Kafka, o oráculo

Às vezes sinto que Kafka vive em mim. Hoje, por exemplo. Enquanto me encontro à espera da eleição para presidente do Brasil, amanhã, abre-se no meu colo esta narrativa de traduzida por Modesto Carone e incluída no primeiro livro do grande escritor, “Contemplação”, de 1912. Com vocês, “Para a Meditação de Grão-Cavaleiros”:

Franz Kafka aos 22 anos, em 1905

Para a Meditação de Grão-Cavaleiros

Nada, pensando bem, pode induzir alguém a querer ser o primeiro numa corrida.

A glória de ser reconhecido como o melhor cavaleiro de um país é um prazer forte demais — no momento em que a orquestra dispara — para que na manhã seguinte seja possível evitar o remorso.

A inveja dos adversários, gente mais astuta, bem mais influente, tem de nos doer na estreita ala através da qual agora cavalgamos depois daquela planície que pouco antes estava vazia à nossa frente, com exceção de alguns cavaleiros arredondados que faziam carga, pequenos, contra a fímbria do horizonte.

Muitos dos nossos amigos correm para retirar o prêmio e só por cima dos ombros é que nos gritam dos guichês distantes o seu hurra!; mas os melhores amigos não apostaram em nosso cavalo, temendo que, em caso de perda, tivessem de ficar zangados conosco; agora porém que o nosso cavalo foi o primeiro e eles não ganharam nada, dão-nos as costas quando passamos e preferem olhar ao longo das tribunas.

Firmes nas selas, os concorrentes atrás de nós procuram avaliar a desgraça que os atingiu e a injustiça que de algum modo lhes foi infligida; assumem um ar bem-disposto como se fosse preciso iniciar uma nova corrida, agora séria, depois desta brincadeira de criança.

Para muitas damas o vencedor parece ridículo, porque ele se enfatua e no entanto não sabe o que fazer com os eternos apertos de mão, continências, mesuras e cumprimentos à distância, enquanto os vencidos mantêm a boca fechada e, absortos, dão palmadas nos pescoços dos seus cavalos, que na maioria relincham.

Finalmente do céu que ficou turvo começa a chover.