Um novo eu em um novo caos.

Caligari! é uma releitura do clássico de Robert Wiene para os quadrinhos. Ou, além da releitura, trata-se da recriação expressionista de um documento sobre a ascensão do fascismo.

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O burocrata, sempre inalcançável, por Caligari ou por nós mesmos.

 

“O contrário da realidade para obter um cúmulo de verdade”. Esta frase de J. W. Goethe pode ilustrar o efeito que ainda hoje obtém dos espectadores O Gabinete do Dr. Caligari, dirigido por Robert Wiene em 1920. A obra roteirizada por Carl Meyer revive ficcionalmente o que sentiu o escritor diante de um superior no exército, sempre a humilhá-lo. É um filme-verdade, se assim se desejar, um documento histórico, ainda que sua cenografia hoje nos pareça excessivamente teatral, ditada, quem sabe, por um pintor dos arrabaldes, por um desenhista sem a perspectiva realista que Will Eisner deu posteriormente à HQ e ao cinema. Neste filme, estamos a dois anos do fim da Primeira Guerra Mundial, aquela de inesperada brutalidade. Eisner tem três anos. E os meninos levados a lutar caem com violência nunca antes vista nas trincheiras europeias.

Caligari (Werner Krauss) é o personagem de Mayer que vai à feira de variedades mostrar sua descoberta. O sonâmbulo Cesare, que depois de 29 anos abrirá os olhos e revelará o futuro os espectadores, constitui seu experimento. Sonâmbulo, Cesare é também um romântico instrumento do terror. Ele sente o pleno ímpeto de agir. Ele não sabe que conteúdo precisa expressar. Então expressa seu íntimo. Acorda à noite e se serve da cidade em sua porção subterrânea. O filme é o mais perfeito exemplo expressionista no cinema. Os expressionistas clamavam a própria dor, como adolescentes apocalípticos, à moda do que escreveu Ludwig Rubiner em 1917: “Quem são nossos companheiros? Prostitutas, poetas, subproletários, colecionadores de objetos perdidos, ladrões ocasionais, ociosos, casais enlaçados, loucos de Deus, bêbados, fumantes inveterados, desempregados, lambões, vagabundos, inventores, críticos, vítimas da doença do sono, biltres. E, por momentos, todas as mulheres da terra. Nós somos os rejeitados, os restolhos, os desprezados. Somos aqueles que são sem trabalho, inaptos ao trabalho, aqueles que recusam o trabalho. Nós somos a Santa Ralé.”

Cesare (Conrad Veidt), sonâmbulo manipulado por Caligari, é a ralé. E por isso, igualmente, uma vítima de tudo, do poder, da guerra, da crença de mudança rápida de um estado de coisas. Sedento do sangue da justiça, Cesare será, no fim das contas, uma vítima. A hierarquia lhe apontará armas bem mais letais que suas adagas. A cidade do diretor Wiene converge para o infinito, para um caminho escondido – uma revolução cenográfica para aqueles tempos, absorvida e sofisticada em tons realistas, nos anos posteriores, por artistas como Eisner. Caligari simboliza o espírito de um tempo. Todos os desenhos de cena apontam para o protagonista, tocam-no como a ponta de um machado ou de uma adaga. E todos os burocratas do governo, as autoridades, sentam-se em pedestais, bancos altos e inatingíveis. A anulação de possibilidades ascensionais que fez a humanidade procurar o fascismo, aquele sem-sentido ideológico a prometer enganosamente, em seu início, a prosperidade social, começava a ganhar um corpo aterrador. Aqueles que nele acreditaram (de todas as classes sociais, pois o fascismo prima por um sentido de horizontalidade, atingindo a ricos, mais ricos, pobres e mais pobres) foram suas vítimas posteriores. É o que o cenário de Wiene parece indicar – um sonambulismo da sociedade, a descambar em terror.

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Em Caligari!, a perspectiva que direciona para um ponto infinito da cidade.

O diretor caminhou pela vila antes que os prédios apontassem para os céus. Seu terror caseiro, expondo gente que caminha inocente à noite, deu ao cinema muitas lições. Mas o filme não teve o fim imaginado por Mayer, como ocorreu a grande parte das produções cinematográficas de então. No final modificado, aquele que aponta em Caligari um criminoso é, em verdade, um interno da instituição dirigida pelo “doutor”. O protagonista Francis, que luta para provar a culpa de Caligari no assassinato de seu amigo, “enlouqueceu” no fim modificado. O final de O Gabinete do Dr. Caligari modifica o intento do roteirista, mas não deixa de ser representativo da realidade ampliada pelo eu, razão do expressionismo. Francis, a imaginar a história, torna-se um expressionista de seu tempo.

O brasileiro Alexandre Teles nunca se conformou com este final. E “obsessivo”, como o classifica o desenhista Rafael Campos Rocha, resolveu refazer a história, de modo a restabelecer a verdadeira responsabilidade de Caligari segundo a trama de Mayer. Sua HQ Caligari!, agora lançada pela editora Veneta, não pode ser entendida, contudo, como uma versão apenas a restabelecer as intenções de Carl Mayer. Em si, é uma criação expressionista, uma ampliação livre de sentidos a partir da clareza cenográfica de Wiene.

Teles, em direção quase oposta à do diretor, relativiza a clareza. Por meio da monotipia, um método de impressão em tiragem única, ele parte de uma superfície lisa e sobre ela escorre a cor preta. A remoção da tinta expõe a luz no desenho. E com o uso de uma prensa ele imprime as imagens em papel algodão. O resultado disto tudo é que muitos pontos de luz imaginados por Wiener se esvaem. Teles escurece o cenário de modo a iluminar os rostos em sua porção mais expressiva. Caricaturiza o personagem enquanto oculta o cenário sempre mais. Algo que retira quase totalmente do filme é sua angulação determinada. As pontas desaparecem e mergulhamos em poças arredondadas. Os homens se desfazem nesse cenário de liquidez, como se somente as sombras restassem a delinear sua figura. Uma pintura para um novo eu em um novo caos.

Por Rosane Pavam

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