Faz três dias que mergulho numa gastroenterite inquietante. Na verdade, ela obriga a aquietar-me, enquanto me provoca espamos frequentes. Não se trata de nada grave, garantiu-me o médico, que está no exterior e respondeu a meus questionamentos por WhatsApp. Mesmo que houvesse gravidade e eu sofresse mais, não acharia minha dor maior do que a experimentada por tantos palestinos e brasileiros no exato momento em que escrevo.
Dito isto, sonhei. Um sonho típico de quem digere mal, acometida por malfeitores invisíveis. Sonhei que ocupava a poltrona de uma sala de cinema lotada, onde amigos sorriam submissos para o governador de São Paulo.
Já seria tormenta suficiente visualizar à distância de dois metros, mesmo que em sonho, a efígie bexiguenta do serial killer, certo? O que dizer então de vê-la passar-se por decente diante daqueles por quem eu nutria compadrio?
O governador sorria de volta para meus amigos como se estivesse em campanha, apertando-lhes as mãos com as duas palmas juntas. Talvez meus amigos buscassem dinheiro, editais, e fosse esse seu caminho para conseguir os meios? Eu poderia compreender. Mas a coisa não parava aí. Entre o público, havia jornalistas do tipo mais comum que conheci, os submissos arrogantes. Nem sei se alguém distante desse meio vai entender, mas essa gente existe. No meu sonho, eles viam o governador como um sujeito inteligente, cujos bons atributos não poderiam ser facilmente contestados. Se o patrão está com ele, com ele estamos!
Sim, eu pensava comigo, o governador não pode ser contestado porque vocês, jornalistas de política, se esquivaram da contestação. Eu tentava acionar os números comprobatórios da escalada de miséria, morte e abandono da população em todas as áreas sob esse governo, mas os dados não me chegavam à mente com nitidez. E, assim, eu me sentia mais uma responsável pela construção da imagem do governador como um técnico competente, macho da porra toda, até gente boa.
Foi então que aconteceu como se eu tivesse 20 anos de idade na redação da Folha, diante da corja de puxa-sacos usuais da categoria. Mesmo não sendo jornalista de política, eu podia constatar o óbvio. Mesmo sem os números em mãos, eu me servia da observação direta do caos cotidiano e dos apelos dos desprovidos. Comecei a gritar.
“Covarde assassino” eram as duas palavras que eu dirigia ao governador, sem medo nenhum. Ele teria me ouvido? Seus capangas? A milícia? Não me importava. A cada aplauso, um grito meu. Até que ele se levantou para o meu lado e bradou:
“Por isso sento o trabuco!”
E meus amigos, quietos…
Como se fosse natural, eu deixava a sala de cinema para dirigir um carro veloz. Não fazia isso por temer a autoridade, mas meus próprios amigos, cujos corpos e mentes pareciam invadidos por outra força invisível, que certamente os comeria por dentro. Pelo menos me sentia arriscada e feliz ao volante, praticamente uma Grace Kelly nas escarpas da Riviera, imbatível na capacidade de contornar o precipício. Cary Grant, eu sei, teria me sorrido.
Acordei suando. A sensação de ter sido próxima em pesadelo do governador emberebado e barrigudo equiparava-se à de meu sistema digestivo em looping.
Um ladrão em que a casaca de Grant jamais caberia…
Cidinha Campos denunciou Brazão no parlamento inúmeras vezes e não foi ouvida pelos integrantes da casa. Em razão da ausência de providências contra o assassino, livre para legislar pela milícia, continuou a ser ameaçada de morte, chamada de puta por quem ela não hesita em classificar como “serial killer”, ademais brindado com passaporte diplomático por Bolsonaro.
Mulheres parlamentares, as mais ignoradas, são caladas à força no Brasil. Uma polícia manipulada, dominada, engorda seu poder corrompido matando pobres, forjando inquéritos policiais de intimidação contra quem poderia denunciar os desmandos políticos.
