
que prazer estar ainda aqui no mundo depois de tantas décadas e tormentos para interpretar o sol à minha maneira infantil, ele impossibilitado de se esconder de mim por trás dos edifícios, eu a me aproveitar de sua luz sem fim para escrever o dia.

que prazer estar ainda aqui no mundo depois de tantas décadas e tormentos para interpretar o sol à minha maneira infantil, ele impossibilitado de se esconder de mim por trás dos edifícios, eu a me aproveitar de sua luz sem fim para escrever o dia.
não sintonizo a globo jamais, porém no passado assisti ali deliberadamente à transmissão do início da invasão de bagdá, uma vergonha com hora marcada.
não vejo jornal nacional, portanto, nem telenovela nem huck, graças a deus.
as últimas coisas da emissora percebidas por mim, durante ocupada juventude, quiçá tenham sido o funeral do tancredo, o show do joão gilberto com a rita lee e a morte do sena.
já me diverti com a madonna no passado, mas nunca a levei a sério, jamais constituiu meu ícone pra coisa alguma (quem me liberou foi wilhelm reich), embora admire seu racional, o saber lidar com as massas & sua psicologia.
ela é mais velha do que eu e talvez por isso minha coluna vá melhor que a dela.
não gosto de show de dublagem, embora assista sem muito gosto, eventualmente, aos lip syncs do reality da ru paul.
a primeira vez que vi a imagem de marielle no telão foi durante um show emocionante dias depois da sua morte, dado pela brilhantíssima neneh cherry, com a presença paga de seus grandes músicos, sim, no sesc pompeia.
nascida também há seis décadas, igualmente sabedora de nós, a linda afilhada do don cherry tocou assim no dedo quente da ferida brasileira sem que bebel gilberto, ao abrir a apresentação, tivesse se ocupado minimamente do brutal assassínio.
dito isso, e não necessariamente na ordem/desordem acima, que todo mundo possa encontrar diversão no que é de divertir, ver o que quiser ver e amar quem deseje até dizer chega, como falava minha tia alzira do nordeste e do coração.

À véspera de completar 85 anos no dia 7 de abril, o diretor Francis Ford Coppola apresentou seu novo filme, “Megalopolis”, cujo projeto iniciou em 1983, em uma sessão especial para magnatas da distribuição, da exibição e da publicidade. O filme explora os embates entre sonhadores e pragmáticos durante a reconstrução de uma cidade acidentalmente devastada. Adam Driver, Shea Le Boeuf e Jon Voight estão no elenco.
Ao final da sessão, apurou o “Hollywood Reporter”, os poderosos não disfarçaram o mal-estar. Eis um produto impossível de vender. O filme não distingue bandidos de mocinhos, mostra umas esquisitices indie lá pelo meio e se desenvolve em mais de duas horas sob um ritmo longe de ser frenético.
Nos bastidores, os magnatas consideram que o pessoal alternativo deveria cuidar do bebê. O problema para que isso ocorra, já se pode imaginar: os alternativos não têm os 100 milhões de dólares que Coppola calculou necessários para a distribuição, a exibição e a publicidade. O diretor precisa retornar o que gastou sozinho para produzir o filme, alegados 120 milhões de dólares obtidos com a venda de parte de sua vinícola estimada em 500 milhões. Quanto ao streaming, só ele não faz tudo.
O cineasta deve estar habituado ao processo. “O Fundo do Coração”, lançado em 1981, faliu seu estúdio. A história se repete como farsa, quiçá alegoria para o fim de um sonho de cinema. Coppola terá energia para empreender via crúcis semelhante depois quatro décadas, ademais no ambiente de derrocada atual? Ele deve se lembrar todos os dias do que leu entre os escritos deixados pelo filho roteirista, morto em um acidente de carro: “A arte não dorme”. Tantos deuses do crepúsculo quebraram estúdios no passado sem deixar de ser deuses.
Já preciso ver este filme, que no mínimo deve ter funcionado, aos magnatas, como um espelho.

