O filme não tem outro lado.

É a história dela, não a do Brasil.

Tudo bem você, como espectador, detestar a voz dela e sua fala em primeira pessoa. Tudo bem você pedir mais ação quando se põe diante da Netflix depois de um dia cheio. Mas não o crítico. Crítico não deveria ser rasteiro, machista, estúpido, violento.

Nem sei se ainda existem redações. Mas que lixo, gente. Que lixo de pensamento. Depois não adianta reclamar do Weintraub.