E como não seria assim, se a imprensa dá as costas à população? E só agora, após a determinação de um governo democrático, a polícia fez o que já deveria ter feito?
O pior, sempre o pior pra mim, é que o jornalismo brasileiro não tenha corrido atrás desse monstro por tantos anos. Principalmente, que nenhum dono de jornal o tenha feito, pois um jornalista não age só, ou só a muito custo pessoal pode agir. Bons jornalistas têm de ser hábeis negociadores dentro de um jornal. Sofrendo os diabos.
Hoje, pleno 2024, o Estadão ousa um editorial ridículo, associando o sistema de cotas ao aprofundamento do racismo, estabelecendo que sua prioridade é retroceder politicamente para garantir o fim do ensino público e aumentar a concentração financeira.
Vergonha, vergonha dos nossos donos de jornais, dos banqueiros esgarçados de poder político, gente do crime como qualquer outra, a matar marielles todos os dias.
E o secretário de segurança deste estado anuncia-se orgulhoso do que fez e fará, assim como o governador, que corre a Israel para ver como se encaminha de fato a extinção de um povo.
E o povo?
O povo não tem quem brigue por ele.
O povo não pode protestar por pura impossibilidade, já que a polícia o ameaça à luz do dia, em suas casas e até em seus enterros.
E nós?
Anestesiados, né?
Cansados de saber como opera a justiça?
Hoje vi um vídeo no qual o corpo de um jovem com um buraco na cabeça é carregado sem vida por outros jovens. Negros, em sua maioria. Mas brancos também.
Pobres.
Se não foi fácil de ver, imagine então, naquele lugar, ser.
Pobres e jovens que não importam, para quem não há comoção popular, nem uma pálida movimentação de justiça.
Há muito tempo vivemos de Gaza em Gaza a somar os sonhos interrompidos. O veneno do extermínio tornou-se vício. Um concentramento.
Enquanto isso, a classe média da Baixada sai em passeata para defender a meticulosa concentração desse extermínio.
Dá nem alegria de existir enquanto a polícia militar também existe.
Eu sei que muitos foram à Paulista ontem. Não esperava outra coisa. Nunca menosprezei a parvoíce humana. Agora tem o seguinte. Não aceito Cantanhêde, muito menos conhecido meu, censurar a gozação que qualquer um faça pra cima dos parvos. Porque eles são parvos mesmo. Parvos, parvos, parvos. Só a parvoíce em sua inteireza, plantada entre ricos e pobres, constrói o fascismo. E humor é arma.
Foto de Tchecov mostra a colocação de ferro nos pés dos presidiários de Sacalina em 1890
“Afinal, em que esses homens estúpidos, cruéis, preguiçosos, desonestos são melhores que os mujiques bêbados e supersticiosos, ou melhores que os animais, também desvairados quando um acontecimento qualquer rompe a monotonia de suas vidas limitadas pelos instintos? Lembro-me de cães torturados até a morte ou enlouquecidos; pardais depenados vivos por garotos e em seguida atirados à água; toda uma longa, enorme lista de lentos e miúdos sofrimentos que pude observar nesta cidade desde a infância. E não cheguei a entender como vivem seus sessenta mil habitantes, por que leem o Evangelho, por que rezam, por que leem livros e revistas. De que lhes adianta tudo o que foi escrito e dito até agora se as mesmas trevas continuam em suas almas e se o seu desprezo pela liberdade é tão grande quanto há cem ou trezentos anos?”
Tchecov em “Minha Vida” (1896), citado em “Tchekhov”, de Sophie Laffitte, trad. Hélio Pólvora, ed. José Olympio, 1993, pag. 139
Gosto da conversa pequena que tenho com os comerciantes no centro. Mas hoje de manhã, depois da noite ruim, queria apenas ouvir minhas playlists (lindas e até menos óbvias que a de Perfect Days, posso garantir) enquanto comprava o necessário para o dia.