Faz três dias que mergulho numa gastroenterite inquietante. Na verdade, ela obriga a aquietar-me, enquanto me provoca espamos frequentes. Não se trata de nada grave, garantiu-me o médico, que está no exterior e respondeu a meus questionamentos por WhatsApp. Mesmo que houvesse gravidade e eu sofresse mais, não acharia minha dor maior do que a experimentada por tantos palestinos e brasileiros no exato momento em que escrevo.
Dito isto, sonhei. Um sonho típico de quem digere mal, acometida por malfeitores invisíveis. Sonhei que ocupava a poltrona de uma sala de cinema lotada, onde amigos sorriam submissos para o governador de São Paulo.
Já seria tormenta suficiente visualizar à distância de dois metros, mesmo que em sonho, a efígie bexiguenta do serial killer, certo? O que dizer então de vê-la passar-se por decente diante daqueles por quem eu nutria compadrio?
O governador sorria de volta para meus amigos como se estivesse em campanha, apertando-lhes as mãos com as duas palmas juntas. Talvez meus amigos buscassem dinheiro, editais, e fosse esse seu caminho para conseguir os meios? Eu poderia compreender. Mas a coisa não parava aí. Entre o público, havia jornalistas do tipo mais comum que conheci, os submissos arrogantes. Nem sei se alguém distante desse meio vai entender, mas essa gente existe. No meu sonho, eles viam o governador como um sujeito inteligente, cujos bons atributos não poderiam ser facilmente contestados. Se o patrão está com ele, com ele estamos!
Sim, eu pensava comigo, o governador não pode ser contestado porque vocês, jornalistas de política, se esquivaram da contestação. Eu tentava acionar os números comprobatórios da escalada de miséria, morte e abandono da população em todas as áreas sob esse governo, mas os dados não me chegavam à mente com nitidez. E, assim, eu me sentia mais uma responsável pela construção da imagem do governador como um técnico competente, macho da porra toda, até gente boa.
Foi então que aconteceu como se eu tivesse 20 anos de idade na redação da Folha, diante da corja de puxa-sacos usuais da categoria. Mesmo não sendo jornalista de política, eu podia constatar o óbvio. Mesmo sem os números em mãos, eu me servia da observação direta do caos cotidiano e dos apelos dos desprovidos. Comecei a gritar.
“Covarde assassino” eram as duas palavras que eu dirigia ao governador, sem medo nenhum. Ele teria me ouvido? Seus capangas? A milícia? Não me importava. A cada aplauso, um grito meu. Até que ele se levantou para o meu lado e bradou:
“Por isso sento o trabuco!”
E meus amigos, quietos…
Como se fosse natural, eu deixava a sala de cinema para dirigir um carro veloz. Não fazia isso por temer a autoridade, mas meus próprios amigos, cujos corpos e mentes pareciam invadidos por outra força invisível, que certamente os comeria por dentro. Pelo menos me sentia arriscada e feliz ao volante, praticamente uma Grace Kelly nas escarpas da Riviera, imbatível na capacidade de contornar o precipício. Cary Grant, eu sei, teria me sorrido.
Acordei suando. A sensação de ter sido próxima em pesadelo do governador emberebado e barrigudo equiparava-se à de meu sistema digestivo em looping.
Um ladrão em que a casaca de Grant jamais caberia…
Cidinha Campos denunciou Brazão no parlamento inúmeras vezes e não foi ouvida pelos integrantes da casa. Em razão da ausência de providências contra o assassino, livre para legislar pela milícia, continuou a ser ameaçada de morte, chamada de puta por quem ela não hesita em classificar como “serial killer”, ademais brindado com passaporte diplomático por Bolsonaro.
Mulheres parlamentares, as mais ignoradas, são caladas à força no Brasil. Uma polícia manipulada, dominada, engorda seu poder corrompido matando pobres, forjando inquéritos policiais de intimidação contra quem poderia denunciar os desmandos políticos.
E como não seria assim, se a imprensa dá as costas à população? E só agora, após a determinação de um governo democrático, a polícia fez o que já deveria ter feito?
O pior, sempre o pior pra mim, é que o jornalismo brasileiro não tenha corrido atrás desse monstro por tantos anos. Principalmente, que nenhum dono de jornal o tenha feito, pois um jornalista não age só, ou só a muito custo pessoal pode agir. Bons jornalistas têm de ser hábeis negociadores dentro de um jornal. Sofrendo os diabos.
Hoje, pleno 2024, o Estadão ousa um editorial ridículo, associando o sistema de cotas ao aprofundamento do racismo, estabelecendo que sua prioridade é retroceder politicamente para garantir o fim do ensino público e aumentar a concentração financeira.
Vergonha, vergonha dos nossos donos de jornais, dos banqueiros esgarçados de poder político, gente do crime como qualquer outra, a matar marielles todos os dias.
43 mortes na Baixada Santista até agora.
E o secretário de segurança deste estado anuncia-se orgulhoso do que fez e fará, assim como o governador, que corre a Israel para ver como se encaminha de fato a extinção de um povo.
E o povo?
O povo não tem quem brigue por ele.
O povo não pode protestar por pura impossibilidade, já que a polícia o ameaça à luz do dia, em suas casas e até em seus enterros.
E nós?
Anestesiados, né?
Cansados de saber como opera a justiça?
Hoje vi um vídeo no qual o corpo de um jovem com um buraco na cabeça é carregado sem vida por outros jovens. Negros, em sua maioria. Mas brancos também.
Pobres.
Se não foi fácil de ver, imagine então, naquele lugar, ser.
Pobres e jovens que não importam, para quem não há comoção popular, nem uma pálida movimentação de justiça.
Há muito tempo vivemos de Gaza em Gaza a somar os sonhos interrompidos. O veneno do extermínio tornou-se vício. Um concentramento.
Enquanto isso, a classe média da Baixada sai em passeata para defender a meticulosa concentração desse extermínio.
Dá nem alegria de existir enquanto a polícia militar também existe.
Eu sei que muitos foram à Paulista ontem.
Não esperava outra coisa.
Nunca menosprezei a parvoíce humana.
Agora tem o seguinte.
Não aceito Cantanhêde, muito menos conhecido meu, censurar a gozação que qualquer um faça pra cima dos parvos.
Porque eles são parvos mesmo.
Parvos, parvos, parvos.
Só a parvoíce em sua inteireza, plantada entre ricos e pobres, constrói o fascismo.
E humor é arma.

