O encanto clássico em Basquiat

O artista, cuja retrospectiva no CCBB percorre o Brasil, usou a harmonia geométrica para retratar sua vivência nova-iorquina em telas, gravuras e desenhos de extensas camadas

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Jean-Michel Basquiat em 1982, por James Van Der Zee

Sinto carinho pela ambiguidade enquanto fujo dela. Tudo o que escrevo tem dois, três lados, mesmo que eu os pretenda um só. Encho as frases com camadas que gosto de retirar em solidão. O que escrevo sou eu, e quem me entende sofre comigo. Espero que sorria também, às vezes.

Não se torna surpreendente, portanto, que eu tanto tenha gostado daquelas oitenta obras de Jean-Michel Basquiat em exposição no CCBB-SP, pertencentes à família Mugrabi e selecionadas pelo curador Pieter Tjabbes para circular pelo Brasil durante todo este ano. Principalmente dos desenhos, quase ocultos (não os perca), porque o mercado os valoriza menos e, por consequente, a exposição os exibe em curto espaço.

Gosto desse Basquiat como a um semelhante, diverso de mim, claro, pela liberdade propiciada por seu gênio incomum. Um artista ambíguo plenamente, enquanto simples, a conversar com nossos tempos.

Uma imagem que ficou comigo foi esta aqui embaixo, “Cabeça”, realizada entre 1980 e 1985, lápis e crayon sobre papel. Ela não é tão impressionante quando reproduzida. Contudo, ao vê-la tão de perto, apesar do vidro que a recobre, um encanto aparece.

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Cabeça, lápis e crayon sobre papel, 1980-85[/
O encanto, a meu ver, é a justaposição onipresente. A cabeça aberta explode em miudezas no topo aberto e faz saltar os olhos da caveira (o paradoxo de haver um olhar entre os ossos). As camadas se acumulam na figura e quase se desprendem dela. É um desenho que deriva da inspiração no guia anatômico “Gray’s Anatomy”, levado a seu leito de recuperação. Na infância, Basquiat sofrera um acidente que lhe danificara o baço e quebrara um de seus braços. Desde então, tivera muito tempo para ler, desenhar e pensar.

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Cabeça, detalhe: a inspiração renascentista para expressar o desajuste

Sua cabeça parecia ser aquela, ambígua e inclusiva dos pensamentos, perceptiva dos sons que até mesmo exercitara na banda noisy Gray, pop de adolescência. Cabeça é confusa, multifacetada enquanto rígida, obediente aos padrões renascentistas de Leonardo da Vinci, outro a quem consultava sempre. Todas as composições de Basquiat são plenas de geometria, intercaladas por frases, coroas, estrelas, ossos, dentes ou braços em aparentes desajustes.

Ele risca as palavras para ressaltá-las. Ou as esconde em camadas de branco, como em “Vista lateral de uma mandíbula de boi”, acrílica sobre tela de 1982.

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Vista lateral de uma mandíbula de boi, acrílica sobre tela de 1982: o brilho das camadas

O importante não é o visível. O importante é o que você está por ver.

Ele parece brincar com o pentimento, a camada de pintura ressurgida nas telas dos renascentistas. Uma brincadeira para se proteger do que seria inevitável com o decorrer do tempo, que no seu caso não foi muito: despontou no mundo da arte aos 19 anos e morreu de overdose em 1988, aos 27.

Ao crítico Henry Geldzahler, aquele que desdenhara de seus cartões postais vendidos de porta em porta quando tinha 16 anos, disse que temia ver uma de suas camadas explodir aos olhos do observador. “Em uma de minhas pinturas, alguém está segurando uma galinha. Mas, embaixo, a galinha é a cabeça de alguém.”

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Lombo, acrílica, bastão de tinta a óleo e pastel sobre tela, 1982: a marca da coroa, sangue e ossos

Ele diz a Geldzahler: “Gosto mais das telas em que não pinto tanto, onde há apenas uma ideia direta. Muitas das minhas pinturas têm duas ou três dentro delas. Temo que no futuro partes despencarão e que algumas das cabeças recobertas vão aparecer.”

Com Andy Warhol, trabalhou entre 1984 e 1985. A parceria propiciou uma série de quadros expostos no CCBB, límpidos dessa tridimensionalidade tão notável nas telas de autoria solitária.

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Dois cães, de Basquiat e Warhol, acrílica e tinta de serigrafia sobre tela, 1984: versão límpida

As colagens em papel são quase infantis, como se Basquiat debochasse de Picasso e de seu cubismo, este que parecia apenas modernizar ao burguês a pintura clássica. A harmonia áurea, ele exercia dentro da instabilidade.

Basquiat era resultado de seu mundo nova-iorquino. Filho de classe média do Brooklyn, de pai haitiano e mãe porto-riquenha que o levava ao museu, e inadaptado à escola comum, estudara na alternativa City as School, conhecida por valorizar o ambiente em torno no aprendizado. Como Chagall, retratara sua tumultuada aldeia de sonhos com os olhos no passado. E queria ser entendido igualmente como artista.

Desejava ganhar bastante bem com o que era seu (dizia pintar vestido de terno Armani, como na célebre foto feita por Lizzie Himmel para a revista do New York Times em 1985). E lutava em tempo integral contra o racismo. Embora o mercado de arte o tenha feito rico, ele não pegava facilmente um táxi à porta da galeria onde seus trabalhos eram expostos… Nas telas, seus negros eram heróis homenageados, como o corredor Jesse Owens e a cantora Dinah Washington.

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Tela em homenagem à cantora Dinah Washington, heroína negra
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Jovem Moisés, acrílica e óleo sobre tela, 1983: uma coroa para Jesse Owens, corredor negro a vencer a Olimpíada de 1936 em Berlim, diante de Hitler

Graffiti foi uma parte pequena de seu mundo, pelo menos menor do que aquela revelada pelo contemporâneo Keith Harring. Pintar paredes foi seu mundo de começo, no qual experimentou brevemente a condição de sem-teto. Desenhou sobre tudo o que achasse possível, como vestidos ou portas (a exposição mostra uma delas, de uma das casas que dividiu com amigos).

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Atletas negros famosos, acrílica e tinta sobre porta, 1980/81

Usou madeiras encontradas no lixo como suporte de telas. Como Picasso, pintou pratos com figuras que lhe vinham à cabeça. Alfred Hitchcock, cineasta que amava. Ou Warhol, seu “menino-gênio”.

Em 1983, Henry Geldzahler lhe perguntou: “Existe raiva no seu trabalho hoje?”

Ele respondeu: “Mais ou menos oitenta por cento.”

O crítico insistiu: “E há humor também.”

Basquiat: “As pessoas riem quando você cai de bunda no chão. O que é humor?”

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Jean-Michel Basquiat em foto de Lizzie Himmel, publicada em 1985 na capa da revista do The New York Times: o que é humor?

Jean-Michel Basquiat no Centros Culturais Banco do Brasil

De 25 de janeiro a 07 de abril de 2018 – CCBB de São Paulo

De 21 de abril a 01 de julho de 2018 – CCBB de Brasília

De 16 de julho a 26 de setembro de 2018 – CCBB de Belo Horizonte

De 12 de outubro de 2018 a 08 de janeiro de 2019 – CCBB do Rio de Janeiro

Entrada gratuita. Para todas as idades.