Usava o fone de ouvido quando começou uma conversa áspera entre o chaveiro e um freguês. Só via os rostos e esperava minha vez, cantarolando no modo lipsync. Quando me aproximei do quiosque, o chaveiro Erasmo, baixinho, cheinho, olhinho espantado e cara de bom, virou-se para me dizer:
– Tá todo mundo contra o Lula.
Aiai. Sem trégua pra mim. O que a loka esperava? Tiro o fone.
– Por que contra o Lula?
E o chaveiro só abaixando o rosto, sem falar, talvez temendo que eu fosse uma daquelas. Daí perguntei logo, para economizar tempo:
– Todos estão contra o que ele disse sobre Israel?
Erasmo:
– Sim, todos falam bem de Israel, de deus.
E eu:
– E o que Lula falou de errado? Ele tá muito certo, amigo. Que deus iria aprovar a matança de crianças?
E ele:
– De crianças e de mulheres!
– Pois então.
– Olhe, senhora, a foto do meu filho.
– Muito parecido com você!
– Então, esse é meu filho! Eu ia lá querer que jogassem bomba nele?
– Nunca!
– As crianças de lá estão tatuando os nomes nos bracinhos…
– Horror. – Quase estendi o assunto, tamanha minha indignação benjaminiana, acompanhada de choro, mas preferi cortar caminho: – Sabe o que o Brasil perde financeiramente se as relações com Israel forem rompidas?
E Erasmo sem responder, na mudez do início, o mesmo olhinho de susto.
– Nada! – eu disse. – As pessoas precisam se informar mais. Esquecer a Globo, esquecer o zap. Não vamos confiar em gente burra, vamos? (A cara do Jorge Pontual todinha na minha frente.)
– Vamos não!
E depois reclamam quando eu falo mal de jornalista. Que vergonha, e não só do Pontual, certamente. Caio Blinder, Demetrio Magnoli, conheci bem de perto esses lambe-botas caras de pau. Destroem o Brasil de boa quando é preciso manter suas vidinhas de hienas majestosas no reino do Scar. Um em Nova York, outro na Vila Madalena, ajustando o implante capilar. Vocês já perderam, seus pulhas.
Digamos que a indicação ao Oscar de Ryan Gosling como melhor ator por “Barbie” está de bom tamanho, já que o filme constrói a jornada do personagem por ele representado rumo à aceitação
“Barbie”, de Greta Gerwig, me pareceu evocar “Mulheres perfeitas” (The Stepford Wives), o ótimo filme de Frank Oz. São rosas plásticas muito semelhantes por toda parte naquele filme de 20 anos atrás, responsável por encenar uma revolução de mulheres. A diferença é que, sem fazer publicidade de produto, o longa de Oz ousou tornar os personagens masculinos vilões malsucedidos em mecanizar suas esposas. “Barbie”, pelo contrário, transformou Ken em herói, construindo sua jornada rumo à aceitação.
Alguém disse pelo Instagram que, apesar de ter sido aplaudido por seu alegado feminismo, Barbie levou o patriarcado de Hollywood a indicar Ken (o ator Ryan Gosling), não Barbie (a atriz Margot Robbie), ao Oscar. E eu penso que agiram logicamente. No fim das contas, é um filme sobre Ken.
Não sei se a Robbie, igualmente produtora do empreendimento bilionário, tem razões pra reclamar, tamanho o número de indicações que o filme recebeu. Ok, Greta Gerwig não foi levada em consideração, mas quando a gente constata que Frank Oz, tampouco, a menção a Ken fica de bom tamanho. Por fim, o que Robbie e Gerwig dizem sobre o massacre de mulheres em Gaza, só pra saber?
Assim via Millôr Fernandes os humoristas, célebres nos stand-up atuais de língua inglesa e mestres do gênero no Brasil passado
Chappelle, saga controversaWanda Sykes, na hora certa
Stand-up comedy.
Gosto muito.
Especialmente quando é um maestro quem faz.