“Afinal, em que esses homens estúpidos, cruéis, preguiçosos, desonestos são melhores que os mujiques bêbados e supersticiosos, ou melhores que os animais, também desvairados quando um acontecimento qualquer rompe a monotonia de suas vidas limitadas pelos instintos? Lembro-me de cães torturados até a morte ou enlouquecidos; pardais depenados vivos por garotos e em seguida atirados à água; toda uma longa, enorme lista de lentos e miúdos sofrimentos que pude observar nesta cidade desde a infância. E não cheguei a entender como vivem seus sessenta mil habitantes, por que leem o Evangelho, por que rezam, por que leem livros e revistas. De que lhes adianta tudo o que foi escrito e dito até agora se as mesmas trevas continuam em suas almas e se o seu desprezo pela liberdade é tão grande quanto há cem ou trezentos anos?”
Tchecov em “Minha Vida” (1896), citado em “Tchekhov”, de Sophie Laffitte, trad. Hélio Pólvora, ed. José Olympio, 1993, pag. 139
Gosto da conversa pequena que tenho com os comerciantes no centro. Mas hoje de manhã, depois da noite ruim, queria apenas ouvir minhas playlists (lindas e até menos óbvias que a de Perfect Days, posso garantir) enquanto comprava o necessário para o dia.
Usava o fone de ouvido quando começou uma conversa áspera entre o chaveiro e um freguês. Só via os rostos e esperava minha vez, cantarolando no modo lipsync. Quando me aproximei do quiosque, o chaveiro Erasmo, baixinho, cheinho, olhinho espantado e cara de bom, virou-se para me dizer:
– Tá todo mundo contra o Lula.
Aiai. Sem trégua pra mim. O que a loka esperava? Tiro o fone.
– Por que contra o Lula?
E o chaveiro só abaixando o rosto, sem falar, talvez temendo que eu fosse uma daquelas. Daí perguntei logo, para economizar tempo:
– Todos estão contra o que ele disse sobre Israel?
Erasmo:
– Sim, todos falam bem de Israel, de deus.
E eu:
– E o que Lula falou de errado? Ele tá muito certo, amigo. Que deus iria aprovar a matança de crianças?
E ele:
– De crianças e de mulheres!
– Pois então.
– Olhe, senhora, a foto do meu filho.
– Muito parecido com você!
– Então, esse é meu filho! Eu ia lá querer que jogassem bomba nele?
– Nunca!
– As crianças de lá estão tatuando os nomes nos bracinhos…
– Horror. – Quase estendi o assunto, tamanha minha indignação benjaminiana, acompanhada de choro, mas preferi cortar caminho: – Sabe o que o Brasil perde financeiramente se as relações com Israel forem rompidas?
E Erasmo sem responder, na mudez do início, o mesmo olhinho de susto.
– Nada! – eu disse. – As pessoas precisam se informar mais. Esquecer a Globo, esquecer o zap. Não vamos confiar em gente burra, vamos? (A cara do Jorge Pontual todinha na minha frente.)
– Vamos não!
E depois reclamam quando eu falo mal de jornalista. Que vergonha, e não só do Pontual, certamente. Caio Blinder, Demetrio Magnoli, conheci bem de perto esses lambe-botas caras de pau. Destroem o Brasil de boa quando é preciso manter suas vidinhas de hienas majestosas no reino do Scar. Um em Nova York, outro na Vila Madalena, ajustando o implante capilar. Vocês já perderam, seus pulhas.
Digamos que a indicação ao Oscar de Ryan Gosling como melhor ator por “Barbie” está de bom tamanho, já que o filme constrói a jornada do personagem por ele representado rumo à aceitação


“Barbie”, de Greta Gerwig, me pareceu evocar “Mulheres perfeitas” (The Stepford Wives), o ótimo filme de Frank Oz. São rosas plásticas muito semelhantes por toda parte naquele filme de 20 anos atrás, responsável por encenar uma revolução de mulheres. A diferença é que, sem fazer publicidade de produto, o longa de Oz ousou tornar os personagens masculinos vilões malsucedidos em mecanizar suas esposas. “Barbie”, pelo contrário, transformou Ken em herói, construindo sua jornada rumo à aceitação.
Alguém disse pelo Instagram que, apesar de ter sido aplaudido por seu alegado feminismo, Barbie levou o patriarcado de Hollywood a indicar Ken (o ator Ryan Gosling), não Barbie (a atriz Margot Robbie), ao Oscar. E eu penso que agiram logicamente. No fim das contas, é um filme sobre Ken.
Não sei se a Robbie, igualmente produtora do empreendimento bilionário, tem razões pra reclamar, tamanho o número de indicações que o filme recebeu. Ok, Greta Gerwig não foi levada em consideração, mas quando a gente constata que Frank Oz, tampouco, a menção a Ken fica de bom tamanho. Por fim, o que Robbie e Gerwig dizem sobre o massacre de mulheres em Gaza, só pra saber?