A estrela no meu uber

Não dirijo, vou de ônibus, uso metrô e ando muito (vocês percebem pelas fotos). Pouco frequentemente preciso de uber. Mas quando pego, aproveito.

Puxo pelas histórias e às vezes levo os tombos que eu mesma causei, surpresa por ter minha visão de mundo contrastada. Nunca, porém, me arrependo de abrir as portas. As histórias chegam até mim e sempre sou agradecida por elas. (Entendam que não gasto a palavra gratidão em muitos contextos.)

O motorista de hoje à tarde tem quase 40 anos e trabalha pelo aplicativo há cinco meses, desde que foi despedido do hotel Hyatt.

Por vinte anos Anderson atuou como cozinheiro no Fasano, no Rubayat. Só no Hyatt, trabalhou uma década. Começou a profissão lavando pratos. Não tem sotaque nordestino e sua pele leva a cor do branco brasileiro. Chegou a chef. Nos eventos teve de comandar estressantes equipes de até 40 pessoas.

– Muito tenso o trabalho na cozinha, não? Aquela gritaria.

– Senhora, não vejo assim. O Master Chef não é a realidade.

– Que bom! – respondo, embora nunca tenha assistido a um Master Chef.

– Na cozinha do hotel, eu mantinha a ordem. Eu dizia: se for pra brigar, é lá na rua. Não me interesso pela vida de vocês fora daqui. Porque, a senhora sabe, tem muita lâmina correndo naquele lugar.

– Nossa, sim.

– Só uma vez. O cara descobriu que o outro pegou sua mulher.

– Os três trabalhavam lá?

– Os três na cozinha.

– Meu deus.

– Levantaram as facas. Ela gritando. Todos demitidos.

Anderson ganhava sete mil reais de salário e fazia um total de dez se houvesse eventos.

Depois de três anos de espera, há cinco meses, a adoção ligou dizendo que sua filhinha de um ano e um mês havia chegado. Foi uma alegria.

– Olha ela aqui.

Menina de pele negra no collant cor de rosa, mais beleza não se dá.

– E então me demitiram logo depois de eu ter usado os três dias de direito pra ficar com ela, assim que chegou pra nós.

– Não…

– A senhora sabe o que foi isso, né?

– Acho que sei.

– Um racismo difícil de provar.

(Na hora só penso que a ferida naqueles olhos vai doer a vida inteira.)

– Me deram a rescisão, guardei uma parte do dinheiro, a escolinha dela custa mil reais por mês. Um pouco menos do que me ofereceram de salário no Buffet Colonial: dois mil e quinhentos. Preferi o táxi, ganho o mesmo trabalhando só umas horas da tarde. Um dia ainda vou fazer o que sei num negócio meu.

Eu já de lágrimas quando o carro chegou.

– Está tudo bem – soube dizer. – Fique forte pra proteger sua menina quando ela crescer. Você sabe que ela vai precisar.

– Obrigada, senhora. Sei sim.

Nunca havia recomendado um motorista ao uber antes, além da marcação das estrelinhas.

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