Espero bastante desse regente de rosto maleável, elástico como o de um Totò (ou, sendo isso impossível, na direção dele), pontuando a história ao microfone com o ritmo do olhar, das mãos e dos passos no palco, perfeito condutor de uma orquestra invisível.
Amava Zé Vasconcellos e Chico Anysio nessa função. Que infância eu tive! Esses humoristas brasileiros, tão bem-sucedidos no teatro e no disco, contavam casos alucinantes na tevê para os pobres feito eu, às vezes sem o auditório para medir o alcance de seus voos. Eram perfeitos ao exercer o ritmo do absurdo, mirando nos comportamentos durante a fala, cientes de que no verdadeiro humor a crítica é o centro, o pequeno esmaga o grande, o mais fraco vence o mais forte e o oprimido destrói o opressor.
Em entrevista, já bem doente, Chico Anysio me disse que o stand-up brasileiro começou no rádio. E que começou justamente com eles dois, grandes escritores da expressão humorística. Os deslocamentos de sentido, que eram produzidos por esses humoristas no rádio segundo o ritmo da voz, passaram a ganhar a corporalidade quando a tevê chegou.
Zé Vasconcellos, um nocaute no sentido comum
Zé Vasconcellos fazia a história enrolar-se juntamente com os lábios aflorados. Seu embeiçamento vinha acompanhado da barriga projetada pra frente, representando indignação, até que – pimba! – os olhos se esbugalhavam num desfecho impiedoso, que deixava seus personagens, já enrolados, no chão. Era como um Patolino eletrificado, que nocauteava e invertia o senso comum pra nos fazer rir.
Chico Anysio, cientista do humor
Chico Anysio, não. Parecia tão mais calmo. Boa voz. Encanado, filosófico, sério. Um cientista do humor. Enquanto descrevia imbróglios inacreditáveis, em certo ponto da narrativa punha a língua pra fora, de lado, como se se esmerasse nos aspectos miúdos dos personagens atrapalhados. Seu tipo predileto era o malandro brasileiro da coisa pequena, metido nas causas maiores do que si mesmo – lançar um foguete, por exemplo. A perplexidade resultante do humor, em Chico Anysio, nascia dele mesmo, de sua ascendência nordestina, da escassez vivida na infância, da vontade de se provar melhor.
Pryor, cristalino contra o racismoCarlin, sem ceder ao americano médio
Adoro esse stand-up brasileiro do “causo”, do personagem enraizado. E amo aquele um dia feito nos Estados Unidos por George Carlin e Richard Pryor, cuja crítica sem rodeios contra as instituições, o governo, a classe média e o racismo feriam como faca as consciências bem pagas, cristãs e supremacistas do americano médio.
Me cansa um pouco, contudo, o stand-up atual do estadunidense ou do inglês, celebrados por rirem da vida moderna. Mas é isso o que realmente fazem? Não sei dizer. Me parece haver mais “eu” do que “nós” em tudo o que ensaiam criticar. De todo modo, assisto ao que me oferecem esses célebres apenas por nostalgia das sinfonias da infância. A Netflix parece lotada deles, é só escolher.
Dave Chappelle está lá. O mais bem-sucedido humorista stand-up, espécie evolutiva de Eddie Murphy, ele repete o espanto do preto estadunidense diante da alegada frescura dos brancos, esses que podem ser transexuais sem que a polícia bata neles até matar.
Em “Sonhador”, Chappelle é impiedoso com os trans porque os vê como brancos esnobes. Um bando de frescos à moda de Jim Carey, que um dia teve a oportunidade de conhecer no estúdio de cinema. Mas Carey não foi Carey ao conversar com ele! O ator treinava para ser Andy Kaufman até nos bastidores, falando e reagindo com Chappelle como se fosse o humorista Andy. E onde estava o Jim Carey que ele esperava encontrar, então?
Segundo o raciocínio de Chappelle, um trans é como Carey – um ator, não a pessoa de verdade que ele gostaria de conhecer. No último especial que vi, caiu matando em cima deles, como de uso, mas também distribuiu porrada em outros públicos. Causticou os milionários mortos no submarino em visita ao Titanic e até mesmo os deficientes físicos – no caso, um parlamentar republicano branco, de cadeira de rodas. Estará tão errado assim?
Acho que Chappelle é o melhor escritor de stand-up da atualidade. Muito preciso. Tudo o que diz tem a duração certa e ficamos ligados até o fim. Sou grande o suficiente para entender o que diz, ele que um dia recusou milhões do show business e se retirou dos palcos de modo a se manter fiel a si mesmo.
E o que Chappelle diz é que todos os aspectos da branquitude nos Estados Unidos giram em torno do privilégio. Milionário, trans, político, todo branco dos Estados Unidos merece que lhe passemos o rodo. Talvez por isso ele tire alguns pretos da jogada. Por exemplo, quando se refere ao tapa de Will Smith em Chris Rock, Chappelle diz que entende as razões dos dois, algoz e vítima. Mas que, para seu gosto, algum amigo de Chris Rock deveria tê-lo vingado ali mesmo, no palco, e não deixado Smith ficar na cerimônia até o fim. Errado de novo? A meu ver, aí sim seria show.
Chappelle é um bom maestro. Não um Richard Pryor, mas um dos bons.
Ricky Gervais, agora em Armageddon: pedido torto de desculpas
Me impacientei mesmo foi com o Ricky Gervais desta vez. Amo este humorista, mas descurti o show. Um “Amargeddon” para ironizar gays e deficientes? Ou apenas para ensinar o público a se comportar diante do humorista, aquele ser que, segundo Millôr Fernandes, não atira pra matar? É um didatismo que dá em nada, no fim das contas. A piada precisa ser muito boa para passar incólume. E talvez Gervais tenha feito piadas ruins nos últimos tempos, não sei. Mas se Chappelle não se desculpa, até intensifica a crítica no stand-up seguinte, por que Gervais recua? Minha hipótese é que, rico em demasia, tendo doado parte da receita de seu show à proteção dos animais, ele se sinta um tanto culpado. Mas de quê? Da acidez que ele diz não fazer mal a ninguém? “Armageddon” me pareceu isso, um pedido torto de desculpas que reluto em aceitar.
Preferi muito mais Wanda Sykes em “Meu Negócio é Entreter”. Uma humorista que ri dos pintos, finalmente! Dos negacionistas! Que ironiza o medo de que os trans invadam os banheiros femininos, como se os banheiros femininos fossem santuários sem balbúrdia… Uma mulher a dar a medida do sofrimento do preto nos Estados Unidos mais ou menos assim: ser preto é não poder ter dias ruins em público, pois seu dia ruim pode ser o último, a depender de como o poder armado o interprete. Wanda sabe muito! Sabe como aproximar uma questão complexa do cotidiano do público de modo a se fazer entendida, embora a duração de certas histórias às vezes atrapalhe o ritmo do show. Não é perfeita, certo? Tampouco tem do que se desculpar.
Sob o sol de rachar, o preto africano de túnica vê o branco sem camisa estendido em um pequeno canteiro da rua Barão de Itapetininga, centro de São Paulo.
O descamisado, que no entanto calça tênis, tem um pano enrolado na cabeça e pede esmola em voz alta. O preto africano lhe oferece uma garrafa de água tampada, que mal começara a beber. O maltrapilho grita, balançando a cabeça: “Quero isso não! Você está suado, porra.” O africano em túnica brilhosa parece não entender, recolhe a garrafa e segue em frente.
A estrutura do racismo brasileiro é macabra, gente. Desenhada todos os dias pra gente ver.
Uma amiga veio de passagem ao Brasil e quis me ver antes de voltar para a casa estrangeira. Conhecedora de São Paulo, onde morou e trabalhou por anos, desta vez ela pareceu receosa de me visitar no centro, como se fosse uma turista recente, porém avisada dos perigos do subdesenvolvimento. Marcamos então um almoço em região acessível a ela, Higienópolis.
Embora eu não more assim tão longe do bairro, é como se nós dois, o bairro e eu, nos medíssemos em léguas, corporalmente avessos, mentalmente distantes. Esses lugares de São Paulo onde mora a gente de bem, eu os entendo assustadores. Estudei como bolsista em colégio de rico, conheço o pessoal e, em sua maioria, para resumir, não sou fã. Eis por que Higienópolis, para mim, é o lugar de ricos (ou dos quase ricos, ou dos donos temporários do dinheiro) aonde vou apenas quando tenho de me consultar com o otorrino do convênio na Angélica, essa espécie de avenida off dos higienopolistas.
É um bairro bonito? É histórico. A beleza, a história lhe dá. Os casarões dos barões, dos mecenas, a arquitetura dos grandes, isso a gente sorve bem. Tudo conservado em alguma medida – das cercas para dentro, quero dizer. Porque o abandono existe naquela área da cidade sempre quando a vemos sob o ponto de vista público. Testemunhei ruas alagadas nas ladeiras e, ao percorrê-las, os homens pretos carregavam os mesmos cartazes de papelão nos quais, aqui no meu centro, sinalizam a vontade de comer.
Andei por quarenta minutos de casa até o shopping onde iria almoçar. Um percurso embranquecedor, do relativo miserê ao nariz alto. Quando cheguei ao restaurante do shopping, agradeci pelo ar condicionado, que secou o suor vexaminoso em meu vestido. Estar ali com minha amiga era como pular na piscina azul, splash das alegrias da infância. Nem sei dizer o quanto anima meu coração sentir sua proximidade. Meus amigos estão espalhados pelo mundo, Jamaica, Índia, Grécia, Vila Olímpia, não sei mais o que fazer para conversar com eles e desfrutar decentemente de nosso amor! Ainda bem que desde alguns anos meus queridos de todo dia são vocês, embora a gente só se veja pelas redes sociais. Mas nos temos, certo? Agradeço tanto.
Pois então. Higienópolis. Shopping Higienópolis. A coisa ali é mais funda do que apenas não haver negros entre os consumidores. (Ou dei um azar danado de não ter localizado nenhum, ao contrário do que ocorre em qualquer loja, shopping ou restaurante da região onde moro.)
No Higienópolis, parecem-se todos, ou a maioria deles, consumidores extraídos da própria existência. E, por isso, birrentos, à espera das respostas que ninguém será capaz de lhes dar. Assemelham-se a galhos secos vestidos nas sandálias de cor creme. Desfilam com três ou quatro sacolas nas mãos. Três ou quatro! E brigam com as vendedoras de sapatos quando apenas gostariam de ser ouvidos por elas. Enquanto isso, as lojistas sorriem para nós como se pedissem ajuda. Elas, consumidoras (os cabelos curtos se velhas, longos se jovens), têm o coração empapado de promessas não cumpridas. Simulam que existem, achei, até concluir que simular resume seu modo de existir.
Vi principalmente solidão no shopping. Vi uma dor. Tá, concordo que isso não deveria me sensibilizar. Eu sei que naqueles vestidos lima-siciliano de linho moram criaturas rasas sem asas, a tiranizar seus cachorros acomodados em carrinhos de bebê. Sei que, além de nossa alegria, os seres sem asas tiraram a dos cachorros também. Sei que engoliram tudo, toda a esperança de justiça social, enquanto emagreceram mais e mais, assegurados pela dieta gorda dos dólares. Sei de tudo isto, e no entanto… É tão comovente. Tanto. Choro ao caminhar entre eles. Três, quatro sacolas de compras todos os dias, pense! E, naquele dia chuvoso, eu obrigada a testemunhá-los, trancada para dentro das cercas douradas… Uma dor. Três dias desde que tudo isso aconteceu, desde que a visão desses mortos barulhentos me perturbou e dilacerou, mas, ainda hoje, uma dor.